Praguejou.

Desde que viu aquela garota na sorveteria teve a leve impressão de tê-la visto em outro lugar, mas como apenas olhou de relance não se preocupou muito.

Até, é claro, reencontrá-la no funeral e sua intuição insistir em dizer que deveria checar.

Olhou para as várias fotos que guardava a sete chaves no seu baú, em uma delas, a garota aparecia, em uma feira agronômica de alguma cidade do interior.

-...Maldição, ela é uma sobrevivente de um dos acidentes... –Xingou novamente. –Ugh... Depois da "minha carta" ela com certeza têm uma péssima impressão sobre mim.

Ter a antipatia da garota seria um problema, seu plano estava seguindo bem demais para que fosse tudo na lama agora, o rapaz respirou fundo, dizendo a si mesmo que já lidou com coisas piores.

-...Nada pode dar errado.Não agora. –Retrucou ele devagar, enquanto olhava para uma lista de nomes riscados, sendo que apenas 9 estavam intactos. –Faltam somente 9 pessoas...

-00-

Milenka estava na clareira, treinando o seu violoncelo.

Completamente só.

Ela não sabia o que aconteceu, de uns tempos para cá Sorento não pode ficar para lanchar com ela, alegando que tinha que estudar.

Mas ela percebeu que tinha alguma coisa errada, ela sabia como o rapaz era um gênio na composição, então o problema não deveria ser esse, reparou também o quanto ele parecia desconfortável, apesar de fazer o possível para ocultar.

-...Será que foi algo que eu fiz? –Perguntou Milenka a si mesma enquanto fechava os olhos tentando recordar de alguma coisa, quando errou uma nota.

Parou, suspirando devagar, colocando o violoncelo delicadamente na grama enquanto pegava delicadamente as folhas com as notas.

Encarou por um tempo, era uma música que compôs após ler outro poema do rapaz de cabelos lilases, ruborizou-se lentamente ao se lembrar de como pedira para olhar os poemas várias vezes e até com certo entusiasmo, sentindo-se inspirada a compor.

...Também se lembrou de como o rapaz lhe dava um sorriso hesitante, assim como sua mão, enquanto lhe passava os poemas.

Balançou a cabeça, ficar pensando demais não adiantaria nada e talvez fosse melhor focar em como melhorar a música em suas mãos.

Começou a tocar lentamente, deslizando suavemente o arco no instrumento, retirando uma melodia que delatava um estranho sentimento de agradecimento.

Sentiu olhares sobre si.

Abriu os olhos, encarando de forma um tanto nervosa um rapaz de cabelos negros e olhos azuis acinzentados, eu também parecia um tanto acuado.

-Hum... –Começou ela.

-Peço desculpas se a incomodei, eu estava explorando essa parte da universidade e notei o quanto era tranquilo. –Disse o rapaz se atrapalhando. -...Eu ouvi a música e fiquei curioso para ver quem estava tocando.

Milenka apenas meneou a cabeça de forma hesitante, sabia mais ou menos quem era o rapaz, que geralmente tinha uma expressão séria demais e uma aura estranha ao redor, capaz de afastar a maioria.

-... É muito difícil o senhor Foh falar bem de algum aluno, mas de fato a senhorita tem um excelente talento. –Continuou ele ficando cada vez mais constrangido. – Essa música que estava tocando agora... Talvez a senhorita precise tocar um tom mais baixo em algumas partes e no final prolongar um pouco mais...

-...

-...Peço perdão se soei rude, mas eu não sei ser gentil.

Hector se sentia um completo idiota, ele nunca fora bom em lidar com as pessoas socialmente já que tinha um temperamento curto e não era do tipo que deixava que pisassem em cima dele sem falar nada.

...E era por isso que tinha ainda mais receio de falar com pessoas gentis, poderia parecer estúpido, mas ele tinha medo delas, ele sabia como só era capaz de dizer coisas ferinas, e por isso mesmo tinha receio de fazer mal a pessoas que não merecem.

-... Você não foi rude, eu apenas me surpreendi. –Respondeu Milenka após um longo tempo. -...Você é o Hector não é?

-... Sim. –Confirmou.

-Nós temos algumas aulas em comum.

-É.

-...

-...

Ok, um dos dois precisava falar alguma coisa antes que o silêncio incômodo começasse de novo.

-... Essa música, de quem ela é?

-...Ah...Eu compus ela a partir do poema de um amigo.

O rapaz arregalou os olhos surpreso, isso não era algo que uma pessoa normal pudesse fazer, e quando ouviu a música... Ele tinha certeza que aquela era a "expressão do coração".

"Há mais pessoas com dons estranhos no mundo".

-É um dom em tanto, sem dúvida. –Disse ele dando uma risada ao se lembrar de certas pessoas com talentos incomuns.

-...Você também, eu acho que talvez você esteja certo quanto as notas.

-É uma habilidade que eu herdei do meu pai.

-00-

Evangeline estava se espremendo contra a parede, olhando desconfiada e até com um pouco de medo para o rapaz que bloqueava a única saída para a sala de aula.

Fora muito rápido, assim que ela tinha saído para o intervalo se deparou com o rapaz de cabelos negros e dentes estranhamente afiados, que parecia olhá-la com o cenho franzido.

...E no instante seguinte tinha sido puxada pelo braço e tinha sido levada até a sala vazia, enquanto que o estranho a encarava furiosamente, mas não abrindo a boca para falar o por quê.

Evangeline olhou para fora, pensando se iria se machucar muito se tentasse pular da janela.

-Nem pense nisso. –Disse ele finalmente se pronunciando. –Espere mais um pouco.

-Esperar o que? –Arriscou-se a perguntar.

Recebeu um grunhido em resposta, enquanto observava o rapaz tirar pela milésima vez uma carta amarrotada do bolso, lendo de forma incrédula e frustrada, enquanto metia ela de volta no lugar.

Mais silêncio.

-Peça desculpas. –Disse o rapaz de repente.

-Heim?

-PEÇA DESCULPAS AGORA! –Disse ele rugindo.

-DESCULPA! –Replicou ela sem entender nada, mas decidiu não contrariar já que ele parecia muito perigoso.

-Muito bem. –Resmungou ele mais um pouco. -... Desculpa.

-Heim?

-ESTOU PEDINDO DESCULPAS CACETE!

-Heim?

-POR TER DELETADO A SUA VIDA VIRTUAL SUA ANTA!

-Ah... Espere um momento. –Disse Evangeline enquanto sua mente tentava processar. –Você... Deletou meu facebook, tumblr, e-mail, conta de skype e... todas as minhas senhas de fórum?

-Sim. –Confirmou.

-MAS POR QUÊ?!

-Porque você está enfiando o nariz onde não é chamada. –Rosnou ele. –Não queremos mexeriqueiros bisbilhotando na nossa vida.

-Sua vida?Mas do que você está faland... Espera, você é um dos moradores da casa? –Perguntou Evangeline enquanto caia a ficha.

-Sou.

-...Você parece até... Normal. –Disse ela esquecendo que deveria estar com medo, começando a se sentir intrigada. - ...Tirando os caninos é claro.

Fiodor arqueou a sobrancelha diante da reação.

-...O que você precisa para os seus cacarecos da vida?

-Hum?

-Eu... Argh... Vou te ajudar a fazer a merda das suas contas novamente. –Respondeu ele a muito custo. –Faço ciência da computação e já desenvolvi vários programas.

-Eh, por que você quer me ajudar se foi você deletou tudo?

-Eu não quero te ajudar, mas o dono da casa me mandou fazer. –Respondeu Fiodor a contragosto.

-...E por que você obedece?

-Por que... Argh, eu não disse que iria responder as suas perguntas! –Disse ele ficando irritado. –Agora diga logo o que eu preciso fazer para acabar logo com isso.

-Ah... Eu preciso fazer uma lista. –Replicou Evangeline com um sorriso um pouco... Maldoso.

Era como ela sempre dizia, favor é de brinde e obrigado é pra abusar.

-00-

-Ei Helena! –Chamou Sui coçando os olhos.

-Er... Oi. –Cumprimentou a princesa, reparando as leves olheiras do rapaz. -...O que aconteceu?

-Passei a noite em claro. –Respondeu ele com um sorriso.

-...Hum... Você não ficou esperando que eu aparecesse de novo não é? –Perguntou ela se sentindo um pouco culpada.

Não... Um pouco não era exatamente a palavra, na verdade deveria dizer que se sentia muito culpada.

Fazia um bom tempo desde o momento em que o gentil rapaz a convidara para visitar o lugar onde ele morava, e, no entanto, ela ainda não fora, o fato de o rapaz ainda continuar a tratá-la normalmente, sem mágoas e até disposto a esperá-la lá fazia com que se sentisse uma pessoa horrível.

-...Ei, se o fato de eu te esperar de noite faz com que você sinta tão mal eu posso parar de fazê-lo. –Respondeu Sui ao notar a expressão da garota.

-Ah... Eu que deveria pedir desculpas, você foi gentil comigo o tempo inteiro e, no entanto... Eu não retribui essa gentileza.

-Não precisa se preocupar, é da minha natureza. –Disse Sui dando uma risada. –Os meus amigos dizem que eu gentil até demais.

-Ah...

Era outra coisa que a fazia se sentir culpada, talvez ele quisesse ficar com seus amigos na hora do intervalo, no entanto ele sempre se sentava com ela.

...Isso a fazia um pouco feliz, já que as pessoas ainda estavam intimidadas com o seu "título", mas monopolizar o tempo dele só para ela...

-Hum... Você não gostaria de estar com os seus amigos?

-Hum? –Murmurou Sui. –Oh não, é como eu disse antes, nós temos cursos e horários diferentes.

-Mas... Você não tem outros amigos da sua classe?

-Não.

-Mas como?Você é tão gentil...

-Porque eu moro na mansão da floresta. –Respondeu Sui. –As pessoas tem medo de mim.

Helena ficou pensativa, ela tinha que admitir que no começo ficara um pouco apreensiva quando ouviu sobre os rumores sobre os moradores da casa, mas agora que era amiga de um deles... Começou a se questionar de onde tinha tirado essa conclusão absurda.

-...Obrigado.

-?

-É por isso que eu tenho você em alta estima. –Clarificou o rapaz. –Estou agradecido por você querer ser minha amiga.

A princesa encarou o seu amigo por alguns segundos antes de virar o rosto, rubro de vergonha, decidindo que deveria tomar vergonha na cara e visitar a tal casa.

-00-

...E no final, ela acabou tendo que pagar o lanche para aquele cretino do Bian, estava muito irritada e embaraçada, já que choveu no dia em que ia ao cabeleleiro e acabou sendo salva pelo rapaz de cabelo rosa cobre, com um sorriso convencido no rosto e um guarda chuva em mãos.

-Hum... Isso tá muito bom~ Disse ele enquanto acabava de comer.

-Já acabou? –Respondeu ela de forma impaciente. –Fique sabendo que só fiz isso porque você me ajudou naquele dia em que eu precisava ir ao cabeleleiro.

-Já. –Respondeu enquanto limpava a boca com um guardanapo, coisa que surpreendeu Margot, já que ela achava que aquele troglodita não deveria entender nada de etiqueta. –Toma.

-Hum? –Murmurou ela confusa enquanto o rapaz colocava uma pasta em suas mãos. –O que é isso?

-É a previsão do tempo. –Respondeu Bian, dando uma gargalhada ao ver a expressão surpresa da garota.

-Heim?Mas por que você me deu isso?

-Porque você cumpriu a sua parte do trato Dã~ Respondeu ele rolando os olhos como se fosse à coisa mais óbvia do mundo.

-EU NÃO FIZ DE PROPÓSITO!

-Olha, não importa os motivos, a questão é que você cumpriu os requerimentos, então estou cumprindo a minha parte. –Disse Bian dando de ombros.

"Hum... Pelo visto o troglodita tinha algum senso de honra" –Pensou Margot, cogitando se deveria pensar que o rapaz não era tão mal quanto parece.

-PFFF...HAAHHAH

-O que há de tão engraçado?

-Eu fiz com que você cumprisse o que eu pedi direitinho... –Disse ele entre risadas. –Hum... O que será eu posso pedir para você fazer agora?

-ARGH!Você é mesmo um troglodita! –Falou a dama enquanto se imaginava estrangulando o infeliz. –E pensar que eu cogitei em pensar que você poderia ser uma pessoa decente!

-Nah, eu não quero que você pense assim de mim. –Replicou Bian. –Do contrário seria chato.

-... Você está me irritando de propósito?

-Estou.

-...

-Ei, onde você vai? –Perguntou Bian ao ver que a garota se levantou e começou a distanciar com a postura ereta e erguida.

-Meu caro, se você quer uma guerra de força de vontade, saiba que você vai perder. –Respondeu Margot estreitando os olhos perigosamente. –Eu não vou cair mais em seus truques.

...Agora era o seu turno, era a sua vez de fazer o outro comer em sua mão.

-000-

ACK!FINALMENTE ATUALIZEI ESTE TAMBÉM!

E não gente, eu não estou fazendo Hector x Milenka não se preocupem, os pares continuam os mesmos, mas o infeliz precisava de alguma forma de se desenvolver e parar de ser tão troglodita né?

Ahem, vamos ao review:

Jules Heartilly: Dê um desconto ao Hector XD, o cara não sabe se socializar, além do mais, o que o deixou muito irritado é o fato da Evangeline falar que não se lembrava de quem era os seus contatos no face para depois pedir o contato do Hector no instante seguinte, ele achou que ela só o estava tratando como "ocupação de espaço".

Ah não, ainda temos o problema do Sorento e sobre o Sui, sem falar no maior mistério de todos que é a situação do dono da casa.

...E lembre-se que eu sou troll e algumas coisas não são exatamente o que vocês pensam HAHAHHA XD

SEE YA!