Ninguém no acampamento ficou sabendo do ocorrido daquela noite fora os próprios envolvidos, e, ainda assim, todos evitavam tocar no assunto. Shara foi o que ficou mais perturbado com tudo. Passou as seis últimas semanas implorando perdão ao drifter, que já se sentia mais incomodado com as desculpas do que com a flechada. Mesmo que Shara fosse o culpado pela desagradável ferida, Toyohisa parecia mais receoso em relação a Sharm. Não chegou a ignorar totalmente a presença do elfo, já que teriam de conviver bem, devido ao treinamento. Mas não permitia nenhum tipo de contato mais íntimo ou sugestivo.
Sharm, por outro lado, tentou inúmeras vezes, se aproximar do drifter, falhando em todas elas. O tempo estava passando e precisava logo abrir o jogo com Toyohisa; precisava contar sobre o bebe. Só de tentar imaginar a reação do drifter, ao descobrir que teria um filho com outro homem, deixava Sharm enjoado e suando frio. Mas não tinha opção. A gestação dos elfos era absurdamente rápida em relação a humana, e logo não haveria mais meios de se esconder. Ou contava ou seria descoberto.
Ainda estava tentando descobrir qual seria a menos ruim, quando escutou alguém entrar na barraca; sabia quem era só pelos passos. Continuou o que fazia, ignorando a presença daquela pessoa, como havia feito durante as duas últimas semanas, quando desistiu de tentar uma reconciliação. Sentiu o homem parar bem as suas costas.
– Preciso de mais ervas.
– Já te dei a quantidade suficiente por hoje.
– Bom, acredito que vou precisar de mais. - Toyohisa mostrou a mão, que sangrava muito. Provavelmente, algum elfo progrediu muito durante o treinamento. – Desculpe, vai ter que limpar a barraca depois.
Sharm estendeu as ervas, mas Toyohisa ficou apenas o encarando meio sem jeito.
– Estou ferido, não vou conseguir trocar o curativo do ombro e fazer o da mão também. Além disso, eu sou canhoto, você sabe.
– Não tem problema, o Yoichi pode cuidar disso.
Ignorando a dispensa de Sharm, Toyohisa se sentou ali, arrancando a jaqueta e a blusa. O curativo estava uma zona, provavelmente era o próprio Toyohisa quem estava cuidando do ferimento. Sharm começou a preparar as ervas. Toyohisa era uma negação em cuidar de si mesmo, e com certeza, aquilo devia estar infeccionado. Quando Sharm se aproximou, Toyohisa o puxou, fazendo o elfo se sentar e seu colo. Sharm fez cara de indignação para o drifter.
– Assim fica melhor pra você alcançar.
Sharm achou melhor ignorar aquilo e voltou a sua tarefa. Removeu a atadura e limpou o buraco que já estava praticamente cicatrizado. Passou um pouco da mistura de ervas ali com todo o cuidado. Toyohisa fechou os olhos e sorriu assim que o elfo o tocou.
– Acredito que já esteja curado; está até rindo.
– Não estou rindo, estou sorrindo. É bom poder sentir a sua pele na minha.
– Não comece com isso de novo, Toyohisa-san.
– Desculpe, pensei que depois de tanto tempo, você também sentisse a minha falta.
– Não é como se eu tivesse escolhido assim.
– Sharm… - Toyohisa tocou as laterais do corpo de Sharm – Opa, sujei a sua blusa de sangue. Acho melhor você tirar.
Toyohisa subiu a blusa do elfo de uma vez, quase a arrancando.
Assim, totalmente exposto, ficava bem evidente o quanto o corpo de Sharm havia mudado nesse tempo. A barriga já se encontrava bem grande e arredondada, com um formato bem específico. Os mamilos, vermelhos e um pouco inchados. A temperatura da pele de Sharm também estava altíssima; coisas típicas daquele estado. Toyohisa não conseguiu esconder uma nota de curiosidade sobre aquelas mudanças drásticas no elfo, em tão pouco tempo.
Sharm foi pego tão desprevenido, que demorou pra notar que o drifter avaliava minuciosamente sua aparência. Pulou do colo do drifter, em pânico, voltando a se cobrir. Toyohisa percebeu o quanto aquilo deixou Sharm perturbado.
– Oe, não precisa ficar assim, eu não me importo. - Toyohisa se levantou tentando novamente abraçar o elfo, que se desvencilhou mais uma vez. – Eu sei que você só fica aqui, parado o dia todo, mexendo nessas ervas. Normal você ter engordado tanto assim.
– Eu não estou gordo.
– Sharm, tá sim. Mas relaxa, vou colocar você em uma dura rotina de treinamentos, depois da guerra.
– Depois da guerra?
– Sim, depois da guerra. Não vou deixar você lutar.
– E por que não?
– Porque você não é como os outros elfos.
– Sim, sou o mais forte fisicamente e bem maior que todos eles. Além de ser o único que pode salvar a vida de um, durante combate.
– Não importa, eu sou o comandante e eu decido quem vai lutar.
– Mas é o meu povo que vai lutar, e eles são importantes pra mim.
– Então, você me entende. Porque… - Toyohisa parou e ficou encarando o chão, antes de tomar coragem e encarar Sharm de novo – Você também é importante pra mim. - Sharm pareceu muito surpreso com aquelas palavras – Esquece, eu não vou ficar aqui discutindo com você; já tomei minha decisão.
Antes que Toyohisa saísse, sem nem ao menos refazer as ataduras, Sharm o segurou pelo braço bom.
– Eu não estou gordo porque comi demais ou porque fico o dia todo sentado aqui.
Sharm voltou a se aproximar do drifter e tomou coragem para pegar as mãos do homem e colocá-las em sua barriga. Ficou esperando, ansioso, por alguma reação de compreensão por parte do outro. Toyohisa moveu as mãos sentindo a rigidez que não era normal. Se fosse mesmo gordura, seria mais maleável, com certeza. Sentiu algumas discretas ondulações.
– Sharm, você tá com verme?
– Verme? Não! Claro que não, não fale isso.
– Olha, eu não sei qual é o seu problema mas, eu já disse que não me importo. - Toyohisa voltou a abraçá-lo – Eu sei que briguei com você e que faz um tempão já que a gente não conversa direito. Você deve sim estar com raiva mas, eu sinto a sua falta, Sharm.
– Mas e todo aquela história de honra? Isso não te incomoda?
– Sim, mas ninguém precisa saber. Somos homens, e homens precisam de algum conforto em tempos de guerra também. De mulher aqui só tem a Olminu, mas você sabe que eu prefiro você. - Sharm sorriu pela primeira vez. – Além disso, ficar com um homem tem lá suas grandes vantagens. Homens são duros na queda, aguentam mais, sabe. E o mais importante… homens, não engravidam. - Sharm sentiu o corpo todo perder as forças – Já pensou que tragédia você descobrir que será pai bem no meio de uma guerra? Pior ainda, com qualquer uma assim. Eu só quero ter meus filhos com a minha esposa, com a mulher que eu escolher pra formar uma família, e, com certeza, isso não será tão cedo. Agora, eu só quero aproveitar a sua companhia, Sharm.
Toyohisa voltou a tentar beijar o elfo. Sentiu a umidade no rosto pálido. Lágrimas. Sharm estava chorando; em silêncio. Sua feição era de puro sofrimento. Num primeiro momento, Toyohisa ficou sem reação. Será que havia dito alguma besteira? Talvez Sharm tenha ficado com ciúmes de Olminu, ou, da suposta esposa, que Toyohisa cogitou ter um dia.
– Não acredito que você vai bancar o ofendido agora, Sharm. Eu realmente gosto muito de você, mas, eu já disse antes, lembra; nada de compromissos.
– Tudo bem, você tem razão. É como eu disse daquela vez, você não precisa assumir nenhuma obrigação comigo. - Sharm começou a separar algumas coisas.
– Oe, o que está fazendo?
– Obedecendo ao comandante. Eu não vou participar da guerra, eu vou embora… agora mesmo.
– Quê? Você não pode ir embora assim, espere até o final dos treinos. Serão mais um ou dois meses, e…
– EU NÃO POSSO ESPERAR. - Sharm perdeu o controle e começou a chorar de novo – Eu não posso mais esperar. E quer saber, eu também não vou ficar aqui discutindo com você; já tomei minha decisão.
