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Ao ver aquela senhora tão corajosa e forte chorando, algumas de suas damas não resistiram e foram, em piedade, até ela, para lhe consolar.
- Senhora Duquesa! Senhora, não fique assim! Mesmo que o rei não a queira, outro nobre pode desposá-la, dar-lhe bom nome e filhos.
Catherine não parava de pensar no rei. Ele a rejeitava daquele modo tão veemente! E por uma mulher com quem não poderia se casar, portanto provavelmente seria uma de baixa sorte! E ela, Catherine, Condessa e Duquesa, mulher de vultuoso dote, aparentando ser muito mais jovem, e possivelmente muito mais bela! Naquele ódio que lhe tomava, já não era a Condessa/Duquesa ambicionando ser rainha, sequer a mulher apaixonada sentindo-se traída, já que nunca amara a seu noivo; era o ser humano despeitado.
Com a mente em efervescência, Catherine não conseguia pensar em como executaria sua vingança; porém, a executaria sem titubear.
- Vamos, senhora - uma das aias lhe dizia - Tudo que nos resta é tomar a diligência e voltarmos.
- Senhora - interpelou um dos valetes - Ainda há cinco criados dentro do castelo. Eles lá permanecerão?
Ouvindo isto, a duquesa teve um estalo repentino. Era esta a sua oportunidade! E, se não a agarrasse, provavelmente ela jamais lhe seria oportuna outra vez.
- Eu vou buscá-los - replicou ela, com uma disposição contrária do que apresentara anteriormente a seus serviçais.
E de fato, ela foi até os guardas que vigiavam o portão do castelo e lhes disse que precisava entrar novamente, para reaver criados. Como tal fato era a mais pura verdade, eles a permitiram entrar novamente, com a condição de que um dos guardas a escoltasse.
Transtornada e sem ter resposta, a duquesa aceitou a condição. E aquela! Como faria o que estava pensando, se um dos guardar a vigiaria o tempo todo?
Foi pensando no que fazer. A sorte, ou o destino, sozinhos lhe propiciaram solução. Ao chegar ao local onde seus criados lhe esperavam, viu apenas quatro. E como a viagem era longa, arrumou uma desculpa para procurar o quinto criado e com ele falar a sós.
- Senhores! Uma dama como eu necessita ser precavida. A viagem que devo fazer de volta com meus criados não é muito longa, porém não tão curta a ponto de não poder haver intempéries. Os locais à beira de estradas são fétidos e promíscuos, os quais não condizem com a minha nobre condição. De resto, só há moitas e matos. Portanto, gostaria de me utilizar de um dos recintos do castelo, antes de ir-me.
A fala polida e prolongada da duquesa foi entendida como satisfação de necessidades fisiológicas antes de se pôr a viajar. E eles, vendo-a como dama tão linda e bem arrumada, caíram-lhe nas graças e lhe fizeram esta exceção.
Ela, sorrindo, foi em direção do local, sem, é claro, guarda algum consigo, pois nenhum deles se atreveria a ver bela dama a fazer necessidades e expor assim a nudez. A sorte favoreceu mais ainda à Duquesa, pois nem precisou procurar ao criado restante. Ele saía do mictório, amarrando as calças. Aproveitando que estava sozinha, tomou-o pelo braço e o enfiou para dentro do mictório novamente, fechando a porta.
- Senhora! - exclamou o homem, embaraçado pela repentina visão de Catherine - Eu, desculpe se me demorei, é que...
- Não me interessa nada disso! O que me importa é que você é minha última chance!
- Última chance de quê...?
- De vingar-me do idiota do reizinho petulante! Ele não quer casar comigo, por mais que eu inste, e deverá pagar caro! Você dará um jeito de matá-lo hoje à noite!
- E-eu? Mas senhora, ele é o soberano...
- Pouco me importa! Quem é seu senhorio, eu ou ele?
- É a senhora, mas o rei Kanon é o senhorio de toda a nação, inclusive da senhora!
- Eu lhe ofereço metade do que meus pais me deixaram de herança. E isto não é pouco! Subirá de posto como nunca poderia imaginar!
- Mas, senhora... se eles me apanham em tentar matar o rei, é morte certa para mim!
- Pois então tome! - e assim ela entregou a ele um frasco de veneno, o qual trazia consigo para provavelmente se defender de algum ataque inesperado - Espere o rei dormir e o mate com isto. Algumas gotas dentro de sua boca bastarão!
- Mas...
- Veneno não deixa rastro da autoria do crime, você não será pego!
- Eles podem me apanhar enquanto ainda lhe aplico o veneno!
Contrariada, Catherine decidiu ser mais enérgica. Puxou de um punhal que tinha em seu corpete, e o apontou para a jugular do homem.
- Tem medo de ser apanhado e porto, hein? Pois que me diz do que é melhor: ter uma chance de morrer, ou a morte certa?
O criado viu o ódio nos olhos da patroa, e não ousou contestá-la.
- Se é assim que a senhora deseja...
- Mate-o, hã! Se me aparecer em minha propriedade sem matar ao soberano - morre! E se sumir sem tê-lo matado, mando persegui-lo! Estamos entendidos?
O homem não lhe ousava responder. Vendo que ele afinal se conformava em matar Kanon, Catherine tomou mais algumas armas e lhe entregou.
- Estas são para caso ele acorde durante a sua ação com o veneno. Agora vá, e finja que nunca me conheceu. Vá, e não olhe para trás!
Sem outra alternativa, o criado obedeceu e assim fez. Após isto, a duquesa deu mais um tempo e enfim saiu do mictório. Como se nada houvesse acontecido, ela foi até seus quatro criados restantes, despediu-se gentilmente dos guardas do castelo e se foi.
Os quatro remanescentes sentiram falta do serviçal restante, mas nada disseram até chegarem à diligência.
A comitiva de Catherine partiu, e apenas quando estavam já longe da propriedade real foi que um dos quatro criados se aventurou a perguntar sobre o quinto que não fora restituído.
- Arrumei outra incumbência a ele - respondeu a duquesa, lacônica em palavras, porém seu sorriso e seu olhar diziam muito mais do que qualquer longo discurso poderia dizer.
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A partir de então, com ódio, com ansiedade, Catherine passou a não pensar em outra coisa, senão em reaver a coroa e em como fazê-lo. Ela tinha o documento assinado pelo rei Christensen, e o atual rei Kanon, segundo lhe constava, não tinha filhos nem irmãos, ou ainda parentes próximos na linha sucessória do trono. Portanto, pensava em um modo de, após a morte dele e em condição de sua noiva, ela pudesse conseguir ser a rainha.
Nesta angústia permaneceu até o dia seguinte. Que seria feito do criado? Kanon já estaria morto? Punha-se tão nervosa, que mal dormira, tendo sobressaltos durante a noite.
Após o raiar do sol, no entanto, ela logo recebeu uma mensagem completamente indignada do rei. Ele... ainda estava vivo e capturara o seu agente!
- Como, como Kanon conseguiu sobreviver? Eu armei tão bem àquele paspalho! Será que não consegue sequer apunhalar alguém durante o sono?
- Dizem que o rei Kanon tem um vigia noturno instalado em seu próprio quarto. E este vigia, de alguma forma, percebeu o criado nada treinado que você instalou às pressas e sem planejamento nos aposentos do rei.
- Hã? Quem... quem disse isto?
- Sou eu, Cathy. Eu, o amante que ainda se preocupa com sua segurança e seus rompantes de insensatez.
Era Jahnsen. Ele adentrava a sala, segurando o jovem mensageiro que enviara a mensagem real. O mesmo estava amarrado pelas mãos.
- Jahnsen! O que faz com este garoto?
- "Este garoto" é mensageiro do rei Kanon. Se bem sei o que ocorre em casos de alta traição, como foi o de tentativa de assassinato do monarca, eles torturam o culpado. E devem ter feito isto mesmo com o criado que você enviou e que fracassou em seu intento. Ele... temeroso da dor e da morte, deve tê-la entregado.
- E... o que este mensageiro tem que ver com isto?
- Ora, claro está que o rei Kanon fará represália. Ele não vai deixar barato, e lembre-se que você é a mandante do assassinato; o criado é apenas um instrumento. Portanto, o castigo maior recairá sobre você... pode até mesmo ser decapitada. Catherine.
A duquesa, sem medo, era apenas ódio no olhar. Lembrou-se do que havia dito certa vez, de que preferiria morrer jovem e no auge das forças, do que decrépita e doente. E se aquela fosse sua hora de morrer, que fosse lutando!
- Eu não temo a morte! Que venha o rei Kanon! Lutarei pelo que considero seu meu direito até o fim!
- Ainda pode se salvar! Veja, este menino; se for caro ao serviço real, pode servir de barganha e de chantagem. A sua vida pela vida dele!
Num ímpeto de indignação, ela tomou o rosto do mensageiro e o olhou nos olhos. Ele tremia, pensando se sairia vivo daquilo.
- Pensa que sou mulher de barganhar, de negociar minha vida, como se ela valesse tanto ou menos do que a desse rapazinho? Veja só, um moleque de quinze anos, quando muito! Como eles têm coragem de mandar uma criança dessas para o meio de um fogo cruzado?
- Catherine, eu não sei se percebeu, mas está sendo acusada de alta traição nesta carta! E tal delito só se paga com a mais ignominiosa das mortes! Não é só sua vida que está em jogo, mas também sua honra!
- Que seja! Da honra eu sei cuidar, e não será negociando com a vida de um meninote desses que vou preservá-la!
Sendo assim, tomou de uma adaga e rasgou a garganta do mensageiro.
- Catherine! - exclamou Jahnsen, horrorizado ante a morte sem motivos mais consistentes.
- Não se preocupe! Matei-o rapidamente, ele não sofreu.
- Mas por que, se ele poderia ser sua salvação...? De qualquer modo, a vida do rei não é como a das camponesas pobres que eram mortas para sua juventude!
- Já lhe disse, nunca foi meu objetivo negociar com o rei!
Tomando do sangue do cadáver recém-degolado, ela escreveu uma grande mensagem em toda a superfície do papel que o rei lhe enviara:
"Para tudo há uma conseqüência"
E o enviou, pingando sangue, diretamente para Kanon.
To be continued
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Próximo capítulo é o último! E aí, mais uma fic de capítulos concluída!
Beijos a todos e todas!
