- Eu não sei, Rachel. Não tenho certeza. Acha mesmo que é uma boa ideia?

Quinn rolou na cama decorada em diferentes tons de amarelo. Deitou-se de costas para o colchão, o enorme livro aberto em mãos.

- Eu tenho certeza que nós vamos arrasar! – Rachel rodopiou em frente ao espelho enorme ao lado da cama onde uma Quinn Fabray agora mantinha a cabeça escapando do colchão, para baixo, as pontas dos cabelos dourados quase tocando o chão.

- Rach, olha só, eu não acho que vai ser muito confortável a gente ir pra escola com as roupas que eles costumavam usar na renascença.

Mick tossiu para encobrir uma risadinha e Quinn cutucou-a com o pé. A risadinha tornou-se uma gargalhada desavergonhada.

O lado ruim de se conviver com um anjo o tempo todo é que ele é tipo a sua consciência, com caras e bocas e direito a debochar de você. O lado bom é que depois de um certo tempo, você aprende a vibrar na mesma intensidade que ele e... bem, com algum tempo de treinamento você consegue tocá-lo... Ou chutá-lo quando ele está definitivamente tirando um sarro sem tamanho da sua cara, enquanto você consegue convencer a sua colega de turma que vestir um vestido que parecia ter sido feito com todo o tecido do mundo, não seja lá uma boa ideia.

- Oras, Quinn, você só está pensando na parte ruim. Tudo pelo bem da arte!

- Rachel, quanto pesa esse vestido que você está usando? – Quinn torceu o nariz, entortando a cabeça para conseguir olhar Rachel que ainda se encarava ao espelho.

- Não sei... três quilos? Três quilos e meio?

- TRÊS QUILOS E MEIO, BERRY? – Quinn se sentou em um único movimento e só então Rachel parou de encarar o espelho para finalmente erguer os olhos para a menina loira, extremamente indignada que a olhava exatamente do centro da cama de casal de seu quarto.

- Eu não vejo o porquê de tamanho espanto, Quinn. Você sabia que em A Bela e a Fera, as fantasias pesavam mais de vinte e cinco quilos?

- Você TEM que estar brincando comigo. - Rachel franziu a testa, em resposta ao queixo de Quinn que se recusava veementemente a permanecer no lugar. – Berry... Olha só, eu não vou usar três quilos de roupa só por causa de um ponto a mais em literatura. Eu nem preciso desse ponto, na verdade. E nem você.

- Mas Quinn, pense no quanto vai ser div...

- Vai ser qualquer outra coisa, hobbit, menos divertido.

Rachel ainda sustentou o olhar de Quinn. Então engoliu em seco, antes de baixar os olhos por fim..

- Tudo bem, Quinn, eu tenho certeza que nós podemos achar outra coisa pra fazer.

Barbra suspirou, alto, muito alto. E Quinn inconscientemente acompanhou quando a senhora se levantou, aproximando-se da outra menina que lutava contra o zíper da camada mais superficial do vestido. Procurou por Mick, que deu de ombros, como quem não sabe exatamente como reagir perante certa situação. A culpa sobre os ombros delicados agora tinham o peso de um mundo inteiro e quando por fim a menina loira deu por si, estava de pé, o zíper emperrado entre o indicador e o polegar.

Rachel conteve com dificuldade a vontade de se encolher em defesa quando sentiu Quinn assim, tão perto.

A amizade estranha que se desenvolvera entre as duas desde o episódio do encontro com Sylvester tinha sim sido uma evolução do relacionamento desde que se conheciam, mas esse grau de aproximação, não havia sido alcançado.

- Se afasta um pouco dela.

Mick soou séria e Quinn franziu o cenho, ainda hesitando por alguns minutos antes de desviar os olhos do zíper.

"Porque eu faria isso?"

- Primeiro porque você é uma idiota. Segundo porque ela está querendo sair correndo porta afora.

A expressão de estranhamento se transformou e Quinn soltou o vestido num repente, como se o tecido a queimasse.

- O que houve? - Rachel se virou, e a sombra que Quinn viu através da máscara de curiosidade preocupada, lhe pareceu muito com uma certa sombra de preocupação que vira tantas vezes nos olhos de Mickahill.

Além de tocar o próprio anjo, Quinn descobrira que conviver com a Rachel Berry de mentirinha de certa forma fornecia uma confiança maior e consequentemente um maior conforto na hora de lidar com a verdadeira Rachel Berry. Já não achava as expressões tão excessivamente carregadas de drama assim tão insuportáveis. Para falar verdade, aquele bico que ela simplesmente não conseguia controlar quando cntrariada, chegava a ser adorável as vezes. Mas não era esse o bico que Rachel tinha agora. Quinn tentou decifrar outra coisa que não fosse mágoa pura e simples enquanto Rachel ponderava sobre como responder aquela pergunta.

- Eu... Eu só...

A moça loira não se deu conta de quando exatamente aconteceu, mas quando por fim volto a si, Rachel a olhava com o rosto ligeiramente inclinado, como se a incentivasse a continuar... e pareceu dar certo.

- Eu não acho que seja uma ideia tão ruim assim...

Quinn suspirou, voltando a segurar o zíper entre a ponta dos dedos.

- Não é muito pesado, Rach?

Foi a vez da judia suspirar, tombando a cabeça e a nuca recém exposta pelo movimento, ,automaticamente capturou a atenção de Quinn.

- Eu só queria fazer alguma coisa diferente. Estou cansada de cantar em todos os meus trabalhos, de fazer cartazes e slideshows. Embora sejam muito úteis, não me entenda mal, Quinn.

- São três quilos e meio, Rach. É MUITA roupa.

- E também...

- Também... ?

Rachel suspirou, antes de por fim se desvencilhar da mão de Quinn que ainda lutava contra o zíper emperrado. Dois, três passos muito mais parecidos com uma fuga do que com qualquer outra coisa. Quinn por instinto se moveu em perfeita harmonia. Não sabia exatamente quando aquilo começara, mas era fato que toda vez que Berry se mexia, ela por instinto acompanhava o movimento. Não tinha sido diferente agora, mas um toque firme no ombro direito a fez parar e Quinn se lembrou que Mick existia.

- Eu só tinha me esquecido do que você costuma me chamar.

- Hobbit? - O cenho bem marcado por sobrancelhas escuras se franziu.

Quinn imitou o gesto, em estranhamento. A compreensão sobre o que Rachel dizia demorou algumas frações para se fazer perceber e quando por fim chegou, os olhos dourados arregalaram-se enquanto as bochechas tomavam um tom levemente avermelhado.

- Ah... Eu... ahn... – Os cabelos dourados foram invadidos pelos dedos delgados da moça loira, enquanto por instinto, Quinn andava para trás. Três passos foram mais que o suficientes para que a panturrilha da perna direita encontrasse com força o banquinho da penteadeira e Quinn respondesse ao encontrão com uma das palavras mais feias que conhecia.

Rachel assistiu a outra moça se afastar enquanto o brilho dos olhos mudava e a diversão tomava conta das íris castanhas. Quando Quinn deixou os ombros caírem, suspirando em resignação enquanto apertava a ponte entre os olhos.

- Rach...- A voz vacilou e Rachel percebeu. Se aproximou, com certa cautela. Olhava Quinn assim, meio de longe, as mãos unidas enquanto dedos enérgicos se apertavam. - Tá... tá. Tudo bem. Mas que fiquei muito claro que você vai lavar as minhas roupas se a gent...

Rachel piscou mais devagar que o normal alguns pares de vezes, enquanto Quinn falava. Inconscientemente os lábios se curvaram... e logo o que era um sorriso apenas labial se transformou em mais um daqueles sorrisos de três milhões de diamantes de Berry.

Quinn não chegou a terminar aquela frase, porque no instante seguinte Rachel estava com os dois braços envoltos no pescoço delgado num abraço meio sem jeito. Sem apoio para as costas, a moça loira cedeu ao peso da gravidade e no instante seguinte, ambas estavam no chão. Quinn por baixo, Rachel e todos os seus vestidos abertos pela metade. O banquinho escorregou por entre as pernas da moça loira e quando o desconforto inicial passou, Quinn levou a mão direita à testa enquanto o rosto se contorcia em uma careta engraçada de dor.

- Você não precisa me matar, sabe Rach? - A frase foi dita meio aos gemidos, meio às risadas, enquanto Quinn se contorcia contra o carpete do quarto de Rachel.

Rachel gargalhou, feliz da vida. Ainda sobre Quinn, deixou-se apoiar na mão direita, preparando-se para levantar mas parando à meio caminho, para colar a boca na bochecha tom de pêssego em um beijo estalado.

- Rachel? Está tudo bem aí em cima?

A voz se fez ouvir, mesmo ao longe, seguida por passos rápidos na escada. A porta do quarto não demorou a ser aberta e uma cabeça careca se enfiou no vão recém aberto.

Hiram apertou os olhos perante a cena que se desenrolava ali: Quinn ainda deitada no chão, Rachel se levantando com certa dificuldade e estendendo as mãos para erguer a amiga.

- Oi, pai. - A menina saudou, enquanto Quinn tratava de ajeitar as roupas que se desajustaram com a queda, vermelha como pimentão.

- O que houve?

- Ah, a Quinn caiu do banquinho... Nada demais. - Rachel respondeu com simplicidade.

Hiram apertou os olhos, analisando uma Quinn que ainda encarava o chão, se recusando a erguer os olhos.

- Você está se sentindo bem?

- Sim senhor...

- Não acha melhor que procuremos um médico ou alguma coisa do tipo?

- Não! - Quinn respondeu rápido demais para parecer normal. Não aguentava mais essas coisas de médicos e hospitais e remédios todos.

Hiram a encarou por algumas frações de segundo, fazendo com que a menina corasse outra vez, tornando a baixar os olhos. Assentiu, quieto, fechando a porta do quarto outra vez.

Rachel suspirou. Observava as reações de Quinn há um ou dois pares de minuto.

Quinn voltou a se sentar, esfregando ambos os olhos com os dedos indicador e polegar da mão direita.

- Você está mesmo se sentindo bem?

Concordou, um gesto de cabeça apenas.

- Me desculpa... - A voz de Rachel não foi muito mais que um sussurro e o tom inseguro, vindo de Berry, arrancou um sorriso de Quinn.

- Por tentar matar uma amiga semi-incapaz? Não tem que se desculpar, Rach.

O sorriso foi involuntário e incontrolável. As palavras "amiga" e "Rachel" (ou Rach, que seja), ditas por ninguém menos que Quinn Fabray lhe parecia uma realidade alternativa muito distante há dois ou tês semanas atrás. Mas em algum ponto do último mês, as coisas tinham mudado (e MUITO!) e não era como se Rachel não gostasse daquilo ou algo do tipo. Voltou a se aproximar de Quinn.

Dessa vez, envolveu o pescoço da menina loira com mais cuidado, trazendo-a para perto do próprio corpo. Quinn sentiu a bochecha roçando contra o tecido trabalhado do vestido enorme que Rachel ainda vestia.

- Se você ronronar agora, eu juro que vou te bater.

Rachel foi a primeira a quebrar o silencio confortável que já durava um ou dois minutos com Quinn ainda aconchegada contra o estômago. Riram, Quinn primeiro, só então se afastando de Rachel para conseguir encará-la.

- Desculpa o meu pai. Ele as vezes... só se preocupa demais. - O tom despreocupado da menina judia combinou perfeitamente com a delicadeza do gesto de tirar uma mecha de cabelo loiro da frente dos olhos castanhos e predê-los atrás da orelha de Quinn.

- Por que você é tão legal comigo?

Rachel franziu o cenho, enquanto levava outra mecha de cabelo para trás da orelha de Quinn.

- Como assim?

- Sei lá... Você deveria me odiar.

Um sorriso brincou nos lábios fartos, antes que Rachel pudesse responder.

- Você é uma boa pessoa. Eu não costumo odiar boas pessoas.

- Eu sempre fui horrível com você.

Rachel suspirou, se afastando. Sentou-se na beirada da cama, de frente para Quinn.

- Eu roubei o seu namorado e...

- Acredite em mim, não era motivo para que eu fizesse o que fiz. – Quinn a interrompeu, erguendo uma das mãos. – Eu não acho de verdade que Finn valha a pena.

O sorriso falso de Rachel foi usado única e exclusivamente para encobrir o desconforto.

- Talvez você tenha razão...

Foi a vez de Quinn franzir o cenho, em estranhamento.

- Está tudo bem ou... – Meneou a cabeça, um gesto de mão dispensou o resto das palavras – Desculpe. Eu não tenho o direito de...

- Tá tudo bem. – Foi a vez de Rachel interromper. Inconscientemente, sentiu o corpo deslizar mais para a beirada da cama, como se para ficar mais próxima de Quinn.

- Problemas?

- Coisas de... ahn... Coisas de casal. – Rachel desviou o olhar, os dedos se apertando no colo.

- Vocês são um casal ainda? Eu achei...

- Mais ou menos...

- E...?

- Ele anda... Anda me pressionando.

- Pressionando?

- Diz que já temos idade o suficiente e...

Quinn revirou os olhos, o estômago imitou o gesto ao imaginar Finn e todos aqueles centímetros a mais sobre uma Rachel seminua. Levantou-se, tentando desfazer a imagem mental.

- Vamos tirar esse vestido.

- Te incomoda falar dele?

- Que? Hudson? Não!

- Então...

- Fala pra ela que você tá morrendo de ciúmes.

- Eu não estou com ciúmes!

- Oi? – Rachel franziu o cenho, estranhando. Quinn fechou os olhos, respirando fundo enquanto ouvia a gargalhada de Mickahill em algum ponto cego do quarto.

Esfregou os olhos cansados, se levantando enquanto pensava em maneiras eficazes para se torturar um ser que não tem um corpo de verdade.

O riso de Mick se tornou ainda mais escandaloso e agora Barbra também a acompanhava, mesmo que de maneira mais contida.

- Vamos tirar isso. – Disse estendendo ambas as mãos para Rachel, que ainda a olhava de um jeito meio estranho, sem entender de verdade o que estava acontecendo ali.


- Wow, loirinha. Se você continuar assim, nós dois vamos acabar machucados. Porque eu vou soltar você, você vai cair e eu vou cair por cima. – A voz de Puck foi parcialmente abafada pelo mundo de cabelos cor de ouro enquanto ele segurava uma Quinn Fabray que parecida possuída por pelo menos oito demônios diferentes pela cintura. O vestido enorme não ajudava em nada a tarefa de conter Fabray.

Finn Hudson se pressionava contra o armário, olhando exasperado para todos os lados possíveis.

Um amontoado de estudantes se concentrava no corredor da sala de história. Curiosamente todos os jogadores de futebol haviam desaparecido tão logo Quinn se lançou contra Finn, que já ganhara dois golpes muito baixos e algumas marcas no pescoço que lhe lembrariam por um bom tempo de fugir das unhas de uma mulher em fúria.

Santana Lopez abriu caminho pela horda de adolescentes com um único grito em espanhol e alguns golpes precisos nas costelas dos garotos mais altos e consequentemente mais teimosos.

As poucas cores de Finn se esvaíram de vez quando por fim a latina de pouca estatura e muita petulância conseguiu se enfiar na clareira que o medo de Quinn havia feito.

- Que poca abuela tienes, Fabray! Tengo classe en dos minutos, ya lo sabes?

- EU VOU ARRANCAR O SEU PANCREAS PELO UMBIGO, HUDSON. DEPOIS VOU TEMPERÁ-LO COM LIMÃO E SAL E SERVIR NO DIA DO SEU ENTERRO.

- Pelo amor de Deus, Santana. Faz ela parar!

Os olhos castanhos de Lopez voltaram ao normal tão logo ela ouviu Finn e percebeu que os arregalara.

- Mas o que é que está acontecendo aqui, afinal?

Finn suspirou, olhando outra vez para os lados. Quase dois metros de altura convertidos em desespero puro e simples. Quando por fim ele escolheu um dos lados (o direito) e saiu em disparada, se enfiando entre os muitos estudantes do Mckinley High, Quinn escorregou como sabão por entre os braços fortes de Puck. Não teve tanta destreza em se enfiar no meio dos adolescentes, então Finn ganhava distancia conforme o tempo ia se passando.

Santana e Puck continuavam a olhar por onde a dupla desaparecera. Santana com as duas mãos na cintura, Puck com as duas mãos acariciando o moicano,

A moça franziu o cenho, só então se virando para o judeu.

- Ok. Agora você vai me explicar o que diabos foi isso.


Yaaaaaaaaaaaaaaaaay! ;D
Não, gente, eu não morri.
Eu sei que estou sumida faz MUITO tempo e que dessa vez eu bati todos os records.
Eu sinto muito, muito mesmo.
Mas eu prometi que não ia abandonar essa fic e não vou.
Eu estava numa crise BRAVA de criatividade e com MUITA coisa pra resolver.
Juro que vou tentar não fazer isso de novo.
Eu não sei porque, mas os capítulos dessa fic sempre ficam menores do que eu acho que vão ficar.