O Curandeiro

Evandro

Ele corria mata a dentro sem saber qual direção seguir. Era a pior situação possível. Por um lado ele queria encontrar ajuda, por outro tinha vergonha de se expor, já que não vestia nada. No segundo dia essa preocupação inicial pareceu perder importância. Só queria ficar o mais longe possível daquela maldita caverna. Evandro Martinez estava cansado e faminto, desde que fugiu há quatro dias não dormiu e nem comeu. Só não morreu de sede, pois bebia água da chuva. A sua sorte era que devido ao clima quente e úmido as chuvas eram muito recorrentes. A floresta tinha árvores grandes e era muito fechada. Evandro não fazia a mínima ideia de onde havia parado. Não existia esse tipo de vegetação perto de onde ele morava, a cidade do Rio de Janeiro. O verde parecia que não tinha fim. No quinto dia o cansaço venceu e ele deitou pela primeira vez. O solo estava molhado e fofo, era até gostoso deitar nele. Soma-se isso ao som dos pássaros que embalaram seu sono. Quando seus olhos estavam pesando e quase fechados o ex-pastor teve a sensação de que uma onça estava a sua frente. A visão era meio turva, por isso ele não tinha certeza se era real ou só sua imaginação. - Seria uma morte rápida? - Se perguntou. Se tinha que ser devorado melhor seria se fosse inconsciente. Como sabia que não tinha forças para vencer o animal em uma corrida nem se estivesse em seu melhor estado Evandro se entregou ao sono e deixou que seu destino traçasse seu rumo por ele. Se era para morrer ali que seja.

Quando Evandro abriu novamente os olhos deu de cara com uma luz suave e um ambiente muito branco. Na última vez que acordou em um lugar diferente acreditou estar no inferno, dessa vez pensou ter chegado ao paraíso. Assim como na caverna ele havia errado ao supor onde estava. Quando a visão melhorou Evandro notou que seu braço estava furado e recebendo soro. Seu corpo não estava mais nu, apesar de não estar muito vestido. Ele usava um daqueles camisolões de hospital. A cama onde deitava, seu leito, era macia e muito confortável. Tanto é que ele se entregou ao sono novamente e só procurou saber onde estava quando acordou pela segunda vez. Gritou por ajuda e uma enfermeira veio lhe atender.

- Que bom que acordou. - A enfermeira era jovem, bonita, morena, de cabelo liso. Parecia uma índia.

- Como eu vim parar aqui?

- Te encontraram desmaiado no meio da floresta sem documento, sem roupa, sem nada. O que aconteceu com você? - Evandro não sabia se acreditariam na história do cativeiro na caverna e das pessoas se transformando em goblins, por isso resolveu guardar aquela verdade só pra si. A enfermeira percebeu que ele não queria responder aquela pergunta então resolveu mudar de assunto. - Qual o seu nome?

- Evandro. Evandro Martinez.

- Me chamo Miranda. Qualquer problema é só me chamar. Você tem algum amigo ou familiar na cidade?

- Nem sei onde estou.

- São Jorge.

- Isso fica em que parte do estado? - Perguntou Evandro ainda achando que estava no Rio de Janeiro.

- Perto do Acre.

- Acre?! Em que estado estou?!

- Amazonas. - Evandro fez uma cara de espanto que deixou a enfermeira curiosa. - Onde você achava que esta?

- Deixa isso para lá.

Evandro ficou na cama por mais alguns minutos, depois lhe foi advertido que era bom ele caminhar um pouco, pois ficar muito tempo deitado poderia causar-lhe tontura. Ele então levantou-se da cama e, carregando o "cabide" do soro, foi passear pelo hospital. Seu camisolão estava bem preso, mesmo assim parte de sua bunda ficou exposta. Ele não notou ou simplesmente não ligou. Como no hospital cenas assim eram relativamente comuns, ninguém deu importância. Quando estava dando sua terceira volta Evandro é tomado por uma curiosidade. O quarto estava aberto e não havia ninguém por perto. Dentro dele um idoso que parecia muito combalido repousava. Querendo testar se seu dom existia mesmo Evandro entra no quarto e põe sua mão na cabeça do paciente. Ele não sabia como ligar seu poder, então fez a mesma coisa que fazia quando estava nos cultos. Disse algumas preces e fez pensamento positivo. O homem começou a tremer, como se tivesse sido atingido por um choque. Imediatamente Evandro se afasta, temendo ter piorado tudo.

- O que esta fazendo aí?!

- Eu? Eu só achei que...

- Sai! Sai! - Uma enfermeira gordinha entrou correndo no quarto e expulsou Evandro dali aos empurrões. Nada de muito grave aconteceu, mas Evandro não pôde deixar de se punir dando uns três tapas na testa. - Por essa eu não precisava passar! - Disse ao se lembrar do constrangimento.

Evandro voltou ao próprio quarto e a sua cama, não chegou a dormir, ficou um bom tempo apenas olhando para o teto e pensando na vida. Só receberia alta no dia seguinte e até então estava planejando o que faria para sair dali. Tinha que arranjar um jeito de voltar ao Rio. Mas sem dinheiro ou documento seria uma tarefa bem difícil.

- Que confusão é essa?! - Evandro vai para a porta do quarto atraído por uma gritaria. Gente chorando, outros sorrindo. Miranda passava por ali perto, fazendo com que Evandro aproveitasse para tirar a duvida com ela: - O que foi que houve?

- Um paciente nosso que estava em coma faz dois anos despertou. É um milagre, não? - Evandro aperta a vista e vê bem a cara do sujeito, era o velhinho que ele havia abençoado horas antes. Evandro ficou embasbacado. Realmente seu dom funciona.

Aquela noite o ex-pastor não iria conseguir dormir. Não por causa da preocupação, mas sim porque estava muito animado e até mesmo emocionado. Um peso foi tirado das suas costas. Ele não precisava mais se sentir culpado por enganar pessoas desesperadas, essa fase ficou para trás. Seu dom era verdadeiro, ele podia mesmo ministrar curas. Isso mudava tudo.

No dia seguinte Evandro fez uma ligação, pediu ajuda a um pessoal que há algum tempo atrás eram seus amigos inseparáveis, quase irmãos. Ele não saiu do hospital sem nada. Um dos médicos lhe deu de presente algumas roupas. Não eram muito novas ou bonitas, mas estava de bom tamanho. Antes de sair Evandro se despediu de Miranda e agradeceu a ela por tudo.

Evandro esperou por eles na pista de pouso da cidade. Não era bem um aeroporto, pois não tinha capacidade para muitos aviões. No horário marcado eles chegaram. Pelo visto estavam com mais sucesso do que nunca. Tinham direito até a jatinho particular, privilégio que pouquíssimas bandas tem. Evandro temia que ainda restasse algumas feridas da briga que tiveram, mas assim que os viu percebeu que tudo havia sido superado. Dentre eles havia um que Evandro não conhecia, na certa era o novo baixista que contrataram para suprir sua ausência.

- Não acreditei quando me contaram que você virou pastor. - James continuou na mesma, usando muito preto e mantendo o cabelo espetado. Ele era o vocalista do Mucosa Cerebral, o homem com o grito mais estridente que Evandro já conhecera.

- Cara, cheguei a pensar que vocês me deixariam na mão. - Disse Evandro que tentava disfarçar a emoção que já fazia com que seus olhos ficassem molhados.

- Porra nenhuma, uma vez Mucosa, sempre Mucosa.


Rodolfo

Antes ele só ficava no administrativo, mas com a saída de Evandro houve a necessidade de cobrir logo a vaga de pastor que sobrava. Rodolfo Assunção estava no púlpito fazendo um discurso cheio de energia. Aproveitando a tragédia que assolou a cidade Rodolfo falou sobre o dia do julgamento e a ameaça de Satanás. Inclusive culpando outras religiões, acusando elas de "mostrar o caminho errado" ou por serem "porta voz do capeta". Após o culto, alguns fiéis influenciados por sua palestra irão demonstrar todo o seu ódio pelas outras religiões citadas apedrejando seus templos.

Após concluir seu "trabalho" Rodolfo volta para sua casa. Não sozinho, levava consigo no seu carro duas garotas. Se diziam fieis, ambas casadas. Porém nem foi preciso muita conversa mole para fazer com que as duas cedessem. A mansão com vista para o mar foi um dos fatores que fizeram as moças aceitarem o convite. Rodolfo abre o portão de dentro do carro, era tudo automático. Após deixá-lo na garagem ele leva as duas garotas pelo braço para dentro da casa. Precisavam passar pela sala para chegarem ao quarto, mas tinha alguém lá para estragar tudo.

A excitação de Rodolfo passa assim que dá de cara com Evandro sentado calmamente no sofá da sua sala. - O que diabos faz aqui?! Você devia estar morto! - A reação escandalosa de Rodolfo assustou as duas meninas, principalmente porque ele insinuou que queria ver o sujeito morto. Elas estavam Dispostas a irem para a cama com um corrupto, mas com um assassino não. Isso seria demais. As duas foram embora por onde entraram, pela garagem, e Rodolfo nem deu importância para isso.

- Desapontado? - Perguntou Evandro, com o maior semblante de calma que conseguia disfarçar. Inclusive cruzando as pernas. - Desde o primeiro dia. Assim que você me convidou para fazer parte da sua igreja e eu entendi como ela funcionava eu percebi uma coisa: você não tem limites. É capaz de tudo. Só por curiosidade: algum dia você chegou a ter alguma fé genuína?

Rodolfo correu até um armário que ficava no canto da sala, abriu a gaveta, mas não achou o que procurava. - Esta procurando por isso? - Evandro tira de baixo de uma das almofadas do sofá um revólver. Era a arma de Rodolfo, a arma que ele desejava usar agora. Evandro a apontou para o seu ex-amigo e pôde ver a expressão de pavor em seu rosto.

- Por favor, me perdoa! - Em uma demonstração patética Rodolfo se ajoelha no chão e junta as mãos, como se estivesse rezando. As preces porém não eram para Deus, mas sim para o homem que segurava uma arma. - Eu faço parte de um grupo de gente importante, a mais importante que há. Eles podem te arranjar tudo. Dinheiro, poder, mulheres. Você poderá se tornar mais influente que... sei lá, o papa!

- Mas você é um pedaço de merda mesmo. - Evandro se levantou do sofá e caminhou até a saída, achando que Rodolfo já estava derrotado ele toma o descuido de dar as costas para o oponente. Rodolfo se levanta e o agarra pelas costas, na tentativa desesperada de roubar o revólver de suas mãos. Os dois se engalfinham no chão e começa um festival de tapas, socos e até mesmo mordidas. Valia tudo para ter a posse daquela arma que tinha o poder de sagrar um vencedor. Após muito tentar Rodolfo desarma Evandro e pega a arma. Iria atirar ali mesmo, a queima roupa, na cara de quem um dia já chamou de amigo. Evandro tentava se defender pondo a mão na cara do seu oponente, por instinto, sem ter essa intenção, ele acaba ativando seu poder. Rodolfo cai para trás e começa a se tremer como se uma descarga elétrica passasse pelo seu corpo. Evandro já havia visto aquele efeito antes, nas pessoas que obtiveram curas verdadeiras através dele. Mas e agora? Rodolfo não tinha nenhuma enfermidade. Não tinha do que se curar. Ou será que tinha?

Quando parou de tremer Rodolfo se levanta do chão. Ainda segurava a arma, por isso Evandro deu um passo para trás temeroso. Para sua surpresa Rodolfo olhou para o revólver em sua mão e o jogou fora, como se não fosse nada.

- Rodolfo?

Rodolfo senta no sofá e começa a chorar. Evandro fica por um momento sem saber o que fazer, por isso nada fez, apenas assistiu. Rodolfo chorava copiosamente, sem intervalo, sem conseguir parar. Passaram-se quase dez minutos e o choro não diminuiu a intensidade. Ele mau parava para recuperar o fôlego. Sentindo um pouco de pena por aquele homem Evandro toca em seu ombro como faria com um amigo que queria dar consolo. Evandro vai embora, sem deixar de desejar sinceras melhoras para a pessoa, que há pouco tempo atrás, queria ver em uma vala.