Capítulo IX — Banhada em lágrimas

É de se imaginar a confusão que está na minha cabeça desde ontem. Eu não consegui dormir, relaxar ou qualquer coisa parecida. Minha vida é tão cheio de drama que ainda me pergunto como ainda me afeto.

No caminho de volta para casa, sentada ao lado de Hideo (que proibiu Daiki de chegar perto de mim até meu aniversário de dois séculos) eu finalmente comecei a perceber a importância do que tinha acabado de acontecer. É estranho, mas de repente eu fui tomada por um ataque de pânico, ali mesmo, no carro.

Senti minha pressão baixar e um zumbido estranho se estabelecer com teimosia em meus ouvidos. Hideo segurou meu braço quando percebeu que eu estava hiperventilando.

— Kagome. Kagome, o que está acontecendo?! — Encarei meu irmão, assombrada, percebendo que ele estava inclinado na minha direção, completamente pálido. A percepção de como ele estava preocupado fez a sensação de desespero ceder um pouco e fechei os olhos enquanto me concentrava em respirar melhor.

Minha cabeça começou a latejar e eu imediatamente tentei me obrigar a manter a calma. Eu tinha que pensar racionalmente sobre o que tinha acontecido, agora que finalmente me dava conta de que eu realmente tinha ficado cara-a-cara com Shippou e Sesshoumaru... nessa era!

De repente, fui inundada por todas as lembranças das pessoas que eu tinha perdido. E o desespero maior era pensar em como havia sido a morte de Miroku e Sangô, Kaede, Rin. Sim, eu não sou estúpida a ponto de pensar que, depois de quinhentos anos, eles ainda estariam vivos. Apenas não havia me permitido pensar nisso antes, e agora eu tenho que encarar uma verdade muito clara: que nada do mundo que eu amei sobrou, exceto Shippou e Sesshoumaru, dois youkais que obviamente não são mais os mesmos desde aquela época.

Quinhentos anos. Cinco séculos vivendo nesse mundo, vendo o Japão se modificar a cada década que passava. Estando em algum lugar ao meu alcance, aqui, nessa era, desde que nasci, e sem eu nem mesmo sonhar com tal fato.

Eu sou uma idiota. Às vezes tenho a impressão que sou incapaz de entender qualquer coisa que não seja esfregada no meu nariz. Mesmo depois de saber que meu pai viveu por mais de quinhentos anos em nenhum momento eu cogitei que alguém que conheci no passado pudesse estar vivo?!

— Kagome, você está bem? — Hideo repetiu.

Abri os olhos e dei alguns acenos curtos para sinalizar uma resposta afirmativa.

— É só... nervosismo... — tossi.

Hideo bufou.

— Eu vou matar aquele maldito Sesshoumaru Taisho! E Shippou também. — ele cruzou os braços, parecendo estar se esforçando muito para controlar a raiva — Mas antes eu vou esfolar cada milímetro da pele do Daiki. Vou rebaixar ele para guardião de templos e mandá-lo para os recantos mais inóspitos de Kimki.

— Não foi culpa dele. — argumentei — Ele só estava preocupado com você.

— E ele achava que ia vencer inimigos que eu não pudesse? — Bufou mais uma vez. Ok, a modéstia chegou ao meu irmão e fez dele seu templo de virtude. — Ele foi irresponsável. Vou fazê-lo conviver com a culpa pelo resto da vida inútil dele.

— Mas...

— Não defenda o nosso irmão. Ele sempre foi a decepção da família, aquele infeliz. — Hideo bufou mais uma vez e então se calou. Percebi imediatamente que a conversa estava encerrada, ao menos enquanto Hideo quisesse que fosse assim.

Essa conversa serviu para que eu me acalmasse e ser um pouco mais simplista com os meus pensamentos. Vou só ignorar qualquer implicação que resultou do fato de Shippou e Sesshoumaru estarem vivos. Quer dizer... Vivos e poderosos, como eu pude perceber com clareza extrema.

E imaginar que Shippou se tornaria um youkai assim. Ele demonstrava talento e poder razoável para alguém de pouca idade. Quinhentos anos eram mais que suficiente para exponenciar esse poder. Mas daí a ser um youkai com uma presença como aquela? É assustador imaginar que eu cuidava de Shippou como um irmão mais novo, sempre preocupada com sua segurança, e que ele se tornaria alguém que poderia tirar a minha vida apenas com um sopro.

Bem, ele com certeza não era mais uma criança. Tinha a aparência de um adolescente impertinente e havia se tornado alguém notavelmente atraente.

E quanto a Sesshoumaru... Na verdade, não me surpreendia com o fato de ele estar no topo da pirâmide hierárquica dos youkais. Quer dizer... Estávamos falando do Sesshoumaru. Em nenhum momento tive dúvidas do poder dele ou de até aonde ele iria em razão disso.

Shippou havia dito que ele não era mais o Sesshoumaru de antes e agora me pergunto como era que eu o conhecia. Pensando friamente, ele era um dos poucos "neutros" do meu passado. Poderoso, confiante, habilidoso, medonho... Não havia nada em que ele não parecesse extremamente eficiente.

Ele tentou me matar na primeira vez que nos vimos. Isso com certeza não é algo bom. Em contrapartida, salvou-me tantas outras vezes depois disso... Não que ele tenha feito isso para "me" proteger, especificamente.

A conclusão a que chego é que eu não tinha, nem tenho, expectativas sobre ele. Eu sempre fui do tipo insuportável, que age com as pessoas como se as conhecesse bem, então, mesmo que eu tenha falado com ele tantas vezes com intimidade, não significava que eu realmente acreditava que éramos íntimos.

Ryo, que estava dirigindo o carro, acionou a abertura automática dos portões da Mansão Corvo e eu suspirei, repentinamente nervosa por chegar em casa, embora não houvesse motivo real para isso. Hideo pulou rapidamente para fora e estendeu uma mão para me ajudar a sair. Ouvi o ronco da moto do Daiki quando ele estacionou o veículo de qualquer jeito atrás do Mercedes de Hideo.

Nem vi quando Hideo se afastou de mim, só percebi que algo estava errado quando vi o capacete de Daiki rolar pelo chão. O meu irmão mais velho o segurava pela gola da camisa.

— Você enlouqueceu para levá-la ao local da Convenção?! Não entendia o risco ao qual estava expondo sua própria irmã?!

Dei um passo à frente, para impedir que eles começassem uma briga, mas o que vi foi Daiki baixar os olhos respeitosamente e dizer:

— Compreendo meu erro, senhor, e aceito a punição que julgar necessária.

Hideo respirou fundo algumas vezes e então se afastou, com um safanão. Foi bem a tempo de Aika se aproximar (ela estava no outro carro com Hiroko e Yuri) e se meter entre os dois.

— Aqui não é o local para essa conversa. — declarou.

Meus irmãos não pareceram inclinados a dar ouvidos, mas por fim Hideo dispensou todos os outros e pediu para que Daiki, Aika e eu o acompanhássemos até seu gabinete. Ao entrarmos, fiquei em dúvida se deveria sentar, então simplesmente fiquei de pé, enquanto Hideo começava a andar de um lado para o outro. Por fim, ele suspirou e parou, virando-se para Daiki:

— Eu sei que não é sua culpa que o Senhor do Oeste tenha uma noção de honra completamente deturpada. — Hideo passou a mão no rosto — Eu sou um idiota por não perceber que ele faria alguma coisa. Durante toda a Convenção ele estava me sondando, tentando compreender qual era o risco de lutar contra os tengus pelos territórios do Leste. Era apenas uma questão de tempo até ele achar um jeito de me atingir...

— Eu fui completamente irresponsável. — Daiki virou-se para mim — Desculpa, Kagome, eu sou um retardado e vou te dar amor pelo resto da sua existência se você me perdoar.

Arregalei os olhos.

— Por que você está me pedindo desculpa? Eu não corria perigo realmente. Shippou é um velho amigo. Alguém em quem eu confiaria minha vida.

— Sim, isso foi algo bastante surpreendente. — disse Aika — De onde você conhece o Senhor do Sul, Kagome?

-— É uma história longa, eu não sabia que ele era o Senhor do Sul, mas acreditem em mim quando digo que posso confiar nele. — garanti.

Hideo coçou o queixo.

— Eu normalmente não confiaria... Mas aquela raposa velha — Imaginar o Shippou como um velho era bizarro. Fato. — é matreira demais para se expor hoje como fez para proteger você do Senhor do Oeste. Ele declarou claramente que você está sob sua proteção e ele nunca faria isso normalmente; foi muito arriscado. A única explicação a que chego é que ele de fato só pensou na sua segurança.

— E isso determinou o interesse do Senhor do Oeste. — disse Aika, engolindo em seco.

— O que você acha que ele vai fazer? — Hideo perguntou, por fim -— Você viu aquele olhar? Ele claramente descobriu uma forma de usar Kagome para os próprios fins. Poucas vezes vi um olhar de triunfo tão claro no rosto daquele cão.

— Do que vocês estão falando? — perguntei agora realmente surpresa. De que "olhar" eles se referiam? Pareciam falar de Sesshoumaru... mas algo não se encaixava.

Daiki me abraçou pela cintura, apoiando o queixo no topo da minha cabeça e suspirando dolorosamente. Aparentemente, ele se sentia culpado por algo que eu nem compreendia. Então Hideo se pôs a explicar:

— Eu tive que contar para os Senhores do Oeste e do Sul que executei o líder dos hebis por ele ter ordenado o seu ataque, mesmo com você usando um símbolo de proteção com a minha presença. — Ele apontou vagamente para o pingente com formato de pena em meu pescoço — Isso coloca você em uma posição singular, já que foi uma ferramenta para a destruição do Senhor do Leste... Então, ele viu Shippou lhe protegendo. De repente, você tinha mais um fator de grande interesse: é protegida do Senhor do Sul. Ele percebeu que você é o instrumento perfeito para manipular todos nós. Todos os senhores ficariam na mão dele se fosse capaz de usar você. — Hideo se exasperou mais uma vez, fechando a mão em punhos — Maldito cão! Se ele se atrever a tocá-la, juro que vou atrás até dos ossos dos antepassados dele para transformar em pó!

— Ele não seria capaz... — começou Daiki.

— E quem sabe realmente do que aquele maldito é capaz? Ele é o mais velho entre todos nós. Sabe de segredos que eu nunca sonharia! Não há como prever suas ações... — Hideo suspirou de frustração — Nosso pai saberia o que fazer.

— Está rotulando Sesshoumaru como inimigo e desistindo de tentar entendê-lo mais uma vez. — resmungou Aika — O Senhor do Oeste é antigo, mas você é talentoso e inteligente, Hideo. Por enquanto, vamos manter a calma. O Senhor do Oeste não é como as serpentes. Suas tramas são mais complexas e muito menos agressivas. Vamos esperar por enquanto. — Aika tocou gentilmente o braço dele — Vou levar Kagome para descansar. Sugiro que vocês dois conversem enquanto isso. — ela disse, olhando para Hideo e depois para Daiki.

Aceitei a sugestão dela e fui para o meu quarto. Foi impossível relaxar e descansar, no entanto. Eu não parava de pensar em tudo, nas pessoas que eu conheci, naquelas que reencontrei e naquela conversa sobre Sesshoumaru me usar como uma ferramenta para controlar os Senhores.

Estranho imaginar que alguém que me salvou no passado seria capaz de me usar friamente para conseguir alguma coisa. Se bem que eu não consigo afastar essa ideia de que o Sesshoumaru de quinhentos anos atrás era tocado pelo afeto de Rin, mas que seria capaz de fazer algo como isso com qualquer outra pessoa que não ela.

Às seis da manhã, desisti de dormir e fui tomar um banho. Resolvi que iria para a faculdade e esperaria com paciência a hora do almoço, onde finalmente faria Shippou me responder à questão que não saía da minha cabeça: onde estava Inuyasha.


Simplesmente não compreendo essa necessidade que os youkais sentem de interromper uma aula. É quase como se isso fosse algo impregnado em seu ser e que dependesse a sua honra realizar tal ato da forma mais digna possível. Este youkai impetuoso se trata de Shippou, que simplesmente não teve a capacidade de me esperar no restaurante como combinado no dia anterior.

Imaginem minha cara ao vê-lo simplesmente escorando o ombro na porta do laboratório de química, tirando seus óculos escuros e seguidamente os prendendo na gola da camisa, a professora juntamente com toda ala feminina soltaram um suspiro, levou alguns segundos até que ele fosse questionado:

— Desculpe senhor? — minha professora perguntou, aproximando-se dele, que apenas alargou um sorriso mantendo seus olhos presos aos meus.

— Ka-chan, já está na hora do almoço. — ele afirmou, olhando o relógio em seu pulso. — Vai demorar muito? Posso ir fazendo seu pedido se for o caso.

Novamente os olhares em mim. Mas que coisa, será que sou a única mulher que se sente incomodada com isso? Abri a boca para responder, mas minha professora foi mais rápida anunciando o término da aula, e pedindo desculpas ao Shippou, pois não havia notado que se estendera tanto com o assunto. Como assim ela se desculpou? Essa mulher deveria estar querendo arrancar o fígado dele por ter atrapalhado sua aula, mas não, ela se desculpou.

Tudo bem, não fiquei perdendo meu tempo tentando entender, apenas juntei minhas coisas e segui com Shippou pelos corredores, sim, ignorando indagações silenciosas dos meus amigos. Mais tarde tentaria explicar aquilo, mas nesse momento, estou me segurando para não morrer de vergonha ou esganar o homem/youkai ao meu lado.

— Medicina. — ele comentou alheio a minha vergonha/instinto assassino em razão daquela situação. — Combina com você... E antes de qualquer conversa ocasional... — Ele segurou meu braço enquanto observava a rua, ao constatar que não vinham carros, conduziu-me para o outro lado. — Preciso suprir esse buraco negro em meu estômago.

— Somos dois.

— Então vou pedir o especial da casa, duplo, com muito refrigerante e chocolate... Muito importante chocolate.

— Shippou, você está solteiro?

— Sim, por quê? Interessada?

— Muito.

— Podemos fugir para Las Vegas e nos casar. Sempre quis me casar em Las Vegas... de novo.

— Como?

— Longa história.

— Não tenho aulas pela tarde.

— Então, era uma vez um youkai raposa que foi comemorar seu aniversário em Las Vegas. — Ele puxou a cadeira para que eu me sentasse, agradeci. — Aniversário de... Não importa... O que importa é que tomei algumas coisas que me fizeram ficar desnorteado e me casei com uma dançarina de cabaré na capela ao lado da boate onde ela se apresentava.

Fiquei o observando, perplexa, completamente inconformada de acreditar que o Shippou, o meu pequeno Shippou, fosse capaz de fazer algo do gênero. Foi nesse momento que a imagem que eu tinha dele se quebrou, dando origem a uma nova que seria construída com o tempo. O pequeno Shippou havia crescido e, como amigos de infância que se encontram depois de muito tempo e precisam se conhecer novamente, aqui estava eu com ele, nessa mesma situação.

— Não acredito que você fez isso.

— Nem eu acredito, imagina você.

— Não deveria ter lhe deixado a mercê de Miroku e Inuyasha.

— Principalmente do Miroku. Apesar de que ele teve quatro filhas lindas... Que o fizeram pagar por toda a sua perversão.

— Ele teve filhos com a Sangô?

— Sim, cinco, para variar... Por favor, especial do dia para mim... Ka-chan?

— O mesmo que ele.

Shippou continuou analisando o cardápio, comentando que ia aproveitar para escolher de antemão o que iria querer para sobremesa — já que chocolates fazem parte da refeição principal, óbvio. De repente, tentei imaginar o Miroku sendo pai de quatro garotas que, se houver alguma justiça nesse mundo, realmente o fizeram sofrer muito por causa de seu passado pervertido.

Miroku... pai. Engraçado como não achei estranho vê-lo como líder de família. A parte mais complicada era pensar em Sangô, minha amiga, grávida e tendo a responsabilidade de começar uma família e protegê-la — porque ela com certeza faria isso, mesmo sendo função do Miroku.

Eles devem ter sido felizes. Devem ter vivido a vida plenamente, talvez se lembrando de mim em outro momento da vida deles, enquanto eu nunca superei o fato de tê-los perdido. E quanto a Inuyasha... Está na hora de eu parar de fugir do assunto. Se há algo que eu aprendi com os últimos meses é que não adianta ignorar uma questão quando ela precisa vir à tona.

— Shippou... — disse e então pigarreei — E Inuyasha?

— Que tem o Inuyasha?

— O que aconteceu com ele?

— Kagome... — ele começou ponderando sobre como continuar aquela frase. Meu peito ficou apertado. — Eu não vou fazer rodeios... — Ele respirou fundo. — Inuyasha está morto.

Shippou percebeu o choque na minha expressão, pois logo continuou:

— Kagome, se passaram quinhentos anos desde que você se foi da nossa era. E por mais que Inuyasha fosse um hanyou, ele não era imortal e quando você o conheceu, ele sequer era jovem como parecia. — Shippou se mexeu na cadeira desconfortável com a conversa, minha mente estava... não sei explicar. — Você sabe como ele era impulsivo, eu me surpreendo de ele ter vivido tanto...

— Quando...? — perguntei, com a garganta fechada — Como?

— Ele estava envelhecendo. Não em aparência, mas pelo menos em poder. O corpo dele não se curava mais como antes, e cada vez mais ele se assemelhava com um humano. Ele sabia que em algum momento isso seria fatal. — Shippou coçou a nuca, tenso — Ele salvou um garotinho em um terremoto, mas se feriu gravemente... e então se foi... Faz menos de um século.

Abri a boca e a fechei, por incontáveis vezes. Fiquei tão desnorteada com a informação que demorei a notar o braço esquerdo de Shippou em volta dos meus ombros, levando-me ao encontro dele. Como se um balde de agua fria me fizesse acordar para a realidade, aquela informação declarou o que sempre temi: que eu nunca mais iria vê-lo. Inuyasha estava morto e não havia absolutamente nada que pudesse ser feito para modificar aquele fato.

Eu sempre forcei a mim mesma a pensar que a Sengoku Jidai era mais como um mundo paralelo, não o "passado" em si. De certa maneira tratar minhas aventuras dessa forma fazia com que eu conseguisse ser mais fria tanto com as mortes que tinha visto, quanto para lidar com tudo o que tinha acontecido. Ajudava-me a fugir da ideia de que todos que eu conhecia já estavam mortos.

Não vou negar que rever Sesshoumaru e Shippou me trouxe esperanças; falsas, sim, mas ainda assim, esperanças de vê-lo. De abraçá-lo. E agora, tudo havia caído por terra.

Como uma criança que descobre que seus heróis não passam de atores, eu me senti dessa forma; frustrada, decepcionada e incrivelmente perdida.

— Kagome... Eu sinto muito.

Minha atenção voltou para Shippou. Meus olhos arderam, mas respirei fundo, por mais que minha garganta queimasse e minha cabeça começasse a doer, me esforcei para me manter firme ao lado dele... Que ironia, ainda tento protegê-lo, não preocupá-lo, mesmo ele sendo muito mais velho do que eu.

— Quer deixar o almoço de lado?

— Não... Não mesmo. — Forcei um sorriso e ele me pareceu ainda mais preocupado, comecei amaldiçoar a garçonete por não trazer logo a comida para tirar atenção dele de mim.

— Tem certeza?

Quase beijei a garçonete quando ela surgiu com os pratos. Assenti com a cabeça e me concentrei na comida na minha frente, mesmo não sentindo fome, me forcei a comer, apenas para não preocupá-lo mais.

— Kagome?

— Oi? — Ergui a vista para Shippou e comecei a rir. Pensando bem, era mais nojento que engraçado, mas foi a surpresa que me fez dar risada . Shippou havia colocado os canudos de sua bebida no nariz e feito olhos de vesgo. — Você... não... é normal.

— Você fica melhor rindo. — Ele sorriu e tirou os canudos do nariz. — Me conte um pouco sobre essa história de ser uma tengu.

Respirei fundo e tomei um gole generoso de meu refrigerante pensando em como começar a explicar, levou alguns segundos para encontrar as palavras certas para contar a ele sobre meus pais e como a minha parte miko havia "camuflado" a minha parte youkai durante a época que ia para Era Feudal. Admito que achei fofo Shippou ficar desviando do assunto Inuyasha durante minha explicação.

Shippou ficou pensativo ao final do meu relato.

— Kagome... — ele começou — Não sei o quão familiarizada você está com a história youkai. Mas você já ouviu falar da Grande Guerra?

Acenei afirmativamente. Aika e Hideo haviam comentado sobre o assunto várias vezes.

— Agora que sei o que aconteceu, as coisas finalmente fazem sentido. — Ele estendeu a mão para segurar a minha — Lembra quando você quebrou a Joia de Quatro Almas? Você me disse agora que ao quebrar a Joia de Quatro Almas você foi jogada de volta para sua era... Para nós, o que pareceu foi que algo maligno tinha tirado você de nós. Você estava presa em outra dimensão e a última coisa que Inuyasha sentiu antes de você desaparecer completamente foi essa presença tengu. Na época, nem sonhamos que a presença era sua. Passamos anos tentando compreender o que tinha acontecido. — Ele suspirou — Miroku e Sangô procuraram você até o último dia de suas vidas.

Senti as lágrimas queimarem no fundo dos meus olhos.

— Alguns séculos mais tarde aconteceu uma coisa que mudou completamente o destino dos youkais: Inuyasha sentiu a mesma presença que foi sentida no momento em que você sumiu. Tratava-se do seu irmão, Hideo. — Shippou esperou alguns segundos para continuar — Os tengus nunca haviam saído do Monte Kurama e por isso demorou tanto tempo para que ele percebesse a presença youkai deles era tão semelhante à daquela época. Inuyasha se convenceu de que os tengus eram responsáveis pelo seu sumiço e atacou Hideo sem pensar duas vezes. Você deve se lembrar de como ele era impulsivo; nem refletiu antes de investir contra aquele que acreditava ter tirado dele alguém que amava. Hideo era muito jovem naquela época, apenas algumas décadas de vida e quase foi morto por Inuyasha.

Meu coração parecia que ia explodir dentro do peito. Isso não podia ser verdade!

— Inuyasha só não o matou porque Hideo não conseguiu responder "o que você fez com a Kagome". Nessa época Sesshoumaru já havia se estabelecido como Senhor do Oeste. Depois que Rin morreu, ele nunca mais foi o mesmo. Quer dizer, ela era a única que o fazia parecer mais "humano"... Quando ela se foi, não havia mais nada que o prendesse a quaisquer resquícios de bondade. Ele claramente protegia Inuyasha, mas não a ponto de alguém poder acreditar que era por "amor fraterno". — Ele respirou profundamente — Takashi não deixaria vivo alguém que quase matara seu único filho. Os tengus finalmente saíram do Monte Kurama para perseguir Inuyasha, e, para tal, eles adentraram nos territórios de Sesshoumaru. Bom, você deve imaginar que o nosso amigo Sesshoumaru poderia facilmente deixar passar um ataque ao meio-irmão, mas jamais uma afronta tão clara ao seu poder. — Ele riu — E essa foi a origem da Grande Guerra, dá para acreditar? Seu pai era um cara interessante, eu nunca ficava entediado perto dele. Hideo parece sempre tão frio e enrustido... Takashi vivia contando piadas nas nossas reuniões, o que deixava Sesshoumaru possesso.

Ele riu e finalmente olhou para mim. Foi quando percebeu as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Shippou ficou desconcertado, percebendo só nesse momento como a história havia me afetado.

Shippou acabava de me contar que eu havia sido a causadora da maior guerra entre youkais, e que, pior ainda, também havia sido o motivo para o meu irmão mais velho quase ter morrido pelas mãos da pessoa que eu mais amava.


Entrei em casa com Raiden ao meu lado. Depois de todas as informações que tive que absorver hoje, eu acho que tenho o direito de parecer mais distraída que o normal.

Logo ao cruzar a porta de entrada, deparei-me com uma parede de músculos que recebe o nome carinhoso de Daiki. Ergui os olhos apenas para ver sua expressão concentrada — que consistia em olhos apertados e um tique nervoso na sobrancelha.

— Precisamos conversar. — ele disse, segurando minha mão e me arrastando. Fiquei tão preocupada em me equilibrar nos meus próprios pés que nem percebi quando ele parou dentro do quarto dele. Eu havia estado ali apenas uma vez naquelas semanas. Era um ambiente masculino e despojado, com jogos, mangás e estatuetas de personagens de ficção científica espalhados pelo quarto em algo que ele chamava de "permissão para as minhas coisas ficarem onde quiserem".

— Precisamos conversar sobre o quê? — perguntei, cruzando os braços para deixar claro que eu não me agradava nada de ser arrastada por aí como um brinquedo.

— Sobre "aquilo". — Essa última palavra dele fez soar como se estivesse se referindo ao maior crime que pudesse ser cometido na face da terra e, pior, tivesse sido praticado pela minha pessoa.

— E a que você se refere?

— Me refiro ao que aconteceu ontem, obviamente. — Ele sentou pesadamente na cama — Hideo e Aika estavam preocupados demais com o interesse de Sesshoumaru para não se fixarem numa coisa muito estranha: de onde diabos você conhece Shippou e Sesshoumaru?

— Eu conheço? — perguntei, fazendo-me de desentendida.

— Kagome... Eu ouvi toda aquela conversa. Shippou obviamente conhecia você, e muito bem. Ele se referiu há "séculos" e isso é algo que eu realmente não faço ideia de como compreender. — Daiki cruzou os braços de novo — E aquela sua reação quando Sesshoumaru apareceu... Não tente mentir e dizer que foi surpresa pela "beleza estonteante" dele, porque você já tem a mim para encantar seus olhos... Custa-me crer que você possa olhar para outro homem.

— Daiki... É complicado. — respirei fundo.

— Eu sou seu irmão, Kagome... Você pode me contar o que quiser, eu sempre vou acreditar em você. A menos é claro, que você diga que não é mais virgem, porque isso é algo que nunca aceitarei como uma verdade. — Ele se levantou e segurou minhas mãos — Pode confiar em mim, Kagome.

Fiquei observando os olhos azuis do meu irmão, tão parecidos com meus. Não pude segurar esse olhar por muito tempo.

— É que... Bem... Eu conheci os dois muito tempo atrás... Muito tempo mesmo... — engoli em seco, e hesitei — em um evento de animes.

Daiki arregalou os olhos.

— Evento de animes?!

— Sim. Exatamente. — declarei, com um aceno curto de afirmação.

— Shippou até entendo... mas... Sesshoumaru?! — Ele soltou uma risada de descrença.

— É que... — pigarreei — Uma das empresas dele estava patrocinando o evento. — menti descaradamente, torcendo para que Sesshoumaru fosse como Hideo e estivesse enfiado em milhares de negócios para manipular a economia nacional.

Daiki me encarou com desconfiança.

— E você não sabia que eles eram youkais?

— Hum... Bem, naquela época associei a presença à beleza deles. Quer dizer, você viu aquilo? Eles são mais bonitos que supermodelos!

— Você está olhando para outros homens! — exclamou.

— Não sou cega.

— Deveria ser.

— Você queria que sua única irmã fosse cega?

Ele coçou o queixo, acertei um murro no ombro dele.

— Ei.

— Idiota. Vou para o meu quarto.

— Calma chuchu! — Ele me abraçou. — Enfim, ainda não engoli essa história de conhecê-los em evento de anime.

Dei de ombros.

— Eles são perigosos, Kagome. — ele afirmou — Você não faz ideia do que eles podem fazer.

— Eu sei... Mas ao menos quanto a Shippou, eu posso afirmar que podemos confiar nele. — falei, lançando para ele com olhar suplicativo.

— Você diz isso, mas eu não confio em seu senso de julgamento. Naquele dia no shopping você achou que eu fosse um pervertido! — ele soou ultrajado ao pronunciar a última frase.

Lancei um olhar enviesado para ele e me desvencilhei dos seus braços.

— Estou indo para o meu quarto tomar um banho. — Abri a porta do quarto dele e saí para o corredor. Mal havia dado alguns passos quando ouvi o grito:

— Posso ir junto?!

— NÃO!

Entrei em meu quarto e fechei a porta, respirei fundo e meus joelhos fraquejaram. Escorreguei com as costas escoradas na porta. Naquela noite eu chorei. Chorei por ser causadora da quase morte de Hideo. Chorei por lembrar que o amor do meu pai que havia se sacrificado para terminar uma guerra iniciada por minha causa. E, principalmente, chorei pela morte de Inuyasha.


Fkake: e aí galerinha do mal, enfim, agradeço os comentários e veja só, não demorou muito para ter mais capítulo =D sendo que o 10 está sendo produzido na velocidade da luz #prontofalei.

Bom, vou responder alguns comentários, só lembrando, seus comentários são nosso ganha pão e é satisfatório saber que vocês estão achando da fic, mesmo que não gostem, comentem, podemos melhorar com as criticas e ficar incentivadas com os elogios, não se esqueçam =D