I
Jim fechou a boca. Jensen estava sentado na ponta da cama. Havia vestido uma bermuda ao voltar para o seu quarto. Jared se enrolara numa toalha de Jensen e estava de pé junto à janela. Chad, assim como Osric, se enrolara num lençol e estavam ambos junto à porta destruída do quarto. Jim estava no centro do cômodo e terminara de relatar sua conversa com Misha Collins.
O beta olhava de seu alfa para o ômega, de seu outro beta para o ômega da outra matilha. Os quatro guardavam silêncio, quase como se precisassem de um tempo para digerir a história.
– Ainda não é totalmente certo. – Jim disse. – O alfa Ackles está tentando averiguar.
– Mesmo assim, isso explica por que o Jensen não conseguiu fazer contato com o filho. – Osric disse baixinho. – Não há filho algum.
– Mas isso abre outra questão: – Jared disse. – Quem e como está conseguindo informações da matilha?
– Vou aumentar a vigia e mandar os não lobos da matilha sondarem os humanos. – Chad disse. – Acho pouco provável que um humano soubesse o bastante para passar conscientemente aos nossos inimigos, mas um investigador competente poderia tirar uma informação ou outra dos humanos e ir juntando as peças até formar algo perigoso.
– É uma possibilidade. – Jared disse. – Vá em frente. – Chad deixou o quarto. – Jim, fique em contato com o beta da Matilha do Sul. Qualquer novidade me avise.
– Certo. – Jim saiu do quarto.
– Se não se importa, Jared... – Osric se manifestou. – Eu gostaria de ir descansar um pouco.
– Claro, Osric. Pode ir.
Quando Osric saiu, Jared ficou sozinho no quarto com Jensen. O ômega estava sentado na cama. Sua cabeça estava baixa e suas mãos repousavam quietas ao lado do corpo.
– Eu sinto muito. – Jared disse baixo. – Eu sei que você queria esse filho...
– É, mas se ele existisse de verdade você iria matá-lo. – Jensen levantou o rosto e o encarou. – O que é mais doloroso, um filho morto ou um filho que nunca existiu? – Jared não soube responder. – Eu ainda estou tentando me decidir. – Jensen desviou o olhar para a foto na cabeceira. Nela se encontrava seu pai com o filho mais novo nos braços.
– Jensen, a decisão que tomei quando... – Jared mal conseguia dizer o que tinha pretendido fazer. – Sinto muito. Sinto mesmo, mas...
– Eu sei. – Jensen o cortou. – Era a sua obrigação como alfa.
– Sim, era. – Jared tomou fôlego e fez a pergunta que estava entalada na sua garganta. – Se Jim não tivesse chegado naquela hora, você teria lutado contra mim? Você teria tentado me matar?
Jensen voltou seu olhar para Jared. Havia um brilho estranho neles, algo indecifrável.
– O que você acha?
– Seu lobo... Ele é forte demais para um simples ômega. – Jared observou.
– Eu disse que fui criado pra ser um alfa. – Jensen deu de ombros.
– Acho que isso não tem a ver apenas com sua criação. – Jared disse se aproximando de Jensen. – Que tipo de lobo você é e por que sua matilha abriu mão tão facilmente de você?
– Minha matilha? – Jensen sorriu com sarcasmo. – Pensei que essa era minha matilha agora...
Jared ficou em silêncio. É claro que aquela era a amtilha de Jensen agora, mas o lobo não agia muito como se aquilo fosse verdade. Doía saber que Jensen seria capaz de matá-lo, mas até mesmo ele, estando em forma de lobo e furioso com a ameaça sobre seu filho, seria capaz de matar alguém que amava, não é? Então, talvez, os sentimentos de Jensen por ele existissem, de fato. Jared não podia aceitar que somente ele fora pego pela paixão. Jensen tinha que estar apaixonado também.
Jared se sentou ao lado de Jensen e tentou pegar em suas mãos, mas o lobo as afastou dele. Jared suspirou profundamente. Levaria um bom tempo até que conseguisse reatar com Jensen o pouco que haviam construído.
– Seu quarto ficou destruído. – Jared começou. – Durma comigo essa noite.
– Claro. – Jensen disse sem o encarar. – É noite de lua cheia, não é?
Jared nem se lembrava disso. Era noite de lua cheia. Jensen e ele teriam que fazer sexo. Jared amaldiçoou seu azar. Se pudesse ter mais tempo para amenizar o impacto da briga, teria mais chances de se acertar com Jensen futuramente. Mas justo no momento em que as coisas estavam piores entre eles, teriam que transar. E conhecendo seu ômega, como conhecia, mesmo que fosse só um pouco, Jared tinha certeza de que ele seria igual uma geleira na cama.
– Nos vemos mais tarde. – Jared se levantou e saiu. Aquela situação estava ficando cada vez pior.
II
Deixado sozinho em seu quarto, Jensen tentou absorver os fatos. Não havia filho algum. Nunca existiu um filho para ele. A dor era quase tão grande quanto perdê-lo. Ele olhou ao redor e viu pedaços da porta por todos os lados e roupas rasgadas pelo chão. Jared tinha razão. Jensen não era um ômega qualquer. Seu lobo era extremamente forte e ainda assim ele nascera como um ômega, não um alfa. Por alguma razão inexplicável, Jensen não era o ômega que deveria ser, mas também não era um alfa. O que Jensen era afinal?
III
Mais tarde, Jared abriu a porta do quarto e Jensen entrou. O lobo branco usava roupas simples de dormir, short e camiseta. Jared usava apenas uma cueca samba canção de seda que ele desejava que lhe deixasse sexy para o outro.
– Quer beber alguma coisa? – Jared ofereceu.
– Não. – Jensen foi seco. – Vamos fazer isso logo.
Jensen, de costas para Jared, se despiu rapidamente e subiu na cama.
– Como você me quer? – Perguntou num tom frio.
Jared suspirou profundamente. Aquilo não seria nada fácil. Ele poderia ir lá e simplesmente foder Jensen, mas não teria nenhum prazer real nisso. Se tentasse seduzi-lo, só iria se frustrar, pois o humor de Jensen deixava claro que ele não estava para ser seduzido por ninguém. Se pudesse evitar fazer aquilo naquela noite...
– Devo te preparar? – Jensen perguntou. Jared franziu as sobrancelhas. Preparar?
Jensen se sentou na beirada da cama com as pernas para fora e sinalizou para Jared se aproximar. Quando o alfa chegou perto, Jensen o puxou pelo elástico da cueca até que ele estivesse de pé entre suas pernas. Curioso, Jared apenas assistiu Jensen livrá-lo de sua roupa íntima baixando-a lentamente por suas pernas até alcançarem os tornozelos. Em nenhum momento Jensen voltou os olhos verdes para o rosto de Jared. Era como se ele evitasse que seus olhos se encontrassem.
As mãos de Jensen se fecharam contra o sexo adormecido de Jared e começaram a manuseá-lo num ritmo suave, lento. Em outro momento, Jared teria despertado só de se ver entre as pernas de Jensen, mas com aquele clima, nada aconteceu. Jensen tentou mais um pouco e nada. Por fim, com um longo suspiro, Jensen baixou a cabeça e passou a língua na ponta do sexo de Jared. Um arrepio se espalhou pelo corpo do alfa. Jared podia estar sem ânimo por saber que Jensen agia mecanicamente, mas daí a não se excitar vendo a lingüinha rosada de Jensen acariciando seu sexo era demais.
Logo seu sexo começou a tomar vida. Ainda mais quando Jensen fechou os lábios em torno da cabeça de seu pau enquanto sua língua serpenteava a glande levando-o á loucura. Jared gemeu alto quando Jensen deixou que todo o seu mastro deslizasse para dentro de sua boca. Cara, a boca de Jensen engolindo seu pau era um paraíso. As mãos de Jensen massageavam seus testículos enquanto sua boca fazia uma suave sucção em seu pênis. Dava para notar que Jensen não era nada experiente e que estava fazendo as coisas meio que por impulso, mas a verdade era que ele levava jeito para a coisa. Em pouco tempo Jared já estava delirando de prazer e prestes a gozar quando Jensen o tirou de sua boca. Frustrado, ele lançou um olhar irritado ao ômega.
– Acho que boquete não conta como sexo ritual da noite de lua cheia. – Jensen disse com sarcasmo voltando a subir o corpo todo na cama. – Que posição? – Perguntou. – Escolha rápido.
– Em qual posição você se sente mais confortável? – Jared perguntou tentando ser gentil.
– Uma em que eu não tenha que olhar para a sua cara. – Jensen disse se colocando de costas para ele sobre mãos e joelhos.
Aquilo foi um soco no estômago de Jared e ele quase brochou. Quase, por que a visão de Jensen de quatro para ele, se oferecendo, era o bastante para mantê-lo excitado. Jared subiu na cama e se ajoelhou atrás de Jensen. Ele passou as mãos pelas suas nádegas firmes e roliças, seus dedos deslizaram até sua entrada e descobriram-na lubrificada. Então ele já havia se preparado, Jared pensou. Uma pena, por que Jared adoraria preparar Jensen.
Jared realmente queria ser carinhoso e gentil com o ômega como uma forma de compensar o atrito de horas antes, mas a atitude de Jensen não dava brecha. Decidiu, então, fazer como o outro queria. Jared levou seu sexo até a entrada de Jensen, respirou fundo e penetrou. Não foi suave e lento como das duas primeiras vezes. Foi rápido e áspero. Jensen gemeu baixo e Jared teve certeza de que era de dor. Imediatamente o alfa reconsiderou sua decisão. Mesmo que Jensen quisesse assim, não poderia machucá-lo, não poderia ir sem cuidado.
Uma de suas mãos começou a deslizar pelas costas salpicadas de sardas de Jensen enquanto a outra alcançava seu pênis e o massageava despertando-o. Jared não moveu seus quadris. Esperou. Suas mãos se juntaram em torno do sexo de Jensen e começaram a bombeá-lo. Quando sentiu o ômega mais relaxado, Jared começou a se mover entrando e saindo de dentro dele. Primeiro devagar, acostumando-o, acalmando-o. Depois num ritmo mais forte, mais rápido. Até que, em fim, Jared estava praticamente fazendo Jensen pular sobre a cama.
Percebeu que Jensen até tentara se segurar, gemendo baixinho e se movendo pouco, mas não conseguiu por muito tempo. Logo ele gemia alto e movia os quadris para frente e para trás em busca de mais contato com o corpo de Jared. O alfa queria dizer várias coisas. Queria dizer o quanto Jensen era lindo e o quanto era gostoso estar dentro dele, mas não disse. Não estava com clima para papo de cama. A única coisa que disse foi: "Vem" quando percebeu que Jensen se aproximava do clímax. E Jensen veio de uma vez fazendo suas pernas bambearem e sujando as mãos de Jared. Satisfeito por ter-lhe dado prazer, mesmo contra sua vontade, Jared veio logo depois se derramando dentro dele.
Os dois desabaram sobre a cama. Jared sobre as costas suadas de Jensen. Ficaram ali naquele contato íntimo e seco por algum tempo deixando seus batimentos cardíacos se acalmarem e suas respirações se normalizarem. Jared saiu de dentro de Jensen e se esticou ao seu lado. O ômega estava com o rosto enfiado no travesseiro.
– Jensen? – Chamou baixinho.
– Posso tomar um banho? – Jensen perguntou levantando o rosto do travesseiro, sem, contudo, olhar para o rosto de Jared.
– Claro. – Jared se afastou para um lado dando espaço para o lobo branco se levantar. Quando a porta do banheiro se fechou e pôde ouvir o som da ducha sendo ligada, Jared levou as mãos aos olhos e se permitiu ser fraco e chorar, lamentar sua situação. Estava tão ferrado! Tão ferrado!
Tinha começado a se dar bem com Jensen, tinha feito planos para eles. Quando tudo parecia certo, vinha-lhe uma história falsa sobre filho que o fizera expor seu pior para o homem que amava. O filho de Jensen nunca existiu, mas o lobo jamais o perdoaria por tentar matá-lo. Jared tinha certeza disso.
IV
Jensen deixou a água escorrer pelo seu corpo e livrá-lo do perfume do corpo de Jared, embora não conseguisse arrancar de sua pele a sensação do toque dele. Sentia-se cada vez pior consigo mesmo e com raiva de seu corpo que mal sentia as mãos de Jared sobre si e se entregava as sensações agradáveis que ele lhe proporcionava.
Estava com tanta raiva de Jared por ter tomado a decisão de matar o seu filho, que no fim das contas nem existia, que não queria mais olhar para o rosto dele. Mas também tinha raiva de si mesmo. Jensen deveria ter percebido que não tinha filho algum, afinal, não conseguira entrar em contato com ele. Mas não. Não apenas fora enganado como atacara Jared, seu alfa, para defender o que nunca existira.
E o pior, era que se sentia culpado por sua atitude e, ao mesmo tempo, furioso com a atitude de Jared. Ainda assim, não conseguia deixar de achar maravilhoso o fato e Jared ter sido cuidadoso com ele, mesmo tendo sido tratado de forma fria. Às vezes acreditava que Jared realmente gostava dele. Às vezes... Mas aí ele se via de quatro para Jared e se sentia a sua cadela, menos que homem. Isso o irritava ao extremo.
Se ao menos fosse capaz de lidar com seus sentimentos e sensações contraditórias... Mas não era. Jensen desligou a ducha e se secou na toalha de Jared. O cheiro do lobo estava ali. Jensen se enrolou nela e saiu do banheiro. Encontrou Jared deitado virado para o outro lado. Talvez estivesse dormindo. Jensen catou suas roupas pelo chão, vestiu-se e se deitou ao lado dele. Os lençóis ainda conservavam o cheiro dos dois e isso o perturbava. Quanto tempo teria que dividir o quarto com ele? Quanto tempo teria que desejá-lo e repudiá-lo?
V
– Então não há filho nenhum? – Erik perguntou baixando o garfo.
– Nenhum. – Jim suspirou.
Havia ido à Seatle mais uma vez para se encontrar com o Beta Misha e convidara seu filho para almoçar. Estranhamente Erik concordara. Erik nunca fora de manter muito contato ou dado a encontros desde que abandonara a matilha há doze anos. Mas de uns tempos para cá ele vinha se encontrando com Jim sempre que esse pedia e chegara mesmo a pedir para se encontrar com pai. Jim estava estranhando essa atitude do filho, mas no fundo gostava. Talvez fosse sinal de que a rebeldia de Erik finalmente amainava e de que ele, em fim, voltaria para o seio da matilha.
– Então já sabem como e quem está passando informações da matilha? – Erik perguntou.
– Ainda não. – Jim tomou um gole de sua cerveja. – Estamos aguardando notícias do Alfa Ackles.
– O lobo branco?
– É, o lobo branco. – – Jim passou uma mão pela barba bem aparada. – Gosto dele tanto quanto gosto de um chute no saco, mas precisamos do cara. Fazer o quê?
– E a briga do alfa com o ômega? – Erik quis saber. – Com o quarto do ômega meio destruído, onde ele está dormindo agora?
– Ele passou essa noite com o Jared, mas era lua cheia... Acho que até que o quarto de cima esteja pronto, Jensen vai ficar em um dos quartos da casa da piscina. Não é muito afastado e como as coisas entre eles não anda boa, talvez seja bom ele ter algum espaço.
– Certo... – Erik passou uma mão pelo cabelo. – E tem mais lobos na casa da piscina?
– Não. – Jim deu de ombros. – Ela só é usada quando a casa principal tem muita visita. Talvez Jared mande alguém para lá só para ficar de olho no Jensen...
– Não o senhor, não é? – Erik parecia apreensivo.
– Não. Jared sabe que deve se cercar de seus betas, por isso Chad e eu dormimos nos quartos ao lado do dele. – Jim ponderou sobre o assunto. – Ele provavelmente deve mandar um dos executores que não mora na casa...
– Ah! – Erik pareceu aliviado. Isso intrigou Jim.
– Por que a preocupação se eu vou estar perto do Jensen ou não, filho?
– Não é bem preocupação, pai. – Erik encolheu os ombros. – É que eu sei que o senhor não gosta de lobos brancos e achei que ficaria desconfortável sendo a babá dele...
– O Jensen é até legalzinho... – Jim comentou. – Meio arrogante e turrão, mas depois que conheci o pai dele, acho até que esse jeito dele é bem fácil de lidar.
– Hun... – Erik esvaziou seu copo de cerveja.
– Mais um? – Jim fez menção de sinalizar para o garçom.
– Não, obrigado. – Erik levou o guardanapo aos lábios. – Eu tenho que ir e... – Ele tirou da carteira algumas notas e as colocou sobre a mesa. – Dessa vez é por minha conta.
Erik contornou a mesa e foi até o pai lhe dar um beijo. Jim sorriu para ele. Quando o homem se afastou, Jim percebeu que Misha os observava da porta. Sem notar nada de anormal, Erik se dirigiu à saída e passou pelo lobo branco. Jim esperou que Misha secasse seu filho de novo, mas os olhos do beta estavam fixos nos seus e havia um brilho estranho neles, como se ele carregasse um enorme peso. Ao reparar melhor, Jim percebeu que a expressão no rosto de Misha também era estranha.
Quando seu filho saiu do restaurante, Misha, com uma fisionomia séria, foi até sua mesa e se sentou.
– Aconteceu alguma coisa, Beta Misha? – Jim perguntou estranhando a seriedade do lobo.
– Apenas Misha. – O beta disse. O garçom se aproximou e ele pediu um café grande.
– Aconteceu alguma coisa, Misha? – Repetiu a pergunta.
– Quem era o homem que estava comendo com você? – Misha perguntou do nada.
– O nome dele é Erik. – Jim disse estudando a fisionomia do outro lobo. – Ele é o meu filho.
– Certo... – Misha ficou quieto olhando para os lados como se não quisesse encarar o outro lobo.
– Então...? Que notícia você tem para mim? – Jim perguntou.
– O meu alfa se encontrou com a Dann. Ela não está grávida. – Misha disse aceitando a xícara de café que o garçom colocava diante dele.
– Isso livra a cara do Jensen da suspeita de passar informações, mas não nos livra da ameaça...
– Bom, mas agora isso já não é problema nosso. – Misha esvaziou a xícara de café com um único gole. – Meu alfa disse que agora que sabemos que a Matilha de Everett não tem nada a ver com isso, não temos mais obrigação de ajudá-los.
– Hun... – Jim sorriu com desdém. – Se é que vocês foram de alguma ajuda...
– É claro que ajudamos. – Misha o olhou torto.
– Ajudaram como? Levantando uma suspeita infundada sobre um filho de Jensen que nunca existiu e que só serviu para fazer o meu alfa brigar com ele?
– Seu alfa brigou com o Jen? – Misha perguntou num tom preocupado.
– Eles quase saíram no dente. – Jim disse tomando um gole de cerveja. – Para um ômega, o Jensen tem um lobo muito forte, não é?
Misha não respondeu, apenas ficou girando a xícara vazia sobre a mesa. Jim suspeitou que os lobos brancos estivessem escondendo alguma coisa. Mas o quê? Definitivamente algo sobre Jensen.
– Jim... – A voz de Misha estava estranhamente sã, sem nada do tom delirante que era seu habitual. – Aquele seu filho... Senti um traço de lobo madeira no cheiro dele... Mas ele é um não lobo, não é?
– Sim, ele é um não lobo. Por quê? – Jim alteou a sobrancelha.
– Você não devia se encontrar com ele. – Misha disse num tom sério. – Os não lobos não devem ter contato com a matilha, Jim.
– Vocês lobos brancos são muito preconceituosos. – Jim disse com desprezo. – Como se eu fosse me afastar do meu filho só porque ele não nasceu lobo... É isso o que vocês fazem com seus filhos não lobos?
– Sim, Jim. – Misha respondeu olhando em seus olhos. – É isso o que nós fazemos.
– Seus cretinos preconceituosos... – Jim praticamente cuspiu essas palavras.
– Podemos ser cretinos e preconceituosos... – Misha disse se levantando e atirando umas moedas sobre a mesa. – Mas nunca uma informação sobre nós vazou para uma matilha rival.
– O que você está insinuando? – Jim se levantou cerrando os dentes e se segurando para não rosnar no meio do restaurante.
– Só um conselho. – Misha disse sem desviar os olhos azuis dos de Jim. – fique de olho no seu filho não lobo.
Ao dizer isso ele saiu do restaurante. Jim ainda ficou um tempo de pé absorvendo as palavras do lobo branco. Seria possível que o cretino suspeitava de seu filho? Erik podia não ser lobo e podia estar magoado com isso, mas ele era definitivamente um membro da Matilha de Stª Bárbara. Ele nunca os trairia.
VI
Erik entrou por uma viela escura e seguiu rápido até diante de um prédio abandonado. Ali, três homens o aguardavam. Eles vestiam-se de preto, jaquetas de couro e botas coturno de motoqueiros. As motos estavam estacionadas ao lado. Os capacetes estavam pendurados nos braços fortes. Assim que Erik se aproximou, o motoqueiro do meio sorriu.
– E, então?
– Eles já descobriram que o ômega não tem filho nenhum. – Erik informou mexendo as mãos nervosamente. – Mas antes disso, o alfa e o ômega quase saíram no dente. Acho que um está com raiva do outro.
– Bom. – O motoqueiro disse abrindo um sorriso maior. – Isso quer dizer que o ômega deve passar as próximas noites sozinho em seu quarto. Onde fica mesmo? Segundo andar na ala esquerda?
– O quarto ficou destruído na briga. – Erik olhou de um lado para o outro da viela em busca de testemunhas. Não encontrou ninguém. – Ele ficará na casa da piscina.
– Que boa notícia! – O homem parecia extremamente satisfeito.
– Não é certeza ainda. – Erik disse. – Deixe eu confirmar com o meu pai primeiro.
– Certo, mas não demore. – O homem colocou o capacete. – Nosso tempo é curto.
– Espere! – Erik exclamou quando os viu montando as motos. – Meu pai... Se entrarem em confronto com a matilha, o meu pai...
– Seu pai é o beta mais velho, não é? – O motoqueiro do meio perguntou. Erik confirmou com um mover de cabeça. – Sem perigo! Não tocaremos nele.
Os motoqueiros partiram deixando Erik sozinho na viela escura. O filho de lobo continuou parado ali por um bom tempo sem ânimo para voltar para casa. Seu apartamento alugado era um lixo assim como sua vida. Voltar para ele era quase tão ruim quanto ficar ali no escuro. Por fim ele suspirou longamente e seguiu rumo às ruas iluminadas da cidade. Ele mal percebeu que a um canto da viela escura um par de olhos azuis metálicos o seguia.
VII
Misha tirou o celular do bolso e atendeu a ligação silenciosa.
– É mesmo o filho do beta? – Ouviu a voz firme de seu alfa.
– Acabo de confirmar com meus próprios olhos. – Misha respondeu ainda observando o filho de lobo se afastar. – Os três lobos brancos não notaram minha presença... São aqueles mesmos que o senhor suspeitava.
– Entendo... – O alfa fez silêncio. Mas mesmo sem dizer nada, Misha sentiu a confusão de pensamentos na mente de seu alfa. Ackles estava dividido entre alertar os lobos madeira ou não. Por costume e por orgulho, lobos brancos não ajudavam lobos madeira, mas seu filho, embora oficialmente excluído de sua matilha, era o ômega deles. Se algo acontecesse à Matilha de Stª. Bárbara, Jensen poderia ser ferido.
– Talvez não seja exatamente ruim para o Jen se deixássemos esses lobos brancos conseguirem o que querem... – Misha argumentou.
– Mas as palavras do ancião... – Ackles ponderou. – Jensen precisa estar entre os lobos madeira.
– Talvez o ancião só esteja caduco... – Misha sugeriu. Imediatamente sentiu a impaciência de seu alfa e do outro beta, Jeff. Os outros lobos da matilha acharam graça.
Misha sorriu internamente. Sabia que apenas Ackles e Jeff escutavam a conversa, mas as sensações resultantes do diálogo e, até mesmo algumas palavras mais fortes, eram compartilhadas com todos os lobos brancos da Matilha do Sul. Nunca estar só com os próprios pensamentos era algo típico dos lobos brancos. A falta de privacidade podia ser meio incomoda, mas nunca estar só era reconfortante. Misha tinha muita pena de seu amigo, Jen, por perder isso.
– Misha, continue investigando. – Ackles ordenou. – Por enquanto, não diga nada ao beta deles. Vamos ver no que isso dá...
– Certo. – Misha desligou o celular.
Sabia que seu alfa e cada lobo da matilha havia sentido sua atração pelo beta rabugento dos lobos madeira. Mas independente disso, todos confiavam nele. Assim como confiavam em Jeff, mesmo este estando apaixonado pelo outro beta da Matilha de Stª. Bárbara. Misha podia estar atraído pelo velho Jim, mas isso não o faria desobedecer a uma ordem de seu alfa. Não mesmo. Mesmo que o informante fosse o filho de Jim, Misha não o alertaria. Esperaria as ordens de seu alfa.
