O céu estava límpido.
E as águas eram turbulentas.
Lá no alto uma alma atormentada gritou seu desespero.
E ao precipício atirou-se.
Para que as turbulentas águas ao seu pecado mortal lavassem.
—O chamado do desespero.
Flor do Deserto
26.11.2012
Palavra do dia: Animosidade.
A duvida da donzela
Sango assistiu com o cenho franzido Inuyasha estender as mãos em direção a Kagome e erguê-la no ar, após uma queda, resultada de um salto mal sucedido da educação física, não parecia ferida apenas envergonhada.
Ele a apanhou pela mão e a levou até onde estava Miroku, Sango fez uma careta ao ver aquilo, a usurpadora estava roubando os seus amigos!
Assistiu Miroku cumprimentar Kagome, ou pelo menos tentar, porque assim que ele sorriu a menina arregalou os olhos e rapidamente escondeu-se atrás de Inuyasha.
Aquilo a irritou, e quando chegou a sua vez de saltar, usou toda a sua fúria... Mas só se deu conta disso quando ouviu os aplausos e corou.
Miroku era o que aplaudia com mais vigor:
_Fantástico! Sensacional! Maravilhoso!
E Kagome, que ainda estava escondida atrás de Inuyasha olhando-a com grandes olhos castanhos concordou cheia de admiração:
_Você é realmente muito boa nisso!
E você é horrível. Quis dizer. E também é pequena e medrosa.
Mas Inuyasha, que convivia com Sango desde que ambos eram moleques e já estava mais do que acostumado com as proezas da garota, limitou-se a fungar e dizer:
_Ela sempre foi boa nos esportes, dava-me até vergonha quando ela me desafiava a competir com ela.
Sango sempre foi atlética, também era alta, mais do que boa parte das garotas (e até alguns garotos também) e corajosa, exatamente o oposto de Kagome, que era uma menina tímida pequena e delicada.
Alguém a quem as pessoas institivamente queriam proteger... Especialmente Inuyasha, que sempre se viu como uma espécie de cavaleiro.
Inuyasha pigarreou quando percebeu que Sango estava olhando demais para Kagome novamente, desde que descobrira os sentimentos de Sango por ele, Inuyasha não sabia mais como agir, ele evitava-a sempre que podia (na maioria das vezes correndo para o lado de Kagome) e falava o mínimo possível com ela, e Sango parecia atribuir a culpa de seu súbito afastamento a Kagome, e lançava olhares hostis à menina sempre que podia.
Aquela situação desconfortável já vinha durando mais de duas semanas.
_Porque não vão lá a casa hoje? – perguntou tentando soar o mais natural e descontraído possível – Rin tem se sentindo solitária nesses dias, é até normal considerando-se que ela passa o dia todo com Sesshoumaru, e saí muito pouco de casa porque mal pode andar sem cambalear por causa do tamanho da barriga, então me perguntou se eu não poderia levar alguns amigos até lá para que ela tivesse com quem conversar um pouco...
Aquilo não era de todo uma mentira, mas também não era completamente verdade.
Rin não estava se sentindo solitária, pois ela ficava perfeitamente satisfeita com a companhia de Sesshoumaru (embora Inuyasha não entendesse como ela podia gostar de alguém tão monótono quanto o seu irmão), mas sim entediada.
Ela era inquieta, com uma leve tendência a hiperatividade, mas agora estando a sua barriga do tamanho que estava ela mal conseguia andar sem cambalear, e nem descer ou subir muitas vezes a escada sem ficar com os pés inchados, de forma que precisava manter-se distraída para manter-se quieta.
E, segundo Sesshoumaru, a única coisa que era capaz de distrai-la a esse ponto era estudar pessoas, mas ela já havia estudado cada mínimo detalhe dele há muito tempo, e agora estava cansada de estudar Inuyasha e sua mãe. Precisava de pessoas novas.
É claro que ele não gostava de pensar em seus amigos como os brinquedinhos da sua cunhada, mas aquela era mais uma desculpa para estar perto de Kagome... Por isso não se importou de estar se prestando aquilo.
Miroku recusou o convite, as provas estavam chegando e ele tinha muitos trabalhos escolares atrasados (e definitivamente não queria ficar para recuperação), mas as meninas aceitaram acompanhá-lo, embora Kagome tenha relutado um pouco alegando que Sir Lancelot a aguardava, Inuyasha logo a convenceu.
_Estou em casa! – gritou abrindo a porta para que as meninas passassem logo após ter guardado a sua bicicleta na garagem. – E trouxe visitas!
_Estamos aqui em cima. – respondeu a voz de Sesshoumaru – É melhor que voltem mais...
_Nós já vamos descer! – Rin interrompeu-o quase com desespero. – Não vão embora!
Kagome recuou um pouco assustada ao ouvir aquela voz masculina, e apertou o braço de Inuyasha.
_ É... Seu irmão?
_ É. – respondeu suavemente – Porque não se senta? Eu vou lá em cima ver porque estão demorando.
E quando saía da sala ainda pôde ouvir Kagome perguntar á Sango:
_O irmão do Inuyasha... Como ele é?
_Não sei. – Sango respondeu – Me lembro de Sesshoumaru tanto quanto Inuyasha, ou até menos.
Encontrou o irmão e a cunhada no quarto de hospedes (que antes havia sido o quarto de Sesshoumaru) que dividiam, nenhum dos dois o notou entrando ali, Sesshoumaru estava sentado ao pé da cama, ela estava deitada na mesma com montes e montes de travesseiros, que Sesshoumaru e Izayoi haviam empilhado ali, a rodeá-la, Inuyasha nem sequer sabia que havia tantos travesseiros na casa.
_Você não pode descer as escadas com os pés inchados do jeito que estão.
_Então me passe à escova de cabelos e diga para elas subirem!
Sesshoumaru suspirou.
_Você também não esta em condições de receber visitas.
_Não estou em condições?! – ela olhou-o ultrajada – Eu não sou nenhuma invalida, apenas estou grávida!
_Eu sei disso.
_Até na prisão, eles têm direito a visitas!
_Você não é prisioneira alguma.
_Bem, então me ajude aqui!
E tentou levantar-se, mas a barriga era grande e pesada demais para o seu corpo tão pequeno e delicado, de forma que ela nunca conseguia levantar-se, estivesse deitada ou sentada, sem a ajuda de alguém ou ao menos um lugar onde pudesse se apoiar.
Ela acabou por atrapalhar-se e perder o equilíbrio, quase sumindo entre os travesseiros, Sesshoumaru levantou-se, puxou-a até deixa-la numa posição confortável, em que ela não estava deitada nem sentada e começou a cobri-la com o cobertor.
_Não! – ela gritou, afastando suas mãos com tapas – Não quero ficar deitada e se coberta de mimos! Quero levantar-me e ir receber minhas visitas!
Em fim, Inuyasha pigarreou.
_Que está havendo? – perguntou – Vocês nunca brigão.
_Ele tomou-me por prisioneira! – Rin exclamou aborrecida, pegando um dos travesseiros e batendo com ele em Sesshoumaru. – Daqui a pouco vai querer carregar-me até o banheiro, isso se não me botar fraudas!
E desviando-se de um segundo e um terceiro travesseiro, Sesshoumaru pegou o irmão e saiu do quarto.
_Olha o que você fez! – acusou entre dentes. – Porque trouxe gente pra cá?
Inuyasha piscou.
_Foi Rin quem me pediu, disse que estava entediada... Que está havendo afinal? Você sempre a deixa descer para ficar na sala, ou na cozinha ou até lá nos fundos pegando um pouco de sol.
Sesshoumaru trincou os dentes antes de responder:
_Hoje é diferente.
_Por quê?
Sesshoumaru olhou para a porta fechada do quarto, antes e encostar-se a ela e responder em voz baixa:
_Hoje os seus pés amanheceram imensamente inchados, eu lhe disse para ficar na cama, mas ela não quis ouvir-me. Então a ajudei a descer. Você e mamãe já tinham saído quando eu a deixei sozinha por alguns minutos na cozinha, tomando o café da manha, para ir atender a porta.
_Então...?
_Ouvi um estrondo, e voltei correndo. Ela levantou-se sozinha para pegar o suco que estava em cima da pia...
_Como ela se levantou sem ajuda? – espantou-se Inuyasha.
_Usou a mesa como apoio. – explicou o mais velho – Mas então, quando ficou de pé sentiu-se tonta e perdeu o equilíbrio, ela conseguiu evitar bater a barriga na queda, segurando-se na pia, mas machucou superficialmente o joelho direito e quebrou dois pratos de porcelana francesa da mamãe.
Inuyasha fez uma careta ao ouvir aquilo.
_Você já sabe que vai ouvir muito da mamãe quando ela chegar.
_E como sei. – suspirou Sesshoumaru – Inclusive já posso até imaginar o que ela vai dizer: "Você passa mais de dez anos fora de casa, e quando volta é só para quebrar a minha louça cara de porcelana francesa!".
_É, vai ser exatamente isso o que ela vai dizer.
_Mas de volta a Rin, eu achei melhor que ela descansasse por hoje e não se agitasse muito, mas para Rin passar um dia inteiro na cama é praticamente tortura, estava quase a convencendo quando você chegou.
Inuyasha concordou com um aceno de cabeça.
_Concordo que ela tenha de descansar, ao menos por hoje.
_Obrigado, então pode, por favor, levar de volta as suas v...
_No entanto, também acho que ela deva manter a calma, sabe sem se estressar nem nada, e você sabe que ela vai ficar bem agitada se recusarmos que ela receba visitas.
Sesshoumaru odiava admitir, mas o irmão caçula tinha razão, Rin ia ficar muito agitada se não deixassem que ela recebesse suas visitas, e isso levando em conta que ela já era agitada e inquieta por natureza, ele nem sequer gostava de dar café ou qualquer coisa que contivesse muito açúcar para ela.
_Inuyasha? – chamou uma voz tênue e delicada – Está tudo bem?
Era Kagome, encolhida e acanhada olhando-o da escada, ela mordeu o lábio inferior.
_D-devemos ir embora? – gaguejou – Eu posso...
_Não Kagome, você e Sango não precisão ir embora. – ele respondeu aproximando-se da garota – Rin apenas pediu a Sesshoumaru que lhe trouxesse uma bacia com água e uma toalha para ela lavar o rosto enquanto ela escova os cabelos, para tirar esse ar cansado de quem acabou de acordar.
Kagome estremeceu ao finalmente perceber a presença de Sesshoumaru ali, céus ele era grande! Naraku não era tão grande e ainda assim conseguiu machuca-la daquela forma, o que então não faria um homem do tamanho do irmão de Inuyasha?
Os joelhos tremeram, as mãos agarram-se ao corrimão da escada e a cabeça caiu para frente.
Não, por favor, agora não. Ela não podia ter um ataque de pânico, não ali, não naquele momento.
Idiota! Ele havia esquecido completamente da fobia de Kagome, pois estava envolvido demais com a queda de Rin.
_Venha vamos descer. – disse rapidamente – Logo Rin estará pronta.
De onde estava Sesshoumaru assistiu de cenho franzido, o irmão e a garota descendo as escadas, perguntando-se o que havia de errado com ela.
_Ah, eu estou tão feliz que vocês puderam vir ver-me! – comemorou Rin, quando Sango e Kagome entraram no quarto carregando cadeiras. – Você é Sango!
A essa altura já havia penteado o cabelo o melhor possível, lavado o rosto e arrumado o melhor possível às almofadas a sua volta, Sango fez que sim com a cabeça e o sorriso de Rin alargou-se.
_Eu estava mesmo querendo conversar com você!
_Comigo? – surpreendeu-se Sango – Por quê?
Mas Rin voltou a sua atenção para Kagome, que já havia se sentado.
_Kagome, meu doce!
Kagome olhou-a com um pequeno sorriso. E comentou:
_Olá. A tua barriga parece maior.
_E está. – Rin sorriu candidamente.
_Como tem passado?
_Bem. – Rin colocou carinhosamente a mão sobre a barriga. – Mas muito entediada também! Eu tive uma ideia, rápido peguem papel e caneta!
Sango e Kagome a encararam com curiosidade, mas obedeceram, e tiraram às mochilas das costas, Sango arrancou uma folha de seu caderno e Kagome apanhou uma caneta preta.
_Muito bem. – os olhinhos de Rin brilhavam – Agora escrevam os nomes de vocês! E também façam as suas assinaturas!
Sango sentou-se em sua própria cadeira e intrigada, anotou o seu nome ali, e logo abaixo a assinatura, depois passou para Kagome que também anotou o seu nome e deu sua assinatura, e entregou o papel a Rin, que o olhou por um longo momento, e passou lentamente os dedos por cima dos nomes, virando a pagina e a olhando por trás também, antes de sorrir e o deixar sobre as suas pernas.
_Para que foi isso? – perguntou Sango.
_É o meu passatempo.
Kagome inclinou a cabeça de lado.
_Seu passatempo é colecionar assinaturas?
_Não. – e riu – É estudar pessoas. Gosto de analisar o comportamento humano.
_Isso é bem... Diferente eu acho.
_Mas o que escrever nossos nomes tem haver com isso? – perguntou Sango.
_Oras, tudo é claro. – respondeu Rin com uma piscadela – Podem-se descobrir muitas coisas sobre uma pessoa através de sua caligrafia.
_Como? – quis saber Kagome.
Rin sorriu feliz por poder falar sobre aquilo com alguém, pegou a folha de papel e a mostrou as meninas.
_Sango. – começou – Você não usa de uma pressão forte e nem de uma pressão fraca ao escrever, isso indica um caráter firme e sentimentos constantes, tem letras arredondadas e um pouco grandes, o que indica orgulho, e vê como são angulosas? Você também é muito impulsiva, quase agressiva. – Sango corou nesta ultima parte – Agora, quanto a sua assinatura... Você a escreve de maneira rápida. "Sango. K." E depois a circula. Você tem agilidade mental, é autoritária, mas reservada.
As duas meninas encararam a folha, havia ali apenas um simples nome "Sango Kasama" e uma assinatura "Sango. K." rabiscada rapidamente, como poderia então Rin saber tantas coisas apenas olhando para essas simples palavras?
Kagome mordeu o lábio inferior, quase assustada, mas ao mesmo tempo curiosa, com o que Rin poderia descobrir sobre ela, apenas olhando a sua caligrafia.
Por um terrível momento imaginou Rin baixando os olhos para a folha de papel.
_Kagome. – ela dizia em sua imaginação, e então de olhos arregalados: – Você esteve grávida!
Não. Pensou em agonia. Não há como ela saber uma coisa dessas, apenas vendo como escrevo o meu nome.
Mas ainda assim, o coração batia veloz e assustado em seu peito.
_Kagome. – disse Rin – Você às vezes pressiona mais em algumas letras do que em outras, é ansiosa, tem letras pequenas, isso significa que é tímida, elas também são inclinadas para a esquerda por isso é introvertida, a perna da sua letra g é estreita, e isso indica que você tem medo de confiar nos outros, já a sua assinatura...
Rin calou-se, a assinatura de Kagome, era praticamente igual ao modo como ela escrevia o seu nome normalmente, exceto pelo traço que ela puxava da ultima letra para "cortar" a assinatura, aquele traço... Indicava tendência ao suicídio.
Mas afinal... A grafologia não era uma ciência exata, podia estar enganada.
Ergueu os olhos para as meninas e voltou a sorrir.
_Não consigo tirar nada de sua assinatura, que coisa.
Sango olhou com curiosidade para o ventre de Rin, surpreendendo-se ao vê-lo se mexer, Rin percebendo o seu olhar sorriu, e perguntou:
_Quer tocar?
Ela espantou-se.
_Eu posso?
_É claro.
Sango sorriu e aproximou a sua mão da barriga de Rin, sentindo o bebê chutar no momento em que a tocou.
_Não dói quando o bebê chuta?
_Às vezes, quando chuta mais forte, me incomoda um pouco, mas não chega realmente a causar-me alguma dor, mas apenas um ligeiro incomodo.
_Mas o incomodo aumenta quando ele começa a virar-se por volta dos seis meses. – comentou Kagome, quase sem perceber, com os olhos fixos na barriga de Rin, novamente com aquele olhar – E então, quando ele já está totalmente virado... Alguns chutes mais fortes chegam a tirar-lhe o ar, e também fazem doer às costelas.
Rin fitou Kagome por um longo momento enquanto aquele pensamento maluco sobre a possibilidade da menina já ter estado grávida rondava-lhe novamente a cabeça, pois apesar dela ser tão nova havia falado como uma mulher que já estivera grávida, embora não houvesse amor em suas palavras, ao invés disso, elas eram amargas, e era exatamente por isso que Rin acreditava estar equivocada, pois não conseguia acreditar que mulher alguma no mundo pudesse falar da própria gravidez daquela forma. Mas também havia os seus olhos. Os olhos da menina estavam carregados de tristeza, e dor, mas, além disso, havia... Havia... Magoa, e raiva. Sim, era novamente aquele olhar, o mesmo olhar da lavanderia.
Ela estava errada, Kagome tinha um corpo jovem e pequeno demais para já ter estado grávida, toda aquela ideia maluca na cabeça de Rin devia ser por causa do excesso de hormônios.
Ao seu lado Sango olhava para Kagome de olhos semicerrados.
_Como você sabe disso?
Kagome baixou os olhos.
_Uma vez em minha cidade natal. – começo a falar – Uma vizinha minha ficou grávida, e eu costumava ir ate sua casa para ajuda-la com algumas coisas... Especialmente porque o médico lhe disse que só poderia descer as escadas três vezes por dia.
Aquilo não era de todo uma mentira. Quando era mais nova e ainda morava com sua mãe, uma vizinha sua realmente havia estado grávida, e quanto maior e mais pesada ela ficava mais os seus movimentos se limitavam, e com mais facilidade ela se cansava, até que o médico impôs que ela apenas poderia descer as escadas três vezes por dia. Então Kagome sempre ia até lá depois da escola para saber se ela estava precisando de algo, tinha apenas onze anos na época e Naraku ainda não existia em sua vida, embora não fosse bem por isso que ela soubesse aquelas coisas.
_Então já sentiu a barriga de uma mulher grávida antes, não é querida? – animou-se Rin.
Mas Kagome negou.
_A barriga dela era muito maior que a sua. Às vezes quando eu a ajudava a deitar-se na banheira e lhe lavava os cabelos o bebê mexia-se lá dentro, e eu podia ver perfeitamente vez por outra uma mão ou um pé aparecendo através da pele, que era tão fina que dava a impressão de que se romperia a qualquer momento. Assustava-me.
_É compreensível. – concordou tocando o ventre inchado e sentindo o bebê dar uma cambalhota ali dentro. – No entanto, minha barriga ainda não está grande a este ponto. Não quer tocar?
Ela balançou a cabeça e fez menção de se afastar, mas a mão de Sango, rápida como uma ave de rapina, mergulhou no ar e apanhou-a pelo pulso.
_Não seja estupida! – bradou puxando-lhe mão – Parece até que pensa que o bebê irá mordê-la!
Kagome arregalou os olhos, mas Rin lhe sorriu de forma gentil e compreensiva.
_Não precisa se acanhar, fique a vontade.
Ela engoliu em seco, mas concordou, e Sango soltou-a para que trilhasse sozinha e tremula o seu caminho. Porém quando sua mão estava a menos de sete centímetros o bebê chutou, um pouco mais forte que das outras vezes, e a barriga de Rin pareceu pular. Fazendo Kagome levantar-se assustada, e tão depressa que sua cadeira caiu no chão com um estrondo.
_M-me desculpe-e. – gaguejou tremula – E-eu não so-ou boa com c-crianças.
Recolheu sua mochila e saiu correndo do quarto, deixando a porta escancarada as suas costas.
_Você não precisa fazer isso, vai acabar se atrasando para o trabalho.
Sesshoumaru disse ao irmão mais novo, quando o mesmo pegou uma pequena porção do guisado para coloca-lo num pires e prova-lo.
_Eu já ia me atrasar de qualquer maneira, porque tenho de esperar Kagome para leva-la para casa. E além do mais, a mamãe me explora de segunda a sábado, e às vezes até domingo, acho que mereço algumas horas de folga por ano.
Sesshoumaru encolheu os ombros.
_Você que se entenda com ela depois. Suas amigas vão ficar para almoçar?
Inuyasha não precisou responder, pois no segundo seguinte ouviram os passos apressados e desesperados de Kagome descendo as escadas. Ele ainda a chamou, mas ela pareceu não escutá-lo, então ele largou tudo para correr atrás dela.
Mas só conseguiu alcançá-la no meio do gramado da frente de casa.
_Kagome, o que houve?
Ela sacudiu a cabeça.
_P-preciso ir. P-por favor, Inuyasha deixe-me-e i-ir!
_Mas o que houve?
Ela olhou-o e suplicante, e respirando fundo conseguiu pedir angustiada:
_Por favor, apenas deixe-me ir.
Ele suspirou e concordou:
_Está bem, mas deixa que eu leve você até Sir Lancelot.
_Kagome é um pouco diferente, não é? – comentou Rin, quando Sango afastou-se da janela e veio juntar-se a ela novamente.
_É uma mentirosa. – acusou Sango com desagrado – Diz que tomou conta de uma mulher grávida, mas foge com a simples possibilidade de tocar a sua barriga.
Rin fechou os olhos e recostou-se as suas almofadas, Kagome era uma criança que lhe despertava cada vez mais a sua curiosidade.
_Com certeza, ela teve seus motivos. – disse tranquilamente – E de uma forma ou de outra, Inuyasha gosta muito dela.
_Sim. – Sango concordou de má vontade.
_Ela o deixa feliz. – Rin abriu os olhos e espiou de canto as reações de Sango. – E, no entanto você parece não gostar dela. Por quê? – E quando Sango manteve-se calada Rin respondeu por ela: – É porque você gosta dele.
_O que?!
_Você está apaixonada por ele. – e quando percebeu que Sango estava prestes a negar, disse-lhe: – Não adianta tentar negar, eu estudo o comportamento humano Sango, dificilmente poderá me enganar.
Sango ficou rubicunda e baixou o rosto.
_Gosto dele. – admitiu baixinho.
Rin assentiu.
_Eu sei disso. Mas o que não entendo é por que não gosta da doce Kagome.
_Mas você disse...!
_Eu sei o que eu disse. No entanto... – suspirou – Eu amo Sesshoumaru Sango, amo de verdade, e fico muito feliz por ter esse amor correspondido, e mais feliz ainda por estar carregando o filho dele em meu ventre. Mas, se meu amor não fosse correspondido, se ao invés de mim Sesshoumaru amasse a outra pessoa e essa pessoa o fizesse feliz, oh certamente que eu sofreria, sim eu certamente sofreria bastante, e também não morreria de amores por está outra pessoa a quem ele amasse, mas também não chegaria a odiá-la, claro que não, eu nunca seria capaz disso. – e fitou Sango com seus intensos olhos cor de terra – Afinal como eu poderia odiar a pessoa que faz o meu amado tão feliz?
Sango saltou da cadeira quase tão rapidamente quanto Kagome havia feito, e disse nervosamente:
_É provável que Inuyasha não volte mais, ele certamente vai direto para o restaurante da mãe depois de deixar Kagome em casa, seja lá onde for que ela more. Então até mais.
Fez a Rin uma série de vénias e foi-se embora quase correndo, esbarrando em Sesshoumaru ao sair, que vinha avisar que o almoço já estava servido, mas nem por isso interrompendo-se em sua fuga.
Ele olhou intrigado para a namorada, perguntando-se o que ela havia dito aquelas duas jovens para que elas fossem embora daquela forma, mas Rin recostou-se as almofadas e fechou os olhos fingindo dormir, é claro que ele sabia que ela, hiperativa da forma que era, não poderia ficar assim por muito tempo, porém decidiu deixa-la quieta e foi-se embora.
Sango observava Kagome com atenção, que parecia estar tentando ensinar xadrez á algumas meninas, e concluiu que, como logo os meninos estariam de volta, teria poucos minutos para conversar com ela ali, além de que, elas precisariam de um lugar mais reservado.
Tendo decidido isso, ela levantou-se e encaminhou-se até Kagome.
_O cavalo só se move em L. – ela explicou, movendo a peça em questão para fazer uma demonstração – Está peça é o bispo, e ela só se move em diagonal.
_Diagonal? – perguntou uma das meninas, aquela que tinha cabelos ondulados, e Sango tinha quase certeza que ela se chamava Ayume.
_É Ayume. – disse Ayame, a ruiva, girando seus belos olhos verdes – Em forma de "V".
_Ah.
_Bem, acho que é só isso. – finalizou Kagome erguendo os olhos para as garotas...
...E encontrando Sango.
_Eu ainda não entendi. – murmurou Ayume – Poderia explicar de novo Kagome?
O resto das garotas vaiou e reclamou, pelo visto, aquela não era a primeira vez que Kagome explicava o jogo de xadrez a elas, mas sempre repetia a pedido de Ayume, o que já estava deixando o resto das meninas particularmente enfadas.
_Kagome. – Sango chamou – Podemos almoçar juntas? Quero falar um pouco com você.
Kagome concordou, e olhou por um momento paras as meninas.
_Eu já volto. – avisou. – Por que não jogam algumas partidas umas contra as outras? Quando eu voltar, jogo com aquela que tiver ganhado as outras.
E quando se levantou, com seu almoço em mãos, Yuka e Eri já se ajeitavam para a primeira partida, Ayame saltitou ansiosa dizendo que jogaria com aquela que ganhasse a partida, mas Ayume permanece quieta, para assistir e prestar bastante atenção na partida, e quem sabe entender algo daquele jogo tão complicado.
_Quem te ensinou a jogar xadrez? – Sango perguntou já no corredor.
_De certa forma foi a minha tia... Mas me aperfeiçoei mesmo com meu avô.
Kagome respondeu olhando-a de maneira desconfiada, não tinha medo dela apesar de seus olhares hostis, mas achava um pouco estranho que a garota viesse falar com ela de forma tão amistosa, após todo aquele período em que a tratara com animosidade ou simplesmente ignorara.
Sango tocou seu braço e apontou uma árvore não muito distante.
_Vamos nos sentar ali.
_O que... O que você quer falar comigo? – perguntou hesitante.
Sango olhou-a, e sorriu de canto tocando-lhe o ombro e induzindo-a a seguir em frente.
_Quero apenas uma resposta.
_Uma resposta. – repetiu sentando-se.
Sango sentou-se ao seu lado, escorando as costas ao tronco da árvore, e suspirou.
_Primeiramente, me desculpe.
_Desculpe... Pelo que?
_Te tratei mal sem nenhum motivo aparente, nunca me fez mal algum e, no entanto...
_Está tudo bem. – disse Kagome olhando para o alto – Você não é a primeira pessoa a me olhar feio, é apenas a primeira a me pedir desculpas por isso. – e voltando-se para Sango com um sorriso, ela disse: – Obrigada!
Sango piscou.
_Confesso que é a primeira vez que conheço alguém que agradece por um pedido de desculpas.
Kagome continuou sorrindo para ela, e Sango percebeu que se tratava de uma alma gentil, era provável que não chegasse realmente a se importar com toda a sua hostilidade, e sempre a receberia com um sorriso e lhe agradeceria nos dias em que lhe fosse um pouco mais gentil. Acabou por sorrir junto também.
_A verdade, é que eu nem sequer sei direito porque não gostava de você. Talvez fossem ciúmes. – e riu de sua própria idiotice.
_Ciúmes? De quem?
_De Inuyasha, oras!
Kagome inclinou a cabeça sem entender.
_Por quê?
_A verdade, é que sempre senti muito ciúme do meu amigo. Nunca gostei que nenhuma garota além de mim mesma ficasse próxima dele, achava que ele me deixaria de lado por uma de suas namoradas. Sabe que uma vez uma namorada dele até lhe disse que deixasse de falar comigo porque não nos dávamos bem? – lembrou-se com um risinho.
_E ele o que fez?
_Terminou com ela é claro!
_Ele ama você demais para abrir mão.
_Sim ele ama. – concordou Sango – Sou a irmã que ele nunca teve.
Kagome concordou e estava levando uma pequena porção de seu almoço a boca quando se deu conta de algo, e voltou a fitar Sango.
_Mas Inuyasha e eu não namoramos. – Nós não poderíamos. Eu nunca poderei namorar. Não enquanto estiver ferida desse jeito... E temo que nunca me cure. – Por que então tinha ciúmes de mim?
Sango olhou-a por um momento, medindo as palavras, antes de responder:
_Por que você é algo muito mais perigoso do que uma simples namorada Kagome: você é uma amiga. Tive medo que você tomasse meu lugar.
No final de tudo era apenas isso: Medo.
Sango sempre teve medo de que Inuyasha se esquecesse dela, em prol de alguma de suas namoradas, e teve mais medo ainda quando ele conheceu Kagome, e tomou-a como amiga.
Por fim acabou por confundir aquele medo de ser deixada de lado com ciúmes, e o ciúme com amor.
Compreendera tudo aquilo após passar toda uma noite pensando nas palavras de Rin. Daí as olheiras em seus olhos.
_Entendi. – disse Kagome. – E passaram um minuto em silencio – Mas me disse que queria uma resposta minha. O que é?
Sango estalou os lábios.
_Apenas quero saber Kagome... O que você sente pelo Inuyasha?
Miroku parou no corredor e suspirou:
_Quando eu peço que tragam meu almoço, ela me arrasta pela orelha até a cantina, mas se ela me pede para trazer o seu almoço...
_Então você vai correndo feito um cachorrinho! – zombou Inuyasha.
Miroku concordou, de qualquer forma não tinha como negar, então recomeçou a andar e Inuyasha o acompanhou, mas quando entraram na sala de aula não encontraram Sango ali. Olharam a volta, e com um salto no coração Inuyasha percebeu que Kagome, que anteriormente encontrava-se junto de suas amigas, já não estava mais ali também.
_Acha que ela foi ao banheiro? – Miroku perguntou.
_Talvez.
Respondeu Inuyasha, já se encaminhando em direção as meninas, que pareciam muito concentradas numa partida de xadrez.
_Para onde foi Kagome?
Ayume, a mais gentil entre as meninas, foi quem lhe respondeu:
_A Sango disse que precisava falar com ela, e então elas saíram para almoçar juntas.
Gotículas de suor surgiram pelo rosto de Inuyasha, Kagome era delicada e assustada como um coelhinho, e certamente também era rápida como um, e Sango... Bem, bastava apenas dizer que ela era a Sango.
_E para onde foram?
Ayame, a ruiva, parada logo ao lado da gentil Ayume balançou a cabeça.
_Não sabemos, elas não falaram, apenas saíram juntas para almoçar.
Ele virou-se, pronto para sair procurando pelas duas, quando Miroku o chamou.
_Elas estão ali. – disse olhando pela janela – Acho que estão numa boa.
E realmente, as meninas pareciam estar bem tranquilas quando Inuyasha também olhou pela janela, elas estavam sentadas debaixo de uma árvore dividindo um lanche, provavelmente o lanche de Kagome, ao seu lado Miroku franziu o cenho.
_Ela já está lanchando. – ele disse – Gastei meu dinheiro à toa.
Inuyasha sorriu de canto e balançou a cabeça.
_Sobre o que será que estão falando?
_Sei lá. – Miroku encolheu os ombros e se afastou. – Quer metade do lanche que eu comprei para ela?
Inuyasha olhou para as garotas novamente, então deu de ombros e disse:
_Por que não?
Naquela manhã de sábado Kagome trançou seus cabelos, enfiou-se num velho moletom de mangas compridas (que serviriam perfeitamente para esconder suas cicatrizes) e que era cinza em cima e azul embaixo, de uma maneira que não se sabia onde começava uma cor e terminava outra, na ponta das mangas voltava a se torna cinza, e havia listras azuis na gola "V" e nos punhos, colocou uma saia preta, e calçou as mesmas sapatilhas pretas que usava quase sempre que ia sair de casa.
Saiu de casa levando Sir Lancelot como sua sombra, só separando-se ao chegar ao cemitério, quando se afastou para perambular por entre os túmulos e vasculhar o perímetro.
Mas Kagome encaminhou-se diretamente ao tumulo do avô, saudou-o curvando-se respeitosamente e ajoelhou-se ali, juntando as palmas das mãos e fechando os olhos como que para rezar.
_Hoje faz dez meses. – ela murmurou – Hoje faz nove meses... Que dei a luz a uma criança que nunca cheguei a ver e nem sequer ouvi o seu primeiro choro. Algumas coisas aconteceram desde a última vez que vim aqui avô... Eu fiz amizade com um grupo de meninas, e também com um garoto. – um pequeno sorriso apareceu nos lábios de Kagome – Ele é especial.
Kagome sentou-se por cima dos joelhos, e deixou as mãos sobre os mesmos.
_Eu não temo a Inuyasha como temo aos outros garotos, e recentemente uma amiga sua perguntou-me: "O que você sente por Inuyasha?" e eu respondi-lhe que sentia por ele um sentimento muito especial, porque tenho por Inuyasha um enorme carinho, ele me é o meu amigo mais querido. Mas eu me pergunto avô... Se Inuyasha só me é assim tão querido porque é o único garoto com o qual consigo falar. Ele também me apresentou a sua cunhada, uma jovem moça chamada Rin que espera um bebê, embora não seja casada com o irmão de Inuyasha. Rin é muito simpática comigo, e sente-se imensamente feliz por estar grávida, Rin tem o rosto de uma mãe, não sei como descrever avô, mas isto é o que sinto quando olho para ela, acho que é porque ela ama ao seu bebê, e sendo assim eu nunca tive o rosto de uma mãe... Porque embora tenha estado grávida nunca cheguei a amar meu bebê. Mas a minha situação foi bem diferente do que é a de Rin hoje, porque o bebê de Rin é o fruto do amor que ela sente pelo pai dele, enquanto que o meu bebê foi o fruto... De algo terrivelmente diabólico. Mas eu tenho a certeza de que se meu bebê também tivesse sido fruto do amor, como foi o de Rin, então eu também teria o rosto de uma mãe, porque eu também amaria o meu bebê...
De repente, Kagome deu-se conta e algo, que a fez erguer rapidamente a cabeça e pousar uma das mãos sobre os seus lábios que se haviam entreaberto.
_Avô. – chamou com os olhos enchendo-se de água – Isso significa... Significa que eu queria amar aquela criança?
E então, o que acharam do primeiro capitulo de 2015?
Eu sei que eu disse no ano passado que o Percy estava de partida e tal... Mas como nada acontece como a gente planeja o Percy ainda esta aqui, bugado do jeito que ele é, porque como sempre estão me enrolando aqui, fazer o que, né? E falando em enrolar... Que vergonha que eu fiquei gente quando percebi que Donzela Maculada completou um ano e agora que estou postando o capitulo dez! Ai Meu Deus, nem tenho palavras para agradecer a paciência de vocês.
Respostas as review's:
Nanda Taisho: Eu sei, foi tenebroso! O.O
Bem, agora você já sabe, a Rin é dez!
joh chan: Ah é? Eu meio que também me sinto assim, mas acho que é mais porque nessa época eu fico me lembrando daquele conto "A vendedora de fósforos".
Para falar a verdade eu achei por bem deixar que Kagome leve a maior parte desse segredo consigo, e só o revelei mesmo a Inuyasha para que houvesse alguma história. ^^
O Percy completou seis anos em novembro passado — e estou rezando para não ter que completar o sétimo.
Yogoto: Ah não, o Sesshy já conhece a Rin que tem, ele nem estranha mais, na verdade é justamente por ser tão traumatizada que ela não conseguiria odiá-las: ela acredita que ninguém pode lhe fazer tanto mal quanto Naraku o fez.
E no próximo capítulo de "Donzela maculada"...
Espero que não se incomodem, mas hoje terão novamente a mim, Higurashi Kagome, por sua narradora.
Essa dúvida esta me matando, meu Deus eu não sei o que fazer! Será verdade? Eu realmente queria ter tido a capacidade de amar àquela criança a qual dei a luz?!
Rin, eu sei que pode ler em minha expressão que também carreguei uma criança, mas imploro que não conte a ninguém, e Miroku, sinto muito se o evito e o trato pior do que um cão, mas você assusta-me demais.
Minha avó esta agindo de um jeito muito estranho ultimamente, mas as férias de verão começaram e estou feliz por Inuyasha ter vindo me ver... Só espero que ele não fique irritado por aquilo que ele considerou um beijo.
Não perca no próximo capitulo de donzela maculada: O beijo da donzela.
