CAPITULO NOVE
"Garota! Feche os olhos pela ultima vez, noites sem dormir daqui para a eternidade..."(No Fear, The Rasmus)
Rhaena sentia os músculos cansados e os olhos pesados. Ouvia o barulho dos homens levantando o acampamento, mas não conseguiu sair do lugar. Estava com sono, mas não pode dormir a noite, os pesadelos foram mais assustadores.
Dessa vez ela estava sozinha nas margens do Tridente em uma noite negra, quando dois cavalos cortaram o ar frio. Um garanhão negro – quase azul – galopava com um cavaleiro de armadura negra e capa vermelha. Rhaena reconheceu o estandarte da sua casa na placa de peito do cavaleiro. Pai, quis gritar, mas as palavras nunca saíram. Ela sorriu e observou o cavalo entrar na água, a menina se jogou nas profundezas negras na esperança de alcançá-lo, mas então uma égua baia e selvagem cortou sua frente. Um cavaleiro grande vestido de dourado e preto com um grande martelo de batalha. Baratheon. Pai, quis gritar novamente,cuidado. Seus braços batiam no ar e quanto mais ela se esforçava mais longe os cavaleiros estavam, ela gritava e mandava que parassem, mas sua voz não saia.
E ela acordou aos prantos, pouco antes de Robert Baratheon lançar o ultimo golpe em Rhaegar Targaryen.
Se sentiu idiota por chorar por alguém que nunca conhecera. Aliás, tudo que Rhaena sempre conhecera fora histórias, as únicas pessoas que sabiam da verdade estavam mortas e quem iria garantir ao mundo que ela era mesmo a filha de Rhaegar Targaryen? Que ela era da linhagem do dragão era inegável, mas de Rhaegar já era outra parte.
Depois ela sentiu raiva, raiva de todos os Baratheon e desejou que o rei estivesse vivo quando o primo tomasse Fortaleza Vermelha, que assistisse um a um seus filhos morrerem, sua esposa morrer. Mas então lembrou-se que se o Usurpador não estivesse morto, a guerra não estaria feita... Pelo menos não aquela. O que Robert Baratheon faria se descobrisse que o melhor amigo, Eddard Stark havia salvado uma Targaryen, que havia escondido a filha de Rhaegar com a – até então – violada prometida de Robert?
Tais pensamentos impediram que ela dormisse a noite toda, e agora encontrava-se em um estado semi catatônico, com bolsas escuras debaixo dos olhos e o rosto pálido. Com tristeza ela notou que sua pele vinha perdendo o brilho dourado que tinha quando passava os dias sob o sol de Myr. Ela gostava do tom dourado de sua pele, quem sabe voltasse algum dia para as Cidades Livres... Talvez mais cedo do que imaginava, dada a falta de apresso que Robb Stark possuía por ela. Rhaena esperava que quando Lord Stark voltasse para a família, ela fosse aceita mais facilmente.
"Ai está você, te procurei por toda parte." pode ouvir a voz de Jon, mas seu corpo recusou-se a virar novamente. "Tudo bem com você? Não deveria sair sem Lyla ou eu." repreendeu-a, aproximando-se mais, ajeitando o capuz da garota.
"Fico imaginando se foi aqui." falou com tristeza, encarando as águas que mesmo durante o dia ainda eram negras.
Rhaena achava o norte negro demais, e não acreditava que pudesse ter alguma parte nortenha, quando gostava tanto das cores e do sol na pele.
"O que?" Jon a olhou intrigado.
"Meu pai e Robert Baratheon." ela encarou o rosto de Jon, e ele pode perceber a noite mal dormida marcada em seu rosto.
Uma pena, pensou, são olhos tão lindos.
"Acredito que foi mais ao norte." ele falou, lembrando-se de quando passaram pelo local. "Você está bem?"
"Só estou cansada." respondeu, virando-se para o primo.
"Não dormiu bem?"
Ela balançou a cabeça negativamente. "Tive um pesadelo." falou casual.
Jon se aproximou e com um pouco de receio, tocou o ombro da garota. "Está tudo bem, você sabe que nada daquilo vai voltar a acontecer." tentou consolá-la, melhor do que fizera da ultima vez.
Rhaena olhou-o com um sorriso nos lábios. "Claro que não, você está aqui." Jon sorriu também, e ela deu de ombros. "Mas foi com meu pai dessa vez. Eu o via lutando contra Robert e tudo que eu podia fazer era correr e gritar. Mas ninguém aparecia para nos ajudar e quanto mais eu corria, mais longe eles estavam... Eu não pude salvá-lo." o lábio inferior tremeu, e ela engoliu o nó que se formou na garganta. Já havia chorado demais.
"Você não poderia salvá-lo nem se quisesse."
Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos. Rhaena abraçou o corpo antes de voltar a falar, sentindo a lã enroscar-se em seus dedos esfolados. "As vezes eu me perguntou qual a razão de tudo isso. Essa guerra não trará os mortos de volta."
"Eles mancharam nossa honra, cuspiram em nossa lealdade. Se não fizermos nada seremos uma casa fraca, e todas as outras irão perder o respeito por nós. Não poderemos trazer os mortos de volta a vida, mas podemos impedir que nos tirem outros"
"Eu sei disso. É só algo que eu penso às vezes, quando tenho saudades de casa." a palavra soou estranho para ela. Rhaena nunca pensou no casebre como um lar. Quando era criança, costumava sonhar que algum dia o pai voltaria para buscar ela e a mãe, feliz por tê-las de volta, e a levariam para morar em um grande castelo de pedra, com um jardim enorme em que pudesse caçar borboletas e libélulas, com bolos de limão embebidos em mel a sua disposição. Um lugar onde olhos lilases e cabelos prateados fossem comuns.
"E o que pensa no resto das vezes?" perguntou Jon, seguindo seu olhar pelas águas escuras.
"Em como eu queria que Robert Baratheon estivesse vivo, que sentisse a dor de saber que minha mãe preferiu fugir a ficar com ele." as palavras saíram ardendo em desejo de vingança.
"Se Robert Baratheon estivesse vivo os sete reinos não estariam em guerra." Jon respondeu, imaginando como tudo haveria de ser diferente se o rei nunca tivesse ido a Winterfell.
"Você acha?" Rhaena virou-se para encará-lo. "Minha mãe e minha septã ainda estariam mortas e eu ainda estaria vindo atrás do senhor seu pai. O que acha que Robert Baratheon faria quando soubesse de mim?"
Jon a encarou por um segundo e pensou. Ela já havia lhe dito aquilo e estava certa, afinal de contas. A guerra seria pior se Robert estivesse vivo. Ele era orgulhos demais para aceitar que Lyanna tivesse escolhido outro homem – um homem casado – para se entregar. Era orgulhoso demais para perdoar o amigo por ter escondido a filha do dragão. Estariam em piores lugares se aquilo tivesse acontecido. Jon sacudiu a cabeça levemente e voltou a encarar a prima
"Deixemos de falar besteira. O que está feito está feito. Essas hipóteses nunca se tornarão realidade, já que o rei está morto. Vamos voltar para o acampamento. Mais da metade do contingente já foi, precisamos nos mexer."
Rhaena virou nos calcanhares, olhando por cima dos ombros para as águas que lavaram a vida do pai e depois juntou-se a Jon. Um dedo gelado correu a coluna da menina enquanto ela caminhava.
"O que será feito comigo?" perguntou, fechando os dedos sobre as palmas machucadas, o linho pinicando a pele que começava a se curar. "Entendo que marcharão para Correrrio, certo?" Lyla havia comentado com Rhaena o destino que estavam para tomar, antes de Lady Catelyn retornar do castelo.
Agora, também, ela sabia o motivo do choro de Lyla, mas não se atrevia a tocar no assunto com Jon. Não cabia a eles.
"Lady Stark quer ver o pai, parece que Lord Hoster está doente. Robb irá deixar um grande contigente para trás, para cuidar de vocês duas." Jon explicou.
Rhaena sentiu o estomago se revirar aos pensar nos senhores e cavaleiros que ali estavam, jurados aos Stark. E eu não sou uma Stark.
Pensou em quem os cavaleiros protegeriam caso fossem atacados: a senhora Stark ou ofilhote de dragão, como já ouvira a chamar. Eram homens que, há quase dezoito anos haviam lutado pelo tio e por Robert Baratheon, que haviam assistido ao assassinato de toda sua família sem nada fazer.
"Mas eu não posso ficar sozinha." olhou em desespero para ele. De alguma maneira, no pouco tempo que se conheciam, Rhaena só se sentia capaz de confiar em Jon. Era como se já o conhecesse de outras vidas, de algum lugar distante.
"Não estará, serão trinta homens com Lady Stark e trinta com você. Lord Umber parte na frente para cuidar dos batedores Lannisters e depois nós seguimos, vocês devem ficar para trás do Bosque dos Murmúrios, onde ficarão seguras. Tudo vai ficar bem." ele sorriu a encorajando, mesmo que não acreditasse completamente naquilo.
"Não... Não posso, não consigo, Jon!" exclamou, o medo aparente em seu rosto fez Jon respirar mais devagar. "Não consigo confiar neles, só em você. Só você." Ela repetiu.
Jon apertou os lábios em uma linha reta. Ele também não confiava, queria ficar com ela. Proteger ela, mas Robb contava com ele, ele não queria desapontar o irmão ou parecer fraco e amedrontado pedindo para ficar para trás. Começaram a andar para longe das águas do Tridente.
"São bons cavaleiros, jurados aos Stark e ao meu pai. Você é família, querendo ou não é uma Stark. Precisa aprender a confiar neles, eu não vou estar aqui para sempre." Ele falou serio, fazendo a menina franzir o cenho. "Sou um homem da Patrulha da Noite, Rhaena."
A menina parou no meio do caminho e permaneceu observando o garoto. "Como?"
"Sou apenas um recruta ainda, por isso me juntei a Robb. Mas assim que isso tudo acabar, farei meus votos e serei um irmão negro da Patrulha da noite, cuidando para que caminhantes brancos e selvagens não atravessem a Muralha, em direção a Westeros." ele sorriu para ela, mas a expressão surpresa não saiu do rosto de Rhaena.
"Como pode...?" pediu consternada. "Como pode me abandonar quando prometeu estar sempre ao meu lado, tomando conta de mim?"
"Você não precisa de ninguém Rhaena, é mais forte do que pensa." Ele respondeu, indicando os machucados dela. Nunca havia visto alguém se recuperar tão rápido, se forçar tanto.
"Não seja ridículo, é claro que eu preciso de você. É o único em quem eu posso confiar, Jon. Não pode me deixar." lágrimas subiram a seus olhos e ela se sentiu idiota por chorar, ou por sua voz soar tão apelativa.
"Vamos parar, ok?" Jon olhou para ela severo, ela podia dizer quase irritado. "Chega de ficar imaginando como vai ser o futuro. Até onde eu sei, não ganhamos está guerra e podemos não sobreviver a ela mesmo que a ganhemos. Então vamos parar de nos irritar com um futuro que ainda não chegou e que pode nem chegar."
Rhaena engoliu o bolo em sua garganta mais uma vez e secou coma manga do vestido as lágrimas que se formaram no canto dos olhos. Jon estendeu o braço direito, indicando o caminho a seguir, e ela saiu na frente. Quando a avistou, Lyla soltou o pai e caminhou até eles com um ar preocupado.
"Lord Umber já partiu, não devemos ficar muito atrás. Meu pai cuidara de você e da senhora Stark." Ela falou, divergindo sua atenção de Jon para Rhaena.
Rhaena sorriu e eles pararam ao lado de um corcel baio com o pelo lustroso, quando ela ouviu alguém próximo engasgar. Virou-se e se deparou com um homem alto e encorpado, com uma barriga proeminente e grandes suiças brancas.
"Papai?" Lya chamou o homem, perto do cavalo em que Lady Stark já estava montada.
"Não imaginei que seria tão parecida com ela." O homem falou e Rhaena franziu o cenho, sem entendê-lo.
"Como?" a voz dela saiu em um fio.
"Lyanna. Pensava que Arya era a cópia escarrada dela, mas você..."
A menina sorriu para o velho imaginando o quanto ele havia conhecido sua mãe. Pela memoria fraca da mãe, ela julgava que nada tinha dos Stark em si. Jon interveio por ela.
"Sor Rodrik está com os Stark há muitos anos..."
"Quando jovem lutei lado a lado com Lord Rickard, que os deuses o tenham em bons olhos."
"É um prazer conhecê-lo, senhor." ela fez uma pequena reverencia e o homem sorriu. Era estranho ouvir alguém falar sobre sua mãe, seu avô. Ela tinha tanta vontade de conhecê-los que chegava a inventar historias para saciar sua ânsia. "Mas devo lhe avisar que és o único a encontrar qualquer semelhança entre eu e a senhora minha mãe."
"Que os deuses novos e velhos a abençoem criança. Não deixe se enganar pelos cabelos e pelos olhos, há mais de Stark em você do que pode imaginar."
O homem sorriu e voltou a falar com Lyla, de longe a menina notou que naquele momento ele era apenas um pai preocupado. Não parecia fácil ficar para trás enquanto sua criança partia para talvez nunca mais voltar. Pensou em seu próprio pai mais uma vez. Como será que ele se sentiu ao deixa-las para trás? Teria ele instruído a mãe quanto ao que fazer se ele não sobrevivesse? Teria ele lhe acariciado a barriga e falado com ela antes de partir? Teria ele sabido de sua existência?
Jon caminhou com ela até o cavalo, mas antes que ele a ajudasse a montar, ela jogou os braços em volta do pescoço dele e colocou-se nas pontas dos pés para abraça-lo. Os olhos úmidos. A principio Jon ficou parado, sem saber como responder. Não queria parecer inapropriado, mas ainda sim retribuiu o abraço.
Jon não se mexeu, e tentou ignorar as sensações estranhas e novas que lhe causava ter Rhaena tão perto de si. Ela cheirava a um longo verão sob o sol das cidades livres, cheirava como flores do campo que ele nunca havia tido o prazer de ver ou tocar, ela irradiava um calor que lhe fazia parecer com um verão nas Ilhas do Verão, no meio do deserto gelado que era o Norte. E ele sorriu, apenas para si, mas sorriu. Sorriu porque ela era família, porque ela era alguém que precisava dele – embora Jon achasse que ela precisava dele menos do que acreditava – e que poderia se apoiar nele. Que ele poderia se apoiar. Então pegou-se pensando na Muralha e achou-se egoísta por desejar que a guerra durasse tanto, só para que levasse mais tempo até que ele tivesse, de fato, de deixá-la para trás.
A menina se afastou sem dizer uma palavra, e Jon a ergueu como se ela não pesasse mais do que uma pena, colocando-a sobre a sela do cavalo. Ela tomou as rédeas nas mãos com cuidado, ela ainda tinha dificuldade para fechar as mãos e o corpo ainda estava dolorido. Não achava que aguentaria uma corrida tão dura quanto a que se erguia, mas faria o seu possível.
"Tudo bem?" Jon perguntou, observando-a.
Rhaena afastou os olhos das mãos e o encarou. "Sim, tudo bem."
"Nos vemos em Correrrio então." Ele sorriu um pequeno sorriso torto que a fez sorrir também, e depois se afastou.
Jon partiu junto de Lyla e Rhaena junto de Sor Rodrik e Lady Stark, e mais cinquenta cavaleiros.
Cavalgaram até algumas milhas do bosque dos murmúrios. As tropas haviam chego muito antes deles. Os primeiros raios de sol começavam a surgir no céu quando o ar se encheu de gritos. Por Winterfell, ouviu alguém gritar. Por Correrrio e Por Rochedo Carterly se seguiram. O som de metal estava longe e distinto e ela mal conseguia diferencia-lo. Mas ela conseguiu escutar uivos, e soube que pertenciam a Vento Cinzento, e não a Fantasma. Fantasma era um lobo quieto, ele preferia escutar a ouvir.
Lady Stark e Sor Rodrik tinham semblantes preocupados no rosto, a mulher parecia em agonia e Rhaena bem a entendia. O que fariam com eles, caso o filho não obtivesse sucesso em partir o cerco de Jamie Lannister? Levariam-nos como prisioneiros, matariam Robb por traição e talvez até mesmo seus irmãos pequenos.
Rhaena se sentiu egoísta, mas tinha mais medo do que aconteceria a ela. Alguém intercederia por ela? Sem os Stark, a única família que lhe restava estava além do mar estreito, e ela tinha serias duvidas de que Danaerys e Viserys Targaryen se preocupariam com ela. Ela havia fugido deles também, não é mesmo?
Estaria perdida, perdida e acabada. Abraçou o corpo, por mais que não sentisse frio. As feridas latejaram e ela desejou que Jon estivesse ali. Se ele estivesse ali talvez tivesse alguma esperança para ela.
Sor Rodrik pediu para que eles se retirassem, quando o som do metal ficou mais alto, mas Lady Stark se recusou a afastar-se muito do filho.
Rhaena fechou os olhos e tentou não pensar em tudo que estava acontecendo a sua volta, embora os gritos ainda chegassem aos seus ouvidos, mesmo que baixos, e o cavalo estivesse inquieto.
Não soube dizer quanto tempo ficou de olhos fechados, mas quando voltou a abri-los, o som de cascos e risadas enchia o ar. Olhou ansiosa a multidão que regressava, com Robb liderando-os. Ele tinha a armadura amassada e suja, assim como o rosto, mas não parecia machucado. Viu Lady Stark sorrir e chorar ao mesmo tempo, orgulhosa.
Mas os olhos de Rhaena permaneceram na coluna a procura de Jon. Sentiu que ia cair do cavalo quando finalmente o viu regressar, cavalgado duramente ao lado de Theon Greyjoy, e só então se deu conta de que ainda não havia encontrado Lyla.
N/a: ahhh, desculpem pela demora! Espero que gostem do capítulo. :B
E não esqueçam de comentar!
xo . xo
