Os dias transcorreram normalmente desde a descoberta, para lá de oportuna, feita pelo casal, o qual agora parecia ter erradicado todo e qualquer problema conjugal que pudesse importunar a harmonia daquele lar.

Com dois meses e meio de gravidez, Mu já notava que seu abdome, sempre tão reto e definido, começava a desenvolver uma sutil saliência, ainda que muito discreta. Também já não reclamava tanto do cheiro do marido, apesar de o odor do sândalo e dos sais naturais que Shaka usava no banho ainda lhe causarem náuseas, as quais não passavam despercebidas pelo virginiano.

Fora exatamente por isso, para evitar ver seu amado lemuriano franzindo o nariz toda vez que saía do banho, que Shaka decidiu jogar fora todos os produtos que usava e ir à feira de Rodório para comprar ervas com perfumes naturais e produtos de higiene sem odor.

Sendo assim, em uma manhã ensolarada, levantou-se apressado, deixou a mesa posta para o café, passou a mão em sua sacola de lona e acompanhado de seu fiel parceiro de feira, Kiki, seguiu a Rodório.

— Vamo compá coisa pô papai e pô nenê Bába? — o ruivinho questionava todo ansioso, enquanto caminhava de mãos dadas com o pai pelas ruas de paralelepípedos da pequenina vila grega.

— Vamos sim. E também para mim e para você. Vai me ajudar a escolher? — respondia entusiasmado.

— Ajudo! O Kiki sabe o que o papai gosta... Mas e o nenê? O Kiki não sabe do que o nenê gosta.

— Ah, mas o neném gosta de tudo aquilo que o seu pai gosta. Eles são um só por enquanto, e o que agradar o seu pai, também agradará o neném.

Kiki olhava para o pai loiro atento e admirado com o que ele dizia. Era incrível e mágico para sua percepção infantil saber da ligação forte que unia Mu ao bebezinho dentro dele. Deveria ser o mesmo amor que sentia emanar dos pais por si, e justamente por reconhecê-lo tão forte é que se punha seguro e feliz em saber que o irmãozinho era amado do mesmo jeito.

Enquanto conversavam chegaram à feira.

Como sempre faziam, iam de banca em banca escolhendo as melhores frutas, os melhores legumes e verduras, muitas ervas, temperos, também nozes, coco, castanhas e doces caseiros, que era basicamente o que Mu conseguia comer sem sentir-se enjoado.

Após fazerem a feira, seguiram até o mercado, onde Shaka comprou carne e as famigeradas bolachas recheadas de morango, mesmo que a contra gosto.

Como havia decidido, comprou diversos produtos de higiene que não continham perfume, para si e também para Mu, já que o viu jogar fora os próprios shampoos e sabonetes num acesso de raiva devido os enjoos que o odor deles lhe causavam.

Na livraria ao lado do mercado, Shaka adquiriu mais alguns exemplares de livros e revistas cientificas cujo tema era gestação e cuidados com as mudanças que ocorrem no corpo da mulher durante a gravidez. Sem contar com vários outros periódicos que adquirira sobre comportamento infantil e psicologia do bebê.

Munido de seu arsenal orgânico e inorgânico, Virgem deixou a livraria e pegou na mão de Kiki para voltarem ao Santuário, mas assim que percebeu que iriam voltar para casa sem terem completado todas as tarefas da manhã Kiki protestou.

— Bába! O pastel do Kiki! O Bába esqueceu! — falou fazendo um biquinho.

Shaka deu um tapa na própria testa.

— Por Buda! O sagrado pastel da feira! Como fui esquecer?

— Não tem pobema, o Kiki ti lemba, Bába.

— O que seria de mim sem meu filhote, não é mesmo? — sorriu, pegando na mão do menininho ruivo e voltando ao mercado — Vamos pegar seu pastel.

Pastel comido, criança feliz, pai satisfeito, agora seguiam pelas ruas de Rodório de volta ao Santuário, quando passaram em frente a uma loja de roupas infantis e, tal qual uma sanguessuga que gruda na pele e não quer mais saber de largar, Kiki aderiu ao vidro da vitrine enfeitada.

— Olha Bába! Olha! — o pequeno dizia eufórico, apontando para um pequeno macacãozinho em exposição — É de canelo! Vamo levá ele pô nenê? Vamo?

Shaka olhou para a peça e como um pai abobalhado de alegria já podia ver seu, ou sua, cria dentro daquele macacãozinho fofo, branco com estampas de ovelhinhas.

— Bom, Buda teve piedade de mim e não me colocou mais um ariano no meu caminho, mas eu acho que o seu pai vai adorar vestir o neném de carneirinho, assim como fazia com você quando era bebê.

— É. O papai vai gostá! — Kiki sorria festeiro.

— Claro que vai. Vem, vamos ver se tem algo para você também.

Entraram na loja e ficaram além do que imaginaram, pois Shaka não só comprou o macacão de estampa de carneiro como também vários outros que achou, de cores variadas, amarelo, rosa, verde, azul, branco, já que ainda não sabia o sexo do bebê, mesmo tendo uma leve intuição.

Como não podia deixar de ser, comprou também várias peças para Kiki e depois de quase uma hora, enfim deixaram a loja cheios de sacolas pesadas, a da feira inclusa.

Não só as compras pesavam para os braços do virginiano que as carregava escadaria acima, mas também sua consciência. Havia gastado muito para um monge, mesmo que a vida de pai e marido lhe distanciasse cada vez mais dessa realidade. Contudo, nada que uma boa sessão de meditação e auto perdão não resolveriam.

Chegaram em casa perto da hora do almoço, então Shaka foi rapidamente para a cozinha preparar algo que Mu conseguisse comer sem esforço. Fez uma marmita caprichada e entregou a Kiki para que levasse ao pai no escritório do décimo terceiro templo.

Após comer, Áries logo voltou ao trabalho.

Por conta dos enjoos constantes o lemuriano havia pedido dispensa dos trabalhos da forja alegando estarem em épocas de paz e que, portanto, alguns reparos poderiam esperar. Logicamente que, prevenido, ele usou as semanas posteriores à revelação da gravidez para consertar as peças de armaduras que estavam mais atrasadas, como as correntes de Cefeu, além de deixar prontas as peças usadas pelos aprendizes em treinamento.

Sabia que não poderia exercer o ofício de ferreiro em estágio avançado da gestação, por isso mesmo precaveu-se e agora dava sua pausa.

Assim, seus dias se resumiram exclusivamente a ficar entocado no escritório de Saga, no Templo do Grande Mestre, auxiliando Camus na organização da parte burocrática do Santuário.

Seguia uma rotina normal, porém tomando certos cuidados, como disfarçar os enjoos indo ao banheiro, já que não estava decidido a revelar sua condição aos colegas tão cedo.

Contudo já havia um colega bem intrigado consigo.

Camus de Aquário, desde a conversa absurda que tivera com o cavaleiro de Peixes, onde esse lhe revelou que Mu estaria grávido, passara a analisar o comportamento de Áries mais do que deveria, surpreendendo-se consigo mesmo, já que não acreditava naquela patifaria de gravidez masculina.

O problema é que notava que realmente o ariano andava estranho, bem diferente dos últimos meses. Sua mesa, antes tão organizada e asseada, agora vivia repleta de pacotes de bolachas, farelos e garrafinhas com chá de hortelã, ótimo para o estômago e enjoos.

Outro fato novo era a presença constante de Kiki, que agora vinha todos os dias a mando de Shaka, em pequenos intervalos, lhe trazer algo para comer. Isso quando não vinha o próprio cavaleiro de Virgem trazendo um chá de camomila, ou uma vasilha com castanhas. Em seguida, eles pediam licença e iam conversar em algum local privado do Templo.

Fora as visitas do filho e do marido, Camus notara que Mu também se ausentava muito para ir ao banheiro e, muitas das vezes em que saia, estava extremamente pálido e com o rosto contorcido.

Nessa horas, Aquário o acompanhava com os avelãs atentos e questionadores, e era nessa hora também que sua lógica, sempre muito racional e disciplinada, vacilava e ele pensava, mesmo que por um seguindo, que Afrodite poderia ter dito a verdade.

Porém, não. Nada nesse mundo justificava a loucura das palavras do pisciano. Mu deveria estar nervoso, ansioso, pois pelo que lhe foi dito, e seu raciocínio elaborara em sua mente, deveria estar em algum processo de adoção de uma criança. Mas não era ele quem ia importunar o casal e perguntar.

O fato é que realmente o comportamento de Áries estava estranho, contudo não se intrometeria na vida alheia.

No final daquele dia, quando desciam as escadas do Templo de Peixes para retornarem ás suas casas ao fim do expediente, outro fato intrigante atiçou a curiosidade de Camus.

Mu parecia cobrir nariz e boca com a mão, apressando o passo e se distanciando do aquariano. O francês parou em frente à entrada da casa de Afrodite e disse em voz alta:

— Mu, está tudo bem?

Áries virou-se para trás, retirando a mão que lhe encobria o rosto para não chamar ainda mais a atenção do amigo. Logo que executou o movimento, o perfume que Camus usava o golpeou sem piedade.

Já havia dias em que o odor da colônia de Camus, que sempre lhe fora agradável, lhe causava enjoos terríveis, mas ele se mantinha firme para não ter de dar explicações, porém naquele dia o perfume do aquariano o estava pondo louco.

Prendeu o ar e respondeu com urgência na voz.

— Sim, está tudo bem Camus. Por que a pergunta? — esboçou um sorriso, tentando não deixar sua face transparecer o estômago embrulhado.

— Ah bon!... É que parece apressado... Na verdade, ia convidá-lo para uma taça de vinho em minha casa. Venho notando que anda um pouco... aflito.

— Aflito? — fez uma pausa breve, em seguida sorrindo novamente um tanto quanto nervoso — Ah, não, não... É que o Shaka, sabe... Ele está me esperando... Jantar especial, romântico! Não quero me atrasar. Obrigado pelo convite, Camus. Marcamos um outro dia, tudo bem? — inventou uma desculpa qualquer para sair o quanto antes de cima dos olhos analíticos do ruivo.

— Bien sûr! — respondeu com um sorriso cordial — Sem problema. Bom jantar a vocês então. Até amanhã.

— Até amanhã.

Mu respondeu já dando as costas a Aquário e descendo as escadas. Além do perfume de Camus o cheiro das rosas que vinham da casa de Peixes também açoitava seu pobre estômago delicado, sem contar que teria que inventar uma boa desculpa para declinar dos convites que o francês lhe fazia para drinks após o expediente. Sabia que não podia ingerir álcool e se Shaka descobrisse que bebeu, nem que fosse um golinho apenas, derrubaria o teto de Virgem sobre sua cabeça.

Do alto da escadaria, Camus ficou a observar o lemuriano descer apressado. Então, ainda que desconfiado de que havia algo estranho acontecendo com Mu, resolveu deixar o tempo se encarregar dos fatos e entrou em Peixes, encontrando Afrodite na cozinha batendo no liquidificador uma mistureba de coloração verde escura, enquanto cantarolava uma canção em francês.

Como sempre fazia, Aquário enlaçou o marido pela cintura, o qual deu um pulinho ao sentir as mãos delicadas do ruivo deslizarem por seu corpo.

Afrodite tombou a cabeça para trás, a pousando sobre o ombro direito de Camus e o saudou com um beijo pleno de ternura.

— Bonne nuite, mon amour! — sorriu, em seguida desligou o eletrodoméstico barulhento para o alívio do francês, que respondeu em tom mediano.

— Bonne nuite, ma fleur! O que está fazendo ai de bom? — disse, olhando para o líquido verde escuro no copo do liquidificador.

— Ah! Isso aqui é uma receita especial que aprendi num site. — respondeu Afrodite apanhando um copo de cima da pia e despejando o conteúdo dentro — É raiz de maca preta, chá verde e extrato de raiz de ashwagandha.

— Pardon? — questionou o aquariano arregalando os olhos ao ver o marido virar o conteúdo do copo goela abaixo, sorvendo tudo quase que numa só golada — E por que você está tomando esse troço?

— Amor... — com uma careta feia, colocou o copo vazio dentro da pia e limpou os lábios com a barra de um guardanapo — São ervas que agem na nossa dosagem hormonal e aumentam significativamente a contagem de espermatozoides do líquido seminal.

— Sacre bleu, Afrodite! E para que isso? Non me diga que ainda está com aquela ideia absurda de... — deixou escapar um riso divertido — Non posso acreditar, ma rose, só você mesmo! — puxou o sueco para um beijo rápido, pois apesar de achar um absurdo o que ele fazia, amava tanto aquele maluco que se derretia todo a seu lado, mas assim que tocou os lábios do amado se afastou de imediato franzindo o nariz — Argh! Que cheiro de alho!

— É que vai alho na receita, amor. Alho aumenta a fertilidade.

— Non começa! Que você e o Mu estão com algum segredo, disso eu sei, porque eu o convidei para tomar uma taça de vinho como sempre faço depois do expediente, já que ele adora jogar conversa fora, e ele negou, depois de passar o dia estranho e afastado de mim. Ou você me conta o que está acontecendo ou vou perguntar para ele, Afrodite.

— Mas Camy! Mon amour! Eu já te contei o bafo! Mu está gravido! Por isso ele não aceitou seu convite e nem vai aceitar. Não sabe que gestantes não podem ingerir álcool? Não o convide mais. Ele não quer que saibam da condição dele ainda e você vai coloca-lo numa situação constrangedora.

— Mon Dieu... Eu deveria te...

— Amar? Mas você já me ama! — sorriu, puxando o ruivo pela mão e apanhando uma sacola com ingredientes que deixara em cima da mesa — Essas compras. Foi você quem deixou aqui, não foi?

— Foi. — respondeu meio mau humorado, apanhando o pacote das mãos do pisciano — Comprei porque hoje vou cozinhar para a gente em minha casa.

Diferente de Mu, que depois que se casar com Shaka passara a morar no Templo de Virgem, Camus e Afrodite continuaram morando em suas respectivas casas, mas revezavam, dormindo ora em Peixes, ora em Aquário.

— Hummm... Adoro quando você cozinha para a gente. — puxou o aquariano para perto de si, colando seu corpo ao dele ao mesmo tempo em que lhe atacava o pescoço com beijos afoitos e corria as mãos pelas costas e nádegas macias — Depois do jantar, podíamos tentar mais uma vez, não acha?... Uma, ou duas... Três... Quantas vezes você quiser!

— Hum... tentar? — respondeu Aquário com um gemido e um sussurro, rendendo-se às carícias deliciosas do outro cavaleiro.

— Sim... Nossos doze ruivinhos... Um de cada signo...

Camus segurou no belo rosto do sueco com ambas as mãos e lhe beijando os lábios com ternura sorriu uma vez mais.

— Já disse que non precisa usar essa desculpa esfarrapada quando quiser me comer, seu bobo... — dizia o francês em meio a beijos, gemidos e afagos, deixando-se levar pela fantasia do outro, que de olhos fechados sentia-se em êxtase com aqueles toques — Mas, se insiste com essa fantasia maluca... Hum... doze, ruivinhos e peixinhos? Isso significa que vamos ter que fazer muitas tentativas, non?

Aquário finalizou a frase lançando um olhar para lá de malicioso para o pisciano, que na mesma hora lhe deu um tapinha nas nádegas e pegou em sua mão, o conduzindo para fora do Templo de Peixes.

Juntos desceram à décima primeira casa, ansiosos pelas "tentativas" que fariam após o jantar.

Enquanto isso, no Templo de Virgem, Mu chegava exausto e cheio de saudades da família.

Após atravessar os longos corredores que davam acesso à moradia, sentiu o Cosmo de Shaka no jardim e caminhou até lá, o encontrando deitado sobre a rede que haviam instalado entre as Salas Gêmeas.

Faminto, já sentia o delicioso aroma de algo sendo assado no forno.

Ao lado da rede, sobre um colchonete alaranjado e rodeado por brinquedos e livros de colorir, Kiki dormia visivelmente esgotado. Deveria ter passado a tarde aprontando e enlouquecendo seu Bába, já que este parecia também adormecido.

Sem aviso prévio, Áries teleportou-se para a rede, encaixando-se ao corpo de Shaka, que num sobressalto abriu os olhos assustado, mas assim que percebeu Mu ali o envolvendo em seus braços sorriu satisfeito, enquanto era presenteado com vários beijinhos no rosto.

— Oi, amor. Chegou mais cedo. — disse alegre. Havia adorado a surpresa — Não quis ficar papeando com Camus hoje?

— Não... — respondeu Mu afundando o rosto nas mechas loiras dos cabelos de Shaka, aspirando seu perfume natural e já sentindo-se bem menos enjoado — Hum... Seu cheirinho está tão bom sem todo aquele perfume de sândalo! — agora esfregava o nariz na curva do pescoço do virginiano.

— É? Que bom!

— Já disse hoje que te amo, luz da minha vida?

— Hum... Não. Hoje ainda não. — sorriu ao fazer aquela graça.

— Eu te amo! E estava morto de saudade. — apertou o corpo do loiro contra o seu.

— Eu também te amo! — virou-se de frente e então beijou os lábios do marido com ternura, para em seguida olhar em seus olhos e acariciar seu rosto suavemente — Eu também estava com saudades de você, Mu. Me diga, como foi o seu dia? Sente-se bem? Como você está?

— Estou um pouco cansado. — reclamou, descansando a cabeça no peito do virginiano — Meus pés doem e estão começando a inchar ao final do dia. Fora isso, tudo está igual... Ah! O perfume enjoado do Camus está me matando! Hoje quase vomitei perto dele, mas felizmente consegui me teleportar ao banheiro a tempo... Tenho receio de que ele desconfie de algo.

— Puxa, Mu... Não seria melhor contar para ele e pedir-lhe para que não use o bendito perfume?

— Não! — desencostou a cabeça num sobressalto, arregalando os olhos e encarando Shaka — Ainda não! Não estou preparado... Eu aguento o cheiro enjoado dele mais um pouco. — reparou que ao lado de Shaka havia uma revista, provavelmente o marido estava lendo e adormecera — O que estava lendo?

— Ah... — Shaka alcançou a revista mostrando a capa para Mu, onde uma mulher gravida estava em posição de meditação —... Comprei mais alguns livros e revistas sobre gestação, cuidados com recém-nascidos e alimentação para gestantes. Nessa aqui tem um artigo interessante sobre retenção de líquido e combate aos inchaços nos pés por meio de alimentação e massagens. Grifei para você ler... Ah! Comprei outra coisa também.

Mu ficou apenas observando o marido se esticar todo na rede e tombar o corpo para fora para apanhar uma pequena sacola, a qual estava ao lado de Kiki, sobre o colchonete.

— Kiki invocou tanto com isso que não largou essa sacolinha desde que chegamos da rua. Veio para o jardim, trouxe os brinquedos e ela junto. — estendeu o pacote para Mu que o apanhou curioso.

— E o que é? — perguntou já desenrolando o laço laranja e enfiando a mão dentro da sacola, sentindo a textura macia do tecido.

Ao puxar a pequenina peça para fora do embrulho seu coração bateu acelerado.

— É a primeira roupinha do nosso filhotinho. — disse Virgem, feliz em notar a emoção do marido.

Mu erguia a minúscula peça diante de seus olhos, reparando em cada detalhe, desde o aplique fofinho de lã que imitava a própria lã do carneiro, até os desenhos de ovelhinhas estampados no peito.

Sensível como estava, não pode evitar o leve tremor nas mãos e nem as lágrimas que lhe brotavam nos olhos verdes encantados.

— Puxa, Sha... é... tão lindo! E pensar que isso vai vestir uma pessoinha que está dentro de mim!

Nessa hora ouviram um gemidinho e olharam para o colchonete ao lado da rede. Kiki despertava esfregando os olhinhos e tomando consciência do que acontecia à sua volta.

Ao ver Mu ali, com a roupinha que ele escolhera para o irmãozinho, logo deu um pulo do chão, agarrou as tiras da rede e com o auxílio de Shaka subiu para se juntar a eles, sentando-se sobre o abdome do virginiano, enquanto olhava eufórico para Mu.

— Papai, foi o Kiki que escolheu esse! Olha! Olha! É de canelinho, papai. O Kiki lembo do papai e do nenêzinho.

— Sim! Foi o Kiki que apontou a vitrine. — disse Shaka — Gostou, amor?

— Seus bobos. — disse Mu rindo de si mesmo, ao mesmo tempo em que enxugava um dos olhos com a barra do lenço vermelho que usava jogado sobre os ombros — Por que fazem isso comigo? Eu adorei! É lindo, é... Puxa vida, só de imaginar nosso filhotinho aqui dentro eu... Não quero ficar chorando, mas que droga... Parece que agora não controlo mais isso.

Ria, chorava, olhava para seus dois amores ali olhando para si.

Estava feliz como nunca.

— Num chola papai. Num é pá ficar tisti com o pesente! — Kiki tentava consolar o lemuriano mais velho.

— Não estou triste, meu amor. É choro de alegria! O papai gostou tanto do presente que dá vontade de chorar. E porque eu virei uma torneira. — agora enxugava todo o rosto com o lenço vermelho — Shaka, a propósito, tem isso nos livros que você compra? Que gravidas viram torneiras espanadas que não fecham mais?

Já mais recomposto, puxou o lemurianinho para seu colo e se encaixou sobre o abdome de Shaka.

— Tem sim. Há várias matérias que tratam da sensibilidade aflorada das gravidas. É todo um lance hormonal que deixa seu organismo mais sensível, amor. Porém, essa sensibilidade exagerada vai se amenizando depois dos quatro primeiros meses da gestação. Então... Teremos aí mais uns dois meses de chororô pela frente. — disse o virginiano fazendo um cafuné nas duas cabeças abaixo de seu peito.

— Puxa vida... Tomara que passe logo, ou vou desidratar.

Mu então estendeu o macacãozinho sobre a barriga fazendo uma caricia nela, quando deixou escapar um pensamento.

— O que será que é, Sha? Filhotinho ou filhotinha? Tem alguma intuição ou palpite?

— Não. O que vier me deixará feliz... O importante é que nascerá sob a proteção da constelação de Virgem.

— Ué, e como você sabe? Pelas minhas contas pode ser também leonino, ou leonina. E dai? — disse Áries, erguendo a cabeça e olhando para o loiro com um olhar repreendedor.

— Não repita isso nem brincando, Mu! Se Buda tiver tudo planejado, como sei que tem, será um virginiano, ou uma virginiana, poderosa, centrada, disciplinada... Nada de leoninos exibidos e barulhentos sob meu teto.

— Vai se minino igual o Kiki! — encerrou a discussão o ruivinho, que pouco se importava com a constelação sob a qual nasceria seu irmãozinho, contando que nascesse e fosse seu companheiro de brincadeiras para a vida toda — Bába, ele vai pode tê cabelo compido?

— Ah, se for igual o Kiki, jamais! Você botou fogo no seu cabelo um monte de vezes, e agora está com um buraco enorme ainda na cabeça por conta daquele pó amaldiçoado do seu padrinho maluco... E, se querem mesmo saber minha opinião, lamento muito, filho, mas minha intuição me diz que é uma menininha!

— Uma menina! — Mu disse arregalando os olhos. Sabia que Shaka era sensitivo e suas intuições nunca falhavam — Puxa! Uma menina... Criar uma menina em uma casa com três homens será bem desafiador!

— O Kiki quelia um minino igual ele, mas se fo minina o Kiki também gosta. Bába, e ela vai se lemuliana também igual o Kiki, ou vai se igual o Bába qui é gente nomal?

— Pronto. Me chamou de anormal. — Mu ria da visão do filho a cerca de sua raça.

— Eu acho que... bem... Acho que vai ser lemuriano sim. — respondeu Shaka, procurando os olhos de Mu, pois agora sentia-se meio confuso, uma vez que desconhecia haver registros de lemurianos mestiços na Terra — Mu, já existiram lemurianos que tiveram filhos com humanos comuns?

Mu, de forma carinhosa, pegou na mão do marido e também na do filho, as colocando unidas sobre sua barriga, fazendo uma ligação mental entre os três. Assim que o pulsar aconchegante do pequeno ser que habitava dentro de si foi sentido por todos, o ariano respondeu com voz suave.

— Os genes lemurianos são dominantes em sua maioria. Ele, ou ela, será lemuriano, mas também carregará o seu sangue e apresentará muitas características suas, amor. Será um mestiço, poderá possuir alguns de seus dons, além das pintinhas na testa e a falta de sobrancelha, características físicas mais aparentes que nós, descendentes do povo muviano, apresentamos. Os cabelos podem nascer de todas as cores, não seguindo um padrão humano. Por isso, pode ser roxo, rosa, azul, verde... Apenas sei que será uma mistura linda. — Mu sorriu, então ergueu os olhos e olhou para o rosto de Shaka —... Queria muito que tivesse os seus olhos, Shaka, pois são os olhos mais lindos que já vi em toda minha vida.

Áries acariciou a mão de Virgem que estava sob a sua, ganhando em troca um beijo carinhoso na testa.

Kiki por sua vez, estava distraído, tentando se comunicar com o irmãozinho através de seus poderes, enquanto mantinha a mão pequenina onde Mu a colocara, sobre sua barriga.

Apesar de todo seu esforço, o embrião, mesmo estando em um estágio já bem mais avançado, ainda era muito pequeno e o máximo que o ruivinho conseguia era a mesma sensação gostosa de aconchego, paz e amor que sentira quando Mu lhe revelara que estava gravido. Era tão confortante sentir a vida dentro do pai lemuriano que até toda sua agitação nata se apaziguava naquela hora.

Áries percebeu a quietude do menininho e logo chamou a atenção de Virgem.

— Amor, olha só!... Está hipnotizado! — riu divertido da constatação — Já sei como acalmá-lo daqui para frente!

Shaka também riu do momento, percebendo que a felicidade estava mesmo nas coisas mais simples, como sempre acreditou.

Não que gerar uma vida fosse algo simples. Olhando para Mu, admirava cada vez mais aquele milagre.

Um belo jardim, uma rede aconchegante, o filho adotivo que o fez conhecer um dos sentimentos mais plenos e humanos, seu marido e grande amor de sua vida, e agora um filho que iria chegar. Um filho seu! Sangue de seu sangue. Fosse menino ou menina, o que de fato importava era se tratar de uma vida fruto de seu amor por Mu de Áries.

Para um homem que ia abdicar de tudo na vida, agora ele tinha riquezas para toda a eternidade!

Ficaram os quatro ali, juntinhos na rede, conversando, acariciando a barriga do gravidinho e sentindo a vida dentro dela, até dar a hora da torta de legumes que Shaka havia colocado para assar no forno ficar pronta.

— Vem, Mu. Fiz a torta que você adora e ela já deve estar pronta. — disse, enquanto se levantava da rede e auxiliava o lemuriano, lhe estendendo a mão — E você vai comer nem que eu tenha que tapar o seu nariz. Não pode viver de bolacha e nozes... Caprichei, heim! Coloquei até frango!

— Ebaaaaaaaaaa... Kiki gosta de flango também, Bába!

— Eu sei! — respondeu, ajudando o ruivinho a descer da rede também — Por isso mesmo eu coloquei. Mas hoje, além de comer, você tem a missão de fazer o seu pai comer também, nem que seja um pedacinho só da torta.

— Tá bom, Bába!

Dito isso, Kiki pegou na mão de Mu e todo serelepe o puxou apressado para a cozinha. Shaka vinha logo atrás trazendo os brinquedos, colchonete e livros de pintar que recolhera, só ouvindo a conversa entre os dois e rindo.

— Eu vou comer. Não precisam tapar meu nariz não. Aliás, é disso que sinto mais falta desde que tudo isso começou... Comer! Muito! Ô saudade! — resmungava Mu sendo puxado pela mão.

— O Kiki vai dá comida po nenê que tá no vasinho dentlo da sua baliga, papai. Pa ele clescê e fica bem gande!

— Ah, tomara que ele cresça sim, mas que não fique tão grande! — disse Mu rindo, mas no fundo assustadíssimo.

Tinha muito medo de como se sentiria no estágio avançado da gravidez, quando sua barriga começasse de fato a crescer. Na verdade tinha pavor!

— E se ele num cabe mais no vasinho, papai? O Bába vai tlocar de vaso?

— Ah... Eu acho... — Mu estava todo atrapalhado. Olhava para trás vendo Shaka guardar os brinquedos do filho em um cesto e logo vindo para perto deles.

— O vaso cresce junto com o neném, filho... Deixa seu pai sentar à mesa. Vem me ajudar a pegar os pratos. — disse Virgem, pegando Kiki pela mão e dando uma piscadinha para o amado, já indo buscar a louça para por a mesa.

Salvo pelo gongo, Mu puxou uma cadeira e sentou-se, soltando um suspiro de alívio.

O jantar correu perfeito. Mu conseguiu, enfim, comer um bom pedaço de torta e beber alguns goles de suco de laranja, porém terminou por saciar a fome se empanturrando de castanhas e nozes, além de muita água de coco.

Após a refeição, como faziam todas as noites os três acomodaram-se no sofá da sala para assistir à novela que Shaka não abria mão de acompanhar. Enquanto Virgem tinha os olhos colados na tela da TV, Áries lia atentamente a matéria da revista que Shaka comprara e que falava dos inchaços nos pés. Atentava-se a detalhes que iria indagar ao médico na próxima consulta, já marcada.

Ao final do capítulo, Shaka desligou a televisão, enquanto Mu levava Kiki adormecido para o quarto.

Antes de dormirem, Virgem e Áries ainda leram mais alguns artigos dos livros e revistas que agora faziam parte de seu dia a dia, conversaram e, por fim, Mu ganhou uma deliciosa massagem nos pés e pernas para amenizar o inchaço.

Dormiram abraçadinhos, felizes e plenos, pois viviam uma experiência nova a cada dia, acompanhando aquela vida que crescia dentro do lemuriano, ansiosos pelo que o futuro guardava para eles.