Título – Fairy Tale
Resumo: Em um mundo tomado de magia e mistérios, com guerreiros endurecidos pela pobreza da terra, em um lugar esquecido, uma lenda permaneceu. Quem vai salvar a princesa? Heero & Relena
Disclaimer: Gundam Wing não me pertence (sim, sim, é a dura realidade T.T). Quem tem todos os seus direitos é a Sunrise e blá, blá, blá...
Ah sim, não ganho nadinha com isso, só o mero prazer de escrever!
Música do Capítulo – Breathe Me (Sia)
ATENÇÃO: As personagens Cléo & Kelly são uma criação minha, se vocês quiserem usar, me peçam e me dêem os devidos créditos!
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Capítulo010 – As partes de uma Jornada I
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"Help, I have done it again
I have been here many times before
Hurt myself again today
And, the worst part is there's no-one else to blame
Be my friend
Hold me, wrap me up
Unfold me
I am small
I'm needy
Warm me up
And breathe me
Ouch I have lost myself again
Lost myself and I am nowhere to be found,
Yeah I think that I might break
I've lost myself again and I feel unsafe..."
A manhã parece excessivamente cinza, como se brincasse com os assuntos sérios que ouvira no dia anterior, colocando-se em um falso luto, a imobilidade das árvores, os sons inexistentes fazendo tudo parecer ainda mais imóvel e irreal, perigoso.
Relena é a última a se por de pé, o chão duro nunca a fazendo exatamente descansada, o que mais sentia falta era de uma cama, onde pudesse dormir aquecida, no macio.
O grupo já se reunira e comia um desjejum de pão e água fresca, parecendo discutir algo acirradamente, alterados. A loira se aproxima, sorrateira, o vento mexendo-lhe os cabelos, desordenando os fios.
-O que há? – Tenta saber ao se aproximar, mas ninguém parecia disposto a explicar-lhe. Fica calada enquanto assiste a discussão.
-Mas eles viverão uma vida de escravidão! Uma vida sem direito a liberdade mal pode ser considerada! – Kelly parecia alterada, o rosto corado enquanto gesticulava, a voz alterada, deixando os caninos pontudos a mostra.
-Então prefere ficar aqui e morrer no caminho? São muitos! – Era Heero que respondia, no mesmo tom autoritário, ela não parecia intimidada.
-Kelly, acalme-se e me escute! – Cléo chama sua atenção, entrando em foco, os cabelos laranjas tombando para frente enquanto acenava – São muitos, não temos chances contra eles, não agora. Entendo o que quer dizer, mas simplesmente não temos chance. Talvez realmente devêssemos começar algo por eles, mas não no presente, não temos tempo agora, se ficarmos, morreremos. – A elfa joga a mão para baixo, em um movimento de quem desistira, calando-se. Um silêncio denso se instaura.
Duo, que a princípio concordara, já havia sido convencido. Agora os dois haviam perdido os argumentos. Todos ali os entendiam, todos haviam passado por isso, mas, tristemente, não havia nada que pudessem fazer, em suas condições atuais.
-Então... – Heero pausa, a voz grave novamente indiferente – Está decidido, vamos em frente. – E levanta-se, pegando suas coisas, já sem olhar para trás. Duo logo começa a pegar as suas também.
Kelly levanta o rosto, e de onde estava sentada em um tronco, encara os olhos finos e ferinos de Wufei, parado do outro lado, em pé. Trocam um olhar longo e frio, carregado. Nenhum dos dois desvia o olhar. Em seguida ele se vira e vai embora.
Relena ainda estava confusa e olha em volta, querendo explicações.
-Duo? – E corre atrás dele, fazendo-o virar-se e sorrir ao vê-la.
-Diga princesa – E ela sorri de volta, derretendo-se diante de seu calor.
Cléo se aproxima de Kelly que continuava sentada, rígida na mesma posição, como quem fora humilhada em sua derrota.
-Vamos? – E se abaixa a sua frente, sorrindo e lhe fazendo uma careta. Kelly dá um meio sorriso, pegando a mão que lhe era estirada.
-Vamos – Mas a voz soava cansada e amargurada, como se algo lhe faltasse na essência.
A próxima cidade grande, Khazad, que ficava antes de Lamïra, a última das libertas cidades grandes, ficava há alguns dias de viagem, então teriam de aturar a situação por mais aquela quantia de tempo. Sem saber ao certo como haviam combinado, se dirigiam para lá, meio hesitantes talvez, o mundo começando a ficar fora de controle.
Todas as terras do Oeste pareciam conquistadas. Lämira ficava bem ao Norte, depois de densas florestas e embrenhadas montanhas e relvas verdes desertas. Sua sorte é que não estavam tão longe assim, talvez algumas semanas, se andassem rápido.
-O que eu perdi? – Relena indaga, tendo de manter o passo em ritmo de marcha para acompanhar Duo, que caminhava de maneira energética. O de tranças apenas suspira de maneira falsamente cansada, quase divertido, coçando a cabeça.
-Mais uma divergência de opiniões, só isso, mas relaxe princesa, porque por aqui é assim, você piscou e perdeu uma, então pode ficar tranquila que já já temos outra para você ver – E ele dizia isso de maneira tão sincera, que Relena não pôde evitar cair no riso, cobrindo o rosto.
É quando ela sente os olhos de Heero pesados sobre si e se vira, a sua procura. Ele passa a seu lado no mesmo instante, o semblante agressivo fazendo-a instantaneamente fragilizada e exposta.
-A caminhada é longa, então eu recomendaria que você guardasse suas energias para ela – E se afasta, indo ocupar seu lugar mais a frente, sem um segundo olhar em sua direção. Ela lança um olhar intrigado a suas costas, sem conseguir entende-lo.
Duo ri baixinho e quando ela lhe relanceia, dá de ombros, afirmando que Heero era uma pessoa incompreensível. Durante a caminhada o assunto se reduziu ao mínimo, pois começavam a subir a última montanha necessária na trilha que os conduzia para seu destino. Perguntou-se sobre a quantidade de mantimentos necessários até a chegada da cidade, sobre o futuro acampamento e a ordem das rondas, nada mais.
Relena passou a perguntar-se se eles seriam um grupo estritamente funcional.
Olhando a seu redor, volta a perguntar-se o que fazia ali. Aquela jornada não era sua, tinha seu próprio caminho a traçar, tinha certeza, algo dentro dela gritava isso, a plenos pulmões e a avisava, estava seguindo por um caminho que talvez não fosse o correto.
A sua frente, Duo, Heero e Wufei marchavam em um silêncio energético, enquanto Kelly os seguia, inexpressiva, os olhos na estrada. Até Cléo parecia animada em seu jeitinho peculiar, os dedos enroscados na mochila que vinha às costas, a determinação em cada passo da caminhada.
Não fora feita para isso, longas caminhadas, mal conseguia acompanha-los em seu vestido longo e agradece mentalmente o dia ter nascido cinza. Se o sol fosse a pinho, já teria passado mal. Não sabia para quê fora feita.
O desespero que controlara tão bem nos últimos dias desponta lá do fundo de seu coração e ela é obrigada a apertar o colar de seu irmão que trazia em uma corrente, no pescoço, para se sentir calma e continuar a andar.
Mas algo em sua expressão deve tê-la denunciado, pois Cléo diminui um pouco o passo, passando a ficar ao seu lado.
-Está tudo bem? – A voz com que ela lhe pergunta não passava de um murmúrio e a loira vê que a menina mordia o lábio inferior e usava um meio sorriso, em uma expressão preocupada. Não queria chamar a atenção dos outros integrantes. A agradece por isso. O apreço que sentia pela ruiva crescia a cada instante.
Concorda com um aceno de cabeça.
-Acho que estou ficando um pouco cansada – Comenta devagar, mais por não saber exatamente o que dizer como resposta do que por qualquer outra coisa. A outra anui, ajeitando o peso nas costas de maneira violenta. A ruiva bufa, afastando a franja dos olhos com um sopro.
-Gostaria de parar para descansar? – Os olhos verdes lhe chamavam tanta atenção, vivazes e pergunta-se o porquê disso. Uma mescla de inocência e perseverança a faziam sentir-se conspurcada. Ia negar, mas já se demorara demais, a menina gritando em voz alta para que parassem um pouco.
Sob protestos, a peregrinação tem uma pausa. No meio da estrada onde estavam, subindo a encosta de uma montanha, não havia muito para onde se esconder, mas havia algumas fontes onde beber água e encher os cantis e também, possibilidade de se preparar alguma coisa fria para se comer.
Isso sendo avaliado, Kelly reúne os cantis e sai, entrando um pouco a diante no outro lado da estrada, onde um rio podia ser ouvido. Sabendo não haver grande possibilidade de perigo, Wufei deixa o grupo e a segue.
A chinesa suspira, os vigilantes olhos castanhos parecendo esgotados ao vê-lo a seu lado. A moça abaixa-se ao lado da fonte, fazendo seu trabalho, sem encara-lo.
-Você não precisava ter vindo – Diz em uma voz baixa e controlada, perfeitamente audível.
-Eu sei – Ele responde, de maneira levemente agressiva. Ela o conhecia para saber que ele queria dizer alguma coisa, então esperou, terminando o que fazia, as fitas de couro presas em uma mão. Vira-se para encara-lo e encosta-se a uma pedra atrás de si.
Os dois trocam olhares por alguns instantes. Ele então abaixa o rosto, chutando um pouco da terra no chão, cruzando os braços, de maneira a submeter-se, como se sentisse vergonha do que viria a seguir.
-Eu vi Gimel na floresta. Acho que estão planejando algo grande dessa vez. – As palavras pairam no ar um pouco vazias, um não chegando ao outro, a distância que havia entre eles crescendo não apenas em passos, mas em algo mais intangível, as mentes e os sentimentos fazendo-os mais afastados do que jamais haviam estado.
Ela engole em seco, os olhos um pouco arregalados e inspira o ar com força, sentindo-se um pouco tonta, manchas pretas surgindo em sua mente. Tenta respirar fundo e acalmar-se, não querendo se mostrar abalada. A fraqueza era algo que expelia de seu corpo, como um mantra, cotidianamente.
Ele encara seus ombros contraídos, a culpa ardendo dentro de si, como da primeira vez, apertando os punhos com força, sentindo-se tolo por não poder fazer nada. No fundo, era mesquinho por não conseguir carregar a dor que ela sentia.
Eram fracos juntos e repeliam-se por isso, ao mesmo tempo em que precisavam um do outro e remendavam suas feridas. Eram necessários um ao outro, dependentes, e isso os agredia acima de qualquer outro fato. Eram autodestrutivos em seu relacionamento.
Vê-la tão distante e tão vulnerável, as feridas se abrindo a apenas alguns passos de si era a maior agressão que Wufei poderia sentir. E ainda assim, não conseguia fazer nada a respeito, além de observa-la e esperar que ela lidasse com a situação, afinal, a sabia mais do que forte o suficiente para isso. De certa forma, nunca deixariam de ser solitários em sua companhia.
-Acho que não poderemos fazer nada sobre isso também não é mesmo? – E ela disse, sua voz saindo mais grave, mas atingindo-o pontiaguda e frígida. Ela levanta o rosto devagar, o peito subindo e descendo, a luz cinzenta tocando-lhe a pele de maneira a deixa-la particularmente branca.
Era uma acusação. Mais uma.
-Não podemos ajudar a todos. Você sabe disso – Tenta controlar-se, mas sempre acabavam agressivos, afrontando-se. Ela permanece alguns segundos no lugar, olhando-o com uma raiva enfurecida, uma obliteração, uma forma de lidar com todo o turbilhão de coisas que a incomodava advindas da informação que ele lhe trouxera.
-É, afinal de contas, minha cidade costumava fazer isso e olha para onde isso a levou – Ele não abaixou o rosto, nem sequer piscou, mas ela sabia que o havia machucado. Não saberia dizer por que estavam fazendo isso, mas fazia meses, estavam em um processo maior de devastação, machucando-se um ao outro com o que já havia, há muito, passado.
Em algum lugar dentro de si, achava que se sentiam culpados pelo que acontecera. Wufei, orgulhoso e teimoso a ponto de ser mesquinho, errara e gostava de flagelar-se por isso. Kelly, incapaz de salvar quem realmente lhe importava, sentia-se incompetente e traidora e gostava que reafirmassem o lado ruim de si mesma.
Um novo torvelinho de emoções parece engasgar em sua traqueia. Seria aquilo o que os mantinha juntos todos esses anos? Seria a culpa o que os unia por tanto tempo? A dúvida que sempre açoitava volta a assombrar-lhe a mente e suspira, já sabendo conviver com a amarga indagação.
Nunca seriam fortes o suficiente para pô-la em palavras. Ela dá alguns passos em direção ao grupo, finalmente rendendo-se, pacífica e quase lânguida, abaixando o rosto. Ela sabia que ele pensava nos mesmos assuntos que si. Isso era o quão bem o conhecia.
Os movimentos a seguir eram mecânicos e a ponta de seus dedos finos estavam regelados. Sua paz de espírito fora completamente destruída com poucas palavras. Seria apenas mais um sentimento, mais uma sensação para enterrar no fundo de si mesma, tentando esconde-la, mascara-la, moldando-a em quem era, em uma nova pessoa, em uma pessoa mais forte.
Arrasta os pés por alguns passos, sentindo-se insensível e distante, mas o farfalhar atrás de si a faz pausar seus movimentos.
Se saísse dali agora, de alguma forma, sentia que tudo tomaria um rumo estranho e desconhecido.
-Kelly... – A voz de Wufei não passava de um sussurro. Um sopro do vento, mas seria o suficiente para fazê-la escuta-lo de qualquer lugar, a qualquer hora. Ela se vira, sentindo a amargura amaciar-se um pouco. Ele olhava para ela diretamente dentro de seus olhos, os negros nos castanhos, fazendo-a suspirar, perdendo-se em sua intensidade. Ele lhe estica um braço e ela se volta para ele. Cautelosamente, larga as águas no chão e os dedos dela se esticam, prontos para envolverem sua mão, parecendo demorar uma eternidade para alcança-lo. O abraça, sentindo-o abraça-la de volta.
É quando consegue soltar todo o ar que não percebera que guardava em seus pulmões. Ele segura sua cintura com força e a aperta junto a si, ela repete o ato com seu pescoço. Os dois permanecem entrelaçados alguns segundos, ouvindo a respiração tranquila e sincronizada.
Ela se afasta de leve e lhe beija os lábios com brandura. Já fazia alguns anos que tinha de tomar a primeira atitude. Ele não a rejeita, mas ao contrário, segura seu rosto, forçando-a a prosseguir. Ela morde seu lábio inferior com um pouco mais de rispidez. Ele tinha as mãos repousadas nos seus quadris, enquanto ela ainda o matinha abraçado pelo pescoço.
Ele entreabre os lábios e os dois trocam um beijo mais longo. O que faziam era quase encontrar conforto na presença um do outro. É quando ela percebe que amava seu carinho e suspira, sorrindo fraquinho.
A atitude é tão inédita e inesperada que o faz sorrir também, um pouco ríspido, contagiado.
-O que foi? – Pergunta, encostando a testa a dela, que, ao invés de responder, puxa de dentro da blusa dele um pingente escondido, uma folha de cor esverdeada, que retinia um brilho profundo e difuso, acariciando-a entre seus dedos macios. O objeto rutila com mais firmeza ao encontro de seu toque.
Ela então levanta o rosto e os dois se trocam um olhar.
-Senti sua falta – Ela comenta devagarinho e ele a segura com mais firmeza contra si. E então Cléo grita alto, algo ininteligível. Os dois desvencilham-se, correndo em direção ao acampamento de almoço.
-Pivetes malditos! – A menina gritava, quando os dois percebem que havia uma bolsa a menos na pilha. Alguns meninos haviam passado e trocado ideias, animados, simpáticos. Cléo fora a receptora e até lhes doara alguns mantimentos, vendo-os tão desprevenidos. Eles agradeceram roubando-lhes uma das bolsas de comida. Cléo estava pilhada, bufando, em gestos peripatéticos, andando em círculos de um lado para o outro.
Infelizmente nada poderia ser feito sobre o assunto, uma vez que os meninos estavam em direção contrária a deles e, na altura do campeonato, já teriam alcançado a floresta e seria impossível de localiza-los.
-E eu ainda os avisei sobre os Cavaleiros circulando por aí! Não devia, não devia! – E afasta a franja do rosto suado com rabugice quase infantil de tão brilhante – Devia deixa-los descobrirem por si próprios! Ingratos! – E dá mais um grunhido alto o suficiente para ser ouvido por uma longa distância, colérica.
Heero, depois de uma bronca curta e severa, dita de maneira ameaçadora e rouca, com direito a dentes rangendo, partira com Duo, mas prometendo voltar em menos de vinte minutos, caso a missão falhasse, como provavelmente aconteceria.
-O que eles levaram? – E Wufei pergunta, entre o irritado e o indiferente, quase petulante com os problemas que considerava abaixo de si. Sua agressividade parecia diminuída, como se outra perturbação o abalasse. Cléo estava concentrada demais em si mesma para perceber. Relena, no entanto, de longe, por debaixo da sombra de um arbusto, nota que havia algo errado e fora de lugar com a cena inteira.
Volta a recostar-se, ouvindo o ríspido trocar de falas, mas se concentrando no som do vento, que lhe passava sobre o rosto e os volumosos cabelos dourados, levantando-os de leve ao passarem. O som confuso das vozes parecia distante, incompreensível, alterações nos sons não lhe chegando como deveriam.
Suspira. Tentando como tentara poucas coisas na vida, concentra-se no rosto de seu irmão. A imagem que tinha dele era apenas a que visualizara na câmara mortuária. Não conseguia formula-lo de outra forma. Como sabia que alguma coisa de tudo aquilo era verdade? Começava a duvidar do pouco que tinha, pelo pouco que aquilo lhe dizia.
Não pela primeira vez, o desânimo quase pungente, dolorido parece apoderar-se de si. Como seria fácil desistir. Como seria fácil se permitir esquecer. É difícil ser apegado a algo nebuloso, que não lhe pertence.
Sentia como se tentasse se apoderar do reino de outrem, como se suas memórias esquecidas não estivessem em algum lugar perdido de sua biblioteca particular e sim, na cabeça de outro alguém, pedindo para serem roubadas, restauradas. Era um sentimento estranho e muito particular.
Volta a repassar o que sabia sobre si mesma. Era princesa, chamava-se Relena, tinha um irmão. Não era muito para se começar, era? Com outro suspiro somando-se ao primeiro, leva a mão ao pescoço, onde o colar que ganhara na competição repousava, de maneira delicada, frio contra sua pele cândida, clara.
Sentindo um movimento a seu lado, a moça volta a abrir os olhos, vendo uma Kelly um tanto pálida sentando-se a seu lado, a postura rígida, quase militar que lhe era característica, a expressão endurecida, os olhos chispando mais do que o normal.
Sente-se tentada a perguntar o que se passara, mas não ousa, sabendo que aquilo era bem fora de sua zona de interesse. Quando respira alto, abanando a cabeça, a morena volta sua atenção para si.
É quando percebe o quão bela Kelly era, com sua beleza de mulher, o sofrimento acrescentando profundidade para sua expressão, camadas para seus olhos misteriosos e puxados. Nunca a percebera tão diferenciada. As duas permanecem se analisando por um momento.
-Precisamos comprar roupas novas para você – E a chinesa finalmente quebra o silêncio que se formara entre elas, prática e racional, com tática – Com esse vestido será difícil continuar a viajar por aí. Cuidamos disso assim que chegarmos. – Conclui, com apenas uma leve pontada de questionamento nos olhos. No fundo, já se decidira.
Relena anui e sorri, meiga. Kelly lhe devolve um sorriso preocupado.
A viagem tem continuidade apenas um pouco depois disso, com o óbvio fracasso por parte de Heero e Duo. Emburrado, o primeiro não olha na cara de Cléo quando passa, fazendo-a direcionar uma careta típica e retorcida e lhe mostrar a língua, com os braços cruzados.
A noite chega carregada, um vento açoitante balançava as árvores, fazendo-as gemerem. Um lampejo ou outro podia ser visto no céu, ameaçando chuva. A escuridão espessa vinha carregada de sons soturnos, como barulhos de corujas, longos, assim como sons de todas as outras proles noturnas.
O grupo instala-se como pode, um pouco afastado da única estrada que subia a encosta, entre alguns arbustos, em posição favorável para ver quem vinha de um e outro lado. Sem quererem chamar atenção, ainda cientes do perigo que corriam, não acendem nenhuma fogueira, contentando-se com um lanche frio.
Pegando as cobertas surradas das bolsas, abraçam-se, aprontando-se para dormir. Naquele dia, o chão úmido de terra molhada, com o mato a pinicar-lhe o rosto pareceu ainda menos convidativo a Relena, que o contemplava, sentada naturalmente afastada.
Tornara-se observadora. Wufei e Kelly pareciam ter voltado ao normal, e agora terminavam sua refeição, um ao lado do outro, em silêncio mórbido. É obrigada a concordar que havia algo estranho em seu relacionamento, embora não soubesse precisar o que.
Cléo e Duo trocavam ideias, animados, ele sentado, segurando um joelho de encontro ao corpo, enquanto a outra perna estava dobrada, com a de um índio, ela de pé, segurando uma coberta, sem usa-la. Pareciam conversar sobre algo agradável e a loira detém-se alguns instantes sobre eles.
Por fim, Heero estava afastado, olhando a estrada, com olhos de lince, com uma concentração inabalável, rígido, encostado em uma árvore, dando a austera impressão de alguém inabalável, inatingível, inalcançável.
Aquilo a angustia, sem que soubesse do motivo. Talvez precisasse de apoio. Aliás, precisava, sem saber muito bem onde encontra-lo. O conforto que o grupo a seu redor começava a trazer-lhe a preocupava, pois não sabia a extensão de sua duração. Não queria se apegar a nada que pudesse perder, mas, para alguém que não possuía nem suas próprias memórias, tudo parecia tremendamente frágil e inseguro, não digno de ser confiado.
O perfil de Heero era particularmente bonito e o vento passava por ele balançando sua túnica, bagunçando seus cabelos rebeldes. Seus lábios pareciam uma linha rígida, secos, seus olhos cortantes. Seu fito tempestuoso se volta para ela que, subitamente, sente-se exposta, como sempre, pega em flagrante.
Dá uma tentativa frustrada de sorriso, que ele não corresponde. Tem a nítida impressão que o azul de seus olhos era mais intenso que o céu quase negro atrás de si. Seus olhos pareciam reluzir na escuridão.
Sentindo-se desincentivada, não desejada, abaixa o rosto, intimidada, sorrindo para si mesma, embaraçada. Fora pega e julgada. Ele definitivamente desgostava de si. Remexe os dedos, em seguida remexendo a saia.
Uma brisa mais forte passa pelo seu corpo, deixando-a arrepiada pelo frio. Respira fundo, voltando à mão para o colar do pescoço. Tornara-se um tique nervoso, precisava averiguar que ele estava lá, precisava saber que tudo aquilo era verdade, necessitava saber que não continuava em seu palácio, adormecida, sonhando. Aquilo a acalentava, ao mesmo tempo que trazia uma insustentável falta sem nome.
A moça acariciava o colar que trazia no pescoço. Durante o dia inteiro, lhe parecera proporcionar um peso descomunal, mais do que jamais havia pesado até hoje. Estava distante, sua pele em contato com o metal causava-lhe pequenos arrepios. As costas estavam levemente dobradas para frente, quebrando sua usual postura altiva. Sentia-se derrotada.
Cléo se aproxima, sentando-se a seu lado em silêncio. Quando Relena lhe relanceia, a menina sorri de seu jeito animado e caloroso, os cabelos ruivos quebrando o cinza azulado da noite, inclinando-se tanto para frente que fazia com que os cachos arrastassem no chão.
A moça jovem lhe passa um cobertor.
-Essa noite fará frio, você vai precisar – E diz, simplista. Pergunta-se como ela conseguia manter aquele ânimo gostoso em seu tom, aquela vivacidade em seus gestos – Está tudo bem mesmo? – A vozinha era rouca e Relena a olha com os olhos marejados.
Não sabia o quão mal se sentia até vê-la tocando no assunto. Começava a ficar perturbada. Temia não aguentar muito mais. Relena nega, precisando confessar-se. Demora um pouco a começar a falar, mas a menina a entende, permanecendo calada, esperando seu tempo.
-Ontem, quando me disse que o passado não era importante e eu fui levada a concordar. Suas palavras traziam tanto conforto para o meu coração que não pude deixar de ouvi-las – E puxa o objeto precioso, deixando-o a mostra para Cléo – Mas agora, olhando para esse colar, eu tento me lembrar de meu irmão... E não me vem nada, ele não passa de manchas, tinta borrada – E nisso seus olhos se enchem de lágrimas e ela deixa a corrente escorregar por entre seus dedos, caindo no mar azul celeste de seu vestido. Abaixa o rosto, escondendo-o por detrás da cascata dourada que tinha na cabeça. – Me sinto tão desesperada... Tão... Tão vazia... – A última palavra vem como uma iluminação, sendo pronunciada como uma epifania, um segredo revelado para si.
Cléo se compadece, uma dor pontiaguda despontando-lhe o coração.
-Você tem razão – Diz, depois de engolir em seco, sentindo a visão nublar – Peço desculpas se te magoei, eu não queria – E impede Relena de dizer qualquer coisa, limpando os olhos com as palmas da mão, espalhafatosa, tentando manter engasgadas as próprias lágrimas que queriam vir, sob controle. – O que eu disse foi muito simplista. A vida não é sempre em preto e branco e muitas vezes têm milhares de coisas fora do nosso controle. – E sorri, matreira – Mas se eu pudesse, se eu realmente pudesse, veria meus irmãos de novo, minha família, nem que fosse uma última vez, não aguentaria lembrar seus rostos sem saber quem são, esquecê-los. Acho que não sou forte o suficiente para isso. – Relena levanta o rosto, encarando-a surpresa, enquanto a menina continuava – Te admiro por isso, você procura por si mesma, mesmo que não saiba nada sobre si, sobre o seu passado. Não acho que eu conseguiria, e por isso, você é uma das pessoas mais fortes que já conheci. Você nunca deveria duvidar disso, está entendendo?
As duas trocam olhares amigos e companheiros. Relena sente-se grata e acalentada, como se uma peça finalmente tivesse sido colocada no lugar. As duas riem juntas.
Depois, Relena acompanha a amiga recém feita, vendo o brilho nos olhos do rapaz de tranças, quando as duas se aproximam.
-Achei que você não ia voltar mais – E ele brinca, pilhérico. Ela lhe mostra a língua e os dois trocam sorriso espertos, carinhosos.
Ajeitando-se, Cléo se senta no meio das pernas de Duo, aconchegando-se e ele lhe beija os cabelos, agraciado. Relena conseguia ver o quão bem se sentiam juntos, o quanto isso lhes era natural e confortável.
A ruiva posiciona-se melhor, ajeitando o corpo magro contra o dele, as costas dela sobre o peitoral dele, com um bocejo longo.
Duo lhe dá beijinhos no pescoço, fazendo-a rir e contorcer-se, o agradando. Ela lhe dá tapinhas no joelho a seu lado, no alcance de sua mão, para que parasse.
-Menino mau, menino mau! – e tenta para-lo. – Aiii Relena, o Duo não sabe se comportar em sociedade... Peço desculpas – E ela lhe reprime, divertida, caindo na risada.
Relena assente, entretida em assisti-los.
Depois de alguns segundos, os dois deixam seu espírito infantil de lado e acalmam-se.
-E então princesa, o que está achando de viajar caminhando o dia inteiro, como nós, os súditos fazemos?
-Não é tão ruim na verdade, tirando a parte de dormir no chão, já estou me acostumando.
Ele ri e lhe sussurra, como se contasse um segredo, inclinando-se em sua direção, mas sem soltar a cintura de sua menina.
-Ah, mas eu tenho uma técnica infalível para isso, basta você se enrolar bem nos cobertores e se visualizar em uma cama bem quentinha. – Relena ri, entretida.
-É verdade? Muito obrigada pela sugestão e pode deixar que tentarei usá-la. Não se preocupe que contarei os resultados.
-Ah, não precisa agradecer – E ele sorri mais – E também não precisa me contar os resultados, todas as minhas técnicas são infalíveis – Lhe dá uma piscadela, Cléo então lhe dá outro tapa e o relanceia, incrédula, antes de trocar um olhar cúmplice com Relena. E então os três caem na gargalhada.
A noite passa, se adentrando nos frígidos ares da madrugada, clamando pela poética inspiração do sono. Conforme as horas se passam, o grupo se ajeita, aprontando-se para mais uma das longas noites em sua coleção solitária.
Quem estaria contando e por quê?
Sentada, Relena assiste Kelly preparar-se para dormir, enrolando-se no cobertor ao lado de Wufei, mas sem acostar-se a ele, há alguns metros de si, mais próxima de onde Heero que com sua concentração de soldado, ainda vigiava a estrada, em uma postura inquebrável.
Sentindo um calafrio passar pelo seu corpo, mas dessa vez nada tendo a ver com o frio, ajeita melhor o cobertor quente e peludinho ao redor de seus ombros. A seu lado, Cléo e Duo preparavam-se para dormir de conchinha. Eles trocavam sussurros, risadinhas e beijos ocasionais.
Quando Relena se deita, estava quase tão escuro que não se podia ver um palmo a frente dos olhos. Logo a sua frente, os olhos verdes vítreos de Cléo a encaravam. É a primeira vez que percebe o quão profundo eram e se pergunta de onde vinha tanta profundidade. Qual seria sua história? Mas assim como lhe vieram, segundos depois, os pensamentos desvanecem, quando Cléo lhe estica a mão branca e lhe mostra um sorriso, translúcido contra a escuridão da noite. A ruiva lhe alcança a mão e a segura com a sua, com firmeza carinhosa.
-Para você não se sentir sozinha – A voz não passava de um murmúrio, mas Relena sente o impacto das palavras, como um bafejo quente de um forno ligado, depois de um longo dia na neve. Sente despontar em seu peito uma ternura nunca antes descoberta em sua nova vida.
Mas, antes que pudesse se sentir culpada por se apegar aquelas pessoas que tão pouco conhecia e começava a considerar uma família, antes de se sentir culpada por tamanho afeto e carinho em seu peito, o calor gostoso que crescia em seu peito a faz cair no sono.
E, pela primeira vez desde que conseguia se lembrar, o sono é um sono leve, de alento, sem sonhos ruins ou enviesados do passado.
Ali, estava em casa. Ali, pela primeira vez, estava segura.
Olá :)
Como prometido, aqui está o capítulo do mês...
Não sei se perceberam, mas esse é um capítulo diferente dos que vieram antes dele, um pouco mais profundo, começando a realmente chegar no cerne dos personagens e a criar laços, uma jornada pode ser um longo tempo para se passar sozinho.
Aqui também vemos pontinhas dos passados dos outros personagens, como os de Wufei e Kelly e mesmo o da Cléo e do Duo. Também temos um aprofundamento da crise de Relena e como Heero se nega a ajudar. Quando será que as coisas tomarão um novo rumo?
Bem, espero que gostem...
12.07.2013
