Flores Escuras
Autoria: Niphrehdil
Publicada originalmente em:
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Tradução autorizada: Inna Puchkin Ievitich
Capítulo 10
Os médicos e enfermeiros ficaram atônitos com o rápido progresso de Charles. O fato de estar acordado e consciente, além de poder se movimentar normalmente apesar de seus reflexos um tanto lentos, parecia um milagre médico aos seus olhos.
Não importa o quão feliz Erik estava ante a melhora do estado de Charles, seus medos novamente começaram a importuná-lo no fundo da sua cabeça.
Fora um período muito tranquilo e seguro. Erik sabia que a Chimera iria caçá-los e temia que estivessem em seu encalço. Provavelmente, pensavam que Charles tinha informações muito importantes guardadas em seu cérebro, e que Erik tinha que ser eliminado simplesmente por ser perigoso. Ele tinha, afinal, esmagado a sede do seu quartel como se fosse de papel.
Erik não tinha ilusões sobre a situação.
Ainda assim, ele hesitou - Charles ficava melhor a cada dia, mas estava longe de estar bom. Ele ficava cansado facilmente e, embora suas frases e conversas com Erik fossem mais complexas e demoradas, não havia qualquer novo conteúdo. E Charles nunca dissera uma palavra em voz alta. Ele só falava com Erik através do seu link, com a sua voz agora mais personalizada, e continuava projetando, acidentalmente, imagens e flashes aos enfermeiros. Mas, no geral, Charles não falava a menos que Erik falasse com ele, e Erik não podia deixar de se preocupar.
Ele ainda não tinha qualquer sinal de Frost ou Leap. Erik temia que não houvessem recebido as mensagens ou que os mutantes estivessem com medo de colocar o pescoço para fora.
A paranóia de Erik ficou pior - ele só confiava nas pessoas do hospital que já tinha visto incontáveis vezes antes. Suas noites mal dormidas e exaustão não ajudavam.
Erik se tornava mais protetor com Charles – assustadoramente protetor. Erik não teve um momento sequer para refletir sobre esse novo progresso. Ele não sabia o que sentia ou por que – apenas que via em vermelho só de pensar na Chimera ou em qualquer pessoa colocando as mãos em Charles. Hank estava morto e Erik não sabia quem mais estaria. Aparentemente, Charles estava quase sempre sozinho – pelo que sabia, sua escola ficou vazia e Hank tinha sido o único a cuidar dele. Quem poderia ter certeza que Charles estaria seguro se Erik não o fizesse? Charles precisava de tempo para se curar, para dar sentido a sua mente torturada. Erik não podia nem pensar em deixar Charles sozinho agora – ele era vulnerável. E, mesmo que Erik odiasse admitir – ainda era perigoso, não obstante a Chimera tenha se mantido silente. Ambos, Erik e Chimera, tiveram uma forte impressão do quão destrutivos os poderes de Charles poderiam ser se utilizados de forma errada.
Portanto, não - não havia um cenário em que fosse possível Erik separar-se de Charles tão cedo. E ainda mais perturbador, ele descobriu que não tinha vontade de fazê-lo. Erik sabia que não estava certo, que toda a situação era, no mínimo, bizarra – mas, por hora, era isso. Erik disse a si mesmo que ele teria protegido e feito o mesmo por qualquer mutante, não apenas por Charles – qualquer um que tivesse encontrado nos laboratórios da Chimera, ele se dizia. Mentiroso, a mente de Erik lhe respondia.
Erik varreu o pensamento para longe. Ele havia prometido que a Chimera nunca mais colocaria as mãos em Charles outra vez - e ele iria cumprir essa promessa. Só por cima do meu cadáver, seus bastardos.
Os dias pareciam longos – Erik se mantinha, constantemente, olhando por sobre o ombro. Sua paranóia nunca o deixou. Erik se coçava para sair, mas os médicos tinham lhe dito que Charles deveria ficar sob tratamento por, pelo menos, mais um mês.
Erik se sentia cada vez mais inquieto.
Houve mais perguntas sobre o "acidente de Charles".
Erik mentiu, manipulou e bancou o mudo para manter a situação estável.
Mas, finalmente, até mesmo Charles percebeu que algo estava errado. Erik podia dizer o quanto pela forma como iniciou uma conversa. Erik?
Sim?
Erik afastou-se da janela e olhou para Charles. Charles inclinou sua cabeça. Você... você não está se sentindo bem.
A cada dia, Charles ficava mais e mais perceptivo - e também, cada vez mais podia dissociar as suas emoções e o seu corpo das emoções e do corpo de Erik. Erik suspirou. Não, eu não estou. Não havia necessidade de mentir ao ter um telepata dentro da sua cabeça, não importa o quão danificado estivesse. Charles emanou uma ponta de preocupação. Por quê?
Erik cerrou os dentes, olhando para a porta do quarto. Porque eu acho que nós deveríamos sair o quão breve.
Charles ficou tenso. Sair? Para onde?
Erik deu de ombros e pensou na sua resposta com cuidado para que ele não provocasse qualquer coisa. Para um lugar mais agradável.
Charles não respondeu, mas examinou cuidadosamente seu rosto com os olhos muito azuis. Erik deu um passo em direção à porta. Na verdade, precisamos de algo antes de irmos. Eles devem ter isso aqui. É a cadeira que uma vez eu mencionei.
Aquela com rodas?
Sim, essa, Erik concordou e estendeu a mão para a maçaneta da porta.
- Eu voltarei logo. Você pode falar comigo enquanto eu estiver fora, se quiser – disse. E Charles podia fazer isso; Erik sabia, com certeza, que Charles poderia alcançá-lo em qualquer parte do hospital. Isso era algo que Erik tinha notado durante sua breve estadia no refeitório ou em outro lugar. Charles não tinha problemas para se comunicar com ele através de seu link. Era, de alguma forma, reconfortante e... impressionante.
- Eu voltarei logo – disse Erik e abriu a porta. Ele entrou no corredor, apressado, perguntando onde poderia adquirir uma cadeira de rodas. Ele começou a caminhar em direção às salas de depósito situadas próximo à cafeteria, uma vez que era seu melhor palpite. Mas, subitamente, Erik tomou um susto - ele reconheceu uma figura no corredor. Ele congelou no meio da caminhada quando Leap virou-se para ele. Levou três curtos segundos para Erik ler no rosto de Leap que algo estava errado, muito errado... Leap olhou-o em pânico e começou a correr na sua direção.
- Magneto! Magneto ! - o teletransportador gritou e Erik quase não reconhecia mais seu outro nome. E não teve tempo de reagir, porque seu coração pulou na garganta e então girou nos calcanhares, o pânico e a adrenalina no máximo. Charles! Exatamente quando Erik pôs-se a andar, pode sentir o medo irradiando de Charles. Medo e confusão. E, então, o medo se intensificou e a cabeça de Erik foi rapidamente preenchida com um ruído estático tão ofuscante e doloroso que quase o derrubou, mas ele continuou se movendo porque... não, não, pelo amor de Deus. Charles!
Erik correu o mais rápido que pôde, empurrando violentamente as pessoas a sua passagem, Leap em seu encalço.
Quando Erik chegou à já familiar porta, conseguiu divisar mais cinco homens caminhando na sua direção do outro lado do corredor, todos irradiando perigo, com armas escondidas. Erik teria reconhecido esse uniforme em qualquer lugar – ele o vira nas pessoas que matou na sede da Chimera. Seu estômago afundou quando ele quase arrancou a porta ao abrir e se jogou dentro.
Havia duas figuras sombrias no quarto, uma junto a Charles, segurando-o duramente, e outro apontando sua arma.
- Não! NÃO! - Erik rugiu e todos os objetos de metal na sala levitaram até o teto em resposta ao pânico, tão rapidamente que alguns deles o atravessaram. Mas, para seu horror, Erik viu que os dois atacantes mal se intimidaram. Plástico. Eles usavam plástico, Erik pensou em desespero. Ele soltou um urro irritado e, inconseqüentemente, correu para os dois com tanta raiva que poderia ter partido suas cabeças com as próprias mãos. Um deles puxou Charles violentamente pelo braço, e Charles caiu no chão, as pernas imóveis esparramadas inutilmente. A agulha intravenosa foi arrancada também, fazendo romper a pele e irromper o sangue instantaneamente.
Erik podia sentir o pânico de Charles através do seu link, como as memórias antigas estavam perigosamente perto de ressurgir uma vez mais. Então, Erik atingiu o homem que assediava Charles, agarrou seu rosto, cravou as unhas na pele e perfurou um olho, jogando o homem, que então gritava, contra a parede tão violentamente quando podia. Erik procurou por qualquer coisa feita de metal que ele pudesse usar contra o homem, mas foi interrompido por outro que vinha na sua direção. Erik deu um soco, que só em parte atingiu o seu alvo, e em resposta recebeu um chute, numa luta confusa com o outro homem. Com seu poder, Erik, instintivamente, reuniu as pequenas peças metálicas da sala que podia; infelizmente, só havia itens como colheres, clipes de papel e canetas, mas isso não o impediu de arremessá-las duramente contra seu oponente, perfurando costas e pescoço. A colher, em parte, atravessou o pescoço do homem e ele rosnou de dor. Erik sentiu prazer, enquanto o observava resvalar e engasgar com o próprio sangue - os olhos arregalados, soltando horrível grasnando. Erik estava prestes a se virar quando algo o golpeou com força na parte de trás da sua cabeça. Erik caiu, gritando de surpresa e dor e, por um momento, sua visão embaçou na escuridão.
O tempo pareceu desacelerar.
Seus ouvidos vibraram. Tudo parecia muito distante, balbuciou como se ele não estivesse realmente lá.
Erik lutou, tentou recuperar o controle de seus membros e corpo, mas só pôde perceber como a figura nebulosa atrás de si agarrou-o pela camisa, ergueu uma arma e apontou-a para a sua cabeça.
Erik sabia que só tinha alguns milissegundos para viver. Esse era todo o tempo que ele dispunha para perceber – que iria morrer.
Mas a bala, seja o que for, nunca veio.
Em vez disso, Erik olhou para trás para ver as mãos do homem começando a tremer, sua expressão a mudar para uma aterrorizada - sangue ainda escorrendo da sua ferida, provavelmente do olho cego - e depois, lentamente, virar a arma em direção a própria cabeça.
Erik não entendeu, ele apenas olhou por um momento, mas depois seu cérebro compreendeu. Charles.
Os olhos de Erik procuraram por ele. Charles estava olhando para o homem armado com uma quantidade impressionante de lucidez e raiva. Erik podia sentir o medo de Charles, a confusão e a raiva através do seu link. NãomachuqueErikNãomachuquePareParePareEudissePARE.
Erik tropeçou torpemente nos pés e correu na direção de Charles. Ele caiu de joelhos ao seu lado, mas Charles não tirava os olhos do atirador. Ele irradiava medo e confusão. Ele queria machucá-lo.
Erik respirou tremulamente. Sim, Charles, ele quer me matar.
Charles virou-se para olhar para Erik. O momento parecia transcorrer vagarosamente. Charles parecia considerar o que tinha sido dito. Machucar você? Não, ele não pode.
Sem piscar sequer ou jamais quebrando o contato visual, Charles manteve os olhos em Erik quando o som de um tiro encheu a sala. Erik gritou de surpresa e uma mistura de horror e temor apoderou-se dele.
Ele não pode feri-lo, Charles afirmou, com determinação.
Erik assentiu, os olhos arregalados, olhando para Charles, que não tinha hesitado ao matar um homem. Não, não mais. O-obrigado, Charles.
Charles parecia não entender o que tinha acabado de fazer. Erik procurou qualquer malícia em seu rosto, porém não encontrou nenhuma.
Mas, então, Erik foi trazido de volta à realidade quando ouviu passos correndo do corredor. O pânico assumiu outra vez, e Erik olhou apressadamente para a porta.
- Leap! Leap! - Erik gritou. O maldito teletransportador vinha bem atrás dele - Onde ele estava agora? Porra.
Erik fechou a porta com o seu poder – isso, ao menos, retardaria os homens da Chimera por alguns segundos. Mas não havia outra saída. Eles estavam presos - o quarto ficava num andar muito alto, então usar a janela não adiantava. Eles não tinham armas e os objetos metálicos do quarto eram muito pequeno e sem relevância para fazer alguma diferença. Erik não era páreo para as armas de plástico ou do que quer que elas fossem feitas, e a impotência fez sua raiva arder em chamas. Havia muitos deles. Mesmo se ele pegasse as armas dos dois agentes mortos, estirados no chão, ele não poderia lutar sozinho contra cinco homens para proteger Charles. Sem mencionar que Charles não seria capaz de se esconder ou correr, ou se locomover para qualquer lugar sem Erik. E Erik não podia confiar nos poderes instáveis de Charles agora. Erik tentou pensar rápido, mas não conseguia achar nada que pudesse trabalhar.
- Leap! - ele gritou mais uma vez, desta vez em desespero.
O primeiro estrondo impactou na porta. Erik estremeceu e se virou para Charles.
- Nós precisamos sair. Precisamos sair agora! - Erik disse com voz firme.
Charles apenas olhou para ele, incerto. Tinha um pequeno ferimento na têmpora, um filete de sangue escorria pelo rosto de Charles. Mas Erik ignorou, não havia tempo. Ele podia sentir a mente de Charles titubeando em direção às memórias da Chimera novamente, as vozes assombrando e as imagens estendendo seus dedos negros bem na borda das suas mentes fundidas. O ataque tinha provocado tudo de novo, puxando-os para mais perto com velocidade alarmante.
Charles, não. Concentre-se em mim.
Erik podia sentir as defesas de Charles adelgaçando e suas pálpebras descenderam. Erik o sacudiu.
- Não, Charles! Lute!
Não caia. Fique comigo.
Erik podia sentir Charles começando a escorregar, a se afogar. Erik podia sentir a primeira pontada de dor febril em sua cabeça. Era apenas uma questão de segundos antes deles despencarem no abismo. Erik tomou o rosto de Charles em suas mãos.
- Charles. Olhe para mim. Abra os olhos - disse ele, freneticamente. Charles respirou ruidosamente, Erik o sacudiu em desespero - Olhe para mim!
Os olhos de Charles se abriram, em parte pela surpresa de ouvir Erik gritando com ele pela primeira vez. Mas Erik imediatamente cravou os olhos nos de Charles, exigindo sua atenção. Seus rostos estavam mal a centímetros de distância.
- Olhe para mim. Aquilo são apenas memórias. Não deixe que elas te controlem. Eu estou bem aqui. Isso é real, não aquelas coisas horríveis - Erik sibilou.
Charles parecia triste, perdido. O coração de Erik trovejou em seus próprios ouvidos. Seu aperto intensificou-se.
- Eu estou bem aqui. Eu estou bem aqui, Charles, com você. Eu sou real, não as memórias.
Você é real, Charles repetiu, fracamente.
- Sim, sim! Segure-se em mim. Não se entregue. Precisamos sair - disse Erik, dolorosamente consciente de seu tempo a se esgotar. Ele mordeu o lábio com tanta força que doía. - Coloque o seu braço em volta do meu pescoço - disse ele às pressas. Charles obedeceu.
Erik passou o braço em volta dos joelhos de Charles e o içou. Eles precisavam de cobertura. Qualquer coisa que fosse. Os olhos frenéticos de Erik esquadrinharam o quarto. Ele estava prestes a girar quando, de repente, Leap surgiu ao lado dele.
- Hora de ir - disse o jovem teletransportador, com um rosto pálido, ao tempo em esticava os braços e agarrava o ombro de Erik e a lateral de Charles. Então, em um piscar de olhos, eles tinham partido - pouco antes dos tiros começarem a chover através da porta.
