Chapter X – Cullens

O sol estava a pino, mas grande parte de seus raios solares eram impedidos por nuvens cinza. Marcus continuou a manter seus olhos fixos na paisagem que passava rapidamente por nós, evitando me olhar. Seus pensamentos estavam longe, eu sabia apenas por ver a expressão vaga impressa tão obviamente em sua face de Adônis. Suspirei e tentei seguir sua ação.

Mas era tudo tão... verde. Inevitavelmente senti-me submersa a uma floresta, com um condensado de árvores cobertas por musgo e liquens em ambos os lados da pista. Até mesmo o cheiro era de uma floresta. Minha nova cidade em que eu seria obrigada a morar (não que contra minha vontade, mas eu ainda gostava de carros, poluição e pessoas. Ou talvez nem tanto).

Forks, vulgo chuva.

Suspiro.

Então deixei que meu cérebro fosse permitido pensar coerentemente (tal qual, há algum tempo não podia). Eu não conseguia me lembrar em que altura eu havia caído no sono enquanto estávamos no jatinho que Marcus havia alugado. Muito menos passava por minha mente como parara em um carro de luxo dirigido por um vampiro louro chamado Carlisle; que ao contrário de Gilly e Marcus, possuía uma pele com menos aparência de fragilidade. O oposto. Eu podia saber apenas de olhar, que a cobertura externa de seu corpo era fria e dura. E seus olhos estranhos eram tão amarelos que beiravam a um dourado escarlate.

Gilly seguiu o trajeto inteiro cantarolando Moonlight Sonata, seus olhos escuros chamuscavam alegria. Virou-se pouquíssimas vezes para me incluir a conversa e evitou fazer o mesmo a Marcus; eu escutei a maior parte do tempo calada os relatos que narrara a Carlisle. Muitos tratavam de assuntos que raramente se faziam de meu entendimento, enquanto os outros englobavam notícias de Volterra.

Já começava a entardecer quando terminamos de cruzar a pequena cidade (com não mais de quatro mil habitantes). Fiquei muitíssimo grata quando o vampiro chofer revelou – ao mesmo tempo em que deixava seus dentes brancos como de comerciais de pasta de dente, brilharem para mim pelo retrovisor – que em poucos minutos estaríamos em sua casa. Naquela altura, grande parte de minha perna pinicava com a sensação de dormência, minha garganta estava seca e meu estômago apertava-se de fome.

Passamos sobre a ponte de um rio chamado Calawah (que o condutor fez questão de apontar), cortando uma estrada que se fazia presente na região norte da cidadezinha, as casas passando aos nossos lados como flashes, cada vez maiores. E depois, por mais casas, até que adentramos a uma floresta nevoenta. Começava a perder a paciência (afinal ele havia dito que estávamos chegando!) quando o vampiro virou o carro abruptamente em uma estrada de terra. Não havia sinalização, mal era visível por entre as samambaias. As árvores a nossa volta impediam que eu pudesse ver o que vinha a frente, e grande parte disso devia-se as curvas estranhas em forma de serpente que acabamos por deixar para trás em segundos. Mais alguns poucos quilômetros, a floresta abriu-se em uma campina de grama bem aparada. Mas ainda sim, o sol não tocava de todo a mansão, que era coberta pelas sombras de seis cedros centenários que abrangiam meio hectare com suas folhagens.

A mansão me surpreendeu, tive de admitir. Não que eu esperasse um castelo e masmorras, mas definitivamente não era aquilo. Possuía três andares, cujo branco desbotado impregnava as paredes que se estendiam como deveriam ter sido em seu projeto original, várias décadas passadas. Era retangular e sua simetria era perfeita; as janelas e portas largas e de madeira brilhavam com o sol alaranjado que chegava aos cumes da cadeia de montanhas ao longe.

O carro parou perfeitamente estacionado a frente da casa. O primeiro a descer fora Gilly, que em um piscar de olhos já estava na varanda obsoleta aguardando por nós. Carlisle fora o segundo mais rápido, mas eu suspeitava que Marcus quisesse assim. O louro flutuou para longe da BMW, deixando-me à sós com meu vampiro. Ele pintou seu rosto com uma expressão que não consegui identificar; pairava sobre uma determinação palpável e uma dor ininteligível.

"Pedi a Gilly algumas proteções que poderíamos colocar sobre você agora que irá conhecer outros vampiros," começou, olhando-me apenas de esgoela. Sua cabeça continuou em ângulo reto, encarando o estofado do banco do passageiro a sua frente. Apertei com força minha calça jeans e senti uma dor horrível no local enquanto minhas unhas compridas marcavam minha pele. "Não será suscetível a nenhum poder que os vampiros dessa casa possuem, com exceção a leitora do futuro. Quanto aos outros, não deverá se preocupar, sempre estará segura na imensidão de seus pensamentos."

Eu tomei aquilo como algo bom, mesmo com as advertências de Gilly. Pelo que haviam me contado, os Cullen tinham uma prole de superdotados, desde uma vidente até um que podia ler a mente das pessoas. Se eu pudesse ser imune em especial ao último, estaria muito feliz.

"Certo," consegui finalmente gaguejar, destrancado a porta ao meu lado e preparando-me para tocar com meus pés aquele gramado verdejante. Antes que terminasse, uma mão fria segurou meu braço, impedindo-me de prosseguir. Virei meus olhos, encontrando os negros de Marcus.

Voltei minhas pernas para dentro do carro e toquei com as pontas dos dedos o rosto marmóreo dele. Sua pele com aparência sensível pareceu queimar a minha, ao mesmo tempo em que enviava espasmos de eletricidade por todo o meu corpo. Era sempre assim. De repente meu coração tornou-se frenético e um rubor subiu até minhas bochechas. Ele me avaliava.

Só restariam alguns minutos até que tivéssemos de seguir Carlisle e Gilly, eu tinha de agir rápido. Aproximei meus lábios dos dele. Marcus não protestou assim como da outra vez, e até entrelaçou seus braços ao redor da minha cintura para que eu fosse para mais perto. Seus lábios mexiam-se delicadamente contra os meus. Quando com um gesto impensado, tentei aprofundar o beijo. Marcus virou uma estátua.

"Desculpe," sussurrei sem fôlego. Marcus sorriu como se pedisse desculpas e descemos do carro. Eu senti minhas pernas bambas, mas Marcus já passava seu braço em volta de mim e mantinha meu corpo ereto e menos constrangedor. Se eu fosse encontrar uma legião de vampiros bonitos e perfeitos, queria que pelo menos eu pudesse estar no mínimo digna.

Nossos passos foram encobertos pelo cantar de passarinhos que planavam de cedro para cedro, e alguns até haviam passado por minha cabeça em um vôo rasante. Marcus mal os notava, o que me deixou ainda mais insegura. O que ele devia estar pensando? Era o que eu mais gostaria de saber. Começamos a subir os degrauzinhos que davam para a varanda. Quando nos juntamos a Gilly e Carlisle, a porta se abriu. Nove vampiros me encaravam.

Tremi.

Passei meus olhos rapidamente pela decoração da sala incrivelmente iluminada. Os tapetes no chão eram variáveis de branco, combinando com as paredes e o vidro extenso que deixava o sul da propriedade visível. O chão era de uma madeira lustrosa, vigas grossas suspendiam o teto. Os vampiros – tentei não encará-los ainda – estavam parados a frente de um lindo piano de cauda. Mais ao longe, encontrei o sofá – branco! – em que uma garotinha beirando os treze anos também me encarava. Tirando os moradores com suas roupas caras e de grife, qualquer outra coisa era branca, pálida e clara.

Uma das vampiras sorriu para mim. Seus olhos eram do mesmo tom estranho de Carlisle e seu cabelo descia em uma cascata castanha. Por alguma razão, era a única que ainda parecia conservar uma humanidade, uma inocência acima da raça mítica que havia adentrado em minha vida. Era Bella, a mulher em que Marcus havia me contado sobre sua vida.

Tentei relembrar das descrições que me haviam dado. Reconheci o alto e halterofilista Emmett, sorrindo como sempre e encostado no piano; ao seu lado, estava a surpreendentemente loira Rosalie, com os lábios apertados em uma linha reta; Esme era a mais velha, coberta de uma aura de amor e segurava um embrulho escarlate por entre seus braços desnudos e mais grossos. Jasper e Alice, os únicos que não haviam sido mudados por algum membro daquele clã, encontravam-se meio escondidos atrás de Edward. Bella mantinha sua mão direita enroscada nas de seu marido.

Renesmee foi a mais difícil de lembrar o nome. Da última vez que Marcus a tinha visto lembrava uma pequena criança beirando os seus cinco anos, agora, poderia ser uma estudante de uma junior school. Ela brincava com um gatinho minúsculo que miava baixinho.

"Seja bem vinda, Annabelle," Alice Cullen disse. Sua voz lembrou-me daquelas mulheres que cantavam em musicais da Disney. Poderia passar-se pela branca de neve, se a réplica perfeita da personagem de contos de fada não estivesse carregando um presente até a mim.

Esme sorria enquanto entregava o embrulho para mim. Marcus tomou-o da minha mão para que eu pudesse também sorrir para os anfitriões da casa e abraçá-los um a um. Morador por morador desejou-me um caloroso olá e afastou-se para que o próximo também o fizesse. Rosalie, mesmo com seu rosto perfeito meio tenso, também participou da procissão.

Eu estava envergonhada, disto eu tinha plena certeza, mas nada se comparou à hora em que os Cullen haviam terminado de se apresentar. Marcus apertou seu braço em volta de mim, guiando-me até onde Renesmee estava. Olhares interrogativos queimaram minhas costas enquanto eu me afastava.

Renesmee era ainda mais linda de perto. Seus cabelos longos e cor de cobre, assim como o do pai, corriam em cachos perfeitos em volta da face angelical; os olhos castanhos brilhavam para mim e sua boca curvou-se para cima, mostrando os dentes tão brilhantes quanto do avô vampiro. Ela pulou do sofá pálido, ficando a minha frente. O gatinho branco com um laço rosa do pescoço miou em protesto em meio aos braços da garota meia-vampira.

"Olá, Renesmee," eu disse, esquecendo-me que não seria muito educado fazer isso antes dela. "Prazer em conhecê-la."

Ela sorriu e apreciou meu gesto. "Seja bem vinda a nossa casa, Anna," falou, chamando-me pelo meu apelido. Também gostei disto. "A propósito, essa é Marie."

A gatinha escapuliu do colo da garota, mas antes que sumisse para longe, Marcus a segurou. Marie, a gatinha, não protestou, nem ao menos tentou escapar uma segunda vez. Marcus segurou-a por entre sua mão e devolveu a Renesmee.

"Muito obrigada," ela agradeceu. "Muito bom encontrá-lo novamente."