10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ
Arashi Kaminari

Capítulo 10

Quatre e Wufei estavam observando, de longe, como Heero se saía na primeira tentativa de aproximação ao nojento e parecia que o tiro havia saído pela culatra. Tudo havia começado a dar para trás, a partir do momento em que Heero usou as cantadas baratas que eram muito utilizadas nos bares da região. As esperanças de Quatre já se iam pelo ralo, antes mesmo de começarem a colocar os planos mirabolantes de Wufei em prática. De qualquer forma, o árabe já estava esperando por aquilo. Era Duo Stratford de quem estavam falando, não de qualquer outro aluno. Por que ele era tão difícil? Se dependesse de Chang e Verona, nunca teria Mariméia para si!

– A gente está ferrado! – Quatre exclamou, exasperado.

– Ei, não. – Wufei lhe chamou a atenção. – Não quero ver essa cara derrotista. Quero ver você otimista.

– A gente tá fudido! – o árabe falou, com falsa empolgação. O que Wufei queria? O plano havia sido uma droga e ele queria que soltasse rojões por isso?

– Isso aí!

Às vezes não entendia o que se passava na mente perturbada de Wufei...

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– O que aquele playboyzinho disse?

Evan não se fez de rogado e perguntou, assim que Heero se aproximou dele. Se o japonês não tivesse o detido, teria partido a cara do paspalho do Trowa em duas num mero segundo. Uma merda achando que era gente. Aquele colégio estava cada dia mais decadente.

– Nada demais, além de querer que eu saia com aquele cara.

– Idiota. – Evan resmungou. Ainda não havia engolido a historia de não ter conseguido bater no mauricinho. Mas revanches à parte, o silêncio de Verona estava o encucando. Havia coelho naquele mato. – Você recusou, certo? – indagou como se a resposta fosse a mais óbvia do mundo. E pra falar a verdade, era. Um macho não iria aceitar uma proposta tão ridícula quanto ao do bicha do Trowa. Heero por sua vez, apenas acendeu um cigarro e fugiu do seu olhar quando seus olhos se encontraram. Ele não podia ter feito aquilo. – Heero!

– Qual é, Evan? – pela primeira vez, parecia que Heero e ele estavam se desentendendo por algum motivo que não tinha nada a ver com sua amizade e o pior de tudo; o pivô era o cara que os dois concordavam ser um dos mais escrotos da escola. O garoto de olhos azuis soltou uma baforada antes de prosseguir. – Eu preciso de dinheiro. Não quero que minha nova se mate por mim. Além do mais não preciso beijá-lo. É só levá-lo para passear e coisa e tal.

– É!... Um primo de segundo grau começou assim. Não via nada demais abraçar os amigos sem motivo aparente e acabou sendo abraçado por verdadeiros paredões. – o mais magro disse, com o dedo em riste – Hoje, ele se chama Villy Rainbow e é um dos travestis mais famosos da boate onde ele se apresenta.

– Você é trágico, cara! – o japonês acusou-o, dando a volta no veículo em direção ao banco do carona – Não é pra tanto. Basta liberar o caminho para o Donner sair com a irmã do cara. Tenho certeza que ele vai conseguir o que quer em dois tempos. – explicou, abrindo a porta do carro e jogando a mochila no banco de trás – Depois disso, eu dou um jeito de cair fora. – terminou, acomodando-se no assento. Evan seguiu seu exemplo e se acomodou no banco do motorista.

– Até lá meio mundo vai te chamar de florzinha.

– Será apenas mais um boato entre tantos outros. – Heero respondeu com displicência, passando a mãos pelos cabelos, enquanto soltava seu bafo em cima do espelho do lado do carona e limpava com o punho da camisa.

– Será mesmo?

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Entrou no banheiro para poder se olhar melhor diante do imenso espelho que havia lá. Encontrou Duo prendendo o cabelo num rabo de cavalo, depois de tê-lo penteado. Mariméia não podia negar que o cabelo de seu irmão era lindo, apesar de ser um pouco quebradiço.

Para um garoto, até que ele se cuidava razoavelmente. Exceto pelas suas roupas totalmente fora de moda, seu vocabulário extremamente formal e seu péssimo temperamento, ele poderia ser o melhor amigo de muita gente. Sem falar que ele poderia sair com muitas garotas se também quisesse.

Apesar de tudo, Mariméia não poderia negar que ele era lindo de qualquer forma mesmo. Duvidava que nenhuma garota tivesse se encantado com os olhos violetas que só ele possuía, antes dele ter soltado qualquer desaforo a desavisada.

– Duo, você por acaso já pensou num visual novo? Você tem muito potencial enterrado debaixo de toda essa agressividade. – indagou, pegando a ponta do rabo de cavalo do garoto e levantando-a até o alto da cabeça, para ele saber de qual parte estava falando que precisava de uma nova reformulação. Havia quase cinco anos que ele não cortava as madeixas.

– Eu não sou hostil. – Duo respondeu, jogando água no rosto – Sou irritado.

– E por que não tenta ser legal? As pessoas não sabem o que pensar.

– Ah! Esqueci. – respondeu com sarcasmo, secando seu rosto numa toalha. Enquanto sua irmã se acomodava num banco em frente ao espelho e começava a passar a escova no cabelo – Eu não me importo com o que elas pensam.

– Ah, se importa sim!

– Não! Eu não me importo. – o garoto sobrepôs a voz feminina com a sua, voltando-se à garota – Você não precisa ser o que as pessoas querem que seja.

– Mas acontece que eu gosto de ser adorada, obrigada. – ela disse com a voz calma, mas no mesmo tom em que ele havia usado, passando a mão pelo colar que estava em seu pescoço.

– Onde conseguiu as pérolas?

– São da mamãe.

– E você as tinha escondido por cinco anos?

– Não. Papai encontrou na semana passada. – voltou-se a ele, fazendo uma pose. Esperava que o irmão dissesse algo sobre sua aparência, apesar do gosto dele ser totalmente duvidoso.

– Você pretende usá-las agora? – ele perguntou num tom de mistura de espanto e acusação.

– Ela não vai vir aqui para pedi-las de volta. – a patricinha aumentou seu tom de voz para lembrá-lo do fato – Além disso, elas ficam bem em mim.

– Pode acreditar. Elas não ficam.

Duo nem deu chance para sua irmã rebater: saiu do cômodo pisando forte. Mariméia estava pronta para dizer que ele estava com inveja porque ela podia usar as coisas da mãe e ele não. Foi a sorte. Se tivesse tido a oportunidade, a garota sabia que mais tarde se arrependeria.

Se havia uma coisa que tirava Duo do sério; era falar da mãe. Ele sempre dizia que o pai ainda não havia superado, coisa que a irmã já havia percebido, mas a verdade era que ele mesmo não sabia como tratar o assunto.

Mariméia achava que, de alguma forma e por algum motivo, ele nem ao menos havia tido o trabalho de bater de frente com o problema e enfrentá-lo. Acreditava que ele só havia deixado de lado, esquecendo, ao contrário do que ele vivia pregando. Mas Duo parecia bem. Ao menos em comparação ao pai. Então não deveria se preocupar. Ele estava se saindo bem, fosse lá de qual forma que ele estivesse trabalho com aquilo.

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Era um lindo dia. O sol estava brilhando, os passarinhos cantando, sua mãe não havia reclamado... Milagre, não. Quase. Não era dia de aula. Mas mesmo assim, sua mãe gostava de reclamar mesmo quando não havia do que reclamar. A idade espiritual dela, com toda a certeza, não combinava com a física.

Aproveitou que ela precisava ir a lavanderia e disse que iria em seu lugar. Era uma ótima forma de sumir das vistas dela, sem dar chances para ela ter motivos para reclamar mais. E qual não foi a surpresa ao terminar de pôr as roupas para lavar, ver o carro do malévolo na porta de uma loja de música?

Deixou as roupas sob a supervisão de uma das funcionárias da loja, conhecida sua, enquanto caminhava até o carro a alguns metros dali. Só foi o tempo de encostar-se no automóvel, depois de dar uma bela olhada nele, e Duo saiu da loja com uma sacola nas mãos, verificando os cd´s que havia comprado. O garoto dos longos fios parou de imediato ao ver o duvidoso cara do colégio escorado em seu carro. Sua feição era a da mais pura descrença. Heero achava que ele devia estar pensando se estava se fingindo de louco ou se era realmente louco.

– Carro legal. Pára-lamas originais.

Ao ouvir o elogio do japonês, Duo ajeitou a sacola na mão e voltou a dar seus famosos passos impetuosos em direção ao garoto, esperando que Heero saísse do caminho entre ele e a porta do carro. Mas o dono dos orbes azuis escorregou pela lataria e se interpôs entre os dois.

Tinha que aproveitar momentos como aquele para pôr em prática suas táticas. O colégio não era um bom lugar para ficar cantando um garoto abertamente, ainda mais se ele fosse Stratford.

– O que é? Anda me seguindo agora? – Duo perguntou com certa impaciência.

– Eu estava na lavanderia e vi seu carro. Eu vim dizer oi.

– Oi. – disse de forma seca, esticando a mão, a procura da maçaneta da porta.

– Você não é muito de papo, é?

– Depende do assunto. Pára-lamas não me levam ao frenesi verbal.

– Não tem medo de mim, tem? – Verona não se deixou abater. Continuou como se nada houvesse acontecido, aborrecendo mais ainda o outro rapaz.

– Medo de você? Por que eu teria?

– A maioria das pessoas tem.

– Bom, eu não tenho. – se fosse outra pessoa, Heero teria continuado naquele joguinho, mas Duo era único e seus olhos também e naquele momento eles estavam lhe dizendo claramente que queriam passar com o carro em cima dele. Mudou de tática.

– Talvez não tenha medo de mim, mas já pensou em mim pelado, não?

– Que pretensão! Por que não vai procurar a sua turma? Melhor, por que você não segue uma garota?

– Já pensou, sim! – continuou a irritar o americano, fazendo com que ele demonstrasse sua raiva, sem perder a compostura.

– Ah! Eu sou assim tão transparente? Eu quero você, eu preciso de você, oh baby, baby.

Desistiu. O humor de Duo não estava dos melhores e parecia que sua presença estava fazendo-o alcançar níveis nunca antes superados. Afastou-se do carro, dando passagem ao rapaz até a porta. O possuidor dos olhos violetas a abriu imediatamente, sentou-se e acomodou sua compra no banco do passageiro.

Estava dando a partida no carro, quando um belo conversível vermelho, que parecia ter acabado de ser lustrado, parou no meio da rua. O dono nem fez questão de estacioná-lo apropriadamente e com isso, fechou a passagem para a saída do carro de Duo. Tal problema poderia ter sido resolvido facilmente, se o dono do conversível não fosse o maior inimigo de Duo: Trowa Donner.

– Ah! Qual é? Hoje é o dia dos idiotas? – o americano resmungou ao ver o latino descendo do carro – Ei! Se importa?

– Nem um pouco.

Heero achava que Trowa merecia uma medalha pela sua coragem. Enfrentar abertamente Duo e pelo o que haviam lhe dito, a guerra já perdurava há anos, era de uma valentia sem tamanho. Não podia negar que às vezes Duo quase o colocava para correr apenas com seus olhares, que eram mais mortais do que os das cobras que seu avô criava. Mas Trowa nem se importava. Rodou as chaves na mão e entrou na mesma loja que, há pouco, o americano havia deixado com uma sacola na mão.

O garoto da trança bufou em resposta e num acesso de fúria engatilhou a ré a todo vapor. Seu carro colidiu contra a lataria do conversível, deixando-a em frangalhos. Nem um segundo depois, Donner pareceu novamente na porta, xingando até a quinta geração de Duo pelo prejuízo que ele havia lhe causado.

– Seu cavalo!

– Ops! – Stratford limitou-se a sua falsa surpresa, enquanto morria de rir da cara de Donner, junto com Verona.

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– Ops? Meu seguro não cobre TPM feminina, muito menos a masculina, que ainda está em fase de testes.

Ótimo. Era o que faltava para seu dia ficar completo. Seu pai chegar e saber do acidente que havia causado ao carro de Trowa Donner. Não precisava de mais uma discussão em seu dia. Sua cota já havia se excedido há muito tempo.

Duo, que estava lendo uma revista sobre as melhores carreiras a se seguir, voltou seu olhar para cima, encontrando a face vermelha de seu pai. Ele devia estar realmente possesso. Era raro as vezes em que podia ver claramente uma diferença em seu semblante. Voltou seus olhos para a página da revista novamente, fingindo despreocupação. Não estava nem um pouco a fim de se mover daquele sofá, no qual estava tão confortavelmente lendo, para a sua cama por causa de uma bobagem à toa.

– Então diga a eles que eu tive um mal súbito, uma convulsão, sei lá.

– Isso tem a ver com a faculdade. Está me punindo porque quero que estude aqui perto?

Drama emocional. Como odiava quando seu pai fazia aquelas cenas. Ele – mais do que ninguém – devia saber que cenas tão melodramáticas não funcionavam com pessoas que sabiam conter suas emoções. Afinal, foi observando o pai que Duo havia aprendido a não agir impulsivamente em momentos inapropriados, apesar de parecer que fazia o contrário com freqüência.

Fechou a revista e a esmagou contra o sofá, quando sentou e apoiou as mãos no assento. Já que seu pai queria irritá-lo, ele também o irritaria. Treize sempre soube que nunca deixava por menos, nem com ele mesmo. Duo acusou-o:

– E você não está me punindo, porque a mamãe foi embora?

– É melhor você deixá-la fora disso, hein!

Pronto. O rapaz sabia ser bem cruel quando queria. Treize, apesar dos cinco anos que já haviam se passado, ainda não havia se recuperado da perda da esposa. Ao contrário do filho, que deu graças a Deus quando a mulher foi embora.

Duo havia perdido as contas de quantas vezes ela havia olhado para ele e dito que não estava pronta para ser mãe, que seu pai era muito bom para ela, entre mil outras mentiras. Mentiras que se provaram o que eram, quando ela se foi e deixou seu pai mergulhado na solidão – debulhando-se em lágrimas todas as noites da semana do dia 18 de novembro.

E Duo sabia que ao olhar para ele, para seus olhos, Treize sentia tudo o que ele havia sentido até aquele momento ressurgir. Não havia uma única pessoa que não comentasse sobre os seus olhos, ainda mais se tivesse conhecido sua mãe – a única mulher que havia conhecido com os olhos iguais aos seus.

– Ótimo! – disse, com um tom de voz alterado, levantando-se do sofá, jogando a revista no chão da sala durante o processo – Então pare de tomar decisões por mim.

– Sou o seu pai. É um direito meu.

– E o que eu quero não conta? – indagou com sarcasmo. Treize os havia criado com base nas escolhas. Ele sempre dizia que eram elas que construíam o caráter. E agora, ele queria construir o seu caráter por si só. Estava indo contra tudo o que ele vivia pregando todos aqueles anos.

– Só tem dezoito anos, não sabe o que quer e não vai saber até os quarenta e cinco e quando souber, não vai saber como usar.

– Eu quero ir para uma universidade na costa leste e quero fazer minhas próprias escolhas e quero que pare de controlar minha vida, só porque não consegue controlar a sua.

Ok. Admitia que havia pegado pesado. Pegado muito pesado. Mas estava cansado. Não era um fantoche que Treize podia manipulava a bel-prazer, muito menos uma criança que seu pai precisava ficar vigiando a cada passo que desse. Apenas queria exercer sua liberdade de expressão, aprender com seus erros e saber como devia controlar sua própria vida.

Sua vida era domínio seu, privado e exclusivo. Não queria dividi-lo com mais ninguém. Ainda mais com uma pessoa que só conseguia ver nele um fantasma do passado. Apegando-se a qualquer pedaço de nostalgia que ele podia vir a causar.

Será que seu pai não percebia que já não ditava as regras para ele fazia algum tempo? Duo achava que a ficha estava começando a cair naquele momento, porque Treize lhe olhou com uma cara de poucos amigos, apesar de pouquíssimas linhas terem se movido em seu rosto. Conhecia as feições do meu pai melhor do que os pacientes dele. Isso podia provar. Lia claramente em sua face: eu não esperava isso de você.

– Olha e sabe o que eu quero? – Treize perguntou, quando retomou o controle de si mesmo. Por alguns segundos havia ficado aturdido. Mas a droga do bip tocou novamente. Estaria sendo salvo pelo gongo? – Continuamos isso mais tarde.

– Eu não vejo a hora.

Discutir com seu pai era desgastante. Preferia discutir e até mesmo cair na mão mil vezes com o imbecil do Trowa do que debater com Treize Stratford. Sempre se sentia exausto e mal depois de discutirem.

Não esperou nem um segundo depois que o pai saiu da sala – dando uma passadinha no banheiro –, rompeu pelo portal da sala e estava preste a subir as escadas, quando sua querida irmã desceu correndo falando com alguém ao telefone. Provavelmente fofocando sobre a vida de algum infeliz, que no caso seria ele. Cortaria um dedo se não fosse Mandella do outro lado da linha.

– Você destruiu o carro do Trow?

A cara que Mariméia fez foi a de maior espanto, como se ela não esperasse aquilo dele. Até parecia que ela não o conhecia. Mas o que mais o havia irritado, não havia sido à fúria fútil que ela sentia por ele e sim, a forma como a qual ela desceu as escadas falando dele, desligando o telefone ao vê-lo e o impedindo de subir as escadas – colocando a mão em seu peito, empurrando-o. Quem ela pensava que era para me trata-lo de tal forma?

– É, parece que você vai ter que andar de ônibus.

– Além de ser completamente pirado, anda fugindo da realidade? – nem perdeu seu tempo respondendo. Livrando-se da barreira que ela havia feito, subiu as escadas rapidamente, não respondendo a pergunta – Pai!


Por Arashi Kaminari, 08 de setembro, 29 de novembro e 11 de dezembro de 2005.

Nota da autora:

Devido as freqüentes perguntas, aviso desde já que não haverá 3x4 nesta fic.

Eu preciso de ajuda quanto a alguns personagens, porque simplesmente não me lembro deles no anime. Se alguém puder visitar meu blog ( http / arashikaminari . weblogger . terra . com . br ) e dar uma olhada na listagem, eu agradeceria muito.

Dia 21 de dezembro entro de férias por aqui. Volto no início de fevereiro. Se esse capítulo obtiver um bom número de reviews até o final de semana, o capítulo 11 sai antes d´eu partir para as férias.

Abraços. Boas festas!