Capítulo 9

Aquelas ondas elétricas que pareciam correr por suas veias não eram mais geradas por medo. Certamente Bella não se sentia calma e relaxada. Não. Mas ela não estava mais com medo de que seu apartamento desabasse, apesar de não ter sobrado nada na sua sala de estar. Ela também não tinha mais que temer a possibilidade de, em algum momento da luta, ser atingida por alguma parte da mobília que era usada como arma e acabasse morrendo.

Porém isso não era o mais estranho. Não era isso que lhe transmitia aquela calma que ela certamente não devia sentir após ver dois vampiros lutando da forma que vira. O mais estranho era que ela se sentia segura. Em choque, mas segura.

E não só porque James agora não passava de um cadáver murcho no meio de seu loft. A segurança vinha de Edward. De suas mãos geladas que mal tocavam suas costas. De seu torso rígido, recém-recuperado dos ferimentos. Edward estava ali, vivo. Bom, de certa forma.

Mal essa conclusão indesejada se instalara em sua mente, mal Bella tivera tempo de achar que estava sendo estúpida por abraçá-lo - e ainda mais estúpido o fato de ele estar retribuindo – aquela voz, mais rouca que o normal, a atingiu, tirando-a de seus devaneios.

— Ok, Isabella. Pare de se aproveitar do meu momento de fraqueza pós-luta.

No mesmo segundo, ela se afastou dele, que ostentava o conhecido sorriso torto e sarcástico.

Imediatamente a sensação de segurança que se apossara dela e começara a tranquilizá-la foi dando lugar à irritação. Irritação era a emoção certa para se sentir perto daquele homem. Ele tinha essa capacidade de espatifar qualquer momento de paz em milhões de minúsculos pedacinhos.

Bella sentiu o rosto ficar quente por causa da irritação que tomava conta de se corpo e fazia seu coração acelerar. E, junto a isso, veio a lembrança do que Edward falou antes da luta com James começar. "Afinal, eu nunca quis protegê-la, eu apenas usei o interesse que sua mente absurdamente pequena tem nela.".

Então a irritação cresceu. Ela tinha sido só uma isca. Se ela morresse no processo, Edward não se importaria nem um pouco.

Ela se virou de costas para ele e deu mais dois passos para longe. Para longe dele e daquele sorriso zombeteiro. Respirou fundo, tentando engolir todos os xingamentos que acompanharam a lembrança das palavras de Edward. Bella não queria brigar. Não com um vampiro que destruiu sua sala de estar há pouco.

— Não fique assim, Isabella. Eu não a culpo. Mesmo sendo um momento pouco favorável, eu sei que não é muito fácil resistir.

Essas palavras, ditas num tom que combinava perfeitamente com o sorriso que agora ela não via mais foi a gota d'água. A tentativa de reprimir a vontade de pegar todos pedaços de madeira que Edward acabara de tirar do corpo e apunhalá-lo novamente com eles foi para o espaço.

— Saia da minha casa. – Ela falou, com toda calma que conseguira reunir.

Um silêncio momentâneo, porém, pesado, pairou sobre eles.

— Entendo. Sua casa. Você está brava pelos móveis. – Enquanto Edward falava, Bella se virou para encará-lo. Ele estava olhando para o andar inferior, admirando o estrago que tinha causado. – Não se preocupe, eu...

— Os móveis? – Bella o interrompeu, o que nunca o deixava muito feliz. – Sim, é claro que eu estou brava pelos móveis. E ouvir que eu fui a isca idiota no meio de seu plano brilhante para matar aquele...aquele...

Sem conseguir completar a frase, Bella simplesmente soltou um grunhido de exasperação.

Por um momento, confusão passou pelo rosto de Edward, mas logo foi substituído pela máscara inexpressiva que ele usava quando não estava zombando dela.

— Bom, Isabella, eu não sei o que você achava que era tudo isso, mas...

— O que eu achava? – Bella estava furiosa e com certeza seus vizinhos podiam ouvir isso. – Eu achava que existia um pingo de decência ou algo do gênero dentro de você, e que isso fizesse você se importar se pessoas inocentes acabam mortas por causa de seu ego inflado e esse territorialíssimo estúpido.

Em um piscar de olhos, Edward estava parado há poucos centímetros dela, com o rosto assustadoramente próximo. Os olhos, geralmente verdes e hipnotizantes, estavam agora de um negro profundo e a perfuravam de tal forma que quase chegava a doer fisicamente.

— Eu já lhe disse uma vez, e espero que fique bem claro dessa vez: Não. Grite. Comigo. – Edward falou tudo isso muito calmamente. Uma calma que fez as pernas de Bella tremerem. – Outra coisa que você deve ter em mente e não esquecer quando for tirar conclusões sobre mim. Eu não tenho um pingo de decência nem nada do gênero dentro de mim. Eu sou um vampiro e não me importo nem um pouco com seres humanos morrendo.

Bella tinha parado de respirar com sua aproximação e só soltou o ar quando ele acabou de falar, se endireitou, assumindo novamente sua postura perfeita habitual, e deu um passo para trás, se afastando.

— Agora, eu vou ignorar seu ataque de nervos e vou voltar a falar sobre seus móveis, sobre os quais eu não me sinto de forma alguma culpado por destruir, mas minha educação me obriga a arcar com as despesas. Então...

Ele estava falando como se nada tivesse acontecido. Seus olhos até tinham clareado um pouco, adquirindo pontos esverdeados.

Estava tudo bem. Bella sabia que devia deixar as coisas como estavam. Que devia deixar ele seguir com seu discurso. Não. Só a parte racional de Bella sabia disso. Mas, infelizmente, não era a parte racional que comandava suas ações agora.

E foi por culpa de sua parte irracional, burra e sem a mínima noção do perigo que Isabella interrompeu o discurso de Edward. Dessa vez não com palavras, o que seria bem mais seguro. Não. Dessa vez ela podia ser diagnosticada a beira da insanidade, já que resolvera dar um tapa na cara de um vampiro.

Até a mão dela atingir o rosto dele, estava tudo sendo como um tapa devia ser. Mas assim que sua mão tocou a pele fria dele, ela concluiu que a pele também era dura feito uma pedra.

Se Edward não tivesse arregalado os olhos, com um misto de susto e raiva, nada indicaria que Bella sequer chegara a tocá-lo. Fora a mudança de expressão, seu rosto não se mexeu um milímetro sequer. Mas o grito que Bella soltou logo em seguida confirmou que ela tinha de fato feito a coisa mais estúpida do mundo.

Ninguém lhe dava um tapa na cara assim. Muito menos uma mortal.

Sua reação instantânea foi agarrá-la pelo pescoço e arrastá-la até a parede logo atrás dela.

Ele não estava imprimindo o mínimo de força em seu aperto, mas era o suficiente para que o rosto de Isabella começasse a adquirir uma coloração vermelha enquanto seus pés, pendurados há centímetros do chão, davam chutes que não chegavam nem perto de atingir Edward.

Um rosnado estava preso em seu peito e ele a olhava profundamente, demonstrando o grande erro que ela tinha cometido.

Quando sua mão apertou o pescoço dela mais alguns milímetros, Isabella começou a arranhar o braço que a segurava. Inutilmente.

Edward sabia, pela coloração do rosto, que começara a apresentar leves tons de roxo, pelas batidas aceleradas do coração e pelo trabalho desesperado dos pulmões em busca de ar, que logo ela desmaiaria. Ou coisa pior.

Isabella também sabia isso. Sentia isso. Em mais uma tentativa inútil de defesa, começou a esmurrar o braço de Edward, se esquecendo da dor absurda que tomava conta de sua mão direita.

Mas assim que essa mão tocou o braço de Edward, ela se lembrou. E teria gritado se tivesse ar o suficiente.

Então o aperto afrouxou.

Edward desviou o olhar daqueles olhos castanho e olhou para a mão que ela afastava enquanto fazia uma careta de dor.

A mão dela estava inchada. Tinha quase dobrado de tamanho.

Ele a soltou por completo, deixando-a escorregar pela parede.

Por alguns minutos, Isabella simplesmente segurou a mão machucada na altura dos olhos, apertando-a delicadamente e fazendo caretas logo em seguida. Então ela pareceu perceber que Edward ainda estava parado ali, observando-a enquanto ela analisava o estrago que tinha causado à própria mão.

Ao levantar a cabeça e se deparar com aqueles olhos escurecidos de raiva, sua raiva voltou. Dessa vez, acompanhada por uma dose sensata de medo. Agora ela não sentia nenhum impulso imbecil de bater nele, afinal, já sabia quem acabaria com alguma parte do corpo quebrada.

— Qual é seu problema? – Ela sussurrou, voltando a olhar para a mão machucada. Aquilo, ela tinha quase certeza, era uma bela luxação.

— Como? – Edward respondeu em um tom indignado. – Meu[ problema? É a segunda vez que você bate em um vampiro desde que te conheci. É preciso ter sérios problemas para fazer uma coisa tão estúpida quanto essa duas vezes.

— Certo. – Ela disse, se levantando e se controlando ao máximo para não cerrar os punhos, o que causaria ainda mais dor. – Eu já entendi. Eu sou a isca e sou estúpida. Agora que tudo está claro...saia da minha casa!

— Muito bem! Você chegou à todas às conclusões certas. – Edward disse num tom sarcástico. – Não acha que falta uma coisa?

— Sim, falta uma coisa. Você sair...!

Edward nem a deixou terminar.

— Falta você ir à um médico. Cuidar dessa mão. – Ele disse calmamente, como se os últimos minutos em que ele quase a matou sequer tivessem existido.

Bella olhou para ele com os olhos arregalados e ficou, por alguns segundos, abrindo e fechando a boca, sem saber o que dizer.

— Você sofre de algum distúrbio de bipolaridade? – Ela perguntou finalmente. Era a única possibilidade que passava por sua mente. E ela nem sabia se vampiros podiam sofrer disso.

Edward a encarou como se ela tivesse acabo de falar em grego.

— Não. – Ele respondeu, finalmente. – Só não espere que eu não reaja se você me bater. O que tenho certeza que não vai acontecer mais. Mas fique sabendo, caso você resolva bater em outro vampiro que eles não vão parar antes de seu pescoço ter virado poeira nas mãos dele.

Bella se sentiu realmente burra por ter feito aquilo. Mais burra do que dor em sua mão já lhe fazia sentir. Ela abaixou a cabeça, encarando a mão que inchava em uma velocidade inacreditável.

Então uma dúvida passou por sua mente e ela se viu expressando-a antes mesmo que pudesse refrear as palavras que saiam de sua boca.

— Então por que você parou?

Novamente os olhos de Edward se arregalaram, mas dessa vez era só confusão que os tomava. Mas, no segundo seguinte, ele já usava sua máscara inexpressiva.

— Porque, Isabella, eu não sou muito a favor de suicídio, que é, obviamente, seu objetivo de vida. Eu considero isso um desperdício de sangue. Então não espere que eu facilite as coisas para você.

Ela estava prestes a expor como isso parecia contraditório, já que minutos atrás ele dissera que não se importava com humanos morrendo. Mas assim que ela abriu a boca, ele falou. Como se tivesse previsto que ela estava a ponto de abrir uma discussão, o que era a última coisa que ele queria naquela noite.

— Vamos. – Ele disse, se virando para as escadas.

Edward caminhava normalmente, mas quando Bella se recuperou da confusão que agora lhe atingira, ele já estava quase no andar debaixo. Por isso, ela teve que praticamente correr atrás dele. Não que ela soubesse onde ele estava indo. Mas pretendia perguntar e, qualquer que fosse a resposta, afirmar que não iria mais a lugar algum com ele.

— Onde...?

— Hospital, Isabella. – Ele respondeu antes mesmo dela terminar a pergunta.

Ela estacou exatamente onde estava, no último degrau da escada. Edward já estava perto da porta.

— Eu não vou a lugar nenhum com você.

Bella pôde vê-lo respirar fundo antes de se virar para encará-la.

— Isso – ele disse, fazendo um leve gesto indicando a mão dela. – É uma luxação...

— Eu sei o que é.

— ...E você precisa de alguém para enfaixar isso.

— Não preciso...

— Ou você vai ter que aguentar mais de duas semanas trabalhando com uma mão só. – Ele disse por fim, ignorando as interrupções de Bella.

Edward sabia que esse último argumento a derrubara. Mesmo não a conhecendo a mais que algumas semanas, ele percebera que Isabella era viciada em trabalho. Então resolveu atacar o ponto fraco. Mesmo que tivesse alguma dúvida, a expressão de derrota que tomou o rosto dela seria o suficiente para saná-la.

Então ele começou a caminha calmamente de volta para a escada, em direção à Bella.

— Mas antes, tem uma coisa. – Ele disse enquanto andava. – Eu acredito que você já tenha assimilado a parte de não gritar nem bater em vampiros. Vamos à lição número três. Não os interrompa. Pelo menos ao que me diz respeito, é extremamente irritante.

Edward a encarou, como se quisesse gravar o que acabara de dizer na mente, e seus olhos os responsáveis por esse trabalho.

Bella sentiu o sangue subir para suas bochechas durante os poucos segundos que aqueles olhos prenderam os dela. Ela achava que era o verde intenso que provocava isso. Aquele verde diferente de tudo que já vira na vida. Mas o fato de, naquele momento, eles estarem negros e ainda provocarem o mesmo efeito hipnótico fez sua teoria cair por terra.

Quando Edward quebrou o contato visual, Bella sentiu que metade da raiva e resistência que tinha sido acumulada desde que ouvira que era somente a isca no grande plano para livrar sua cidade de um vampiro intruso se esvaiu. Mesmo se lembrando de tudo isso, a raiva não parecia tão grande agora. Ela se odiava por isso.

— Vamos fazer um acordo. – Edward disse, tirando-a de seus devaneios.

— O que? - Ela não tinha ideia sobre o que ele estava falando.

— Um acordo, Isabella. Você vai comigo para o hospital, eles dão uma olhada na sua mão e então eu te deixo ter uma boa noite de sono. Você fica em casa e eu posso caçar sem ter que me preocupar com nada.

— Então...se eu for para o hospital, você me deixa em paz?

— Bom, pode-se resumir assim. – Ele respondeu, com o sorriso torto voltando a se formar, trazendo de volta um pouco dos brilhantes pontos esverdeados para aqueles olhos negros.

Meia hora de caminhada depois, eles estavam em frente ao hospital. Sim, caminhada. Aparentemente, Edward tinha meios bem mais rápidos que sua moto para chegar aos lugares em caso de emergência, meios que ele não quis contar à Bella quando ela perguntou.

— Sabe, Isabella. Eu estou te escoltando para o hospital, na esperança que nenhum piano caia do céu durante o caminho, porque são coisas desse tipo que sempre acontecem com você por perto. Um hospital, cheio de pessoas feridas, com muito sangue para fora. Eu já consigo sentir daqui. Então, por favor, pare de falar.

Ela parou. Por mais que quisesse responder, ela se calou.

Todas as lições que Edward tinha citado, ela realmente tinha absorvido. E havia mais uma. Se o vampiro em questão está com os olhos negros de raiva, ou fome, ou sabe-se lá o que mais os deixa assim, você realmente deve seguir todas as regras. Ou pode acabar prensada contra a parede, com uma mão forte como rocha esmagando seu pescoço.

Ao recordar do ocorrido, Bella levou a mão saudável ao pescoço. Ainda estava dolorido. E ela tinha quase certeza que os cinco dedos de Edward estavam marcados ali.

Quando entraram no hospital, Bella pôde sentir uma pequena mudança na postura de Edward enquanto ele caminhava calma e causalmente até o balcão da recepção. Ela o seguiu, reparando que algumas pessoas que circulavam pelo amplo espaço da recepção, por mais apressadas que estivessem, viraram a cabeça para olhar para aquele homem. Só então que ela reparou que a camisa dele ainda estava rasgada devido aos pedaços da sua falecida mesa de centro. Edward parecia não se importar nem um pouco com isso.

— Edward. – Ela chamou, apressando o passo e andando ao lado dele.

— Deixe que eu cuide de tudo. Siga o que eu falar. – Ele disse, antes mesmo que Bella tivesse tempo para expor seus pensamentos.

Ao pararem em frente ao balcão de madeira pintado de branco, uma das recepcionistas que ali estavam levantou a cabeça rapidamente.

Era uma moça jovem e bonita, mas parecia uns 5 anos mais velha do que realmente deveria ser devido ao cansaço. Os cabelos castanho-claros estavam presos em um firme rabo-de-cavalo e ela usava o uniforme branco impecável, com seu nome – Julie – bordado em caprichosas letras azuis na parte superior esquerda da camisa.

— Posso ajudá-lo? – A voz de Julie falhou no final, quando Edward lançou um sorriso simpático.

O sorriso foi realmente simpático e humano. Se Bella não soubesse quem aquele homem era e tudo que ele fizera naquela noite, até ela teria sorrido para ele.

— Tenho certeza que sim, Julie. – Edward respondeu, fazendo a mulher piscar várias vezes à menção de seu nome. – Eu preciso de um enfermeiro, ou alguém que possa ajudar minha amiga. Ela machucou a mão.

Assim que ele terminou, Bella levantou a mão inchada para que Julie pudesse ver.

A recepcionista piscou mais algumas vezes, sem dar a mínima atenção à mão machucada que Isabella exibia. Ela estava muito ocupada tentando descobrir como admirar Edward e conseguir realizar seu trabalho de forma descente ao mesmo tempo. Poucos segundos depois, pareceu perceber que isso não era possível, então focou o olhar em Bella ao responder:

— Podem se sentar ali – disse, fazendo um gesto com a cabeça, apontando as fileiras de cadeiras de estofado azul-marinho que ficavam do lado direito da recepção. – E aguardar enquanto eu chamo um enfermeiro.

— Obrigada. – Bella respondeu.

Edward se ocupou em lançar mais um sorriso à Julie antes de começar a se encaminha ás cadeiras junto com Bella.

Quando os dois se sentaram, um ao lado do outro, Bella começou a analisar as pessoas que passavam. Em sua grande maioria, médicos e enfermeiros voltando de um intervalo com um café na mão ou parentes de pacientes que estavam internados no hospital. Alguns minutos se passaram antes que ela falasse.

— Você realmente tem que fazer isso? – Ela perguntou, se virando para Edward.

— Fazer o que? – Ele nem se dera ao trabalho de desviar os olhos de algo que devia lhe parecer muito interessante na parede oposta.

— Ficar sorrindo para confundir as pessoas. Faz parte de algum poder ou...

— Não, Isabella. Ser educado e sorrir faz parte de uma boa educação. Não é minha culpa se as pessoas ficam confusas.

— Então você sabe que elas ficam. Por que continua fazendo?

— Acho que pela mesma razão que você continua falando mesmo depois de eu ter lhe pedido para ficar quieta.

Bella olhou para ele, completamente indignada e pronta para retrucar.

— Não. – Ele disse.

— O que?! – Ela perguntou exasperada.

— Não discuta comigo.

— Eu achei que você não pudesse ler meus pensamentos. – Ela sussurrou.

— Não posso. Mas eu ouvi você tomando fôlego. Tenho certeza que seria um discurso encantador e convincente, mas se você começar, a minha vontade de matar alguém vai aumentar, eu vou acabar atacando todas as pessoas inocentes que estão aqui e ainda seria capaz de sair para uma sobremesa. Tenho certeza que você não quer isso. Agora, fique quieta. Seu enfermeiro chegará em dois minutos. Tenho certeza que se você consegue sobreviver a vampiros tentando te matar, você consegue se calar até ele chegar.

Quando terminou de falar, Edward olhou para ela profundamente. Se Bella não tivesse sido convencida com a parte que citava morte de pessoas inocentes por sua culpa, o olhar certamente a convenceria.

Exatamente como Edward previu, um enfermeiro surgiu de um dos corredores, foi até o balcão e conversou por alguns segundos com Julie antes de se encaminhar para onde ela indicara, para onde Edward e Bella estavam sentados.

O homem que aparentava estar na faixa dos 30 anos, com cabelos e olhos castanhos se aproximou com um sorriso tranquilizador, que se desfez um pouco ao pousar os olhos em Edward e sua camisa destruída.

— Boa noite. – Ele disse ao parar na frente dos dois. – Meu nome é Marcus Jones. Julie me disse que precisam de ajuda.

Então Edward repetiu a mesma coisa que tinha dito à Julie, acrescentando o nome de Bella.

Marcus pediu que eles o seguissem até uma pequena sala, onde ele realizaria o atendimento. A sala era simples, tinha apenas uma maca, uma cadeira de metal pintado de branco, assim como a mesa. Havia também um armário, de onde Marcus tirou o kit de primeiros socorros e onde estava guardado todo o material necessário para qualquer atendimento simples.

No começo, Marcus estava muito concentrado em cuidar da mão de Isabella, mas foram necessários só alguns segundos minutos antes dele olhar mais atentamente para ela e perceber que, como Bella havia previsto, seu pescoço estava nitidamente marcado pelos cinco dedos de Edward.

Depois dessa percepção, Marcus avaliou Bella por mais alguns segundos e constatou que ela não tinha mais nenhum ferimento. Então ele olhou de relance para Edward e, obviamente, notou o estado lamentável de sua camisa. Marcus voltou a se concentrar em enfaixar a mão de Bella.

O silêncio não durou muito. Mas antes mesmo que Marcus abrisse a boca, Edward viu a pergunta se formando na mente dele, junto com dezenas de possíveis respostas, e revirou os olhos.

Marcus pigarreou antes de falar, e, quando o fez, dirigiu-se à Bella.

— Você se machucou bastante. Como aconteceu?

Bella o olhou com espanto. Ela realmente não queria dar explicações sobre aquilo e estava muito grata por não ter tido que fazer isso graças ao charme hipnótico de Edward. Mas agora, com os olhos do enfermeiro cravados nos dela, ela sabia que não tinha como fugir.

Todas as desculpas plausíveis fugiram de sua cabeça, mas de uma coisa ela estava certa: não poderia contar a verdade. Nem parte dela. Dizer que tinha luxado a mão ao bater em Edward não era uma opção.

Bella olhou para seus joelhos e manteve os olhos ali enquanto tentava inventar uma desculpa aceitável.

— Bem...eu...bati em alguém.

— Ok. – Marcus respondeu, sem se preocupar em esconder a descrença em seu tom de voz. – E como você conseguiu isso?

Ele fazia um gesto indicando o pescoço de Bella.

Edward sabia exatamente o que Marcus pensava. Ele achava que algum tipo de briga entre namorados tinha acontecido e Edward tinha agredido Bella daquela maneira brutal e desumana.

Bom, Marcus não estava completamente errado. Edward tinha de fato causado o hematoma no pescoço de Isabella. Mas não em uma briga de namorados. E ele não tinha culpa alguma pelo dano causado à mão dela. Na verdade, se Bella não tivesse sido tão irresponsável a ponto de se meter naquela confusão toda, eles nem estariam naquele hospital. Talvez toda aquela história nem tivesse chegado a ser uma confusão se ela não estivesse naquele armazém abandonado quando ele encontrara James pela primeira vez. James teria morrido ali.

Mas não. Lá estavam eles e aquela humana nem conseguia criar uma desculpa para que Edward não acabasse preso por agressão.

Ser preso não era um grande problema. O problema seria alguém tirar uma foto sua para poder fichá-lo. Edward não gostava nenhum pouco de ter sua existência registrada por arquivos humanos. Ele não conhecia um vampiro gostava.

Cansado de esperar por Bella, Edward resolveu intervir.

— Foi uma briga bem feia. – Ele falou casualmente, fazendo com que os dois levantassem o olhar para ele.

Bella parecia perdida e confusa enquanto o olhar de Marcus – e seus pensamentos – mostrava desagrado por Edward estar se metendo na conversa.

— Sério? – Marcus perguntou, levantando uma sobrancelha e se virando novamente para Bella.

— Isso. – Ela respondeu.

— Entre vocês dois? – Ele sussurrou, na esperança de que Edward não ouvisse.

— Não! – Bella respondeu, sem saber por que o fizera tão rápido e alto.

Talvez porque a simples ideia de entrar em uma briga física com Edward, depois do que uma mera tentativa fizera com sua mão, estava completamente fora de cogitação.

Mas Marcus aparentemente estava achando que sua resposta apressada foi causada por medo ou algo do tipo.

Edward tinha fixado os olhos em Bella. Era a primeira vez desde que descobrira aquela mente silenciosa que ele não desejava ser capaz de escutá-la e sim ser escutado. Ele desejava que ela fosse capaz de escutar uma das milhões de desculpas aceitáveis que ele fora capaz de inventar naquele pequeno intervalo de tempo. Só uma.

A mente de Bella trabalhava rapidamente, tentando criar uma história que seguisse a deixa que Edward dera. Ela pensava em que tipo de briga poderia ter se metido e que não faria aquele enfermeiro chamar a polícia.

— Com uma amiga! – Era só para ser um pensamento, mas ela percebeu que o expressara em voz alta.

Edward relaxou, aliviado por Bella ter dito a coisa certa, mas manteve a expressão neutra, já que Marcus se virou para encará-lo no mesmo instante.

— Uma amiga? – Ele perguntou desconfiado, o olhar passeando de um para outro. – E ela causou todo esse estrago? – Ele fez sinal para a mão machucada de Bella, da qual ele acabara de tratar e para seu pescoço marcado, além de olhar de relance para a camisa de Edward.

Bella balançou a cabeça vigorosamente. Marcus ergueu uma sobrancelha, ainda descrente.

— Sabe – ele disse, em um tom de voz que ele acreditava que somente Bella pudesse escutar. – Você pode me contar. Nós podemos resolver, chamar ajuda, se você quiser.

Bella arregalou os olhos diante disso, enquanto, do outro lado da sala, Edward revirava os olhos.

Estar naquele hospital estava sendo realmente torturante para ele. E nem era culpa de Marcus, o enfermeiro xereta e insistente. O grande problema era o cheiro forte de sangue que vinha dos andares superiores. Todos aqueles humanos, com seus ferimentos, pequenos ou muito graves, sendo levadas em macas ou cadeiras de rodas, bem acima de sua cabeça. E ele, depois de se recuperar de todos os ferimentos da luta, ele estava com fome demais para aguentar aquilo.

— De verdade – Bella disse, atraindo a atenção de Edward novamente. – foi só uma briga estúpida com uma amiga. Nem sei se posso chamá-la de amiga depois disso. Mas eu realmente não quero falar sobre isso.

— Ok. E você pode me dizer como ele – Marcus apontou para Edward. – acabou assim?

A expressão que tomou o rosto de Bella dizia que não, ela não podia.

— Tentando separar. – Edward disse.

Marcus levantou a sobrancelha novamente.

— Você acabou com a camisa destruída desse jeito porque tentou separar uma briga entre duas mulheres?

— Exatamente. – Edward respondeu sem hesitar. – Você deve saber como mulheres podem ficar descontroladas e incrivelmente fortes e letais quando querem.

Pelos pensamentos de Marcus, Edward sabia que ele ainda não acreditava e estava obstinado a continuar não acreditando, independente do que Edward ou Bella dissessem. E Edward estava cansado daquilo. Se Marcus não queria acreditar por livre e espontânea vontade, Edward o faria acreditar.

— Eu tenho certeza que você entende tudo isso. – Ele começou a andar em direção à Marcus. – Elas ficam cegas de raiva e acabam batendo em pessoas completamente inocentes, destruindo uma de suas melhores camisas e tudo mais. – Quando estava a um passo do enfermeiro, Edward grudou seus olhos nos dele. – Agora, você vai parar com essas perguntas e vai se ocupar de preencher a papelada necessária. Você acredita na nossa história.

Marcus piscou várias vezes, como se estivesse tentando clarear a mente depois que Edward acabou de falar. Bella soube no mesmo instante que Edward usara no enfermeiro o mesmo poder que usava nas pessoas no metrô para conseguir um lugar para sentar. Como de costume, isso a irritou. Edward não tinha o direito de mexer com a mente das pessoas assim. Uma expressão indignada tomou seu rosto, mas Marcus estava sob o poder de Edward e não percebera. Edward, por outro lado, simplesmente não se importava.

Depois de alguns segundos, Marcus finalmente falou.

— É claro que eu entendo. Já tivemos tantos casos parecidos! – Ele estampava um sorriso bobo e frouxo. – Você precisa de algum atendimento?

Bella não podia acreditar. Há menos de um minuto, aquele homem estava claramente suspeitando de Edward. E agora estava oferecendo ajuda a ele.

— Não, eu estou bem. Obrigado. – Edward respondeu, tornando sua expressão instantaneamente calma e amigável. A mudança foi tão rápida e convincente que até Bella achou que ele tinha realmente se acalmado.

— Muito bem então. – Marcus respondeu. – Eu vou buscar a papelada e, assim que terminarmos de preencher, vocês podem ir.

Quando Marcus saiu, Bella se aproximou de Edward e disse:

— Eu vi o que você fez com ele.

— Ótimo – Edward respondeu, voltando à expressão impaciente e irritada de antes. – Me processe. – Antes que ela pudesse abrir a boca novamente, ele completou – Olhe aqui, se eu não tivesse feito isso, ele provavelmente estaria chamando a polícia agora, alegando que eu tentei te matar ou coisa do tipo.

— E você obviamente não tentou. – Bella respondeu com sarcasmo.

— Sim. E eu teria que dizer que a eles que fiz isso por instinto, já que você tem a mania de tentar agredir vampiros. Imagine que depoimento complicado seria o meu. Não. – Ele fez uma pausa. – Eu não quero contato com a polícia. Nem gosto de dar depoimentos. Então eu teria que matar todos eles. E você seria contra e começaria com todas suas lições de moral para cima de mim. Seria realmente maçante. Entende agora como o que eu fiz foi melhor para os dois? Logo você vai estar em casa e eu vou me alimentar.

Nesse mesmo instante, Marcus voltou com uma prancheta contendo os documentos a serem preenchidos. Como somente Bella precisou de atendimento, Marcus só precisou dos dados dela. Depois que tudo estava feito, ele liberou os dois, ainda com aquele sorriso frouxo no rosto.

Os dois caminharam lado a lado até o saírem do hospital. Bella já estava pronta para dizer que não precisava que Edward a levasse para casa quando ele a pegou de surpresa dizendo:

— É melhor você pegar um táxi. – Ele olhava para os lados, procurando o ponto de táxi.

O ponto ficava a alguns metros à direita da entrada do hospital e foi nessa direção que os dois seguiram.

— É, é melhor. – Bella respondeu.

Quando se aproximaram do primeiro táxi, o motorista, que estava encostado no carro, sorriu para eles.

Novamente para a surpresa de Bella, Edward abriu a porta traseira para ela. Um "obrigada" baixo saiu de sua boca antes que ela pudesse refreá-lo enquanto entrava no táxi.

— Por nada. – Edward respondeu, fechando a porta.

Logo em seguida ele se encaminhou para o motorista e disse alguma coisa que Bella na pode ouvir. Então ele voltou e se apoiou na janela da porta traseira, deixando seu rosto inesperadamente próximo do de Isabella, e ela nem sequer conseguiu se mover para se afastar.

— Eu realmente espero que você escute o que estou dizendo dessa vez, já que não posso te obrigar a nada, como fiz com aquele enfermeiro. Fique em casa. Te vejo amanhã.

Então ele se afastou e deu dois leves tapas na parte de cima do carro, fazendo com que o motorista, o qual Bella nem percebera que já tinha entrado, arrancasse com o carro.

O motorista perguntou para onde devia levá-la e ela respondeu automaticamente, sem lhe dar muita atenção. Ela ainda se questionava porque infernos Edward achava que a veria amanhã. Porque, na verdade, ele não veria. Agora que toda aquela confusão tinha acabo, ela pretendia não vê-lo nunca mais. Nem qualquer outro vampiro, se tivesse sorte.

Quando o carro parou em frente ao prédio de Isabella, ela perguntou:

— O senhor pode esperar eu ir buscar minha carteira?

O motorista se virou e a olhou com uma sobrancelha arqueada antes de responder.

— Não precisa. Seu amigo me pagou lá no hospital. E me disse para ficar com o troco, então nem pense em pedir de volta.

Os olhos de Bella se arregalaram e ela demorou alguns segundos antes de voltar a si e finalmente descer do carro.