Em Manhattan, já no edifício em que morava Mu entrou no elevador decidido a subir para seu apartamento. Estava resoluto em abortar a festa, mas eis que quando menos esperava um furação sueco de cabelos azuis presos em um rabo de cavalo apareceu no saguão acenando para si.

— Ei! Mu! Segura a porta! — gritou Afrodite que corria trazendo debaixo do braço um saco com gelo.

— E esse gelo aí? Para que está carregando isso? — perguntou Mu segurando a porta.

— É para completar com o gelo que o Camus está me dando desde o começo da noite. — disse bem humorado adentrando o elevador e já apertando o número correspondente ao andar onde ficava a residência do francês, depois voltou-se para Mu e riu — Acabou o gelo da festa, então me ofereci para ir comprar mais. Quem sabe é de pessoas gentis que o Camus gosta. Mas... espera aí. — segurou Mu pelo ombro e o fez girar em torno de si mesmo — Não está faltando alguma coisa em você não? Cadê o pianista? Não tinha ido busca-lo no metrô?

Mu suspirou visivelmente chateado.

— Ele teve um imprevisto e não vem mais... Eu também não vou. Aliás, já deu o meu andar. — disse desanimado quando o elevador parou em seu andar, mas antes que conseguisse descer Afrodite se colocou à sua frente bloqueando a passagem.

— Mu... olha para mim. — disse o sueco segurando no queixo do amigo — Como estou?

O estudante de cinema correu os olhos pelo rosto perfeito do outro e por fim sorriu de modo singelo.

— Está lindo como sempre, Dite... E está com a camiseta que eu te dei. Por que isso agora?

— Porque você sabe que além do Camus o único motivo para eu ter me arrumado todo para ir a essa festa é você.

— Eu?

— Claro! Que há, Mu? Sempre estivemos juntos, nos melhores e nos piores momentos. Eu não vou subir sem você. Não vou ficar lá na ferveção enchendo a cara enquanto você fica aqui todo borocoxô. Se você não for então eu também não vou. Ficamos os dois aqui curtindo nossa dor de cotovelo e chupando gelo.

— Mas eu vou lá fazer o quê?

— Ora, o que sempre fez! Vai se divertir com seus amigos e me fazer companhia.

Nesse instante o aviso sonoro do celular de Mu o notificou a chegada da mensagem de Shaka.

— Espera! Ele está falando comigo.

Afrodite aproveitou a distração do amigo que verificava o celular e apertou o botão que acionava o fechamento da porta, logo o elevador continuou subindo até parar no andar onde morava Camus, e quando Mu percebeu já estava sendo arrastado para fora.

— Ele está falando para eu curtir a festa e continuar falando com ele por aqui.

— Ah, está vendo? Ele está certíssimo! Se não pode estar com você de corpo presente, então ele estará à distância. Estar junto é o que importa. — disse Afrodite dando uma piscadinha para o amigo quando pararam em frente à porta do apartamento de Camus — Afinal, a tecnologia não foi feita para unir as pessoas? Talvez quem a criou estivesse pensando que um dia um pianista cego e um jovem cineasta iriam se apaixonar, mas não poderiam ficar juntos o tempo todo. — esticou o braço e tocou a campainha.

Mu soltou um longo suspiro.

Em menos de um minuto a porta se abriu e um rapaz de cabelos ruivos em tons fortes de cobre e laranja que desciam retos até a altura do peito os saudou. Seus olhos também tinham uma coloração peculiar e rara, um âmbar muito vivo, translucido, com pequenos riscos escarlates que lembravam magma. Sua fisionomia carregava um aspecto sempre sisudo, sério, impregnada com um desprezo imponente por tudo e por todos, ainda que vez ou outra ele se permitisse abranda-la.

Como agora, enquanto sorria aos recém-chegados.

— Ah, obrigado pelo gelo, papai Smurf! — brincou pegando o saco de gelo dos braços de Afrodite, que deixou escapar um suspiro enquanto revirava os olhos — Olá, Mu. Que bom que veio.

— Oi, Camus. — Mu respondeu sem muito entusiasmo, porém de maneira gentil.

— Entre. Fique à vontade. Tem bebida na geladeira e alguns petiscos por ai. — disse Camus tomando a frente já em direção à cozinha para repor o gelo.

Atrás dele vinham a passos mais vagarosos Afrodite e Mu, que conversavam aos sussurros.

— Mas que caralho de apelido é esse? Papai Smurf? Fala sério. — disse Mu segurando o riso, mas um tanto indignado e até incomodado.

— Ah, pois é. A gente passa o dia todo mudando o visual, no maior empenho e esperança de causar uma boa impressão, para no fim virar deboche. — disse o sueco dando de ombros.

Mu meneou a cabeça num gesto de reprovação.

— Não entendo essa sua fissura num cara como o Camus.

— Bom, se te conforta, você não é o único frustrado aqui hoje, certo? — trocou um olhar cúmplice com o amigo e no fim ambos caíram na risada, então juntos foram até a sala onde os outros amigos estavam já reunidos, e de onde podia-se ouvir suas vozes festivas entre risos e música agitada.

Ao chegarem ali Mu cumprimentou um por um. Dava-se bem com todos, uns mais que outros, mas costumava ser bem quisto tanto pelos colegas do time de Rugby, com quem tinha mais contato, quanto pelos amigos destes. Os mais próximos, no entanto, eram Milo, Aldebaran e Aiolia, que assim como Camus e Afrodite também eram do time de Rugby da Universidade de Columbia. Os três primeiros cursavam engenharia civil e estavam no mesmo período; Camus era aluno da Faculdade de Artes, famoso por promover os melhores eventos culturais e as mais cobiçadas festas particulares. Entre as garotas estavam ali Marin, namorada de Aiolia, Geisty e June, suas amigas desde o colégio. Marin era japonesa e ganhara uma bolsa de estudos para cursar odontologia, Geisty nascera nos Estados Unidos, mas a família viera da Itália. June era etíope e imigrara para a América do Norte com os pais quando tinha três anos, desde então se tornara cidadã norte americana e junto com Geisty cursava a Faculdade de Jornalismo.

*-*-* original

Ao chegarem ali Hamutabi cumprimentou um por um. Dava-se bem com todos, uns mais que outros, mas costumava ser bem quisto tanto pelos colegas do time de Rugby, com quem tinha mais contato, quanto pelos amigos destes. Os mais próximos, no entanto, eram mesmo Michael, Wallace Sanders e Andrew Rodríguez Larson, a quem todos chamvam de Andy, que assim como Jean Pierre e Oliver também eram do time de Rugby da Universidade de Columbia. Os três primeiros cursavam engenharia civil e estavam no mesmo período; Jean Pierre era aluno da Faculdade de Artes, famoso por promover os melhores eventos culturais e as mais cobiçadas festas particulares. Entre as garotas estavam ali Megan Katou, namorada de Andy, Sarah Sorrentino e Jamala Batel, suas amigas desde o colégio. Megan era japonesa e ganhara uma bolsa de estudos para cursar odontologia, Sarah nascera nos Estados Unidos, mas a família viera da Itália. Jamala era etíope e imigrara para a América do Norte com os pais quando tinha três anos, desde então se tornara cidadã norte americana e junto com Sarah cursava a Faculdade de Jornalismo.

Depois de saudar a todos e trocar uma rápida conversa Mu procurou um canto mais tranquilo na sala para se sentar e imediatamente passou a mão no celular, ávido para responder à mensagem de Shaka.

"Estou digitando a mensagem por causa do barulho, ou teria que gritar para você conseguir me ouvir... Queria muito que estivesse aqui, Shaka, mas já me conforta poder falar com você pelo celular. Saiba que estou assustado sim, porém não com você, mas comigo. Então, já que ambos estamos assustados acho que só nos resta aceitar. Ok, eu confesso que acho o meu caso mais grave porque eu não sou um cara inexperiente, no entanto o que estou sentindo por você posso dizer com toda certeza do mundo que nunca senti por ninguém, mesmo já tendo conhecido bastante gente... Eu não tenho uma explicação para isso, para esse sentimento que me toma dessa forma tão avassaladora... Vai ver era para ser assim e só me resta aceitar. Vai ver o destino quis que um aspirante a cineasta e um pianista talentoso, o mais talentoso que já conheci na minha vida, além do mais bonito, se encontrassem em uma estação de metrô na hora do rush e se apaixonassem ali mesmo enquanto tocavam o piano. Simples assim. A gente que tende a complicar."

Longe dali, no Bronx, o pianista ouvia a mensagem com o celular pegado ao rosto molhado, o coração a galopes e os olhos abertos a vagarem lentamente pela escuridão tateando o vazio. Embora estivesse quebrado por dentro, os lábios trêmulos de Shaka esboçavam um sorriso tímido alimentado por uma fagulha de esperança. A garganta apertada lhe dificultava a respiração e os espasmos do choro convulso ainda sacolejavam seu corpo, porém agora de forma bem mais amena.

Pouco a pouco as palavras de Mu ditadas pela voz robótica e entrecortada do aplicativo do celular acalmavam seu coração e o ajudava a tranquilizar os nervos. Mesmo assim ele não foi capaz de perceber que havia alguém atrás da porta também escutando aquele áudio. Estava demasiadamente absorto em seus pensamentos e emoções.

Com a orelha colada na madeira, ligeiramente agachado e tentando controlar ao máximo a respiração para não fazer nenhum ruído, Asmita ouvira a tudo, e não conseguia compreender o sentimento que o tomava.

Em nenhum momento aquele garoto mencionava a deficiência de Shaka. Ao contrário. O tratava como uma pessoa normal e ainda enaltecia o talento do irmão de uma forma que nem ele, nem o pai, jamais fizeram.

De uma maneira incômoda e até desesperadora se deu conta de que deixara que a cegueira de Shaka o definisse como pessoa. Permitiu que ela reinasse absoluta e engolisse todo o resto o ofuscando até como indivíduo, devorando suas qualidades e individualidades feito uma Besta faminta, incluso seu talento nato e extraordinário para o piano.

Shaka era cego, mas ele e o pai que pareciam não enxerga-lo. Mais grave que isso; era como se tivessem deixado que todo o resto morresse junto com seus olhos.

Asmita sabia que o talento do irmão poderia fazê-lo alçar voo e leva-lo para longe. Mas, será que queria Shaka longe de si?

Com a fisionomia exausta e frente àquela verdade terrível Asmita fitava o chão com os olhos esgazeados, hirtos, como se olhasse diretamente para o coração oco e infeliz de um fantasma.

Sentiu-se pequeno, mesquinho, miserável...

O fel amargo subiu da garganta e lhe tomou a boca, então se afastou com cuidado e seguiu alarmado até a cozinha onde abriu uma garrafa de vinho barato e indigesto.

Tinha muito o que pensar, o que refletir. E odiava saber que foi um garoto burguês que nem conhecia que lhe ativou esse gatilho.

Dentro do quarto, já mais calmo e conformado Shaka respondia à mensagem de Mu aos sussurros:

— Eu fico feliz que pense assim, Mu, mas... Ao mesmo tempo eu sinto medo. — fez uma pausa.

Não sabia se era a hora certa de se abrir com ele, afinal havia acabado de conhecê-lo e tinha travado uma verdadeira batalha consigo mesmo, com sua insegurança, para vender uma falsa imagem sua; a de que era independente e seguro mesmo sendo cego.

Aflito segurava o aparelho com as mãos trêmulas enquanto apertava os lábios sentindo o coração bater tão forte que a cabeça parecia palpitar junto com ele, então decidiu que era tudo ou nada. Não podia mentir.

— Mu eu tenho medo de que se decepcione, porque... sabe, eu quero acreditar que não seja necessário atribuir lógica à vida, tampouco à paixão. Viver e gostar de alguém deveria ser algo simples, mas... não no meu caso. Não quando se é cego... Ser cego torna tudo mais complicado... Eu... não sou tão independente quanto mostrei a você no metrô e depois no nosso encontro... Somente hoje eu... lavei a louça que eu sujei e varri o chão da cozinha depois de comer e... enfim. Eu não fui honesto com você, Mu, e eu preciso ser... Meu pai e meu irmão fazem tudo por mim, ou quase tudo. Eu só vou sozinho tocar o piano na estação de metrô porque antes eles me levaram até lá pela mão inúmeras vezes, até que eu aprendesse o caminho... Eu não acho justo que não saiba disso... Mas, eu posso mudar! E eu quero mudar!... Apenas preciso que acredite que eu posso, Mu... — respirou fundo fazendo uma longa pausa e então prosseguiu mudando o foco — Já ouviu uma música pela primeira vez e gostou tanto que teve a sensação de que encontrou algo que procurava? E aí você precisa ouvi-la de novo, e de novo, e tantas vezes que perde a conta? Então ela se torna especial para você porque ela te preenche, ela te faz sentir coisas incríveis, te permite ver lugares e experimentar sensações novas, e te permite sonhar e desejar coisas que jamais achou que fossem para você... Foi assim que me senti quando tocou o piano comigo no Terminal pela primeira vez. Foi assim que me senti quando ouvi sua voz, quando suas mãos me tocaram, quando me beijou... e é assim que me sinto quando penso em você... Você é como música, Mu. Você me faz sentir, me faz sonhar e me faz querer viver como uma pessoa normal, porque eu sei que posso ser uma pessoa normal, eu sei que consigo, digo, eu posso trabalhar, estudar, namorar, amar...

Interrompeu o áudio quando falou os dois últimos verbos, depois repetiu a palavra apaga umas cinco vezes, mas no fim repetiu os mesmos verbos e finalmente ditou em voz lenta e decidida:

— Enviar.

Em Manhattan Mu a essa altura já havia se esquecido completamente da festa.

Estava ali apenas de corpo presente, visto que seus pensamentos estavam distantes, em algum lugar do Bronx.

O tempo todo o estudante de cinema conferia o celular à espera de uma mensagem de Shaka, e logo os amigos notaram sua dispersão.

— Afrodite, o que está acontecendo com o Mu? — perguntou Milo justamente a quem julgava saber a resposta — Ele está tão quieto, mal tocou na bebida e também não falou com ninguém.

O sueco logo procurou o amigo cineasta pela sala até seus olhos o fitarem no fundo sentado em uma poltrona enquanto checava o celular.

— Hum, é dor de cotovelo... Ele está de rolo com um garoto que ia trazer aqui hoje, mas tomou um bolo e agora está numa espécie de encontro virtual com ele. — disse Afrodite enquanto mastigava uma azeitona e já voltava os olhos para a cozinha, onde Camus e Marin preparavam umas doses de tequila para um novo jogo alcóolico.

— Ah é? E quem é? É da faculdade? — Milo perguntou curioso.

— Não. E não é ninguém que você conheça. — respondeu com os olhos ainda cravados em Camus.

— Pelo menos ele está tendo um encontro. Já nós dois... — disse Milo, que bebericando a cerveja agora também tinha os olhos felinos cravados no ruivo.

Imediatamente Afrodite voltou o rosto para Milo e o encarou sério.

— É, mas isso logo vai mudar. E desista, você já teve sua chance e levou um toco.

— Tá falando do Camus?

— E de quem mais seria?

— Humpf... boa sorte com esse mala. Você vai precisar! — desdenhou Milo dando de ombros, depois se afastou e foi se juntar aos amigos que conversavam na varanda.

No fundo da sala o estudante de cinema tinha o semblante concentrado; pensava no que iria responder ao pianista.

Quando ouviu as palavras de Shaka ditadas com tamanha sinceridade seu rosto todo sorriu corado, mas sua fisionomia ganhara uma dose de apreensão.

Naquela altura, e dado o teor da última mensagem, estava mais que óbvio que havia algum conflito cercando o pianista, e isso de fato não lhe era nem um pouco surpreendente, tampouco o amedrontava.

Súbito levantou-se da poltrona e dirigiu-se o corredor que levava ao banheiro. Ali, afastado do barulho, podia gravar uma mensagem de áudio.

— Shaka, eu creio que ambos fomos transportados para um cenário único quando tocamos juntos no Terminal. Ali nós selamos algo entre nós... O que senti quando dividimos as teclas do piano sou ainda incapaz de descrever em palavras e não sei se um dia serei... Eu nunca acreditei em paixões instantâneas. Não desse jeito. Não dessa forma tão avassaladora. Também nunca fui de acreditar em destino. Mas estou fortemente tentado a duvidar das minhas convicções... A respeito do que disse sobre você, eu não me sinto engando, fique tranquilo! Imagino que sua vida não deva ser fácil, mas está lutando por sua independência, e apenas esse fato já é louvável. Agora escute com atenção: Eu acredito sim que você pode. Eu acredito em você, Shaka... Sabe, a vida é efêmera, meu querido. Passamos por ela e nem percebemos, e desde que te conheci muita coisa em mim mudou, até meus planos futuros não são mais os mesmos... Não consigo mais me imaginar ao lado de outra pessoa que não seja você, Shaka. Não consigo sequer pensar em viver sem ouvir sua voz, sua música, sem beijar sua boca... Deus, eu acho que estou louco, mas se eu estiver não quero voltar a ficar são! — fez uma pausa e riu encostando a testa na parede enquanto olhava para o rodapé e dava um chutinho neste com a ponta emborrachada do tênis — Não sei ainda que nome tem esse sentimento tão urgente que me toma. Paixão? Loucura?... Se me permitir quero descobrir junto com você, e quero me atirar nele de cabeça!

Mu acabou de gravar e logo enviou a mensagem para não perder a coragem.

Estava tão eufórico e ansioso que sua boca secara e seu coração batia forte. Um gole de cerveja talvez cairia bem, pelo menos o ajudaria a conter a ansiedade enquanto esperava a resposta de Shaka.

Assim, ainda com o celular na mão voltou à sala pensando em ir até a cozinha para pegar uma latinha, mas interrompeu o percurso e estancou no meio do caminho quando viu Camus abrir a porta para recepcionar um convidado recém chegado, a quem cumprimentava efusivamente.

— Mas que... merda. — resmungou num murmúrio quase inaudível.

O recém-chegado era Kanon Thálassa, um homem jovem, na casa dos trinta, rosto sério que denunciava um certo ar de malícia imponente. Era alto, bem mais que quase todos ali, e tinha uma cabeleira vasta e volumosa que mantinha repicada até pouco abaixo do pescoço e que o fazia parecer mais alto do que era. Nascera nos Estados Unidos, mas era de família grega e tinha um irmão gêmeo com quem dirigia em sociedade um escritório famoso de advocacia com sede em Manhattan, no Meatpacking District; eram os donos. Robusto, mantinha o mesmo porte atlético que trazia desde a época da faculdade quando ocupou o posto de capitão do time de Rugby da Universidade de Columbia, há três anos, no qual fizera história também junto do irmão gêmeo. Os anos de glória como jogador passaram, mas não sua fama, e agora além de patrocinar o time também prestava assessoria à equipe docente e aos jovens jogadores que o ingressavam. Seu sucesso promissor no esporte se repetiu na área da advocacia, e em pouquíssimo tempo depois de formado já conseguiu mostrar a que veio. Defendeu grandes empresas em causas trabalhistas, renomados empresários e figuras importantes, e graças à sua postura nem sempre ética ganhou todas elas, o que lhe rendeu certa reputação entre os ricos empresários da cidade. Era ambicioso, audaz, e há um ano fechara um contrato com uma das maiores empreiteiras com sede em Nova York.

Seu escritório de advocacia no Meatpacking District agora prestava serviços e defendia causas menores para as empresas do pai de Mu.

Da porta de entrada os olhos astutos cor de jade do advogado fitavam por debaixo das sobrancelhas cerradas o estudante de cinema no interior do apartamento. Seus lábios então formaram um arco sutil terminando num sorriso repleto de malícia.

Há pouco mais de um mês Kanon e Mu dividiam a mesma cama e alguns planos para o futuro, mas logo a índole facilmente corruptível, a visível ganância e ambição desenfreadas, e também o perfil um tanto agressivo do advogado acabaram por fazer o estudante de cinema desmanchar a relação e decidir se afastar, o que foi um tremendo revés para os planos do ex atleta.

Quando soube, há cerca de um ano, que Mu era filho do dono da empreiteira com a qual havia firmado contrato o advogado viu nele uma mina de ouro e ascensão profissional. Bastava aproximar-se e se tornar seu amigo.

Como frequentava a Universidade de Columbia através do patrocínio e assessoria do time de Rugby, Kanon mantinha contato tanto com os alunos veteranos quanto com os calouros, portanto fazia parte do mesmo círculo de amizades de Mu, mas foi quando descobriu que o aspirante à cineasta era gay que decidiu ir além. Não se tornaria apenas amigo, mas amante. Conquistaria a confiança e o que mais conseguisse do herdeiro rico e bonitinho de uma das empresas mais poderosas e influentes do país e então esse lhe abriria as portas para que conseguisse representar definitivamente as empreiteiras do pai, quiçá até alcançar algum cargo de poder dentro delas.

Kanon, bissexual e exímio profissional na arte de seduzir, era um homem belíssimo, de compleição robusta, traços másculos e porte viril, o desejo de qualquer garoto e garota do campus. E com Mu não fora diferente.

Contudo, os planos do advogado começaram a ruir quando este se deu conta de que sentia algo mais pelo estudante de cinema que apenas interesse. Kanon tinha se afeiçoado a ele, mais do que esperava e deveria. A companhia de Mu lhe aprazia como nenhuma outra, e o sexo era arrebatador. Por isso, quando Mu decidiu terminar o relacionamento, além de mexer com seus brios e ver os planos que traçara com tanto esmero caírem por terra também seu coração se partiu. Não podia acreditar que fora rejeitado, e mesmo um mês tendo se passado ainda sentia o fel amargo, indigesto e rançoso subir pela garganta e atravessar-lhe os dentes toda vez que olhava para o rosto de Mu.

A troca de olhares não durou mais que apenas alguns segundos. Logo Mu tratou de sair dali e seguir para a cozinha onde encontrou Geisty que preparava um drink.

— Adivinha quem acabou de chegar? — disse enervado o estudante de cinema para a amiga.

— Quem? — ela perguntou, a princípio curiosa, mas bastaram alguns segundos analisando a face atribulada do amigo cineasta para deduzir — Não me diga que...

— O próprio. — esbravejou Mu abrindo a geladeira e apanhando uma latinha de cerveja.

Geisty espalmou a mão no peito e arregalou os olhos, incrédula. Conhecia bem Kanon, e sabia que Mu tinha todos os motivos do mundo para estar incomodado com a presença indigesta do advogado ali.

— Ah, não acredito! Milo disse a Afrodite que ele estava fora da cidade! — disse a moça dando uma espiadela para dentro da sala, e ao bater os olhos na figura em questão seu belo rosto contraiu-se em desagrado.

— E Milo acreditou nele? O que aquele lá fala não se dá credibilidade. — falou Mu, que irritado deixou a cozinha e seguiu às pressas para a sacada depois de ver que não havia ninguém ali. Estava decidido a beber o mais depressa que conseguisse aquela cerveja e descer para casa antes de que Kanon viesse lhe aporrinhar as ideias como vinha fazendo desde o termino da relação.

Passados alguns minutos ali ouviu um sinal sonoro avisando que tinha uma nova mensagem. Sabia que era de Shaka, mas pegou o celular e conferiu mesmo assim. Decidiu que a ouviria em casa, e quando cogitou largar a latinha ali e descer para seu apartamento eis que o que tanto temia aconteceu.

Kanon encostava no parapeito da sacada, e enquanto acendia um cigarro já se voltava em sua direção com o típico sorriso cínico no rosto do qual já estava tão familiarizado.

— Boa noite, Mu. Vai a algum lugar? — disse o advogado correndo os olhos por toda a figura à sua frente que o encarava de volta de forma nada amistosa — Parece que está com pressa.

— Boa noite, Kanon. Vou sim. Vou para minha casa... Chegou justamente quando eu já estava de saída. — disse com falsa tranquilidade.

— Ora, mas tão cedo? — o advogado tragou o cigarro levantando as sobrancelhas, depois soprou a fumaça para o alto enquanto analisava a face de Mu — Está conversando com quem no celular? Pelo que vejo estamos todos aqui.

Mu deu um suspiro enfadado.

Não queria ser grosseiro, mas as abordagens sempre incomodas e a insistência do outro minavam seu humor e paciência.

— Eu acho que isso não te diz respeito, certo? Mas, se quer tanto saber... Estou conversando com meu futuro namorado. Era para ele estar aqui comigo hoje, mas teve um contratempo e não pôde vir, por isso a festa está meio sem graça, sabe?

Kanon respirou fundo sentindo o couro cabeludo todo arrepiar e o coração disparar desembestado. Novamente um amargor indigesto o fez curvar a boca em um arco para baixo. Fitou atentamente o estudante de cinema tentando se controlar. Tinha certo em seus planos como dois e dois são quatro que iria reconquista-lo, era só uma questão de tempo, mas agora tudo mudava.

Agora havia alguém em seu caminho. Quem?

— Ora, ora!... Já? — disse soltando um riso debochado — Mas que rápido você. Mal esfriou a nossa cama e já colocou outro nela?

Mu riu igualmente em deboche.

— Minha cama nunca foi sua para ter sido nossa, não seja ridículo. Não se preste a esse papel, você é melhor que isso, Kanon. Agora, se me der licença... — disse dando um passo ao lado fazendo menção em sair dali, mas fora impedido pelo advogado que segurou em seu braço e o puxou de volta.

— Claro que sou melhor que isso, e você sabe que sim. — sussurrou ao quase encostar os lábios na orelha de Mu — Eu que te digo para parar com essa ceninha... Não apenas a cama foi minha como você também foi. Não acredito que não sinta saudades de mim, Mu... Nossa química era perfeita. Depois, o jeito que me olha não me convence.

Extremamente irritado, tanto com aquele gesto quanto com as palavras ditas pelo advogado, Mu apertou os lábios e cerrou os punhos já prestes a partir para cima dele, quando de repente Afrodite surgiu ali para evitar o pior.

— Que merda está acontecendo aqui? Mal chegou e já está importunando ele, ô encosto? — disse aproximando-se, e pegando no outro braço do estudante de cinema o puxou para que o outro o soltasse — Anda, vem. Você dois juntos a pequenas distâncias é um perigo, principalmente em uma sacada no décimo primeiro andar.

Irritado, e agora também curioso e intrigado, Kanon os observou até que saíssem dali, depois jogou o cigarro no chão e o apagou com a sola do sapato. Conhecia Mu, sabia que ele não inventaria aquela história de namorado e era bem possível mesmo que estivesse interessado em alguém, mas tinha convicção de que era somente mais uma aventura.

O advogado conhecia a família do estudante, estava a par de seus dramas particulares, como o fato de ele não ter se assumido gay para os pais e o irmão e nem pretendia o fazer, portanto estava certo de que se houvesse mesmo alguém este não passaria de mais um amante, uma aventura, fogo de palha.

Mesmo assim estava decidido a saber quem era para tirá-lo de seu caminho.

Mu despediu-se rapidamente dos amigos e de Camus dando a desculpa de que não se sentia muito disposto naquela noite, no entanto todos ali imaginavam que sua retirada precoce da festa se dava devido à chegada do advogado. E não estavam de todo errados.

Quando enfim chegou em casa a primeira coisa que Mu fez foi ouvir a mensagem de Shaka, deitado na cama enquanto olhava fixamente para o teto de seu quarto:

"Eu também não sei se acredito em destino, ou teria que considerar que ele foi um grande filho de uma puta comigo, já que nasci normal e perdi a visão por causa de um... acidente idiota. Foi o destino? Não sei... Por que ele faria isso comigo? Mas, se o mesmo destino que me tirou da visão também colocou você em meu caminho, então eu o abraço e grato ajoelho a seus pés... O fato é que quando toquei seu rosto, Mu, algo além da minha compreensão aconteceu... A falta da visão fez de mim uma pessoa bem arredia, já que instintivamente eu vivo fugindo de possíveis perigos que me cercam, mas com você foi diferente desde a primeira vez. Não senti medo algum, não tive necessidade de me proteger. Ao seu lado me sinto seguro, e acho que só uma palavra é capaz de definir essa confiança, visto que eu mal te conheço: destino. Minha família também será um obstáculo, Mu, mas estou disposto a enfrenta-lo. Eu sinto que posso pagar qualquer preço para poder entrar em seu mundo, e não tenho medo dele, Mu, seja ele qual for... Posso estar lhe parecendo ridículo dizendo essas coisas, sendo que o conheço tão pouco, mas... como disse, a vida é breve e não quero mais esperar para ter certeza das coisas, eu quero vive-las. Só preciso saber se está junto comigo. Suas palavras me dizem que sim, mas... seu coração diz o mesmo?"

No Bronx, de joelhos, torturado pela pressa e consumido pelo medo e ansiedade Shaka tateava o chão à procura do carregador de seu celular.

Agastado aguardava pela resposta de Mu que tardava em vir mais do que gostaria, fazendo os segundos parecerem séculos.

O aviso sonoro do celular lhe alertava que o aparelho iria desligar a qualquer momento por falta de bateria, e em desespero o pianista lutava para evitar, pois a resposta de Mu lhe era mais necessária naquela hora que o próprio ar para viver.

Engatinhou com afobação desastrada pelo chão vasculhando cada pedacinho de carpete que suas mãos tocavam, uma delas segurava o celular que berrava pedindo bateria.

— Meu Deus me ajude a achar, me ajude a achar... — sussurrava ofegante. Seus olhos embora não pudessem ver acompanhavam os movimentos frenéticos das mãos como se pudessem auxiliá-las e corriam agitados pela cortina de chumbo que os envolvia.

De repente bateu com a testa na lateral da cama, cambaleou para o lado, esfregou o local da pancada rapidamente fazendo uma careta de dor e continuou com a busca imediatamente. Cada segundo que passava sua agonia aumentava.

Vasculhou a mochila que havia deixado sobre o leito. Não encontrando nada ali levantou-se e com passos precisos e apressados caminhou até a escrivaninha.

Suas mãos frementes e geladas exploraram toda a superfície do móvel, o interior das gavetas, o chão debaixo e ao entorno... nada.

Aflito vagou até o armário e seguiu com a busca afoita, e quando seus dedos já doíam e não sabia onde mais procurar levou ambas as mãos ao rosto e o esfregou nervosamente.

Sentiu-se tão miserável que a frustração e a raiva que consumiam seu espírito lhe escorreram pelos olhos mortos molhando as palmas de suas mãos.

Impotente caiu novamente de joelhos no chão aos soluços. Derrotado.

Como iria vencer os obstáculos dos quais dissera a Mu ser capaz de enfrentar para poder ficarem juntos se nem o maldito carregador do celular era capaz de encontrar sozinho.

Em Manhattan, Mu fitava ainda o teto branco sem nem ao menos piscar. Mas, se por fora ele parecia um lago sereno, por dentro era um vulcão rugindo magma pelos ares.

Seu coração batia forte, e sua mente pensava no que responder ao pianista.

Fez uma breve análise de tudo que ele lhe dissera, e com um sorriso gravou sua resposta.