Desejos & Intrigas pertence a Anne Marie Wiston


CAPÍTULO DEZ

Depois de escurecer naquela noite, James voltou para sua casa. A agitação da imprensa tinha diminuído quanto à prisão de Marc e o seu caso e os poucos repórteres que ainda estavam no caso foram fáceis de ignorar.

Mais difícil era ignorar as dúvidas em sua cabeça. Como ela podia ter feito aquilo com ele? Amava-o mesmo ou estava só fingindo?

Depois de seu inacreditável encontro daquela tarde, ele tinha voltado depressa pelo mesmo caminho, a cabeça correndo, ansioso para voltar para casa e escrever. Teve um momento em que pensara: "Imagine o que Lily dirá quando..."

Tinha sido pego novamente. Ele não contaria a Lily.

O encontro extraordinário tinha afastado seus problemas por alguns momentos. Mas a lembrança da foto no jornal voltou, deixando-o novamente amargurado.

Algo o perturbava, algo além de sentir a falta dela, como de um membro amputado. Mais do que a traição, ainda viva, sempre que a lembrança voltava.

Ela dissera "eu também te amo". Ou era a melhor atriz do planeta ou estava sendo sincera. Não podia estar enganado. Deus, ela era virgem! Por que tinha deixado ir tão longe entre eles se ia terminar?

A única resposta é que importava para ela também. Mas, se fosse verdade, por que diabos ela concordara com o esquema do pai?

A única maneira de saber era perguntando. Olhou para o relógio, quase dez horas. Mas não importava, pois precisava descobrir o que havia na cabeça dela.

Pegou o telefone e ligou para a casa dos Evans. Ligou para a casa em vez de para o celular, pois sempre a via desligá-lo quando não esperava ligações.

— Residência Evans. — A voz era agressiva e James sentiu desconforto. Apostava a sua vida que falava com o próprio Evans.

— Aqui é James Potter. Por favor, posso...?

— Potter! — A voz foi explosiva. — Onde está minha filha?

James ficou atordoado.

— Ela não está em casa? Liguei para falar com ela.

Houve um silêncio pesado.

Em seguida, o homem perguntou, suspeito.

— Ela não está com você?

— Eu não a vejo desde que meu irmão foi preso. Desde antes de ler as notícias. Está me dizendo que não sabe onde ela está?

— Estou. — As palavras pareciam empurradas da garganta de Evans. — Nós tivemos uma discussão depois que ela viu o jornal, esta manhã, e passou o dia no quarto. Sem falar comigo. Tentei novamente na hora do jantar, mas ela tinha ido embora. A empregada disse que levou uma mala e pegou um táxi, mas não disse a ninguém aonde ia.

— E você não chamou o seu detetive particular para rastreá-la? — No instante em que falou ele lamentou, mas a raiva era muito grande para ser controlada.

Surpreendentemente, o pai de Lily não bateu o telefone, como ele esperava.

— Eu mereço. E posso garantir que a última coisa que faria seria chamar um detetive particular para seguir novamente os passos da minha filha.

Novamente. Um arrepio passou pela espinha de James ouvindo as palavras.

— O quê?

— Eu disse que nunca...

— Eu ouvi. Lily não sabia que tinha alguém tirando fotos dela?

— Não tinha. Na verdade, eu disse a ele, especificamente, sem fotos. Só queria saber aonde ela ia. Imagino que o desgraçado pensou em conseguir mais dinheiro, ao ver com quem ela estava.

— Lily não sabia sobre o detetive particular?

— Não. O que... inferno. — O pai dela parecia confuso. — Você pensou...?

— É. — James encostou a testa na parede, fechando os olhos. Deus. Ela tinha tentado explicar, mas ele não quisera ouvir. Seu estômago ficou embrulhado ao perceber o que tinha feito.

— Veja — ele falou ao pai dela. — Pode pensar em alguém que ela pudesse procurar? A única amiga que ela mencionou comigo foi Dorcas, sua companheira de quarto na escola, que mora em Paris.

— É, Doe. Ela também é a única que conheço — John disse. — Você acha...?

— Vou verificar os voos para Paris. Se ela não tiver saído de casa antes da tarde, provavelmente não pegou o voo hoje. Pode estar passando a noite num hotel, pretendendo partir de manhã. — James fez uma pausa. — O senhor pode ligar para Dorcas?

— Posso, mas o que tem em mente?

James respirou fundo. O pior que o homem podia fazer era recusar.

— Sr. Evans, eu amo a sua filha. Quero me casar com ela. Não sei exatamente como foi o relacionamento de vocês no passado, mas Lily quer... precisa... do senhor em sua vida.

— E eu a quero na minha! — Evans parecia desesperado. — Lily significa muito para mim. Mais do que eu sabia, até recentemente. Eu perdi a mãe dela quando ela era um bebê e isso... não deixou que Lily se tornasse importante, acho. Passei a maior parte da vida dela afastando-a e foi errado. Eu mal conheço a minha própria filha. — Ele limpou a garganta. — Quero outra oportunidade, se ela me der.

— Como eu — James falou calmamente. Houve um breve silêncio, quebrado por Evans.

— Talvez um Potter não fosse a minha primeira escolha para minha filha, mas ela diz que o ama. Se ela se casar com você, você tem a minha bênção.

— Bom. — James queria estar mais confiante. Temia tê-la magoado demais para merecer o perdão. Pensou novamente em Priscilla Carlisle, em seu ancestral e, subitamente, percebeu.

Ela passara muitas décadas solitárias procurando pelo que mais desejava.

Ele seria um idiota completo se passasse o resto de sua vida, ou mais, sozinho e infeliz por medo de tentar corrigir o dano que tinha causado, de tentar reivindicar a vida feliz que queria com Lily.

— O que faria para tê-la de volta? — perguntou. John não hesitou.

— Qualquer coisa. Até me retirarei da corrida ao Senado, se for preciso.

— Não creio que precise tanto — James até conseguiu sorrir. — Eis o que penso que devemos fazer — ele explicou ao pai da mulher que amava.


— Srta. Evans?

Lily ergueu os olhos da revista que olhara fixamente na última meia hora.

Estava sentada no saguão do aeroporto de Savannah, esperando pelo voo que a levaria primeiro ao La Guardiã, em Nova Iorque, e depois, por sobre o Atlântico, até Paris. Tinha chegado mais cedo do que necessário, porque não tinha outros planos e sua cabeça estava muito vazia para tomar decisões.

Mal tivera forças para pôr suas coisas na mala e sair do hotel onde se hospedara, na véspera, quando não tinha conseguido ficar sob o mesmo teto que John Evans por mais um minuto sequer.

E, diante dela, a funcionária do aeroporto repetia.

— Srta. Evans?

— Sim. Sou Lily Evans. — Pousou a revista do lado e ergueu os olhos, suspirando. A segurança era bastante rígida, por bons motivos, podendo ser dolorosa. O que estava errado?

— Srta. Evans, poderia me acompanhar ao salão VIP, por favor?

Lily pegou sua bolsa e a maleta de bordo.

— O que foi?

— Fomos solicitados a mostrar uma coisa — a mulher respondeu. Virou e começou a se afastar, esperando que Lily a acompanhasse.

Enquanto seguia a mulher, o rosto dela franziu, estranhando. O que podiam querer mostrar? Geralmente não era o contrário?

Acompanhou a funcionária do aeroporto por um longo corredor, para um salão vazio. A mulher indicou os lugares confortáveis espalhados e a cafeteira perto de uma parede.

— Por favor, sente-se e fique à vontade. — Apontou para a televisão na parede. — Verá num momento. — E saiu, deixando Lily sozinha.

Sem entender, Lily sentou obediente, se ajeitando, enquanto a televisão era ligada.

O canal foi trocado para um programa de entrevistas matinal que ela assistia com frequência. A sorridente entrevistadora falava para a plateia quando o som foi ligado.

— ...não sei quem disse que o caminho do verdadeiro amor nunca é suave, mas hoje, temos uma prova desse velho ditado. Nesta manhã, estão comigo dois cavalheiros que a plateia de Savannah nunca esperou ver na mesma sala, muito menos do mesmo lado de uma questão. Mas nesta manhã eles estão unidos por uma causa comum. Ajudem-me a dar as boas-vindas ao candidato ao Senado, John Evans, e a James Potter, o filho de Fleamont Potter, o principal oponente de Evans nessa corrida.

A plateia aplaudiu calorosa enquanto os dois homens, familiares ao seu olhar, entraram no estúdio, tomando seus lugares de convidados. Eles sorriam para a entrevistadora e pareciam incrivelmente à vontade entre si.

Lily não se moveu. Não podia. Seu olhar estava vidrado na televisão. O que estava acontecendo?

— Então — começou a entrevistadora —, por que não nos conta, John, o que o traz aqui hoje?

O pai dela sorriu. Estava mais velho e mais pesado do que quando ela era pequena, mas ainda tinha um pouco do mesmo carisma, que sabia usar.

— Bem, James me trouxe, literalmente. — Depois da gargalhada da plateia, ele continuou. — James e minha filha Lily estavam namorando e só descobri recentemente. — Suspirou. — Sei que Lily achava que eu não concordaria com sua aproximação com qualquer membro do clã Potter e, infelizmente, estava certa.

— Você não queria que ela saísse com James? — a entrevistadora perguntou.

— Eu nem sabia, mas fiquei preocupado porque, de repente, ela começou a ficar muito tempo longe de casa.

— Então o que fez?

Pela primeira vez, seu pai pareceu desconfortável.

— Contratei um detetive particular para saber aonde ela ia.

— Você contratou um detetive? — A mulher mostrou-se chocada. — Não é um pouco estranho? A maioria dos pais perguntaria às filhas, não é?

— Eu não sou como a maioria dos pais. — Era uma confissão, ele se remexeu. — A mãe de Lily morreu quando ela nasceu e eu... tive muita dificuldade para afastar a minha dor e cuidar de uma criança. Lily passou a maior parte de sua vida em internatos na Europa. — Ele balançou a cabeça. — Foi um erro e agora lamento.

— Sr. Evans, o que espera conseguir vindo aqui hoje com James Potter?

John abriu as mãos, em desespero.

— Eu quero outra chance. Gostaria que Lily soubesse que lamento pelos erros que cometi e quero garantir que gostaria de realmente conhecê-la.

— Como sabe que Lily está ouvindo?

— Não sabemos — James respondeu. — Achamos que ela pode ter sido informada para assistir, mas não temos certeza. — Seus largos ombros pareceram tremer.

— Sem contratar outro detetive, o que nenhum de nós quer fazer, não temos como saber onde ela está, a menos que resolva entrar em contato, certo? — John acrescentou olhando para James e ela ficou surpresa de ver o momento de entendimento entre eles.

— Tem que ser decisão dela — James concluiu.

— Há algo que queira falar que possa induzi-la a entrar em contato? — A entrevistadora pareceu dramática, mas James e seu pai não pareceram notar.

O pai dela olhou para as mãos e James balançou a cabeça.

— Lily, eu te amo. Nos dois a amamos. Seu pai e eu cometemos erros terríveis, mas estamos pedindo que nos perdoe.

Ao seu lado, John remexeu no bolso, tirando algo pequeno, que passou para James.

Era uma caixinha, que ela viu James abrir, falando.

— Este era o anel de noivado da mãe de Lily. Gentilmente, John me deu quando eu pedi a mão de Lily em casamento. Lily, quer se casar comigo?

Ela engasgou, as lágrimas rolando pelo rosto. O anel de noivado de sua mãe!

O quanto devia ter sido difícil, imaginou, para seu pai fazer tal gesto?

No estúdio da televisão, James sorriu direto para a câmera.

— Encontre-me em nosso jardim, Lily, e deixe-me pôr este anel em seu dedo. — O sorriso dele tremeu, mostrando ansiedade nos olhos. Ela percebeu que ele acabara de ganhar o coração de cada mulher assistindo.

Com certeza, deixara o dela tumultuado.

— Por favor?

A câmera se aproximou dele e virou para a expressão preocupada de John.

— Bem — falou a apresentadora —, certamente este foi um dos pedidos mais diferentes que já vi. Obrigada, senhores, por compartilhar este momento conosco e assegurem-se de nos contar a resposta da dama.

Quando o comercial substituiu o rosto dos homens que ela amava, Lily levantou e correu para a porta.


James andava no lindo jardim, atrás do Twin Oaks, pensando na noite em que tinham se conhecido. Os olhos de Lily brilhando nas sombras, tão linda e etérea em seu vestido branco que, mesmo depois de garantir que ela era real, ele ainda temia que fosse desaparecer.

E de fato, ela não tinha desaparecido de sua vida, por causa de sua desconfiança e estupidez? Não tinha certeza do que faria se ela tivesse ido para Paris...

E então ele a viu.

Descendo os degraus da varanda, usando um vestido leve e florido, que a fazia parecer tão exótica quanto o jardim em volta deles, Lily parou diante dele, a poucos passos, os enormes olhos de esmeralda fixos nos dele.

Não estava sorrindo e o coração dele murchou, se enrijecendo com o temor da rejeição.

Havia repórteres com câmeras na varanda. Ele tinha negociado que a conversa seria particular, em troca da visão completa do encontro, se acontecesse. De qualquer modo, eles teriam uma boa história.

Por um instante, ele não conseguiu falar e depois a verdade apareceu.

— Perdoe-me. Eu estava errado e não confiei em você.

Ela mexeu a cabeça.

— Aquilo doeu.

Para seu horror, ele sentiu os olhos cheios de lágrimas pela dor que percebeu.

— Acho que lá no fundo acreditei que eu não era muito interessante para prender você, que por isso deveria haver outro motivo para você estar comigo.

Ela começou a falar, mas ele ergueu a mão, interrompendo.

— Deixe-me terminar, enquanto posso. — Sua voz estava trêmula, mas ele não se importou. — Eu te amo. Você pode encontrar um jeito em seu coração para me perdoar?

— Claro que o perdoo, James. — Mas sua voz e expressão ainda eram sérias.

Pela primeira vez, ele percebeu que o perdão e o amor dela podiam não ser iguais, e seu coração pareceu de pedra em seu peito.

— Obrigada pelo que disse, seja o que foi, ao meu pai para trazê-lo de volta ao bom senso.

Ele se esforçou para se concentrar nas palavras dela.

— Não fiz nada. Ele a ama. Só não sabia como mostrar e, honestamente, acho que ele temia se preocupar demais com você. Perder a sua mãe quase o destruiu e ele não queria passar por aquilo novamente.

— Mas a vida é cheia de oportunidades.

— Agora ele sabe e está ansioso para recomeçar, do nada, com você.

Silêncio.

— A imprensa está na varanda — ele disse. — Eu tive que prometer, em troca do horário na televisão.

A sobrancelha dela se ergueu.

— O que você teria feito se eu não viesse?

Ele deu de ombros.

— Ele podiam rodar uma grande manchete, comigo fazendo o papel de tolo.

— Sorte sua que apareci — ela sorriu.

— É? Você ainda não respondeu.

— Qual foi sua pergunta?

Ele sentiu um toque de compreensão e o primeiro brilho de luz voltou ao seu mundo. Pegou a caixinha do bolso.

— Como parece que você viu a entrevista, sabe o que está aqui. — Ficou de joelhos. — Lily Evans, quer se casar comigo?

O choque deixou-a imóvel e fechou os olhos por um instante, e, quando os abriu, havia lágrimas neles.

— Sim — sussurrou. — Oh, James, sim!

Um simples e doce alívio passou por ele. Levantou e abriu os braços, e ela entrou neles sem hesitar. Seu corpo estava quente e suave, familiar, e ele apertou-a, buscando seus lábios.

— Eu pensei que tinha estragado tudo para sempre — confessou, beijando-a.

Um grito da varanda assustou-os.

— Bota o anel no dedo dela, Potter!

James sorriu, virando a cabeça, notando a invasão. Olhou-a, aninhada em seus braços.

— Posso?

— Eu gostaria de usar o seu anel.

Ele se afastou, abrindo a caixinha.

— Você viu toda a entrevista, certo? Então sabe onde consegui isto?

Trêmula, ela sorriu.

— Sim. Dizer que fiquei assombrada é pouco.

— O seu pai a ama — James falou. — E sabe que precisa se esforçar para mostrar isso. — Tirou o lindo brilhante rodeado de pedras menores e colocou gentilmente no dedo dela. — Este é um símbolo do nosso amor, mas também é um símbolo de família. A sua, a minha e a que, espero, formaremos juntos.

— Logo — ela acrescentou, enquanto eles olhavam para o anel.

— Tão logo quanto você quiser. — Ele apertou-a novamente. — Vamos sair daqui — murmurou com os lábios próximos. — Não quero uma plateia para o que quero fazer com você em seguida.

Lily riu.

— Por que acho que vou gostar? — Ela passou os dedos de leve pela nuca dele e sorriu, enquanto seus quadris roçavam nele. Ele tremeu, sentindo que o desejo corria por ele, e afastou a mão dela.

— Você nunca vai acreditar no que me aconteceu ontem — falou, guiando-a para fora do jardim, na direção do resto de suas vidas juntos.

FIM!


Respondendo aos reviews sem login:

MBlack: James realmente foi estúpido no capítulo e quase que Lily retorna para a Europa. Ainda bem que ele conseguiu reparar o erro dele a tempo.

Quero agradecer a todos que acompanharam e deixaram reviews. Espero que vocês tenham gostado.