Acertando

Os dias de trabalho com Belle foram passando, e embora conversássemos, ainda era um segredo para mim porque ela me dera aquele beijo, e porque insistira tanto se aquele era nosso primeiro beijo. E a maior pergunta de todas: por que ela agia como se nada tivesse acontecido? Eu estava ficando paranoica, era isso...estava decididamente afetada sentimentalmente, e não gostava nem um pouco do que isso significava. Enquanto sequei a louça atrás do balcão, fiquei observando-a como ela era com os clientes, simpática, prestativa e paciente, mesmo quando um ou outro insistia em perguntar se a memória dela não havia voltado.

Quando o movimento da lanchonete baixou, era o período intermediário entre o almoço e o lanche da tarde, vi Belle ir para os fundos da lanchonete, e fui atrás.

- Belle! – Exclamei, e ela parou no mesmo instante.

Virou para me encarar, naquele sorriso doce que tinha.

- Nós podemos conversar? – Voltei a falar, quando percebi que ela nada diria.

Belle fez que sim com a cabeça, ajeitando o avental que usava por cima do uniforme da lanchonete.

- Por ...que...você...- Arrisquei começar, mas ela sabia sobre o que eu falava. Nos entendíamos pelo olhar.

- Porque eu queria saber como era...porque eu tinha vontade...porque eu...

Ela não concluiu a frase, mas ficou me encarando como se tivesse concluído, ou como esperava que eu soubesse do que se tratava. E embora nos "entendêssemos pelo olhar", eu não fazia a mínima ideia do que ela ia dizer a seguir, por isso incentivei.

- Por que você...?

- Não importa. – Ela virou de costas, mostrando que ia seguir o caminho até o banheiro.

Segurei na mão dela, e embora tivesse visto-a hesitar, seu rosto se virou na minha direção e trocamos olhares. Belle pareceu pesar se devia ou não continuar, então pedi, olhando nos olhos dela.

- Por favor...

- Não importa. Você disse que não éramos nada.

Abri a boca, hesitante, porque não havia sido exatamente essas as palavras que eu usara.

- Belle, espera! – Continuei segurando a mão dela, porque sabia que do contrário, ela fugiria. Como continuávamos nos olhando, mas o silencio tinha voltado a reinar, eu resolvi falar. – Não é que não éramos nada...mas...antes de tudo, nós estávamos brigadas, exatamente porque eu não havia te contado que eu era...- Hesitei mais uma vez, pensando em qual dos rótulos talvez Belle fosse absorver melhor. Mordi meu lábio inferior, e achei que se eu jogasse de vez que era lésbica, pudesse fazer ela sair correndo, de novo, então tentei deixar a frase o mais leve que encontrei. -...que eu gosto de meninas. – Corrigi minha frase, e para minha surpresa, ela continuou ali. Foi um alivio, e ao mesmo tempo uma inquietação dentro de mim, porque ela nada disse, nada expressou. Desviei os olhos, meio insegura, e então senti os dedos dela escorregarem pelos meus na mão que eu segurava. Levantei os olhos, voltando a encará-la.

-...e você tinha esquecido também de me contar antes que você...gostava de mim? – Belle enfatizou o gostar, mas a forma com que ela foi direta, fez eu me questionar, e engolir em seco. Por que tinha que ser tudo assim na lata?

Acabei rindo, tentando descontrair a tensão.

- Eu te disse...

As orbes azuis cintilantes dela pareceram brilhar um pouquinho mais, e ela fez que sim com a cabeça.

- E eu também disse...- Belle jogou mais uma vez me deixando sem fala. Parece que ela havia tirado o dia para isso, me deixar sem saber o que dizer.

Abri a boca para perguntar, mas antes que eu pudesse formular a pergunta, Belle fez sinal de positivo com a cabeça, indicando que eu que não havia entendido o sentido de "gostar" da frase dela, e não o contrário.

A abracei, trazendo-a para meu corpo, Belle era um pouco mais baixa que eu e parecia se encaixar em meu abraço sem nenhuma dificuldade. Senti ela corresponder ao abraço, e antes que eu pudesse me dar conta, ela tinha me puxado na direção do banheiro.

- Se eu soubesse que lobas eram tão complicadas...- Belle fez uma careta, tirando sarro da minha cara, e puxou a gola da minha camisa branca do uniforme, me obrigando a entrar no reservado, e fechando a porta depois.

Acabei rindo, e voltei a abraçá-la lá dentro, naquele pequeno espaço do banheiro.

- Eu acho que perder a memória não te fez bem... – Sussurrei no ouvido de Belle, que deu uma risada, encolhendo o pescoço.

Com um passo para frente, juntando seu corpo ao meu, ela obrigou que eu encostasse minhas costas na parede do banheiro.

- Ou talvez tenha colocado tudo no lugar...- O sorriso de canto e o jeitinho espevitado, acabou me provocando. Afundei meu rosto da curva do pescoço dela, beijando-o, enquanto que entre o beijo, ia roçando a ponta de meu nariz pela pele macia e cheirando a rosas que ela tinha. Acariciei os braços de Belle, sentido-os completamente arrepiados, o que acabou tirando de mim um sorriso fácil. Levantei o rosto para voltar a encará-la, e sem me dar chance então, ela avançou em um beijo, pressionando o corpo contra o meu, enquanto eu incentivava todo aquele contado, trazendo-a mais para mim. Me arrepiei ainda mais, com as unhas descendo por meus ombros com uma leve fricção contra minha pele. Desci as mãos até a cintura de Belle, e a virei, meio atrapalhada no pouco espaço que tínhamos, o que nos fez rir. Desta vez eram as costas dela que estavam contra a parede, e desci as mãos pela cintura dela, apertando-a de leve.

Ao sentir a respiração de Belle mais ofegante, desci uma das mãos até a coxa dela, acariciando a lateral externa dela, e a escutei sussurrar, ao mesmo tempo que sentia as mãos dela irem percorrendo meu corpo.

- Eu já te disse que esse uniforme tem pano de menos? – O sussurro ofegante dela em meu ouvido, fez com que eu estremecesse, mas ao mesmo tempo risse, me lembrando de quando eu levara o sermão de Belle à respeito do meu uniforme, e me questionara se aquilo era ciúmes.

- Ah é? Eu sempre achei que você não gostasse do pouco pano...- Provoquei ela, enquanto puxava a perna dela até minha cintura, e voltava a beijá-la.

Mas acabei rindo novamente, porque percebi ela afastar a boca do beijo, para me responder.

- O pouco pano me provoca, é isso que me incômoda... – Belle confessou, e dessa vez busquei a boca dela cheia de vontade, enquanto minha outra mão subia por baixo da camisa branca comportada de Belle.

- Belle...Ruby...Belle? ...- A voz vinda de longe, fez com que eu parasse o beijo no mesmo instante. Tentei controlar minha respiração, mas o rosto desesperado de Belle só fez com que eu quisesse ter ainda mais vontade de sumir dali.

- E agora? – Belle sussurrou para mim, meio desesperada, tentando desamassar a camisa.

Fiz sinal para que ela ficasse quieta, na esperança de que vovó passasse reto para o banheiro, mas o toc-toc seguinte na porta acabou com as minhas esperanças.