Confinados

Por Mukuroo

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Obs 1 : Saint Seiya não me pertence! Os personagens podem sofrer algumas alterações em suas personalidades originais.

Obs 2: Já algum tempo eu estava com a idéia de escrever um fanfic nesse estilo. O assunto sempre me encantou e depois de muito pensar, finalmente consegui materializá-la.

Obs 3: o nome Carlo foi dado ao personagem Máscara da Morte pela escritora Pipe. Portanto, todos os créditos à ela.

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X

Carlo's POV

Eu não posso dizer que tive uma infância muito fácil. Eu nasci em Roma, na Itália, e de alguma forma fui o culpado pela morte da minha própria mãe, já que ela faleceu durante o parto, por algum motivo que não sei explicar exatamente. Afinal, eu não sou médico. Além disso, esse fato não é o mais importante, nem o mais triste ou traumático de minha vida.

Eu vivia com meu pai, na verdade, não exatamente com ele já que o velho nunca parava em casa por causa do trabalho. Ele era um mafioso, traficante de armas para ser mais exato. Eu ficava o tempo todo com as babás e nunca saía de casa. Claro, meu pai tinha medo que eu fosse seqüestrado ou algo do tipo.

Quando eu completei 6 anos de idade, meu pai recebeu uma proposta de emprego no Japão e nos mudamos para aquele país tão diferente. Por algum motivo, não foi tão difícil me adaptar a uma nova língua, a uma nova cultura, a um clima diferente. Eu gostava de coisas diferentes, mas ainda assim eu não podia sair de casa desacompanhado. Não entendo bem como funcionava o trabalho do meu pai, mas ele ainda fazia parte da máfia italiana.

Até aí, não havia muitos problemas. Até que meu pai se apaixonou pela filha de um dos chefes dos Yakuzas, a máfia japonesa. Contra a vontade de muita gente, meu pai casou-se com aquela moça e teve um filho com sua nova esposa...meu meio irmão, Ikki.

Ah, o pequeno Ikki nunca foi uma criança problemática. Era agitado, mas não dava trabalho. Pode-se dizer que ele era carinhoso e gostava muito de rir e brincar. Uma criança normal, afinal. Até o dia em que uma tragédia aconteceu...

É como se fosse um pesadelo para mim, um sonho ruim que tenho todas as noites, desde que aquilo aconteceu. O fato é que não se sabe exatamente o motivo, afinal, eu ainda era criança e não entendia nada, as investigações policiais não foram suficientes para desvendar esse mistério, mas... Meus pais foram mortos, durante uma madrugada de inverno.

Ikki gostava de ir até o quarto deles no meio da madrugada para se enfiar no meio dos dois e ficar ali dormindo até o amanhecer. Meu quarto não era muito distante do deles, mas a única coisa que eu ouvi foi o choro insistente de Ikki. Estava me incomodando, então eu me levantei e fui ver o que estava acontecendo.

O quarto dos meus pais estava aberto e eles... Bem, eles estavam mortos, e sem suas cabeças. Ikki estava ainda sentado na cama, chorando desesperadamente, traumatizado com aquela cena. Desde então meu pequeno irmão nunca foi o mesmo...

* * *

- Espere! Quantos anos você tinha nessa época?

- Eu tinha 14 e Ikki tinha 8 anos.

- Hum... Certo. Continue!

* * *

Como eu ia dizendo, desde então Ikki nunca mais foi o mesmo. Ele passou a ser uma criança bastante problemática. Nós... Bem, como não tínhamos família, fomos morar em um orfanato. Por algum milagre a justiça acabou resolvendo manter nós dois juntos no mesmo lugar.

Os quatro anos seguintes foram... Passaram-se como um borrão para mim. A única coisa a que eu me dedicava era Ikki. Eu precisava cuidar dele, era minha obrigação como irmão mais velho. Eu estava sempreo protegendo, e sempre pagando o pato pelas coisas que ele aprontava. Mas eu nunca me importei com isso...

* * *

- Espere! - mais uma interrupção - Você está querendo me dizer que...

- Shura, primeiro deixa eu terminar de te contar a história, depois você tira suas conclusões, ok?

- Certo! - o moreno suspirou, fitando Carlo. - Ok, continue!

* * *

Eu e Ikki íamos de orfanato em orfanato até que eu completei 18 anos e pude sair de lá. Recebi...Recebi a herança de meus pais, arrumei um emprego e algum tempo depois, eu consegui a guarda de Ikki.

Meu irmão... Bem, a única coisa que ele conseguia pensar era em vingança... Era em se vingar daqueles que mataram nossos pais, mas como nunca achamos os verdadeiros culpados... Ikki começou a matar, por impulso. Eu... Ah, dio Santo, a culpa é minha. Eu deveria tê-lo cuidado melhor, ter tido mais paciência com ele, eu deveria ter...

* * *

- Espere um momento! – Shura suspirou, novamente interrompendo a narração do italiano. – Você quer dizer que o Ikki matou todas aquelas pessoas?

- Exato! – Carlo falou tranquilamente, suspirando, um tanto melancólico.

- E você estava na cadeia no lugar dele? – o espanhol parecia por demais indignado.

- Sim... – a voz de Máscara da Morte quase não saiu naquele momento.

- Mas isso é um absurdo, Carlo! Você confessou todas aquelas mortes só porque se sente culpado pelo comportamento do seu irmão?

Antes de responder, o italiano remexeu-se um tanto no sofá, o qual estava sentado, aconchegando-se melhor ao assento macio e depois voltou os olhos novamente para o espanhol, encarando-o.

- Talvez se você deixar eu terminar de narrar a história, entenda melhor meus motivos. – a expressão no rosto másculo do italiano era por demais séria.

Shura não entendia ainda várias coisas, mas acabou deixando o ar dos pulmões saírem e concordou com a cabeça, observando o italiano de forma curiosa, embora descrente.

* * *

Ikki e eu sempre fomos tão próximos. Era como se fôssemos os melhores amigos, sempre. Contávamos nossos segredos um para o outro, dividíamos nossos medos e sonhos, somávamos nossas lembranças. Enfim, cuidávamos um do outro o tempo todo. E, claro, por sermos tão ligados, Ikki me contou quando aconteceu pela primeira vez...

Ele havia matado um homem. Um homem qualquer, mas que o fazia lembrar os homens que mataram nossos pais. Pelo que sei, tudo aconteceu muito rápido, na escola em que meu irmão estudava. Aquele... Professor de matemática, não me lembro mais o nome dele, eu o conhecia.

Ikki não o suportava. Naquele dia, meu irmão seguiu-o depois da aula até a casa do professor. Não sei como ele conseguiu a informação de que o velho morava sozinho. Ele... ele me contou de forma tão fria o que havia feito, que mal quis acreditar em suas palavras.

Meu irmão o matou enforcado, enquanto o homem tirava uma soneca após o almoço em sua cama. Ele... Livrou-se do corpo e guardou a cabeça do homem. Aquela cabeça... Quando ele me mostrou aquela cabeça eu fiquei desesperado. Aquilo era a constatação de um fato horrível para mim.

Bem, eu nunca havia sido muito sentimental, mas também não era uma pedra de gelo a ponto de olhar uma cabeça e não tremer. Eu não tenho nervos de aço, afinal. A primeira coisa que veio à minha mente era me livrar daquilo, mas Ikki... Ikki queria guardá-la como um prêmio. Nós discutimos e então ele saiu de casa, com aquele saco de lixo preto nas mãos, aquela cabeça lá dentro.

Depois que me sentei, depois que minha cabeça esfriou-se um tanto, eu consegui colocar meus pensamentos em ordem. Eu precisava dar um álibi a meu irmão, eu não podia deixar que o tirassem de mim. Como eu cuidaria dele, se estivéssemos tão longe?

Por sorte, ou ironia do destino, eu trabalhava em um hospital. Meu emprego não era nem um pouco relevante, eu era apenas um lavador de banheiros que trabalhava em turnos alternados no hospital municipal da cidade. Muitas vezes eu conversava com os enfermeiros, me inteirava de algumas doenças interessantes. Se eu tivesse tido oportunidade teria estudado para medicina, mas o dinheiro da herança de meus pais... ah, eu queria que fossem apenas para que eu pudesse educar Ikki.

E foi para lá que segui depois de tudo. Eu estava com medo de Ikki não voltar, mas eu precisava deixar tudo preparado caso ele voltasse. Afinal, para que outro lugar ele iria? Sempre tivemos nossas brigas, brigas de irmão, algo normal, afinal. Ele sempre saía de casa e voltava no fim do dia.

Eu teria que estar lá para ele. No hospital, eu consegui... O que foi?

* * *

Shura passava as mãos nervosamente pelos cabelos? – Por todos os deuses, Carlo. Eu não estou agüentando mais. Será que não dá para resumir um pouco?

O italiano bufou ao ouvir o que o outro havia dito. – Mas que diabos. Se não quer ouvir tudo, não vou contar mais nada.

- Está louco? – grunhiu o moreno. – Eu estou por demais curioso para saber como é que você conseguiu livrar a cara do Ikki.

- Hunf! Eu nem sei por que motivo estou te contando isso Shura. Deveria é ter te deixado na ignorância. – o italiano começou a ficar irritado.

- Mas agora que começou... – suspirou. – Enfim, quero saber o que você fez para que o Ikki não fosse incriminado.

- Eu o fiz ficar doente... – falou de forma tranqüila, fitando o moreno, analisando as reações do ex-companheiro de cela.

- O... Que? C-Como? – Shura ainda parecia por demais espantado, tentando processar aquelas informações.

* * *

Bem, para quem trabalha em um hospital, não é difícil conseguir alguns remédios que tenham qualquer tipo de efeito colateral forte. Quando eu cheguei em casa, senti um alívio em ver Ikki ali... Sem a cabeça. Ele havia me dito que tinha se livrado dela, mas que não sabia quanto tempo demoraria até encontrarem o corpo do homem que matara.

Eu agi rápido, ou ao menos tentei. Meu irmão acabou concordando com minha idéia de fazê-lo ficar doente. E acabamos ficando no hospital por mais tempo do que imaginei. Uma semana foi o suficiente para que descobrissem o corpo, mas não acharam a cabeça. Por algum motivo inexplicável, não havia nenhuma impressão digital do assassino na casa da vítima, o que já foi de tamanha ajuda.

Ikki e eu voltamos para a casa. No fundo eu sabia que não conseguiria controlar meu irmãozinho. Eu precisava agir antes que ele fizesse alguma burrada impensada novamente. Meu irmão, apesar de bonito, sempre fora um rosto comum na multidão e não é difícil achar alguém parecido por aí. Eu andei durante dias pelos subúrbios da cidade, à procura de alguém que fosse ao menos... Parecido com Ikki, que ao menos tivesse traços parecidos e, claro, olhos azuis.

Como lhe disse, isso não foi difícil encontrar...

* * *

- Espere Carlo... – Shura massageou as têmporas. – Para que você estava procurando alguém parecido com Ikki nos subúrbios?

- Bem, eu precisava de alguém que não tivesse família, passado ou futuro... – o italiano deu de ombros. Às vezes Carlo nem acreditava que ele havia feito tanto pelo irmão.

- Certo, mas com que intenção você precisava de um sósia? – Shura estava mais do que curioso. Aquela história parecia mais uma novela mexicana do que qualquer outra coisa. Só aconteceram tragédias e desgraças na vida de Carlo.

- Digamos que eu precisava de outro Ikki... – mordeu os lábios, hesitando um tanto antes de continuar. – ...alguém que quisesse dinheiro e que quisesse uma oportunidade de mudar de vida. – parou novamente e suspirou, fitando o teto, mudando novamente a posição no sofá. – Não foi fácil convencê-lo...

- Convencer quem? – o moreno passou novamente a mão pelos cabelos, um tanto incomodado, tentando não olhar muito para o corpo de Carlo. Agora não era hora de secar certo italiano com os olhos. Precisava saber mais sobre a vida dele, já que agora parece que ficariam juntos por um bom tempo.

- O garoto que encontrei na rua... – Máscara da Morte continuou então sua narrativa.

* * *

Eu paguei um preço alto, mas o garoto aceitou minha proposta. A primeira coisa que pedi que fizesse foi que queimasse suas impressões digitais, para que ninguém desconfiasse ou descobrisse sua verdadeira identidade. Depois, ele precisava raspar a cabeça e manter o cabelo sempre baixo, já que o estilo era um pouco diferente.

Eu o mandei então para um seminário. Ele relutou um tanto em assumir a identidade de Ikki, mas o dinheiro e a possibilidade de poder comer uma refeição três vezes por dia todos os dias falou mais alto. Para todos os efeitos, Ikki... Está lá e nunca saiu de lá.

* * *

- Como sabe que ele não saiu de lá? – o espanhol ergueu uma sobrancelha, observando a expressão de Carlo de forma atenta.

- Porque mantenho contato. Sempre que posso ligo para o seminário e Ikki... Bem, Ikki sempre lhe mandatudo o que precisa para que ele fique lá.

- Que eu saiba um seminarista não precisa de muita coisa... – Shura suspirou ao ouvir aquilo.

- É verdade, mas garotos têm suas necessidades às vezes. Coisas simples como livros, revistas e outros podem fazer uma grande diferença.

- Entendo... Então, para todos os efeitos, seu irmão está no seminário desde a morte do professor de matemática. Por isso... Por isso ele nunca poderia ser acusado de um crime, tendo um álibi desses.

- Exato! – Carlo levantou-se para esticar um tanto as pernas. Sentia que a turbulência no mar havia cessado um tanto, já que o iate não balançava tanto assim mais.

- Só não entendi uma coisa, Carlo... – o espanhol tinha um tanto de receio de perguntar, mas não conseguiria dormir em paz se não ouvisse a resposta para suas dúvidas. – Por que está me contando tudo isso?

- Porque você não vai ficar vivo para passar a história adiante...

Aquela voz... Era de Ikki. Shura virou-se para o garoto que entrara no cômodo naquele momento e sentiu um frio na espinha, aquela frase martelando como um mantra em sua cabeça 200 vezes por segundo. Por todos os deuses, estava definitivamente morto.

Continua...

Mais um capítulo, finalmente. Como todos os capítulos desse fic, foi difícil escrevê-lo, mas acho que valeu a pena. Sei que ainda tem muitas coisas a serem explicadas nessa história, mas senti um alívio quando finalmente consegui colocar em palavras metade dos acontecimentos.

Gostaria de agradecer a todos os leitores que ainda seguem esta história, e a todos os reviews que mantêm meus dedinhos felizes e saltitantes pelo teclado. Também gostaria de pedir desculpas pela demora da postagem do capítulo, mas como toda escritora, tem momentos que a inspiração não vêm de forma alguma.

Quero agradecer em especial à Akane M.A.S.T pela betagem e paciência e também a Aya-chan pelas sugestões. Também um agradecimento especial a Virgo no Áries, que vive me cutucando querendo mais um capítulo do fic. Obrigada mesmo de coração.

Um abraço a todos

Muk-chan \o/