Nunca o quartel estivera tão movimentado. Os últimos dias haviam sido caóticos, todos os soldados estavam encarregados com alguma atividade de grande importância. O anúncio do noivado de Roy e Safiya havia gerado grande comoção por parte da população de Amestris e instabilidade no Exército.
No Comando Central da capital, o Führer estava em sua sala reunido com os principais líderes do país; os representantes de cada região o rodeavam em um círculo. Os cinco representantes observavam em silêncio o mapa mundi no centro, exposto cuidadosamente sobre uma mesa com pinos colocados em pontos estratégicos do mapa.
- O plano é arriscado. – O General, e responsável pelo Oeste, dissera. Estava de braços cruzados enquanto olhava fixamente para a tática apresentada. – Estamos em guerra com Drachma, o Oeste não poderá oferecer muita ajuda.
- Entendo. – Roy levara a mão à altura dos lábios e os cobrira, ficando em modo pensativo. – Mas precisamos ser ofensivos, se levarmos apenas um pequeno número para a batalha, perderemos soldados por pura tolice.
O General do Sul pigarreou. Todos se voltaram para um senhor de aparentes 60 anos e de óculos redondos.
- Creio que deve haver outra maneira, meu Führer. – Ele sorria como se não estivesse diante de um grande problema. – Tem certeza de que o casamento com a pequena Imperatriz não é a melhor escolha?
- Definitivamente não! – Roy exclamara com firmeza, suas mãos bateram na mesa com violência.
Os generais o encararam com surpresa. Não era costume de Roy perder a compostura por uma simples frase, principalmente quando o assunto envolvia a segurança do país.
Roy percebera imediatamente os olhares atentos e resolveu disfarçar o máximo que pôde.
- Como eu ia... hm... dizendo. – Um sorriso brotou de seus lábios. – Não vejo futuro em uma aliança como esta. Creta terá muito mais vantagem do que nós, sugiro uma abordagem mais direta.
-... E violenta. – A jovem voz masculina preencheu o local.
Roy se voltara incomodado para o dono da indisciplinada voz. Sabia a quem pertencia, mas simplesmente se recusava a dar atenção para o homem. Se alguma vez na vida odiara alguém, esse alguém era ele. Roy sabia que a magnitude desse sentimento era amplificada apenas por estar no mesmo lugar que o jovem.
- General Ellijah. – Roy dissera entre dentes. Abriu um largo e falso sorriso, fazendo o possível para demonstrar seu descontentamento com a presença do General.
- Meu Führer. – Houve uma breve reverência por parte do homem.
Ellijah era o mais jovem General a assumir a responsabilidade pelo Quartel General da Cidade Central, com a mudança nos rankings de poder por parte de Roy, o militar alcançara um cargo de confiança e há dois anos comandava as operações da capital de Amestris. Roy o odiava justamente por isso, um jovem no alto escalão do governo e inconsequente.
O Alquimista Inconstante era como Roy o apelidara, porém havia outro nome oficial para o mesmo. Ellijah atendia pelo codinome Alquimista da Tempestade por conta de suas habilidades únicas; Roy via a si mesmo, quando mais jovem.
Nunca aceitou receber uma ordem vinda de cima, do alto comando, sempre buscava alternativas e acabou por ganhar popularidade entre os soldados por tal irreverência. Roy não sabia como lidar com Ellijah, já que o alquimista trazia os melhores resultados apesar da indisciplina.
- Tenho uma ideia melhor para este pequeno problema, se me permitir. – Ellijah quebrara o silêncio e por consequência, os pensamentos de Roy. Seus olhos azuis, de cor tão clara quanto o céu, se fixaram nos do Führer em tom desafiador. – Levaremos um pequeno grupo de militares para dentro de Creta, para sabermos exatamente o motivo de tal pedido inusitado. Podemos infiltrá-los no governo da Imperatriz, oferecendo-os como apoio.
- Uma forma de presente? – O General do Sul indagou.
- Precisamente. Iremos oferecer meus melhores soldados para Creta como um presente de confiança, eles se infiltrarão entre o alto escalão e o povo para descobrir o plano, caso haja um. – Ellijah dissera casualmente. – Caso os temores do senhor se confirmem, poderemos lançar um ataque surpresa e dominar o país sem problemas.
Os generais assentiam as cabeças, concordando com as palavras de Ellijah. O Führer permanecia sem mudar a expressão, ainda analisando o plano.
Roy precisava tomar cuidado. Os últimos dias não haviam sido dos melhores para a moral dos soldados e dos cidadãos do país, o anúncio de seu noivado e o desaparecimento Elicia e Ed haviam criado uma grande comoção. Qualquer atitude deveria ser tomada com cautela.
- É uma ideia interessante, porém precisaríamos apenas dos melhores. Acha mesmo interessante corrermos o risco de perder os melhores soldados de Amestris para um plano que não sabe se dará certo? – O Führer inquiriu com frieza.
- Toda missão é arriscada. Não se vence uma guerra sem enfrentar riscos, estou certo? Não cheguei até aqui, neste posto, sem sofrer. – O que ele falava, era verdade. Roy também já havia perdido um grande amigo por conta disso e estava prestes a perder a pessoa mais importante de sua vida, apenas pelo risco da ameaça de Safyia ser verdadeira.
Roy assentiu com a cabeça, se dando por vencido apenas naquele momento.
- Suponhamos que eu autorize sua investida, General. Quem lideraria essa missão?
Os lábios de Ellijah se esticaram e um sorriso iluminou seu rosto pálido. O Alquimista tinha os nomes na ponta da língua, assim como Roy já imaginava.
- Sob meu comando na Cidade Central, possuo uma lista seleta de excelentes soldados. – Ele começou. – Decidi escolher este Alquimista por seu excelente desempenho.
Ao abrir a boca, as palavras mais temidas acabaram por sair.
- Elicia Hughes, a Alquimista da Morte.
Capítulo IX
Ellijah Friedrich
- Subsolo Laboratório 5 -
O subsolo estava repleto de cientistas da área militar de Amestris. O grande salão, outrora destruído por Ed em um confronto no passado, havia sido reformado e servia de prisão para Gluttony. Os cientistas haviam conseguido prendê-lo com grossas correntes de ferro e o mantinham imobilizado, com pernas e braços esticados em lados opostos.
O salão oval estava com a presença de alguns soldados que mantinham suas armas apontadas para Gluttony caso as correntes não fossem o suficiente para mantê-lo preso, porém todos pareciam inseguros e com medo de algum incidente ocorrer.
Alphonse, May e Havoc estavam presentes no subsolo; Al havia conseguido permissão especial de Roy para que conduzisse a investigação sobre o desaparecimento do irmão e de Elicia durante o baile ocorrido duas semanas atrás.
- Duas semanas e nenhuma mudança. – Havoc cruzara os braços. – Esse homúnculo fica mais fraco a cada dia.
- Não deveria ser assim. – Al murmurou. – Da última vez que aconteceu isso com o Ed, ele ficou preso por poucas horas.
May estava distante com seus pensamentos, olhava a esmo enquanto os dois homens conversavam.
- Há possibilidade da Elic... Ah. – Havoc engoliu seco. – De a jovem Hughes e o Elric terem... ?
Alphonse parou por um momento antes de responder, mordera o canto inferior do lábio e tentou esconder o nervosismo.
- Bo-
- MAS O QUE É ISSO?
Alphonse e Havoc viraram a cabeça na direção do grito. Dois soldados apontavam suas armas para Gluttony, as mãos trêmulas indicavam que algo havia acontecido, ouviam-se vozes por todo o local sobre o grito.
Um clima sombrio pairou sobre o local.
- O que aconteceu? – Havoc se aproximara do grupo.
O soldado apontara com a arma na direção de Gluttony. O Homúnculo havia rompido as correntes e observava silenciosamente a todos; estava com o indicador da mão direita na boca, apesar da aparência fraca, ele não parecia ter tido dificuldades para quebrar as correntes. Sangue escorria de seus lábios em grande quantidade, caíam no chão em gotas espessas.
Alphonse se aproximou cuidadosamente do Homúnculo, expressando um pequeno sorriso.
- Está tudo bem? – Ele indagou.
- Hmmm... – Gluttony grunhiu. – Está acabando.
- Huh? – Al curvou a cabeça lentamente para o lado, sem entender a fala. – O que está acabando?
- Meu tempo. – Um sorriso invadiu a expressão de Gluttony. Seus dentes ficaram visíveis, assustando ainda mais os soldados presentes.
O homúnculo caíra de joelhos no mesmo instante, pôs suas mãos na barriga como se estivesse com dor. Alphonse deu um pulo para trás ao notar que Gluttony começara a vomitar mais sangue, escorria o líquido coagulado em grande quantidade.
Gluttony olhou para Alphonse com uma expressão dolorosa, porém antes de dizer algo, uma luz azul surgiu de dentro de sua boca.
- Isso é... – May puxara o braço de Al, tentando trazê-lo para trás. – Alphonse, é perigoso!
- Mas May! – Al se voltara para a esposa. – Pode ser algo envolvendo meu irmão!
- Escute-a, Elric. – Havoc segurava uma pequena pistola, observava com cautela os movimentos de Gluttony. – Pode ser perigoso, afaste-se.
O Homúnculo tossiu mais e algo parecia sair. Alphonse dera alguns passos em falso quando algo foi expelido da boca de Gluttony.
Selim surgiu junto de diversos destroços, Havoc identificou os pedaços de pedras como parte do chão aonde havia acontecido o baile. O menino foi lançado contra Al que acabou por segurá-lo, antes que se ferisse.
Gluttony berrava de dor a cada objeto destruído que regurgitava, mais sangue escorria de seus lábios quando novamente a luz tomou conta de sua boca.
- Cuidado! – Havoc alertara.
Al olhara preocupado para Selim, inconsciente em seus braços.
- Ed... Elicia... – O jovem Alquimista murmurou.
Naquele instante, Ed fora expelido com violência, tendo o corpo arremessado ao chão. Seu corpo rolou por alguns metros, tendo sua perna mecânica riscando o concreto.
O Fullmetal estava consciente, com as vestes sujas de sangue. Ele olhou em volta, ainda confuso sobre onde estava, quando seus olhos se fixaram nos do irmão.
- Onde eu—ALPHONSE? – O rosto se iluminou de surpresa.
- Ed! – Al exclamou sorridente.
Ed se levantou rapidamente, olhou para trás em busca de Elicia e não a encontrara. O ex-Alquimista Federal sentiu a preocupação crescer ao se lembrar dos acontecimentos, quando encontrou a Verdade e esta havia lhe dito algo estranho.
A habilidade de ser um Alquimista havia voltado, pois seu preço havia sido pago. Mas que preço?
- Onde está a Elicia? – Ed gritara, tentando desviar de mais destroços que eram lançados em sua direção. Seu pensamento podia esperar, a segurança de sua aprendiz era mais importante.
- Ela não saiu dali. – Al respondeu.
- A jovem Hughes estava com vocês? – Havoc se aproximou dos irmãos com preocupação.
Ed voltou sua atenção para Gluttony que continuava a chorar incessantemente. O homúnculo contraíra o corpo e soltara novamente um urro que ecoou por todo o salão.
A boca se abriu inumanamente, gigantesca e grotesca; alguns soldados apontaram as armas para o Homúnculo em sinal de preocupação quando pedaços de objetos e pedras começaram a ser lançados em todas as direções.
- Ah! – Al fechara os olhos, sem ter como se defender.
Algo amorteceu o impacto e ninguém se feriu. Havoc olhava boquiaberto para o que acabara de acontecer, tendo sua expressão copiada por Alphonse.
- Eh?! – O irmão mais novo arregalou os olhos. Não conseguia encontrar as palavras para descrever o que vira. – Mas-!
Ed estava com as mãos no chão, agachado, enquanto uma coluna de pedra se erguia do solo e os protegia dos objetos arremessados por Gluttony. Ele havia criado uma barreira com Alquimia, sem utilizar um círculo ou recebido ajuda de alguém.
- Você só pode estar brincando. – Ed fixou seu olhar nas mãos, ainda incrédulo com o ato que realizara.
- Desde quando? – Alphonse conseguiu dizer.
- Aparentemente, desde agora. – Ed respondeu, ainda surpreso.
- Pessoal! – Havoc gritou.
Elicia então surgiu, sendo arremessada contra o paredão criado por Ed. Seu corpo bateu violentamente contra o duro concreto e o quebrara, Havoc sequer teve tempo de se proteger quando sentiu o impacto do corpo da Alquimista contra o seu.
- Elicia! – Ed e Al exclamaram em uníssono.
A Alquimista tossira com força. Estava encardida, com sangue seco em seu rosto e sujeira por todo o vestido; ainda estava usando o traje da festa, porém a vestimenta estava toda rasgada, não lembrando em nada a beleza que Elicia exibira na festa.
- Ah, eu... Onde... – A jovem ergueu a cabeça, ainda confusa. – AH! – Seu olhar baixou em Havoc que estava caído, sendo que Elicia se encontrava em cima do soldado. O grito saiu por acidente, mais alto do que Elicia esperava.
- Ah? – Havoc ironizou. O soldado tentou se erguer, porém parou ao sentir uma costela estalar, provavelmente devia ter quebrado ao segurar Elicia. – Você. Está. Em. Cima. De. Mim.
A Alquimista saltou para trás, ainda surpresa com o ocorrido. Sentiu o sangue subir, e percebeu que a face estava completamente vermelha; não sabia exatamente como explicar, mas sentia-se envergonhada por ter ficado em cima daquele homem, embora uma situação parecida já tivesse ocorrido entre ela e Ed, durante treinos.
Estar tão próxima de Havoc acabou lhe deixando encabulada, apesar ter coisas mais importantes para pensar. Por uma fração de segundos, desejou que o tempo não andasse e que permanecesse ali, próxima dele, por mais tempo. Porém, sentiu o soldado gemer de dor ao colocar a mão no peito.
- M-M-Me desculpe! – Ela se apressou em dizer. Elicia se afastou por completo, ficando de pé e olhando em volta.
- Eu vou sobreviver. – Havoc riu entredentes.
A Alquimista da Morte então se lembrou do que acabara de acontecer, sua atenção se voltou para Gluttony que ainda gemia de dor. O homúnculo parecia indefeso, completamente derrotado pelo seu próprio corpo.
- Ele está assim desde que vocês começaram a surgir. – Alphonse parecia ter lido a mente da Alquimista.
- Apenas uma peça no jogo de alguém. – Ed resmungou, irritado.
Elicia olhou para Gluttony com pesar, sabendo exatamente o que deveria fazer para aliviar seu sofrimento.
- Hei, o que foi? – Havoc a chamou.
Elicia não lhe dera atenção, começou a caminhar na direção de Gluttony sem dizer uma palavra. Seus passos eram lentos, pois o corpo inteiro tremia, ela não estava certa se conseguiria fazer algo.
- Eli- - Ed parou antes de completar. Deu um longo suspiro. – Então foi isso que aconteceu lá.
- Lá? – Al repetiu.
- Nós estávamos lá. Onde a Verdade fica.
Elicia estendeu a mão para Gluttony e sorriu para o ser cansado. Ela acariciara a cabeça do homúnculo com delicadeza e antes que percebesse, seus olhos assumiram uma cor mais clara, uma esmeralda reluzente e de brilho inconstante.
Ela podia ver exatamente onde o fragmento da Pedra Filosofal estava alojado no corpo de Gluttony.
- Eu sinto muito por isso. – Disse com sinceridade. – Só agora aprendi a controlar essa habilidade.
- Não sinta. – Gluttony deu um leve sorriso.
Elicia abaixou a cabeça assim que percebeu o fragmento da Pedra estava se despedaçando. Localizado perto do centro do peito de Gluttony, ela podia ver com clareza o brilho vermelho perdendo sua força e o Homúnculo, por consequência, morrendo.
- Hei, me diga. Quem é a pessoa que te controla? – Elicia murmurou.
- Ela é... – Gluttony continuava a sorrir. – Uma mulher muito ruim.
- Mas quem? – Sua voz quase não saiu.
- Ela é-
E ele se despedaçara. Era como se um vidro tivesse caído no chão e espatifado em milhares de pedaços. Elicia respirou fundo e fechou os olhos, tentando esquecer a cena que acabara de presenciar; virou a cabeça para o lado, esperando os cacos se dissolverem.
Seus olhos claros começaram a lhe incomodar, o preço por poder usá-los era exatamente o que mais temia. A cada segundo que usava a habilidade, mais próxima ficava da cegueira; o preço para que pudesse ver além do que todos podiam ver, era justamente a própria visão.
Que grande ironia. Pensou a Alquimista da Morte.
- Elicia! – Ed correu até a aprendiz. – O que foi isso?
- Alguém estava controlando o Homúnculo, acho que... – A Alquimista pensou por um instante. – Estava esperando nós sairmos para que o propósito dele acabasse.
- O propósito seria... que eu e você fôssemos para lá?
- Acho que sim. – Elicia confirmou.
Ed assentiu com a cabeça.
- Também imaginei isso. Alguém queria que nós falássemos com aquilo. Queria que eu recuperasse minha habilidade e que você falasse com aquela coisa. Mas... Por quê? – O Fullmetal falava quase que para si mesmo.
- É isso que pretendo descobrir.
- E eu também. – Ed concordou. O brilho em seus olhos era visível, estava motivado a descobrir mais sobre o incidente e sobre a volta dos Homúnculos.
Havoc respirou aliviado ao ver que todos estavam bem. Sinalizou para que os soldados se movimentassem e limpassem o local; ele caminhou na direção de um soldado e tocou seu ombro.
- Informe o Führer que a Alquimista da Morte, Edward Elric e aquele Homúnculo estão vivos e em segurança.
- Imediatamente, senhor! – O soldado batera continência e se afastou correndo do recinto.
Havoc parou por um instante e voltou sua atenção para a jovem Elicia. Sorriu ao ver que a filha de Hughes estava sem nenhum ferimento, parecia apenas cansada; sentiu a preocupação se esvair.
- Nosso Führer ficará feliz, hm? – Mas não somente ele, Havoc imaginou. Ele mesmo se sentia feliz com a presença da filha de Hughes. O militar preferiu afastar da cabeça o sentimento de alívio, pois sabia que era perigoso demais pensar nisso.
- Oh, eles já voltaram? – Uma nova voz invadiu o lugar.
- Huh? – Havoc arregalara os olhos. – Há?!
Palmas foram ouvidas por todo o complexo. Todos se voltaram para a saída do lugar, no local oposto onde estavam Elicia e os demais. A Alquimista da Morte sentiu cada músculo de seu corpo paralisar ao ver quem acabara de adentrar o recinto.
Os cabelos louros de tonalidade clara, caídos de maneira desleixada sobre a testa, cobrindo parcialmente a sobrancelhas, eram facilmente reconhecidos por Elicia; eram fios lisos, sempre despenteados. Os olhos azuis encaravam fixamente a Alquimista da Morte, abrindo um sorriso malicioso assim que perceberam o espanto da jovem.
O uniforme militar e suas condecorações delatavam a identidade do recém-chegado.
- Fico feliz que tenha voltado para nós, Alquimista da Morte. – Sua fala parecia estar recheada de sarcasmo. – Estava começando a achar que um de meus cães havia morrido.
Elicia não era exatamente fã do General Ellijah. Uma das inúmeras razões, era sua maneira irreverente e maldosa de lidar com qualquer situação; fora isso, existia o maior problema de todos.
- Quem é esse cara? – Ed olhou incomodado.
- Ele é meu superior. – Elicia engoliu seco.
Comando Central da Cidade Central
Sala do Führer
Roy estava de cabeça baixa, não conseguia encará-la. Havia sido muito duro, mas precisava continuar com o teatro se realmente quisesse mantê-la viva.
O Führer estava cansado de colocar as pessoas mais importantes de sua vida em perigo, tivera o maior cuidado para que Elicia não se metesse em problemas e mesmo assim, a peste havia se tornado Alquimista. Ele esperava que ao menos desta vez, seus planos seguissem conforme o planejado.
- Esta é sua ordem final, senhor? – Riza dissera. Estava com a derrota estampada no rosto, parecia abatida com o que acabara de escutar.
- Sim, senhorita Hawkeye. Por que eu haveria de mentir sobre um assunto tão simples? – Roy deu uma risada sarcástica.
- Ah, sim. – Riza concordou com a cabeça.
- Me foi oferecido por Creta. Ficarei com uma nova assistente, assim honrarei meu presente e agradarei minha futura esposa. – Roy continuou. – Não estou efetivamente tirando-a dos militares, estou apenas remanejando sua posição.
- Pude notar ao ler a carta de dispensa. – Riza interrompeu. – Dispensada dos serviços aos Führer e com cargo à disposição.
- Espero que não se incomode, mas já decidi sua nova posição. – Ele começou, sem olhar para Riza.
- Não me incomodarei, senhor. Do que se trata? – Houve um tom de esperança na voz de Riza.
- Você será assistente do General Friedrich, do Quartel Central. Ele a requisitou pessoalmente assim que ficou sabendo do seu desligamento.
Riza escondeu a raiva. Não gostava do jovem General de cabelos loiros, parecia um Roy Mustang com 20 anos e muito mais mulherengo que o próprio. Não se sentia confortável em dividir o ambiente com ele, e agora deveria servi-lo.
A vida era cheia de ironias.
- Ah... Eu... Entendo. – O desapontamento tomou conta.
- É somente isso. Se puder agilizar, gostaria que retirasse suas coisas e as levasse para a nova sala. Minha nova assistente deve chegar em breve. – Roy lhe dera as costas.
Riza respirou fundo e bateu continência. Dera as costas para o Führer e saiu da sala, sem mais palavras.
Caminhava ereta, sem demonstrar qualquer sentimento que estivesse sentindo; ela notou quando Ellijah surgira no corredor sendo acompanhado de Elicia, Ed, Alphonse e Havoc. Seu rosto se desfez da seriedade e ganhou um tom de surpresa.
- Elicia? – Sua voz saiu.
- Ah! – A jovem Alquimista sorriu.
Riza teve seu reencontro interrompido quando viu o Ellijah se aproximando.
- Que excelente, a senhorita chegou antes do esperado. – Ellijah sorrira. Ele estava com as mãos atrás das costas, caminhando elegantemente; parecia andar mais lentamente que os demais, mas talvez fosse apenas a maneira como caminhava. – Gostaria de se juntar a nós?
- S-Sim senhor! – Riza batera continência sem pensar.
Ellijah fizera um gesto com os dedos e Riza o acompanhou pelos grandes corredores do Quartel. Adentraram uma sala de reuniões pequena, com apenas uma mesa e cadeiras disponíveis; não havia uma decoração mais requintada, apenas uma parede branca e cortinas vermelhas que tampavam a luz forte do sol.
Edward, Alphonse, Elicia, Havoc e Riza acabaram se sentando em volta da mesa enquanto Ellijah permanecia em pé.
- Você é o tal de Ellijah? – Edward resolveu iniciar a conversa.
Elicia engasgou com a saliva ao ouvir a pergunta indiscreta do seu mentor. Olhou desesperada para Ed, em esperança que ele se calasse.
- General Ellijah Friedrich, se assim desejar. – Ele se divertiu com a fala. – Parece que os anos fora do Exército o ensinaram a perder o respeito com os superiores.
- Ah. – Ed se conteve por um momento. Escondeu a raiva crescente e continuou. – Me desculpe, mas eu realmente precisava encontrar alguém responsável por este Quartel.
- Acabou de encontrar. – Ellijah riu.
- QUÊ?! – Ed exclamou, surpreso com a simplicidade do homem. – Tem quantos anos? 20? Você não tem cara de ser General, nunca!
Ellijah parecia se divertir verdadeiramente com a inquisição promovida por Ed. Já Elicia parecia entrar em desespero a cada questão indiscreta, ela já sabia a verdadeira personalidade do General e temia por Edward.
- Não tenho idade da mesma maneira que você não tinha a altura necessária, quando assumiu o cargo de Alquimista Federal. – Suas palavras acertaram em cheio o orgulho do Fullmetal que acabou escorregando na cadeira e perdendo a voz. – Idade não tem haver com responsabilidade, senhor Elric; mas se te satisfaz, eu tenho 22 anos.
Tão novo. Edward pensou, enquanto continuava a encarar o General.
- Se é somente isso, posso dar continuidade? – O general indagou.
- Ahn... Sim... – Ed assentiu.
- Obrigado, senhor Elric. Estava torcendo para que voltasse logo de sua pequena aventura, jovem Hughes. – Houve ironia na voz do General. Ellijah caminhava lentamente em torno da mesa, sem perder a elegância. Seus pés pisavam com firmeza no chão e a cada passo que dava, um barulho ecoava pela sala.
Havoc fechou os olhos, sentiu-se incomodado ao ouvir o General chamar Elicia da mesma maneira como se referia a ela.
Elicia fez uma breve reverência, pedindo desculpas silenciosamente.
- Não me importa. Nosso acordo sempre foi esse. Você ia para suas pequenas aventuras e eu te colocava nas missões que desejasse. – Ellijah rira.
- Patrulhar a cidade? – Elicia arqueou uma das sobrancelhas. – Excelente missão.
- Oho. Estamos audaciosos hoje, não? – Ellijah batera a mão no topo da cabeça de Elicia e bagunçara completamente os cabelos longos da jovem. Elicia demonstrou desconforto, mas nada fez pra impedir o homem. – Fique calma que esta missão é de seu interesse.
- Desculpe a pergunta, mas... Por que o senhor nos chamou? – Alphonse indagou.
Ellijah sorrira, mas não respondera. Caminhou tranquilamente até uma cadeira que ficava de frente ao grupo e se sentou, colocando as pernas em cima da mesa. Suas mãos pousaram nas pernas e sorriso estampado aos poucos foi desaparecendo.
- Quero que vocês investiguem algo para mim. Não estou falando de algo simples, preciso de dois grupos para irem a dois lugares. – Ellijah disse seriamente. – Eu batalhei arduamente para conseguir esta missão e não quero falhar, por isso resolvi escolher os melhores.
Elicia batera a mão na mesa e encarara de maneira feroz o General.
- Arduamente? Está mais para tranquilamente. – A personalidade rebelde da jovem viera à tona. – Duvido muito que tenha sofrido para conseguir esta missão. O que utilizou desta vez? Suborno? Pagou alguma dama para fazer companhia a um outro General?
Riza respirou fundo.
- Elicia, comporte-se. Não gostaria de prendê-la por desacato. – Sua fala soara como uma ameaça e não aviso.
Ellijah apenas riu.
- Apesar dessa aparência e do comportamento, garanto que sou um excelente soldado, senão eu não estaria aqui, dando ordens, hm? – Ele dissera calmamente. – O fato é, eu estava com receio em colocá-la nas missões mais importantes já que faz pouco tempo que pertence aos cães Exército.
Ahã. – O pensamento dominou Elicia e Riza ao mesmo tempo. Pura falsidade.
- O que eu faria se minha adorável noiva morresse durante uma missão de risco? Ah, eu ficaria muito triste. Por isso sempre envio meus Alquimistas mais inúteis. – Ellijah dizia com um tom de voz amoroso.
- EH? – Ed, Al e Havoc pularam das cadeiras e gritaram em uníssono.
- Ah. – Riza lamentou em voz baixa. A personalidade irritante de seu novo chefe havia acabado de aparecer, a personalidade que ela tanto odiava.
Ellijah riu quando viu que Elicia sequer tinha reação.
- Há, há. Você continua uma figura, jovem Hughes. – Ele se divertia. – Nem mesmo um grito de surpresa? Assim você me magoa.
- Esse noivado é algo que foi decidido por você. Não faço ideia do motivo que o leva a pensar que eu irei me unir a uma pessoa como você. – A Alquimista da Morte foi categórica. – Minha mãe pode até simpatizar com sua pessoa, mas garanto que meu pai jamais o aceitaria.
- Assim você ofende minha índole. De todo modo, resolvi chamar vocês por este motivo.
- O casamento da Elicia? – Al perguntou inocentemente.
- NÃO. – Elicia respondeu imediatamente.
Ellijah novamente riu.
- Como minha adorável e rebelde noiva disse, não. Quero encarregá-los desta missão que poderá evitar que uma nova guerra aconteça em nosso país.
Ed e Al se entreolharam, sabendo que o tipo de guerra que o General estava dizendo. Ellijah, porém, não pareceu notar a troca de olhares e prosseguiu.
- Quero que viajem para e Creta investiguem o passado da Imperatriz Safyia. Tenho fortes suspeitas de que essa mulher planeja algo grande contra nosso Führer.
Todos ficaram em silêncio. A fala de Ellijah fizera com que o grupo ficasse surpreso.
- Recebi relatos de que Safyia pode estar por trás dos acontecimentos recentes, preciso obter a confirmação antes de partir para a próxima etapa.
- E como sabe que ela é culpada pelos incidentes? – Edward questionou ceticamente.
- Ela chegou, as coisas aconteceram. – Ellijah respondeu naturalmente, para incômodo de Ed. – Mas falando sério, reuni informações através de fontes confiáveis, Safyia não é quem aparenta ser.
Elicia assentiu com a cabeça.
- Recebi um pedido de reforço para o Norte. A General Armstrong necessita de especialistas em Alquimia para analisar um achado próximo da fronteira. Pensei em indicar Alphonse Elric na viagem. – Ellijah ia dizendo. Erguera-se da cadeira e resumira a caminhada em todo dos presentes. – Ele seria acompanhado por alguns soldados de minha confiança e de um conhecido de vocês, o senhor Brigadeiro-General Armstrong.
Al engolira seco.
- Eu? – Ele repetiu.
- Sim. Apesar de não fazer parte oficialmente do Exército, posso convocá-lo para uma missão extraoficial. – O General explicou. – Quero que investigue e se reporte imediatamente a mim.
Ed assumira a posição defensiva quando Ellijah encostara sua mão no ombro do Fullmetal.
- E quanto ao senhor. – O general começou.
- Eu não faço mais parte do Exército, eu pedi para sair, se lembra? – Ed retrucou antes que o homem falasse. – Resolvi segui-lo justamente para tentar mud-
Ellijah apertou o ombro de Ed com força, fazendo o Alquimista se calar.
- Considere-se reintegrado ao Exército, Fullmetal. – Ellijah falara friamente. – Seus documentos de reintegração, comprovantes e relógio serão entregues em sua residência dentro de 15 dias para tornar oficial. Contudo, sua patente de Major está ativa e a partir de agora, como seu superior direto, posso enviá-lo em missões que bem desejar.
Ed olhara surpreso para o homem.
- Mas que-
- Pude testemunhar sua habilidade em Alquimia no Laboratório 5. Garanto que ela será bem útil nesta missão. – O General observou.
- Friedrich! – Elicia exclamara irritada. – Meu Mestre não tem nada haver com isso. Não sou eu, o cão dos militares, que você sempre pisa? Por que resolveu incomodá-lo
- É claro que ele tem. – Ellijah parecia surpreso com a afirmação de Elicia. – Em Creta, há boatos sobre a utilização da Pedra Filosofal para criar a imortalidade. Algo que, segundo meus relatórios, o pai dos Elric conseguiu.
O silêncio então imperou novamente no local.
- E então? – Ellijah abrira um sorriso malicioso e encarara o grupo. – Prontos?
