Fumaça atrapalhava a visão. Todo o lugar estava coberto por fuligem e uma densa fumaça. A sala era um tanto ampla, tinha algumas mesas de trabalho e esteiras no chão, e o teto e as paredes eram revestidos de canos, que não se limitavam a eles. Alguns adentravam pelo recinto, cruzando a sala até a parede oposta.
No chão, por entre as esteiras, um humano segurava um pequeno dispositivo. Tinha o corpo revestido por uma armadura enfeitada por fios vermelhos e verdes, que faziam algum tipo de conexão. À sua cintura estava preso um grande saco, e dentro dele, dezenas de pequenas bombas, com perigoso poder destrutivo.
A fumaça começava a desaparecer, fugindo pelas discretas passagens de ar, no topo das paredes, revelando uma figura encolhida em um cano, cujo único apoio era outro cano que passava a seu lado, já enferrujado.
Max voltou a si, depois de se lembrar dos seus primeiros dias. Nos dois meses que se passaram depois daquilo, recebera apenas pequenos trabalhos de escolta e entrega. Estava agora realmente correndo perigo.
Fora ali para investigar distúrbios, em uma antiga fábrica que funcionava antes da guerra, mas acabou encontrando um humano que fizera a vida montando bombas, e estava pronto para ajudar na batalha contra os vampiros.
Max tentou se mover, apoiando-se no cano à sua direita.
"Então, pequeno vampiro? Não vai aparecer? Está com medo? Venha cá! Onde estão os seus reforços? Cadê seu criador?"
Criador? É a terceira vez que ele o menciona!
Max se apoiou completamente no cano ao seu lado, e dobrou as pernas no cano em que estava. Deu impulso com elas e se segurou no outro cano, dando uma volta quase completa e se deixando cair em outro cano mais abaixo.
Ele se encolheu, e com cuidado se posicionou em cima do humano, que ria.
"Vamos, vampirinho! Não seja uma vergonha para sua raça... decadente!" Riu de forma alucinada.
Max pulou, esticando os braços e posicionando os dedos para agarrá-lo. O humano olhou para cima, botou a mão no saco e tirou um pequeno aparelho retangular e o jogou em Max. Ele se contorceu no ar e moveu sua cabeça para trás, dando um giro. Quando a bomba chegou perto dele, o humano apertou um botão em sua armadura, e a bomba explodiu.
O braço de Max explodiu junto, enquanto ele rodava mais uma vez no ar para se afastar da explosão e caía no chão, se apoiando com o braço esquerdo, que não havia explodido. Logo, um novo braço surgiu no lugar do antigo, e ele começou a correr em direção ao humano.
Quando percebeu o vampiro que corria, ele pôs a mão no saco e retirou duas bombas. As jogou no chão, à frente de Max. Explodiu a primeira. Max pulou logo antes, dando um giro no ar e conseguindo impulso em um cano que pendia da parede, parou no chão alguns metros depois da segunda bomba, que explodiu logo em seguida.
Com ajuda da fumaça de pólvora que cobria o ar, ele deu mais um salto em direção ao humano, e agarrou seu pescoço. Concentrou-se em suas unhas e elas cresceram, cortando o pescoço do humano, que ainda ria.
"E agora, vampirinho? Vai sugar meu sangue?"
Max deu um leve sorriso, apertando o pescoço do humano mais forte.
"Não tomo sangue podre."
O humano botou a mão no saco de novo, e antes de Max poder tomar alguma ação, ele tirou uma bomba dele e prendeu em Max, o jogando para trás.
O vampiro tentou tirar a bomba de si, mas estava presa. O humano deu alguns passos para trás e apertou o botão em sua armadura. A bomba presa em Max explodiu, soltando tanto a fumaça da pólvora, quanto uma fumaça negra do vampiro.
No chão, apenas um coração e armas marcavam onde o vampiro estava. Parecia que estava sem vida, sua cor estava pálida e seu estado deprimente, como se já estivesse fora de um corpo há meses. O humano abriu um largo sorriso. Pegou uma pequena faca de prata de seu bolso e se aproximou lentamente do coração.
Tum tum.
O som cortou o silêncio. O coração se mexeu.
Tum tum. Tum tum.
Batia cada vez mais rápido.
"Você não devia ter saído de Las Vegas, vampirinho!"
O chão em volta do coração começou a ser encharcado de sangue que escorria por ele. O humano chegou bem perto, com cuidado para não pisar no sangue que tomava uma forma humana no chão. Levantou a faca, a mirando no coração.
O sangue se materializou em Max, que rapidamente percebeu situação, rolou para o lado, deu um salto para trás do humano e pulou em cima dele, agarrando seu pescoço. Fechou os olhos e torceu os braços.
O humano caiu no chão, e a faca perfurou sua armadura. Max olhou para ele.
Altamente desconfortável.
Retirou a armadura do humano e sua calça e os vestiu.
Maldita roupa barata.
Ele andou até uma sala ao lado do grande salão. Pegou os papéis que havia visto mais cedo. Pegou também suas armas e o saco de bombas com o humano.
Saiu da fábrica e prendeu tudo em sua moto. Subiu e dirigiu em direção á cidade.
Chegou na mansão do Príncipe. Entrou e foi direto para sua sala. Já estava com sua roupa extra e suas armas em seus lugares e carregava o saco, a armadura e os papéis.
"Bou nii, ling Max! Espero que tenha boas notícias." O Príncipe o cumprimentou.
"Sim. Tenho."
Ele os jogou em cima da mesa do Príncipe.
"Bom. Irei analisá-los."
Max jogou o saco e a armadura em cima da mesa em seguida.
"Eu encontrei certa hostilidade na fábrica. Isso aqui é o que tudo aquilo se resume."
"Bom, muito bom."
Ele deu uma rápida lida nos papéis e chamou alguém por um telefone. Sem demora, um vampiro entrou na sala e levou a armadura e o saco.
"Ah, sim! Também preciso de um novo conjunto de roupas. Essas aqui são muito frágeis." Max segurou seu sobretudo.
"Providenciarei" Ele ainda lia os papéis.
Max se sentou em uma cadeira.
"Achou algo interessante aí?"
"Sim. Achei algo melhor do que eu esperava. Parece que fiz mal em lhe dar trabalhos tão pequenos nos últimos dois meses. Não percebi sei verdadeiro talento."
Max deu uma risadinha.
"Apenas o faço do melhor jeito que posso."
"Lerei isso com mais calma. Lhe contatarei brevemente. Pode ir."
Max acenou com a cabeça e saiu da sala. Foi até seu apartamento. Pegou o saco que era deixado à sua porta sempre que completava algum trabalho. Guardou suas coisas. Abriu o saco.
Sete mil sagis?O Príncipe está generoso esta noite.
Guardou as moedas em um cofre atrás do seu caixão, fechou tudo e se deitou.
Escuridão. Vazio total.
Paff.
Max retirou a tampa do seu caixão e se sentou. Ficou alguns minutos olhando para a parede. Não conseguia se acostumar com as manhãs.
Levanto-se e abriu sua escrivaninha. Nenhuma mensagem. A campainha tocou.
Max se levantou e foi até a porta. A abriu alguns centímetros e expiou pela fecha. Do outro lado, estava um vampiro cujos lábios tinham algum detalhe escuro, que ele já havia visto antes. Estava segurando um pacote branco. Quando ele percebeu que Max o observava, acenou.
Max abriu a porta e pegou o pacote. Agradeceu acenando com a cabeça e a fechou. No pacote estavam dois kits completos de roupas iguais às dele. Max pegou uma camisa, agarrou a gola com as duas mãos e as afastou.
É mais resistente. Bom.
Vestiu uma das novas roupas e pôs a velha que usava no pacote. Foi até o corredor e jogou-o em uma lixeira comunitária, onde o lixo seria recolhido e tratado por humanos, que ocupavam os cargos mais baixos em Las Vegas.
Nova mensagem.
'Max, venha aqui. Estudei os documentos que recebi ontem e tenho um novo trabalho para você. O Príncipe de Las Vegas.'
Max abriu a porta da sala do Príncipe com força. O Príncipe estava sentado atrás da mesa, como de costume, mas estava pálido, mais do que de costume. Olhava fixamente para o grande cofre no outro lado do cômodo. Na mesa, alguns papéis estavam espalhados. Max se aproximou dele.
"Sim, Príncipe?"
"Max, temo que hoje possuo apenas más notícias."
"Estou aqui para isso. Diga o que devo fazer."
O Príncipe pegou alguns papéis e os mostrou a Max. Neles estava desenhada uma complexa linha de esgoto.
"Este é o esgoto de Las Vegas, construído antes da Guerra." Ele apontou para alguns detalhes vermelhos no desenho. "Esses pontos representam bombas, postas em lugares estratégicos. Três estão no compartimento de gás, duas nas placas de armazenamento de luz solar, duas atingem a parte central da cidade e mais quatro espalhadas pela periferia."
Max piscou.
"A hostilidade que você achou na antiga fábrica era apenas um ajudante de um Clã que surgiu recentemente, e cresceu muito no deserto, os Lobos Selvagens. Acredito que as bombas explodirão antes de podermos fazer qualquer pesquisa mais adiante."
"Mas qual seriam as conseqüências?"
"As pessoas mais importantes do continente morreriam, um número significativo de mortes humanas, e Nosferatus, uma vez que acreditamos que as bombas conteriam partículas de prata. Tal atentado inspiraria Clãs de todo o mundo a aumentarem os ataques e muitos Nosferatus iriam buscar vingança. No mínimo, uma outra Guerra se desencadearia, e só acabaria com o extermínio de ambos os lados."
Max caiu em uma cadeira. Olhava para os desenhos como se estivesse doente.
"O que devemos fazer?"
"Penetrar no esgoto, desativar cada bomba e trazê-las para cá, para maior estudo."
"E precisava de um briefing tão grande para isso?"
O Príncipe riu.
"Só queria que você entendesse que não há margem de erros para esse trabalho."
Max o olhou seriamente. O Príncipe o entregou um walk-talk.
"Você comandará a equipe. São cinqüenta Nosferatus. Encontre com eles no quintal, estão esperando suas ordens Boa sorte."
Max andou até a porta. Olhou para o Príncipe.
"Eu não preciso."
Max saiu para o quintal. Cinqüenta vampiros estavam parados, olhando para ele. O quintal tinha o dobro da área da casa, um pequeno laguinho com uma ponte em cima, três bonecos de metal e algumas árvores. Um vampiro saiu do grupo e foi falar com ele.
"Senhor Max, o que faremos?"
"Quero dez grupos de quatro pessoas. Preciso de contato direto com cada grupo, que deverão se chamar ar, ne, vu, ce, do, te, as, ve, la, aro. Os restantes irão comigo, seremos o grupo aroar."
Ele pegou o mapa do esgoto com o vampiro que falou com ele, pegou uma caneta e escreveu os números de um a onze no lugar das bombas.
"Todos devem ver esse mapa e prestar atenção. Essas são as bombas que cada grupo deve pegar."
O mapa passou na mão de cada grupo recém formado até chegar novamente até Max. Ele guardou o mapa em um bolso interno.
"Vão."
Os grupos se ajeitaram um a um na ponte. Quando um grupo subia nela, apertavam um botão escondido e a ponte descia até o subsolo. Um dos vampiros do grupo de Max se dirigiu a ele.
"Senhor Max, sinto muito, mas a área do subsolo é restrita a soldados do Príncipe de Las Vegas. Devemos entrar nos esgotos por outro lugar."
Max concordou com a cabeça. Ele e o grupo saíram da casa e entraram no esgoto. Max retirou o mapa do bolso e o entregou a um vampiro.
"Tome, devemos chegar na bomba de número onze, por favor, nos guie."
O vampiro olhou para o mapa atentamente.
"Mas senhor, esta bomba é a mais afastada, em baixo de um depósito de gás."
"Sim, esta parece ser a mais protegida, já que sua explosão será maior. Seria justo que o maior grupo ficasse com ela."
Os vampiros se entreolharam e concordaram com a cabeça. O que estava com o mapa o estudou por alguns minutos.
"Me sigam."
Começou a correr e todos correram atrás dele.
