Uma breve palavra de agradecimento a todos os que deixaram reviews mas não se logaram. Seu apoio tem sido muito importante. Espero que continuem acompanhando a história.
10.
Na Curva do Rio
A breve vida de Anni Bolger
Conforme o combinado, Anni e Bilbo voltaram ao trabalho de banho tomado. Ao ver os dois, Edna pôs as mão nas cadeiras e indagou:
— Menino, por que não trocou de roupa como eu pedi?
Bilbo apressou-se a explicar:
— Desculpe, madame, mas as roupas que Anni ia usar ainda não estão prontas. A costureira ficou de aprontar.
Dona Edna espantou-se:
— Então essa roupa que usam é a única que vocês têm?
— Sim, madame.
— Oh, bem. Posso ver que se banharam. Mas lavem as mãos de novo. Vamos terminar o jantar.
O trabalho os absorveu durante algumas horas, e eles terminavam os seus afazeres quando Bofur apareceu na cozinha.
— Ei, vocês! Se vocês quiserem um pouco de diversão antes de dormir, os rapazes vão se reunir para cantar ao lado do galpão mais tarde.
Como todo hobbit que se preze, canto e música animaram Bilbo.
— Que boa ideia! Avise que já vamos lá.
Anna estava curiosa e acompanhou Bilbo, intrigada. Eles andaram um pouco até chegarem ao lugar, guiados pela música. E, para espanto de Anna, lá estava o grupo, cada qual com seu instrumento.
— Ah, Bilbo! E Anni! Que bom que chegaram! — chamou Gandalf. — Venham, rapazes! Sentem-se aqui!
Havia um barril de cerveja caseira e uns canecos de madeira, e todos tocavam uma música animada, parecida com uma polca. Anna ficou espantada em ver que todos tinham seu instrumento e tocavam com animação. Ela se sentou ao lado de Gandalf.
— São um grupo alegre, não? — comentou o mago. — Venha, tome uma cerveja.
Anna provou a cerveja caseira tipo ale. Engasgou-se em seguida, tomando a decisão de jamais aceitar a bebida de novo.
— Parece que nosso pequeno hobbit não está acostumado a beber! — gritou Fíli. Os demais riram alto.
— Precisa aprender, rapaz! — incentivou Bofur, com seu violino.
Anna riu também, tentando dançar de maneira desengonçada (o que animou os anões a tocarem ainda mais). Depois ela decidiu se limitar a acompanhar o ritmo com os pés. No fim, aplaudiu quando a música acabou.
— Vocês são bons! — disse ela, entusiasmada. — Muito bons mesmo.
Os anões se atiraram na bebida, rindo. Balin se sentou perto dela e perguntou:
— Lá na sua terra tem música assim?
— Bom, tem música, mas é muito diferente — respondeu Anna. — Gosto mais da que vocês tocam.
Um som diferente, afastado do grupo, chamou a atenção dela, que ficou procurando a fonte do som. A melodia era harmoniosa, mesmo que melancólica.
— É Thorin — explicou Balin. — Ele toca harpa.
— Adoro harpas. O som é celestial. São tão raras na minha terra... Acho que vou até ele.
— Não recomendo, pequena — disse Balin, gentilmente. — Quando ele toca, pensa a respeito do que perdeu.
— Erebor... — disse Anna. Balin a olhou, desconfiado. Anna deu de ombros. — Ele me explicou sobre sua busca. Prometi ajudar, mas não sei como. Thorin deve pensar sobre sua terra.
— Sim. Thorin era muito novo quando o dragão atacou.
— Conte-me sobre Erebor. Você estava lá?
— Thorin me ajudou a escapar quando Smaug atacou. Ah, Erebor... Era uma cidade como jamais se vira.
— Mas fica mesmo dentro da montanha? — quis saber Anna. — E não fica muito escuro lá dentro?
O anão de barbas brancas sorriu de maneira nostálgica.
— Não é escuro. Há aberturas para passagem de luz e candelabros de cristal, bem como lâmpadas que seguram as velas. Os níveis são abertos para ar e luz circularem à vontade. Só os níveis mais profundos, onde ficam as minas, é que são muito escuros. Mas as velas nos capacetes ajudam a enxergar. Há veios de ouro, vastas riquezas, pedras preciosas.
— Parece imenso — comentou Anna. — Deve ser muito bonito. Espero poder conhecer.
— Terei prazer em lhe mostrar, pequena. — Balin sorriu. — Mal posso esperar para ver novamente o esplendor da montanha.
— Todos nós vamos fazer tudo para dar certo. De minha parte, espero poder fazer mais para ajudar vocês do que lavar pratos e cozinhar.
Balin tentou animá-la:
— Não se menospreze. Foi um ótimo jantar. Talvez não tenhamos chance de ter outro assim tão cedo.
Anna comentou:
— Soube que todos conseguiram trabalho. Talvez fiquemos aqui menos tempo do que o previsto. Será bom, porque sinto que essa parada é minha culpa. Vocês não teriam parado se não fosse por minha causa.
— Talvez. Mas logo iríamos precisar de provisões, e aí estaríamos encrencados. Tudo deu certo, no final.
— É o que eu sempre digo, Mestre Balin. Tudo acontece por uma razão.
O velho anão sorriu para Anna, e Bilbo guardou o cachimbo.
— Anni, é melhor voltarmos para a estalagem. O dia começa cedo para nós.
— Bilbo tem razão — concordou Anna. — Agradeço a boa música, gente. Foi divertido, mas vamos nos recolher.
Kíli protestou:
— Já vão? Pensamos que veríamos danças de Hobbiton.
Bilbo insistiu severamente:
— Bom, meu sobrinho é jovem demais para suas danças. E temos trabalho logo cedo.
— Não quisemos desrespeitar o menino, Mestre Baggins — garantiu Fíli, sério e um pouco decepcionado. — Thorin foi bem específico em respeitar Anni.
A voz grave do líder se fez ouvir, assustando Anna:
— Mestre Baggins tem razão. Alguns de nós se preocupam com suas responsabilidades. Faria bem a vocês dois lembrarem-se disso de vez em quando.
Conciliadora, Anna tentou aliviar a tensão:
— Tenho certeza que Kíli e Fíli não tiveram má intenção.
Thorin virou-se lentamente para Anna e encerrou o assunto dizendo, de maneira seca:
— Desejo uma boa noite, Anni Bolger. Para o senhor também, Mestre Baggins.
Anna sentiu uma raiva subir pelo pescoço e ia responder, mas Bilbo pegou sua mão, retirando-se rapidamente e dizendo:
— Boa noite a todos!
A contragosto, Anna se deixou levar, mas encarou Thorin de maneira azeda antes de sair. Só depois que entraram no cantinho da estalagem onde iriam dormir é que ela bufou:
— Esse Thorin Oakenshield!... Argh! Quem ele pensa que é?
Bilbo respondeu, gravemente:
— Você sabe quem ele é.
— Sim, eu sei — Anna admitiu. — Mas isso não dá a ele direito de falar assim com as pessoas! Viu como ele me tratou? E quanto a Kíli e Fíli?
— Eram parentes próximos, mais jovens, e ele quis corrigir a atitude deles. Além do mais, ele estava apenas protegendo você. É a coisa nobre a se fazer. Ele colocou você sob proteção pessoal dele. Não vejo motivo para tanta raiva.
Anna abriu a boca para argumentar que não precisava de proteção e que ela era capaz de se defender sozinha, mas percebeu que seria mentira. Ela era incapaz de se defender, portanto, precisava da proteção de Thorin. Sem ele e a companhia, ela não duraria cinco minutos na floresta.
Com um suspiro, ela caiu na cama.
— Você tem razão, tio Bilbo. É que eu me sinto como um fardo. Não sou mais criança, mas aqui estou mais indefesa do que uma.
Bilbo viu o quanto ela parecia desanimada e tentou animá-la.
— Pois eu acho que você mudou muito em dois dias. Quando eu conheci você, parecia um esquilo assustado. Sério, eu tinha a impressão que você ia desmaiar na hora por qualquer coisa, até se alguém falasse mais alto. Agora já está até querendo brigar com Thorin Oakenshield. É um grande progresso, não acha?
Ela deu de ombros.
— Não sei por que estou assim, tanta irritação. Deve ser o sono. Aliás, desculpe por acordá-lo na outra noite.
— Nem pense nisso. Boa noite, Anni Bolger.
— Boa noite, Bilbo Baggins.
Anna deitou no colchão de palha, dormindo em sono profundo, sem se lembrar de eventuais sonhos, pesadelos ou gritos, que Bilbo afastou abraçando-a gentilmente sem que ela sequer percebesse.
O0o o0o o0o
— Bom-dia, amigos! Vamos começar o dia? — A voz animada de Dona Edna despertou Anna e Bilbo. — Precisamos dos ovos do galinheiro o quanto antes.
Sonolenta, Anna ofereceu-se, espreguiçando-se:
— Eu faço isso...
Foi aí que o desastre aconteceu.
Ao se espreguiçar, Anna não percebeu que sua camisa se entreabrira, deixando à mostra parte de um seio. Dona Edna se espantou.
— Menino, hobbits têm peitos?
Num impulso, Anna se assustou e tentou fechar a roupa, escondendo-se. Dona Edna percebeu o susto dela e deduziu, admirada:
— Caramba, você não é um menino. É uma garota!...
Anna se desesperou e caiu de joelhos, as mãos postas, suplicando:
— Por favor, Dona Edna, por favor, não conte a ninguém! Por favor, ninguém pode saber! Por favor!
Ela encarou os dois. Bilbo estava pálido. A mulher fechou a cara:
— São ladrões? Estão fugindo de alguém?
Anna começou a inventar uma história rapidamente:
— Não somos ladrões, e só eu estou fugindo. Por favor, não conte nada! Eu imploro!
— De quem estão fugindo?
Anna inventou uma história na hora, parecendo apavorada (o que não era mentira):
— Eu estou fugindo de um homem muito mau. Meu pai foi obrigado a me dar a ele em casamento, mas ele é muito mau. Aí eu soube que tio Bilbo ia numa viagem com anões e aproveitei para fugir. Esse homem pode estar me procurando, e tio Bilbo vai se encrencar se ele desconfiar que me levou. Por favor, dona Edna, eu prefiro morrer a me casar com aquele bruto!
Anna começou a chorar, nervosa. Edna ficou penalizada.
— E vocês não são amantes?
— Não, não! — Bilbo se escandalizou. — Somos só parentes, mas distantes. Nada de amantes.
Anna choramingou, erguendo-se:
— Bilbo teve piedade de mim, mas os anões que o contrataram não sabem quem eu sou de verdade. Se souberem que sou uma mulher, podem não gostar. Bilbo pode se prejudicar se eles descobrirem. Por favor, dona Edna, tem que nos ajudar! Por favor, estou implorando. Não tenho mais ninguém que possa me ajudar.
Ela suspirou.
— Oh, criança... Não chore. — Edna a abraçou e viu o corpinho estremecer entre o seu. — Você está tremendo de medo! Por que seu pai a obrigou a casar com esse homem?
— Dívidas. Ele é um homem poderoso e mau. Pensei que tio Bilbo estivesse a salvo, porque ele é um parente distante e quase não nos vemos. E disfarçado de rapaz, esse homem não vai pensar em me procurar perto de anões mineradores. — Anna arriscou fingir um choro. — Saí sem minhas roupas e tive que cortar meu cabelo...!
Aí mesmo é que Edna parecia estar a ponto de chorar junto com Anna.
— Oh, que dó. Seu próprio cabelo? — Anna assentiu, ainda nos braços da mulher imensa. — Pobrezinha. Nenhuma mulher deveria ser obrigada a abrir mão de seus cabelos.
— Tenho tanto medo. — E nisso Anna não estava mentindo.
Edna disse:
— Eu vou ajudá-los. Mas vocês garantem mesmo que não são foras da lei, assassinos ou facínoras?
Anna lembrou:
— Dona Edna, como eu posso ser essas coisas? Eu nem consigo matar uma galinha...!
A mulher concordou:
— É verdade. Mas poderiam ter me dito. Agora voltem ao trabalho e vou tentar ajudá-los.
Anna abraçou:
— Muito obrigada, dona Edna. Jamais esquecerei.
— Está bem, está bem — disse a bondosa senhora, com um sorriso. — Agora vamos ao desjejum. Temos muito trabalho!
O incidente (que Bilbo deu um jeito de prontamente relatar a Gandalf) serviu para deixar todos em alerta e acelerar a partida da Curva do Rio. De fato, dois dias mais tarde, todos começaram a juntar os pôneis e a recolher o dinheiro de seu trabalho.
Quando os dois hobbits se despediram do casal de estalajadeiros, Bilbo comentou:
— Gostamos muito de trabalhar para vocês. Agradecemos por tudo.
O dono da estalagem disse:
— Foi bom tê-los aqui. Espero que minha mulher tenha aprendido algumas de suas deliciosas receitas.
Dona Edna passou uma trouxinha a Anna.
— Aqui estão uma coberta e uma trouxa de roupa. Você é muito magrinho, menino. Assim não vai passar frio.
Anna ficou emocionada.
— É muito gentil, Madame. Fico muito agradecido.
— Considero você como se fosse meu próprio filho.
Bilbo fez uma mesura:
— Ficaremos sempre a seu dispor.
— Boa viagem!
Depois dessas palavras gentis, a companhia voltou a encarar a estrada rumo às Montanhas Sombrias, primeiro objetivo no caminho para Erebor.
