Nota: Os personagens de Saint Seiya não me pertencem, pertencem ao seu criador Masami Kurumada e empresas licenciadas. Fic sem fins lucrativos a não ser diversão. Feito de fã para fã.


Obrigada: Deise Ferreira, Mari da Veiga, Cath Black, Nandinha 82, JaquBrito e Beck Gemini por comentarem o capítulo anterior!

Uma boa leitura a todos!


Capítulo 10: Subterfúgio

-Bom dia.

-B-Bom... dia.

Aquele havia sido o bom dia mais estranho que Máscara da Morte havia recebido na vida. Shunrei punha a mesa para o café da manhã e se limitava olhar para o chão ou qualquer outra coisa que não fosse seus olhos. A chinesa sempre tão concentrada e gentil parecia outra pessoa aquela manhã. Desatenta, incomodada, distante, quase que agoniada. Era como se estivesse encenando um papel que não havia tido tempo para decorar, mas se via obrigada a fazer. Viu-a se atrapalhar com o bule de chá e correu para ajudá-la, mas ela se afastou com tanta pressa que Vicenzo achou melhor manter a distância. Já havia feito isso à noite passada, depois do festival, e depois daquele beijo. Ainda se lembrava dela correr pela trilha escura, de ter corrido atrás dela, e dela se trancando no quarto. Queria ter se explicado e conversado com ela sobre aquilo, mas... Que raios de conversa teriam? Santo Dio! Haviam se beijado, que explicação aquilo teria? No entanto, não podiam continuar daquele jeito.

-Shunrei? –começou Máscara da Morte, mas a chinesa o interrompeu pela primeira vez o fitando nos olhos aquela manhã.

-Eu tenho coisas a fazer, Vicenzo. Volto antes do almoço; completou dando as costas ao cavaleiro. Máscara da Morte viu-a desaparecer pela porta da cozinha, tão rápida quanto fora ao se esquivar ainda pouco.

-Droga! –o cavaleiro socou a mesa fazendo com que a louça balançasse ruidosamente.


Shunrei correu, correu e correu. Seu coração palpitava, mas sabia que não era somente devido àquela corrida desenfreada. Não conseguia olhar para ele, não depois daquilo. Não depois de... ter gostado tanto daquilo! Aquele beijo? Havia adorado aquele beijo, havia até mesmo desejado outros como aquele, mas... Será mesmo que podia? Eram quase que completos estranhos, aquilo não parecia certo. Somente quando se viu em frente à casa de Chun Yin, Shunrei sentiu-se menos agoniada. Agora, mais do que nunca, precisava de seus conselhos.

-Chun Yin? –Shunrei chamou e a velha mulher logo apareceu à porta.

-Entre querida; disse-lhe Chun Yin e estava prestes a fazer uma brincadeira sobre a garota ter acordado com as galinhas quando percebeu que algo incomodava Shunrei profundamente. A última vez que a vira daquele jeito havia sido por causa de Shiryu. –O que houve querida? –indagou com doçura, porem velada preocupação.

Hesitante, Shunrei se aproximou.

-Ah, Chun Yin! Preciso tanto de seus conselhos... Uma vez mais; a chinesa suspirou angustiada.

-Venha querida, entre! –a mulher a segurou pela mão e a levou para dentro.

Chun Yin havia lhe trazido um bule de chá e biscoitos, mas Shunrei só conseguia mirar tudo aquilo em silêncio. A mulher a serviu, mas a xícara servia somente para lhe aquecer as mãos enquanto mirava a superfície fumegante do chá.

-Vamos, conte-me o que te aflige, criança? –indagou a mulher depois de sorver um gole de chá. Viu a garota mirar ambos os cantos da casa com um olhar apreensivo, como se tivesse dúvidas quanto a estarem só as duas ali. –Não se preocupe, estamos sozinhas. As crianças estão brincando e Lao foi com Mei até o vilarejo vizinho para consultar um médico; explicou Chun Yin.

-Médico? –aquilo pareceu despertar o lado racional de Shunrei. A chinesa repousou a xícara sobre a mesa e se voltou apreensiva para a velha mulher. –Algum problema com Mei? Com o bebê?

Chun Yin acalmou-a com um gesto negativo de cabeça enquanto sorvia outro gole do chá.

-Apenas exames de rotina, querida.

-Que bom! –Shunrei suspirou aliviada e até mesmo se permitiu tomar um pequeno gole do chá.

-Shunrei?

-Sim.

-Aconteceu? –indagou Chun Yin recebendo um olhar confuso da garota. –Seu coração finalmente se abriu para um novo amor, não é?

Shunrei mordeu o lábio e então sorriu envergonhada.

-Será que realmente nada passa batido por seus olhos, Chun Yin?

A mulher sorriu diante das bochechas rosadas da garota.

-Não foi difícil deduzir depois de tê-los visto juntos ontem no festival, querida.

Shunrei corou desviando o olhar. Suas mãos se apertaram sobre o colo antes de voltar a fitar a mulher. Não havia sentido negar coisa alguma agora.

-Mas isso parece tão...

-Tão o que, querida?

-Errado! –completou Shunrei, mas Chun Yin nada disse, esperou que continuasse. –Nós mal nos conhecemos, nós... Como é que eu posso dizer que estou... estou... estou...

-Apaixonada por ele? –Chun Yin a completou depois de vê-la titubear diversas vezes sem conseguir terminar a frase.

-É.

Um longo silêncio se instaurou na pequena sala. Chun Yin nada disse e Shunrei se viu obrigada a quebrar o silêncio.

-Uma semana... Uma semana e; Shunrei ponderou esperando alguma palavra da velha mulher, mas Chun Yin continuava a fita-la com seus olhos astutos em silêncio. A velha amiga realmente estava disposta a fazê-la falar, não é? –Ele me beijou, Chun Yin.

-E? –a mulher arqueou a sobrancelha instigando-a a continuar.

-E eu gostei; Shunrei completou outra vez corando e desviando o olhar. Suas mãos se apertavam nervosamente e seu coração parecia quer saltar pela boca. –É isso que eu acho tão... errado.

Chun Yin se levantou e então arrastou a cadeira até a garota. Tocou-lhe as mãos inquietas que ainda se apertavam uma na outra enfim acalmando-as para então sorrir.

-Estou tão feliz por você, minha filha!

Shunrei sentiu-se ser abraçada pela velha mulher e se aconchegou em seus braços magros, porem calorosos. Era exatamente daquilo que estava precisando, de um abraço de mãe. Ficaram assim por uns longos minutos e então se afastaram. Ainda havia dúvidas nos olhos de Shunrei e Chun Yin decidiu enfim dar-lhe o que tanto queria, sua opinião.

-Diga-me, Shunrei, acha mesmo errado ter se apaixonado por um homem que corresponde seus sentimentos?

-Eu não sei se ele...; começou Shunrei, mas Chun Yin a interrompeu.

-Acabou de me dizer que ele te beijou, não foi? Quer prova maior do que essa, querida? –Chun Yin lhe afagou as mãos. –Vi como ele olha para você, Shunrei.

-Ele é um cavaleiro, Chun Yin. Você bem sabe o quanto foi doloroso para mim ter me apaixonado por um; Shunrei completou melancólica.

-Ele não é o Shiryu, Shunrei. O problema do Shiryu nunca foi ser um cavaleiro e sim ser um pato. Um idiota que nunca soube como tratar uma mulher ou ser grato por seus sentimentos; Chun Yin estava prestes a rir de seu próprio comentário, mas Shunrei muito séria. Aquilo fez com que o riso sumisse dos lábios da mulher.

-É esse o problema, Chun Yin. Não conheço Vicenzo, tanto quanto nunca conheci Shiryu de verdade.

-Shiryu nunca permitiu isso, mas e Vicenzo? Já tentou realmente conhecê-lo, querida? Já tentou fazer-lhe perguntas e esperar que ele as responda?

-Chun Yin... É mais complicado do que pensa; Shunrei murmurou angustiada.

Além de ser um cavaleiro, que um dia havia sido um inimigo, Vicenzo era um homem sem memória também. O que ele faria quando recobrasse a memória? Era isso o que realmente a atormentava. Um homem como ele não perderia o seu tempo com uma mulher simplória, tão pouco criaria raízes num fim de mundo como Rozan. Shunrei tinha medo, medo de estar outra vez se apaixonando pelo impossível.

Chun Yin ainda a fitava com seus olhos astutos e Shunrei se viu obrigada a tentar lhe explicar. Tentar.

-Chun Yin; começou Shunrei sem saber se conseguiria explicar toda aquela confusão, mas a mulher apenas continuou sua linha de raciocínio, como se nunca tivesse sido interrompida.

-Se não tentou, não pode dizer se sim ou se não, querida. Dê uma oportunidade a ele, Shunrei, e só então decida se ele é ou não como Shiryu. Lembre-se, não julgue um livro pela capa.

-Chun Yin, eu... Eu preciso pensar; completou Shunrei.

-Pense querida, mas não pense muito. Já pensou demais quando se apaixonou por Shiryu. Sabe bem como tudo terminou; aquilo podia ter soado duro, mas era o que Shunrei precisava ouvir.

-Eu sei, Chun Yin; Shunrei murmurou sentindo a garganta seca e os olhos a ponto de marejarem. –Eu... Eu só queria que as coisas fossem mais fáceis.

-Nada é fácil nessa vida, querida; a mulher murmurou com suavidade outra vez envolvendo a garota entre os braços.

Shunrei não era tão forte assim. As lágrimas enfim verteram de seus olhos e não soube dizer ao certo por qual motivo. Sentia as mãos da velha mulher lhe acariciar os cabelos com doçura, como se ainda fosse uma garotinha e sorriu. Chun Yin tinha aquele poder, coisa de mãe, a única a realmente lhe fazer sentir aquela paz de espírito. Mestre Dohko havia sido um excelente tutor, mas jamais teria coragem de se abrir com ele como se abria com ela. Chun Yin era mulher e por isso mesmo entendia seus sentimentos, dúvidas e incertezas. E ela tinha razão, Chun Yin sempre tinha razão.


Máscara da Morte havia tomado uma decisão, partiria ainda hoje de Rozan. As coisas definitivamente haviam tomado um rumo muito diferente do previsto e só iriam piorar enquanto permanecesse ali. E, claro, enquanto mantivesse aquela mentira. Santo Dio! O que raios estava fazendo? De cupido atrapalhado havia se tornado... Não. Não gostava nem de pensar sobre isso, no que Shiryu iria pensar quando soubesse, mas a verdade é que sequer se lembrava dele quando estava com ela. Era mesmo um maledetto! Shunrei era encantadora, delicada como uma borboleta, e sentia vontade de protegê-la. Há quanto tempo não se sentia assim? Há muito, muito tempo.

Gostava daquele lugar, gostava daquelas pessoas e gostava dela.

Máscara da Morte mirou a mobília simples do quarto. Realmente gostava dali. Aquele lugar era uma espécie de refúgio onde ninguém se lembraria de seu passado e de quem havia sido. Aquilo lhe trazia paz de espírito, algo que vinha buscando há alguns anos, mas sem sucesso. Estar com Shunrei era estar em paz.

-Droga! –Vicenzo suspirou vencido. Pegou a mochila e a jogou sobre os ombros.

Uma mentira em cima de outra mentira. Um castelo de cartas prestes a ruir. Shunrei jamais o perdoaria quando soubesse, portanto era melhor começar a parar de sonhar. Aquele lugar, aquelas pessoas, e claro, Shunrei, jamais fariam parte de sua vida.


Shunrei sentia-se melhor, muito melhor. Havia ficado mais tempo do que previra na casa de Chun Yin e a manhã se estendera até o começo da tarde. As crianças haviam voltado para o almoço e havia sido divertido. Divertido até que Lao retornara. Lao retornara sozinho e ao ser indagado sobre a esposa apenas bufou aborrecido:

"O médico tinha saído para atender numa vila vizinha, uma mulher com complicações durante o trabalho de parto, ou pelo menos foi o que nos disseram. Cansei-me de esperar, mas encontramos com o idiota do Meng e ele fez questão de fazer companhia para Mei. Mei bem sabe o quanto odeio esperar!"

Chun Yin faltou esbofetear o filho e Shunrei, tinha de confessar, também sentiu vontade de fazê-lo. A cada dia Lao lhe parecia ainda mais desprezível. Naquele momento, Shunrei decidiu que já estava na hora de voltar para casa. Chun Yin, as crianças, elas haviam sido uma excelente companhia, mas Lao tinha a capacidade de destruir qualquer ambiente. Viu-o lhe direcionar aquele mesmo olhar cobiçoso de sempre, mas o ignorou, assim como o asco que sentia. Depois daquela longa conversa que tivera com Chun Yin, tudo o que queria era ir para casa. Queria ver Vicenzo, queria fitar seus olhos azuis e quentes e não a frieza de ônix de Lao. Queria afeto, aconchego e proteção, não aquele frio cortante a lhe subir pela espinha.

Shunrei ponderou enquanto adentrava as águas geladas da cachoeira. Era isso o que Vicenzo representava? Proteção? Aconchego? Talvez um pouco mais. A chinesa riu corada sentindo-se imensamente tola com aqueles pensamentos. Gostava dele, Chun Yin a havia feito admitir em alto e bom som, mas ainda não sabia como lidar com aquilo. Prova maior era ter desviado do caminho de casa e ido até a cachoeira. Não sabia o que dizer a ele quando o visse. Afundou o corpo todo para dentro d'água e então retornou a superfície. Aquelas águas geladas sempre tiveram o poder de lhe clarear as ideias. E o engraçado era que, daquela vez, queria que ele estivesse ali, quem sabe a espiando de cima de alguma pedra...

Shunrei voltou a afundar até a cabeça e então emergiu. Aquele pensamento a havia feito corar além do imaginável.

-Eu realmente adoro o seu cheiro...

Shunrei sentiu como se um imenso buraco tivesse sido aberto sob seus pés. O frio, o frio cortante do medo a abateu por completo. Abraçou-se protetoramente e afundou até o pescoço dentro d'água. Lao estava em cima de uma pedra próxima e tinha suas roupas entre as mãos. O jeito como ele cheirava o tecido de sua túnica fez com que Shunrei sentisse um misto de asco e repulsa. Lao era um animal peçonhento e perigoso. Ela nada mais era que sua presa, prestes a descobrir o sabor de seu veneno. Aquela situação nunca agradara Shunrei, mas naquele momento era infinitamente mais intimidante.

-O que faz aqui, Lao? –indagou por fim. Tinha de ter coragem caso contrário ele realmente iria se aproveitar de sua fraqueza.

Lao riu finalmente voltando-se para a chinesa.

-Shunrei, minha doce Shunrei; Lao suspirou num risinho debochado e então apontou a garota dentro d'água. –Acha mesmo que já não vi muito mais do que isso? Não é a primeira vez que te vejo tão inocentemente banhando-se aqui.

-Seu porco!

Shunrei afundou ainda mais para dentro do lago. Aquilo a fazia ter vontade de apagar de sua memória todo e qualquer momento feliz e relaxante que tivesse tido naquelas águas geladas. Sentia-se suja e exposta, o que contrariava completamente seus sentimentos sobre aquele lugar. E o seu temor só aumentou quando viu Lao atirar suas roupas para longe e começar a desabotoar a camisa.

-O que pensa que está fazendo? –Shunrei indagou entre dentes enquanto se afastava dentro do lago o melhor que podia.

Lao apenas esboçou um risinho torto.

-Digamos que apenas cansei de esperar Shunrei...

O desespero se abateu sobre Shunrei ao vê-lo mergulhar na sua direção. Começou a nadar desesperadamente na direção contrária, mas ele era muito mais rápido e mais forte. Lao a alcançou e tão logo a agarrou pelos braços espremendo-a contra uma das enormes pedras que circundavam o lago. Sentiu suas costas nuas serem arranhadas ao ponto de sangrarem, mas aquilo pouco importava naquele momento.

-Será que você realmente não tem qualquer apreço por Mei? Ela espera um filho seu; suplicou-lhe Shunrei fazendo-o rir. –Ela te ama, Lao; completou numa última tentativa enquanto tentava se esquivar em vão daquele aperto de aço.

-Escute bem, Shunrei; Lao ponderou num tom baixo e calmo acariciando-lhe as maçãs do rosto, um gesto incomum de sua parte e natureza sempre hostil. –EU TE AMOOO!

Lao gritou sacudindo-a e deixando outras marcas rochas em seu braço. Shunrei bravamente segurou as lágrimas prontas a verterem de seus olhos. Ele a estava machucando, mas principalmente assustando. Havia algo de anormal, além do comum em Lao aquela tarde, algo doentio. Ele parecia estar disposto a fazê-la acreditar naquilo de qualquer jeito, fosse por bem, fosse por mal.

-Será que é difícil demais para você entender? –seu tom voltou a ser suave, quase que uma carícia. –Eu te amo, te amo como jamais amei mulher alguma, Shunrei.

-Você; Shunrei suspirou com certa tristeza. Ele realmente parecia crer naquilo. –Você não sabe o que é amar, Lao! Como pode dizer que me ama?

Lao a soltou o que a surpreendeu ao ponto de por um segundo apenas conseguir relaxar. Ele parecia ter um olhar perdido, mas então a víbora que tinha dentro de si voltou a dominá-lo. Seus olhos negros cintilaram um brilho maligno e seus lábios se contorceram um largo sorriso. Aquilo sim lhe pareceu doentio.

-Não diga depois que eu não tentei, Shunrei...

Outra vez era a presa dele e o desespero tomou conta de Shunrei. Lao a agarrou com ainda mais força fazendo-a enfim derramar as lágrimas presas em sua garganta. Shunrei sabia que dessa vez ele não voltaria atrás.

-Por favor, Lao, não...; suplicou quando o sentiu afundar a cabeça contra seu ombro nu e então morder a pele pálida.

Lao se voltou para sua face suplicante e riu.

-Isso, Shunrei, implore! É exatamente isso que eu quero que você faça e é exatamente isso que você vai fazer quando eu te mostrar o quanto estava errada em zombar de meus sentimentos. Você despertou a ira do dragão, agora terá de suportá-la!

Shunrei voltou a se debater e lutar enquanto se enojava a cada toque dele. Preferia morrer a simplesmente se render, mas isso estava se tornando cada vez mais difícil diante da fúria e do aperto de aço de Lao. Queria chorar, gritar, mas não conseguia e aquele sentimento de impotência a fazia ter vontade de morrer, ali e agora. Em meio ao desespero Shunrei se viu pensando no quanto aquilo seria diferente se fosse Vicenzo ali e não Lao. A doçura com que ele havia lhe beijado voltou-lhe a memória como algo vívido e pulsante, tão diferente daquela realidade repugnante e abominável.

-VICENZO!

Conseguiu gritar fazendo com que Lao risse contra o seu pescoço.

-Vamos grite! Grite por seu cavaleiro dourado, o seu salvador! –satirizou-a. –Infelizmente ele não virá te salvar, e sabe por quê? Porque ele se foi, Shunrei.

Shunrei o fitou surpresa o que só alargou o sorriso de Lao.

-Isso mesmo Shunrei, ele se foi. Meng me contou que o viu negociando com algum homem qualquer no vilarejo vizinho sobre como chegar ao aeroporto em Pequim. Que idiota! Acha mesmo que alguém daqui já foi a capital? –gargalhou alto e então voltou a se concentrar em Shunrei. –O que quer dizer que realmente só há nós dois aqui, doçura! Não é ótimo?

Agora sim Shunrei sabia que estava tudo perdido. Ninguém realmente costumava vir até ali e Vicenzo, sua única esperança, ele havia mesmo a abandonado sem sequer lhe dizer adeus. No fim Shiryu e Vicenzo eram iguais, concluiu com profunda amargura. A tristeza que a atingiu foi tamanha que desistiu até mesmo de lutar contra as investidas de Lao. Havia se tornado uma boneca de cera, imutável em seu desalento. Aquilo irritou Lao.

-Vamos sua puta! Grite, esperneie, faça alguma coisa!

Lao a esbofeteou, mas Shunrei não derramou uma única lágrima. Um filete de sangue escorreu por seu lábio ferido e então se perdeu sob a água gelada do lago. Estava cansada de lutar, de tudo. Aquilo deixou Lao ainda mais irado. Não via prazer algum em possuir uma mulher indiferente e fria como mármore polido. Aquilo o fez pensar em Vicenzo e no quanto ela era diferente com ele, toda cheia de sorrisos e atenção. Seu ego ferido se inflamou de tal forma que achou que fosse explodir de ódio.

-Quando eu acabar, garanto, você vai esquecer esse maldito estrangeiro e sequer vai se lembrar que um dia o conheceu!

Shunrei ouviu sua ameaça velada, mas era como se ele estivesse muito, muito longe. Havia sido desconectada do mundo real, dos perigos e dores. A felicidade parecia ser algo longínquo, então a tristeza e a dor também poderiam ser. Resignada como estava não pode conter a surpresa quando tudo repentinamente mudou. Num instante Lao estava em cima de si e no instante seguinte estava na orla do lago. Vicenzo, o mesmo Vicenzo que ele dizia ter ido embora estava ali e o golpeava sem parar. Shunrei mirou aquela cena com olhos quase apáticos e só então despertou. Lao não teria qualquer chance contra ele e Vicenzo nem ao menos estava usando seu cosmo. Pensou em Mei, no filho que estava esperando e também em Chun Yin, sua velha amiga, e aquilo a fez gritar:

-PARE! PARE VICENZO! VOCÊ VAI MATÁ-LO DESSE JEITO!

Vicenzo até então cego em sua ira enfim soltou o rapaz que cambaleou cuspindo sangue e covardemente correu para longe dali. O cavaleiro estava todo molhado também e tinha um brilho mortífero nos olhos azuis. Shunrei sequer conseguia reconhecer o Vicenzo de alguns dias atrás ao mirar aquele a sua frente. Ele parecia uma fera, um verdadeiro dragão, um demônio pronto a desferir toda a sua ira. Poderia dizer que chamas azuis crepitavam sob suas íris revoltas. Viu-o se aproximar de onde estava e depois retirar uma camisa de botões de dentro da mochila que trazia nos ombros.

Naquele momento Shunrei percebeu duas coisas. A primeira é que ele realmente devia estar de partida e a segunda é que estava à beira do lago, na parte mais rasa. Sentiu-se envergonhada quando ele a ajudou a sair da água revelando o pouco que ainda jazia escondido até então. Vicenzo a cobriu colocando a camisa sobre os ombros delicados e Shunrei suspirou aliviada puxando as laterais da camisa para se cobrir melhor.

-Obrigada; agradeceu sincera, mas quando mirou aqueles olhos azuis sentiu-se zonza e cansada. Suas pernas cederam e Vicenzo a amparou. Shunrei o mirou com os olhos rasos de lágrimas. –Eu, eu realmente pensei que você não viria...

Vicenzo a abraçou contra o peito sentindo-a soluçar. Senti-a tão frágil, tão desolada. A vontade que tinha era de correr atrás daquele covarde maledetto e terminar o que havia começado, quem sabe até mesmo recomeçar a colecionar cabeças, mas naquele momento ela merecia sua total atenção. Num gesto rápido, porem gentil, pegou-a no colo para então se afastar dali. Foi até uma encosta rochosa ali perto e então se sentou, mantendo-a junto ao peito. Shunrei se agarrou a sua camisa aceitando de bom grado aquele gesto protetor, mas não conseguia parar de chorar. Longos minutos se passaram até que ela finalmente parou de chorar.

-Ele... machucou você? –Vicenzo murmurou por fim sem conseguir mais manter aquele silêncio. Suas mãos porem continuavam a lhe acariciar os braços e cabelos numa delicadeza inumana.

-Não, e graças a você; Shunrei se afastou o suficiente para fitá-lo.

-Não é o que parece; murmurou Vicenzo analisando as manchas rochas nos braços da chinesa, assim como o corte ainda marcado de sangue no canto dos lábios.

Não conseguia acreditar naquilo. A mesma mulher que havia beijado na noite passada, a mesma mulher que o evitara durante a manhã, essa mesma mulher se encontrava naquele estado lamentável! Ela não merecia aquilo, mulher alguma merecia. A vontade que tinha era de abraçá-la e nunca mais soltar. A última vez que afrouxara seu abraço mulheres importantes em sua vida haviam morrido. Um calafrio de medo percorreu sua espinha. Não conseguia nem mesmo suportar proferir a palavra morte e Shunrei numa mesma frase.

-Eu realmente queria ter matado aquele idiota; murmurou num timbre sombrio.

-Mas não matou, e lhe agradeço por isso também; respondeu-lhe Shunrei.

-Eu não entendo; Vicenzo suspirou cansado diante dos olhos indulgentes da chinesa. Tocou-lhe as maçãs do rosto com carinho como se temesse feri-la. –Como pode ter piedade de alguém como aquele lixo do Lao?

-Não é dele que me apiedo e sim de sua família; Shunrei segurou-lhe a mão que tão docemente lhe acariciava. –Mei espera um filho dele, e Chun Yin é minha melhor amiga, alguém que de fato considero como uma mãe. Consegue entender isso?

Vicenzo assentiu com a cabeça. Entender? Era óbvio que entendia, mas aceitar não. Se Chun Yin era tão bondosa como dizia, ela acima de qualquer pessoa tinha de saber sobre aquilo e encontrar uma forma de punir o filho. O que atormentava Vicenzo era saber que no fundo, alguém como Lao não tinha concerto. Via maldade, puramente maldade dentro dele. Era o mesmo que esperar que Franchetti, o cruel algoz de sua família se dissesse arrependido de todo mal que havia lhe causado. Anos depois, quando já havia se sagrado cavaleiro e voltara a Sicília a fim de se tornar o vingador que o velho Giovanni dissera que seria, o que havia encontrado? Um Franchetti velho e senil, mas o mesmo maledetto de sempre. Ainda se lembrava das últimas palavras do velho e do seu risinho irônico antes de decapitá-lo e fazer daquela cabeça a primeira de sua coleção.

"Vicenzo...? Ah, Vicenzo, é claro que eu me lembro, a garotinha assustada que chorou feito um bebezinho enquanto eu fazia a putanna da sua mamãezinha gemer..."

-Vicenzo? –Shunrei o chamou ao vê-lo tão perto, porem distante. Máscara da Morte a fitou. –Obrigada, de verdade.

Vicenzo sentiu os lábios doces e delicados da chinesa repousarem sobre os seus. Um toque rápido, mas que fez com que Shunrei corasse graciosamente e desviasse os olhos quando enfim se afastou. Adorava quando ela corava daquele jeito, era um presente. Mas um presente seu, seria um beijo de verdade. Vicenzo a segurou pelo queixo e então deslizou o polegar sobre a marca rocha e ainda vermelha de sangue nos lábios da chinesa. Ela gemeu a mais sutil pressão e Vicenzo decidiu cuidar daquilo de outra forma. Aproximou os lábios da ferida e a beijou. Shunrei arrepiou-se de expectativa quando sentiu os lábios dele encaixados no canto de sua boca, uma pressão suave e terna, até que sentiu o calor úmido de sua língua ali também. Vicenzo deslizou a ponta da língua sobre a ferida sentindo o gosto ocre de sangue invadir sua boca. Shunrei voltou a gemer, mas sabia que não era de dor. A chinesa agarrou-se a sua camisa e suspirou contra sua boca. Vicenzo não resistiu.

Cobriu-lhe a boca com sua a princípio delicado, quase que inocente, mas ela se entregava de tal forma que era impossível ignorar. Shunrei entreabriu os lábios numa doçura tão grande que o deixava angustiado. Tinha de corresponder à altura, mesmo sabendo bem lá no fundo que não podia. Deslizou a língua para dentro daquela boca pequena e dessa vez ao invés de fugir ela o acolheu. Sentiu suas mãos pequenas rumarem até seus cabelos, puxando-o para si. Gemeu quando com aquela mesma doçura, Shunrei correspondeu ao toque libidinoso de sua língua. Aquilo inflamou algo dentro de si, e Vicenzo se rendeu ao que sentia naquele momento, uma vontade louca de beijar aquela mulher.

Shunrei sentiu-se leve e inebriada nos braços dele, no calor crescente entre seus corpos enquanto suas bocas pareciam ter se tornado uma só coisa. Os beijos dele a aqueciam e faziam-na pensar e desejar coisas que há um bom tempo não se permitia sentir. Queria que aquilo nunca findasse, que aquilo fosse a única coisa no que deveria pensar, mas sabia que não era verdade. Ele ia mesmo partir, era naquilo que deveria pensar, mas era difícil ser racional estando nos braços dele e inebriada pela sua presença. Shunrei só conseguia pensar nas palavras de Chun Yin: "Pense querida, mas não pense muito..."

E decididamente parou de pensar quando o sentiu abandonar-lhe os lábios e deslizar uma trilha de beijos molhados em seu pescoço...

Sentiu-o afastar o tecido molhado da camisa e então afundar a cabeça na curva de seu pescoço. Mordeu-lhe o ombro nu causando um gostoso arrepio. Não com força demais, mas não tão suave também. Era tão diferente do toque de Lao, do asco que sentira quando ele a havia tocado mais cedo. Vicenzo a fazia sentir-se languida como se fosse derreter sob o seu calor. Era gostoso, era bom, e queria que ele continuasse, mas ele parou.

-Eu não posso!

Vicenzo a afastou de si e se recostou contra a encosta rochosa. Shunrei sentiu-se confusa e fria longe dele. Vicenzo bufou de olhos fechados como se estivesse reunindo uma força que não possuía, força essa para manter-se afastado, o que só confundiu-a ainda mais. Viu-o deslizar as mãos entre os cabelos úmidos e então finalmente voltar a fita-la nos olhos.

-Eu não posso; repetiu numa expressão quase que dolorida.

Shunrei baixou os olhos, envergonhada e também magoada. Realmente não estava esperado aquilo, aquela recusa repentina. Sentia-se frustrada e também tola. Quando o ouviu novamente, ele já estava em pé a sua frente e lhe estendia uma das mãos a fim de ajudá-la a se levantar. Relutante voltou a mirá-lo nos olhos.

-Vem, eu vou te levar para casa.

Shunrei só conseguiu mirar a mochila nos ombros dele e conter a imensa vontade de chorar.

Continua...


N/a: Ressurgindo dos mortos, eu sei. Podem me puxar a orelha por isso, ok? Mas enfim, a fanfic está em reta final e esse provavelmente é o penúltimo capítulo, espero que vocês tenham curtido! No próximo muita coisa há de acontecer! ^^

Nandinha 82, falando em puxões de orelha, você me deu um, não é? Você me chamou a atenção para o fato de eu ter dito que tinha água encanada em Rozan e no outro capítulo dizer que não. Peço desculpas pela pala, mas é que faz tempo que comecei a escrever essa história e já nem me lembrava disso. Os capítulos tem um longo espaço de tempo entre um post e outro, por isso, esse escorregão. Ignore isso, por favor! Espero que isso não a impeça de continuar lendo ou que desgoste da fanfic. Será um prazer revê-la novamente via reviews! ^^

É, sei que não estou no direito de pedir nada, mas quero sim rever todo mundo, ok? rs

Bjus e até a próxima!

Ja ne! ^^