Tic, toc, tic, toc.
Mu olhou o relógio enorme e antigo com curiosidade. Imaginou como funcionava e quem teria tido o trabalho de construí-lo, tantos eram os detalhes esculpidos na madeira sólida.
— Mentira — disse, quase se deixando cair sobre a cama, mas se manteve de pé; deveria estar apresentável para quando o pai viesse, sabia bem, mas a verdade era que estava muito entediado.
Não podia ir brincar lá fora; seu pai havia dito para não ir, e que não deveria se sujar. Pensando bem, preferia mesmo ficar no conforto de seu quarto. É claro que poderia conversar com o jardineiro, ou mesmo observar as flores... mas não tinha vontade de fazer nada disso, agora.
— Um livro — pensou em voz alta, andando lentamente até a estante. Mu tinha muitos livros, e sabia que o pai ficaria satisfeito em ver que ele estava lendo. Queria ler todos aqueles livros para deixar o pai orgulhoso, mas alguns deles eram muito complicados.
Mas seu pai também sempre dizia que ele nunca deveria abandonar algo sem tentar, e por isso Mu olhou para a prateleira mais alta.
— Ah — resmungou, forçando os olhos para ler os títulos —, papai comprou alguns novos. Ele sempre pensa no que eu devo ler.
No canto, escondido entre trabalhos maiores e mais bonitos, um livro lhe chamou atenção:
— Fala sobre o caminho do Bodhi — tropeçou na palavra — sattva? Parece bem velho.
Com certo esforço (quase escalando a prateleira), o pequeno Mu conseguiu pegar o livro, que de fato era bem velho. Sua capa parecia ser feita de trapos, mas mesmo antes deveria ser simples. Por algum motivo, Mu tinha a impressão de que o que estava dentro do livro não era simples.
— Nunca julgue um livro pela capa — lembrou de seu pai dizendo, e achou que se encaixava na situação.
Abriu o livro.
— No budismo Mahayana, um bodhisattva é um ser da iluminação, que está no caminho para alcançar o estado de Buddha. Certos textos, como o Dashabhumika Sutra e o Rajaparikatha — fez cara feia — Ratnamala, descrevem os dez estágios que um bodhisattva deve atravessar até alcançar o estado de Buddha.
Fechou o livro.
— Não entendi nada.
Nesse momento, alguém bateu à sua porta.
— Mu — disse Shion do lado de fora, e Mu se lembrou da importância de bater antes de entrar. Apressou-se em guardar o livro para então abrir a porta, porque não queria perguntas sobre rajapariga coisinha e nem saberia respondê-las.
— Papai — disse, curvando-se de leve. Shion acenou, erguendo o rosto do filho com um dedo.
Não sorria, mas também não estava zangado. Era apenas Shion.
— Meu filho, os convidados da sua festa estão para chegar.
Mu concordou com a cabeça, incerto do que responder.
— Prepare-se para descer, e cumprimente a todos.
— Sim, papai.
— Bom — sorriu, o que deixou Mu feliz, porque sabia que o pai sorria apenas quando necessário. — Algumas crianças foram convidadas; quero que você use essa oportunidade para fazer alguns amigos, está certo?
— Sim, papai.
Shion deixou o quarto, e Mu ficou pensando: quando foi a última vez que havia visto crianças?
:::
Descendo as escadas, Mu se pegou mais uma vez surpreso com o tamanho da própria casa. Às vezes imaginava que poderia se perder ali, mas não gostava de exploração. Nas poucas vezes em que o pai o levava para a cidade, Mu via como as casas das outras pessoas (as pessoas normais) eram pequenas e muito menos bonitas que a sua. No início achava difícil entender como alguém poderia viver numa casa com menos de três pisos, até que percebeu que raramente deixava o próprio quarto.
No andar térreo, a festa de aniversário de Mu pouco parecia com um aniversário de uma criança — embora o próprio Mu não soubesse disso. Para ele, festas sempre foram daquele jeito: várias mesas dispostas com comida e muitos adultos conversando, adultos com os quais ele teria que conversar também, pois ele era o anfitrião.
Encontrou o pai junto de alguns outros parentes seus, e Shion fez questão de chamar atenção à entrada do filho.
— Eis o aniversariante — disse dramaticamente, em um estado alterado que Mu conhecia apenas dessas festas. Ao seu lado, seus três tios, dois deles iguais um ao outro e o terceiro ainda mais escandaloso.
— Feliz aniversário, filhote! — berrou, erguendo-o do chão. Mu não estava muito feliz com a situação, mas sorriu.
— Obrigado, tio Dohko.
— Em pensar que eu troquei as fraldas desse menino... — disse seu outro tio enquanto arrancava a gravata.
— Hakurei, você nunca encostou nas fraldas de Mu — disse Shion.
— É o que você pensa! Francamente, suas empregadas precisavam de um aumento, porque esse moleque só sabia...
— Hakurei.
Shion e o irmão se entreolharam, e este começou a rir alto.
— Feliz aniversário, moleque — disse, enfim.
— Obrigado, tio Hakurei. Papai, posso andar pela festa?
— Não esqueça do que eu lhe falei antes, Mu.
— Sim, papai.
Antes de sumir entre os vários convidados, Mu notou que seu tio Dohko o estava olhando com uma expressão diferente. Pouco depois ele e Shion começariam a discutir, mas felizmente o pequeno não estaria ali para ouvir.
Mu pensou em várias maneiras de cumprimentar os convidados, mas cada vez que chegava perto de um, seu coração parava. Eram quase todos adultos, ou no mínimo bem mais velhos que ele, e um mais estranho do que o outro. Usavam ternos extravagantes, e tinham cores de pele diversas; poucos deram atenção ao menino vagando pela festa.
Mu não tinha coragem o suficiente para iniciar uma conversa com qualquer um deles, e se sentiu ainda pior depois que finalmente encontrou algumas crianças:
— Quem é que tá fazendo aniversário? — perguntou um menino muito pequeno, debochado, cujo cabelo curto e azul claro era algo que Mu nunca havia visto antes, muito embora o seu próprio fosse a coisa mais estranha que algumas pessoas veriam no decorrer de suas vidas.
Um homem grande ao lado dele respondeu:
— Ninguém com quem você precise se preocupar, meu senhor. Apenas uma reunião de negócios.
— Ouvi aquele homem estranho dizendo que era um aniversário.
— É — concedeu o homem, ajeitando a lapela do terno. — Mas não viemos para comemorar.
Mu não entendeu direito o que aquele homem estava dizendo, então deu de ombros e continuou andando, mas todas as outras crianças pareciam estar ali a contragosto; seus pais é que pareciam empolgados.
Cansado daquilo, foi para a sacada.
Quem sabe as estrelas lhe desejassem um feliz aniversário sem terceiras intenções.
— Às vezes a gente não percebe um problema até dar de cara com ele. Ou algo assim.
Enquanto corria pelo vasto terreno da escola, carregando uma caixa pesada e sentindo na pele o calor do verão, Ikki tentava lembrar de uma das frases inteligentes de seu professor, aquelas que sempre deixavam a situação melhor.
Acabou descobrindo que ainda era um mero padawan nessa arte.
— Ikki, eu não tô entendendo nada — disse seu irmão, largando a caixa que carregava e se sentando na grama. Quase arrancou a camiseta do corpo, coberto de suor.
Ikki coçou a cabeça.
— Essa festa bem que podia ser outro dia, né, Ikki?
— Pode ir embora se quiser — respondeu Ikki. — Fui eu que me ofereci pra ajudar.
— Eu quero ajudar também! — protestou o outro.
— Shun, você até tirou a camisa.
Shun olhou para os próprios pés, ruborescendo de leve.
— Tá calor...
— Eu sei, eu sei. Olha, vou tirar também — embora naquela altura ela já tivesse se tornado um pano de cozinha, suor pingando de cada fio — e vamos continuar, tudo bem?
— Não dá pra gente descansar um pouco? Achei que a festa ia ser só de noite.
— A gente descansa quando entregar essas caixas.
Com um leve suspiro, Shun percebeu que não tinha muita escolha na situação. Toda vez que Ikki metia alguma idéia na cabeça, era difícil discutir com ele, mesmo que a idéia fosse atravessar algum deserto.
Mesmo assim, era bom ver o irmão estava feliz com alguma coisa.
— Me explica de novo por que você resolveu ajudar com isso? — perguntou, se apoiando no irmão. — É um daqueles trabalhos em que a gente ganha um pouquinho de dinheiro?
— Um bico? Não, é só uma coisa que o professor me pediu.
— Ikki, você não ajuda nem a titia a carregar sacola de compras.
— Vai ter bolo e salgadinho pra gente depois.
Shun não estava convencido. Abraçou o irmão por trás.
— Duvido que seja só por isso. Acho que você só aceitou porque...
— Escuta, agora já tá quase no fim. Não adianta mais reclamar.
— Eu não tô recla...
Mas já era tarde. Ikki se desvencilhou do irmão, pegou sua caixa e correu colina abaixo.
— Mas sabe — falou para si mesmo antes de ir atrás dele —, acho que se fosse só sobre bolo e salgadinhos, seria um bico.
Deu de ombros; sabia muito bem que Ikki tinha seu próprio jeito de tomar decisões.
E nesse ano ele realmente estava sorrindo mais.
Quando finalmente chegaram ao local da festa (o ginásio do outro lado da escola), o pai de Kiki estava arrumando a decoração, que era muito diferente das festas normais de criança; as paredes estavam decoradas com imagens de constelações, e Shun teve certeza absoluta de ter visto um carneiro empalhado em algum lugar.
— Ah, vocês trouxeram o que eu pedi — disse Mu, que não pareceu muito satisfeito ao ver dois garotos suados carregando a sua preciosa encomenda; as caixas estavam amassadas dos lados.
— Não teve nenhum problema, fora essa padaria ser a uns mil quilômetros daqui — disse Ikki, bastante cansado da corrida, apesar de não admitir. — Aliás, o que tem dentro dessas caixas?
— Bolo e salgadinhos — respondeu Mu. Shun se arrependeu de ter largado a caixa no chão de qualquer jeito, e o olhar assassino não estava ajudando.
— Saquei. Não acha que essa festa tá meio chique demais, Mu? Achei que o seu filho ia fazer cinco anos, não vinte.
Mu o encarou.
— Kiki gosta dessas coisas — disse, embora mais para si do que para Ikki. — E é "senhor" Mu, por favor.
— Mu tá mais que bom.
— É um sinal de respeito; sou mais velho que você.
— Eu só te conheço como pai do Kiki, e não é só porque você é mais velho que eu tenho que te respeitar.
Mu decidiu que seria melhor continuar cuidando da decoração. Diabo de criança, pensou, não sei como Shaka aguenta.
:::
Fazia algum tempo que não visitava aquele lugar, antes um ponto de encontro entre amigos, agora algo mais; como não estava interessado em se esquivar da estranha quantidade de pessoas do lado de fora, entrou com cuidado pela porta dos fundos, e acabou se deparando com o que parecia ser um set de filmagem.
Um jingle começou a tocar:
Na na, na nanana, na nana, nana na!
— Aqui não tem porra nenhuma de nanana, tchê — a música parou com o apropriado som de disco arranhado — e você é atendido na hora! BAGUETE DO DEBA!
Duas mulheres pouco vestidas saltaram para o seu lado:
BAGUEEEETE DO DEEEBAAAAA!
— Grande e grossa como você nunca viu; molhos por conta da casa!
Aldebaran puxou uma das mulheres pela cintura enquanto erguia uma baguete de pelo menos um metro com a mão livre. Shaka poderia jurar que viu os dentes do amigo brilharem.
— Corta! — berrou o diretor, correndo em direção a Aldebaran. — Magnífico, magnífico!
— Não falei, tchê? Agora deixa de ser cabeça dura e me deixa fazer do meu jeito!
Meio pasmo, meio rindo, Shaka se aproximou; os seguranças tentaram lhe barrar, mas ao primeiro sinal do cabelo loiro Aldebaran já correu para um abraço que quebraria todos os ossos de uma pessoa normal.
— QUE DESFEITA, TCHÊ, TU NEM AVISOU QUE IA VIR! NÃO APARECE FAZ UNS TRÊS MESES E AÍ CHEGA ASSIM DE REPENTE!
— Ele é seu amigo, chefe? — perguntou o segurança.
— NÃO, É MINHA ESPOSA!
— Mesmo...?
— CLARO QUE NÃO, SUA ANTA! — Aldebaran deu com a baguete na cabeça dele, e ela se quebrou ao meio. Shaka o encarou.
— Já temos a primeira vítima da baguete dois-ponto-zero — riu.
— É ótimo pra testar a consistência! — Mordeu um pedaço. — Muito bom te ver, Shaka.
— Lamento não ter aparecido antes. Eu soube da reforma, mas estou trabalhando nos dois períodos.
— Bah, tchê, não tem problema. — Tapa nas costas; coluna quebrada. — E aí, o que achou?
Shaka olhou ao redor. Agora que todo o equipamento estava sendo retirado, viu um lugar muito diferente do que lembrava de visitar: a nova baguete era muito maior e mais parecia com um restaurante, com mesas espalhadas por todo o lugar, mas o que mais surpreendeu foi a decoração do lugar — tapetes com as cores da padaria, balcões de madeira com o logotipo entalhado e uma finesse que Shaka não poderia deixar de reconhecer.
— Aquela bicha do Afrodite até que presta pra alguma coisa, né?
— Sem dúvidas, embora — ergueu uma sobrancelha — eu questione a sua escolha de palavras para o seu comercial.
— Todo mundo ama um duplo sentido, tchê! Piá não entende e marmanjo ri, e consegui fazer passar no horário nobre, até!
— Cinco da manhã não é horário nobre, Aldebaran.
— PRA MIM É NOBRE, TCHÊ!
Riram.
— E aí, por que é que tu veio?
— Para descansar — suspirou. — Passei a tarde mais cansativa da minha vida cuidando de Kiki e um amigo para que Mu pudesse organizar a festa.
— OUTRO QUE NÃO APARECE NEM PRA DAR UM OI! — trovejou.
— Mu teve alguns problemas nas últimas semanas. Conseguiu um emprego, mas acabou não tendo muito tempo para Kiki e por isso recorreu ao pai.
— De novo com aquela história de renda estável e o caralho! Foi lá ver o pai, mas nem pra passar aqui e conversar; dava até pra eu enfiar ele numa roupa de garçonete, talvez...
— Aldebaran!
— É sério, tchê! — Pausa. Aldebaran encarou Shaka, erguendo a monocelha. — Peraí, tchê, descansar?
Um silêncio compassivo se colocou entre os dois.
— Quem foi que conseguiu a proeza de te cansar?
— Ouso dizer que uma cria dos seis infernos, meu amigo...
:::
— TORNA QUI, MONELLO FIGLIO DI UNA PUTTANA!
Bruno pouco se importava se alguém mais na rua entendia italiano. Queria agarrar aquele moleque e cortar seu pescoço — ou suas pernas. Talvez os dois, assim ele não poderia falar ou andar.
Atravessou a rua rapidamente e ergueu Seiya pela camiseta, despejando tantos palavrões em italiano que até mesmo um idiota poderia entender.
Redundância.
Imaginou no que caralhos estava pensando quando aceitou cuidar daqueles dois para Shaka, que estava cansado; deveria ter percebido que só uma peste como aquela seria capaz de cansar a Barbie. Era pra ser uma coisa simples: levar eles do shopping até a escola. Mas claro que não ia ser tão fácil.
— Tio, desculpa — disse Seiya numa voz miúda, fazendo sua melhor impressão de cachorrinho sem dono; mal sabia ele que Bruno chutava cachorrinhos de manhã.
— Não faz merda, vai — disse, e continuaram andando. Olhou para Kiki logo ao seu lado, quase dormindo e cambaleando na rua, e desejou que Seiya estivesse assim também, mas a energia do garoto parecia não acabar nunca. No curto caminho que restava até a escola, ele apontou para todas as lojas, parou para admirar três casas e derrubou uma velhinha.
Ah, pelo menos essa última foi engraçada.
Assim que puderam avistar o terreno da escola, Bruno dispensou a peste e esperou nunca mais precisar vê-la, mas era Kiki que ficaria aceso dali em diante.
Embora fosse uma festa surpresa, todos os que viam Kiki pareciam sentir a vontade irresistível de soltar uma risadinha cúmplice, e isso foi mais do que o suficiente para despertar sua curiosidade, pra não dizer senso comum.
— Dindo, pra onde a gente vai? — ele perguntou, sorrindo.
— Pra diretoria, encontrar com o seu pai.
— Ué, então por que a gente não foi pra minha casa?
Bruno já queria matar as professoras e também a criatura que teve a idéia estúpida de trazer o aniversariante para o local da festa ANTES da festa.
— Porque aquele seu irmão novo tá aqui junto com o Mu.
Kiki fechou a cara na mesma hora.
Sucesso.
:::
Ikki estava para entregar a última caixa quando viu Seiya, mais escandaloso do que o normal, carregando um pacote debaixo do braço.
Parou.
— IKKI!
— Fala — disse, e era óbvio que não estava de muito bom humor, se nem uma piadinha foi capaz de fazer.
— Credo, você tá horrível. Ficou fazendo isso o dia todo?
— É, o professor me pediu pra ajudar.
— Ele me pediu também, mas não era pra carregar caixa. Escuta só: a gente foi no shopping! Andamos um monte, e eu até ganhei um presente — ergueu o pacote — que ele não me deixou vestir porque eu precisava tomar um banho antes.
Ikki baixou os olhos.
— Aí a gente foi numa sorveteria, e sem querer eu derrubei meu sorvete na roupa do professor, e na minha também, é por isso que a gente foi comprar roupa, aliás, mas eu acho que o professor ficou bravo e depois a gente...
— Deu, chega — interrompeu Ikki, largando a caixa ali mesmo.
— Que foi, não vai mais levar isso lá?
— Alguém vai achar. Eu vou tomar banho.
Antes que alguém pudesse contestar, Ikki saiu correndo. Seiya não era pessoa de deixar os amigos saírem correndo assim do nada, então foi atrás. No meio do caminho, percebeu que Ikki era muito mais rápido, e em algum lugar nas profundezas da sua mente se sentiu mal por não ser nem esperto e nem tão bom nos esportes.
Mas ele também não era pessoa de se deprimir por qualquer coisa.
:::
— Toma aqui teu filho, imprestável.
Mu encarou o amigo, surpreso.
— Bruno?
— Não, cretino, a sua mãe.
— Eu estava esperando por Shaka.
— É, bene, teu sexo selvagem vai ter que esperar agora.
Agora totalmente acordado, Kiki foi abraçar o pai e logo começou a contar do seu dia, mas Mu ainda estava preocupado.
— Shaka não é disso... diga, o que aconteceu?
— Aquele outro pirralho aconteceu; a Barbie ficou de saco cheio e pediu pra eu trazer os dois aqui enquanto ele ia em algum lugar descansar.
— Ele perdeu a paciência? — Mu se arrependeu de ter reclamado de Ikki. — Minha nossa. Kiki, o que vocês fizeram?
— Nada, pai!
Silêncio.
— Tá, então talvez a gente tenha feito um pouco de bagunça no shopping.
Silêncio.
— E eu meio que derrubei uma montanha de latas no supermercado.
Silêncio.
— Duas.
— Não quero nem imaginar o que o outro garoto deve ter feito.
— Ah, ele só...
— Não, não me conte. Não quero saber.
:::
Ikki já estava debaixo do chuveiro quando Seiya o alcançou, encarando a parede em silêncio.
— Nem foi tão divertido assim — tentou, mas Ikki não respondeu.
Seiya pensou no que poderia fazer, mas era muito difícil; nunca tinha precisado confortar um amigo antes, porque nunca antes tinha tido um amigo a quem confortar.
Tentou de novo:
— Eu te dou a camiseta que eu ganhei, olha.
— Eu não tô preocupado com isso, seu bobão.
— Você tá chorando?
Ikki se virou.
— Não.
:::
— Tem certeza que não quer ficar?
— Não dá, Mu. Eu tenho que ir pro aeroporto hoje.
— Kiki vai ficar triste.
— Cazzo, acha que eu não sei? Mas precisa ser hoje. Eu, ah, deixei o presente dele com o Shaka; vai ver ele gosta.
— Quando foi que ele não gostou de um dos seus presentes?
Riram.
— Por que essa pressa toda, afinal?
— Porque... va bene, é porque eu estou indo atrás do Shura.
E embora Mu o tenha encarado, Bruno não retribuiu o olhar.
— Nenhuma notícia até agora?
— Niente. Que eu saiba, ele foi visitar a família na Espanha quando tirou férias, então vou pra lá.
— Tenha cuidado — disse Mu, e fez menção um abraço, mas Bruno o impediu.
— Não vai acontecer nada.
— Você não ia perder o aniversário do seu afilhado se não achasse que ia acontecer alguma coisa.
Bruno suspirou, impaciente com a situação.
— Só avisa a Barbie pra onde eu fui.
Mu o encarou novamente, mas dessa vez Bruno não desviou o rosto. Nada mais poderia ser feito.
:::
Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida!
Nem mesmo com todas as risadas cúmplices do mundo Kiki poderia ter suspeitado que sua festa de aniversário ocuparia o ginásio inteiro. Quando entrou e as luzes se acenderam, o menino sentiu seu coração subir até a boca. Mu não conseguia lembrar como tinha terminado tudo aquilo, mas lá estava: o ginásio inteiro decorado com constelações; balões azuis e prateados, desenhos nas paredes.
Estranho para qualquer outra pessoa; não aqueles dois.
— Pai — começou Kiki, rouco.
— Feliz aniversário — disse Mu, e o abraçou.
Alguns pensaram em bater palmas, mas apenas se afastaram.
Shaka sorriu ao ver que tudo havia se resolvido antes do aniversário do menino, e seguiu seu caminho pela festa.
— Ikki — disse, sorrindo. Ikki estava sentado em algum canto da festa, esperando que ninguém o incomodasse, mas é claro que isso não seria possível, ainda mais quando era Shaka procurando. — Agradeço muito pela ajuda hoje.
— De nada — disse Ikki, seco.
— Espero não ter sido muito cansativo pra você.
— Foi tranquilo.
Shaka estreitou os olhos.
— Conte o que aconteceu, Ikki.
— Não aconteceu nada, professor.
— Por que você está assim, então?
— Me deixa sozinho, professor.
Shaka fechou os olhos e suspirou. Ikki não estava olhando para ele, então Shaka apenas deu a volta na mesa e se sentou do outro lado. Foram longos minutos de silêncio, até que o professor começou a falar sozinho:
— Eu tive um dia muito estressante. Não tinha como o Kiki ficar aqui sem descobrir a festa, então combinei um passeio pelo shopping. Muito simples, e poderia até ser uma mudança de cenário refrescante.
Respirou fundo, sorvendo um gole de chá (sempre há tempo para chá) antes de continuar.
— Seiya foi junto. Das crianças do colégio, ele é o mais amigo de Kiki, apesar da diferença de idade, e imagino que, por morar em um orfanato, ele não tenha muitas oportunidades de fazer esse tipo de coisa. Kiki ficou feliz com a ideia; não tinha o que dar errado.
Outro gole.
— Por que o senhor tá me contando isso, professor? — Ikki perguntou de repente.
— Não posso desabafar com um amigo?
— Eu sou só seu aluno.
Sim, um aluno com a voz tremida, pensou o professor. Decidiu ficar em silêncio por algum tempo, para efeito.
Funcionou:
— Eu gosto do professor.
— Eu também gosto de você, Ikki. Você é meu aluno mais brilhante.
:::
Quase no fim da festa, Atla subiu sobre a mesa principal com um microfone.
Poucas pessoas tinham visto o menino, que apesar de não ter se escondido, estava quieto e contente em apenas observar a situação, por isso foi uma surpresa quando ele começou a falar:
— Eu ainda tenho apenas cinco anos. Não tenho dinheiro pra presentes caros, ou pra presentes baratos, mas acho que a única coisa que ia mudar se eu tivesse era que eu teria mais materiais pra fazer alguma coisa eu mesmo.
— E hoje eu fiz uma coisa pro Kiki.
Atla respirou fundo e tirou do bolso um pequeno pedaço de papel. Tentava não ficar vermelho ou começar a tremer, mas com tanta gente olhando era um pouco difícil. Kiki ouvia com atenção do colo do pai, muito cansado para contestar.
Começou a ler:
"Fui jogado de lado
Tudo no passado, solidão
Achei um irmão"
Notas do autor: Tá meio empoeirado por aqui, né?
Muitos problemas pra mim nos últimos meses, mais do que eu posso contar; mil desculpas pelo hiatus tão longo, mas fora a óbvia falta de inspiração ou vontade de escrever, o iPBFree fechou da noite pro dia e era num fórum desses que eu guardava e escrevia os meus textos.
Águas passadas!
Esse é último capítulo da, digamos, primeira temporada da fic; espero ter dado um fim digno.
Mu se aproximou com cautela do garoto loiro debruçado sobre gradil. Não queria exatamente falar com ele, mas não tinha outro lugar para ir, e se voltasse para o quarto o pai iria saber. Não queria receber uma bronca.
— Posso ficar aqui com você? — perguntou, temendo o pior, mas o menino apenas acenou que sim com a cabeça. Alívio.
Por alguns minutos, os dois ficaram quietos, cuidando de suas próprias vidas. Mu gostava muito de olhar as estrelas, e em muitas de suas noites solitárias, sentia que elas eram amigas, mas não podia evitar de olhar para o garoto ao seu lado de vez em quando, por várias razões: sua pele era muito escura, queimada de sol, mas os longos cabelos eram de um loiro brilhante; suas roupas eram simples, mas pareciam ser de outro país e eram muito diferentes dos ternos que todos os outros tinham decidido usar.
Essa estranha dualidade despertou sua curiosidade, e logo as estrelas deixaram a sua mente.
— Qual o problema? — perguntou o garoto de repente, o que surpreendeu Mu, porque até agora ele estava de olhos fechados.
— Ah! — exclamou, tentando formular uma frase coerente sem deixar de encarar o convidado, mas o melhor que conseguiu foi outro gemido fraco que com certeza iria decepcionar o pai; o menino voltou a se debruçar na sacada, cabelos ao vento.
Mu decidiu que queria conversar com aquela pessoa.
