N/A: Queridos leitores, quando comecei a escrever QPVLEE, não tinha tanta noção sobre as consequências do vício em opiácios como desenvolvi agora e a personagem de Elisabeth é impossível. Ela se tornaria eternamente retardada pela quantidade de morfina que tomou ao longo de sua vida, entre outros problemas. Mas agora é tarde demais para mudar alguma coisa. Então, peço que vejam esse erro como algo característico de um texto feito para mera distração (da autora e dos leitores) e que relevem também outros erros nos delírios da morfina, no comportamento ou na recuperação de Elisabeth. Eu nunca experimentei nenhum tipo de alucinógeno até hoje então não tenho muita ideia de como seja, me baseio apenas em relatos e textos científicos.

Grata,

Nii

P.S: Neste capítulo, vocês verão como a Lizzie é osso duro de roer e que ela poderia ter sido muito, muito mais inteligente se não fosse a morfina e a vida que levou.

Horas mais tarde, no número 221B da Baker Street, Holmes e Watson esperavam respostas dos moleques informantes do detetive. Esperava que aquela mulher diabólica não houvesse ainda saído da cidade.

Não e ela não ousaria fazê-lo naquela noite, não com tantos policiais à sua espreita. Infelizmente, Marie era muito esperta. Esperta demais para uma mulher, na opinião Holmes.

Já Watson se corroia em culpa por sua Lizzie ter sido levada mais uma vez de seus braços. Dezesseis anos atrás, era novo, egoísta, um tolo. Acreditara que Marie amava sua irmãzinha como a uma filha e nem se incomodou em verificar a verdade. Estava tão imerso em tentar ser um médico tão bom quanto seu pai e em apagar aqueles anos tão dolorosos da mente que sequer se importou com Lizzie.

Mas agora a tinha novamente e precisava envolver-se com a história de Elisabeth, tinha novos fantasmas para apagar. Como seu casamento que descia ladeira abaixo.

Holmes estava tão imerso em pensamentos e possibilidades que nem percebeu o que apertava entre os dedos. Era uma fita de Elisabeth que tinha sido esquecida sobre a mesa da sala. Se não se envolveu naquela história porque era insensível demais para se importar, então por que o fez? Não apenas por Watson, embora sua amizade fosse o motivo principal, mas não era um insensível como todos gostavam de acreditar. Preocupava-se com aqueles ao seu redor de sua maneira estranha e a semelhança física e proximidade sanguínea da garota com seu amigo fez despertar ainda mais sua vontade de ajudar.

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Estava diante de um espelho, sua aparência era terrível. Na verdade, mal conseguia ver a si mesmo sob aquelas camadas e camadas de sangue e pó. Deteu-se um segundo para inspecionar sua roupa e tentar limpá-la um pouco e, quando relanceou a imagem novamente ao espelho, esta havia mudado. Watson, vestido completamente de negro, o encarava com reprovação nos olhos assustadoramente azuis.

Os olhos se mantiveram, mas o Watson em questão transformou-se: era agora Elisabeth que estava refletida no vidro. Estava, provavelmente, em uma masmorra e Marie Louise a torturava com um pedaço de ferro incandescente. Os gritos não chegaram aos ouvidos de Holmes, mas a voz veio diretamente em sua cabeça quando a loira foi embora e a moça o fitou com ódio.

"Feliz agora, Mr. Holmes? O sangue que te molha é o meu. Se o senhor não fosse intrometido demais para se importar, frio demais para se importar, nada disso teria acontecido! Eu não teria morrido! Mas eu não preciso de nada disso! Não preciso da sua pena, Sherlock, de nada que venha de você! Nada!"

Acordou em pânico, escorregado em sua poltrona favorita. Tinha cochilado. Realmente, estava ficando velho para este trabalho.

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Enquanto isso, em White Chapel, Elisabeth acordava também, em um cenário que conseguia ser menos acolhedor do que o sonho que a atormentava. Agora que se lembrara perfeitamente do crime que matou seu pai, a moça só podia crer que seria com isto que sonharia para o resto de sua vida.

Porém, se encontrava em poder de Marie Louise e Yan, que pareciam se dedicar a decidir o que fariam com ela.

"Precisamos nos livrar da garota, Lou. Ela sabe demais e, enquanto estiver conosco, seu enteado e o amiguinho dele continuarão a nos seguir." Disse a voz masculina e carregada de sotaque eslavo, através da madeira da porta.

Onde – exatamente – estava? Seus sentidos embotados e a boca seca não contribuíam nem um pouco. Tentou se erguer. Nem pensar, as pernas estavam com a consistência igual a de panquecas. O braço esquerdo, onde estava o seu braço esquerdo?

Aaah sim... Estava acorrentado ao cano da banheira, pouco acima de sua cabeça.

Mas... hm... o que Marie Louise falava mesmo? Foco, Lizzie, tenha foco. Para que foco se tudo era tão bonito e tranquilo? Pense em Holmes. Ah, aquela peça de Mendelssohn estava tocando no seu joelho. Que engraçado!

"Eu vou sair, Yan. Não faça nada até eu voltar." Retrucou a voz bonita com sotaque francês. Ah não, Lizzie queria ouvir mais daquela voz!

Passos chegando perto e um homem abiu a porta. Como ele era alto! Que engraçado! Lizzie não se segurou e começou a rir.

Tão sério! Ele bufou com as risadas de Elisabeth e a desacorrentou.

"Ah, obrigada, sire." Era o que ela queria dizer, mas o que saiu foi algo muito estranho e engraçado, o que ocasionou nova série de risadas.

Yan não ria. Que chato! Será que não via graça em toda aquela situação? Bem, talvez não tivesse. Ou talvez tivesse sim, Elisabeth não saberia dizer. Ele agarrou-a pelo braço para erguê-la e tentou forçá-la a andar. Mas Lizzie não queria andar! Queria ficar ali mesmo, quietinha, como Marie mandara, esperando-a voltar! Queria ouvir mais daquela voz tão linda! Tão, tão linda aquela voz! Sentou-se de novo.

"Levante-se, idiota! Estou tentando levá-la até a sala!" E xingou em uma língua que Elisabeth não conhecia. Era uma língua? Tentou falar igual a ele e achou mais graça ainda.

Então um estalo. Um estalo muito forte contra a bochecha macia de Elisabeth. Disso ela não achou graça. Não que tenha doído. Mas ela não estava tão tonta assim a ponto de não perceber que a intenção fora essa.

"Quero ver achar graça disso agora. Levante-se, tonta." Não gostava nem um pouco da voz e nem um pouco do tom dele. Que homem ruim!

Levantou-se, mesmo a contragosto. Melhor de pé e humilhada do que sentada e roxa. Mas não era tão simples assim ficar de pé. Exigia muita concentração, concentração que ela não tinha no momento. Sentiu que ia cair e tentou segurar em Yan, para equilibrar-se, mas ele a empurrou e Elisabeth foi com tudo no chão. Sentiu gosto de ferro e algo quente e molhado na boca, vinha da língua. Chupou. Era bom. Mas a deixava um pouco tonta. Sentou para tentar entender o que acontecera. Não entendia.

"Levante-se!" Gritou ele de novo e foi aí que aconteceu.

A sua voz explodiu como milhões de fogos de artifício na cabeça de Elisabeth e ela viu os duendes e as ninfas dançando ao seu redor. Riu-se, eram tão bonitinhos! Seus braços e pernas oscilavam em milhões de cores e desenhos estranhos, desenhos que ela podia ver mesmo de olhos fechados.

"Cuidado, lindinha. Esse homem não parece achar graça das coisas" Lhe disse uma ninfa.

"Não acha mesmo." Respondeu Lizzie, mas era difícil falar porque a língua lhe atrapalhava. "Olha o que ele me fez." E mostrou a língua.

Os duendes e as ninfas deram gritinhos e sumiram, então, Elisabeth percebeu que estava mostrando sua língua para Yan.

"Você se acha muito engraçadinha, não é?" Ele pegou-a pelo braço de novo, mas, dessa vez, atirou-a fora do banheiro. Lizzie bateu com um braço em uma cadeira e não conseguia mexer mais essa mão. "Mas eu já estou perdendo minha paciência com você. Fuja! Tente fugir, Elisabeth. Para que a minha Lou acredite que eu tive que te matar!" Mas ela não queria correr. Não, ela não queria que ele batesse em si de novo e estava com medo daqueles olhos dele. Eram os mesmos olhos que mataram o papai. Ele disse que ia matá-la também.

Por quê? Por que, se ela era uma menina tão comportadinha, tão boazinha? Enroscou-se feito uma bolinha, assim ele não poderia lhe machucar. Uma fadinha apareceu na ponta de seu nariz (que estava com gosto de amoras) e parecia muito assustada.

"Lizzie, você precisa fazer barulho! Precisa fazer com que as pessoas na rua queiram chamar a polícia!" Nessa hora, Yan lhe meteu um pontapé.

"Vamos, garota, levante! Corra!" Ele gritava e gritava, mas ela não queria levantar. A anestesia começava a perder o efeito.

"Querida, por favor, faça isso por mim. Levante, Lizzie e pegue aqueles pratos de louça em cima da mesa. Você precisa fazer barulho." Com muito esforço, Lizzie aproveitou que Yan tomava fôlego e levantou. Correu o mais rápido que podia para mesa, o que, aparentemente, significava nem tão rápido assim, já que Yan agarrou-a pelos cabelos quando os dedos de Lizzie estavam a centímetros dos pratos.

Ela fez um pouco de força e conseguiu alcançá-los. Sentiu algo quente escorrendo da cabeça, devia ter deixado um tufo de cabelos na mão de Yan. Mas não importava. O importante era que conseguira pegar os pratos e se livrar de seu captor. Correu de novo, tentando alcançar a janela, porém Yan agarrou-a pela gola do vestido. Talvez ele ainda não tivesse percebido a mudança de comportamento da garota e achou que um mero enforcamentozinho de nada ia impedi-la de tentar fugir. Elisabeth fez mais força e a gola do vestido rasgou, deixando apenas sua garganta dolorida. Talvez ele tenha entendido o seu plano ou talvez tenha ficado só com raiva, porque pegou uma cadeira e bateu nas costas dela.

Os pratos foram ao chão e Lizzie caiu por cima dos cacos, cortando-se ainda mais. Certamente doeria depois. Pelo menos fez muito barulho. Hora de gritar.

"SOCORRO! SOCORRO! ALGUÉM CHAME A POLÍCIA! SOCORRO, POR FAVOR!" Yan pisou em suas costas, dessa vez doeu. Na verdade, todo seu corpo começava a doer. Talvez isso fosse bom, significava que a droga estava passando.

"Ninguém vai te ajudar, tolinha. Nós escolhemos esse bairro porque, aqui, as pessoas preferem ver uma garotinha morrer a se envolverem com a Scotland Yard. Aqui é White Chapel, Lizzie." Ele riu para pontuar sua frase.

Então ela precisaria fazer algo pior do que pedir socorro. Teria que colocar outros em perigo. Mas, primeiro, precisava sair debaixo do pé de Yan. E precisava respirar urgentemente. Ele apertou mais o pé. Lizzie ouviu um estalo, sentiu muita dor e tossiu sangue. Viu um caco enorme e afiado na sua frente, se ao menos conseguisse se mexer um pouco... Agarrou-o. Estava afiado de todos os lados e cortou a mão de Elisabeth, mas ela não se importou. Com todas as poucas forças que tinha, deu um impulso que desestabilizou Yan momentaneamente e enfiou o caco em sua panturrilha. Ele caiu, gritando de ódio.

"Sua vadia! Sua puta! Eu vou acabar com você, sua merdinha!" Elisabeth não ia esperar Yan se recuperar para correr.

Correu até o outro lado da sala. Como ia chamar a atenção de um bairro inteiro? Ainda bem que, apesar de ser primavera, fazia frio e a lareira estivera acesa. Com o canto do olho, viu Yan se erguer um pouco, mas caiu de novo. O caco tinha se enfiado um pouco acima do calcanhar, Elisabeth não sabia, mas cortara o tendão de Aquiles dele e o homem mancaria por um bom tempo. Mas, naquele momento, estava tão preocupada com isso quanto com o sangue que encharcava suas costas e o sangue que escorria de sua língua e sua mão. Com um tapete, agarrou um punhado de brasas e lançou-as pelo aposento. Yan conseguiu levantar-se, finalmente, a tempo de ver as cortinas se lamberem com uma rapidez incrível.

Ótimo, Elisabeth certamente chamara a atenção. Agora, como ia fazer para não morrer pelas mãos de Yan nem pelo fogo?