DEAN & FILHO
SUPERNATURAL ALTERNATIVE UNIVERSE
CAPÍTULO 10
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ALGUNS ANOS ATRÁS
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Não foi difícil conseguir emprego num necrotério apesar de pouca idade e da falta de experiência. São poucos candidatos, mesmo quando a economia está em crise. Começou como um esforçado assistente, graduou-se com distinção e tornou-se um respeitado médico legista.
O turno da noite, seu preferido, era normalmente tranquilo. Dificilmente aparecia alguém. Quando aparecia, a pessoa dificilmente estendia o papo além do estritamente necessário. A sala de necropsia era um lugar que a maioria das pessoas evitava até mesmo passar em frente à porta. Dissecar cadáveres é um trabalho que poucos se interessam em saber como é feito e menos ainda em ver sendo realizado.
Na necropsia, abre-se o corpo do morto para ter-se acesso a seus órgãos internos. Remove-se e examina-se os diferentes órgãos e retira-se deles pequenas amostras de tecido para análise em laboratório. Encerrados os procedimentos, recoloca-se os órgãos da melhor maneira possível, fecha-se os cortes com sutura e libera-se o corpo para os ritos funerários.
Sangue e fluidos corporais vazam do corpo e um ou outro pedaço retirado acaba sobrando. É normal que aconteça. Quem vai dar por falta de órgãos pequenos - que a grande maioria das pessoas não reconhece pelo nome e desconhece a exata localização dentro do corpo - quando este é devolvido costurado à família?
O procedimento padrão determina que o cérebro seja examinado mesmo quando a causa óbvia da morte é um tiro no peito. Isso porque o óbvio pode estar sendo usado para desviar a atenção da verdadeira causa da morte. Um tiro pode, por exemplo, esconder um envenenamento anterior. Um aneurisma no cérebro pode ter matado um doente terminal de câncer de pulmão. A necrópsia existe para investigar o que não é óbvio.
O que era bastante conveniente para Jacob Pond.
Para um kitsune como Jacob, aquele era o emprego perfeito. O melhor de tudo é que podia alimentar-se enquanto trabalhava sem chamar a atenção das pessoas. Levava uma marmita - geralmente frango grelhado e salada verde - e comia no ambiente de trabalho. Isso sempre causava olhares e expressões de estranheza e nojo. Principalmente quando a marmita estava pousada na mesa de necropsia, a centímetros de um cadáver com o peito aberto e as vísceras à mostra. Era divertido ver a reação das pessoas, especialmente quando viam aquilo pela primeira vez.
Fazia seu teatrinho e comia sem muito entusiasmo o conteúdo da marmita. Verduras não eram a base da sua alimentação. Eram fonte de fibras e blá-blá-blá, mas só comia quando recebia visitas e enquanto estavam na sala.
Alimento é tudo aquilo que se precisa ingerir para manter o organismo em funcionamento por tempo indeterminado em condições saudáveis. Sua espécie era carnívora. Não que precisasse comer carne humana. Qualquer proteína animal mantinha seu organismo em funcionamento. Garantia a sua sobrevivência. Mas, não em condições saudáveis.
Havia hormônios que seu organismo precisava e que seu corpo não produzia. Hormônios essenciais como o hormônio do crescimento, que em humanos - e na maioria dos mamíferos - é produzido pela glândula hipófise anterior, localizada na base do cérebro. E, neste caso, as glândulas precisavam ser de humanos. Afinal, sua espécie derivara da humana.
Na época que sua mãe era viva hormônio do crescimento sintético ainda não era comercializado. Mas, isso mudou. Poucos anos depois de sua morte, já era facilmente encontrado em qualquer farmácia. Isso resolvia parte do problema. Mas, a hipófise não produz apenas o hormônio do crescimento. A hipótese produz substâncias que influenciam todo o ciclo reprodutivo dos mamíferos. Ainda precisava alimentar-se de hipófises humanas para manter-se completamente saudável.
Aquela não era uma cidade grande, mas tinha mortes violentas e mortes de causas naturais não identificadas em número suficiente para garantir-lhe um estoque seguro de glândulas. Podia guardá-las lá mesmo sem despertar suspeitas. Nunca precisou matar ninguém.
Sobre sua mesa de trabalho, um retrato da mãe. Adorava aquela foto. Sua mãe fora uma mulher bonita e estava particularmente bonita naquela foto. Sua mãe era uma boa pessoa. Compreensiva e solidária. Incapaz de desejar o mal de quem quer que fosse. Não estranharia se sua mãe lhe pedisse que perdoasse o homem que a assassinou.
- Sinto muito, mãe. Eu tento esquecer, mas simplesmente não consigo. O ódio que eu sinto daquele homem é maior que a minha capacidade de perdoar. Matar você foi um ato desnecessário e cruel. Matar você e deixar-me vivo foi de uma crueldade ainda maior. Sabe o quanto é assustador para uma criança saber que não tem mais ninguém no mundo? Que não poder contar com ninguém? Sabe o que é passar a vida inteira precisando esconder do mundo o que você é para não ser caçado e morto?
- Eu era apenas um garoto e estava doente. Eu estava definhando. Morrendo. Eu teria morrido se você mãe não tivesse quebrado seu juramento para me salvar. É justo matar uma mãe que apenas fez o que precisava ser feito para salvar a vida do único filho?
- Minha mãe não queria matar ninguém. Mas, eu quero. Eu quero matar o homem que matou minha mãe. Somente ele. Porque Dean Winchester MERECE morrer.
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AGORA
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- Demorou, mas finalmente os registros distritais de medicina legal foram integrados aos bancos de dados de outros órgãos governamentais a nível nacional. Creio que fomos o último departamento a ser integrado. Agora é possível acessar em conjunto todas as informações médicas, criminais e de registro civil de qualquer cidadão americano nascido após 1945.
- Eu já sabia da morte do seu irmão e dos seus pais. Sei disso há anos. Mas, não sabia onde encontrar você. Você nunca teve endereço fixo conhecido. Eu acabei desistindo de procurar. Achei que jamais encontraria o seu rastro. Isso até a integração total de todos os bancos de dados do governo. Agora, com minha senha, eu tenho acesso a bancos de dados que antes eu não podia consultar. Como o banco do sistema de adoções. Eu agora sei que você teve um filho e o entregou para adoção.
- Winchester, Mary. Status: falecida. Há muitos e muitos anos atrás. Sua mãe morreu quando você ainda era um garoto. Você chorou a morte dela? Você cresceu sem ela e devia saber a falta que faz uma mãe na vida de uma criança. Como essa perda marca uma pessoa. Mas, se você não sabe, eu vou te ensinar.
- Winchester, John Eric. Status: falecido. Faz muito tempo. Mas, quando John morreu, você já era adulto. Você teve a oportunidade de conviver com seu pai por muitos anos. Deve ter aprendido muita coisa com ele. Coisas de meninos. Coisas que as mães não sabem explicar. Eu não tive um pai que me ensinasse a me tornar um homem. Você teve e negou isso a seu filho. Que tipo de homem abre mão de conviver com o próprio filho?
- Winchester, Samuel. Status: falecido há duas décadas. Seu irmão era um homem bom. Minha mãe matou a própria mãe para salvar a vida dele e Samuel mentiu para a sua família de caçadores para que minha mãe pudesse fugir. Ele a reencontrou e mais uma vez a deixou partir. Minha mãe me falou sobre ele antes de ser morta. Falou dele com carinho. Pena que você não aprendeu com Samuel a ter compaixão. Se você não mostra compaixão pelos outros, como espera que os outros se compadeçam de você?
- Winchester, Dean. Status: vivo. Eu jurei que um dia eu o mataria. Pois bem: o dia do nosso acerto de contas está próximo.
- Angles, Rhodes. Status: vivo. Filho natural de Dean Winchester. Filho adotivo de Danielle e Justin Angles. Alguém que vou gostar muito de conhecer.
- Há anos que não tiro férias. Estamos entrando no outono. Creio que essa é uma boa época para visitar Topeka.
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- Sério? Descobriu?
- Meu pessoal investigou e me mandou um relatório completo.
- Eu tenho descendentes vivos?
- Você tinha um único filho quando foi transformado.
- O Joseph. Quando eu era jovem não havia campanhas pregando sexo seguro e eu, modéstia à parte, fazia sucesso com o belo sexo. Mas, nenhuma outra bateu à minha porta cobrando que eu assumisse uma criança. Que eu saiba, é só ele.
- Bons tempos. Na minha adolescência já existiam anticoncepcionais, a ameaça do HIV, campanhas para uso de camisinha, testes de gravidez vendidos em farmácias e testes de DNA. Hoje em dia continua igual, porém tudo mais eficiente. E, felizmente, a AIDS já tem cura.
- Ingrid era filha de estivador e eu gostava de ver o mar. Ficamos juntos um tempo e ela engravidou. Não muito tempo depois eu fui transformado. Joseph era um bebê de colo. Eu não podia ficar e por a vida deles em risco. Desapareci sem dar explicações. Fui para longe. Eu nunca mais os vi.
- Joseph casou com Mary Ann e tiveram quatro filhas e um filho. Esse filho, Emmanuel, já falecido, foi o pai de Elizabeth, única descendente sua a conservar o sobrenome Lafitte. Das filhas mulheres de Joseph, uma morreu ainda menina e outra não se casou nem teve filhos. As outras duas casaram e, conforme o costume, assumiram os sobrenomes dos respectivos maridos. Sarah teve dois filhos, John e Paul, ambos vivos e morando na Costa Leste. John é gay e pai de dois meninos: Joshua e Josh. Paul é hétero, mas não tem filhos. A esposa tem uma menina do casamento anterior. A filha mais nova de Joseph, Martha, teve um casal de filhos: Bernard e Margareth. Bernard é pai de Alan e Adam. Margareth é mãe da menina Ilana. Bernard mora aqui mesmo em Los Angeles. Margareth mora em Portland, no Oregon.
- Então, meu filho me deu 5 netos, .. 5 bisnetos e .. 5 trinetos.
- Tirando Elizabeth, todos os seus bisnetos e trinetos estão vivos. Tem também sua neta Martha. Não precisa temer por sua linhagem. Parabéns, amigo.
- E um destes bisnetos, Bernard, e seus dois filhos estão aqui em Los Angeles?
- O que acha de tornar-se vizinhos deles? É algo que posso providenciar. Mas, você precisa ir com calma. Não pode chegar e revelar quem é.
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- Jason?
- Dean? Já esperava sua ligação. Recebi sua msn-Q e já tenho tudo pronto para dar a ordem de compra. Mas, sinto-me na obrigação de alertá-lo que são papéis de altíssimo risco. Quer mesmo arriscar tanto dinheiro em títulos de um país tão mal avaliado pelas agências de classificação de risco?
- Já me viu alguma vez perder dinheiro? Compre e venda tudo em exatos seis meses e um dia. Não antes e, na ocasião, não precisa me perguntar se eu tenho certeza que quero vender. Simplesmente venda. Mas, não foi por isso que liguei. Quero que prospecte negócios em Topeka. Somente negócios limpos e seguros.
- Topeka, Kansas? Que ramo de negócios?
- Negócios que combinem comigo e com a imagem que o mundo tem de mim. Eu pretendo instalar lá a sede corporativa deste meu novo grande negócio, seja ele qual for, e, como CEO da companhia, quero comprar uma bela e luxuosa propriedade com tudo a que um CEO muito bem pago tem direito.
- Pensando em se mudar para Topeka?
- Não! Quero dizer .. não ainda. Talvez no futuro.
- Vou correr atrás. Espere novidades para breve.
- Confio no seu taco! Bye!
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- Vinte anos mudam uma pessoa. Eu jamais imaginaria Dean Winchester como o todo-poderoso CEO de uma grande corporação. Alguém que do alto de sua cobertura luxuosa, copo de scotch na mão, ordena a compra e venda de milhões de dólares em ações. Alguém que fica mais rico a cada dia.
- Você ainda não viu nada, Benny. Eu vou por você a par de toda a operação. Aí sim você vai ficar verdadeiramente impressionado. O Jason Manns, o cara com quem eu estava falando, é quem cuida da parte financeira. Fecha as operações de compra e venda, verifica a contabilidade, recolhe os impostos e trata da burocracia. Isso é de extrema importância porque é o lucro das operações financeiras que banca as minhas caçadas. As minhas e as de mais de uma dúzia de caçadores. Isso aqui, esse luxo todo, é apenas fachada. Eu continuo fazendo o que sempre fiz, só que com mais conforto e cobrindo todo o território americano o tempo todo.
- Fazendo o que sempre fez, não. Você não apenas deixou de ser caçador em tempo integral, Dean. Você passou a ser um caçador de fim de semana. Terceirizou atividades. Delegou serviços. Dean, hoje em dia você caça apenas por hobby.
- Não exagera, Benny. Eu fico com os casos difíceis. Não faz sentido eu correr atrás de todo fantasma que aparece.
- Dean, acreditando que as coisas aconteceram exatamente como me contou, você diria que ter sido tão facilmente capturado pelos djinns chega a ser algo surpreendente?
- Aonde você está querendo chegar, Benny?
- Lembra do Velho? O vampiro que me transformou?
- Nunca esqueço aqueles que matei.
- Eu olho para você e me lembro dele.
- Está se referindo ao fato do Velho ter cara de garoto?
- Nós vampiros ficamos presos à aparência que tínhamos quando fomos transformados. O Velho tinha mais de trezentos anos, mas aparentava ser pouco mais que um adolescente. E você parece estar indo na mesma direção. Décadas de experiência e cara de garoto.
- Estou rejuvenescendo em ritmo acelerado. Mas, me comparar ao Velho ..
- Não estou dizendo que vocês são iguais. Apenas constatando que, por caminhos opostos, vocês convergiram para o mesmo ponto.
- Como assim? Eu realmente não estou entendendo.
- Acontece que o Velho não apenas parecia ser um adolescente. Ele tinha séculos de experiência, mas nunca ganhou a maturidade que esses séculos poderiam ter-lhe dado. Essa é a maldição de quem se transforma em vampiro. Não mudamos nem física nem emocionalmente. Apenas acumulamos conhecimento. Por dentro, permanecemos os mesmos de antes.
- E aí .. ?
- Eu conheci o Dean de antes. Maduro, centrado, focado. E você não é mais aquele homem.
- Não sou?
- Não! Você não é. Eu posso dizer com certeza porque convivi com você antes e agora. Agora foram poucas semanas, mas já deu para sacar o que está acontecendo.
- E o que está acontecendo?
- Você não está apenas rejuvenescendo. Está ficando imaturo. Talvez ninguém tenha notado antes por não existir muita diferença em termos de maturidade entre um homem de trinta e cinco e um de cinquenta. Mas, quando se chega na faixa dos vinte, isso começa a aparecer e muito. Você vem agindo de forma impulsiva. Está menos responsável, menos focado. Está agindo como se pudesse tudo. E isso é muito perigoso.
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- Filho, acorda! Você ficou de levar a mim e a sua mãe ao aeroporto. Esqueceu?
- Bom dia, pai. [bocejo] Estava sonhando. Que sonho estranho! Pareceu tão real.
- Estranho bom ou estranho ruim?
- Não sei ao certo. Instigante define melhor. Eu sonhei com um anjo.
- Não brinca? Anjo mesmo? Aqueles com asas, auréola, harpa e túnica branca?
- Não. É até engraçado de dizer, mas .. Esse anjo vestia terno e gravata e um sobretudo bege por cima. Nada muito elegante. Sabe .. meio esculhambado.
- E, no sonho, ele disse para você que era um anjo?
- Não que eu me lembre. Mas, de alguma forma, eu sabia.
- Levante-se, filho. Esquece o sonho. Eles pedem que a gente chegue ao aeroporto com duas horas de antecedência. Então, apresse-se!
- Pai! Uma coisa que o anjo disse ..
- O que foi que ele disse?
- Ele disse para eu me preparar. Porque a minha vida está prestes a mudar completamente. Pai, eu ...
- Fala, filho.
- Nada. Bobagem minha. Pai, eu .. te amo muito.
- Eu sei, filho. Sua mãe e eu também te amamos muito. Agora, levante-se e vista-se.
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: LIKE A PHOENIX!
ESCLARECIMENTOS:
1. Como Dean, Jacob também fala sozinho. Um esquisitão que trabalha examinando cadáveres não costuma ter muitos amigos.
2. Jacob Pond, filho da kitsune Amy, aparece no episódio 7x03 (The Girl Next Door). O personagem é interpretado pelo jovem ator Lyova Beckwitt. No final do episódio, Jacob jura matar Dean Winchester para vingar a mãe.
3. Jacob e o governo americano não sabem da ressurreição de Mary Winchester.
4. O sobrenome Angles, da família adotiva de Rhodes, vem da recente participação de Jensen Ackles parodiando a si próprio na série Kings of Con, onde Jensen é Justin Angles e Jared é Jaden Jaworski.
15.11.2017
