Vigésimo Dia


Katherine não podia se virar na cama confortável – por incrível que pareça – do hospital. A fina mangueira que conectava seu braço à bolsa de medicamentos estendida à certa distância não permitia que a detetive se posicionasse de forma a conseguir dormir. Mas esse era seu menor problema agora. Fora a pontada de saudades que sentia do próprio quarto e a falta de uma posição agradável, Beckett nem mesmo conseguia fechar os olhos. A morfina a deixava não somente com sono, mas com os olhos pesados e o corpo mole; e mesmo assim a dose não era o suficiente para colocá-la dormindo instantaneamente: fora calculada para que ela se sentisse tentada a sucumbir, mas resistisse por não muito mais que o medo do que a aguardava em seus próprios sonhos. Há poucos dias, Seth, seu médico, havia solucionado o problema das dores, agudas, quando ela acordava, mas ela mentira ao dizer que estava tudo bem. Ela conseguia dormir, conseguia acordar sem gritar, mas os pesadelos ainda estavam lá. Todos os dias Katherine Beckett fechava os olhos sabendo que em alguma hora da madrugada acordaria com as imagens do assassinato de seu parceiro. Acontecia sempre de uma forma diferente. Em todas elas, Kate se via impedida de ajudar por estar presa, longe, ou simplesmente porque suas pernas se recusavam a se mover da forma como ela queria. Cada uma das vezes era a pior. Beckett não tinha mais coragem de dormir. Não tinha mais a coragem para fechar os olhos. Mantinha-se acordada pelo tempo que conseguisse, mas as drogas e o cansaço a dominavam em algum momento, e então ela não sonhava – ou estava exausta o suficiente para não se lembrar de seus terrores noturnos quando despertava.

Naquela noite, porém, ela imaginava que conseguiria criar coragem. Engolira todo o orgulho que tinha e se odiara por ter se mostrado vulnerável ao pedir que Josh ficasse ali com ela. É claro que ele não via problema algum, mas Beckett não conseguia entender como uma mulher adulta podia agir como uma criança da forma como fizera, com medo do escuro. Seu namorado havia caído no sono ao seu lado, com a cabeça em cima de seu colchão e as mãos presas na sua. A detetive nem sabia o que estava fazendo quando apertou forte seu pulso, sentindo o sangue correndo em suas veias. Fechou os olhos. Por alguns segundos, Castle pareceu estar ao seu lado. Como quando ele viera e ela segurara sua mão. Os dedos dele nos seus. Ela podia apostar que era realmente um costume. Podia aportar que Richard passara aqueles onze dias com as mãos presas às dela. E então ela dormiu. Acordou mais tarde, assustada, sim, mas o pulso de Josh e o costume de estar de mãos dadas com Castle a fizeram achar que ele estava ao seu lado, e perfeitamente vivo. Sabia que veria o namorado se abrisse os olhos, mas preferiu não fazê-lo. Preferiu se enganar pelos breves minutos que antecederam mais uma noite entrecortada de sono.


Beckett acordou com um sorriso. Josh bagunçava carinhosamente seus cabelos, virando os fios para lá e para cá e desalinhando completamente o que a detetive custava a deixar apresentável todos os dias. Logo os dedos de seu namorado desceram de seu cabelo até sua face, contornando a linha de seu rosto e deixando o rastro quente de sua pele na dela.

– Bom dia. – Disse ela, antes de morder levemente o indicador de Josh quando ele o passou por seus lábios.

Josh substituiu o dedo pela própria boca e beijo-a demoradamente.

– Agora sim, é um bom dia. – Responde ele. – Desculpe, não quis te acordar...

Beckett deixou uma risada leve escapar e finalmente abriu os olhos. Ao invés de encontrar o namorado em completo desalinho, tal como ela, encontrou-o estranhamente arrumado.

– Mentiroso. – Analisou. Ele sempre tinha o intuito de despertá-la com aquele excesso de carícias. Era a mesma coisa quando acordavam juntos em sua casa no final de semana. E nada bom costumava vir depois. – Aonde vai?

Ele suspirou, sabendo que nada que dissesse ou fizesse iria melhorar o que ia dizer:

– Tenho que ir trabalhar. – Cuspiu, da forma mais rápida que pode.

– Mas o qu-

– Desculpe, Kate, você sabe que não é escolha minha. – Interrompeu ele.

Ela abriu a boca, pronta para responder, entretanto, ele tinha razão. Havia entre os dois uma espécie de trato extraoficial. Ela não reclamava do trabalho dele, ele não reclamava do dela. Mas em momentos como aquele, era difícil cumprir o que nunca havia sido prometido.

– Ok... – Disse apenas, com um suspiro.

– Ah, não fique com essa cara. – Pediu ele, vendo o desanimo no rosto de Kate. – Você estava praticamente me expulsando daqui a alguns dias atrás...

Ela desviou o olhar com mais um suspiro. Não leve a sério tudo o que uma mulher diz.

– Kate, eu tenh-

– Está tudo bem, Josh, tudo certo. – Foi a vez dela de interromper. – Vai, você tem mais o que fazer...

– Kate...

– Já disse que está tudo bem. – Disse ela, seca.

Ela não viu a expressão no rosto de Josh quando ele saiu do quarto, caso o contrário teria percebido o quão chateado ele estava em ter que deixá-la. E teria percebido em si mesma um certo exagero ao reagir tão mal por algo que já acontecera várias e várias vezes. Mas talvez essa repetição fosse exatamente o problema. Ela encarou o teto branco do hospital tentando afastar pensamentos ridículos e infundados por quase duas horas. Eles sempre voltavam. Acontecimentos pequenos e palavras nas quais ela nem mesmo havia prestado atenção na primeira vez começavam a realmente incomodar, e Beckett começava a pensar que todos os homens a sua volta estavam a abandonando quando os parceiros entraram sem aviso algum pela porta. Mas faltava um.

– Hey. – Saudou ela, com parte do bom animo com que acordara ressurgindo ao vê-los.

– Hey, Beckett. – Disse Esposito.

– Hey. – Ryan.

Ela estava se perguntando o que eles estavam fazendo ali, ao invés de investigando a morte de alguém, quando se lembrou da conversa do dia anterior, onde Lanie se oferecera a trazê-los ali para uma visita.

Como sempre, a conversa parou por ali. Ninguém sabia exatamente o que dizer. Não que faltasse assunto, mas nenhum deles parecia digno das visitas ocasionais que faziam. Ao menos até que se lembrassem de assuntos que valiam a pena serem comentados.

– Vocês viram Castle?

– A nova Capitã chegou. – Disseram Ryan e Beckett, em coro, e as duas frases os colocaram em silêncio novamente.

– Se você não sabe, imagine a gente... – Disse Esposito, em resposta à pergunta da detetive. Sua linha de raciocínio era a mesma de Lanie.

Beckett só ficaria intrigada com a resposta mais tarde. Agora, tinha o pensamento tomado pela curiosidade e uma pontada de apreensão. A nova Capitã. A. Aquilo era estranhamente desconfortável.

– Me explica essa história direito... Como assim ela "já chegou"?, achei que alguém do próprio 12th seria designado para assumir o posto.

Os outros dois detetives trocaram olhares e risinhos.

– Achou que ia poder mandar na gente, não é, detetive? – Provocou Ryan.

Beckett rolou os olhos.

– Eu já mando.

Esposito não segurou a risada e virou, quase gargalhando, para o parceiro murmurando um "ela tem razão, cara".

– Não é por mim, achei que seria colocado alguém que conhece a gente.

Ambos os detetives sabiam qual era a preocupação de Beckett. Algo que, no fundo, fazia parte das preocupações dos dois também. A seriedade voltou à conversa.

– Bom, ela definitivamente não conhece. Ao menos não pessoalmente, mas está a par de toda a situação. – Explicou Esposito.

E com "situação" ele queria dizer o antigo acordo entre Montgomery e Castle, Kate sabia muito bem. Antigo? Beckett estava realmente pensando naquilo como passado?

– E o que ela pensa a respeito?

Ryan e Esposito se olharam novamente, mas dessa vez com mais seriedade.

– Bom... – Começou Ryan. – Ela deixou bem claro que quer você e Castle na sala dela assim que você sair do hospital.

– Sendo bem sincero, Castle parece incomodá-la um pouquinho.

– Um pouquinho, cara? Você por um acaso não ouviu ela gritando c-

Ryan foi interrompido por um tapa em sua barriga, desferido pelo parceiro a fim de fazê-lo calar a boca. Tinham combinado de não falar muito daquele assunto, porque Beckett com certeza se aborreceria e se preocuparia mais do que o necessário. Embora nenhum deles realmente acreditasse naquilo, ambos achavam melhor acreditar que a desaprovação da nova capitã em relação à Castle mudaria assim que ela o conhecesse. E foi exatamente o que disseram à Beckett.

– Não se preocupe, ela vai se acostumar. Você se acostumou, lembra?

Beckett lembrava. Era impossível não se recordar da época em que ela odiava Richard Castle e rir. Talvez eles tivessem razão. Talvez a capitã também fosse olhar para aquilo mais tarde e rir junto com ela.

– Claro... Vai dar tudo certo. – Disse ela, quase se convencendo.

– É, mas pra isso Castle precisa aparecer no 12th algum dia, – Disse Espósito. – ele não da as caras por lá há séculos...

– Então não é só por aqui... – Murmurou ela. Por lá também não?, pensou Kate. O que estava acontecendo com Castle?

– Ele deve estar fazendo alguma coisa em relação aos livros dele, ou qualquer coisa do gênero.

Beckett assentiu, vendo aquilo como uma situação plausível. Não era raro que ele simplesmente sumisse do mapa e reaparecesse dias depois por causa de um tão chamada "surto de inspiração".

Artistas... Pensava ela. Completamente imprevisíveis.

Ryan e Esposito passaram o resto da tarde toda com a detetive no hospital, conseguindo com eficiência afastar sua mente daquilo que a incomodava. Mas, é claro, a chegada de Iron Gates – e o nome da nova capitã não melhorava em nada a situação – a fazia pensar que voltar ao trabalho depois daquele tiro seria uma tarefa mais complexa do que ela pensava.