Capítulo 10:
O pequeno embrulho rolou e bateu junto ao meu pé. Imediatamente apanhei-o e abri, revelando aos outros o seu conteúdo: uma pedra e, pelo lado de dentro do papel, numa caligrafia quase indecifrável, uma mensagem rabiscada.
Não podia crer no que meus olhos me revelaram e tive que rir. Mas ri com vontade.
"Qual foi a piada agora? " Dean me encarou, aborrecido "Só falta você me dizer que isso é um desafio para um duelo ao meio-dia, na rua principal.
"Como você adivinhou?" E fiquem sabendo que eu não estava tirando uma com a cara do meu irmão.
"Tá de brincadeira?" Com sua sutileza sem par, Dean arrancou o pedaço de papel das minhas mãos para conferir por si mesmo. "Isso só pode ser brincadeira."
"Pois a mim, não me parece." Morse declarou depois de espichar os olhos para cima do papel, lendo as inscrições.
"Senhores, nós não fomos desafiados. Eu fui." Samuel Colt se ajeitou, tomando o papel do amigo " A ameaça foi dirigida apenas a mim, logo, vocês estão dispensados deste embate."
"Sinto que a minha dor de cabeça vai piorar..." Dean esfregou as têmporas para aliviar a pressão.
"Mas você não pode enfrentar um demônio num duelo, meu amigo." Morse estava visivelmente preocupado. " Eu irei no seu lugar e não se fala mais nisso."
"De modo algum!" Colt dobrou o papel, guardando-o no bolso da calça "Você é um verdadeiro amigo, Morse, oferecendo-se para tomar o meu lugar, mas o fato é que o desafio foi dirigido a mim e um cavalheiro não foge destas questões de honra."
"Meu reino por duas aspirinas..." Dean revirou os olhos.
Até eu estava ficando com dor de cabeça àquela altura. Os dois homens estavam mesmo cogitando um duelo público com um demônio como se isso fosse a coisa mais natural e saudável a fazer.
"Está bem, chega" Meu irmão socou a madeira do tampo da mesa " Se o maluco do bigodinho está a fim de se matar no meio da rua, no fogo cruzado, por mim, tudo bem. Desde que essa 'coisa' morra e eu possa voltar pra casa onde estão os malditos analgésicos."
"Mas, Dean..."
"Dá um tempo, Sammy" Eu conhecia aquele olhar que Dean me enviou. Pude ler nas entrelinhas "O Colt aqui é crescidinho e sabe o que faz. Além do mais, ele tem a arma. Então, pra encurtar esse drama mexicano, ao meio dia ele vai lá, encara o capeta e o manda de volta, direto pro de papo."
Samuel Colt se impertigou todo e sorriu satisfeito com o apoio de meu irmão à sua heróica e louca decisão de assumir seu papel e salvar a nossa pele.
O sujeito voltou ao quarto onde estivéramos antes, arrastou a cômoda e retirou o tapete que cobria aquela parte do assoalho, revelando um pequeno alçapão. De lá, retirou uma bolsa costurada de couro e dela, a arma que tanto procurávamos e queríamos. Estava ali, bem ao alcance de nossas mãos todo o tempo.
Samuel – o Colt – recolheu-se em seu quarto enquanto nós nos reunimos na sala.
Colocamos algumas latas de feijão para esquentar sobre o fogareiro, enquanto ele descansava antes de enfrentar seu adversário. Vale ressaltar que eu já estava de saco cheio daquela porcaria de feijão enlatado.
Dean chamou-nos mais para junto da janela e iniciou uma conversa que veio a esclarecer o seu inesperado apoio à decisão de Colt. Eu sabia que ali tinha coisa. Nós ouvimos o que ele tinha a dizer e acertamos alguns detalhes para a hora do duelo.
0o0o0o
O dia estava bastante nublado.
Morse conferiu a hora em seu relógio de bolso e levantou os olhos na direção de seu companheiro que arrumava o paletó de seu terno, assim como o chapéu sobre a cabeça.
A arma foi depositada no coldre e saímos, os três, atrás dele.
Dean seguiu com Colt pela rua principal enquanto eu e Morse nos posicionamos na varanda do empório. Dali, teríamos uma boa visão de toda a ação e, segundo as instruções de meu irmão, assim que Colt disparasse, acertando ou não, Morse e eu entoaríamos o exorcismo romano que eu tinha escrito numa folha mais cedo.
Tudo parecia muito bem amarrado.
Com sorte, Colt daria cabo do demônio e nós dois poderíamos finalmente voltar ao século XXI e suas mordomias tecnológicas.
Quando Colt se posicionou no meio da rua, prendendo a aba do paletó atrás da cartucheira, as pessoas que passavam desapareceram para dentro dos prédios. Não havia viva alma para testemunhar o embate, exceto nós.
O sino da pequena igreja localizada no final daquela rua badalou doze vezes, anunciando que era chegada a hora.
As nuvens baixas e escuras davam um tom sombrio ao cenário. O vento soprou forte e três homens surgiram, virando a esquina, montados a cavalo.
Dean estava posicionado logo atrás de Samuel Colt. Ele não queria deixar passar nada e, se por alguma obra do acaso, o armeiro não atingisse o demônio, estaria perto o suficiente para se apoderar da pistola e terminar o serviço. Não poderia haver margem para erros. Tudo estava muito bem calculado e cronometrado.
O homem que vinha ao centro desceu do cavalo e parou a alguns metros de distância, sorrindo maliciosamente e, do mesmo jeito que seu oponente, arrumou-se para a contenda.
O xerife surgiu de dentro do bar, mas não deu meio passo para fora da calçada nem teve qualquer reação, como se estivesse envolvido num campo de força, ao movimento ínfimo do demônio encarnado num sujeito qualquer.
Toda aquela expectativa já estava me dando nos nervos.
Outra rajada de vento arrastou um tanto de feno, que atravessou a rua rolando. Tavez Charles Bronson entrasse pela outra esquina, com as armas em punho, para salvar o dia. Certo. Viagem minha, mas não me condenem. Muita pressão para ser absorvida assim, de repente.
Dava pra sentir meu coração pulando dentro do peito e toda a apreensão de Morse.
Sem qualquer aviso, ambos sacaram e dispararam.
Vi Dean atirar-se sobre Samuel Colt , ao tempo em que uma dor excruciante atravessava minha perna, levando-me ao chão.
Gritei com o impacto. Eu estava sangrando. Minha perna estava coberta de sangue e eu não conseguia entender o que havia me atingido, nem sequer me manter de pé e caí.
Minha visão ficou rapidamente embaçada e, por um momento, acreditei que perderia a consciência, mas Dean já estava junto a mim me sacudindo e falando, ao mesmo tempo que Morse. Ficou tudo muito confuso.
Por cima dos ombros de meu irmão, por um momento, percebi um brilho amarelo nos olhos do homem que enfrentava Samuel colt e, em segiuida, os rolos de fumaça negra se desenrolando pelo céu nublado.
"A pistola, Dean." Eu estava cheio de dor, mas não ia perder o foco do que era importante ali "Você a pegou?"
"Esqueça isso agora, Sam" Meu irmão já tinha rasgado o tecido junto ao ferimento e sua cara não era das melhores " Fique quieto. Eu preciso ver como você está, garoto."
"O exorcismo " Morse estava meio paralisado e parecia não me ouvir. Esquecera-se completamente do exorcismo "Leia antes que eles saiam totalmente"
Mas era tarde. Os demônios evaporaram-se no ar, deixando para trás três corpos sem vida.
Eu estava me sentindo fraco. Estava ficando zonzo e muito enjoado.
Senti a pressão do cinto de Dean acima do meu joelho, improvisando um torniquete e gritando para que alguém fosse buscar um médico.
Apaguei totalmente quando Dean e Morse me levantaram pelos ombros.
0o0o0o
Quando acordei novamente, estava deitado sobre uma superfície dura no meio de uma grande sala, cheia de gente. Depois fiquei sabendo que fui socorrido sobre as mesas do bar.
Havia um bocado de gente ao meu redor e Dean continuava a esbravejar. Minha perna doía, latejava e queimava como o inferno. Eu só queria ter forças para levantar dali e sair do meio daquela confusão.
Dentro da minha cabeça só conseguia pensar nos olhos amarelos daquele maldito demônio. Desde o começo, desde que Colt tinha construído aquela arma, o desgraçado o tinha marcado.
Finalmente um homem apareceu com uma maleta e dei graças a Deus por isso. Um médico, afinal.
Oh, mas não façam essas caras de alívio porque, com a sorte Winchester,
meu problema não poderia ser assim tão fácil de resolver, acreditem.
Pois bem, eu já estava a ponto de apagar outra vez quando o xerife entrou e colocou a multidão para fora.
"Rapaz," o médico coçou atrás da cabeça, fazendo as sobrancelhas de Dean passearem pelo seu rosto "A situação aqui está deveras complicada. Infelizmente não há nada que eu possa fazer"
"Como assim?!"Dean estava ficando meio desesperado, pude ver "Você é o médico, faça alguma coisa ou ele vai sangrar até morrer!"
"Sinto muito, meu jovem" o sujeito colocou suas coisas de volta na maleta e foi se afastando, quando meu irmão o prendeu pelo braço, engatilhando sua arma de encontro à barriga avantajada do outro."Não há necessidade de violência!"
"Pois então volte pra lá e dê um jeito na perna do Sam ou vão precisar de um barril pra juntar toda essa banha que vai se espalhar pelo chão"
"Eu arranco dentes, costuro cortes e ajeito uns dedos quebrados, moço. Não sou um médico cirurgião. Sou apenas o barbeiro e o jovem ali necessita de um médico de verdade para amputar a perna, compreende?"
"Amputar, o que??? Ninguém vai amputar coisa alguma, muito menos a perna do meu irmão, seu idiota!" Dean esfregou a mão pelo rosto, meio que buscando uma saída para aquilo tudo " Eu não acredito nisso" Está certo, vou confessar, com ou sem dor, não foi só ele que entrou em pânico nessa hora. Eu já estava me vendo sete palmos debaixo da terra, senão pela hemorragia, pela infecção que viria, sem nenhuma dúvida.
Dean soltou o cara e veio para junto de mim. Arrastou uma cadeira e sentou-se, passando os dedos por dentro do cabelo. Eu não estava enxergando direito, é verdade, mas sabia o tanto de angústia, culpa e frustração que deveriam estar estampados em seus olhos. Eu conheço meu irmão.
"Sammy" Ele começou "Fique calmo, certo? Vou dar um jeito de cuidar de você. Só aguenta firme."
"Onde está a arma, Dean?" Eu não conseguia tirar aquela idéia da minha cabeça.
"Não se preocupe com isso agora, maninho. Colt está com ela. Temos coisas mais urgentes a fazer"
Foi nesse exato momento que Samuel Colt surgiu e, na hora, não entendi o motivo,mas meu irmão acertou-lhe um cruzado de direita que o fez voar longe depois que este cochichou algo em seu ouvido.
"Vamos, Morse, me ajude a levá-lo para o quarto dos fundos" Ouvi a voz de Dean comandar .
No tal quartinho, percebi o movimento de meu irmão e mais alguém organizando os apetrechos que havíamos preparado para executarmos o feitiço indicado pelo Brincalhão quando estivéssemos prontos para voltar ao nosso próprio tempo.
"O que está fazendo?" Segurei a manga da camisa de Dean.
"Vou levá-lo para casa"
"E a arma, pegou-a?"
"Não pense nisso agora, Sam."
"Dean, cadê a arma?" Puxei-o ,com o resto de minhas forças, mais para perto. "A arma?"
" Nós a perdemos, Sammy. Sumiu durante o tiroteio"
"Vá... procurá-la..." Aí eu já estava muito, mas muito enjoado. Meu estômago estava em ebulição dentro de mim.
"Nem pensar!"
"Por favor..." Colt tinha perdido a pistola. Nossa melhor chance de salvar Dean. Meu corpo inteiro tremeu. "Eu... espero aqui. ..Vá... buscá-la"
"Presta atenção, Sammy, eu não faço a menor ideia de quem possa ter levado a pistola, certo? Pode muito bem ter sido um daqueles malditos dos infernos ou qualquer vagabundo de passagem e não tem uma droga de um médico decente nessa porra de fim de mundo. Precisamos voltar e te levar a um hospital depressa. E isso não está em discussão."
E não estava mesmo.
Dean terminou os preparativos e empurrou Morse para fora do quarto, trancando a porta.
Eu apaguei outra vez e quando acordei de novo, estava num quarto de hospital, cercado de aparelhos e cuidados.
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É isso. Infelizmente não conseguimos trazer a arma de Samuel Colt e meu irmão ainda está contando os meses para sua jornada ao inferno.
_ Espere um momentinho, meu jovem. – um a senhora idosa levantou a mão e ajeitou os óculos sobre o nariz _ Ainda não entendi como você acabou baleado se nem ao menos participou do duelo!
_ Ah, eu não contei essa parte? – ela indicou que não, com um gesto da cabeça _ Dean contou-me quando voltamos que Colt errou o tiro e me alvejou. O sujeito era míope e não enxergava dois palmos à frente do nariz. Pensando nisso, acho que agora entendo porque Dean o socou no salão do bar.
_Mais uma pergunta, se não se importa? – a velhinha fez todo mundo se voltar para ela novamente _ Como seu irmão escapará dessa encrenca em que se meteu?
_ Nós vamos dar um jeito – Dean declarou depois de limpar a garganta_ Sam, o Bobby está reclamando outra vez.
_ Já terminamos aqui, Dean. – não tinha percebido a chagada do mais velho _Pode me dar uma mãozinha?
As pessoas foram se levantando e saindo da varanda de Bobby Singer, em meio às teorias que começaram a criar, liderados pela velhota curiosa, a respeito de como os Winchester livrariam o mais velho seu acordo maléfico.
_ Eu espero sinceramente que você não tenha uma recaída nesse seu momento Forrest Gump.
_ Penso que não terei.
_ Isso é bom. Vamos entrar para você se deitar e descansar um pouco.
_ Não começa a mandar em mim. Estou ferido, não inválido.
_ Enquanto tiver que carregar o seu traseiro pra cima e pra baixo, você fará o que eu mando, ou escondo suas muletas, idiota.
_ Dá pra sair da frente, Dean?
_ Vocês dois, imbecis, - Bobby gritou de dentro da casa _ podem acabar com essa bagunça e entrar de uma vez?! Quando pensam em dar um pouco de paz a esse velho? Mas que inferno!
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FIM
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N/As: Mais uma vez, temos que nos desculpar pela demora na conclusão deste texto. Coisas da vida. Fazer o quê?
Nossos mais sinceros e profundos agradecimentos aos que acompanharam, comentando ou não, o desenvolvimento deste nosso trabalho muito maluquinho, pela paciência e gentileza.
Um beijo enorme e um abraço apertado a todos! Até a próxima, se Deus quiser e os neurônios permitirem!
Crica e
