Acho que não vou agüentar isso...
Ele se levantou com alguma dificuldade do chão e passou os olhos à sua volta. Não se lembrava de muita coisa, apenas que havia caído ali e jazido por alguns minutos, talvez horas, talvez dias. E talvez não muito tempo. O seu redor continuava sujo e encardido, como antes. Várias pessoas estavam atiradas no chão. Principalmente homens. Erick era o único homem sobrevivente dentro daquela sala. Mas ele não lutou sozinho, Erica também estava lá. Agora não está mais.
Erick tentou se mover enfraquecido pela sala. Seu rosto estava sujo da sujeira do chão e escorria sangue; não o seu sangue. Suas roupas, idem. O chão de azulejos brancos estava manchado com sangue de todos os homens que ali morreram. A parede escorria também, de todos os lados, aquelas machas enormes de sangue denso, coagulando. Alguns homens, que Erick percebeu serem policiais, estavam com a cabeça estourada por virtude de tiros causados por armas de fogo. Eram aproximadamente seis policiais. Todos mortos. Erick ainda não se lembrava de muita coisa. Não fazia idéia da onde estava. A sala não era muito grande e não tinha nada nela, além dos cadáveres. Era uma cela que teve suas grades estouradas.
Erick pegou uma arma que estava atirada no chão, checou se ainda havia munição e saiu silenciosamente, ainda meio tonto. Seus óculos haviam se rachado na lente esquerda.
Ele saiu da cela segurando o revólver com as duas mãos, olhando delicadamente para os lados. Havia dois corredores adjacentes à cela, que ele não sabia qual seguir. Escolheu ir reto, mesmo. Estava tudo desértico, parecia um hospital abandonado. Ao redor não havia nada além das paredes do corredor e portas com escritórios bagunçados com papéis; estavam vazios. Finalmente Erick achou outra saída, que era a saída da delegacia. Estava com medo de ser surpreendido pela polícia o esperando no lado de fora. Ele achou estranho ninguém ter aparecido depois da carnificina causada lá atrás.
Ele parou encostado ao lado das portas automáticas de vidro e esperou. Olhou discretamente para o lado de fora. Não havia ninguém lá. Reparou que a porta que era para ser automática não se abriu e estranhou. Olhou para os sensores: haviam sido arrancados.
Erick deu meia volta e resolveu achar que era melhor ir pelo outro caminho. Voltou, passou em frente à cela que continuava com aquele cheiro fétido de sangue.
Sangue sempre teve cheiro de ferrugem...
Ele entrou no outro corredor, que estava apagado. Então achou melhor se encolher na parede e continuar andando mais devagar e delicadamente, tomando cuidado para não tropeçar em nada. A sua diante, depois de uma curva, viu uma pequena janela que o ajudou a enxergar melhor. A única coisa que havia por ali, além da janela, era a sala de interrogatórios. Ele se aproximou da sala e olhou dentro através dos vidros. Law estava caído, não morto, mas nocauteado. Havia uma mancha de sangue na parede atrás dele, como se alguém com pescoço sangrando tivesse sido atirado ali. Law começou a se mexer. Erick resolveu sair dali o mais rápido que pôde. Ele não quis matar o policial, pois não estava seguro de que ninguém poderia ouvir.
Erick correu com alguma dificuldade e percebeu que o único meio de sair daquele lugar era pela porta da frente mesmo. Ia por lá, independente de a polícia estar esperando do lado de fora ou não. Sua força estava escassa, ele não conseguiu abrir a porta. Talvez estivesse trancada ou... Tanto faz. Erick mirou nos pinos e os acertou, fazendo as portas caírem. Ele foi para fora, sentindo o vento em seu rosto transpirante, manchado pelo sangue e tenso. Isso o aliviou um pouco.
Quando finalmente parou para reparar o seu redor, deu de cara com um cemitério. Ele estava com neblinas e quase não dava para ver o céu também por causa dos pequenos morros que cercavam o local. Era todo arborizado e o chão era grama para todos os lados. Erick começou a passar os olhos sobre as lápides sombrias e sem graça, se dando conta que nunca esteve ali antes. Como diabos eu vim parar aqui?
Ele começou a andar meio perdidamente para frente e quando avistou um corpo um pouco mais adiante; pegou a arma e foi ver quem era. Chegando mais perto, percebeu que era Erica que estava caída ali, com sangue já seco na própria boca e com a nuca ralada, cicatrizando. Seus braços estavam marcados com apertões e suas pernas, dobradas. Ela caiu enquanto andava. O estado de suas roupas era o mesmo que as dele. Erick se ajoelhou ao lado de Erica e apertou seu pulso, medindo a pressão. Estava um pouco baixa, mas ela ainda estava viva. Ele começou a sacudi-la de leve.
– Erica?
Nada. Ela aparentava estar muito fraca.
Ele colocou a arma no chão ao seu lado e segurou a menina, fazendo-a ficar sentada, apoiada pelo braço dele.
A respiração de Erick estava ficando alterada.
Por mais que tentasse, ela não atendia seus chamados, apenas continuava a respirar levemente. Sua sorte era que ela não estava com hemorragia. Entre as tentativas inúteis de tentar trazer Erica de volta, Law saiu da delegacia sorrateiramente, em direção aos outros dois, lentamente, mancando. Parecia um zumbi. Chegando mais perto, ele resolveu provocar Erick, mesmo estando tão fraco quanto o próprio.
– Essa sua namorada tem muita força, sabia?
Erick olhou para cima desejando que Law morresse enforcado com o próprio intestino.
– Eu não namoro ela.
– Ah, não, claro que não... – ironizou Law – Você por acaso não se lembra de nada, do que aconteceu, não é?
Erick não respondeu, apenas o ficou olhando.
– Não, não lembra. – comentou o outro – Até achei que você tivesse morrido, quando dei aquela pancada na sua cabeça. Mas você é forte, tenho que admitir.
– O que você fez com ela? – perguntou Erick colocando-a delicadamente no chão e se levantando para encarar Law.
– Tomei a liberdade de pegá-la emprestado para algumas perguntas. Cansei de interrogar você, é como falar com uma porta. Achei que ela seria menos inflexível. Você realmente não se lembra de nada?
Erick balançou a cabeça.
– É uma história muito longa e chata. Tudo se resume a que o piloto do helicóptero era um espião nosso, da própria polícia do Japão. Mandei-o vir para Hoenn com o helicóptero da Equipe Rocket, independente do trajeto que Giovanni escolhesse. Eu estaria esperando vocês aqui. Quando descobriram que haviam pousado em Hoenn, já era tarde, eu já tinha saído de Johto e vindo para cá com algumas tropas. Trouxemos todos aqui para a delegacia do Monte Pyre, que por sua vez é um cemitério. Um lugar isolado, não ia ser tão fácil para vocês fugirem. Todavia, aquela baixinha loirinha de cabelo curto começou a se chacoalhar nas grades e fomos fazê-la parar. Todos os sete oficiais, incluindo eu, que estavam na delegacia entraram na cela, pois havia quatro dos criminosos mais procurados do Japão ali dentro. Aquela menina irritante conseguiu derrubar a cela e essa outra menina irritante – disse fazendo menção a Erica – matou um policial, batendo a cabeça dele contra a parede. Foi assim que começou a confusão, todos vocês mataram os policiais, menos a mim. A menina e o Giovanni saíram correndo para fora e quando você e a loira foram sair, dei uma pancada na sua nuca com um pedaço da grade que se rompeu no momento da queda e você acabou caindo desfalecido no chão. Sua amiga voltou para te ajudar, então resolvi tirar algumas coisas dela. – Erick ouvia a história inteira com as sobrancelhas contraídas – Essa menina...
– O nome dela é Erica. – interrompeu.
– Ah, desculpa, então! – disse Law sarcasticamente – Enfim, ela até me respondeu algumas coisas, mas depois tentou lutar comigo. Sou muito mais forte do que ela e a fiz bater a cabeça na parede, sem querer, mesmo. Pelo menos ela acalmou um pouco. Depois a segurei pela gola e ela ficou com os pés balançando no ar. O que foi péssimo, pois me deu um chute doído e aproveitou minha queda para me dar pancadas. Depois disso não sei de mais nada. Pelo jeito saiu correndo, mas suas energias acabaram ao que deu para perceber.
Erick começou a passar sua mão no rosto, depois entre os cabelos sujos e bagunçados, como se estivesse tentando se controlar. Depois na narração de Law, ele começou a ter umas lembranças vagas dos acontecimentos. Começou a transpirar e a falar num tom manso e impaciente:
– Aquela pancada na cabeça dela poderia ter sido fatal...
– Ah, não se incomode com isso, mesmo se ela morresse você ia conseguir outra pessoa para fazer de sua diversão sexual.
Seu sangue começou a subir e Erick ficou com uma súbita raiva, recebendo uma descarga de adrenalina. Ele pulou em cima de Law como uma onça que pula em um cervo, e apertou sua garganta, fazendo-o cair no chão e desmaiar. Depois começou a apalpar seu calcanhar a procura de sua faca que costumava ficar ali, em baixo da calça. E ela estava lá.
Segurou-a fazendo força e cortou a garganta de Law, ocasionando espirros de sangue. Erick ficou olhando até parar de jorrar. Depois, com toda sua força, levou o braço e enfiou a faca no estômago do policial, rasgando o abdômen até o cinto da calça. Depois tirou a blusa rasgada do homem e jogou-a para o lado.
Erica acordou, se sentiu meio tonta, sua visão estava embaçada. Ela esfregou seus olhos com as mãos fechadas, balançou a cabeça e colocou-se sentada, apoiada por um braço. Quando olhou para o lado, sentiu como se uma lança atravessasse seu peito, de um susto que a fez levar a mão na boca para não dar um grito estridente. Erick estava com as mãos completamente sujas de sangue, assim como o rosto. Suas roupas estavam sujas tanto de sangue velho quanto o sangue novo. Ele estava de pé em frente à vítima, apenas segurando a faca relaxadamente e fitava Erica com um olhar assustador.
Law estava com o rosto totalmente desfigurado, e sem um olho. Sua barriga estava aberta, com o intestino enrolado em volta de seu pescoço. O corte do abdômen era irregular e seu braço esquerdo estava esticado para o lado, escrito com cortes: "para o inferno". Toda a grama em volta estava vermelha.
Erick continuava encarando Erica com um olhar psicopata. Ela deu um impulso para trás, se afastando tanto do cadáver quanto de Erick. Ele sorriu para ela. Depois olhou para o cadáver e começou a dar risada. Soltou a faca e colocou a mão esquerda no rosto, dando gargalhadas. Só então Erica percebeu que na outra mão, ele segurava um coração.
Ela tentou se levantar, fazendo esforço para não cair. Apesar de estar assustada, não estava com medo. Ele havia largado a faca, de qualquer maneira. Depois parou de rir, mas ainda sorrindo mesmo sem perceber.
– O que você vai fazer com o coração...? – perguntou Erica com uma voz fraca e delicada.
– Mandar de presente para o Departamento da Polícia Federal de Johto. Eles podem querer saber o que aconteceu com o tenente deles...
Ela se apoiou em uma árvore, com os olhos secos e assustados, um pouco enjoada com a presença do cadáver.
– Erick, acho que não vou agüentar isso... – disse Erica se encostando mais na árvore, tentando desviar o olhar daquela cena grotesca.
Acho que não vou agüentar isso... Essas palavras vieram na cabeça dele como um dejavu.
Erick não fez nada, apenas contemplava o coração. Mesmo depois de algum tempo sentindo náuseas, Erica não tinha muita força pra se mover. Ela apenas tentou se desviar e olhar em volta, tentando imaginar um meio de sair dali, pois nunca esteve naquele lugar.
– Vamos logo, anda. – insistiu, com a voz rouca.
Ele não disse nada, apenas saiu andando em sua direção, para ajudar a encontrar o caminho. No fim, ele acabou jogando o coração no chão, mesmo. Os dois andavam se esbarrando e quase caindo um em cima do outro. A floresta de túmulos misturado com árvores, grama e mais grama numa neblina indesejável não ajudavam em nada. Quando chegaram à orla da floresta, seguindo um raio de sol, acreditando que iriam sair, foram impressionados por praticamente um abismo. Eles voltaram para trás em um impulso. Deram-se conta de que estavam em uma montanha.
Por que resolveram abrir uma delegacia no topo de uma montanha, bem no meio de um cemitério? Era uma pergunta que ridicularizante. Mas na verdade abriram a delegacia ali, pois algumas pessoas estavam sendo assaltadas e tendo os túmulos violados por pessoas vestidas de azul, blusa listrada e bandanas azuis com uma caveira abstrata branca no centro. Diziam que pareciam piratas, talvez marinheiros. As mulheres que roubavam também seguiam o mesmo estilo de roupa. Era um crime que até então não existia na região de Hoenn. Pelo fato do cemitério estar no topo de uma montanha, um lugar isolado, entre árvores que tornavam o dia escuro, um casal de velhinhos foi assaltado, tendo perdido algo de muito precioso, que não era dinheiro; era chamado de Blue Orb. Ninguém sabia ao certo por que os assaltantes levaram tal peça, muito menos para o que ela servia. O casal resolveu não se manifestar, além de que era algo de muito valor e importância. Ninguém nunca mais viu os criminosos perto do cemitério.
Depois de alguma insistência, Erick e Erica conseguiram achar os lances de escadas que desciam os níveis da montanha (que não era tão grande, que fique claro). Depois de descerem todos os lances, quase desmaiando, deram de cara com uma porta dupla metálica. Quando Erick foi abrir, Erica o impediu:
– E se houver pessoas aí?
– E...? – respondeu Erick indiferente.
– Você está todo sujo de sangue. É sugestivo até demais.
– Posso falar que é meu sangue.
– Não, não pode. – insistiu Erica, exausta – Seria impossível você sobreviver com a falta de tanto sangue assim e te levariam ao hospital. Lá, descobririam que o sangue não te pertence e tudo ia feder. Além do mais, olhe nosso estado!
Erick refletiu por alguns segundos e tirou a mão da maçaneta, pensativo.
– E o que você sugere? Que pulemos na água? Não sei se você percebeu, mas isso aqui é também uma ilha.
– Sinceramente, não estou com vontade de pensar agora, Erick.
– Teremos que ir mesmo assim. Não suportaríamos nadar. Vamos correndo, nossa identidade já está suficientemente queimada, de qualquer maneira.
– É, não tenho mais absolutamente nada a perder.
Os dois passaram pela porta, com Erica indo à frente. Dentro do lugar, os azulejos eram acinzentados, e ainda tinham vários túmulos bem apertados, um do lado do outro. Era um local para pessoas com menos condições financeiras de pagar por um enterro na floresta. Tinham umas duas ou três pessoas ali e uma olhou apenas de relance para Erick e Erica, que no fim acabaram saindo sem problemas pela outra porta.
Ao chegar do lado de fora daquele lugar, eles se depararam com uma lagoa, que era onde a montanha ficava no meio. Erica olhou para cima e viu que o dia estava ensolarado, mas o Monte Pyre tampava parte dele.
