Primeira Parte

Capítulo dez - As Moiras.

Havia uma névoa com cheiro de temperos pairando na cozinha quando Core a atravessou. Já era noite, as velas da casa estavam sendo acesas – naquela noite, especialmente, havia na Mansão mais velas que o normal, todas emitindo uma luz amarelada e brilhante. Sob essa claridade apática, as marcas de choro debaixo de seus olhos salientavam-se, pareciam mais inchados e avermelhados. No entanto, as pessoas na cozinha estavam ocupadas demais fazendo o jantar de natal para perceber que ela estava chorando.

Core desceu a escada em caracol que ficava ao canto da cozinha e dava acesso aos quartos dos empregados. Aquela era a parte mais escura e quente da casa, e embora o ambiente fosse propício para ratos e fungos, todos os empregados admitiam que era melhor isso a morar na parte superior da Mansão, sempre tão fria e de ambiente tão estranho.

Para Core, a Mansão Malfoy era uma daquelas casas onde, quando todos os patrões morrem, ninguém quer comprá-la porque ela parece ser mal assombrada. A começar pelo fato de ser uma casa tão grande com somente três pessoas morando (excetuando-se os empregados, que praticamente não andavam pela parte superior da Mansão se não fosse para arrumá-la e limpá-la.), depois, a esposa do dono da casa era louca, o próprio patrão estava metido em histórias estranhas e funestas – vozes vinham do escritório dele durante a noite, e por fim, existiam alguns aposentos suspeitos na Mansão. Aquela sala de Cristais, tão misteriosa e hipnotizante... o quarto de Draco Malfoy, igualmente enigmático...a estranha relação dele com o pai. Mas talvez Draco fosse o menos absurdo dentre os Malfoy. Ainda que tivesse manias estranhas (como guardar quadros velhos e idênticos, mostrando sempre a mesma garotinha de aspecto doente, no compartimento acima de sua cama), algumas vezes ele deixava transparecer alguma coisa de humano nos gestos insolentes.

Ele havia lhe contado sobre as vezes em que achara que seria expulso de Hogwarts. Dizia que, se isso pudesse fazer com que Lúcio, de alguma forma, se aborrecesse, ele não mostraria resistência em sair da escola. Chegou mesmo a forjar situações comprometedoras, metendo-se em brigas e explodindo poções durante as aulas, mas esses acidentes geralmente não funcionavam e ele sequer recebia advertências.

"Quem sabe eu deva", disse Draco, deitado na cama com os braços cruzados atrás da cabeça. "esconder um monstro numa das salas de Hogwarts, como o guarda caças, Hagrid, fez?"

"Você não quer ser expulso de Hogwarts", ela replicou, espanando a fuligem acumulada na borda da lareira.

Ela sabia que ele gostava de lá. Ele lhe contava sobre as pessoas de lá, as aulas e as comidas, até deixar Core derretendo de vontade de conhecer Hogwarts. Somente ela sabia que ele não estudava num colégio interno para garotos na Inglaterra, como era dito a todos os outros empregados, e sim numa escola de bruxaria.

"É claro que não", ele respondeu, e depois ficou quieto e calado.

Talvez também existisse algo de humano por trás daquele casamento, uma razão sensata para ele não ter contado a ela que...

Core desabou na cama, acabando-se em lágrimas outra vez. Pegou o anel preso na cintura da saia e o fitou. Era um belo anel, com uma pedra branca como o leite e um minúsculo fecho na lateral. Core abriu o fecho com a unha. Uma luminosidade emanou de dentro dele. O veneno era prateado e parecia apenas um pozinho bonito e inocente.

Meditou um pouco sobre se devia ou não entregar o anel a Lúcio. O que ele faria com aquilo? Quem estava pretendendo matar com o veneno? Lúcio possuía poucos amigos e dezenas de inimigos. Seria provável que ele quisesse o veneno apenas como defesa.

Até agora Core não entedia o motivo daquele jantar na noite de natal. Durante os treze anos em que morava na Mansão, nunca presenciara nenhum tipo de comemoração, nem mesmo quando o Sr. Malfoy subira de cargo no trabalho. Eles detestavam aglomerações sociais, não suportavam visitas ou qualquer desconhecido na casa que não pudesse levar consigo alguma vantagem para a família. Entretanto, pelo que Core sabia, naquela noite várias famílias da vários lugares do Reino Unido iriam estar presentes na Mansão Malfoy, seria memorável na história daquela enorme e vazia casa.

Core estava tendo uma idéia. Ela vinha suavemente entre seus pensamentos, como se tivesse vida própria.

Levantou-se da cama e foi até os aposentos de Draco Malfoy.

Na claridade azul-néon das chamas encantadas da lareira, o quarto pulsava, frio e silencioso. Da porta, Core escutava movimentos. Deu alguns passos á frente e todo o quarto entrou em seu campo de visão: a cama alta e espaçosa coberta de cetim e veludo, encostada na parede, o gradeado ao redor dela, os biombos de ferro trabalhado no outro canto, as cortinas de veludo negro e macio, e Draco, que examinava meticulosamente uma mancha no terno entre tantos outros espalhados sobre a cama. As sombras ondulavam no chão, dando a sensação de que eram criaturas disformes se arrastando pelo piso de pedra polida.

"Você não esqueceu nenhum alfinete dessa vez", Draco falou, sem a olhar, com um pouco de decepção na voz rouca e preguiçosa, "mas resolveu mudar a estampa do meu terno para um malhado vermelho."

Core o observou. Ele não tinha mudado muito desde que o vira pela primeira vez. Na época, ele era um garotinho perverso de quatro ou cinco anos que repelia as babás e mostrava os caninos afiados para qualquer criatura que não fosse Lúcio ou Narcisa. Durante bastante tempo ele era igualmente impassível com ela, que achou que com o tempo ele a trataria com menos agressividade. Entretanto, a única coisa que o tempo trouxe foi a lição de que Draco não mudaria de atitude com o passar dos anos e, a não ser que ela fizesse alguma coisa rápido, ele jamais a notaria. O plano de Core era simples: descobrir um segredo dele e guardá-lo a sete chaves. De tanto escutar atrás das portas, Core um dia acabou ouvindo uma conversa sobre uma escola de Magia e Bruxaria, a qual Draco estava prestes a entrar. Seu coração disparou quando Lúcio disse a Narcisa "Ninguém vai saber disso, a não ser nós três. Tome cuidado e não fique tagarelando sobre esse ou outros assuntos nossos com Draco pela casa."

Algum tempo depois, quando Draco se arrumava para ir para a escola, Core desceu com sua mala.

"Gostaria de saber como são os feitiços", ela disse em voz baixa para ele, que se espantou.

"Quem lhe disse isso?", ele quis saber.

"Escutei."

"Vou dizer à mamãe que você sabe e sua família vai ser expulsa daqui", ele respondeu, simplesmente.

"Não precisa, juro que não contei e não vou contar a ninguém."

"Então, neste caso, só você vai ser expulsa."

Mas ele não fizera o que tinha dito que faria, e ela e toda a sua família permaneceram na Mansão. Core descobriu outros segredos tanto de Draco como dos Malfoy, e aos poucos, por guardá-los tão bem, ganhou a confiança de Draco que, num belo dia, ao voltar de sua misteriosa escola para as férias, atreveu-se a cumprimentá-la com um beijo na boca.

Ao lembrar do episódio, Core riu. Draco, largando o terno, virou-se para ela.

"O que foi?"

Estava lembrando de quando nos beijamos pela primeira vez.

"Ah", fez Draco. "Você quer dizer: quando eu beijei você pela primeira vez, porque você não moveu um músculo."

"O que você esperava?", contestou Core. "Era o meu primeiro beijo e você me pegou desprevenida! Aposto como não era o seu primeiro beijo."

Quanto a isso, Draco não respondeu.

"Mesmo que eu não tenha o beijado de volta", ela disse, "sempre vou lembrar daquele dia."

Nesse momento ela foi até Draco, que estava experimentando uma blusa de veludo negro e de gola larga, e o ajudou a enrolar as mangas da veste até o cotovelo dele. Depois continuou:

"Tenho a sensação de que algo desagradável vai acontecer hoje à noite."

Draco a olhou.

"Você está certa."

Mas Core não percebeu o que ele havia dito. Todas as vezes que via os olhos de Draco, de cor mais limpa que a água e ao mesmo tempo profunda como o abismo escuro que é o céu durante a noite, perdia o controle dos próprios gestos, movimentos ou pensamentos. Era apenas eles que existiam, lhe sorrindo maldosamente e algumas vezes chorando de ódio e sem lágrimas. Imaginava que ele não precisava de boca, de mãos, de sobrancelhas, de palavras, porque seus olhos diziam tanto e tudo que ele precisava exprimir, e no entanto também não diziam quase nada além do que já se soubesse: ele era apenas um garoto impassível demais.

Ao menos era o que todos pensavam. Mas como podiam pensar isso, Core se perguntava, se é tão claro que ele não é indiferente à dor, às alegrias ou aos desgostos, nem imune às paixões ou aos desejos? Draco era uma das pessoas mais sensíveis que Core conhecia, e felizmente nem todos percebiam isso.

Ela ficou na ponta dos pés, esticou o pescoço e pousou os lábios nos dele. Ele quase correspondeu... chegou mesmo a tocar no queixo dela...

"Certifique-se de que a porta está trancada, Weasley", ele disse. E no segundo seguinte corrigiu-se sem constrangimentos: "Core."

Core afastou-se dele bruscamente.

"Então é verdade", ela disse, num suspiro quase ofegante.

Draco franziu as sobrancelhas em confusão.

"Você está apaixonado por ela...", a voz trêmula e os olhos marejando. "Vocês vão se casar."

A gargalhada de Draco começou com um riso baixo e razoável, e foi se transformando num tormento insuportável para Core, que apanhou um candelabro de ferro sobre a lareira e mirou na direção do rapaz.

"Core!", vociferou ele, desviando-se do objeto, que foi se chocar na parede com um ruído oco. Em seguida ele avançou para ela, o rosto contraído de ódio.

Core soltou um grito de pavor e se encolheu contra as cortinas. Sentiu quando ele afastou suas mãos, que estavam em posição de defesa na frente do corpo, a segurou seu rosto com força, a obrigando a olhá-lo.

"Você parece ter esquecido", ele começou, a voz anormalmente calma e o olhar quase sereno, "que sempre foi uma serviçal. Deixe-me lembrá-la que, desde os seus doze anos de idade você trabalha exclusivamente para mim, uma vez que isso foi um pedido feito por você mesma à minha mãe. Desde então, Core, sua função aqui, o motivo pelo qual você vive, é me servir e não atirar candelabros ou qualquer coisa que seja em minha cabeça. Se você perde sua função, você não tem mais porque viver", ele fez uma pausa e a encarou. "Devo lembra-lhe que essas são as regras que nossa família impõe para todos os empregados, e todos estão cientes disso."

Ao terminar, ele a soltou e se afastou lentamente. Core tentava odiá-lo, mas quanto mais tentava, mais odiava a si própria. Mordeu a língua sem perceber enquanto ele segurava seu rosto, e agora sentia que sua boca se enchia de sangue, que ela cuspiu no chão ao passar por Draco e sair do quarto.


Gina desceu as escadarias com bastante cautela. Estava usando vestes muito estranhas e um salto particularmente alto, entretanto apenas havia aceitado aquelas roupas de Narcisa porque não tinha trazido em sua mala roupas apropriadas para um jantar daquela natureza. Enquanto Narcisa a ajudava a vestir o vestido, prender as fitas e moldar os cabelos, ia contando sobre todas as famílias que estariam presentes ali. Dentre todas elas, Gina tinha ouvido falar apenas de uma, os Estern, famosos por suas extravagâncias e também porque o nome da Sra. Estern (Agatha) sempre saía na seção iPoesia versus Versos,/i do iProfeta Diário./i Gina pouco se ocupava em ler os poemas de Agatha Estern, mas ao menos sabia o que podia conversar com a mulher se isso realmente fosse necessário.

Narcisa contou também que a filha mais nova dos Estern, Rebeka, era uma excelente garota e que seria maravilhoso se Draco se interessasse por ela, o que não seria difícil, ela ainda acrescentou, pois ela era encantadoramente bela.

Presumiu que alguns convidados já haviam chego quando escutou conversas descontraídas numa das salas ao lado do Hall. Gina atravessou o Hall, naquela noite excessivamente iluminado a ponto de ofuscar os espelhos e fazer as taças de cristal irradiarem brilhos coloridos, e aproximou-se da porta semicerrada de onde escapavam as vozes e as risadas calorosas.

Sem fazer ruídos, sem sequer tocar na porta, Gina espiou o ambiente lá dentro. Como desconfiava, os primeiros convidados estavam lá, sentados nas poltronas perto do fogo. A família Malfoy também estava toda lá, e era estranho ver Narcisa ao lado de Lúcio Malfoy. Os convidados ostentavam jóias exageradas e roupas dispendiosas; havia um senhor baixo e de olhar exasperado que trajava um interessante modelo de túnica, com uma blusa avermelhada por baixo e um cravo de pétalas bagunçadas no bolso da túnica. Ao lado dele, uma mulher conversava com Narcisa e era, em termos de elegância, muito parecida com a última, mas possuía os cílios demasiadamente longos que davam a sensação de poder alcançar a testa da mulher se ela arregalasse os olhos. Dois homens bebiam a um canto, ambos altos e de rosto ossudo, uma senhora bastante velha e com um coque grisalho na altura da nuca espetava palitos nos frios sobre a mesa enquanto conversava com Draco Malfoy. Ou pensava estar conversando, pois Draco não lhe dava atenção. Ele passou os olhos pela porta inesperadamente e viu o vulto de Gina espiando por ali. No instante seguinte ele estava indo até a porta e saindo.

Gina recuou para as sombras, sem saber que era para o escuro mesmo que Draco queria levá-la. Ele apanhou um candelabro no Hall e seguiram por um úmido corredor que provavelmente, pelo forte cheiro de condimentos, levava até a cozinha, porém, ao chegarem a um certo ponto dobraram e o cheiro foi se tornando cada vez mais leve.

"Aonde esse corredor vai dar?", perguntou Gina.

"Vai dar num lugar bem distante de qualquer pessoa nesta casa. Graças a Merlin você apareceu. Pode ser uma pergunta clichê, mas porque diabos as mulheres demoram tanto para vestirem uma mísera roupa?"

Gina não respondeu, continuou andando. Até que Draco estacou de repente e ergueu o castiçal no ar, aproximando-o da garota.

"Pare com isso Malfoy!", Gina censurou.

Draco estava tentando ver melhor o que significava aquele suave brilho que vinha das roupas de Gina.

"Onde está o veneno?", perguntou, deixando a roupa de Gina de lado.

"Está guardado comigo, em segurança", disse ela, hesitante. "Escute, sobre o que devo fazer... como devo fazer..."

"Você vai por a pílula na sua boca e quando Lúcio a beijar, vai empurrar a pílula para dentro da boca dele."

Gina fez uma careta de desgosto.

"Porque é que não fazemos o seguinte: Você o imobiliza, eu me aproximo e faço cócegas nele, até que ele grite de tanto rir, então jogo a pílula dentro da boca dele?"

Ela escutou Draco suspirar com irritação e impaciência. De alguma maneira ele parecia perigoso quando fazia isso. Ela achou melhor ter uma conversa mais tranqüila com ele.

"Malfoy, Lúcio tem idade para ser meu pai...", ela começou, a voz veemente.

"Eu teria muita sorte", replicou Draco, azedo.

"Acho que não posso."

"Infernos, Weasley, é só um beijo!", ele estava começando a se exaltar. "Se você não sabe como se faz eu ensino. É só um maldito beijo!"

"Não me interessa a importância que você dá para um beijo, mas eu não beijo pessoas que não gosto, e também não quero que você me ensine nada. Acho que podia pedir para que qualquer uma de suas criadas fizessem isso por você."

"Lúcio jamais beijaria uma criada", disse Malfoy, a voz ligeiramente mais calma.

"E o que o faz pensar que ele vai querer me beijar? Pansy Parkinson é amiga do filho dele, estuda em Hogwarts, você não acha que ele pensa nas conseqüências disso tudo? Da carreira dele no Ministério? Afinal ele não tem garantias de que Pansy não vai contar nada a ninguém."

"Quando se quer muito uma coisa, as conseqüências se tornam irrelevantes."

Gina riu.

"Porque Lúcio iria querer muito me beijar?", perguntou novamente, como se a situação fosse ridícula demais.

"Pela mesma razão que eu."

Gina ficou olhando a região escura de onde vinha a voz rouca de Draco.

"O que?", fez.

Ele indicou uma porta atrás dela.

"Vamos entrar", disse.

Entraram, Gina ainda confusa, então Draco, antes mesmo que ela pudesse evitar, ligou a luz.

Então ele pode ver com mais detalhes o que era aquele brilho tão suave que vinha das vestes dela. A saia do vestido de veludo negro resplandecia, uma fenda que se abria a menos de um palmo abaixo do quadril e seguia até o outro lado, em diagonal, deixava as pernas quase inteiramente expostas e fazia o branco da pele ressaltar como se tivesse luz própria, e o mesmo efeito se repetia na curva dos seios e no pescoço. Parecia que o veludo tomava todo o brilho da luz ao redor e estampava-o na pele da garota. O forro do vestido era de cetim roxo e aparecia atrás das pernas em numerosas camadas. Os sapatos tinham longas fitas que se cruzavam ao redor das panturrilhas até o joelho. Havia fitas negras que se misturavam aos cachos ruivos e perfeitos. Gina o olhava com os enormes olhos de boneca atônitos.

"Bem, você está parecendo a noiva do Chuck", ele disse, por fim.

"Eu não queria vest..."

Gina estava começando a contestar, quando uma voz grave veio como que das paredes:

"Para mim ela não podia estar melhor."

Os garotos se viraram. Nada havia ali no pequeno cômodo senão estantes profundas onde garrafas de vinhos se empilhavam umas sobre as outras. Se tratava de uma adega fria e úmida, onde podia-se escutar os ping-pings das goteiras e ver as rachaduras das infiltrações no teto.

Draco não estava surpreso com a voz. Parecia saber que a pessoa que falava estivera ali o tempo todo. Gina o fitou, desconfiada.

"O que está acontecendo?", perguntou em tom de desafio.

"Nada de importante", redargüiu Malfoy. "É Salazar."

Somente então Gina percebeu – realmente estava ali – entre uma das estantes, a jaqueta de brocado verde ressaltando-se na pouca claridade, a mão branca aparecendo, repousada sobre o punho da espada, na bainha da calça, o vulto grande do homem que era Salazar Slytherin.

Ele saiu das sombras, e sua pele parecia fantasmagoricamente branca como a de um defunto que recupera a vida. Segurava um grande e empoeirado livro nas mãos, e o abriu e começou a ler em voz sombria e limpa, enquanto circundava Draco:

" 'Sinistras são as figuras que presidem os destinos dos homens, decidindo sobre sua duração, sua profissão, seu casamento e sua morte. Nascidas pelo Érebo e pela Noite, às Moiras até o poderoso Zeus, Deus maior do Olimpo cujos gestos sacodem a terra, devia obediência. Cloto tece em sua roca o fio da existência, o comprimento é determinado por Láquesis com o auxílio de sua varinha. Com sua tesoura, Átropos rompe o fio, que se dissolve na própria fragilidade etérea'",ergueu os olhos de um azul infinito para Malfoy. "É importante que você saiba, meu amigo, que não será você o causador da morte de seu pai."

Gina encolheu-se como se o homem tivesse lhe ameaçado com o braço. Draco inquietou-se de repente, olhando para ela e depois para Salazar.

"Também não será você", fez o homem, desviando o olhar um instante para Gina. "Draco, aqui está a chave de tudo", pôs a mão sobre o livro. "Se você conseguir compreender que não pode manipular nada...entenda, é como números numa gigante análise combinatória: por causa de uma seqüência de números escolhidos e misturados, um outro conjunto de números está fadado a ocorrer; vai acontecer um dia, e não há nada o que fazer para impedir. A vida é como uma análise combinatória. Se você não matar seu pai, outra pessoa matará. Se você não for morto hoje, será em breve. A morte chega, isso é uma regra. Mas ela pode chegar antes do comum, isso também é uma regra. A sua regra. Não mudamos nada, não transformamos nada, não adiamos nem adiantamos nada; somos mediadores, apenas isso."

Enquanto Salazar Slytherin falava, os lábios de Draco se curvavam num sorriso sarcástico. Disse quando o homem terminou de falar:

"É bonita a sua maneira filosófica de isentar o ser humano das culpas. Mas suas palavras são desnecessárias, não pesa sobre mim o assassinato de Lúcio."

"Você ainda não o matou."

Gina, que até agora estava hipnotizada pela voz e pelas palavras de Salazar, desconcentrou-se com um pequeno sobressalto ao perceber que Malfoy aproximava-se dela. Ele lhe lançou um olhar sombrio, tocando em um gordo anel cacheado de cabelo ao lado de sua orelha.

"Lúcio Malfoy morrerá ou começará a morrer hoje", disse.

Os olhos de Salazar foram pousar em Gina. Mas quando ele falou, parecia não enxergá-la ali.

"Seria uma imensa contradição se eu dissesse que você vai causar muitas mortes hoje, Draco. No entanto é um incômodo para mim ver que você está cometendo erros, principalmente por não vê-los quando eles estão tão claros. É magnífica a idiotice do ser humano, e é linda a sua capacidade de odiar, como se seu ódio engolisse o cosmo inteiro sem sair do coração. Infelizmente estamos presos na condição de linhas, ou de marionetes manipulados pelas linhas...sim, realmente é uma perda de tempo a minha preocupação."

Draco balançou levemente a cabeça, numa expressão discreta de confusão. Depois virou-se para Gina.

"Onde está a pílula?"

Ela dobrou-se para frente, apalpando a região detrás da coxa. A pílula estava presa debaixo do fio de cetim negro amarrado em sua perna. Gina ergueu o veneno para que Draco o visse. Ele olhou novamente para Salazar, abriu a porta, segurou Gina pelo braço e a fez sair da adega, indo embora em seguida.

Gina ia empurrá-lo para longe, pois Draco segurava com tamanha firmeza seu braço, como se tivesse medo que ela evaporasse, que a machucava. Porém ele a largou assim que esse pensamento surgiu na mente dela. Percorreram de volta pelo corredor até o Hall, e durante todo o tempo ele nada disse.

As conversas das pessoas agora podiam ser ouvidas de longe, assim como o tilintar de taças, os ruídos dos saltos no soalho bem polido, as risadas, a musica...Talvez todos os convidados tivessem chegado enquanto eles estavam lá embaixo. Tinha parecido tão pouco tempo, mas certamente se passara quase uma hora, Gina podia desconfiar porque seu salto começava a incomodar.

De fato, o Hall estava bastante cheio quando chegaram. O brilho da luz parecia intensificado pelos cristais e pelas jóias das mulheres. Draco diminuiu o passo e aproximou-se de uma estátua junto ao pé da escada, olhando para dentro da massa de pessoas. Quando Gina parou ao lado dele, admirando em particular o contraste que era a Mansão Malfoy na penumbra e a Mansão Malfoy ofuscante de luz, ele inclinou-se apenas um pouco para ela e lhe disse em voz baixa e cava:

"Atraia-o para a biblioteca por volta da uma da manhã, quando o conclave já tiver terminado", acrescentou com zombaria. "Não engula a pílula."

Mas aquilo causou em Gina em temor visível o suficiente para que Draco risse.

"Escute, você não pode engolir a pílula", ele falou.

"Outras pessoas vão morrer hoje. Salazar disse."

"Ele não é profeta."

"Mas ele sabe! Malfoy..."

"Você engole a pílula se for estúpida o suficiente para isso. Vamos fazer um acordo, Weasley. Até agora você estava fazendo isso sem ganhar nada em troca. A partir de agora, se fizer, fica com a metade da minha herança e tira sua família da lama."

Ela franziu a testa.

"É pelo dinheiro?", perguntou, bestificada. "Você quer o dinheiro do seu pai?"

"Ao inferno com o dinheiro. Quero ele morto."

Gina o olhava. Seria isso? Se Lúcio morresse, com Narcisa impossibilitada de cuidar do dinheiro da família, todo ele passaria instantaneamente para Draco, filho único. Mas não fazia muito sentido, porque Draco tinha tudo o que queria com os pais vivos, que diferença fazia se estivessem mortos?

Seus pensamentos foram interrompidos por uma suave voz feminina:

"Boa noite", disse a voz.

Ambos olharam para as escadas. Vinha descendo lentamente por ela uma moça, mais velha que Gina, de notáveis cabelos negros feitos em ondas amplas e cachos que terminavam muito depois dos ombros. Gina não soube definir se ela era bonita demais ou fascinante demais, acabou resolvendo que qualquer um dos dois adjetivos a descrevia bem.

A moça parou no patamar próximo a Draco, ficando alguns palmos acima dele.

"Monsieur", disse, "é claro que é o filho de Lúcio e Narcisa. Não há no salão pessoa mais desprovida de cor no corpo."

Draco, diferentemente de Gina, não interpretou aquilo nem como um elogio nem como uma ofensa. Apenas disse "Boa Noite." sem qualquer conotação de emoção. Logo a moça retificou-se, tentando explicar melhor sua anedota.

"Olhos translúcidos que filtram a luz, e até mesmo uma alma, e a pele que poderia ser feita de papel sem que se notasse a diferença. Vejo transcrito cada pedaço de Lúcio e Narcisa em seu... rosto."

A moça poderia não saber, mas Gina sabia que aquele comentário não seria de todo aceito por Draco. Não deu outra.

"Você deveria não ter olhos."

Ela gracejou, descendo o resto da escada.

"Temos assuntos a tratar", disse, ignorando por completo o último comentário de Draco. – Sérios.

Gina os viu se afastarem na direção oposta á dos convidados. Ficou por um tempo parada ao lado da estátua observando as pessoas, algumas a olhavam e sorriam gentilmente, como se já a conhecessem, no que Gina acenava com a cabeça em resposta, tendo certeza de que jamais vira o rosto de nenhuma daquelas pessoas antes.