Capítulo X - Verdade

A semana que se seguiu não trouxe mais surpresas desagradáveis. Michael não deu mais sinal de vida, mesmo assim, Edward não baixava a guarda e não saía de perto de Bella. Ela procurava ocupar a mente cuidando de seus pacientes. Além disso, ambos haviam começado a selecionar os currículos para as entrevistas com os novos médicos e funcionários da nova ala infantil.

No sábado pela manhã, Edward, Bella e Brian fizeram uma visita ao parque Yost. Brian adorou sentar-se na enorme tenda em forma de tartaruga para ouvir as histórias contadas sobre a vida selvagem na região e brincou até adormecer exausto no colo do pai.

Bella passou o domingo na casa de Edward. Sentia-se segura e acolhida naquele ambiente familiar do qual há tanto tempo havia sido privada. A atenção e o carinho que Esme e Carlisle lhe dispensavam a faziam se sentir saudosa dos pais. Mas ela não estava triste, ao contrário, o gostinho de estar novamente no seio de uma família a deixava com o coração aquecido. Todos, principalmente Edward, faziam de tudo para que ela se sentisse em casa. E era assim que ela se sentia.

Após o almoço, Bella, Esme e Carlisle conversavam perto da piscina enquanto Alice e Edward corriam atrás de Emmett tentando jogá-lo na água arrancando gostosas gargalhadas de todos. Pareciam crianças. Esme, havia muito tempo, não presenciava um momento de alegria e descontração de Edward. Seu filho estava de volta e ela sabia que devia tudo isso a Bella. Aquele brilho que durante anos esteve apagado nos olhos de Edward tinha voltado com uma intensidade nunca vista.

Com o calor intenso, Bella entrou na casa para tentar aliviar os efeitos do sol forte sobre sua pele fina e clara. Tomava um copo de suco, recostada em uma enorme poltrona reclinável da sala de estar, quando sentiu uma presença atrás de si.

_ Psiu, tia Bella! – sussurrou Brian para que somente ela o ouvisse – Venha aqui!

Bella levantou-se da poltrona, aproximando-se do menino que pegou sua mão puxando-a na direção da escada que dava acesso ao andar superior da casa.

_ O que foi, meu anjinho?

_ Vem comigo! Eu quero mostrar uma coisa.

Bella deixou que Brian a guiasse escada acima. O menino a levou pela mão até seu quarto e pegou o porta-retratos no criado mudo ao lado de sua cama.

_ Eu queria que você conhecesse a minha mamãe. Ela não é linda? – disse Brian sorridente entregando o porta-retratos a Bella.

Bella sorria para o menino, mas sentiu-se gelada ao fitar a fotografia diante de seus olhos. Suas mãos começaram a tremer, seus olhos se encheram de lágrimas e seu coração bateu dolorido no peito ao reconhecer na foto a linda moça de olhos verdes que sorria feliz acariciando uma enorme barriga. Quando olhou de volta para o rostinho de Brian, Bella viu a expressão assustada com que o menino olhava para ela.

_ Tia Bella, você ficou triste? Não fica brava comigo, por favor! Eu só queria mostrar a minha mamãe! – ele disse com os olhinhos cheios de lágrimas.

Bella imediatamente abraçou o menino. Ela o havia feito chorar. Odiou-se por isso.

_ Meu anjinho, é claro que eu não estou brava com você! Eu adorei conhecer a sua mamãe! Ela é linda mesmo, assim como você! – sua voz saiu embargada.

_ Então por que você está chorando? – ele perguntou aos soluços.

_ Os adultos às vezes choram quando ficam felizes, entende? – ele assentiu com a cabeça – Então? Eu fiquei muito feliz por conhecer a sua mamãe. Foi por isso que eu chorei. – ela disse tentando se controlar.

_ Jura? – ele ainda estava triste.

_ Juro, meu anjinho! Eu amo você, meu querido! Eu nunca ficaria brava com você! Você acredita em mim? – ela perguntou.

Brian nada disse. Apenas assentiu com a cabeça, seus olhinhos ainda estavam úmidos. Bella continuou acariciando seus cabelos até sentir a respiração tranquila do menino. Ele havia adormecido. Ela o deitou carinhosamente na cama cobrindo-o com o edredom e deu-lhe um beijo terno na fronte antes de sair do quarto. Precisava sair daquela casa.

Bella desceu as escadas que a levariam de volta à sala de estar da casa dos Cullens. Aproveitando-se que o cômodo estava vazio, atravessou diretamente para a porta da frente e correu em direção ao seu carro. As ruas estavam vazias e ela pisava fundo no acelerador querendo afastar-se o mais rápido possível dali. Não conseguia compreender porque Edward havia escondido a verdade dela. Não podia aceitar que ele tivesse brincado com seus sentimentos durante todo o tempo. Ela foi somente uma substituta. Ele nunca a amou de verdade, somente via nela a imagem da mulher morta e achou que poderia reviver o grande amor da sua vida com uma sósia. Que idiota ela tinha sido! Se não fosse por Brian ela ainda estaria sendo enganada.

Edward já havia procurado Bella pela casa inteira. Nenhum sinal dela. Ninguém a tinha visto sair. Tentou ligar diversas vezes para seu celular, mas tocava até cair na caixa de mensagens. Não conseguia entender o que teria acontecido que pudesse tê-la feito ir embora sem avisar ou se despedir. Pensou na possibilidade de uma emergência com algum de seus pacientes. Chamou o hospital, mas lhe informaram que ela não tinha passado por lá. Ligou para Rose que não falava com Bella desde sexta-feira ao sair do hospital. Jasper estava de plantão. Jacob também não sabia onde ela estava. Voltou a insistir no celular. Nada. Decidiu então chamar o telefone residencial. Quem sabe Bella não tivesse ido para casa e esquecido o celular no carro? Ninguém atendia ao maldito telefone. Edward sentiu o sangue gelar em suas veias ao se lembrar do nome de Michael MacCalister. Será que ele tinha feito alguma coisa com Bella? Não podia esperar mais. Passou as mãos nas chaves do carro, pegou sua carteira e saiu de casa deixando Alice insistindo no telefone enquanto rumava para a casa de Bella. Precisava vê-la. Passaria a noite na porta de sua casa se fosse necessário, mas não voltaria para casa sem antes falar com ela.

O telefone fixo tocava insistentemente quando Bella entrou em casa. Passou direto por ele sem atender à ligação subindo as escadas no escuro. Em seu quarto, tirou as roupas, tomou um banho quente tentando relaxar a musculatura tensa, vestiu um pijama confortável e deitou-se na cama. Sua cabeça doía e ela fitava o teto com os olhos vermelhos e inchados pelo choro. Não conseguiria dormir, não sem antes tomar um remédio. Desceu até a cozinha, encheu um copo com água e engoliu dois comprimidos. O telefone não parava de tocar. Irritada, puxou o fio arrancando-o da tomada. Silêncio. Talvez agora ela conseguisse descansar. Subiu novamente as escadas e jogou-se na cama, enfiando-se debaixo do edredom. As lágrimas haviam secado. Só havia restado o vazio. Não demorou muito tempo até que os comprimidos fizessem efeito e Bella mergulhasse na inconsciência.

Naquela noite Bella teve diversos sonhos, alguns deles foram pesadelos. Mas um sonho em especial ficou gravado em sua memória.

Bella caminhava por um imenso jardim. O perfume das rosas vermelhas invadia suas narinas dando-lhe uma sensação de paz e serenidade. Ela fechou os olhos aproveitando aquele momento tão especial só os abrindo quando aquela voz que ela conhecia tão bem a chamou:

_ Bella? Eu preciso de você, minha irmã! – sua voz estava angustiada e seus olhos tristes.

_ O que há de errado? Por que você está chorando? – Bella se assustou.

_ Você me prometeu, Bella! Cuide deles para mim! Eles precisam de você! Eles te amam, minha irmã! – uma lágrima escorreu pelo rosto de Dorinha. – Eu preciso ir agora, não posso ficar muito tempo aqui!

Bella acordou com a imagem da irmã se desfazendo como fumaça diante de seus olhos. Por que diabos a irmã nunca dizia de quem ela deveria cuidar? Levantou-se da cama caminhando em direção ao banheiro. Precisava de um banho. Sob a água quente, lembrou-se dos últimos acontecimentos e as lágrimas voltaram com força. Ela sabia que tinha que reagir, precisava ter ânimo para trabalhar mesmo que isso significasse encontrar-se com Edward todos os dias. Não seria fácil olhar para ele sem deixar transparecer a mágoa que ela agora carregava, mas iria tentar.

O rosto atormentado de Edward foi tudo o que ela pôde perceber ao abrir a porta da frente quando saía para o trabalho. Ele trazia as roupas amarrotadas, a barba por fazer e o semblante cansado depois de ter passado a noite em claro do lado de fora da casa de Bella. Edward não deu tempo para que ela reagisse. Entrou pela porta fechando-a atrás de si enquanto Bella recuava.

_ Por que, Bella? Por que você sumiu daquele jeito ontem? – perguntou com um fio de voz.

_ O nome Isadora Swan diz alguma coisa pra você, Edward? – ela perguntou sem conseguir olhá-lo nos olhos.

_ Bella... – Edward não sabia o que dizer.

_ Por que você mentiu pra mim, Edward? Por quê? – a mágoa nos olhos de Bella fez com que o coração de Edward ficasse apertado no peito. – Eu tinha o direito de saber que a minha irmã estava morta! Você sabe o que é descobrir depois de sete anos que a sua irmã que você ainda tinha esperanças de reencontrar está morta? Eu tinha o direito de saber que eu não passava de uma substituta!

_ Substituta? – Edward não acreditava no que estava ouvindo – Bella, você está sendo absurda! Eu nunca pensei em você como uma substituta! Eu sempre fui sincero quanto aos meus sentimentos por você, eu juro!

_ É verdade! Você sempre foi muito sincero comigo, não foi? Na certa, você se esqueceu de me contar quem era a sua falecida esposa! – Bella disse com ironia.

_ Bella, pelo amor de Deus, acredite em mim! Até alguns dias atrás eu nem tinha cogitado essa possibilidade! Pode parecer loucura, mas eu só pensei nisso depois de um sonho que eu tive.

Edward contou a Bella sobre os sonhos frequentes em que Isa lhe pedia para cuidar e proteger alguém que ele não sabia quem era.

_ Na noite da festa de inauguração do anexo eu voltei a ter o mesmo sonho. Nele, Isa me pedia pra cuidar e proteger essa pessoa. Quando eu perguntei quem era, ela me disse que era a irmã dela. Só então essa hipótese me passou pela cabeça. Bella, até aquele dia eu não sabia que você era casada. Você não usava aliança e eu pensava que MacCalister fosse seu sobrenome de solteira.

Bella lembrou-se das palavras de Isadora em seus sonhos: "Cuide deles para mim! Eles precisam de você! Eles te amam, minha irmã!". De repente tudo ficou muito claro para ela. Isadora se referia a Edward e Brian. Ela queria que Bella cuidasse deles por ela. Bella fechou os olhos e negou com a cabeça. Como tinha sido estúpida! Isadora estivera o tempo todo tentando mostrar-lhe onde estava sua felicidade e Bella, cega de raiva, estava lhe dando as costas.

A expressão de dor no rosto de Bella deixava Edward cada vez mais angustiado. Ele precisava tê-la de volta. Precisava saber o que se passava em sua cabeça.

_ Olhe para mim, Bella! Abra seus olhos e olhe para mim! – pediu com a voz trêmula.

Bella continuava com os olhos fechados. Edward diminuiu a distância entre os dois segurando o rosto de Bella com as duas mãos forçando-a a olhar para ele.

_ Olhe dentro dos meus olhos e me diz o que você vê, Bella!

_ ...

O desespero tomou conta de Edward. Ele precisava provar que o amor que ele sentia era por ela e não pelo fantasma de Isa.

_ Você sente isso, Bella? – Edward levou a mão de Bella ao seu peito colocando-a sobre seu coração. – Sente como meu coração bate forte? Há cinco anos ele não batia, Bella! Ele esteve morto durante todo esse tempo e só depois que eu a conheci eu pude senti-lo de novo. Mas, Bella, ele nunca bateu tão forte como agora!

Bella olhava para o rosto de Edward querendo dizer que o amava, e muito, mas as palavras simplesmente não saiam de sua boca.

_ Droga, Bella! Será que você não percebe como eu fico louco só de te ver? Como eu tremo de ansiedade quando você chega perto de mim? Será que você não percebe como o meu corpo estremece quando você me toca e quando você sussurra meu nome no meu ouvido? Será que você não percebe a sede que eu tenho dos teus beijos e a fome que eu tenho do teu corpo? Será que só você não percebe que eu estou completamente perdido de amor por você?

Bella fechou os olhos deixando uma lágrima rolar por seu rosto enquanto saboreava cada palavra de Edward. Desejava ouvir aquelas palavras havia muito tempo, mas jamais havia imaginado a sensação maravilhosa que elas provocariam.

_ Você está sentindo isso, Bella? – disse Edward apertando o corpo de Bella contra o seu fazendo com que ela sentisse o volume dentro de suas calças. – Isso é por sua causa. Há cinco anos mulher nenhuma provoca isso em mim, só você faz isso comigo. Por favor, acredite em mim!

Bella não podia mais ficar calada. Com lágrimas nos olhos, abraçou a cintura de Edward recostando a cabeça em seu peito. Podia sentir seu coração batendo forte e agora estava certa de que ele batia por ela.

_ Eu te amo, Edward! Mais do que você pode imaginar!

Edward a envolveu em um abraço forte e, respirando aliviado, sorriu.

_ Eu te amo mais, meu anjo! Muito mais!

O contato de seus corpos bastou para que ambos se esquecessem do mundo lá fora. Tudo o que importava para eles estava ali, naquela sala. Precisavam um do outro. Precisavam sentir um ao outro e foi no tapete da sala de sua casa que Bella, mais uma vez, se sentiu a mulher mais feliz do mundo, quando o corpo de Edward se uniu ao dela. Amaram-se com a fome e a urgência que uma noite inteira de angústia e separação tinha provocado. Mesmo que o futuro fosse incerto, ambos tinham certeza de uma coisa: haviam encontrado a pessoa com quem passariam o resto de suas vidas.