Capítulo X
Na primeira vez em que Bella acordou, não conseguiu enxergar quase nada. Pela janela, podia ver que o mundo lá fora encontrava-se encoberto pelas sombras do crepúsculo, e que a neve começava a cair de modo sereno. Tentava lembrar-se de onde estava, mas sua mente estava turva por memórias dispersas... A única coisa da qual conseguia se lembrar, era dos beijos e carícias que havia trocado com Lorde Edward. Teria sido apenas um sonho? Ou fora real?
-Finalmente despertou! – Acusou uma voz bem ao seu lado. Quando Bella virou a cabeça para ver quem havia falado, deu de cara com uma velha senhora de feições ternas e cabelos grisalhos. Lembrava-se aqueles bondosos olhos negros... Sim, era a mulher que havia costurado sua perna e tratado de sua ferida.
-Onde estou? – Indagou tentando levantar-se, mas as fortes mãos da velha senhora a empurrou pelos ombros, forçando-a a manter-se deitada.
-Na fortaleza de Masen. Agora, pare de se mexer, milady... Deve repousar até que sua perna se cure totalmente.
E foi exatamente isso o que ela fez, após comer uma terrina de canja que a mulher lhe dera. Tornou a dormir. Sonhara com mãos que lhe afagavam o corpo e com lábios que beijavam os seus de forma obscena, mas gostava daquilo. Queria mais, queria que... O que? Não sabia! Quando abriu os olhos pela segunda vez, deu de cara com a fraca luz do sol que transpassava as pesadas nuvens, vinda da janela aberta. Daquela vez não encontrou a velha senhora no quarto. Estava completamente sozinha, e também completamente nua por baixo das cobertas. Seu estômago estava tão vazio, que fazia seu abdômen adquirir um aspecto escavado.
Tomando todo o zelo do mundo, Bella enrolou o corpo com uma das pesadas cobertas e tentou se colocar em pé. Sentiu uma forte e pulsante dor na perna direita, quando a colocou sobre o chão, e logo descobriu que do joelho até o tornozelo havia tiras de linho enfaixando seu membro. Mas aquilo não fora o suficiente para desanimá-la. Apoiando-se na parede, caminhou lentamente até a lareira onde o fogo lhe cedia um pouco de calor. Foi então que a porta do quarto se abriu, e a velha senhora adentrou por esta. Trazia consigo uma bandeja contendo uma jarra e uma terrina.
Ela pareceu surpresa em encontrá-la em pé, mas logo recuperou a voz!
-Oh, milady! – Exclamou a velha senhora enquanto depositava a bandeja sobre uma mesa de carvalho que havia próxima a janela e corria para se colocar ao lado de Bella – Não deveria está andando! Sua perna ainda não está totalmente cicatrizada...
-Estou bem. – Disse enquanto mancava lentamente na direção da mesa e descobria que dentro da jarra havia leite e na terrina havia um pouco de caldo de carne. Estava tão faminta que pouco se importou com as regras de decoro e se sentou em uma cadeira, para comer e saciar sua sede – Há quanto tempo estou dormindo?
-Há três dias, milady.
Bella sentiu a comida voltar e por pouco não se engasgou. Três dias? Dormira por três longos dias?! Não podia crer naquilo...
-Como pude dormir por tanto tempo?
-A senhora despertou algumas vezes... Mas na maioria não parecia realmente lúcida. – Falou a bondosa senhora, antes de se calar repentinamente parecendo lembrar-se de algo importante – Oh, Lorde Edward deu ordens para trazer uma tina com água morna, caso a senhora queira se banhar...
-Seria maravilhoso! Sinto-me imunda. Mas diga-me, onde está Lorde Edward? Será que eu poderia falar com ele?
-Lamento dizer isso, mas faz dois dias desde que meu senhor partiu para a fronteira norte. Ele não queria ir antes que a senhora estivesse completamente curada, mas não podia retardar a viagem, pois necessitava falar com os escoceses que...
A mulher parou de falar novamente, agora parecendo um tanto constrangida pelo que estava prestes a revelar. Mas Bella já sabia do que se tratava! Era obvio que Lorde Edward fora até a Escócia para tratar de sua situação. Ele deveria está tentando entregá-la aos MacSwan, afinal estes eram os únicos parentes vivos que ela possuía agora. Um primo que nunca vira e um tio bastante idoso, irmão de seu falecido pai, Charles Swan. Tratava-se de um clã extremamente enfraquecido, e ainda assim, muito orgulhoso.
Mas era obvio que Lorde Edward pensaria no bem de suas terras em primeiro lugar. Se recusasse entregá-la a seus parentes que viviam do outro lado da fronteira, uma guerra contra os Highlanders poderia ser mais do que evidente. E não era segredo para ninguém o fato de que as terras de Masen viviam cruzando espadas com os escoceses na fronteira norte. Tudo o que estavam esperando, era um bom motivo para entrar em guerra declarada contra o novo Barão de Masen.
Fora por isso que Lorde Edward partiu, mas Bella não pôde evitar sentir-se desapontada. Esperava vê-lo, e ao mesmo tempo, rezava para retardar aquele momento ao máximo. Afinal, não tinha certeza do que aconteceu entre eles naquela cabana de acampamento... Teria sonhado com tudo isso?
-Sabe quando ele regressará? – Indagou Bella após dar um grande gole na jarra de leite, e segurando as cobertas com mais força contra seu corpo. Se pegou rezando para que Lorde Edward regressasse o mais rápido possível para que pudesse finalmente saber que destino lhe daria.
-Meu senhor mandou um mensageiro que chegou hoje de manhã. Parece que está quase resolvendo os assuntos que tinha para resolver com os escoceses, e nas melhores das hipóteses, ele regressará amanhã, ao meio-dia. Tenho certeza de que se sentirá muito feliz ao ver que milady se recupera bem. Agora diga-me, deseja aquele tal banho do qual falei?
-Oh, sim. Seria maravilhoso.
-Pois bem, irei ordenar que tragam uma tina e a encham com água morna. Espere aqui milady...
-E qual é o seu nome? – Indagou Bella finalmente, ao recordar-se de que não saberia a quem chamar caso necessitasse de algo.
-Sue. Meu nome é Sue Clearwater, se lhe prover. Sei que sou velha de mais para ser uma boa dama de companhia, mas pode me chamar, caso precise de ajuda.
-Sim, chamarei. Obrigada Sue.
Após isto, a senhora Clearwater deixou o aposento, trancando a porta logo atrás de si. Bella continuou tomando seu caldo de carne, e já estava quase acabando quando duas criadas adentraram no quarto carregando uma tina enorme. Depois disto, ocorreu um verdadeiro vai e vem de criadas carregando baldes d'água até que a tina estivesse cheia. Bella sentiu-se verdadeiramente grata por isto!
Também havia pedaços grandes de linho, para que ela se enxugasse, e algumas barras de sabão. Tinham um cheiro de rosas, e por mais que Bella preferisse lavanda, se viu agradecendo aos céus por poder tomar um banho de verdade. Já devia fazer seis ou sete dias desde a última vez em que se lavara, e sentia o terrível cheiro de suor emanando de sua pele.
Todas as criadas trataram de sair rapidamente dos aposentos, menos uma, que ficara para ajudar Bella com o banho. Removeu as faixas que cobriam sua perna direita e vislumbrou o corte costurado. A ferida parecia seca e cicatrizava bem, o que garantia que em pouco tempo poderia remover os pontos. Quando entrou na tina, sentiu a perna direita latejar mediante a sensação que a água morna proporcionava. Mas não ligou para aquilo! A única coisa que importava era que seu corpo ficaria livre de toda aquela terrível sujeira. Em seus cabelos, ainda havia pedaços do sangue coagulado da irmã Jessica, o que fez o estômago de Bella se revirar um pouco. Parecia que a chacina no convento havia ocorrido há séculos atrás.
A criada lhe ajudou a esfregar as costas com um pedaço de pano áspero, até que a água adquirisse um tom de encardido. Quando sua pele cheirava a rosas, Bella julgou estar na hora de sair de dentro da tina. Enrolou seu corpo úmido em um grande pedaço de linho, e se sentou em frente à lareira, para secar os pesados cabelos rubros. Sentia-se tão bem, que até se esquecera da ferida na perna.
Quando por fim estava devidamente seca, a criada lhe entregou um vestido verde feito do mais delicado veludo. Bella o reconheceu de imediato. Tratava-se de outro vestido de Rose, que Sir Benjamin havia lhe dado. Aquele não era tão velho como o azul, e por isso não ficara tão apertado na cintura, uma vez que pertencera a época em que Rosalie já não sofria mais com a terrível moléstia, e por isso encorpara mais. Todavia, ainda mantinha-se apertado no busto, pois Bella sempre teve seios mais fartos do que sua boa amiga. Mas em compensação, ficara ainda mais comprido do que o outro vestido, pois Rosalie crescia bastante rápido, enquanto que Bella sempre fora mais baixa do que a maioria. Tinha que levantar o vestido para poder andar, mas aquilo não a incomodou, afinal, o mais importante era que estava limpo.
A criada lhe penteou os cabelos, até que estes caíssem como uma cascata em suas costas, com sedosos cachos rubros nas pontas. Também fizera algumas tranças, como ditava a moda naquela época, mas deixou a maior parte do cabelo solto, como havia sido do agrado de sua mãe.
Enquanto isso, Bella se olhava no espelho de prata polida que havia encontrado sobre a mesa. A criada lhe informara que fora um mimo de Lorde Edward, para que ela pudesse se olhar sempre que quisesse. Mas o reflexo que Bella viu no espelho lhe deixou um tanto desanimada. Sua pele estava mais pálida do que o de costume, e os ossos de sua saboneteira pareciam mais salientes. Deveria ter perdido um pouco de peso durante sua convalescência e isso lhe dava um aspecto mais doentio.
-Milady deseja mais alguma coisa? – Indagou a criada após terminar de fazer o simples penteado.
-Sim... Gostaria que chamasse a senhora Clearwater. Diga para ela trazer algum cataplasma e faixas limpas de linho. Tenho que fazer um curativo em minha ferida, para evitar que infeccione.
A criada fez que sim com a cabeça e se retirou do cômodo, deixando Bella sozinha. Enquanto esperava a chegada de Sue, foi até a janela e se debruçou sobre o parapeito, para poder observar o pátio lá em baixo. Havia homens treinando em todas as partes, assim como criados correndo de um lado para o outro. Mas o que chamou a atenção de Bella foram as muralhas. Não sabia se estava enxergando corretamente, ou se seus olhos estavam lhe pregando uma peça.
Aparentemente, havia duas muralhas! Uma mais alta, no interior, que era cercada por uma segunda mais baixa. A distância entre ambas não deveria ser muito grande. Provavelmente, apenas três cavaleiros montados poderiam seguir lado a lado no espaço que havia entre as duas muralhas. Não entendia o motivo daquilo! Mas não teve tempo para refletir sobre o assunto, uma vez que a senhora Sue Clearwater adentrou no cômodo carregando um grande pote e algumas ataduras de linho.
-Obrigada por atender aos meus pedidos tão atenciosamente. – Disse Bella enquanto sentava-se na cama para que a velha mulher pudesse examinar sua perna direita.
-Não é nenhum incomodo cuidar de sua senhoria. – Afirmou Sue com um doce sorriso – Parece que sua perna está cicatrizando mais rápido do que o esperado... Eu sinceramente acreditava que levaria uma quinzena ou mais para que a ferida se fechasse por completo.
-Isso foi por que a costuramos. Assim as bordas podem ficar juntas, e o corte se regenera mais rapidamente. Minha mãe aprendeu isso com um curandeiro ibérico.
-Pois sua mãe deveria ser uma mulher extremamente sábia! – Exclamou Sue enquanto começava a aplicar o cataplasma sobre a ferida de Bella.
A mistura era viscosa e tinha um forte cheiro de mel misturado com folhas medicinais. Logo após, a velha senhora começou a enfaixar a perna de Bella, começando pelo joelho e terminando no tornozelo. O corte era realmente muito grande, mas não tão fundo, o que diminuiu bastante o risco de alguma nova infecção. Quando Sue finalmente terminou, Bella se pôs de pé e deu alguns passos para sentir melhor a perna.
-Sinto-me bem melhor. – Declarou decidida há sondar um pouco até onde estava livre – Até poderia dar uma volta pelo castelo... O que me diz, Sue?
-Bem, creio que não há nada de mal nisto... – Respondeu a senhora, parecendo um tanto zelosa – Contanto que não se arrisque muito e que mantenha um passo lento. Mas onde pretenderia ir, milady?
-Não sei... Nunca estive em Masen antes. Ouvi falar que fabricam os melhores tecidos da região em sua aldeia. Talvez peça para alguém me escoltar até lá.
-Oh, isso não posso permitir, milady! – Exclamou a senhora, agora agindo de modo agitada.
-E por que não? Sou por acaso alguma prisioneira?
-Não é isto... Bem, acontece que recebi ordens claras de meu senhor. Lorde Edward acredita que seria mais seguro para a senhora se não saísse do castelo. Portanto, está livre para circular por onde quiser, contanto que permaneça dentro das muralhas.
Bella não gostou de ouvir aquilo. Soava apenas como mais uma desculpa para mantê-la sempre sobre os olhos de Lorde Edward. Se pudesse chegar até a aldeia, com certeza encontraria um modo de fugir e chegar até Queda das Almas. Sabia que havia uma nascente no coração de Masen, e se seguisse o fluxo das águas, com certeza chegaria a queda d'água onde costumava banhar-se com sua mãe.
Lá poderia viver tranquila e em paz. Afinal, ninguém jamais ousava pisar naquelas terras. Renee sempre lhe contava estórias sobre antigas civilizações druidas que costumavam fazer seus rituais naquela região. Mas os romanos chegaram com suas guerras, e mataram todos os que cultuavam os profanos deuses da floresta. Desde então, a Queda das Almas passara a ser um lugar considerado amaldiçoado, onde até mesmo os animais temiam penetrar.
Bella sempre sentia que algo diferente pairava na atmosfera da queda d'água. Bastava cruzar o grande circulo formado pelo alinhamento megalítico, para sentir todos os pelos de seu corpo se eriçando. Mas não temia aquele lugar. Afinal, sua mãe sempre dizia que os mortos já não podiam nos fazer mal. Na verdade, Bella sentia pena daquelas pobres almas, pois estavam condenadas a vagar por aquelas terras pelo resto da eternidade, a não ser que alguém as libertasse.
Sem prestar atenção ao que fazia, ela ergueu o pulso esquerdo e se pegou admirando aquela pequena marca encravada em sua pele. Sua mãe, Renee, a fizera quando Bella tinha apenas onze anos, após ter tido aquele sonho... Essa era a tradição em sua família que vinha se repetindo desde os tempos antigos, e só terminaria quando a maldição fosse quebrada e as almas das antigas feiticeiras druidesas fossem libertas.
Almas que aguardavam por séculos para finalmente terem o descanso eterno. Bella queria poder fazer algo por suas antepassadas, mas estava de mãos atadas. Sofria por imaginar a alma de Renee vagando pela queda d'água, e temia que a sua tivesse o mesmo destino. Era assim desde que os romanos exterminaram seu povo e as feiticeiras druidesas amaldiçoaram aquelas terras com guerras, sangue e sofrimento. Só poderiam descansar quando a paz finalmente voltasse a reinar, mas aquilo parecia distante. Primeiro foram às guerras romanas, depois a invasão normanda e agora os constantes conflitos contra os escoceses. Quanto sangue ainda seria derramado?
Mas aquela não era hora para devaneios. Bella sabia que não teria chance de fugir para a Queda das Almas, então resolveu que deveria aproveitar seu dia para explorar o castelo. Talvez conseguisse encontrar algum local por onde pudesse escapar, assim como havia descoberto no convento. Seria maravilhoso poder voltar a morar na antiga cabana que fora de sua mãe... Estaria segura lá, e sentia muitas saudades de Patas Suaves!
A última vez em que vira o lince fora quando tentara fugir dos homens do Texugo e por isso não sabia se o seu velho amigo estaria vivo ou não.
-Pois bem, irei explorar a fortaleza! – Disse de modo decisivo a Sue. A velha senhora pareceu mais tranquila com aquilo e até se atreveu a dar um meio sorriso.
-Será um prazer acompanhá-la milady. Conheço este castelo como a palma de minha mão.
Sendo assim, Bella vestiu a pesada capa de peles, que Lorde Edward a dera na noite em que a salvara, e que provavelmente fora limpa por uma das servas. Logo após, calçou as botas de couro macio, tomando um cuidado maior com a perna direita, para não magoar sua ferida. Quando finalmente julgara-se pronta, Sue ofereceu seu braço rechonchudo para que Bella o usasse como apoio, e juntas saíram do aposento. Do lado de fora, deu de cara com o topo de uma escada em espiral, e por um momento sentiu-se confusa. Deveriam estar no último andar da torre, e o único aposento presente naquele lugar era o que ocupava... Não demorou muito para compreender que aquele deveria ser o quarto do senhor feudal.
-Onde Lorde Edward costuma dormir? – Indagou repentinamente a velha senhora Clearwater.
-Bem... O quarto que a senhora tem ocupado é na realidade os aposentos de Lorde Edward... Mas ele gentilmente o cedeu para que a senhora pudesse ficar mais a vontade e também mais segura, uma vez que este quarto fica no topo da torre leste.
-E onde ele vem dormindo agora?
-Em um dos quartos que fica nos andares mais a baixo. Não se preocupe com isto milady... Lorde Edward não costuma passar muito tempo em Masen, pois sempre tem algo para resolver ou alguma batalha para se travar. Portanto, não creio que seja um verdadeiro incomodo para ele ceder o quarto para a senhora.
Bella fez que sim com a cabeça e começou a descer as escadas lado a lado com Sue. Sua perna a incomodava a cada degrau que descia, mas fazia o que podia para não deixar isto transparecer em seu rosto. Tinha que movimentar o membro, ou do contrário ele poderia atrofiar. Durante a descida, viu mais algumas portas que supostamente levavam a outros quartos. Perguntou a Sue quem ocupava a torre leste, alem dela própria e de Lorde Edward, mas a velha mulher não quis responder aquela pergunta e logo mudou de assunto.
Ao chegar ao salão principal, deu de cara com duas servas que trocavam o junco do piso e com mais uma que limpava as teias de aranha do teto. Eram as mesmas que haviam ajudado-a a banhar-se. Também avistara duas crianças que desmontavam as mesas que haviam sido armadas para o almoço.
Bella estranhou o que viu. O salão principal era grande de mais para que apenas três servas e duas crianças se encarregassem dele. Normalmente, aquele serviço seria prestado por no mínimo sete pessoas. Mas ainda assim, aquelas três servas pareciam realizar seus trabalhos de modo bastante eficaz, sem deixar nada fora do lugar. Sue continuou guiando-a pelo salão, e ela notara que o amplo aposento continha três lareiras. Uma na extremidade norte, uma na leste e outra na oeste. Ao sul ficava a porta que levava para o pátio esterno. Sue a guiou por aquele caminho e do lado de fora, Bella deu de cara com mais pessoas.
O chão estava coberto de neve, mas aquilo não era desculpa para que os servos se mantivessem escondidos dentro do castelo. Havia duas mulheres rechonchudas enchendo baldes em um poço, enquanto trocavam mexericos vindos da cozinha. Também avistara alguns garotos de estábulos correndo de um lado para o outro, carregando fenos ou selas para os cavalos. Mas o que fez Bella arrepender-se profundamente de ter saído do castelo, foi o grupo de cavaleiros que treinavam em um ponto não muito distante. A maioria deles não notou sua presença, mas alguns lhe dedicaram olhares que a fazia corar como um tomate.
-Será que poderíamos ir para outro lugar? – Indagou Bella a velha senhora que ainda mantinha-se a seu lado.
-Contanto que não atravessemos as muralhas, podemos ir a qualquer lugar. – Respondeu Sue com um sorriso gentil – Temos um jardim na parte de trás... Gostaria de ver?
-Oh, seria fabuloso! Adoro jardins.
Sue deu outro sorriso para ela e a guiou pelo pátio, indo pelo caminho contrário ao que levava ao grupo de soldados que treinavam. Bella se sentiu grata por isso, mas logo decidiu que não tinha tanta sorte assim, pois ouviu uma voz grossa lhe chamando. Quando virou-se, deu de cara com Sir Eric. O jovem cavaleiro vinha correndo em sua direção e acenava de modo frenético para ela. A túnica que usava estava banhada em suor e seus negros cabelos estavam tão úmidos quanto.
-Milady! Fico feliz que tenha nos agraciado com sua formosura esta manhã! – Elogiou Sir Eric quando já estava perto o suficiente para lhe segurar a mão e depositar um respeitoso beijo nas costas desta. Bella não gostava daquilo. Estava muito próximo dela e a fazia sentir-se deslocada – É bom ver que a senhora está se recuperando bem e que resolveu dar uma volta pela propriedade.
-Sim... – Respondeu Bella tentando ser educada, mas sua voz saia tão baixo quanto um sussurro – É bom poder me levantar novamente.
-Será que milady e a senhora Sue me daria à honra de acompanhá-las durante este agradável passeio?
-Oh, seria bastante amável de sua parte! – Respondeu à senhora Clearwater com mais um de seus sorrisos gentis.
Durante todo o caminho, Sir Eric falou sem parar, enquanto Bella apenas fitava o chão, como se temesse o local onde pisaria. O trio avançava de modo lento, uma vez que graças à perna ferida, Bella mancava e a neve fazia com que a caminhada fosse um tanto escorregadia. Quando finalmente chegaram ao prometido jardim, ela sentiu o ar faltar a seus pulmões.
-Céus! – Exclamou com a boca aberta – Esse é o maior jardim que já vi em toda a minha vida!
De fato, pouquíssimas plantas cresciam naquela terra, pois o inverno ainda estava reinando. Mas a área dedicada ao jardim era três vezes maior do que a área dos jardins de Forks, e cinco vezes maior do que os jardins do convento. Também podia se ver árvores frutíferas por todos os lados, mas estas estavam desprovidas de suas folhas e de seus frutos. Aquilo deveria ser magnífico durante a primavera!
-Não compreendo... – Disse enquanto tornava a analisar todo o terreno cercado – Por que tanta terra fora desperdiçada com um misero jardim? Lorde Edward não possui camponeses para que plante para ele em suas terras fora da fortaleza?
-Sim, Masen possui duas aldeias que produzem todos os tipos de frutas e hortaliças. – Respondeu Sir Eric, parecendo sentir-se extremamente sábio – Mas Lorde Edward achou que seria melhor ter uma boa horta dentro de seus muros.
-Ainda continuo sem compreender, Sir. Para quê ter uma horta dentro dos muros se os camponeses devem um terço de suas colheitas aos senhores feudais?
-Tudo não passa de uma estratégia de guerra, milady. Se por acaso algum inimigo fizer cerco ao redor de Masen, ninguém poderá sair ou entrar da fortaleza. Portanto, não haveria ninguém para comercializar alimentos das aldeias para o castelo.
-Mas não é para isso que servem os celeiros? – Indagou Bella, agora olhando diretamente nos olhos azuis do cavaleiro – Para armazenar comida durante uma possível guerra ou durante o inverno? Ou não me diga que Masen não possui celeiros...?
-Oh, longe disto, milady! Temos um celeiro consideravelmente grande, e podemos estocar comida nele para os próximos cinco meses. Mas diga-me, o que ocorre se um exército inimigo monta cerco ao redor da fortaleza por mais tempo do que possamos esperar?
-Todos morreriam de fome! – Respondeu Sue intrometendo-se na conversa.
-Exatamente! É por isso que Lorde Edward ordenou que boa parte de nossas terras fosse cultivada, e que nosso celeiro e curral estejam sempre repletos de animais. Se por acaso um inimigo montar cerco ao redor da fortaleza, sempre teremos ovos, leite e hortaliças para comer. Alem disso, há três poços em Masen com água limpa.
-Seu senhor é bastante inteligente. – Disse Bella refletindo sobre aquilo.
-Oh sim, ele é! – Confirmou Sue veemente – Para se ter uma noção, Lorde Edward não permite que muitos servos vivam no castelo. Há apenas dezessete criados para realizar todas as tarefas domesticas, incluindo as funções da cozinha e dos estábulos. O trabalho é árduo, mas todos o cumprem com bastante eficácia, pois meu senhor não permite que preguiçosos vivam sobre seu teto. Ele faz isso por que se houver um cerco, não poderíamos alimentar muitas bocas.
-Compreendo...
Após toda aquela explicação, o passeio pelo pátio esterno deu continuidade. Bella já não achava a presença de Sir Eric tão incômoda, e vez ou outra até trocava algumas palavras com ele. O sol já se punha no firmamento, mas quando regressaram a entrada da fortaleza, o trio deu de cara com uma bela mulher que descia as escadas. Tinha por volta de seus vinte e cinco anos e deveria ser uma saxã pura, ao julgar por seus lisos cabelos loiros e seus rasgados olhos azuis.
Era tão deslumbrante que fez com que Bella sentisse inveja. Seu porte era austero e possuía um corpo bastante voluptuoso. Era tão alta quanto uma mulher poderia ser, e vestia uma elegante túnica púrpura por baixo de um pesado manto de peles. Bella a cumprimentou quando passou por ela, mas a mulher nada lhe respondeu. Apenas virou o rosto e continuou descendo as escadas, seguindo rumo aos estábulos.
-Nossa... Que falta de cortesia! – Comentou Bella enquanto observava a mulher sumir de sua vista – Quem era?
-Era Irina, – Respondeu Sir Eric, acompanhando a mulher com um olhar de desejo – a beldade que há dois anos vem esquentando a cama de Lorde...
-A cama de ninguém! – Cortou Sue de forma áspera – Agora é melhor você voltar para seus afazeres, Sir Eric. Devo levar Lady Isabella para seus aposentos, pois ela acabou de se recuperar e necessita de repouso.
-Sim claro. Foi um prazer dispor de sua companhia, milady.
Assim como antes, Sir Eric depositou um galante beijo nas costas de suas mãos. Após isto, Bella e Sue seguiram rumo à torre, e se puseram a súber todos aqueles malditos degraus. Quando finalmente chegaram aos aposentos de Lorde Edward, Bella sentia-se exausta, e acreditava que não teria força suficiente para jantar no salão principal, junto com todos os outros. Sendo assim, Sue ordenara que uma criada lhe levasse alguma comida no quarto.
Depois de ceia, despira-se e se pôs a pentear seus compridos cabelos, para só então deitar-se na enorme cama. Não demorou muito para que caísse em um exausto sono. Porem, fora acordada pouco antes do nascer do sol, com pequenas e delicadas mãos lhe tapando a boca.
-Não grite, milady! – Avisou a voz suave e enjoadamente doce – Acredite, isto é para seu próprio bem.
Não sei quem está mais ansiosa... Vcs ou eu hahaha Fico contando as horas para postar um novo capítulo :/
Os meus sinceros agradecimentos a Nanda, Nicole2712, Priscila, JOKB, Brenndinha Brandon Potter, Milena, Marjorie, Adriana Paiva e a Jana Masen ^^
Muito obrigada meninas, por me apoiarem...
Mal posso esperar por amanhã ;*
