Capítulo Dez


Gale não dormiu bem essa noite. Ele levantou do sofá de madrugada e foi pra sua cama, mas isso não ajudou muito. Ele ainda estava preocupado com Annie e Finn.

Na manhã seguinte, enquanto preparava pra sair pro trabalho, ele estava com uma sensação ruim. Ele ligou pra casa de Annie assim que chegou no trabalho. Finn atendeu.

"Ei, garotão. Como você está hoje?" Perguntou.

"Bem. Minha mãe não levantou ainda. Acho que é por causa do aniversário do meu pai. Normalmente ela piora nesse dia."

"Vai ficar tudo bem pra você ir à escola?"

"Vai, sim."

"Vá direto pra lá. Quando sair da aula, liga pra mim no meu trabalho."

"Eu não tenho o número."

"Tem caneta e papel pra anotar?"

Depois de um momento, ele falou, "Agora sim, pode falar."

Ele passou o número pra o menino e Finn repetiu de volta pra ele. "Não larga desse número. Promete que vai ligar pra mim?"

"Prometo."

"Vá logo pra não chegar atrasado. Hoje é um dia importante."

"Eu sei."

"E não esqueça de falar com sua mãe antes de sair."

Ele murmurou, "Tá bom. Tchau, Gale."

"Tchau, Finn. Me liga."

"Okay."

Eles desligaram e Gale correu pro seu primeiro compromisso. Ele estava distante nas reuniões, tomando muito café e pensando mais no bem-estar de Annie do que nos projetos de reconstrução da Capital. Mesmo dez anos depois, a Capital ainda sofria com alguns problemas na estrutura que foram deixados pra ser lidados depois. O governo decidiu que o depois era agora.

Eles estavam trabalhando meticulosamente para destruir e remover alguns dos pods que ainda existiam na Capital. Todos foram desativados, mas ainda sim havia perigo. Todos evitavam as ruas que ainda tinham os pods.

Há apenas algumas semanas mais desses pods foram descobertos e desativados. E ainda há mais alguns por aí, mesmo depois de tudo o que aconteceu, quem imaginaria que Snow ainda traria problemas. Então, eles montaram uma estratégia pra trabalhar na reconstrução.

"Hawthorne, tem algo mais importante pra fazer?" A Comandante Cabot perguntou na mesa de reunião. Ela observou Gale o dia todo e cansou de vê-lo o tempo todo distraído e preocupado.

"Não, senhora." Ele falou.

"Então, você tem alguma sugestão?"

"Acho que está tudo em ordem."

"Ótimo." Ela voltou a falar com o homem que estava conversando antes de interromper os pensamentos de Gale, "Prossiga."

Gale tentou prestar atenção na reunião, mas ainda tinha alguma coisa que estava incomodando quanto a sua amiga que estava tão longe. Como será que ela estava? Será que ela conseguiu sair da cama?

Depois da reunião, Cabot pediu pra Gale ir até sua sala. Ela sentou atrás da mesa e apontou pra a cadeira na frente dela, oferecendo pra ele sentar. "Você está trabalhando em excesso, Hawthorne."

"Em excesso, senhora?"

"Quando foi a última vez que tirou uma folga? Um descanso de verdade?"

Ele pensou um pouco antes de falar, "Bom, acho que desde a Cerimônia na Capital, em fevereiro."

"Tem alguma coisa preocupando você?"

Ele olhou pra ela um momento antes de dizer, "Estou tendo uns problemas pessoais."

"Você quer tirar uns dias de folga e resolver isso? Deus sabe que você merece."

Ele soltou um suspiro, "Na verdade, isso seria ótimo."

Cabot sorriu, "Vou te dar três dias. E também pegue o domingo, que é de regra, mas que você quase nunca cumpre. Não quero ver você aqui antes da próxima quarta-feira. E se precisar de mais uns dias, ligue pra mim. Você não tem o hábito de descansar desde que veio trabalhar aqui. Desde quando eu era um soldado igual a você."

"Sim, senhora."

"Dispensado, Hawthorne."

Ele levantou. "Sim, senhora." Saiu da sala, foi pro seu escritório e começou a pegar suas coisas. Ele ia levar umas papeladas do trabalho consigo, pra não ficar por fora dos acontecimentos.

O telefone tocou. Gale olhou pro relógio quando pegou atendeu. "Finn?" perguntou. Ele podia ouvir a preocupação na sua própria voz. O que o garoto iria dizer?

"Oi."

"Oi, como foi seu dia?"

"Foi bom, eu acho. Todo mundo ficava o tempo todo olhando pra mim depois que anunciaram o aniversário do meu pai. E minha professora de matemática mandou eu ir sair da sala sem razão nenhuma."

"Eu sinto muito, cara. E sua mãe levantou?"

"Não. Ainda na cama."

"Tentou falar com ela?"

"Tentei, mas ela nem virou pra olhar pra mim."

Ele respirou fundo e falou, "Eu vou aí passar alguns dias."

O garoto ficou eufórico, "Sério?"

"Sim. Antes tenho que ligar pra saber que horas sai o próximo trem, mas estarei aí amanhã. Ligo quando souber a hora."

"Isso é ótimo. Espero que ajude."

"Também espero. Passei o dia preocupado com vocês. Tem certeza que vai ficar bem?"

"Tenho sim."

"Promete?"

"Prometo."

"Ótimo. Passa pra sua mãe, por favor."

"Ela não quer falar nada, Gale."

"Então só leva o telefone pra ela."

"Okay. Vou passar."

"Annie?" Gale falou gentil. "Annie, é Gale."

Não houve resposta, mas ele podia ouvir a respiração leve dela.

"Eu vou visitar vocês por alguns dias, tudo bem? Por favor, aguenta firme."

Ela sussurou, "É tão difícil."

"Eu sei. Só aguenta mais algumas horas que já estou chegando. Okay?"

Ela não falou mais nada.

Finn voltou pro telefone. "Ela concordou com a cabeça."

"Isso é bom. Estou ligando agora mesmo pra estação de trem e te ligo de volta."

"Vem logo, Gale." De repente o garoto estava desesperado.

"Eu 'tô indo, amigão."

Ele ligou pra estação.

"Quero comprar um bilhete pro próximo trem para o Distrito 4."

O homem que atendeu disse, "Temos um saindo em duas horas."

"Perfeito. Vou comprar. Quanto tempo dura a viagem?"

"Por volta de oito horas, senhor."

"Então, vou chegar lá de uma da manhã?"

"Sim, senhor."

"Tudo bem." Ele passou seus dados pra o atendente e correu pra casa. Ele ligou pra Finn pra avisar. "Só tenho que encontrar um lugar pra dormir e não ficar vagando a noite toda num Distrito estranho."

"Você é bom com direções?" o garoto perguntou.

"Sou sim."

"Então deixa eu te dizer como chega aqui em casa. Aí você não precisa dormir fora."

"Okay." Ele sorriu, ouvindo atentamente enquanto Finn explicava o caminho da estação até a casa deles na Vila dos Vitoriosos. Gale repetiu de volta.

"Vou deixar a luz de fora acessa pra você saber qual é."

"Tudo bem, ótimo. Te vejo de madrugada, Finn."

Depois, ele ligou pra casa de Katniss. Peeta atendeu.

"Hey, Peeta. Katniss está em casa."

"Ela ainda está caçando."

"Okay. Bom, estou indo passar alguns dias no Distrito 4 pra dar uma olhada em Annie e Finn. Avisa a ela pra mim, por favor?"

"Sim, claro. Katniss me contou sobre o aniversário do Finnick."

"É. Finn ligou pra mim agora a tarde e disse que Annie não saiu do quarto o dia todo."

"Cuida bem dela, Gale. Ela precisa." Ele parou um momento, "Eu sei que perdeu Katniss, mas...não, espera, não me coloquei bem. Annie precisa de alguém estável como você. Ela nunca teve estabilidade na vida, mas a gente sempre está lá pra ela e pro Finn, por tudo pelo o que Finnick fez por nós. Ele salvou Katniss. Annie nunca foi a mesma desde que ele morreu. Então...cuide bem dela."

"É o que planejo."

"Vou avisar pra Katniss. Liga pra gente se precisar de alguma coisa."

"Ligo sim. Obrigado." Ele hesitou. Gale precisava chegar logo na estação, mas tinha uma coisa que ele queria dizer. "Você faz bem pra Katniss."

"Acho que a gente faz bem um pro outro."

"Isso é bom. Agora tenho mesmo que ir. Acho que a gente se fala depois."

"Sério?"

Ele soltou uma risada de leve, "Nunca se sabe. Vai ver que fomos grandes amigos em outra vida."

"E não acha que a gente pode ser nesta?"

"Você sempre foi um homem melhor do que eu, Peeta. Mais gentil com as pessoas." Ele admitiu calmo. "Adeus." Ele desligou antes que Peeta tivesse a chance de responder.

Gale juntou suas coisas numa mochila e saiu pra estação. Ele conseguiu pegar o trem logo. Acomodou-se para a longa viagem, abraçando sua mochila, olhando pela janela.

Quando o trem começou a sair, ele pensou no que Finn estaria fazendo agora. Será que ele estava bem? Ele queria falar com o garoto de novo. Será que Finn vai conseguir dormir esta noite?

Com o balanço do trem os olhos de Gale começaram a pesar. A falta de sono da última noite estava começando a afetar. Ele se permitiu dormir durante o resto da viagem.