Regina andava de um lado para o outro do apartamento, como se fosse uma tigresa selvagem enjaulada.

Aquilo era ridículo! Era apenas sexo.

Bem, não. Não era apenas sexo. Na verdade, não havia sexo nenhum e esse era o motivo de sua frustração. Desejava Emma. Estava completamente confusa com a loira.

"Será que ela é?" Não, não podia ser. Devia ter uns trinta anos. Seria impossível que nunca tivesse transado na vida.

No entanto, enquanto ela estava toda oferecida e desesperada pela jornalista, Emma parecia indiferente, desinteressada, sem tomar qualquer iniciativa. Não era surpresa que precisasse de um livro para guiá-la.

Desde a caminhada, no dia anterior, Regina sentia-se estranha, inquieta, como se fosse sair da própria pele, saltar de seu corpo tamanho o seu desejo. Era uma loucura. Normalmente, eram suas amantes que tinham que lidar com o descontrole, quando estavam com ela. Era Regina quem sempre dava as cartas.

Bem, não desta vez.

Continuava andando de um lado a outro. Perguntava-se se aquela sensação angustiante seria crônica. Não hesitaria em tomar uma pílula, caso houvesse, para apagar aquele fogo contido. Porém sabia que só havia uma cura para o seu mal. Fazer amor com Emma. Quanto antes, melhor seria.

Não estava nem aí para os capítulos do manual, não ia esperar até sexta-feira. Emma não queria umas lições para aprender a satisfazer uma mulher? Pois iria aprender a maior de todas as lições.

Era uma ótima professora e sabia disso. A loira, por sua vez, havia provado ser uma excelente aluna. Estava na hora de fazer o que se fazia com aprendizes avançados: acelerar na matéria.

Teria que planejar tudo muito bem. Não sabia como funcionaria com a loira, ela parecia tão tímida algumas vezes, teria que mandar uma mensagem impossível de ser incompreendida, mostrando que ela queria a loira da forma mais intima que se podia.

Parou de vagar como uma tigresa agoniada e esboçou um sorriso.

Foi direto para o banheiro e preparou um bom banho de banheira, com os óleos e as essências preferidas, sendo que um deles, o ylang-ylang, especialmente para ajudar a libido.

Emma iria aprender uma lição inesquecível.

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Swan estava incrédula com o desfecho do passeio, mas, de alguma forma, a frustração havia acabado se transformando em criatividade. Por duas vezes, depois de chegar em casa, tinha aberto a porta da saída, com o intuito de ir atrás de Regina. Já não estava nem aí para o livro.

Ainda sentia o fogo lhe queimando as entranhas. A morena havia ficado magnífica com os seios à mostra, iluminados pelo sol. Balançou a cabeça como um animal enjaulado.

Se continuasse em casa, sem dúvida, acabaria à porta da professora. Mas já havia ido longe demais e não podia desistir agora. Releu os capítulos três e quatro e tentaria usá-los ainda naquela semana, Até sexta-feira, com alguma sorte, já estaria brincando como gente grande, e finalmente, depois do capítulo seis, estaria no paraíso.

Tomou uma ducha rápida, vestiu jeans escuro, uma camisa clara e sua jaqueta de couro vermelha, inseparável, e foi andando até seu bar favorito a poucas quadras de casa.

O cheiro de cerveja, misturado ao dos famosos hambúrgueres do lugar, formava a combinação prefeita. O Laszlo's estava sempre lotado de gente bem-humorada e divertida. Sentou-se no bar, sem ignorar o número de mulheres que já se encontrava no recinto. Acenou para algumas pessoas que conhecia e pediu uma cerveja. Virou-se de costas para o balcão e ficou observando a movimentação, os diversos jogos de sedução que ocorriam concomitantemente, que ela já havia praticado tantas vezes e sobre os quais escrevera em seus artigos. Procurou uma mulher para que fosse a vítima da noite.

Do lado da porta da saída, viu uma de costas que lhe chamou a atenção. Cachos escuros e bem delineados, curvas generosas. Era alta e demonstrava confiança, mesmo não podendo ver o rosto dela, até parecia com... bastou cogitar a hipótese e a mulher se virou para falar com um cara ao lado, deixando claro que não era Regina. E então, ela soube naquele instante que nenhuma mulher naquele bar iria poder ajudá-la.

Pediu um hambúrguer, terminou a cerveja, bateu um papo com um colega que a cumprimentou e foi embora.

De repente, não se sentia mais animada para tumulto e azaração. Caso continuasse lá, acabaria levando para a cama a primeira mulher que encontrasse, o que não ajudaria em nada.

A loira queria apenas uma mulher. E, ironicamente, a havia rejeitado naquele mesmo dia.

Ao entrar no apartamento, sabia que não conseguiria dormir. Ficou zapeando os canais de televisão. Nada lhe chamava a atenção. Fez algumas flexões no tapete e vários abdominais. Percebeu que estava pensando em Regina e nos exercícios diários que ela fazia e no quanto desejava que ela estivesse por debaixo da loira, naquele exato momento.

Era cedo demais para ir para a cama e no único lugar onde queria estar — no apartamento do andar de cima —, então a loira abriu o arquivo do romance inacabado. Fazia tempo que não trabalhava no texto, principalmente por causa do guia, que havia consumido muito tempo para ser feito. Quem sabe naquela noite ela não conseguiria focar em algo que não fosse o desejo físico?

Sentou-se na cadeira e resolveu entreter-se com o livro por algumas horas. Era um romance de suspense psicológico, um projeto pessoal, que era levado a cabo entre um artigo e outro. Um dia se dedicaria apenas a escrever romances, mas, no momento, precisava do dinheiro que as revistas e jornais pagavam por seus textos.

Releu os primeiros quatro capítulos, até onde havia escrito. Havia parado na parte em que o herói, um policial estava a ponto de ter um colapso. Agora lembrava por que não tinha conseguido avançar. Havia posto o pobre coitado em um manicômio e não sabia como tirá-lo de lá... Parecia uma ironia do destino, pois, assim como o policial, Emma seguia as regras à risca, e agora precisava quebrar as normas para poder se libertar. Tinha que escapar da prisão que suas idéias preconcebidas haviam construído.

Claro! Subitamente, os dedos da loira bailavam em ritmo frenético pelas teclas do computador. Tinha que acompanhar a velocidade de seus pensamentos.

Em determinada altura, sentiu o pescoço dolorido. Olhou o relógio. Eram quatro da manhã. No entanto, não estava nenhum pouco cansada e o assassino estava prestes a atacar novamente. Uma das maravilhas de sua profissão era que ela podia fazer o próprio horário. Levantou-se, espreguiçou-se e foi até a cozinha preparar um café.

Em seguida, voltou ao trabalho.

Horas depois, o café havia acabado. Emma fez mais.

O tempo deixava de ter importância. O telefone tocou algumas vezes, mas ela ignorou. Seu herói ardia por justiça e por uma mulher — no caso a psiquiatra — personagem que, na história, era capaz de salvar ou arruinar com a vida do policial.

Emma fez uma pausa finalmente, sentindo os olhos dormentes. Os músculos estavam tensos, devido as horas em uma única posição e ao estresse de ter que lidar com assassinatos e com os problemas psíquicos de seu herói. Pelo menos, Swan já tinha novos e consistentes capítulos e um roteiro mais ou menos definido para o resto da história.

Recostou-se na cadeira e esfregou os olhos cansados. Estava satisfeita. Claro, não tão satisfeita quanto se tivesse passado a noite toda fazendo amor com Regina Mills, mas ainda assim estava feliz com seu rompante de criatividade. Ficou olhando a tela do computador e uma onda de alegria a invadiu. E se aquela história não fosse apenas um hobby? E se o que escrevia fosse um suspense altamente vendável e lucrativo?

Levantou-se, animada e zonza. Não virava a noite acordada desde a faculdade. Sete horas, mostrava o relógio. Por um instante bizarro, pensou que eram sete da manhã. Mas não, era noite. Ela havia trabalhado por mais de vinte e quatro horas, sem descanso. Havia ingerido café e nada mais.

Sorriu com gosto ao pensar que se continuasse tentando evitar a vizinha de cima, acabaria terminando uma série de histórias de suspense.

O estômago chiou com a falta de alimento e o excesso de café. Swan costumava comer bem, com pequenos intervalos. Precisava de uma comida decente, de um bom banho e de sua cama.

Sem pensar muito, saiu para comer algo. Sentia-se como uma sobrevivente de um acidente de avião, no meio de uma terra estranha e exótica. O corpo permanecia em Boston, mas sua mente estava no livro.

Ao passar pela padaria dinamarquesa, a loira se deu conta que havia ido longe demais. A padaria estava fechada. Os pães e tortas na vitrine fizeram o estômago revirar de fome. Resolveu voltar para casa, pois estava fraca demais para continuar procurando algum lugar. Tremia de fadiga e fome. Ao chegar em casa, arrastou-se até o chuveiro e resolveu ir a um bom restaurante antes de dormir.

O telefone tocou, enquanto ela abria a porta, sem haver decidido se iria pedir massa ou carne. Checou o identificador de chamadas.

Regina.

"Alô?" A voz estava incrivelmente rouca e Emma lembrou que não falava havia mais de vinte e quatro horas.

"Emma, é Regina." A morena soava estranha, Emma percebeu.

"Está tudo bem?" Indagou, franzindo o cenho, mesmo que a outra não pudesse ver.

"Preciso que você venha aqui agora." Foi tudo o que a outra disse antes que a ligação fosse interrompida.

"Regina?" Influenciada pelos assassinatos que a acompanharam durante toda a noite, Emma saiu correndo pelas escadas gritando o nome da morena. A porta da casa dela estava entreaberta. A loira entrou abruptamente. O assassino estava indo atrás da psiquiatra para atingir de maneira indireta o policial. Emma tinha que impedi-lo.

Foram necessários alguns segundos para que o pânico desse lugar ao assombro. Regina Mills estava no meio da sala de estar. Havia velas espalhadas pelo ambiente e um perfume erótico no ar.

Uma música suave tocava ao fundo, mas tudo aquilo foi registrado de leve na mente de Emma.

Pois Regina estava espetacularmente, gloriosamente, nua.