Capítulo 10 – Contato
Harry despertou sentindo seu corpo doer. Parecia que ele havia sido atropelado por uma manada de hipogrifos raivosos. Respirou fundo, tentando se lembrar se havia algum motivo para a dor, e o ato o fez sentir aquele cheiro característico de pó e mofo que o remetia a um só lugar.
Estava em Grimmauld Place.
Ele abriu os olhos e reconheceu o teto com a tinta velha descascada e suspirou ao ter sua teoria confirmada. Por que, afinal, estava em Grimmauld Place era sua próxima pergunta. E então vieram os flashs.
Ron. A fuga de Hogwarts. Sua angústia. A risada em sua mente quando ele mandou Kreacher embora e selou a casa com todos os feitiços que conhecia. A fome e o desespero. A raiva que não era sua e era voltada para ele mesmo e para toda a humanidade. Os pensamentos confusos. A voz que soava em sua cabeça pedindo para sair. A fome e as mariposas que o atormentavam em seu sono.
Talvez a dor fosse constante. Talvez ele se debatesse ou lutasse contra si mesmo em algum momento. Talvez fosse resultado da fome que queimava suas entranhas e sua alma e contra a qual ele se repetia que preferia morrer a sair dali, tendo em mente a imagem de Ron caído no chão.
E então... ele.
- Charlie. – disse o nome franzindo a testa, se questionando se era mesmo isso ou somente mais uma alucinação. Sua garganta doeu, seca, e ele não tinha certeza se emitira algum som, pois era difícil falar e a voz ficara perdida em um ruído rouco.
Mas, aparentemente, algo foi ouvido.
- Harry?
A voz familiar o assustou e ele se virou bruscamente, sentindo os ossos do pescoço estalarem conforme seu corpo não acompanhou o movimento.
Foi então que notou que estava amarrado à cama com cordas mágicas.
- Calma. – Charlie sentou-se na beira da cama ao seu lado, entrando em seu campo de visão e o encarou profundamente por alguns segundos, como se verificando se era ele mesmo quem estava ali – Eu achei mais seguro caso...
- Está tudo bem. – Harry tentou afirmar, mas sua voz saiu em um chiado rouco e ele fez uma careta de dor com o esforço. Charlie encostou a varinha em seu pescoço e murmurou um feitiço, fazendo alívio descer úmido a sua boca e o garoto pigarreou e tentou de novo, agora ouvindo sua voz, mesmo que ainda fraca – Obrigado.
- Você deve ter se machucado de gritar, ou mesmo falta de água. Você estava muito debilitado... Quer que eu te solte?
- Não. Eu não acho que vá adiantar alguma coisa. Ele riu de mim quando eu pensei em me amarrar, mas pode ser que ele estivesse blefando.
- Você consegue falar com ele?
- Eu ouço ele. Sei que ele está aqui, mas isso não significa muita coisa. E acho que se fosse o tempo todo eu enlouqueceria. – Harry engoliu em seco e parou de falar, parecendo cansado.
- Eu vou pegar água para você. – Charlie conjurou uma taça, mas não chegou a executar o feitiço quando Harry o interrompeu.
- Vai embora, Charlie. – ele disse, fechando os olhos e relaxando na cama – Eu vou morrer de qualquer forma, não se arrisque cuidando de mim. Sai daqui enquanto ele está sob controle. Eu não quero te atacar.
- É só tomar os devidos cuidados que isso não vai acontecer. E você não vai morrer. Tome.
O homem se debruçou, derramando o líquido devagar entre os lábios secos do garoto. Harry suspirou quando terminou, fechando os olhos.
- Ontem não foi a primeira vez que sou atacado por um incubus, Harry. Eu sei como eu posso te ajudar, mas precisamos conversar primeiro. Você está melhor?
Harry não respondeu. Sim, ele estava melhor só de não estar preso em um delírio ou por estar no comando de seu corpo, mesmo que amarrado a uma cama. Estava melhor por não sentir fome ou sua garganta cortar de sede e por ter alguém amigável por perto.
Mas não estava bem. Sentia medo, sabia que a ameaça ainda estava ali, e ele sentia medo por Charlie e sabia que, se o demônio voltasse, não teria forças para dominá-lo. O pouco que Charlie dera para ele fora o suficiente para deixá-lo mais forte que o garoto, que estava psicológica e fisicamente debilitado e cansado daquela luta que não parecia que ia acabar.
A menos que ele morresse.
De novo.
E isso ainda deixaria o demônio livre.
- Vai embora, Charlie. – pediu mais uma vez a guisa de resposta. Ele imploraria, se fosse necessário. Não importava o quanto Charlie pudesse fazer, ele sentia a alma do demônio queimar dentro dele e isso não era algo que simplesmente acabaria.
- Eu não vou desistir, Harry. Me ouça, por favor. – havia angústia e aflição na voz do homem e Harry abriu os olhos devagar para poder olhá-lo.
Nunca havia prestado muita atenção em Charlie. Claro, ele era o irmão mais velho de Ron e um treinador de dragões, e isso era legal, e ele sempre estivera por perto, mas Harry nunca imaginou que fosse perto o suficiente para que realmente se importasse com ele.
- Como você sabia que eu estava aqui? – perguntou baixinho.
- A casa é sua, não é? E o relato de Hermione sobre tudo o que estava acontecendo me fez perceber que você partiu de Hogwarts porque queria, então eu presumi que o demônio ainda não te controlava totalmente, você iria para um lugar familiar. Na verdade, essa foi a primeira hipótese do ministério também, e eu achei que a casa havia sido verificada.
- Acho que foi, não sei. Eu... Eu não era eu. – Harry disse, confuso.
- Quanto tempo você esteve preso em delírios?
Harry negou com a cabeça, havia perdido a noção do tempo mais rápido do que qualquer outra coisa. Charlie o observava com atenção e preocupação, e Harry não queria olhar para ele, não queria ver o rosto sardento e os cabelos ruivos, não queria se lembrar de Ron e se sufocar no medo de fazer aquilo de novo. Queria dizer tanta coisa. Queria perguntar por Ron, queria pedir perdão, queria pedir ajuda. Mas algo muito mais forte embrulhava seu estômago e o fazia fechar os olhos. Estava tão cansado de tudo aquilo.
- Me desculpe. – disse baixinho.
- Não se deixe dominar pela culpa, ela vai te consumir mais rápido do que os impulsos. Você precisa se fortalecer. Vou ver algo para você comer, só um minuto.
Harry se deixou ser cuidado pelo homem, se sentindo ao mesmo tempo fraco demais para negar tudo aquilo e confortável demais com alguém que sabia, de certa forma, lidar com tudo aquilo. Mas o silêncio se instaurou entre os dois a maior parte do tempo, não que não tivesse perguntas a fazer, ou tantas outras desculpas a pedir, mas a situação era estranha e ele não queria pensar mais no que estava acontecendo.
Depois que deixou Hogwarts, Harry via agora que mergulhou vertiginosamente. Se isolou, e isolou o incubus, com magia no lugar mais seguro a que tinha acesso no momento, esperando simplesmente que com isso não machucasse mais ninguém, perdido em seu culpa e desespero. Porém, com o tempo, a fome veio, e ele já não sabia dizer exatamente quando ela se tornou permanente, e ele abandonou a si mesmo, preso à necessidade constante que o arrebatava.
Charlie o alimentou e limpou seu corpo com uma toalha úmida, fazendo com que o garoto se sentisse confortável, apesar de toda a vergonha pela situação, sem ter que sair da cama, onde as cordas o mantinham seguro.
Em algum momento, sem ao menos perceber, Harry adormeceu. O cansaço e a latente melhora de sua situação física com esses cuidados tão simples derrotaram sua vontade de manter-se atento. E, ao se dar conta disso quando despertou, o desespero quase o dominou em uma crise de pânico, de abrir os olhos e se ver envolto em luz branca que revelaria o corpo de Charlie jogado ao seu lado.
E então o toque suave em sua face e a voz conhecida.
- Está tudo bem, Harry. Abra os olhos.
E ele abriu, e lá estava Charlie esperando por ele. Vivo e bem.
- Já é tarde, eu preciso ir embora. Com ou sem cordas, não é seguro eu ficar aqui durante a noite com o demônio ainda sedento. Mas eu quero conversar com você, e quero que se sinta livre para responder à proposta que eu vou te fazer. Por isso descanse e pense sobre a possibilidade de aceitar minha ajuda nessa noite. Você não precisa morrer, Harry.
Harry concordou com a cabeça, sentindo algo apertar em seu peito. Seu único pensamente era de que queria desesperadamente que ele fosse embora, seu controle era frágil demais e a lembrança daquele rosto contorcido, tentando se livrar dele, era viva demais. Uma lágrima correu pelo seu rosto e o homem sorriu, cobrindo-o.
Mas quando o peso deixou o colchão ao seu lado, sentiu repentina falta daquela presença que não era hostil.
- Charlie – sua voz soou baixinha, e o homem parou para olhá-lo da porta – Você volta?
- Claro. – o ruivo sorriu e se foi.
-:=:-
NA: Olá, pessoas.
Sim, eu sumi. Desculpem, é que eu fiquei sem conexão, aí a vida virtual parou. Mas, bem, voltamos, e acho que agora a coisa vai fluir.
Só para deixar vocês mais felizes: Demônio está terminada, e eu já comecei a continuação XD
Para quem chutou e acertou no desconhecido: bingo!
Espero que estejam gostando.
Beijos e até o próximo. Dessa vez eu volto sábado que vem COM CERTEZA. A menos que o mundo desabe ou algo do tipo ._.
