Bom gente, finalmente acabou a história obrigada a todos que leram e ate a próxima
Beijinhos
Estrela Lunar
Capítulo X
Darien não se sentia de fato pronto para o encontro. Sabia que podia ter trabalhado algumas horas mais em seu programa, aperfeiçoado-o um pouco mais. Afinal, não era todo dia que ele desenvolvia um projeto daquela relevância.
Seria agora ou nunca. O projeto de sua vida.
Apertou o nó da gravata de seda pura escolhida a dedo para combinar com o elegantíssimo terno Armani que vestira para a ocasião, contrariando seu modo despojado de trajar-se. Em seguida, transpôs com passos largos e determinados a porta rotativa do Edifício Regent bem no centro de Las Vegas.
Muito embora acostumado a ambientes luxuosos, Darien ficou extasiado com a elegância e o requinte do saguão de entrada, com seus sofás e as poltronas em couro verde-garrafa ao lado de mesinhas laterais, cada uma com sóbrios abajures de latão em estilo inglês. E ficou também admirado com as altas palmeiras imperiais usadas como decoração num ambiente interior.
Era um lugar suntuoso, lindo. Serena decerto adoraria ver aquela decoração tão inusitada. "Céus! Aquela mulher não sai um minuto de minha cabeça!" Todavia, tal pensamento não o aborreceu; ao contrário, fez com que sorrisse para si mesmo.
Os escritórios de Dunbar & Craig ficavam no décimo oitavo andar. Alturas estavam se tornando um lugar comum em sua vida.
Serena o levara mais alto do que nunca...
Analisou sua imagem ainda sorrindo no espelho do elevador, quando apertou o botão número dezoito. A subida foi suave, pois o ascensor era de última geração. Tão suave como um planador, tanto quanto fazer amor com Serena.
Na realidade, não fazer amor com... mas para Serena. Ela dera muito mais do que tomara.
As portas se abriram e se fecharam também sem produzir ruído depois que ele parou no andar solicitado.
Piscou duas vezes. O que quer que esperasse não era o que via ali. Não o caos total que o recepcionava.
Viam-se pessoas em todos os lugares, mexendo em arquivos e equipamentos. Uma recepcionista com aparência de cão de guarda tentava responder a vários telefonemas ao mesmo tempo. Uma mulher bem idosa passou com uma caixa de papelão cheia de papéis, um porta-retrato de prata e uma caixa decorada com folhas de hera.
— Desculpe-me — começou ele. — Tenho um encontro com Elaine Dunbar e Warren Craig, hoje às três.
— A srta. Dunbar deixou o país, e ninguém sabe aonde o sr. Craig foi.
Um arrepio gelado de temor misturado a decepção correu pela coluna de Darien.
— Como? Queira repetir, por favor — pediu, contrariado.
De repente, os olhos da senhora encheram-se de lágrimas e ela começou a chorar.
— E terrível! — afirmou. — Eles requereram falência, entraram em bancarrota. Foi um choque para todos nós.
Darien pôde ver as faces dela empalidecendo.
— Mas eles deviam ver meu programa de computador — murmurou Darien, quase que para si mesmo.
— Oh, sim, você deve ser o sr. Chiba. Lembro-me de que tinha uma entrevista com eles.—Empertigou-se, tirando os óculos e limpando as lentes com um lenço de papel. — Eu era a secretária da srta. Dunbar. — Deixou cair os ombros e continuou: — Agora estou desempregada.
E Darien estava na crista da onda sem um remo, e sua canoa afundava bem depressa. Pelo visto, o desânimo com um misto de tristeza angustiante estampou-se em seu rosto, porque a ex-funcionária da Dunbar se mostrou compassiva.
— Sinto muito, meu jovem. Estou certa de que encontrará alguém mais para examinar seu projeto.
— Sim, tenho certeza disso. — Despediu-se, deu-lhe as costas e voltou para o elevador.
"Estranho como num minuto você pode se sentir seguro e confiante e certo de que seus sonhos estão prestes a se tornar realidade e, em questão de segundos, todas as esperanças afundam num mar de decepção", pensava Darien, descendo para o andar térreo. Sentia-se desapontado, com uma terrível sensação de desalento a dominá-lo.
Empatara todo seu dinheiro num programa que poderia jamais ver a luz do dia. A menos que encontrasse alguém mais interessado em seu trabalho.
Com passadas rápidas, saiu para a rua iluminada. Teria de ser forte, dizia a si mesmo, com imensa tristeza. Não poderia deixar-se sucumbir. Era o tipo de homem que sabia contornar as pedras do caminho.
Pelo menos havia ainda uma luz brilhante em sua vida. Serena estaria no apartamento, esperando por ele. Estranho como perder os investidores não parecia tão mau. Havia uma milhões de coisas mais que queria aprender sobre Serena.
Os minutos se arrastavam, parecendo horas, com Darien preso no tráfego. Um congestionamento enorme o prendia dentro do carro.
Estava ali, parado, sozinho, ele e seus pensamentos. Quando os veículos começaram a se mover, Darien viu uma banca de flores em uma esquina. Alguns instantes mais não fariam muita diferença para ele, mas tinha um pressentimento de que significaria muito para Serena se lhe levasse flores. Ela parecia adorar aromas e cores diferentes.
Conseguiu parar na esquina bem em frente à banca de flores e deixou o motor funcionando.
A florista, uma senhora simpática e falante, parecendo espanhola, lhe sorriu, muito amável.
— Flores para sua amada, senhor?
— Como adivinhou? — Encarou-a, surpreso.
— Pelo brilho de seus olhos. Esse, eu garanto, só homens apaixonados possuem. Que flores prefere?
— O que a senhora sugere?
— Descreva-me a dona de seu coração.
—Jovem, linda por dentro e por fora, inteligente e muito, muito carinhosa.
— Eu não falei? — Gargalhou. — São as palavras exatas de um homem que ama.
Darien ignorou o comentário.
— E então?
— Ela é refinada como uma executiva ou é mais simples?
— Refinada e simples ao mesmo tempo. Ela é tudo o que um homem espera de uma mulher. — E pisco para a florista.
— Muito bem, meu cavalheiro apaixonado. Já vi que estamos falando de uma princesa. Rosas brancas significam amor. As vermelhas, paixão. Orquídeas, sedução. Flores do campo, amizade, companheirismo.
— Gostei da aula. Pensando bem, acho que vou levar essas rosas salmão. — Apontou para as flores referidas.
— Muito bem. São rosas-champanhe. Por que você se decidiu por elas?
— Porque a cor é um misto de amor e paixão. Estou seguindo sua aula sobre presentear com flores. — Sorriu-lhe.
— Pode estar certo de que sua princesa ficará encantada — a gentil senhora assegurou-lhe.
Quando Darien, por fim, chegou ao apartamento, pareceu-lhe ter estado fora por séculos. Seu pulso estava acelerado quando abriu a porta e entrou.
— O que aconteceu aqui? — Lisa avançou para ele como uma nuvem negra de tempestade.
Darien, com todo o cuidado, colocou as rosas-champanhe e as chaves sobre a mesa.
— O que faz aqui, Lisa? — Olhou em torno. — Onde está Serena?
Andrew apareceu e pôs o braço em volta dos ombros da mulher.
— Acalme-se, doçura. — Ele olhou para Darien. — Lisa ficou mareada, de forma que voltamos de avião em vez de no navio.
— Você quebrou sua promessa! — Lisa agitava um pedaço de papel sob o nariz dele. — Ainda mais depois que ela deixou a sala de estar tão maravilhosamente decorada e reformada. Como foi capaz de quebrar sua palavra?
Darien agarrou a folha da mão dela e começou a ler.
Querido Darien,
Sinto muito, mas tenho de partir. Surgiu um pequeno problema em uma das minhas lojas. Estou certa de que você entenderá. Divertimo-nos muito juntos. Pelo menos, desta maneira, não teremos um adeus meloso nem embaraçoso.
Cuide-se.
Com amor, Serena.
Darien arrastou-se para o sofá e deixou-se cair sobre as almofadas. Olhou para o bilhete, sua vida desmoronando-se a seu redor. Imaginou a risada de Serena, o modo como o desafiara com uma petulância e a faceirice que ele adorava. Em poucos dias, ela transformou seu mundo inteiro.
— Você jamais quebrou uma promessa que me fez, Darien. Por que teve de ser justo esta?
— Eu sei por quê. — Andrew parecia ter acabado de fazer uma grande descoberta. — Seu irmão está apaixonado.
— Sim, você está certo.— Erguendo os braços, Lisa riu sem muita vontade.
— É só olhar para ele. É o rosto de um homem apaixonado. Acredite-me, conheço muito bem os sinais.
Darien passou uma mão sobre os olhos.
— Acontece que o sentimento não é recíproco — contestou. Como tudo podia sair tão errado num único dia? Primeiro, os investidores; agora, Serena.
— Você a ama de verdade? — Lisa se sentou no sofá ao lado dele e tomou-lhe as mãos.
Darien a encarou com olhos profundos e melancólicos.
— Sim, acho que amo, mas não importa o que tivemos. Serena se foi.
— Não diria isso. — Andrew vinha vindo da cozinha.
Darien não tinha sequer percebido que o cunhado deixara a sala de estar.
— Acabei de contatar por telefone a empresa aérea. O avião dela não partiu ainda. Se você se apressar, poderá pegá-la antes que se vá.
O ar lúgubre e sombrio de Darien não se iluminou.
— Você leu o bilhete que Serena me escreveu. Não deixa margem para dúvidas. Está terminado.
— Conheço Serena melhor do que ninguém, meu amigo. Ela nunca fugiu de um relacionamento. Sempre tentou fazê-lo funcionar. Acho que ela fez isso porque teme estar amando você.
— E se por acaso você estiver errado? — Darien fitava o cunhado com um olhar melancólico.
— Você jamais saberá se não for atrás dela. Lisa acariciou a face dele.
— Vá. Não a deixe escapar!
E se significasse mesmo algo para Serena? Quanto a ele, tinha a mais absoluta certeza de que nutria fortes sentimentos por ela.
Darien chegou a uma rápida decisão e levantou-se de um salto. Quando pegou as chaves e saiu correndo para o hall do elevador, gritou por sobre o ombro:
— Ligarei para vocês mais tarde!
A porta do elevador já estava se abrindo quando ele voltou correndo e agarrou as rosas-champanhe. Então, saiu em desabalada carreira.
O aeroporto estava repleto de pessoas que iam e vinham com suas bagagens sobre rodinhas, numa balbúrdia total.
Serena estava sentada no lugar que escolhera, perto da janela no bar. Bebia seu vinho em pequenos goles, contando os minutos antes de entrar na área restrita para passageiros no terminal.
Dera preferência ao bar, porque queria ficar completamente embriagada. E sozinha. Ela e suas conjecturas. Chegara até a evitar um encontro casual com um de seus fornecedores, que vira de longe.
Os olhares masculinos em volta, nas mesinhas, eram muitos para aquela loira delgada, bonita e de olhos azuis, ali, desacompanhada. No entanto, Serena permanecia alheia, confinada em suas reflexões.
Se o que fazia era a coisa certa, por que tinha aquela sensação horrível na boca do estômago? Tudo em que podia pensar era Darien. Talvez se ela voltasse ao apartamento e lhe dissesse que gostaria de explorar a relação um pouco mais, apenas para descobrir se havia algo mais profundo, ele pudesse...
Ora, quem estava tentando enganar?
Ela o seduzira. Quisera um fim de semana de prazer escaldante sob os lençóis. Mas Darien lhe dera mais do que isso. Fizera-a rir, deixara-a determinada a vencer sua aposta boba e sem sentido. Alegrara seus dias e... fez com que se apaixonar por ele. "Deus, eu me apaixonei por Darien! Como poderia imaginar?"
Agora estava tudo terminado. Pelo menos Darien não veria as lágrimas que escorriam desgovernadas naquele exato momento por seu rosto. Fungou sem ao menos se preocupar em enxugar o pranto.
Todos naquele aeroporto lotado poderiam vê-la chorando, mas não Darien. Jamais ele. Serena tornou a fungar e começou a vasculhar sua bolsa, à procura de um lenço de papel.
Enfim, bem no fundo, encontrou um pacotinho. Rasgando-o sem o menor cuidado, tirou um lenço. Quando limpou os olhos, sua visão clareou.
Estava ficando louca, só podia ser isso. Aquele ali adiante não podia ser Darien. Por que estaria ele caminhando em direção a seu terminal?
Talvez fosse um estranho que apenas se parecesse com Darien. Ela podia estar sofrendo de síndrome de trauma pós-relação ou coisa assim.
Mas quanto mais perto do bar ele chegava, mais certeza Serena tinha de que era Darien.
Não restavam dúvidas! Era seu amor! Lindo, maravilhoso, elegante... e segurando um buquê de rosas!
E parecia olhar direto para ela. O queixo erguido era o de um homem determinado, de quem sabia muito bem o que queria.
Serena sentiu-se desfalecer.
O que será que Darien fazia aqui naquele terminal de aeroporto? Serena levantou-se, passando as mãos pelas laterais da calça. "Jesus, meu nariz deve estar vermelho de tanto chorar, e não me preocupei sequer em me maquiar antes de partir!" Aquilo daria uma impressão horrível de desgaste.
— Onde a senhorita pensa que vai? — exigiu ele, parando bem perto dela.
— Não leu meu bilhete? — Serena se encostou no balcão do bar para não cair.
— Sim, e também a parte sobre sua partida. Agora quero saber por quê. A verdadeira razão. Não apenas uma desculpa esfarrapada sobre problemas em uma de suas lojas.
Serena se sentiu acuada. Uma sensação de ter sido pega em flagrante cometendo um crime.
— O que são alguns dias aqui ou lá? — Jogou para trás os cabelos, fingindo-se de inocente.
— Não acabou de decorar o apartamento ainda.
— Mandarei um de meus assistentes terminar o serviço. Você não terá nenhum problema com ele como teve comigo. Será capaz de trabalhar em seu programa de computador quando quiser.
— O combinado com os investidores caiu por terra — revelou, mudando de assunto de repente.
"Oh, não, ele deve estar arrasado!" Serena sabia o que aquilo significava para Darien.
— Sinto muito, muitíssimo, pode acreditar — murmurou, com toda a sinceridade.
— Não tem importância, Serena. O que de fato importa é que você não terminou o que temos juntos.
Ela cerrou as pálpebras quando uma onda de alegria percorreu todo seu ser. Darien não queria terminar!
Ao mesmo tempo, uma sombra de dúvida a atingiu, diminuindo seu entusiasmo. Estaria ele apenas procurando por outro investidor? Não dar asas a pensamentos negativos, mas fora magoada muitas vezes no passado.
Tomando uma rápida decisão, Serena abriu os olhos e exalou um suspiro profundo.
— Quero investir em seu programa — declarou. Darien franziu o cenho, perplexo.
— O quê? Achei que estivéssemos falando sobre nós dois.
— E estamos. Mas antes quero oferecer-lhe uma proposta de negócio. Adorei seu programa. Foi sensacional molhar meus pés nas ondas do mar que arrebentavam na areia da praia — disse, brincando. Logo em seguida, encarou-o, acrescentando: — Seu programa pode ser incorporado a minha companhia de design de interiores e usado por arquitetos. Podemos negociar?
Darien deu um passo para trás, afastando-se dela.
— Por acaso passou por sua cabeça que vim procurá-la aqui para que investisse em meu projeto?
— Por favor, Darien! É um ótimo negócio. Oferecerei o que você estava planejando obter dos outros investidores, sabendo que poderei usá-lo nos meus trabalhos também.
Serena estendeu a mão para ele.
— Meu padrasto ensinou-me que um aperto de mãos é tão bom como um documento assinado. Aperte aqui e selaremos o acordo.
Darien hesitou antes de pegar a mão dela e apertá-la forte. "Agora tenho de deixá-lo ir."
— Você está livre. Livre como um pássaro. Pode perseguir qualquer mulher que quiser. Honrarei meu compromisso. — Ela sorriu, sem graça. — Meus advogados providenciarão todos os documentos necessários para nossa transação. Farei que alguém de meu pessoal o procure para saber como você poderá incorporar seu programa a meu trabalho de designer.
Darien a olhava, atônito.
— Você me deixará ir? Assim, sem mais nem menos? Posso namorar qualquer mulher que quiser e você não voltará atrás em nosso acordo?
Serena assentiu.
— Ótimo. Porque sei direitinho a mulher que quero. Ela é vibrante, bonita, sexy, intrigante de vez em quando, confusa, uma gata selvagem na cama, mas um pouco doida se pensa que eu poderia um dia amar outra que não fosse ela.
Foi então que Darien lhe estendeu o buquê de rosas-champanhe que segurara até aquele momento e a tomou nos braços, beijando-a com delicadeza e ternura.
Ele a amava! O coração dela estava em júbilo. Darien dissera que a amava. Ela não entendera errado. Ele também comentara que ela era um pouco maluquinha. Isso não tinha importância. O que importava era que estava se sentindo feliz, suspensa no- infinito, em puro estado de euforia. Era o momento certo de lembrar-se do que lera uma vez: "Amar e ser amada é viver em estado de êxtase".
O beijo terminou, e Darien a aconchegou junto ao peito.
— Por favor, nunca me deixe. Quando você partiu, levou consigo meu mundo, meu coração, minha razão de viver, querida.
— Tudo bem, meu amor, minha vida, meu vício e meu príncipe. Mas não me aperte tanto, está amassando minhas rosas.
Darien riu.
— Foram escolhidas a dedo para demonstrar o amor que descobri sentir por você, muito antes de ter resolvido me abandonar.
— Como assim, escolhidas?
— Uma cigana espanhola, ou feiticeira, não sei bem ao certo, deu-me uma lição de como escolher flores para cada determinado sentimento.
— Quer dizer que rosa-champanhe combina com o sentimento que nutre por mim?
— Isso mesmo. Um misto de amor e paixão. Branco e vermelho.
— Não entendi nada...
— Um dia lhe darei uma aula sobre flores. Por enquanto, só quero que saiba que te amo muito, Serena.
— E eu te amo muito também — sussurrou, enquanto o aeroporto inteiro desaparecia junto com as pessoas, para longe de sua visão, e uma vez mais Serena se perdeu no beijo dele.
