23 de setembro de 1980 – Batalha contra os cinco Comensais na qual James é estuporado.
26 de setembro de 1980 – Lily é vista pela última vez, no Cabeça de Javali
31 de outubro de 1981 – Batalha de Godric's Hollow, na qual Voldemort é derrotado.
22 de outubro de 1982 – Moody anuncia o retorno de Lily ao Quartel.
05 de novembro de 1982 – Dorea Potter morre.
18 de novembro de 1982 – Peter acusa Lily de ter roubado ingredientes do estoque de poções.
22 de novembro de 1982 – Benjamin Fenwick convida Lily para jantar com ele, em troca de informações sobre a Batalha Final.
26 de novembro de 1982 – Peter acusa Lily de roubar novamente. James e Peter brigam.
26 de novembro de 1982 – James descobre que Lily e Fenwick vão sair.
AVISO IMPORTANTE: Este capítulo contém cenas mais fortes do que os capítulos anteriores. Se você não gosta de cenas de duelo, luta e (um pouco de) sangue, por favor, não leia a cena que se inicia com a data "[Domingo, 05 de dezembro de 1982, 01h05]". A cena que vem após essa meio que resume a cena em questão, então você não ficará sem entender, não se preocupe.
Capítulo 10 – Fraturas
[Segunda-feira, 04 de junho de 1979, 12h31]
O céu, naquela manhã de segunda-feira, estava limpo. O sol cintilava intensamente no horizonte, como se estivesse convidando a todos para aproveitar aquele belo dia de verão ao ar livre, sob seu calor. Ou pelo menos era esta a sensação que a paisagem exibida pela janela enfeitiçada da sala de reunião do Departamento de Aurores transmitia à Alice naquele momento.
Mas não havia a menor possibilidade de Alice sair para aproveitar despreocupadamente um dia de verão, ou qualquer outro, tão cedo. Não enquanto o bruxo das trevas mais poderoso de todos os tempos ganhava forças para prosseguir com seus planos truculentos a cada dia. Não enquanto trouxas e bruxos nascidos trouxas eram assassinados por ele e seus seguidores. Não enquanto ela pudesse fazer qualquer coisa para evitar que mais inocentes sofressem as consequências trazidas pela propagação do ideal bárbaro e desumano defendido por Lord Voldemort.
Alice vira metade de seus colegas aurores morrerem em duelos nos últimos meses. Em uma batalha particularmente árdua no fim do ano anterior, treze aurores foram brutalmente eliminados por Comensais da Morte em uma única noite. Desde aquele fatídico duelo, o Ministério da Magia perdera o pouco controle que restava sobre o crescente número de ataques. E a população mágica, que já se sentia insegura havia anos, perdera qualquer vestígio da esperança de ver a paz voltar a reinar um dia.
— Longbottom.
Nos últimos três anos, Alice e Frank foram os únicos aurores a concluírem o curso de formação oferecido pela Academia e, consequentemente, a juntarem-se ao Departamento. Diante do panorama caótico no qual a sociedade bruxa se encontrava, eram poucos os bruxos que ainda optavam por seguir a carreira de auror e a maioria desistia antes de concluir o treinamento obrigatório. A profissão perdera totalmente o prestígio de outrora: ser auror tornara-se sinônimo de suicídio.
— Longbottom!
Alice finalmente compreendeu que Alastor Moody dirigia-se a ela e não a Frank. Ainda não havia se acostumado a ser chamada pelo sobrenome do marido. Ao desviar os olhos da paisagem da janela, Alice notou que todos os colegas presentes a fitavam com uma expressão interrogativa. Ela afastou os pensamentos amargurados de sua mente e encarou o chefe com firmeza.
— Sim, senhor.
— Quantos candidatos faltam ser avaliados? – Moody questionou, impaciente.
Alice suspirou. Por conta da falta de procura pela carreira e de bruxos devidamente habilitados para defender a população, o treinamento da Academia de Aurores teve sua duração reduzida pela metade. Havia pouco mais de meia dúzia de aurores trabalhando na equipe naquele momento e os constantes ataques pelo país exigiam, pelo menos, uma vintena de bruxos para dar conta de todo aquele caos. Com a finalidade de remediar a situação, Alice e Benjamin Fenwick haviam sido encarregados de avaliar os aurores recém-formados, a fim de verificar se estavam realmente aptos a juntarem-se ao Quartel General.
— Hum... – ela abaixou os olhos para verificar uma pequena lista de nomes rabiscados em sua agenda. – Acho que faltam apenas Potter e Evans. Mas Evans não estava na Academia hoje pela manhã, quando estive lá, e Potter será avaliado por Fe–
— Eu avaliei Potter hoje cedo. – Fenwick a interrompeu, do outro lado da mesa. – Ele foi aprovado. Não gostei muito dele, mas ele se saiu muito bem no exame de Transfiguração e de Desenvoltura em Duelos. E não é como se tivéssemos muitas opções, não é? Já autorizamos até um lobisomen a trabalhar entre nós...
Alice passou a mão pelos cabelos curtos, esforçando-se para manter seus pensamentos voltados àquela reunião.
— Vou enviar uma coruja à Evans solicitando que ela compareça à Academia amanhã. – disse, por fim, pois sabia que seu chefe estava aguardando que ela lhe oferecesse uma solução para o problema.
— Não há tempo para isso, Longbottom. – Moody rebateu, num tom grave. – Estamos em estado de emergência. A qualquer momento podemos precisar de gente para conter um ataque surpresa e nós não temos aurores o suficiente.
— Mas como eu–
— Scrimgeour me informou de que Evans teve de ser encaminhada ao St. Mungus após os exames finais, pois se feriu durante o exame prático de Desenvoltura em Duelos. Provavelmente foi por isso que você não a encontrou na Academia. Quero que vá para o St. Mungus imediatamente e finalize a avaliação dela.
— Ela se machucou durante um duelo simulado de um exame? – Alice arqueou as sobrancelhas em desdém. – Você quer mesmo que eu perca tempo avaliando alguém que não sabe nem duelar?
Moody contraiu os maxilares, mas não lhe devolveu a resposta ríspida que parecia ter na ponta da língua. Ao seu lado, Frank colocou uma mão sobre a sua.
— Al. – ele a chamou num murmúrio. Alice não o encarou. Ela sabia que não tinha escolha.
Para deixar clara sua contrariedade, Alice arrastou sua cadeira para trás e colocou-se de pé demoradamente. Sem nenhuma pressa, ela caminhou até a saída da sala e não fechou a porta ao sair.
—-
O distintivo de auror poupara Alice de ter de pegar a longa fila que serpenteava pela recepção do Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos. Ao aproximar-se do balcão e indicar o broche dourado preso à camisa, a recepcionista apontou-lhe a entrada imediatamente. Sem hesitar, Alice dirigiu-se às escadarias e subiu quatro lances de escada de uma só vez. Ela atravessou o corredor do quarto andar apressadamente, virando a cabeça para os lados para conferir os números sobre as portas, e interrompeu os passos diante do quarto número 406. Respirou fundo e bateu na porta.
— Entre.
Alice entrou na enfermaria. Lily Evans estava acomodada em seu leito hospitalar com um livro aberto sobre o colo. Exceto pelo antebraço direito engessado, a jovem esbanjava saúde. E beleza. Alice não havia imaginado que Evans fosse tão bonita.
— Auror Fawley. – Evans quebrou o silêncio, fazendo uma breve mesura com a cabeça. Alice não conteve um pequeno sorriso ao ouvir o sobrenome de seu pai.
— Boa tarde, Evans. – ela lhe retribuiu a mesura. – Estou aqui para conduzir a última etapa da sua avaliação. Se você não estiver se sentindo bem e quiser que eu volte outra hora, sinta-se à vontade para me dizer isso imediatamente.
— Eu estou ótima, não se preocupe. – Evans respondeu, num tom agradecido. – Foi só um mau jeito no pulso.
Alice encontrou a deixa para começar. Ela postou-se diante do leito e retirou do bolso interno um rolo de pergaminho. Desenrolou-o e leu-o rapidamente.
— Mau jeito no pulso? – repetiu, sem tirar os olhos do relatório do Professor Scrimgeour que recebera mais cedo. – Bom, aqui diz que você hesitou ao lançar uma azaração decisiva em seu oponente e optou, um pouco tarde demais, por lançar um Feitiço Escudo. Como seu oponente foi mais rápido ao tomar a decisão, você foi atingida no braço por um Feitiço Compulsor antes que conseguisse executar o encantamento de proteção a tempo. Em seguida, você foi encaminhada a este hospital com uma fratura cominutiva no antebraço direito. Correto?
Evans não se abalou nem um pouco ao ouvir seu fracasso no exame final de Desenvoltura em Duelos ser narrado com tamanha frieza. Alice achou que a deixaria desconcertada e desarmaria sua confiança para as próximas perguntas. Mas Evans apenas meneou a cabeça, dizendo:
— Sim, foi exatamente isso.
Alice semicerrou os olhos.
— Por que hesitou ao azarar seu oponente? Pelo que vi em seu histórico, você obteve a nota máxima nos exames anteriores de Desenvoltura em Duelos. O que houve desta vez?
Evans suspirou, pensativa.
— Meu oponente era o Professor Silenus Hans. Ele é um homem muito idoso, tem algumas sequelas em uma das pernas desde que lutou em–
— Eu conheço o Professor Hans, Evans. – Alice cortou-a, impaciente. – Apenas responda à pergunta. Por que hesitou? Foi o nervosismo por conta do exame? Ou você ainda não domina a azaração que pretendia lançar?
Pela primeira vez, Evans pareceu incerta do que responder. Ela baixou o olhar e observou o braço engessado por um momento.
— Não tenho por que mentir para você. – ela começou, sem tirar os olhos do antebraço fraturado. – Hesitei porque tive medo de machucar o Professor Hans. Somos muito próximos, aprendi muito com ele neste último ano. – Evans voltou a encarar Alice. – Ele tem sido um ótimo mentor, não só para mim, mas para todos na Academia. Hesitei ao lançar a azaração contra ele porque, se eu conseguisse atingi-lo, ele poderia perder as poucas chances que tem de voltar a andar sem mancar. Sei que ele sofre muito com a perna, pois sempre o ajudo a preparar poções para dor. Por isso optei por lançar um Feitiço Escudo. Queria ganhar tempo para pensar em uma alternativa de vencer o duelo sem precisar comprometer a saúde do meu oponente. Mas não deu muito certo, como pode ver...
Alice desfez a expressão carrancuda e piscou algumas vezes. Não estivera esperando por uma resposta tão particular como aquela. Esperava que Evans apenas listasse suas falhas e refletisse sobre o que deveria ter feito para ter vencido o duelo, demonstrando que dominava estratégias e recursos de combate o suficiente para merecer uma chance. Mas aquele discurso carregado de sentimentalismo mostrou-lhe o contrário. Evans não possuía o perfil que o Departamento de Aurores estava buscando. Provavelmente não duraria um minuto em um duelo contra um Comensal da Morte.
— Compreendo... – Alice pigarreou. – Mas infelizmente não poderei aprová-la, Evans. No momento em que vivemos, qualquer um pode ser um Comensal da Morte, inclusive pessoas idosas e coxas por quem você tenha imensa consideração, como o Professor Hans. Temos de estar preparados para lutar em qualquer ocasião, contra qualquer um. Nesta guerra não há lugar para piedosos, como você. Os seguidores de Você-Sabe-Quem torturam e matam pessoas inocentes. E devem pagar por isso, independentemente da idade que tenham e da dor física que possam estar sentindo na hora do duelo. Procuramos por aurores que tenham sangue-frio e que não hesitem em ferir ou até mesmo eliminar um Comensal da Morte. – Alice uniu as mãos e crispou os lábios. – Sinto muito, Evans. Não será possível tê-la conosco no Quartel.
— Auror Fawley, por favor!— Evans afastou as cobertas com o braço livre e colocou as pernas para fora da cama. – Por favor, eu peço para que–
Naquele momento, a porta do quarto se abriu e uma curandeira vestida de branco entrou. Os olhos da mulher se arregalaram ao flagrarem Evans pousando os pés descalços no chão.
— Senhorita Evans, mas o que está fazendo? – ela avançou em direção ao leito. – Você precisa ficar absolutamente imóvel pelas próximas sete horas para que seus ossos se restaurem!
— Desculpe, eu–
— Vamos, deite-se. – a curandeira empurrou Evans de volta para os travesseiros e cobriu suas pernas novamente. – Vim lhe dar a segunda dose da Poção Calcificadora.
Evans assumiu uma expressão meditativa. Ao seu lado, a curandeira conjurou um pequeno jarro e começou a mexer seu conteúdo com a ponta da varinha.
— Madame Nunley, estive pensando... – Evans começou lentamente. – Não seria melhor tratar minha fratura com a Poção Cola-Osso? Na Poção Calcificadora vai muito Repolho Chinês Glutão, um ingrediente que possui uma concentração muito alta de cálcio, e, devido ao meu histórico familiar, poderia conduzir à formação de cálculos renais. Já a Poção Cola-Osso é feita a base de erva-canudo, a erva mais indicada para o meu tipo de fratura. O que acha?
Madame Nunley interrompeu seus movimentos para fitá-la com admiração. Alice, que estava prestes a apressar a curandeira para poder voltar à sua avaliação e finalmente encerrá-la, decidiu manter-se em silêncio.
— Hmmm... – Madame Nunley murmurou, ainda assimilando as informações. – Pode ser, pode ser... mas preciso falar com Madame Kloves antes de alterar o tratamento, sim? Pode aguardar um momento?
— Claro. – Evans sorriu. – Não vou sair daqui.
No instante seguinte, Alice e Evans encontravam-se novamente sozinhas no quarto número 406. Evans ajeitou suas cobertas e colocou o livro, que anteriormente estava em seu colo, sobre a mesa de cabeceira. Enquanto escolhia a melhor forma de retomar seu parecer final, Alice caminhou até a cama e manteve uma distância respeitosa da jovem que a ocupava.
— Posso lhe fazer uma sugestão?
Evans olhou-a nos olhos e assentiu.
— Não tenho como aprovar sua contratação pelo Quartel General. Mas você parece ter muita vocação para a área médica. – Alice fez uma pausa, aguardando Evans protestar. Mas ela apenas negou com a cabeça algumas vezes, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. Alice tentou soar o mais gentil possível: – Talvez seja esse o seu dom, Evans. Você ainda poderia colaborar com a guerra, cuidando daqueles que se ferem ao combater as Artes das Trevas... você teve notas excelentes em seus N.I.E.M.'s e ainda poderia se inscrever no Curso de Formação de Curandeiros ou–
— Você não entende. – Evans a interrompeu. – Eu não vou deixar de lutar, Auror Fawley. Independentemente de não poder lutar com vocês, aurores, eu vou lutar. Não vejo outro caminho para seguir e não quero seguir outro caminho.
— Evans...
— Você tem sangue-puro, não tem? Fawley é uma das vinte e oito Famílias Sagradas, se não me engano. – continuou ela, ignorando sua tentativa de recuperar a palavra. – Então você poderia escolher qualquer profissão para seguir, se quisesse, mesmo nos tempos sombrios em que vivemos. Mas eu não. Eu sou nascida-trouxa. Minha mãe e minha irmã são trouxas. Eu não tenho escolha, Auror Fawley. Eu preciso lutar. Essa guerra é sobre pessoas como eu e minha família, e eu não conseguirei fazer outra coisa a não ser lutar contra aqueles que nos consideram inferiores e querem nos extinguir.
Alice ficou muito quieta quando o impacto daquelas palavras a atingiu. Aquele discurso fizera com que ela se sentisse vazia e estranhamente privilegiada. Embora já houvesse passado por inúmeras perdas por conta da guerra, Alice não havia perdido nenhum membro de sua família. Seus parentes não corriam riscos, pois eram frutos de uma linhagem mágica muito antiga. E o mesmo se aplicava à família de Frank, o homem com quem se casara havia poucas semanas. Alice lutava pelo fim da guerra para reaver a vida tranquila que tivera um dia, antes do início daquele caos.
Mas Lily Evans queria lutar para garantir sua própria sobrevivência e a de seus entes queridos.
Ao ser inundada por aquela súbita onda de consciência, Alice não conseguiu mais sustentar o contato visual com Evans ou lhe dizer qualquer coisa. Pois nada que enunciasse poderia se sobrepor ao argumento triunfante que acabara de ouvir.
— Você mesma mencionou minhas notas anteriores em Desenvoltura em Duelos. – Evans quebrou o silêncio, buscando fazer um novo contato visual, mas Alice não lhe correspondeu. Permaneceu encarando o piso do quarto. – Eu sei duelar, Auror Fawley. O que aconteceu hoje cedo não vai se repetir, eu prometo. Por favor, deixe-me lutar com vocês.
Lentamente, Alice ergueu a cabeça. Enfrentou os olhos verdes de Evans e viu neles o mais puro desejo de lutar. Um desejo cuja intensidade ela raramente detectava nos olhos de seus colegas de Quartel, principalmente após os últimos acontecimentos. E, diante do panorama desesperador no qual a comunidade bruxa se encontrava, haveria alguma razão para recusar alguém que realmente quisesse lutar? E que legitimamente possuísse este direito?
— Vou lhe dar essa chance. – decidiu Alice. Fez uma pausa para expirar todo o ar de seus pulmões e finalmente continuou: – Mas só lhe peço uma coisa: nunca hesite diante de um Comensal da Morte. É possível que você ainda encontre alguns conhecidos, ex-colegas de Hogwarts, ou até mesmo amigos, lutando ao lado do inimigo. Mas não hesite ao duelar com eles; porque eles não hesitarão. E nós já perdemos gente demais nessa guerra.
Os olhos de Evans encheram-se de lágrimas e um sorriso agradecido iluminou seu rosto. Aparentemente incapaz de se fazer entender com palavras, a jovem estendeu o braço esquerdo para Alice, propondo-lhe um aperto de mão.
— Prometo que não irei desapontá-la, Auror Fawley.
— Confio em você, Evans. – Alice sorriu, aceitando o cumprimento. Em seguida, abanou a cabeça e, a tempo, corrigiu-se: – Auror Evans.
[Segunda-feira, 29 de novembro de 1982, 09h31]
Na manhã de segunda-feira, Kingsley Shacklebolt estava esperando por James na porta de sua sala. Assim que o viu, o jovem auror informou-o de que Olho-Tonto Moody gostaria de vê-lo imediatamente. James estranhou o modo com o qual seu chefe quisera alertá-lo sobre a reunião, mas os sintomas de sua forte ressaca não permitiram que ele dedicasse muitos pensamentos àquela atitude incomum. Sua cabeça latejava insistentemente e seu estômago se contorcia como se protestasse contra a ingestão excessiva de álcool que tivera de processar nos últimos dois dias.
James agradeceu Shacklebolt e percorreu o resto do corredor, dirigindo-se então à sala de Moody. No momento em que levantou a mão para bater na porta, ela foi aberta por dentro por Benjamin Fenwick.
— Entre, Potter.
Finalmente tomado por uma sensação de desconfiança, James entrou. Como de habitual, Moody estava sentado em seu lugar à mesa e não o convidou a se sentar. James avançou pela sala e parou atrás da cadeira na qual teria se sentado, se Moody o tivesse convidado. Do outro lado da mesa, o chefe o estudava em silêncio.
— Bom dia, Potter. – Moody começou quando Fenwick se juntou a James, após ter fechado a porta. O chefe do Departamento dos Aurores fez uma pausa reflexiva. Quando voltou a falar, foi direto ao ponto: – Robin Mould assaltou uma bruxa idosa em Covent Garden, sábado à noite. E você não compareceu ao chamado de emergência que lhe enviei.
James lembrou-se vagamente de ter sido acordado pelo Patrono de Moody na noite de sábado. Contudo, ele não fora capaz de absorver a mensagem que o encantamento lhe transmitira, pois sua consciência, àquela altura, estava embriagada demais para permitir com que raciocinasse com clareza. Assim que o feixe de luz prateada se dissipou no ar, James voltou a fechar os olhos e adormeceu quase de imediato.
— Eu não estava me sentindo bem naquela noite. – James informou, sabendo que não faria diferença.
— Mould escapou mais uma vez, Potter! – Moody vociferou, contorcendo a face cheia de cicatrizes. – E ele ainda está solto porque você nunca demonstrou qualquer empenho para tentar capturá-lo! Até o momento, você nunca me apresentou um planejamento para prevenir mais ataques, ou uma análise comportamental do criminoso, nada, absolutamente nada que indicasse que você e sua equipe estivessem trabalhando para realizar seu dever!
Fez-se um silêncio desconfortável. James não ousou justificar-se com outra mentira. Moody estava certo, ele não havia elaborado nada para capturar Robin Mould ou evitar que ele atacasse novamente até então.
— Com base no que tenho observado, Potter, a sua liderança, ou a falta dela, é o cerne de todos os problemas desse departamento. – Moody recomeçou, no mesmo tom insatisfeito. – E eu não me refiro apenas à situação insustentável de Robin Mould, mas também aos problemas internos de convivência que surgiram nas últimas semanas. Você se tornou um péssimo líder. Não sei identificar se seu declínio começou por conta do retorno de Evans à equipe ou por conta do falecimento de sua mãe. O fato é que sua autoridade perdeu a força, Potter, e isso abriu espaço para o surgimento da discórdia dentro do departamento. E, consequentemente, alguns aurores, principalmente os seus amiguinhos, passaram a agir como bem entendiam no ambiente de trabalho, indiferentes a possíveis punições...
— Moody, se você está se referindo às suspeitas de Lily Evans estar roubando os estoques, saiba que eu pretendo afastá-la da Sala de Preparos–
— Lily não está roubando nada. – Fenwick o interrompeu. Naquele instante, James desejou que ele e Moody estivessem tendo aquela conversa sem a presença do arrogante colega. Por que Fenwick estava ali, afinal?
Moody pigarreou alto, impedindo que uma discussão se iniciasse. Ao seu lado, Fenwick cruzou os braços e tornou a se virar para frente.
— Na verdade, Potter, eu me referia à atitude repetidamente agressiva de Pettigrew para com Evans nas últimas semanas. Essa situação se tornou inadmissível e eu decidi interferir.
James sustentou o olhar rígido do chefe, aguardando a continuação.
— A princípio, pensei seriamente em demitir vocês dois. – continuou Moody, ignorando a incredulidade que passou a dominar a expressão de James. – Tanto você quanto Pettigrew cometeram atos de violência dentro do ambiente de trabalho e é de conhecimento geral que tal comportamento resulta em demissão por justa causa. Mas, por motivos burocráticos, eu tive de considerar que, até pouco tempo atrás, você apresentava um desempenho exemplar e o Ministério sempre estará em dívida com você pela organização da Batalha Final, no ano passado. Então você ainda fica, Potter, mas sob novas condições, as quais explicarei em breve. Já Pettigrew, que nunca se mostrou competente em nenhum dos setores nos quais atuou no departamento, não continuará mais na minha equipe–
— Moody, você também deveria considerar–
— Eu o demiti há uma hora, Potter. – Moody elevou o tom de voz, a fim de se sobrepor à argumentação de James. – E não chamei você aqui para perguntar sua opinião a respeito da minha decisão. Quanto às novas condições de sua permanência, você precisa saber o seguinte: você não será mais o Auror Capitão. Já conversei com Fenwick antes de você chegar e ele aceitou se ocupar deste cargo. Isso significa que, a partir de agora, você estará subordinado às ordens dele e–
De repente, a porta da sala foi escancarada com veemência. Lily irrompeu pela passagem ao mesmo tempo em que dizia:
— Moody, eu preciso–
James virou a cabeça na direção de sua voz no instante em que a havia reconhecido. Assim que percebeu que Moody não estava sozinho em sua sala, Lily se calou. Ela congelou junto à entrada do aposento ao constatar a presença de James e Fenwick, mas não fez menção de dar meia volta e sair.
Lily parecia fatigada. Cada centímetro de sua aparência naquele momento demonstrava cansaço. Seu cabelo acaju estava preso em um rabo de cavalo já quase desfeito e seus olhos estavam muito vermelhos, realçando as habituais olheiras – agora ainda mais escuras. Ao registrar a profunda fragilidade que a envolvia, James sentiu toda raiva que acumulara por ela se dissipar. Ele baixou um pouco os olhos, permitindo-se ser dominado por um estranho sentimento de culpa. Foi então que notou que as mãos de Lily possuíam alguns ferimentos recentes, já cobertos por uma crosta de sangue seco. James estreitou os olhos para analisá-los melhor, mas Lily colocou as mãos atrás das costas ao detectar seu olhar examinador.
— Desculpem. – falou, baixando os olhos. – Eu não sabia qu–
— O que houve com você? – James não se conteve. – Você está bem?
Ele involuntariamente aproximou-se para ampará-la, mas Lily lhe dirigiu um olhar carregado de desprezo e rancor. Sem precisar dizer palavra alguma, ela o proibiu de chegar mais perto. E James estacou diante de seu semblante subitamente furioso.
— Evans, essa não é uma boa hora. – Moody informou; seu olho mágico examinou Lily de cima a baixo três vezes antes de voltar a falar: – Eu a avisarei quando puder falar com você.
Contudo, Lily não parecia disposta a esperar. Ela disparou na direção do chefe.
— Lily... – Fenwick a chamou, inutilmente.
— Você me disse que tudo estava bem! – Lily se desvencilhou de Fenwick, passou reto por James e só parou de avançar quando suas coxas bateram no batente da mesa de Moody. O chefe do Departamento de Aurores permaneceu imóvel, largado sobre a cadeira. – Você mentiu para mim! Eles ainda estão agindo, Moody, eu vi! Você precisa acreditar em mim, você precisa colocar alguém para vigiar M–
— Evans. – Moody se colocou de pé e inclinou-se para frente. Lily enfrentou-o com altivez. – Agora não é o momento. Por favor, saia.
— Você precisa colocar alguém atrás de Malfoy. – Lily insistiu. – Ele está agindo, ele–
— Não que isso seja remotamente da sua conta, mas Sturgis Podmore passa o dia todo nos arredores da mansão dos Malfoy, Evans. – rosnou Moody, impaciente. – Recebo relatórios dele semanalmente. Você não precisa se preocupar. Agora, saia.
Lily endireitou a postura e respirou fundo, mas não fez menção de se dirigir à saída. James aproveitou aqueles instantes de silêncio para organizar seus pensamentos. Ele já desconfiava que Lily estivesse investigando Lucius Malfoy por conta própria, mas ele não conseguia pressupor os motivos que a engajavam a fazê-lo. Por que ela estava tão empenhada? O que ela sabia sobre Malfoy que os demais aurores pareciam desconhecer?
A voz de Lily o arrancou de seus devaneios.
— Então é assim que você acha que está vigiando Malfoy e os outros Comensais da Morte que não foram presos, Moody? Você acha que colocar um auror do lado de fora da casa deles os impede de voltar a agir? – Lily arqueou as sobrancelhas e tomou fôlego: – Todos os sábados, Malfoy entra no mesmo beco sem saída da Travessa do Tranco e usa uma chave de portal, provavelmente ilegal, para ir a algum lugar. Por acaso isso estava nos relatórios das últimas semanas, Moody? Ou você achou mesmo que Malfoy fosse estúpido o bastante para fazer reuniões conspiratórias em sua sala de jantar, com as cortinas abertas, para que Podmore pudesse ver tudo?
— Você está insinuando que meu método de vigilância é amador, Evans? Justo você? – Moody indagou entredentes. Pela primeira vez durante toda aquela troca de farpas, o auror pareceu ultrajado com suas alfinetadas. – De fato, esse evento que você acaba de me relatar não constava nos relatórios de Podmore. Mas você está superestimando Malfoy ao dizer que ele não seria estúpido de fazer reuniões conspiratórias em sua sala de jantar. Um mês atrás, muito antes de você começar a xeretar o que não lhe diz respeito, Podmore relatou que Gerard Goyle fez uma visita à mansão Malfoy na mesma noite do enterro de Dorea Potter, imaginando, talvez, que todos os aurores estariam ocupados prestando suas homenagens no cemitério àquela hora. Até então, nenhum ex-Comensal da Morte havia sido visto com outro ex-Comensal da Morte durante o último ano inteiro. – Moody interrompeu-se para apreciar o efeito de suas palavras em Lily. Ela engoliu em seco e seus olhos se perderam em algum ponto na parede atrás dele. Após um pigarro, ele continuou: – Obviamente, Podmore e eu iniciamos uma investigação extraconfidencial acerca do assunto. Portanto, agradeço por contribuir com a informação sobre a chave de portal, Evans, e ficarei no aguardo de um relatório mais detalhado sobre o evento. Ademais, peço apenas para que pare de se meter em investigações que não lhe foram conferidas. Tenha um bom dia.
Encerrando a questão, Moody lentamente se largou sobre seu assento e apoiou os cotovelos nos braços da cadeira. Lily ainda precisou de alguns segundos para voltar a si; quando o fez, ela balançou a cabeça, deu meia volta e, sem dizer mais nada, adiantou-se em direção à saída da sala.
— Vocês dois também estão dispensados. – Moody declarou, referindo-se a James e Fenwick.
Sem tentar esconder a profunda perturbação deixada pelo diálogo que acabara de presenciar, James seguiu os mesmos passos de Lily. Naquele momento, a notícia sobre a demissão de Peter e o rebaixamento de sua posição no Quartel não pareciam ter mais qualquer importância. Ele precisava falar com Lily, precisava se desculpar com ela e lhe oferecer seu apoio. Quando a mandara embora de seu apartamento na noite da última sexta-feira, James não imaginava que o que Lily tinha em mente fosse uma investigação insensata e, sobretudo, que pudesse acabar se ferindo – mesmo que minimamente. Apesar da enorme decepção que ainda sentia por ter compreendido que ela não havia partido por um bem maior e que definitivamente não havia voltado por ele, James não iria permitir que Lily se arriscasse sozinha pelos becos da Travessa do Tranco, principalmente quando não havia qualquer motivo para que ela o fizesse. Tudo estava bem. E ele precisava garantir isso a ela.
Mas Fenwick ultrapassou-o ao sair pela porta, empurrando-o discretamente, e foi o primeiro a alcançá-la. Antes que James pudesse fazer qualquer coisa, o novo Auror Capitão acelerou o passo e postou-se ao lado esquerdo de Lily, que marchava pelo longo corredor alguns metros à frente. Fenwick pousou a mão nas costas dela, fazendo-a notar sua presença.
— Ben, desculpe, mas agora não...
— Vá para casa, Lily. Você precisa descansar.
— Não vou conseguir descansar.
— Venha, use a lareira da minha sala.
Lily interrompeu sua caminhada e olhou-o perplexa. Haviam chegado à porta da antiga sala de James, a qual agora consequentemente deveria pertencer a Fenwick.
— Sou o novo Auror Capitão. – ele explicou, pomposamente. A mão de Fenwick desceu alguns centímetros pelas costas de Lily, parando em sua cintura. A alguns passos atrás dos dois, as pernas de James involuntariamente pararam de se mover ao detectar aquele movimento. Ele viu Lily tornar a se virar para frente, como se estivesse absorvendo aquela nova informação, ao passo em que Fenwick virava o rosto alguns centímetros para trás para lançar a James um olhar rápido de soslaio. Em seguida, ele voltou a se dirigir à Lily: – Vamos, você precisa voltar para casa e descansar.
Com a mão livre, Fenwick abriu a porta de sua sala e, puxando Lily pela cintura, conduziu-a delicadamente para dentro.
— Não, eu não posso voltar para onde moro agora...
— Isso não é problema. Venha.
Quando os dois desapareceram de sua vista, James finalmente despertou do choque pelo qual fora paralisado e resolveu insistir em suas intenções iniciais: desculpar-se com Lily.
Ele alcançou a porta no momento em que Fenwick estava terminando de cerrá-la. Nos instantes em que sua abertura lhe permitiu um breve vislumbre da sala, James pôde ver Lily, de costas, parada junto à mesa. Ele fez menção de se colocar entre a porta e o batente, a fim de impedir que a passagem se fechasse e fazer com que sua presença fosse notada pelos dois, mas as palavras de Fenwick o paralisaram mais uma vez:
— Então vá para a minha casa, querida. Prepare um banho na banheira. Encontrarei você lá daqui a pouco.
O baque da porta ecoou pelo corredor. E James descobriu que era tarde demais.
[Segunda-feira, 29 de novembro de 1982, 09h40]
— Perdão, o que disse?
Lily se virou para ele, a testa franzida em confusão. Benjamin soltou a maçaneta e afastou-se da porta, a fim de não precisar elevar o volume de sua voz para lhe responder. Afinal de contas, Potter ainda poderia estar tentando ouvir atrás da porta e não havia mais nada naquela conversa que Benjamin gostaria que o antigo Auror Capitão ouvisse.
— Eu disse para você ir para a sua casa tomar um banho de banheira. – Benjamin sabiamente adaptou sua sentença anterior e abriu um sorriso indulgente para a jovem confusa diante dele. – Você precisa relaxar um pouco.
Ele pôde ver o rosto de Lily corar sob a camada de poeira que o encobria.
— Desculpe, pensei ter ouvido outra coisa... – ela sacudiu a cabeça. – De qualquer forma, eu... eu não sei se conseguiria relaxar, preciso...
— Lily. – Benjamin a chamou, com a voz firme. Ela suspirou e ergueu os olhos para ele. – Eu não vou perder meu tempo perguntando o que está acontecendo, porque eu sei que você não vai me contar. Mas não me peça para fingir que não estou vendo o seu estado nesse momento. Você parece doente. E suas mãos têm alguns cortes que ainda estão abertos. Você precisa ir à ala hospitalar do departamento para tratar dessas lesões e precisa voltar para casa e descansar. Está ouvindo?
Lily ergueu as mãos com as palmas viradas para cima e as contemplou com nítido pesar. Benjamin deduziu que ela adquirira tais ferimentos por ter se mantido de bruços em uma superfície áspera por muito tempo. A localização dos arranhões denunciava que estes não haviam sido causados por uma luta corporal. Provavelmente os cotovelos e joelhos de Lily também possuíam os mesmos hematomas.
— Benjamin... – Lily quebrou o silêncio, voltando a fitá-lo. – Agora que você é o Auror Capitão, você precisa começar a investigar a equipe da Seção de Chaves de Portais. Malfoy está agindo e tem gente de dentro do Ministério colaborando. – ela fez uma pausa, parecendo indecisa sobre se continuava enunciando seu raciocínio ou não. Benjamin a aguardou, pacientemente. Por fim, Lily tomou fôlego e prosseguiu: – S-será que você pode me dizer quais Comensais da Morte não foram presos? Fiquei afastada por muito tempo, não sei quantos comensais novos vocês encontraram no último ano da guerra, também não sei quantos nomes os jornais abafaram por terem sido subornados ou–
— Lily. – Benjamin a interrompeu. – Acalme-se. Você não precisa se preocupar com isso. Você-Sabe-Quem não tem nenhuma chance de voltar. – assim que fizera tal afirmação, ele descobriu que dissera exatamente o que Lily precisava ouvir. A expressão aflita dela foi amenizada instantaneamente. Benjamin voltou a falar num tom de voz baixíssimo: – Sábado, quando estivermos bem longe daqui, podemos conversar melhor sobre isso. Pode ser?
Lily balançou a cabeça positivamente.
— Pode me prometer que não vai se meter em becos da Travessa do Tranco até lá? – Benjamin arriscou, dando um passo à frente. Percebeu, então, que naquele momento seu nariz estava a apenas um palmo de distância do dela.
— Preciso ir. – ela decidiu subitamente.
Lily adiantou-se em direção à lareira, na extremidade oposta da sala. Benjamin não tentou impedi-la.
— Primeiro vá à ala hospitalar, Lily. – ele pediu.
— Tenho poções em casa para cuidar de tudo isso. – Lily rebateu prontamente, erguendo o braço para alcançar o pó de flu no batente superior da lareira. Ela pegou um punhado da areia prateada e lançou-o ao fogo baixo. Quando as chamas cresceram e tornaram-se verdes, Lily adentrou a cavidade e virou-se para frente. – Obrigada pela preocupação, Ben. Até amanhã.
Ele não ouviu o endereço que ela proferiu. Viu-a sacar a varinha do bolso interno do casaco e realizar um feitiço não verbal para silenciar o ambiente e evitar que ele o ouvisse. Em seguida, sem produzir um ruído sequer, o fogo esverdeado se intensificou e a envolveu. No instante seguinte, a coloração verde desapareceu por completo, levando Lily consigo.
Poucas horas após Lily ter partido pela lareira da sala de Fenwick, Alastor Moody convocou uma reunião com os demais aurores para transmitir-lhes as últimas notícias. Quando o Chefe do Departamento de Aurores terminou de lhes comunicar a demissão de Peter Pettigrew e a nomeação de Fenwick como novo Auror Capitão, Sirius Black levantou-se abruptamente de sua cadeira e deixou a sala, batendo a porta ao sair. Aproveitando o silêncio chocado do restante de sua equipe, Moody prosseguiu, como se nada o houvesse interrompido, e informou-os também de que Lily Evans seria afastada de modo definitivo da Sala de Preparos e que seu acesso à sala na qual os ingredientes das poções eram armazenados seria vetado terminantemente. Por fim, ele reforçou que Dedalus Diggle voltaria a ser o único responsável pelo preparo das poções, o que fez Alice Longbottom finalmente quebrar o silêncio para dizer que ao menos uma das novidades fazia algum sentido.
A mudança hierárquica no Quartel General dos Aurores foi o tema dos cochichos nos corredores do Ministério pelo resto daquela semana. Prevendo que tal fato pudesse gerar fofocas sobre seu departamento, Moody preferiu declarar que a nomeação de Benjamin Fenwick como Auror Capitão devia-se exclusivamente ao fato de James Potter não ter sido capaz de apresentar uma solução plausível para o caso de Robin Mould. O Conselho aceitou sua justificativa sem contestar e, assim, Benjamin Fenwick passou a portar o distintivo de Auror Capitão preso às vestes e a liderar a rotina no Quartel General dos Aurores.
Ao contrário do que James esperava, Fenwick tratara-o de forma extremamente profissional nos dias que se seguiram à substituição. Por diversas vezes, o novo Auror Capitão procurara por ele no Quartel General e, diante de todos os seus subordinados, pedira-lhe sugestões quanto ao que fazer. Os aurores rapidamente perceberam que Fenwick tinha a intenção de distinguir James dos demais, a fim de instituí-lo de alguma autoridade, provavelmente com a intenção de motivá-lo a continuar na equipe. Na opinião de Sirius, Fenwick só estava agindo daquela maneira politicamente correta – em vez de estar retribuindo o mesmo tratamento hostil que recebia de James, antes da inversão de papeis –, pois tinha ciência da sua importância para os outros aurores.
— Fenwick sabe que ninguém aqui vai com a cara dele. – ele refletiu em voz baixa, pausando para dar uma espiadela por cima do ombro a fim de conferir se Hestia e Frank podiam ouvi-lo. – Então ele precisa manter você aqui no Quartel o mais satisfeito possível. Porque se você resolver sair, Prongs, todo mundo vai junto com você. – ele pigarreou. – Menos Evans, é claro.
Afastada da Sala de Preparos, Lily agora também fazia parte da equipe de campo. Mas era como se não fizesse, pois raramente era vista por seus colegas. Todas as manhãs, quando chegava ao segundo nível do Ministério, em vez de se dirigir ao Quartel para receber tarefas, como os demais aurores, Lily ia direto à sala de Fenwick.
— Não, Padfoot. – James respondeu-lhe, desanimado. – Não acho que esse seja o motivo para Fenwick estar agindo desta forma comigo.
— Ah, não? Então qual outro motivo você sugere?
— Você sabe muito bem qual é, Padfoot.
Aquele assunto trouxe-lhe uma súbita necessidade de uma dose de nicotina. Sem precisar dizer nada a Sirius, ele se dirigiu para a saída do Quartel e deixou a sala. Assim que colocou os pés no corredor, sua visão periférica avistou uma figura surgir à sua direita. Ele virou o rosto para vê-la assim que a identificou.
Lily havia acabado de sair da sala de Fenwick e caminhava em sua direção. James notou que ela estava um pouco ofegante e que suas bochechas, normalmente pálidas, estavam coradas. Enquanto se aproximava, ela alisou a blusa três vezes, a fim de desamassar o tecido. Ao compreender o que tudo aquilo indicava, a mente de James o levou para longe dali, disparando-lhe imagens doloridas de Lily e Fenwick juntos em sua antiga sala.
No segundo seguinte, Lily passou por ele sem manifestar qualquer indício de tê-lo visto e adentrou a sede do Quartel. O baque da porta cerrando atrás dela ecoou pelo corredor e tirou-o do transe.
Fenwick não precisava fazer uso de sua nova autoridade para se vingar de James pelos anos de hostilidade, pois não havia vingança maior do que a de ter conquistado para si aquilo que James mais amara em sua vida. E isso nada tinha a ver com um simples cargo de chefia.
[Sábado, 04 de dezembro de 1982, 21h00]
Precisamente como havia dito a Benjamin, Lily surgiu pela entrada do restaurante trouxa às nove horas em ponto. Assim que entrou, ela estagnou diante do amplo salão e varreu o ambiente com os olhos, procurando por ele. Quando Benjamin estava prestes a erguer o braço para chamar sua atenção, uma funcionária do restaurante a abordou, provavelmente para lhe perguntar se ela gostaria de guardar o casaco na chapelaria. A mesma moça havia lhe feito a mesma pergunta anteriormente.
Mas, para sua surpresa, Lily recusou. Com um sorriso constrangido, ela agradeceu à recepcionista e tornou a se virar para frente a fim de retornar a sua busca. No segundo seguinte, ela encontrou o olhar de Benjamin e iniciou sua caminhada até a mesa na qual ele estava acomodado.
Benjamin a assistiu avançar sem piscar. Embora Lily estivesse trajando roupas simples à moda trouxa, como as que costumava vestir para ir trabalhar, ele notou que ela havia prendido a franja de lado, com um grampo, e passado um batom vermelho nos lábios. Benjamin inevitavelmente abriu um sorriso ao constatar e colocou-se de pé para recebê-la.
— Que bom que chegou. – ele disse, cumprimentando-a com um beijo na face. Lily se afastou rapidamente e se sentou do outro lado da mesa, o rosto levemente corado. Ele percebeu que as mãos dela ainda tinham alguns curativos por conta das feridas do início da semana, mas decidiu não fazer perguntas sobre eles. Em vez disso, emendou: – Por que não quis tirar o casaco?
— Estou com frio. – ela respondeu, assistindo Benjamin voltar a se sentar em sua cadeira. Assim que ele se acomodou, Lily lançou um olhar para as mesas vizinhas e, confirmando que estavam cercados apenas por casais e famílias trouxas, inclinou-se para frente e voltou a falar num sussurro: – E então, Ben? Quais Comensais da Morte não foram presos, além de Malfoy?
Antes que Benjamin tivesse tempo de formular uma resposta, um garçom apareceu ao lado da mesa e estendeu-lhes dois livretos, um para cada.
— Aqui estão os cardápios. Quando decidirem o que irão jantar, me chamem para anotar os pedidos. Com licença.
Com a mesma rapidez com a qual surgira, o garçom se afastou. Novamente a sós, Benjamin voltou-se para Lily e a observou. Ela ainda estava aguardando uma resposta.
— O que acha de jantarmos antes de falarmos sobre isso? – sugeriu ele, oportunamente. – Ouvi falar que o salmão daqui é muito bom. O que me diz?
Após um breve momento de reflexão, Lily abriu a boca para responder, mas a fechou antes de pronunciar qualquer som. Benjamin franziu a testa, incapaz de esconder sua ansiedade.
— Bom. P-pode ser. – ela concordou, fazendo Benjamin sorrir mais uma vez.
O jantar não demorou a chegar. Benjamin pediu uma garrafa do vinho da casa para acompanhar e Lily não protestou quando o garçom colocou um pouco dele em sua taça. Não conversaram muito durante a refeição, mas, aos poucos e muito sutilmente, Lily foi se soltando. Ao fim do jantar, ela passara a permitir que pequenos sorrisos escapassem de seus lábios e soltou um riso inesperadamente alto quando Benjamin fez um comentário sobre o bigode do garçom. Se o vinho tivera alguma influência naquela mudança, Benjamin não era capaz de decifrar. Mas ainda existia uma nítida barreira entre os dois. Uma barreira firme e quase palpável que, apesar do clima descontraído, não permitia com que Benjamin esticasse suas mãos pela mesa para segurar as dela. Ou que confessasse o quanto desejava tê-la em seus braços naquela noite.
Pouco depois de terem terminado de comer, o garçom de bigode voltou a se aproximar da mesa e perguntou-lhes se podia retirar os pratos vazios. Quando o homem tornou a deixá-los sozinhos, levando os pratos consigo, Benjamin apanhou a garrafa de vinho e transferiu o que restava dela em ambas as taças.
— Sei que está aqui porque tem perguntas, Lily. – disse ele e, somente após colocar a garrafa vazia de lado, prosseguiu: – E farei o possível para tirar o máximo de suas dúvidas. Mas, infelizmente, não posso prometer que vou lhe responder tudo o que me perguntar. – ele suspirou, baixando o olhar. – Estou sob juramento de sigilo sobre algumas informações e, por mais que eu ache que você mereça saber de tudo, já que foi um membro fiel da Ordem da Fênix, este juramento envolve muito mais gente e a decisão de compartilhar tudo com você não pertence a mim. – Benjamin sacudiu a cabeça, impedindo-se de continuar com aquele desabafo. – Mas vamos lá. Pergunte-me o que quer saber.
Houve um silêncio breve, durante o qual Benjamin a contemplou sob a baixa iluminação do restaurante. Lily pendeu a cabeça um pouco para a esquerda e o olhou com profunda empatia.
— Eu... – começou ela, lentamente. – Eu entendo o que quer dizer, Ben. E agradeço por se propor a me ajudar, como está fazendo.
— Espero conseguir te tranquilizar um pouco. Não aguento mais ver você... se desgastar por causa disso. – Benjamin apoiou os cotovelos sobre a mesa e, mais uma vez, quis esticar os braços para alcançar as mãos dela, que estavam entrelaçadas a pouquíssimos centímetros de distância. Mas conteve-se. Limitou-se a apenas limpar a garganta antes de voltar a falar: – Você tinha me perguntado sobre os Comensais que não foram mandados à Azkaban, certo?
— S-sim! – ela gaguejou, como se não pudesse acreditar que finalmente saberia a resposta para aquela pergunta. – Na verdade, quero entender por que alguns ainda estão por aí. Todos os aurores sabiam sobre Lucius Malfoy, por exemplo, e mesmo assim ele...
— Malfoy conseguiu provar que estava sob a Maldição Imperius. – Benjamin rolou os olhos em descrença. – Ele trouxe duas testemunhas ao julgamento, pagou uma fortuna ao Ministério e acabou absolvido. Além disso, o fato de ele não estar na casa dos Bulstrode na noite do dia trinta e um foi uma enorme vantagem para a defesa dele...
— Ele não estava lá?
— Não, nem todos estavam lá. Mas todos os que estavam foram presos. – Benjamin teve seus pensamentos invadidos pelos lampejos que preenchiam suas memórias daquela noite. Voltou a falar, esforçando-se para afastar as sensações pesadas que tais lembranças traziam consigo: – Os Lestrange, Turnbull, Rosier, Travers, os próprios Bulstrode, Mulciber, Vipond, os Carrow... todos estavam lá, sem as máscaras, e foram presos naquela noite. Na semana seguinte, depois do julgamento de alguns deles, conseguimos mais alguns nomes e capturamos mais uns doze ou treze Comensais. Alguns deles, como Malfoy, Goyle e MacNair, conseguiram provar inocência no tribunal. E outros dois foram soltos por falta de provas.
Após absorver todas as informações, Lily indagou:
— E quem foram os dois soltos por falta de provas?
— Severus Snape e Silenus Hans.
O queixo de Lily caiu e seu rosto foi tomado por uma expressão de puro horror. Por conta dos rumores envolvendo sua fuga dois anos atrás, Benjamin viera a saber que Lily e Snape haviam sido amigos na infância. Lembrou-se dos comentários indignados de Black e Pettigrew sobre a possibilidade de Lily jamais ter interrompido a amizade com Snape e de tê-la mantido em segredo durante todo o tempo. Benjamin não dera importância àquela hipótese na época, pois nunca acreditara que Lily houvesse traído a Ordem da Fênix – afinal, se ela o tivesse feito, todos teriam sido mortos antes de desconfiarem de que ela fosse uma traidora. Mas o aspecto estupefato de Lily naquele momento fez com que Benjamin cogitasse se havia, de fato, alguma verdade na teoria de Black. Não quanto à possibilidade de Lily ser uma traidora, naturalmente, mas talvez ela realmente tivesse mantido algum tipo de vínculo com o antigo amigo durante a guerra e não fizesse ideia de que ele havia sido acusado de ter se aliado Àquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.
— Eu sei que você e esse Snape foram amigos. – Benjamin decidiu quebrar o silêncio. – Fiquei sabendo disso quando você... foi embora. Poucas semanas depois da Batalha, o nome dele foi citado por Mulciber e ele foi intimado a comparecer ao Ministério. – Benjamin fez uma pausa, incerto se Lily estava mesmo ouvindo. Ela tinha os olhos inquietos e seu peito arfava, entregando seu nervosismo. Ele prosseguiu, esperando que ela o interrompesse a qualquer momento e compartilhasse o que estava pensando: – Potter, Black, Lupin, Pettigrew e todos os outros membros da Ordem da sua geração tinham certeza de que ele era um Comensal da Morte desde a época em que vocês estudaram juntos, em Hogwarts. Mas, para a surpresa de todos, Snape não tinha a Marca no braço e, mesmo depois de beber uma dose de Veritaserum, negou ter qualquer filiação com Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Ele nunca foi identificado entre os Comensais da Morte e nenhum auror ou membro da Ordem pôde apontar um só ataque no qual ele tivesse sido visto. Então o júri decidiu que Snape era apenas um simpatizante das Artes das Trevas, que vivia isolado–
— Benjamin, você disse que o Professor Hans foi acusado de ser um Comensal da Morte? – Lily o interrompeu, voltando a si. – C-como assim?
Foi a vez de Benjamin olhá-la com espanto.
— Você não está surpresa por saber do seu... amigo?
Lily lhe dirigiu um olhar de profunda confusão. Em seguida, balançou a cabeça negativamente.
— Severus? – ela soltou um riso triste pelo nariz. – Não, ele realmente era um Comensal da Morte... mas um Comensal da Morte inteligente demais para deixar rastros, aparentemente. Driblar uma dose de Veritaserum não deve ter sido nenhum problema para ele. – Lily sacudiu a cabeça novamente. – Mas o Professor Hans... não é possível, ele... sob quais acusações ele foi chamado para depor? Nenhum jornal de outubro do ano passado menciona o nome dele e–
— Eu sei que parece absurdo. – Benjamin comentou, num tom compreensivo. – Foi um choque para todos, principalmente para nós, aurores. Professor Hans também foi o meu Mestre em Duelos quando estava na Academia. Não se sabe ao certo por quanto tempo ele pode ter sido um espião para Você-Sabe-Quem, mas tudo indica que foi ele quem esteve por trás do massacre de aurores em 1978. Eu pessoalmente não sei o que penso sobre essa hipótese... – ele coçou a barba, revirando sua memória a fim de encontrar mais informações importantes. – No fim, não conseguiram provas concretas contra ele. E, depois que foi liberado, ele nunca mais foi visto. Scrimgeour, que acabou assumindo a diretoria da Academia, declarou que Hans se aposentou e se mudou para o interior.
Ao fim de seu relato, Lily, ainda estarrecida, estendeu o braço para alcançar sua taça de vinho. Trouxe-a até os lábios vermelhos e bebeu um longo gole. Por fim, ela recolocou a taça à mesa e respirou fundo antes de voltar a divagar.
— Mas os jornais não...
— Os jornais não publicaram nem metade do que realmente aconteceu, Lily. Provavelmente não mencionaram o nome do professor porque, no fim das contas, ele podia ser mesmo um Comensal da Morte que, para piorar, ficou em liberdade. Quem iria correr o risco de publicar alguma matéria sobre o assunto e acabar morto por aí, como aconteceu com vários jornalistas durante a guerra? Fora que, depois de finalmente conseguir conter Você-Sabe-Quem após anos de puro terror, o Ministério não queria que os jornais instigassem mais medo na população. Muita coisa foi abafada, algumas para o bem, outras nem tanto...
Lily pousou a mão direita sobre o peito, na altura do coração. Sua expressão era a mesma de alguém em negação. Benjamin não pôde deixar de estranhar aquela relutância em aceitar que seu antigo professor fora acusado de ter sido um espião. Por que aquela informação a deixara tão abalada? Por que ela não demonstrara a mesma surpresa quanto à acusação de seu amigo, Severus Snape? E como Lily sabia que ele realmente fora um Comensal da Morte, quando o próprio havia conseguido provar que não o fora?
Benjamin quis fazer-lhe todas aquelas perguntas, mas antes mesmo de tomar fôlego para enunciá-las, desistiu. Lily seguramente não lhe responderia nenhuma delas. Benjamin já a conhecia muito bem. Sempre que era indagada sobre qualquer questão relacionada a seu passado, Lily se fechava e se tornava distante. E tudo o que Benjamin queria, naquela noite, era tornar-se o mais próximo dela possível.
— Então... – Lily se recompôs, após a longa pausa. – Temos Malfoy, Goyle, MacNair, Snape e... Hans, todos soltos por aí. Você acha que eles podem se unir para dar continuidade ao que foi interrompido?
— Não, não acho. – respondeu ele, com sinceridade. – Antes de Você-Sabe-Quem, todos eles não passavam de idiotas com opiniões antiquadas. Só resolveram fazer alguma coisa para defender seus ideais quando encontraram um líder para guiá-los e enchê-los de coragem. Além do mais, exceto por Hans, todos são constantemente vigiados e nunca foram vistos juntos neste último ano.
— Goyle foi visitar Malfoy há poucas semanas, Ben! – Lily impacientou-se. – Você estava na sala de Moody quando ele me contou isso, não estava? Será que isso não demonstra que eles pretendem–
— Lily, não há motivos para se preocupar. Sem Você-Sabe-Quem, eles são inofensivos. E Você-Sabe-Quem não tem a menor chance de voltar, então você não precisa perder o sono por causa dessa gente. – sem conseguir se conter daquela vez, Benjamin deslizou seus braços pela mesa para segurar as mãos dela. Lily olhou para baixo por um momento e, lentamente, tornou a erguer os olhos para ele. – Tudo está bem agora. Não há motivos para ter medo.
Nos segundos seguintes, Lily não se moveu e Benjamin permaneceu segurando suas mãos, sentindo sua pele macia contrastar com a aspereza dos curativos. Fazia quase uma semana que ela aparecera no Ministério com as mãos machucadas. Aquelas feridas já deveriam ter se curado, não deveriam?
— Ben... – ela o chamou, interrompendo seus devaneios. – Vocês vivem repetindo que Voldemort não vai voltar, ou que ele foi derrotado para sempre... mas vocês nunca dizem que ele está morto. – ao notar que Benjamin desviara o olhar para longe, Lily apertou suas mãos, exigindo sua atenção e transmitindo-lhe toda a angústia que rodeava seus pensamentos. – Ben, o que houve na noite da Batalha Final? Por que ninguém fala sobre o que realmente aconteceu com ele?
— Eu não sei explicar muito bem o que aconteceu naquela noite. – Benjamin refletiu. – Não posso e acho que nem consigo falar sobre isso, Lily.
— Por favor, Ben. – ela suplicou, inclinando-se sobre a mesa. – Eu preciso saber. O que te faz ter certeza de que ele não vai retornar? Tudo o que sei é que ele não foi julgado e também não foi mandado à Azkaban. Então onde ele está agora? Ele está morto?
Benjamin já havia sido questionado sobre a noite da Batalha Final anteriormente. Por seus pais, sua irmã, por dois amigos e pelas três mulheres com quem havia saído desde o fatídico evento. Em todas as ocasiões, Benjamin oferecera respostas breves e mencionara somente os acontecimentos relacionados à emboscada – os eventos sobre os quais podia falar livremente. Contudo, quando era questionado especificamente sobre o destino d'Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, Benjamin apenas respondia que não tinha permissão para revelar o que fora feito com o líder dos Comensais da Morte, mas que o homem não possuía qualquer chance de retornar. Após um suspiro aliviado, todos haviam se contentado com o argumento e permitido que o assunto se encerrasse.
Mas Lily não seria como eles.
A fim de conseguir mais tempo para pensar em sua resposta, Benjamin resolveu beber o restante de seu vinho. Entornou a taça até absorver a última gota do líquido tinto, muito lentamente. Após esvaziar a taça e colocá-la de lado, ele voltou a segurar a mão de Lily, que o olhava cheio de expectativas.
— Não. Ele não está morto. Mas também não se pode dizer que está vivo. Por isso te garanto, Lily: ele não vai voltar.
Lily apertou suas mãos mais uma vez, desesperadamente insatisfeita com a imprecisão de suas palavras.
— Mas o que você quer dizer com isso? – ela inquiriu, exasperada. – Se ele não está morto e nem está vivo, como ele está? O que te faz ter tanta certeza de que ele não vai voltar?
Benjamin fechou os olhos com força, tentando afastar a imagem tenebrosa que tomara posse de sua mente ao se lembrar daquela noite.
— Não sei explicar o que houve... – ele admitiu, com certa dificuldade. Reabriu os olhos e permitiu que o rosto de Lily voltasse a entrar em foco. O semblante dela exalava desespero e aquele desespero visível lhe trouxe um violento aperto no peito. Respirando fundo, Benjamin tomou sua decisão: – Vou te contar o que posso sobre aquela noite. Até mesmo os acontecimentos que não sou capaz de explicar e que nunca contei para ninguém, para não dar abertura para que me façam perguntas que não posso responder. Perguntas que você provavelmente vai me fazer. Mas, como já mencionei antes, eu não tenho escolha, Lily, e não poderei respondê-las.
Lily franziu as sobrancelhas em gratidão e assentiu. Benjamin se deu conta de que as mãos delas ainda se encontravam sob as dele. Aquilo deixou a situação abruptamente mais confortável.
— Tudo começou quando Potter descobriu, através da memória deixada por Caradoc antes de morrer, que Você-Sabe-Quem e seus seguidores estariam na mansão dos Bulstrode para celebrar o Halloween. – ele começou a narrar, ainda incerto sobre o quanto conseguiria descrever. – Então, naquela noite, cercamos a propriedade e lançamos encantamentos anti-desaparatação por toda a região. Depois nos posicionamos ao redor da casa e, por quase meia hora, ficamos disparando todos os feitiços de quebra de proteção que conhecemos. Quando conseguimos desfazer a maioria dos encantamentos, Potter usou a Capa da Invisibilidade para entrar pelos fundos. Pettigrew foi junto com ele, não sei se debaixo da Capa também, pois quando vi, eles já tinham sumido. Moody nos mandou ficar atrás de uns arbustos do jardim, enquanto esperávamos pelo sinal de Potter. E então, uma mulher gritou dentro da casa. Naquela hora, achei que tudo estava perdido, que íamos morrer... mas Black nos mandou calar a boca e disse que tudo estava conforme o plano. Não sei muito bem de que plano ele estava falando, mas como ele estava se comunicando com Potter através de um pedaço de espelho, eu... – Benjamin balançou a cabeça, temendo ter deixado uma ponta de admiração escapar ao se lembrar daquela ferramenta tão engenhosa. – Logo depois, eu soube que aquela mulher tinha gritado por ter visto um rato, e não por ter visto Potter ou Pettigrew. Através das paredes da casa, Moody conseguiu ver, com o olho mágico, que todos os presentes interromperam o jantar para tentar caçar o rato... Não sei, Lily, mas parece que tudo conspirou para que conseguíssemos vencer aquela batalha. Se não fosse por aquele rato, eu não sei se teríamos conseguido pegá-los desprevenidos como pretendíamos. Foi muita sorte.
Naquele momento, inesperadamente, Lily sorriu. Ela encostou as costas no espaldar da cadeira, deixando que seus olhos se perdessem em algum ponto do outro lado do restaurante, e cruzou os braços, finalmente desfazendo o longo aperto de mãos. Benjamin sentiu-se subitamente sozinho. Ele quis saber o que teria lhe roubado a atenção, mas antes que pudesse perguntar, Lily sacudiu a cabeça e voltou a ficar séria.
— E depois? O que aconteceu?
Antes de prosseguir com a história, Benjamin olhou ao redor para se certificar de que ninguém os observava. A duas mesas à esquerda, quatro mulheres brindavam em meio a risadas. A três mesas à direita, uma família se colocava de pé após terem terminado de jantar; as crianças, acompanhadas do pai, caminharam para a saída do restaurante enquanto a mãe deixava algumas cédulas de dinheiro trouxa sobre a mesa antes de segui-los. Benjamin suspirou.
— Aproveitamos aquela confusão para invadir a casa. Lupin, McKinnon e os Longbottom deram a volta e entraram pela frente, Moody, Black, Jones e eu entramos pela cozinha, por onde Potter e Pettigrew tinham entrado, e Podmore permaneceu no jardim para pedir ajuda, caso fosse necessário. Mas não foi. Eles não tiveram chance, Lily. Entramos disparando azarações paralisantes e estuporantes. Potter já estava lá, ele só tirou a Capa e se juntou a nós. Só não vi Pettigrew, mas depois ele apareceu. Atingimos pelo menos metade dos Comensais de uma vez, já que a maioria estava com a cabeça embaixo da mesa, procurando o bendito rato. Os que não caíram de primeira, correram cercar Você-Sabe-Quem para protegê-lo, já que não tinham como fugir por conta dos encantamentos anti-desaparatação que tínhamos lançado. E então o duelo começou.
Quando ele subitamente fez silêncio, Lily arregalou os olhos em indignação.
— E então? – perguntou ela, ansiosa. – O que aconteceu depois?
Benjamin cerrou os olhos e inspirou o máximo de ar que conseguiu. Nunca havia ido além em suas narrativas sobre a Batalha Final. Mas, ao mesmo tempo em que se sentia nauseado pelas lembranças da terrível cena que testemunhara, ele ansiava por extinguir as preocupações de Lily. Não suportava mais vê-la definhar, suas olheiras se tornarem cada vez mais escuras e seu comportamento parecer cada dia mais esquivo, simplesmente porque temia que algo que jamais iria acontecer, acontecesse. Se Benjamin podia fazer alguma coisa para convencê-la de que tudo estava bem, ele tinha de fazê-lo.
— Ben?— Lily o chamou, sedenta pelo desfecho da narrativa. – O que vocês fizeram com Vold—
— Você-Sabe-Quem não se levantou da cadeira dele durante todo o combate, Lily. – Benjamin voltou a falar, decidido a ir até o fim. – Ele deve ter tentado aparatar, mas como não conseguiu, ficou sentado, assistindo a tudo, completamente imóvel. Ele só se levantou quando Bellatrix Lestrange, a última Comensal da Morte a ser derrubada, foi paralisada por Alice. Moody começou a falar um monte de coisa, não consigo lembrar bem o quê, e então... Você-Sabe-Quem pediu para falar com Dumbledore. E... eu não me lembro muito bem a sequência do que aconteceu em seguida. – ele fez uma pausa, repassando os eventos mentalmente. – Você-Sabe-Quem disse que, se não trouxéssemos Dumbledore até ele, ele ia convocá-lo de qualquer forma. Ele fez um movimento com o braço ao dizer isso e... no susto, Moody... Moody pensou que Você-Sabe-Quem estivesse tentando alcançar a varinha, ele nos contou isso mais tarde... enfim, no susto, Moody lançou a Maldição da Morte em Você-Sabe-Quem.
— Moody lançou a Maldição da Morte em Voldemort?! – exclamou Lily, sua voz saindo mais alta do que o planejado. – Mas você disse que ele não está morto! Como isso seria possível? Como ele não–
— Lily. – Benjamin a interrompeu, num tom de alerta. – Por favor, fale baixo.
— Mas...! – ela agarrou os braços da cadeira, tentando compreender aquela informação. – Ele realmente não morreu?
— Não.
— Mas como? – ela repetiu a pergunta, num tom nervoso. Benjamin notou que a exasperação de Lily já havia começado a chamar a atenção dos trouxas que estavam acomodados nas mesas próximas. – Como? Porque não faz sentido! – ela voltou a divagar. – Se ele não morreu, então o que aconte–
— Lily. – Benjamin a chamou, quase sussurrando. Ela imediatamente se deu conta dos olhares curiosos que havia atraído para si. – Vamos conversar em outro lugar, pode ser?
Ela balançou a cabeça afirmativamente. Mas logo Benjamin percebeu que ela não ouvira sua pergunta, pois permaneceu inerte, com o olhar perdido. Aproveitando sua distração, ele se levantou e tirou a carteira do bolso. Não fazia ideia de quanto haviam custado os pratos e o vinho que haviam pedido, portanto retirou todas as cédulas do dinheiro trouxa que trocara mais cedo e colocou-as sobre a mesa. Trezentas libras deveria ser o suficiente.
Enquanto devolvia a carteira ao bolso traseiro da calça, Benjamin estendeu-lhe a mão livre.
— Vamos?
Lily permitiu que ele a guiasse por entre as mesas até a saída do restaurante. Antes de sair, Benjamin recuperou seu sobretudo cinza, que deixara sob os cuidados da chapelaria do estabelecimento. Do lado de fora, eles foram recebidos por um vento gélido e insistente. A rua estava deserta e as poucas pessoas que transitavam por ali caminhavam com pressa para abrigarem-se do frio o mais rápido possível.
Notando que Lily permanecia absorta em seus devaneios e sem saber se um convite para continuarem a conversa em seu apartamento seria bem recebido, Benjamin a acompanhou em uma caminhada a esmo pela calçada.
— Se ele não morreu, Ben... como ele ficou depois de ter sido atingido pela Maldição da Morte? – ela perguntou, os olhos fixos no chão, abraçando-se para amenizar os efeitos do vento.
— Ele caiu para trás, como se tivesse morrido... mas continuou respirando. A respiração era quase imperceptível, mas estava lá e ainda deve estar. – Benjamin sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e isso nada tinha a ver com a temperatura baixa de uma noite de dezembro. – Quando ele caiu, todo mundo ficou em choque. Não era possível que seria tão fácil acabar com Você-Sabe-Quem... e não demorou muito para descobrirmos que, de fato, não seria. Moody mandou Jones, Podmore e McKinnon levarem os Comensais desacordados para outro cômodo e comunicarem o Ministério. Quando sobrou apenas Você-Sabe-Quem caído no carpete da sala de jantar dos Bulstrode, Moody se aproximou do corpo dele e percebeu que ele ainda estava respirando. Depois, Potter revistou as vestes dele e tomou sua varinha. Mas Você-Sabe-Quem continuou deitado de costas, imóvel e de olhos abertos. Os olhos dele... eu não estava me sentindo bem com os olhos dele abertos daquele jeito, então lancei um feitiço para eles se fecharem, enquanto esperávamos Dumbledore chegar. Fizeram alguns testes no corpo de Você-Sabe-Quem, com fogo, agulha, qualquer coisa, para ver se ele se mexia, mas ele não se mexeu ou manifestou qualquer reação. Quando Dumbledore chegou e foi examiná-lo... os... os olhos de Você-Sabe-Quem estavam abertos de novo.
— Ele não tentou atacar Dumbledore?
— Ele não se mexeu. Só abriu os olhos.
Por uma fração de segundo, Benjamin viu-se novamente diante daquele homem de olhos injetados, deitado de braços e pernas abertos no meio de uma sala de jantar arruinada. Benjamin sacudiu a cabeça, num gesto automático para se livrar da visão.
— Então você acha que ele estava consciente? – Lily quis saber. – Você acha que ele estava vendo vocês, ouvindo tudo o que vocês diziam?
— Não sei. – Benjamin respondeu. – Eu nunca o vi se mexer. Fechamos os olhos dele mais uma vez, mas logo depois já estavam abertos de novo. Como eu disse logo no início da conversa, Lily: eu não sou capaz de explicar o que aconteceu com Você-Sabe-Quem naquela noite. A essência dele morreu, disso tenho certeza. Mas, de alguma forma, ele ainda respira e... mexe as pálpebras.
Pelo canto do olho, Benjamin viu Lily interromper o passo e estacar. Ele girou os calcanhares e parou de frente para ela, aguardando-a.
— Agora entendo o que você quis dizer quando disse que não era capaz de explicar o que aconteceu naquela noite. – ela voltou a falar, após um tempo. – Eu também não sou. Nunca ouvi falar de algo parecido. Nunca li nada a respeito, nunca nem imaginei que tal absurdo fosse possível... isso é definitivamente obra das Artes das Trevas... ou então... – Lily se calou e engoliu em seco. Em seguida, ela deu um pequeno passo à frente e o encarou. – O que Dumbledore disse para vocês? O que ele acha que houve?
— Dumbledore não falou nada sobre isso naquela noite. – continuou ele. – Lupin perguntou-lhe o que ele achava, mas ele não respondeu. Ficamos muito tempo em silêncio, tentando entender... e então Moody e Potter resolveram levar Você-Sabe-Quem para a cela de proteção máxima do Departamento de Mistérios até decidirmos o que seria feito com ele. Na manhã seguinte, quando nos reunimos com a ministra, Dumbledore alegou que os conhecimentos dele sobre as Artes das Trevas não eram profundos o suficiente para conseguir explicar o que impediu a Maldição da Morte de ter matado Você-Sabe-Quem por completo. Bom, se nem Dumbledore pode explicar, como eu poderia, não é? – Benjamin forçou um sorriso, a fim de amenizar o clima pesado que se instaurara entre os dois. – O que importa é que Você-Sabe-Quem não é mais uma ameaça para nós. Ele foi destruído. E o corpo semimorto dele foi tudo o que restou.
Lily parecia nauseada. Uma lufada de vento bagunçou seus cabelos, mas ela não pareceu senti-la. Benjamin sabia que compreender e aceitar todos aqueles fatos não era uma tarefa fácil. Não fora para ele, não fora para nenhum de seus colegas. E tampouco seria para Lily.
— Onde ele está agora? – ela sussurrou a pergunta. – Quero dizer, onde está o... o corpo?
Instantaneamente, as cicatrizes do pulso direito de Benjamin latejaram dolorosamente. Ele precisou desviar o olhar da expressão suplicante dela para não ceder. Não podia responder aquela pergunta. Por mais que tivesse certeza de que Lily jamais divulgaria aquela informação, contar a ela não era uma decisão que coubesse a ele.
— Eis a pergunta que não posso responder. – lamentou Benjamin. – Sinto muito, Lily. Não posso dizer o que foi feito com ele e nem onde ele está. Mas posso te garantir que, de lá, ele nunca vai sair. – ele obrigou-se a parar de falar, receando que acabasse deixando algo escapar. Voltou a olhá-la nos olhos, pedindo: – Confie no que estou te dizendo. Você está segura. Nós todos estamos.
Lily suspirou pesarosa, sabendo que não adiantaria insistir. Em seguida, ela deu um passo à frente, extinguindo a pouca distância que restava entre eles, e pegou a mão direita de Benjamin. Ele logo compreendeu o que ela faria e não tentou impedi-la. Lily trouxe sua mão para cima, afastou as mangas de seu sobretudo e sua camisa e finalmente encontrou as cicatrizes em seu pulso. Seus dedos gelados tocaram os cortes cicatrizados com imensa delicadeza.
— Essas marcas... – ela começou, sem desviar os olhos de seu pulso, analisando-o com cuidado. – Elas fazem parte do juramento?
— Não posso responder essa pergunta também. – murmurou Benjamin, infeliz. Não queria que o toque dela cessasse. Seus dedos frios, contornando a pele sensível de suas cicatrizes, intensificavam os sintomas de desejo em seu corpo. Ele a quis para si mais do que nunca.
Conforme o esperado, Lily interrompeu a carícia e devolveu sua mão à posição anterior, ao lado de seu corpo, sem imaginar a frustração que tal gesto lhe provocava. Incapaz de se conter, Benjamin agarrou o pulso dela, da mesma forma como ela havia feito com o dele no minuto anterior. Mas sem a mesma sutileza, o que ele constatou pelo olhar surpreso que Lily lhe lançou.
— Lily... – ele puxou-a para si pelo pulso até que o corpo dela colidisse com o dele. – Por favor, escute o que eu tenho a dizer. – Benjamin pediu, sentindo a mão livre de Lily sobre seu peito, pronta para empurrá-lo. – Por favor. – ele sussurrou. No instante seguinte, Lily relaxou um pouco, mas não retirou a mão dali. Agindo sob o efeito inebriante de senti-la tão próxima, Benjamin contornou sua cintura com um braço e, soltando o pulso que usara para trazê-la para si, pousou sua outra mão em seu rosto. Lily enrijeceu com a mudança de posição.
— Ben...
— Escute o que tenho a dizer. – ele insistiu, olhando-a nos olhos. Fez uma pausa, permanecendo imóvel para que Lily tivesse certeza de que ele não se aproximaria mais ou tentaria qualquer outra coisa. Quando ela voltou a relaxar sob suas mãos, Benjamin prosseguiu: – Eu não consigo imaginar o que aconteceu com você nesses dois anos em que esteve longe. Não faço ideia do você passou e por que se tornou tão distante. Mas me lembro de você antes e gostaria de vê-la sorrir de novo. – naquele momento, Lily baixou o olhar e franziu o cenho, tentando administrar a sensação daquelas palavras. Benjamin começou a contornar o rosto dela com o polegar antes de retomar: – Hoje fiz tudo o que podia para isso. Mas se houver mais alguma coisa que eu possa fazer para tentar trazer sua alegria de volta, tudo o que você precisa fazer é me pedir.
Lily abriu um sorriso fraco.
— Ben, você tem sido ótimo para mim. Sinto muito por não poder me abrir com você como você se abriu comigo hoje à noite, mas...
De repente, os sinos de uma igreja próxima começaram a soar. Lily desviou os olhos para a direção do som, ouvindo-o com cautela. Benjamin trouxe o rosto de Lily para cima pelo queixo, a fim de recuperar sua atenção. Quando seus olhos voltaram a se encontrar, Benjamin inclinou a cabeça para baixo e encostou seus lábios nos dela. O contato durou apenas meia fração de segundo; Lily soltou-se de seu abraço bruscamente e deu um passo para trás.
— Não. – disse ela. Ao longe, as badaladas dos sinos ocuparam o breve silêncio que se estendeu. Benjamin sentiu-se murchar por completo, enquanto suas fantasias de tê-la em seus braços eram dilaceradas pela impiedosa sensação de fracasso. Lily voltou a falar, em tom de lamento: – Desculpe. Mesmo diante de tudo o que você acabou de me oferecer, tudo o que eu posso te dar em troca é essa amizade... rasa e limitada. Nada mais do que isso. Como estava dizendo agora há pouco, não posso sequer me abrir com você como você fez comigo mais cedo. – ela baixou os olhos. – Sinto muito, muito mesmo, Ben.
— Mas... por quê? – questionou ele, sem ocultar sua decepção. – O que te impede de se envolver, Lily? Você já tem alguém?
Os sinos continuavam ecoando e, mais uma vez, Lily desviou sua atenção para o tinido deles.
— São onze horas. – ela constatou após a vigésima terceira badalada. – Eu preciso ir.
— Lily, espera...
— Não. – ela cortou, com certa impassibilidade, mas sem soar rude. – Tenho que ir. Muito obrigada por tudo, Benjamin. Serei eternamente grata a você por esta noite.
E Lily desaparatou no instante seguinte, sem esperar por sua resposta.
[Domingo, 05 de dezembro de 1982, 01h05]
O céu, naquela madrugada de domingo, estava limpo. A lua cintilava intensamente no horizonte, como se estivesse convidando a todos para aproveitar uma das últimas noites de outono ao ar livre, sob sua luz. Ou pelo menos era esta a sensação que o céu estrelado sobre o Beco Diagonal transmitia à Alice naquele momento.
Ela bocejou sonoramente e voltou a caminhar pela rua deserta. Agora faltava menos de uma hora para que seu plantão terminasse. Em menos de uma hora, Alice poderia voltar para sua casa e finalmente entregar-se ao conforto de sua cama, onde Frank a aguardava para dormir. Dormir. Não havia mais nada que Alice quisesse fazer nos últimos dias.
Seu sono acentuado naquela última semana estava sendo confundido com cansaço por seu marido, que começara a falar regularmente sobre saírem de férias. Alice rolou os olhos ao se recordar da discussão que tiveram naquela manhã. Ela não achava que aquele era um bom momento para se ausentarem do trabalho, uma vez que o Quartel havia acabado de passar por enormes mudanças. Mas Frank não parecia entender isso. "Sua saúde tem que ser prioridade, querida. Você não anda muito bem", ele havia dito. Alice bocejou mais uma vez e permitiu-se sentar no parapeito de uma vitrine. Suas pernas subitamente fraquejaram com o bocejo. Talvez Frank tivesse um pouco de razão, afinal. Ela estava cansada. Muito cansada...
Um estampido a despertou num susto. Alice havia cochilado, sentada no parapeito da vitrine, com a cabeça recostada ao vidro. Não soube calcular quanto tempo estivera dormindo. A rua continuava erma e, por um segundo, ela pensou ter sonhado com o barulho. Mas então ele veio novamente e, agora desperta, Alice pôde identificar sua direção. Ela virou a cabeça para trás e, sem sair da sombra que a cavidade da vitrine lhe proporcionava, avistou um vulto junto à porta trancada da Farmácia Mullpeppers, que ficava do outro lado da rua, a menos de cinquenta metros atrás do estabelecimento no qual ela se acomodara.
Alice permaneceu imóvel, observando. Pela altura do vulto, só podia se tratar de um homem. E, pela largura de suas costas, o homem era robusto e possivelmente forte. Quando seus olhos se acostumaram à baixa iluminação, Alice viu que ele trajava uma capa de viagem remendada e que não havia um único fio de cabelo em sua cabeça. Ainda de costas para ela, o homem apontou a varinha para a maçaneta e executou o mesmo feitiço estrondoso. A porta finalmente se abriu e ele entrou.
Certa de que estava testemunhando mais uma tentativa de assalto de Robin Mould, Alice sacou a própria varinha das vestes e avançou na direção da farmácia invadida. A altura, a aparência musculosa e a cabeça raspada correspondiam exatamente ao retrato do delinquente fixado no mural do Quartel. Enquanto atravessava a rua para detê-lo, Alice pensou em enviar um Patrono ao Ministério para alertar Moody – que certamente ainda estaria trabalhando em seu escritório –, mas algo a impediu. Alice subitamente sentiu vontade de se provar. Fazia muito tempo que não ganhava destaque em alguma missão ou encontrava a solução para alguma investigação. No último mês, sua indisposição e cansaço a envergonharam incontáveis vezes. Além do mais, Robin Mould não era conhecido por ser terrivelmente perigoso ou inteligente. Ele só não havia sido preso ainda porque James não lhe dera qualquer importância durante o tempo em que ainda era o Auror Capitão.
Alice adentrou a loja lançando um feitiço paralisante. Mould, que estava atrás do balcão do caixa, provavelmente apropriando-se dos galeões guardados ali, abaixou-se com uma espantosa agilidade e o feitiço acabou atingindo a parede atrás dele.
— Entregue-se agora, Mould! – Alice ordenou para o balcão, a varinha em riste. – Se você se entregar pacificamente, não haverá dor. – ela aguardou um momento, mas o ladrão não se manifestou. Como não era possível aparatar no interior de qualquer estabelecimento do Beco Diagonal, Alice sabia que ele permanecia ali. – Sou do Departamento de Aurores e meus colegas estão a caminho. Renda-se! – acrescentou, preparando-se para tocar seu distintivo com a ponta da varinha.
Tocar seu distintivo com a ponta da varinha faria com que seu nome substituísse o Brasão do Auror nos distintivos de todos os aurores do Ministério e faria com que o metal do broche se tornasse abrasador, para atrair a atenção daqueles que estiverem com seus respectivos distintivos presos ao peito. Todo bom auror dormia com seu distintivo. Portanto, em menos de um minuto, pelo menos mais quinze colegas estariam ali para lutar com ela.
Contudo, Alice hesitou. Tocar o distintivo com a ponta da varinha era um recurso usado apenas quando o auror encontrava-se em uma situação extremamente grave e irremediável. Após o fim da guerra, nenhum de seus colegas havia executado o Chamado de Emergência. Alice imaginou o desespero de Frank ao ler seu nome em seu distintivo; imaginou os demais aurores saindo de suas casas no meio da madrugada para virem a seu socorro e, por fim, encontrarem-na diante de um ladrão covarde, escondido atrás de um balcão. Sentiu-se envergonhada por ter cogitado atormentar o sono de todos simplesmente porque não fora capaz de acertar um feitiço paralisante. Deveria ter enviado um Patrono a Moody. E talvez ainda houvesse tempo de fazê-lo.
Quando Alice abriu a boca para conjurar um Patrono mensageiro, Mould rolou para longe da proteção do balcão e lançou-lhe uma azaração. Em um movimento de reflexo, Alice executou o Feitiço Escudo – um pouco tarde demais, o que, por consequência, fez com que a azaração fosse apenas atenuada, em vez de totalmente bloqueada. Ela foi lançada para trás e suas costas colidiram com uma prateleira de frascos, derrubando-os. Alice caiu em cima do antebraço direito, sobre uma porção de vidros despedaçados. Em seguida, Mould atingiu-a com um Feitiço Desarmante e ela viu sua varinha escapar de seus dedos e voar para longe. Alice tentou se apoiar no cotovelo para se levantar, mas uma dor aguda preencheu seus sentidos e um grito quase gutural saiu de sua boca com o esforço.
— Acho que seu braço quebrou, boneca...
Mould começou a atravessar a loja vagarosamente.
— Afaste-se! – Alice ordenou, abraçando protetoramente seu braço direito com o esquerdo, virando-se de barriga para cima para tentar se levantar. Com a mudança de posição, alguns cacos de vidro arranharam suas costas, mas o choque por aquela situação ter se tornado tão inesperadamente desastrosa se sobrepôs àquela nova dor. – Os aurores estão vindo! Fique onde está!
Mas Mould não parou de se aproximar. Alice tentou pensar em alguma saída para aquela catástrofe. Não conseguiu. Era impossível pensar com a dor colossal que emanava de seu braço fraturado. De repente, o ladrão estava a dois passos de distância. Em desespero, Alice começou a empurrar o chão com os calcanhares, arrastando-se de costas na direção oposta. Mais fragmentos de vidro invadiram sua pele. Ela praguejou em voz alta, lamentando sua estupidez. Agira amadoramente. Deveria ter tocado o distintivo com a varinha quando tivera a chance.
Mould a alcançou e parou ao seu lado. Lentamente, ele apontou a varinha para o meio de sua testa. Alice tentou chutar-lhe a mão, mas seu braço lesionado foi contagiado pelo movimento, entorpecendo-a de dor e impedindo-a de concluir o golpe. Sua tentativa fracassada de desarmá-lo o fez rir. E, rendendo-se à vulnerabilidade de sua condição, Alice soltou seu primeiro soluço de clemência.
— Impedimenta!
Mould foi lançado para o outro lado do ambiente. Alice virou o rosto na direção da voz que conjurara o feitiço e avistou uma figura encapuzada sob o umbral da porta. No segundo seguinte, recuperando-se da queda com surpreendente rapidez, Mould colocou-se de pé e revidou com outro feitiço, mas acabou acertando algo na prateleira a poucos milímetros do ombro do recém-chegado.
Iniciou-se, assim, um agitado duelo entre o ladrão e o encapuzado misterioso. Jatos de luz cruzaram o ar abafado do estabelecimento durante alguns minutos, sem acertarem ninguém. Por duas vezes, Mould tentou fugir por uma janela, mas seu oponente o impediu. Desarmada e impossibilitada de realizar grandes movimentos, Alice recostou-se junto ao pé de uma prateleira afastada e observou-os lutar, enquanto ela própria lutava para manter a lucidez e não se entregar ao desespero.
Após algum tempo, Mould realizou um gesto em falso, com a intenção de ludibriar, e finalmente conseguiu acertar seu adversário, levando-o ao chão. O encapuzado caiu de bruços sobre um tapete de cacos de vidro. O golpe violento fez seu capuz negro afastar-se de seu rosto, revelando um emaranhado de cabelos vermelhos.
— Lily? – chamou Alice, reconhecendo-a.
Mas Lily não a ouviu – não houve tempo. Ela se levantou muito rápido e flagrou Mould se esgueirando pela janela, tentando escapar mais uma vez.
— Você não vai fugir, seu covarde! – vociferou ela, agitando a varinha.
Duas cordas longas e grossas saíram da ponta da varinha de Lily e, como se fossem cobras, serpentearam até o outro lado do cômodo. No instante em que Mould finalmente conseguiu arrombar o trinco da janela, as cordas o alcançaram e se enrolaram em seus tornozelos, puxando-o para trás.
Enquanto era arrastado de volta ao centro da loja, Mould apontou sua varinha para Lily e direcionou-lhe vários feitiços, numa tentativa débil de obrigá-la a soltá-lo. Errou todas as vezes, até que tomou a sábia decisão de mirar as cordas. E, assim, ele conseguiu se libertar e os dois voltaram a duelar com mais eloquência do que nunca.
De repente, pararam. Trocaram olhares perigosos, ameaçando-se em silêncio, ambos tentando premeditar o próximo movimento do outro. Começaram a se deslocar lentamente em sentido horário, sem quebrar o contato visual, as costas rentes às paredes e prateleiras. Foi Lily quem tomou a iniciativa e atacou primeiro. Para se esquivar de sua investida, Mould atirou-se ao chão, muito próximo de onde estava Alice, e o feitiço de Lily acabou atingindo a prateleira atrás dos dois. Alice teve de proteger a cabeça, pois os recipientes que não haviam sido derrubados quando suas costas colidiram contra o mesmo móvel, minutos antes, tombaram sobre ela e se estilhaçaram pelo piso.
E então, tudo aconteceu muito rápido. Antes que o estrondo provocado pelos diversos vidros se quebrando houvesse findado, Mould revidou, a fim de apanhar Lily de surpresa. Ela, no entanto, desviou-se do alcance de sua azaração e contratacou antes que ele tivesse tempo para preparar sua defesa. Seu Feitiço Desarmante acertou-o em cheio. Mould urrou em fúria quando sua varinha libertou-se de sua mão e Lily apanhou-a no ar, finalmente vencendo o duelo.
Mas antes que Alice pudesse respirar aliviada, ela foi puxada pelos cabelos da nuca. Cerrou os olhos e gritou em agonia, pois a brutalidade do movimento fizera com que seu braço fraturado se agitasse e batesse contra o chão, inerte. Cega pela dor, Alice não foi capaz de compreender de imediato o que havia acontecido. Algo a sacudira, mas, de certo modo, ela permanecera na mesma posição: sentada no cão, com as pernas estendidas sobre os estilhaços. Mas agora havia uma respiração ofegante soprando junto ao seu ouvido e uma mão que a segurava pelos cabelos, imobilizando-a. Foi então que Alice reabriu os olhos e compreendeu: após ter sido desarmado, Mould agarrou-a por trás para fazê-la de escudo. Ele se encontrava atrás dela, os joelhos ao redor de seus quadris, segurando-a pelos cabelos com uma mão, enquanto a outra comprimia um pedaço de vidro pontiagudo contra seu pescoço.
— Não! – exclamou Lily.
— Se você chamar os outros aurores ou fizer qualquer movimento com a varinha, eu mato sua amiga, você está entendendo? – bradou ele.
— Lily, por favor! – foi tudo o que Alice foi capaz de dizer antes de se entregar a um choro incontrolável. Com a mão esquerda, ela tentou afastar o punho dele de sua garganta, mas seu esforço aparentemente não fez a menor diferença.
— Mould, não faça isso. – Lily voltou a falar, com a voz forçosamente calma. – Você é um ladrão, não um assassino. A punição para roubo é muito mais tolerante do que a punição para homicídio. Não faça isso. Solte essa garrafa e eu–
— Não mexa a varinha! – repetiu Mould, apertando os dedos com mais força entre os cabelos de Alice, arrancando-lhe um punhado de fios. – Se você der mais um passo, eu juro que vou matá-la!
Uma sensação vertiginosa apossou-se de Alice quando a ponta afiada pressionou sua jugular com mais força. Por um segundo, a dor latejante que provinha de seu braço pareceu cessar ante a possibilidade de morrer. Fechou os olhos e esperou. Nada mais importava. Independentemente do que Lily fizesse, Mould certamente a mataria. Ela nunca mais veria Frank. Eles nunca poderiam tirar férias juntos, como ele havia lhe pedido tantas vezes. Nunca teriam filhos ou netos...
— Não vou machucar você, Mould. Apenas solte-a. – Lily voltou a abordá-lo, com prudência. Alice reabriu os olhos e viu que a ruiva estava com as mãos ao alto, em sinal de rendição, mantendo as varinhas seguras entre os polegares e as palmas. Ao notar que sua postura pacífica não provocara nenhuma mudança no ladrão, Lily acrescentou: – V-vamos fazer uma troca. Eu lhe devolvo sua varinha e você solta minha amiga, pode ser?
— Acha que sou estúpido? – rosnou ele. – Assim que eu a soltar, você vai me prender! Não vou cair nessa! Só vou soltá-la se você me devolver a varinha e me garantir que vai me deixar ir embora daqui. Senão, nada feito!
Ele apertou as mãos em torno de Alice, que soltou uma lamúria de apreensão.
— Como quiser. – Lily assentiu, sem hesitar. – Fazemos a troca e eu não tentarei impedi-lo de ir. Você tem minha palavra.
Ela deu um pequeno passo na direção dos dois, mantendo as mãos rendidas.
— MAS O QUE ESTÁ FAZENDO? FIQUE ONDE ESTÁ!
Lily estacou e suspirou.
— Eu preciso ir até você para poder lhe devolver a varinha.
— Não, não precisa! Jogue-a para mim!
— Mas isso não me garante que você vai soltar minha amiga. – Lily explicou, pacientemente. – Não confio em você, assim como você também não confia em mim. Então teremos de fazer essa troca ao mesmo tempo.
Ele não respondeu, mas também não protestou quando ela voltou a se aproximar. Lily avançou com extrema cautela e Mould afastou ligeiramente o objeto pontiagudo do pescoço Alice. Uma tensão carregada de desconfiança dominou a atmosfera; tanto Lily quanto Mould transpiravam nervosismo. Alice podia sentir os batimentos dele em suas costas, tão afoitos quanto os dela.
Por fim, Lily parou diante dos dois e inclinou-se para frente para lhe entregar a varinha. Para poder reaver o objeto, Mould empurrou Alice para o lado e desatou a mão de seus cabelos, sem a menor civilidade. Ela teve de se apoiar no braço saudável para evitar que seu rosto batesse contra o chão e fosse arranhado pelos cacos de vidro. De repente, Lily gritou. Alice virou-se imediatamente para ver o que acontecera: Mould estava correndo para a saída da farmácia e Lily caía de joelhos ao seu lado.
— Oh, meu Deus! LILY!
O pedaço de vidro pontiagudo, que antes estivera prestes a rasgar seu pescoço, agora se encontrava fincado no abdômen de Lily. Mould provavelmente quisera garantir que ela não o impediria de fugir e a atacou de surpresa ao se levantar. Mas não houve tempo para que Alice tentasse socorrê-la; Lily rapidamente levou as mãos até sua ferida e, sem qualquer hesitação, retirou dali o fragmento de vidro, abafando um rugido entredentes. Cambaleante de dor, ela colocou o estilhaço de lado e virou-se para fitar Alice, que a observava em um misto de choque com admiração.
— Temos que ir embora daqui... – Lily arfou, respirando com dificuldade e ostentando uma expressão sôfrega. Cobriu a ferida com as mãos, a fim de tentar estancar o sangue. – Mas precisaremos sair da loja para aparatar. Você consegue me acompanhar? Consegue se levantar?
Abalada demais para conseguir responder, Alice apenas assentiu. Abraçou o membro fraturado contra o peito – deixando escapar alguns guinchos por conta da dor – e dobrou as pernas para obter o impulso necessário para se levantar. Foi então que notou que suas calças estavam úmidas e que havia uma crescente poça de sangue debaixo dela.
— Meu Deus! Ele feriu você também? – Lily indagou, boquiaberta. – Perdão, Alice, se eu tivesse visto que você estava sangrando assim, não teria perdido tanto tempo tentando negociar com ele e–
— Não, ele não me... – Alice não conseguiu terminar a sentença, subitamente sentindo-se zonza. Não conseguiu compreender. De onde aquele sangue estava saindo? – Eu não tinha percebido isso... céus...
Lily levantou-se com bastante esforço, inclinou-se sobre Alice e estendeu-lhe uma das mãos; a outra permaneceu cobrindo o ferimento aberto em seu abdômen.
— Vamos, apoie-se em mim para se levantar. Precisamos ir!
Mas Alice não pôde corresponder ao que Lily estava lhe pedindo. Seus olhos continuaram fixos no sangue que inexplicavelmente jorrava dela e se espalhava pelo piso. Respirou fundo, tentando se concentrar, mas o cômodo pareceu girar à sua volta. Por Deus, o que estava acontecendo? Qual seria a origem daquela hemorragia? Alice não estava sentindo nenhuma dor na região pélvica, então não era possível que os pequenos cacos de vidro pelo assoalho a tivessem perfurado com tamanha profundidade. Se aquele sangue não provinha de algum tipo de corte, logo...
— Alice? Está me ouvindo? Alice!
Alice abriu os olhos. Estava nos braços de Lily e não fazia ideia de como havia ido parar ali. Tentou calcular quanto tempo estivera desacordada, mas Lily voltara a falar com ela, arrancando-a de seus devaneios.
— Você está me ouvindo? Consegue se levantar? – sua voz soou muito distante e Alice quase não compreendeu o significado de suas palavras. – Por favor, você precisa tentar, Alice! Precisamos ir ao St. Mungus o mais rápido possível!
Lily fez força para tentar erguê-la, mas Alice a interrompeu por meio de um gesto debilitado.
— Conjure um Patrono ou toque o seu distintivo com a varinha... – Alice teve de reunir todas as suas forças para enunciar aquele pedido. – Eu... eu não sei onde está minha varinha... acho que está aqui... em algum lugar... Lily, por favor, toque seu distintivo...
Lily ofegou, em desespero.
— Não vai adiantar, Alice! – exclamou ela, reprimindo um soluço. – Ninguém viria a um chamado meu. Você precisa se levantar, precisamos sair daqui! Não sei por mais quanto tempo vou conseguir aguentar!
Alice piscou algumas vezes, absorvendo suas palavras com dificuldade. Quanto mais pesadas se tornavam suas pálpebras, menor se tornava a dor em seu braço. Alice queria deixar-se levar novamente por aquele torpor de alívio e ela sabia que tudo o que precisava fazer para isso era voltar cerrar os olhos. Antes, porém, de se entregar àquela maravilhosa sensação de calmaria, ela conseguiu dizer:
— Toque seu distintivo com a varinha, Lily. James com certeza virá e ele vai nos ajudar...
Em seguida, um sono envolto em náusea dominou seus sentidos. E tudo ficou escuro.
[Domingo, 05 de dezembro de 1982, 02h42]
Alguém batia insistentemente à porta. James abriu os olhos no escuro e virou-se de barriga para cima, cogitando a possibilidade de ter sonhado com o barulho. Mas logo as batidas vindas da sala voltaram a preencher o silêncio de seu quarto, despertando-o de vez. Relutantemente, ele deixou a cama, vestiu as calças que encontravam-se jogadas no chão e caminhou, um tanto cambaleante, até a saída do quarto.
No caminho, James tropeçou em um par de sapatos no corredor e quase caiu. Foi quando se deu conta de que o efeito das doses de firewhisky que ingerira antes de cair no sono ainda não havia passado. Ele sacudiu a cabeça quando alguns flashes da noite anterior atravessaram sua consciência semiadormecida. Não, definitivamente não era o momento para ponderar sobre seus atos impensados. Mais tarde, quando estivesse devidamente sóbrio, ele se preocuparia com as consequências.
— James! Você está aí?— alguém perguntou do outro lado da porta. – James!
Era Sirius. Mas por que o amigo estava esmurrando a porta de seu apartamento àquela hora da madrugada? James acendeu o abajur com a ponta da varinha e atravessou a sala para atender à porta.
— Por que demorou tanto para abrir?
Sirius já foi entrando, sem esperar pelo convite. James fechou a porta e se virou para o recém-chegado, franzindo a testa em confusão.
— Porque eu estava dormindo. – respondeu, em tom de obviedade, sem entender. – O que você quer–
— Você estava dormindo? – Sirius deu um passo em sua direção, ficando bastante próximo. Ele era apenas dois ou três centímetros mais alto do que James, mas seu olhar furioso naquele momento fez com que aquela pequena diferença parecesse subitamente significativa. – Eu podia esperar isso de qualquer um dos outros, Prongs, mas menos de você.
— Quê? Mas do que é que você está falando, porra? – James perdeu a paciência. Sua cabeça estava começando a latejar e ele queria voltar a dormir.
Sirius abriu a boca para retorquir, mas a fechou antes de pronunciar qualquer som. Em seguida, ele se inclinou sobre James e, sem se importar em parecer inadequado, farejou o ar em volta dele – exatamente como um cão.
— Você está bêbado. – ele concluiu, enquanto se endireitava e voltava à posição inicial. – Não sei nem por que estou surpreso. – suspirou profundamente, como se lhe faltassem palavras para exprimir o quanto se sentia repugnado. – Sabe, James, a cada dia que passa, eu sinto que conheço menos você. Até quando você acha que seus traumas vão poder justificar esse seu comportamento? Parece que você voltou a ser um adolescente, não consegue perceber que–
— Eu não estou entendendo o que você veio fazer aqui, Padfoot! Se veio só para falar merd–
— Você foi o único auror que não compareceu, Prongs! Até Podmore se ausentou de sua missão ultra-secreta e se apresentou para prestar socorro! — Sirius aumentou o volume da voz, para evitar ser interrompido. James se calou, começando a se preocupar. Será que ele ignorara outro Patrono de Moody, no torpor de sua embriaguez? Tentou se lembrar, mas nada lhe veio à memória. – E você, por que não foi? Seu orgulho ferido não deixou? Ignorou o chamado dela só porque ela está saindo com Fenwick? Então é assim que você acha que ela deve pagar por não corresponder às suas expectativas, James? Com a própria vida?
— Como é que é? – James ofegou, estupefato. A sonolência e a ebriedade que dificultavam seu raciocínio desapareceram de repente. – Você está falando da Lily?
— MAS É CLARO QUE ESTOU FALANDO DA LILY!
— O que aconteceu? Ela está bem?
Foi a vez de Sirius assumir uma expressão aturdida.
— Você não... – ele deu um passo para trás. – Então você não viu seu distintivo?
Mesmo estando nu da cintura para cima, James levou a mão até o lado direito do peito, onde costumava afixar seu distintivo. Muito provavelmente o broche estava em algum lugar do chão de seu quarto, preso à camisa que usara mais cedo. Lembrou-se do momento em que ela foi despida e sentiu um solavanco de culpa impactar seu estômago.
— Está tudo bem? – uma terceira voz quebrou o silêncio. – Por que estão falando tão alto?
Ao reconhecer aquela voz, Sirius pareceu compreender tudo. James baixou o olhar e permaneceu imóvel, incapaz de encará-lo. Emmeline deixou o umbral da passagem entre a sala e o corredor e atravessou o cômodo na direção deles, os braços cruzados na frente do peito, os olhos semicerrados de sono. Ela vestia apenas uma camisa larga e desbotada da seleção inglesa de Quadribol, a qual evidentemente pertencia a James, eliminando qualquer possibilidade de dúvida quanto ao que havia ocorrido mais cedo.
— Aconteceu alguma coisa, Sirius? – Emmeline insistiu, percebendo a tensão que vibrava no ambiente.
Após um suspiro exaurido, ele começou:
— Robin Mould invadiu a Farmácia Mullpeppers, duas horas atrás. – Sirius procurou os olhos de James com os seus, mas ele permaneceu fitando os próprios pés. Sirius aguardou por um momento até que, por fim, desistiu de fazer um contato visual com o amigo e prosseguiu, dirigindo-se a Emmeline: – Alice, que estava fazendo a ronda na região, tentou prendê-lo, mas se machucou durante o duelo. Lily, que estava por perto, ouviu Alice gritar e os encontrou na farmácia. Não sei bem como as coisas aconteceram depois disso, parece que Lily também duelou com Mould, mas ele conseguiu escapar. Quando chegamos lá, não houve tempo para que Lily nos desse detalhes; Alice estava desacordada e ela...
A voz de Sirius falhou. Ele parecia estar revivendo os sentimentos que a cena lhe despertara. James esperou pela continuação, mas ela não veio. Aquela pausa abrupta, carregada de suspense, fez com que seu coração batesse em disparada, bombeando uma corrente de ansiedade para todas as partes de seu corpo.
— Como ela estava, Sirius? – ele o apressou, finalmente levantando a cabeça para encarar o amigo.
— Tinha sangue para todo o lado, James. – Sirius foi direto. – Ela tinha uma ferida na barriga, mas não quis que tentássemos estancar. Não deixou nem Remus tentar. Ela disse que já tinha tentado todos os feitiços que conhecia e nenhum tinha resolvido.
— Meu Deus! – exclamou Emmeline, levando as mãos à boca, em choque. – E vocês as levaram para o St. Mungus?
— Sim. – Sirius confirmou. – Elas foram encaminhadas para o Centro de Emergência assim que chegamos. Ficamos por lá até agora há pouco, quando os curandeiros meio que nos expulsaram. Disseram para voltarmos mais tarde, no horário de visitas. Somente membros da família podem passar a noite na sala de espera, então só Frank pôde ficar. – Sirius deixou que seu olhar divagasse pela sala mal iluminada. – Frank estava desolado, vocês não fazem ideia. Só se acalmou depois que uma curandeira informou que Alice só tinha fraturado um braço e tido alguns cortes superficiais nas costas e nas pernas... mas, mesmo assim, não sei se ele–
— E Lily, Sirius? – James o interrompeu. – O que disseram sobre ela? Ela vai ficar bem?
Sirius engoliu em seco. Ao seu lado, Emmeline mordeu o lábio em aflição.
— Não sei. Só disseram que estavam encontrando problemas para fechar o corte. Parece que ela tem algum tipo de problema de cicatrização e eles ainda não tinham identificado qual era. Não entendi direito, eles não foram muito específicos... Espera! Aonde você vai?
Uma estonteante mistura de culpa e desespero ferveu dentro de James e, antes que Sirius tivesse terminado de narrar, ele deu-lhe as costas para alcançar o casaco pendurado atrás da porta. Precisava ir até o hospital, precisava se certificar de que Lily estava recebendo o melhor tratamento que havia, precisava vê-la e...
— James, não adianta. – Sirius o segurou pelo ombro. – Eles não vão te dar mais nenhuma informação e também não vão te deixar ficar lá esperando. Fenwick fez um escândalo com uma das enfermeiras e mesmo assim não o deixaram ficar. Não adianta perder seu tempo.
— Mas ela pode morrer! – bradou James, virando-se para ele.
— Ela não vai morrer, Prongs! – Sirius contrapôs, no mesmo tom. – Seja racional! Tudo o que podia ter sido feito, já foi feito. E você não estava lá!
Um silêncio carregado de remorso incidiu sobre James. Quanto tempo depois de Emmeline ter-lhe despido a camisa com o distintivo, o nome de Lily apareceu nele? Uma hora? Um minuto? James sentiu as pernas fraquejarem com o peso assombroso que se derramou sobre sua consciência. Teve de recostar-se à parede para conseguir se manter em pé. Seus pensamentos davam voltas e voltas e todos chegavam à única conclusão de que tudo era sua culpa. Enquanto Auror Capitão, ele não fizera nada para capturar Robin Mould. E agora sua negligência se voltara contra ele da pior forma possível: atingindo Lily.
Os três permaneceram imóveis e calados por um longo período. Até que, em um dado momento, Emmeline foi até a mesinha de centro e apanhou o maço de cigarros que estava ali. Retirou três da embalagem e então caminhou novamente até James e Sirius, que a observavam com curiosidade.
Ela parou diante deles e encaixou um dos cigarros na boca. Esticou os braços e ofereceu-lhes os outros dois. Os rapazes lhe dirigiram a mesma expressão interrogativa.
— Não querem? – estranhou. – O horário de visitas do St. Mungus só começa a partir das oito da manhã. Vamos ter uma longa madrugada pela frente.
Voltando a desviar os olhos para o chão, James aceitou o cigarro, colocou-o mecanicamente entre os lábios, mas não fez qualquer menção de acendê-lo. Por fim, Sirius tirou sua varinha do bolso interno da jaqueta e acendeu os cigarros dos três. E durante muito, muito tempo, o crepitar do tabaco queimando foi o único som a preencher o silêncio da sala.
[Domingo, 05 de dezembro de 1982, 07:34]
No meio da escuridão, surgiu um fio de consciência. E, algum tempo depois, a força para separar as pálpebras.
Quando os olhos de Alice se acostumaram um pouco à iluminação clara do ambiente, ela analisou o teto do quarto e a textura do leito onde se encontrava, lutando contra uma forte sonolência para reconhecer aquele local tão estranhamente familiar. Sua cama estava rodeada por cortinas brancas e ela estava sozinha. Não, não estava. Seus ouvidos captaram uma conversa não muito longe dali.
— Por favor, não insista, querida. – dizia uma voz de velha, em algum lugar. – Não tenho permissão para dar uma poção dessas a um paciente sem diagnóstico, como você. Se você realmente tivesse algum tipo de deficiência em algum fator de coagulação, esta não seria a primeira vez em que estaria internada aqui por causa disso. Mais cedo você mesma nos disse que sempre teve uma cicatrização normal, não é verdade?
— Sim, Madame Nunley, mas...
— Eu já tomei minha decisão, Srta. Evans. Tenha um pouco mais de paciência. Já conseguimos bastante progresso desde que aplicamos a Essência de Cecropia e agora você precisa repousar para obter o resultado esperado.
As vozes vinham do outro lado da cortina, atrás da qual Alice imaginou haver outro leito. Ao formar a disposição do aposento dentro de sua cabeça, ela finalmente compreendeu que estava em um dos quartos compartilhados do Hospital St. Mungus. E aquela repentina onda de compreensão trouxe consigo as lembranças do fatídico evento que a havia conduzido até ali.
Alice imediatamente levantou o pescoço para conferir o braço direito e encontrou-o dobrado sobre sua barriga, imobilizado por uma grossa camada de gesso. Para seu alívio, não detectou qualquer resquício daquela dor dilacerante; apenas um leve formigamento, que percorria toda a extensão de seus ossos fraturados.
— Frank? – ela chamou, mas a secura de sua boca transformou o chamado num sussurro rouco. – Frank?
Mas não foi Frank quem veio. A cabeça grisalha de uma curandeira surgiu por uma fresta da cortina. Quando os olhos dela pousaram em Alice, ela sorriu.
— Que bom que acordou, Sra. Longbottom! – de repente, ela girou o pescoço para trás e sussurrou, por cima do ombro: – Ela acordou!— e então se virou para Alice novamente e caminhou até sua cama. – Sou Madame Nunley, querida. Você chegou aqui no início da madrugada e nós já cuidamos de você. Seu braço fraturado está sendo tratado e todos os cacos de vidro que estavam em suas costas foram remo–
— Eu preciso falar com Frank. – Alice a interrompeu, sendo dominada por um crescente sentimento de preocupação. Precisava avisá-lo de que estava no hospital, precisava contar-lhe o que havia acontecido...
— Acalme-se, querida. – Madame Nunley abriu-lhe outro sorriso acolhedor. – Seu marido está no andar de cima, na sala de espera. Ele vai ficar muito feliz quando souber que acordou.
Alice abriu a boca para pedir à curandeira para que fosse chamá-lo, mas a figura fantasmagoricamente pálida de Lily Evans invadiu seu campo de visão e roubou-lhe a atenção. Foi então que se lembrou de como a colega duelara na Farmácia Mullpeppers e de como a resgatara das mãos de Robin Mould. Só podia ser graças a Lily que estava ali.
— Lily... – Alice pronunciou seu nome, tentando se sentar para vê-la melhor. – Você...
— Sra. Longbottom! – Madame Nunley interveio, empurrando-a pelos ombros e obrigando-a a permanecer deitada. – Procure não se mexer, ou a Poção Cola-Osso não fará efeito! Aqui, deixe-me ajudar!
A curandeira conjurou um segundo travesseiro e colocou-o cuidadosamente atrás das costas de Alice, a fim de deixá-la numa posição mais confortável sobre a cama. Quando terminou de se acomodar, Alice levantou os olhos para Lily e finalmente pôde realizar um exame completo de sua aparência. Seu rosto não possuía cor alguma, exceto pelos círculos arroxeados que rodeavam seus olhos. Ela trajava um robe branco de mangas longas e os cabelos ruivos desciam pelos ombros até a altura dos cotovelos, tão sem vida quanto seu semblante.
Era difícil acreditar que aquela mulher era a mesma Lily Evans que conhecera três anos antes, naquele mesmo local. Como era irônico estar ali, em uma cama de hospital e com o braço fraturado, diante dela. E como era irônico ter sido salva justamente por ela, a auror covarde que havia abandonado a guerra em seu auge. Qual seria a verdadeira Lily Evans, afinal? A menina cheia de esperança, que lhe pedira uma chance para provar sua coragem? Ou a menina egoísta, que fugira sem hesitar quando a situação se tornou extremamente grave?
Abanando a cabeça, Alice afastou o pensamento: naquele momento, o passado não fazia diferença. Independentemente de todos os erros que cometera, Lily salvara sua vida naquela noite. Qualquer mágoa que Alice sentisse por ela jamais prevaleceria àquela imensurável gratidão.
— Não tenho palavras para agradecê-la, Lily. – Alice começou, pausadamente, olhando-a nos olhos. – Muito obrigada por ter me socorrido e me trazido até aqui. Você salvou minha vida e eu nunca irei me esquecer disso.
Lily sorriu de lado e fez uma mesura.
— Não precisa agradecer, Alice...
— Sra. Longbottom... – Madame Nunley a chamou, com doçura, debruçando-se sobre ela. – Na verdade, não foi só você quem a Srta. Evans salvou nesta madrugada. Aliás, se ela não tivesse nos avisado disso logo que vocês chegaram aqui, nós teríamos lhe dado uma poção que poderia ter... – subitamente, ela se endireitou e se calou. Virou-se para Lily, dizendo: – Srta. Evans, vou deixar que você conte. Enquanto isso, vou buscar o Sr. Longbottom, que deve estar aflito a espera de notícias. Aliás, não contamos nada a ele sobre isso. Achamos que o ideal, Sra. Longbottom, seria que você contasse a ele mais tarde.
— Mas do que a senhora está falando? – Alice indagou.
No entanto, Madame Nunley não respondeu. Ela apenas lhe dirigiu um olhar misterioso e girou os calcanhares para abrir passagem entre as cortinas. Seus passos apressados ecoaram pelo quarto, tornando-se cada vez mais distantes para enfim cessaram após o ranger de uma porta. Ainda sem entender, Alice virou-se para Lily com uma expressão confusa. Sentou-se na cama, segurando o braço engessado contra o peito e perguntou:
— O que ela quis dizer?
Antes de responder, Lily começou a se aproximar, caminhando com certa dificuldade por conta do ferimento recente no abdômen. Por fim, ela se postou ao seu lado, exatamente onde Madame Nunley estivera poucos segundos antes, e escorou o quadril na borda de sua cama.
— Então você não sabe... – ela murmurou, mais para si mesma do que para Alice. – Bem, eu imaginei que não soubesse...
— Não sei do quê? – Alice se irritou.
— Alice. – Lily ergueu os olhos para lhe lançar um olhar penetrante. – Você está grávida.
Todos os músculos de Alice se retesaram ao som daquela palavra. Ela ficou em silêncio por longos segundos, repetindo mentalmente a última frase proferida por Lily, absorvendo o significado daquela notícia inesperada. De repente, seu raciocínio foi atravessado por uma lembrança brutal: quando ainda estava na Farmácia Mullpeppers, Alice havia abaixado a cabeça e descoberto uma poça de sangue debaixo dela. Seu estômago revirou-se dolorosamente ao compreender.
— Lily, e-eu... – balbuciou, atordoada pelo embate de informações. – Eu perdi? Eu perdi o bebê?
— Não. – Lily a tranquilizou, sorrindo de leve. – Eles conseguiram conter o sangramento a tempo. E, pelo que ouvi de uma conversa de Madame Nunley com outra curandeira, você está grávida de cinco semanas.
Cinco semanas. Pouco mais de um mês. Seus músculos, anteriormente enrijecidos, subitamente fraquejaram. Se não estivesse sentada naquela cama, Alice certamente teria caído.
— E como você soube, Lily? – Alice quis saber, esforçando-se para assimilar o impacto. – Quando vi aquele sangue, pensei que os cacos de vidro tivessem... Meu Deus, não fazia ideia...
Lily tomou fôlego.
— Bom, acho que foi muita sorte. – ela começou, pensativa. – Quando me levaram à Ala de Emergência, os curandeiros me colocaram em um leito ao lado de uma mulher grávida. Você foi levada para uma sala adjacente, onde cuidam de ossos fraturados. Enquanto tentavam fechar o corte na minha barriga, eles pediram para que eu contasse o que tinha acontecido na farmácia. Não queriam que eu perdesse os sentidos, então me mantinham falando o quanto podiam... – Lily fez uma pausa reflexiva. Após um suspiro, continuou: – De qualquer forma, descrevi para eles tudo o que consegui, conforme ia me lembrando. Até que me lembrei de que, pouco antes de desmaiar, você tinha me dito que Mould não tinha ferido você. Mas não fazia o menor sentido, já que eu tinha visto todo aquele sangue no chão. Fiquei pensando nisso sem parar até que, de repente, a mulher grávida ao meu lado começou a gritar por conta de uma contração. E então, enquanto eu observava aquela mulher gritando de dor, me veio à mente a discussão que tivemos na semana passada, no Quartel, quando você disse que tinha passado mal depois de ter bebido o elixir que eu tinha preparado. Lembra-se? – após Alice ter confirmado com um aceno, Lily prosseguiu: – Como eu sabia que não tinha nenhum veneno naquele elixir, só podia existir uma explicação lógica para justificar aquele enjôo e a sua hemorragia. E então, quando tudo fez sentido, pulei da minha maca e saí correndo na direção da porta por onde tinham te levado. Os curandeiros vieram atrás de mim, mas só me alcançaram depois de eu ter entrado na sala onde você estava. Madame Nunley já estava com uma poção na mão para dar a você. Tivemos muita sorte, Alice.
Ao fim daquele relato, os olhos de Alice encheram-se de lágrimas e um sorriso agradecido iluminou seu rosto. Aparentemente incapaz de se fazer entender com palavras, pois não era muito boa com elas, Alice estendeu o braço esquerdo para Lily e tocou sua mão.
— Você foi incrível. Obrigada por ter salvo minha vida. – conseguiu dizer, engolindo o choro. Em seguida, Alice abanou a cabeça e, levando a mão ao ventre, corrigiu-se: – Nossas vidas.
Lily abriu-lhe um enorme sorriso e seu rosto pálido até ganhou um pouco de rubor. Mas qualquer vestígio de cor despareceu no instante seguinte e sua expressão risonha tornou-se abruptamente dolorida. A princípio, Alice não compreendeu o que estava acontecendo, até que seus olhos notaram uma mancha vermelho-escura no robe branco de Lily, na altura de seu abdômen.
— Lily! – Alice arregalou os olhos. – Você está bem? Precisa de ajuda?
Arquejando, Lily colocou-se de pé, mantendo-se encurvada para conseguir cobrir a região ensanguentada com as mãos. O sangue se espalhava muito rapidamente pelo tecido; a mancha dobrara de tamanho em poucos segundos.
— Eu estou bem, não se preocupe. – ela respondeu, tentando parecer indiferente. – Os curandeiros estão encontrando problemas para fechar o corte por completo, já é a terceira vez que abre...
Lily empurrou a cortina branca para poder passar, marcando-a com o sangue que estava em sua mão, e desabou sobre um leito vazio mais adiante, tingindo seus lençóis de vermelho. Depois, não se mexeu mais. Alice chamou-a pelo nome duas vezes e gritou-o da terceira, mas não houve resposta.
Quando Alice começou a afastar as cobertas para ir atrás de ajuda, Madame Nunley reabriu a porta do quarto e adentrou o cômodo, com Frank ao seu encalço. Ele respirou aliviado quando seus olhares se encontraram, mas não houve tempo para que Alice se alegrasse com a presença do marido. Lily precisava de ajuda.
— Madame Nunley! O corte dela se abriu!
A curandeira permitiu-se um rápido sobressalto antes de se virar para Frank, ordenando-lhe:
— Vá à recepção e peça à Srta. Abrams para enviar reforços para cá!
Frank disparou para o corredor, enquanto Madame Nunley adiantava-se apressadamente até a cama de Lily.
— Srta. Evans! – exclamou ela. Alice esticou o pescoço para tentar vê-las, mas a cortina semifechada bloqueava consideravelmente o alcance de sua visão. Voltou a ouvir a voz impassível de Madame Nunley: – Olhe para mim, querida. Fique de olhos abertos. Isso. Está tudo bem, não se mexa. Já vamos dar um jeito nisso.
Em menos de um minuto, cinco curandeiros irromperam pela entrada do quarto e postaram-se em volta de Lily, com suas respectivas varinhas empunhes. Durante todo o tempo, Madame Nunley pedia à Lily para manter os olhos abertos, mas, àquela distância, Alice não pôde confirmar se os pedidos da curandeira estavam sendo atendidos. Os curandeiros conversaram aos sussurros, tentaram alguns feitiços e, sem obter qualquer progresso, decidiram levitar o colchão para transferi-la de sala.
Caminhando em torno de um colchão flutuante, o grupo passou pelo leito de Alice, dirigindo-se à saída do quarto.
— Madame Nunley... – Alice a chamou. A curandeira parou junto à porta e a fitou por cima do ombro. – Ela vai ficar bem?
— Não sei, Sra. Longbottom. – a curandeira respondeu, em tom de lamento. – Eu realmente não sei.
Naquele momento, em um casebre de madeira em algum lugar da Floresta de Wichwood, Silenus Hans despertava com os gritos de seu hóspede. Mais uma vez.
N/A: E aí, tem alguém aqui? Será que vocês conseguiram terminar de ler esse capítulo infinito?
Acredito que este seja o capítulo mais revelador até o momento. Muitos de vocês já estavam me perguntando sobre o que tinha acontecido com Voldemort e aqui está a resposta - não está completa, mas é tudo o que vocês podem saber sobre o evento por agora (hehehe). Mas e aí, o que vocês acharam do capítulo? Por favor, me contem, estou muito ansiosa para saber suas impressões sobre o que Fenwick revelou, sobre a reação de James em relação a tudo e, principalmente, o que acharam dos momentos Alice/Lily
Agora, lá vem o textão:
O QUE ACONTECEU COM ESSA AUTORA QUE DESAPARECEU E AGORA SURGIU DAS CINZAS?
Então, queridos. Eu casei! hahahah
Obviamente não foi a mudança do estado civil que me impediu de escrever. O que tomou TODO o meu tempo livre nos últimos meses foram os preparativos do casamento. Sério, gente, agora eu entendo por que dizem que isso só se faz uma vez na vida: porque é simplesmente impossível que alguém tenha forças para organizar uma festa dessas duas vezes. Juro. Foi lindo, maravilhoso, um sonho realizado (o meu pinned tweet é uma foto da festa, para quem quiser ver, sou a arroba carollairr), mas não quero organizar uma festa dessas NUNCA MAIS. Dá muuuuito trabalho!
Espero que me perdoem e que não tenham desistido de mim/da fic. Admito que estou receosa por estar aqui depois de tanto tempo, ainda mais com um capítulo desse tamanho (quis compensar!). Sei que muita gente vai ver o número de palavras e vai ficar com preguiça; o que eu não julgo, porque talvez eu me sentisse assim, se fosse leitora de uma fic como a minha. Mas escrevi tudo com o coração, sofri com a Lily e com a Alice em todos os momentos e penei muito para encaixar as pistas e os 'easter eggs' pelo capítulo. Mas consegui conclui-lo e aqui está ele. Espero que tenham gostado, porque foi a coisa mais difícil que escrevi até hoje - e sei que tenho muito a melhorar.
Toda a dificuldade que passei para escrever esse capítulo me inspirou a criar um Instagram apenas para falar do processo da escrita. E dos livros que estou lendo. E também para postar fotos das minhas tranqueiras de Harry Potter. E também para... enfim, se quiserem acompanhar, ver prévias dos capítulos pelo stories e etc, procurem a (arroba) writing_lair. Sou eu!
Beijinhos de alguém que estava com saudades,
Carol Lair
Reviews dos leitores sem login: (OBS. Queridos, o capitulo já está com quase 20 mil palavras, então vou só deixar uma breve menção a todos os leitores sem login que comentaram no anterior. Criem uma conta aqui, assim sempre poderei dar respostas tão longas quanto o comentário que vocês deixam! Posso ficar divagando com vocês na resposta, o que não dá para fazer quando respondo aqui nas notas, ok? Então lá vai:) MBlack (obrigada, querida!), Mary (muitas das suas perguntas foram respondidas aqui, nesse capítulo, né? O restante, prometo, será respondido nos próximos. Aguarde! Obrigada pelo comentário!), Fire Evans (ahhhh sua linda! Obrigada pelo comentário!), Paola (seus desejos foram atendidos, Lily salvou a p*** toda! hahahah), MBlack (ahhh, que linda, você voltou para comentar mais. Muito obrigada por todo o carinho! E concordo muito com você, James foi babacão sim, ele ficou cego de ciúmes e muito triste por ter se dado conta de que estava se iludindo, pensando que ela o amava. Imagina, né? E, nossa, você fez meu dia com seus elogios. Obrigada de verdade por esse comentário maravilhoso. Beijos!), Guest, DanyC (gostei muito das teorias! Será que elas mudaram com esse novo capítulo?), Milinha (obrigada, obrigada e obrigada! Com um comentário desses, como poderia desistir da fic? Beijos!), Lais, Mia Huggies, Isabel Fusion, Bia, Guest, Carla, Dafny (você é uma pessoa linda, muito obrigada por todo o apoio, por aqui e pelo twitter! Beijinhos!), IslaR, cris (desculpa o atraso! Espero que não tenha desistido! Obrigada pelo comentário!), Guest, Deby, Abby, Tati, T (hahaha, to aqui, to viva, não desisti!), Guest e Juhh. Obrigada de verdade pelos comentários!
