09.
What more could your love do for me?
Mais uma semana tinha passado, outra semana juntos, desta vez realmente juntos. Era como se ambos pudessem explodir de felicidade por algo que julgavam sujo, errado. Como dizer que amar era errado? Porque não podiam quebrar aqueles tabus ridículos? Ok, eles estavam ligados diretamente aos anjos, e isso não era algo que os agradaria, mas como conter um sentimento tão grande, tão forte? Nenhum dos dois tinha esse poder, e se tivessem não fariam nada diferente do que tinha acontecido. Ou melhor, apenas uma: teriam deixado esse amor aflorar mais cedo.
Passava das sete da noite quando Sam chegou em casa. Nenhuma luz era vista em nenhum ponto, nenhuma janela. Dean ainda não estava em casa. O mais velho tinha comentado alguma coisa sobre ter um tipo de treinamento durante aquela semana e por isso chegaria mais tarde todos os dias. Sam esqueceu, e seu coração apertou quando, olhando a escuridão da sala, lembrou que estava sozinho. Depois da primeira noite juntos era difícil ficar naquela casa sem Dean por perto, sem ouvir a voz grave e rouca do irmão falando com ele, reclamando de coisas simples, rindo de outras totalmente idiotas, sem sentir as mãos afoitas do loiro procurando por ele, os beijos na nuca, os abraços, sem o amor que podia sentir a cada toque do mais velho. Seu único consolo era saber que o irmão voltaria para ele, viria para casa e o abraçaria como sempre, deixando aquela sensação de segurança.
Acendeu a luz da sala e passou direto por ela, queria tomar um banho para relaxar antes de descer para preparar o jantar dos dois. Subiu a escada que daria no segundo andar, entrou no quarto, acendeu um abajur e deixou a bolsa com seu notebook lá em cima. Foi para o banheiro, deixou a roupa que usara naquele dia dentro de um cesto e entrou no chuveiro, a água quente escorrendo pelo corpo fazendo-o arrepiar. Mas nada igualava ao toque do mais velho, quando as mãos procuravam por ele, os lábios quentes contra sua pele. Nada era melhor do que Dean. Fechou o chuveiro algum tempo depois, enxugou o corpo, enrolou a toalha na cintura – mais por mania do que por necessidade – e foi para o quarto. Vestiu uma camiseta branca, já bem velha e uma samba-canção, mais nada. Não ia sair, e Dean não o deixaria vestido muito tempo.
Voltou ao primeiro andar e entrou na cozinha depois de acender a luz. Abriu a geladeira e começou a vasculhar o interior procurando o que fazer para o jantar. Estava tão cansado do dia de trabalho que sua única vontade era cair na cama e dormir, mesmo com fome. Mas não, não deixaria Dean chegar tarde e ter que se preocupar com isso, se bem que a idéia de não ter que cozinhar o agradava bastante. Cheeseburger. Dean ama cheeseburger. Sorriu sozinho ao lembrar disso e correu para o quarto. Vestiu o jeans por cima da samba-canção, colocou um moletom azul marinho por cima da camiseta, pegou a carteira e o celular dentro da bolsa e saiu em seguida. Perto dali tinha uma lanchonete, podia ir a pé. Tinha que ir a pé já que Dean usava o Impala para chegar ao trabalho por ser mais longe que o dele. Não reclamava, com pouco mais do que dez minutos de caminhada estava no prédio em uma avenida próxima dali.
Desceu a escada mais uma vez, passou pela sala, apagou a luz da cozinha e saiu em seguida trancando a porta atrás de si. Guardou a carteira e o celular nos bolsos do moletom e passou a andar calmamente pela rua. Era bem tranqüilo ali onde moravam, nada de trânsito intenso, nem mesmo aquela multidão pelas calçadas. E o melhor de tudo, a maioria dos vizinhos não eram do tipo que ficavam bisbilhotando a vida dos outros. Quinze minutos e Sam abria a porta da lanchonete. Viu os olhares de algumas pessoas sobre ele alguns instantes e tudo voltou ao normal em seguida. Chegou ao caixa, pediu os sanduíches, as batatas, os refrigerantes e para completar, como sobremesa, torta de chocolate. Pagou o que devia, pegou o papel que a garota do caixa entregou e foi até uma das pequenas mesas para esperar o pedido ficar pronto. Já podia até ver o sorriso de Dean quando encontrasse os sanduíches em cima da mesa e como correria para comer logo. Esperava que o irmão chegasse logo depois dele para poder comer o lanche quente ainda.
Dean já estava cansado daquele falatório sem fim. O que ele tinha a ver com a numeração do chassi dos carros? Não era ele quem fazia as vistorias. Vendia peças, supervisionava – agora – a oficina mecânica da empresa e ajudava no conserto dos carros quando preciso – e isso o deixava bastante satisfeito, poder cuidar daquelas belezinhas. Não estava ali para ouvir um velho babão falando coisas idiotas. Bocejou e nem se preocupou em tampar a boca com uma das mãos, e em seguida espreguiçou. Viu o olhar bravo do chefe e deu de ombros, fazendo uma careta engraçada como quem diz que não tem culpa por aquilo estar um saco. E estava.
Por sorte estava sentado encostado na parede, ao lado de uma janela. Podia dar umas espiadas do lado de fora uma vez ou outra, ver os carros passando ao longe, na rodovia. Queria ir para casa, encontrar Sammy, estar com o irmãozinho. Desde a primeira noite juntos não conseguia pensar em mais nada, apenas no moreno, sua pele quente, os lábios macios, a respiração ofegante, o coração disparado, os gemidos... Sentiu uma sensação boa percorrer seu corpo e arrancar um sorriso, mas era melhor pensar em outra coisa, não queria ter que sair dali correndo de repente. Quer dizer, queria, mas não no estado que poderia ficar. Vocês entenderam.
Bocejou mais uma vez. Estava cansado por causa do dia de trabalho. Teve que subir e descer as escadas muitas vezes, mais do que faria normalmente, para resolver problemas com recebimento de peças. Algum idiota tinha mandado as notas erradas e sobrou para ele fazer o serviço chato já que o chefe não estava ali. Acreditem, ele odeia ficar preso em uma sala, na frente de um computador sem poder se mexer. Bom, se Sam estivesse na sala com ele a coisa era diferente. Outro sorriso, incrível como Sam estava presente em todos os seus pensamentos.
Encostou a cabeça na parede e fechou os olhos por um breve momento para imaginar o sorriso do moreno com mais nitidez. E imaginou. Foi tão intenso que o prédio parecia tremer. Sammy... Outro tremor, dessa vez mais forte e o barulho de explosão em seguida. Sammy? Quando abriu os olhos o sorriso desapareceu dando lugar à expressão de espanto: a parede oposta à que ele escorava estava destruída, podia ver as pessoas feridas correndo e outras, que não tiveram a mesma sorte, caídas embaixo dos escombros, mortas. Não demorou para que entendesse o que estava acontecendo: demônios. Um deles atirava o velho tagarela pelo buraco aberto na parede, e outros dois vinham em sua direção. O que fazer? Estava desarmado, não tinha como andar uma faca ou um revólver na cintura, ou mesmo com sal. Iam chamá-lo de maluco, mandá-lo para um hospício.
Virou de repente, tentaria alcançar a porta e chegar ao Impala parado no estacionamento da empresa, lá poderia pegar o que fosse preciso para lidar com os demônios. Conseguiu. Pulou algumas cadeiras, tropeçou em outras e girou a maçaneta, só não contava que eles estivessem do lado de fora também.
Uma mulher de cabelos pretos, compridos abaixo dos ombros olhou para ele e sorriu. Mas que mania esses demônios tem de sorrir para ele! – Oi Dean. – ela simplesmente levantou a mão direita e o atirou contra o chão, fazendo-o se arrastar até dar com as costas na mesa tombada no meio do caminho.
- Quer dizer que sentiram saudades de mim? – sorriu cretino, nunca daria o braço a torcer. Estava em desvantagem, isso era fato, mas não daria aos demônios o gosto de matá-lo sem ter que lutar. – Eu sei que vocês me amam, que me querem, só chegaram meio tarde, já tenho dono. – outro sorriso cretino, mas esse desapareceu muito rápido. Sam! Cass tinha dito que os demônios estavam atrás dele, mas em meio todas as coisas esqueceram daquele detalhe, acabaram se descuidando, não notando os sinais típicos que precediam um ataque. Arregalou os olhos e encarou a mulher à sua frente que tinha mais quatro demônios posicionados como se fossem seus guarda costas.
- Isso mesmo, Dean, viemos atrás dele. – o coração de Dean pareceu parar por um momento e voltou a bater totalmente disparado. – Mas como sabemos que nunca conseguiríamos chegar ao Sammy com você por perto, resolvemos te encontrar antes, nos divertirmos um pouco, sabe? – cada vez mais a morena estava perto dele, e ao terminar a frase, levantou a mão direita novamente e o fez contorcer de dor, gritar. – É uma pena desperdiçar isso tudo. Mas não se preocupe, Sam vai te encontrar no inferno assim que cumprir o que foi destinado a ele. E claro que você vai nos ajudar dizendo onde seu querido irmãozinho está porque sabe que o encontraremos com ou sem ajuda.
- Não! NUNCA! – tentou se mexer, em vão. Seu corpo estava preso, como cordas invisíveis prendessem seus braços, pernas e corpo naquela mesa. – Se você tocar no Sam, eu...
- Você o que, Dean? – a mulher abaixou em frente a ele e moveu a mão mais uma vez.
Parecia que seu corpo estava sendo torcido e apertado por uma máquina. Tudo doía, absolutamente tudo, o lado de dentro e o de fora. Sentia seu estômago sendo comprimido de alguma forma, o coração batendo tão rápido que chegava a doer. As imagens de quando esteve no inferno invadiram sua mente de novo trazendo aquele desespero de volta. A dor, o cheiro, a falta de Sam... os braços queimando quando as mãos de Castiel tocaram seus braços, na altura dos ombros, para tirá-lo do inferno, o desespero quando acordou dentro de seu caixão, enterrado no meio do nada, o ar que parecia não chegar aos seus pulmões, a força para quebrar a madeira e cavar um buraco para sair dali, as árvores derrubadas perfeitamente, formando um círculo de madeira. O reencontro com Sam e Bobby, Castiel...
- Lembrar dessas coisas não vai ajudar em nada, Dean.
Ele riu de forma cretina e encarou a mulher à sua frente. – Não mesmo? – os olhos dele fixos nos dela, como se a desafiasse. Sentiu a dor mais forte dessa vez, tão forte que o fez gritar e se contorcer. Não sabia quanto tempo poderia agüentar. Se ao menos os anjos aparecessem, se Cass viesse ajudá-lo, se ao menos salvassem Sam... ele não estava preocupado com a própria segurança, apenas em manter o irmão vivo e a salvo. Cass! CASS! – Eu NUNCA vou entregar Sam a vocês, nunca. – os olhos mais uma vez nos da mulher, totalmente negros. – Pode me torturar e ainda assim não vou falar nada, vaca. – mais uma vez aquele sorriso instigando, provocando a mulher,e esperando que acabasse com ele de uma vez enquanto os anjos iam até Sam para salvá-lo.
De repente podia mexer seu corpo normalmente, as amarras tinham sido desfeitas. – Corra, Dean, antes que o matemos. Nos dê diversão! – tombou a cabeça para o lado e a encarou, não ia correr, sabia que era isso que queriam, sabiam que se o deixassem sair dali fariam de tudo para que chegasse em casa, a Sam, e ele não colocaria o irmão em risco. Não mais em risco do que já estava.
- Acho que não me conhecem, não é mesmo? Não vou fugir de vocês, não vou levá-los a Sam. – o sorriso desapareceu e os olhos do loiro confirmavam o que ele dizia. Não tiraria os pés dali.
Em uma fração de segundos uma luz extremamente forte invadiu a sala. Eram eles. Virou a cabeça para olhar qual dos anjos tinham vindo para lutar. Até mesmo Zacharias seria nem recebido. – DEAN! – era a voz rouca e urgente de Castiel chamando por ele, como se o procurasse em meio àquela zona toda. Virou o rosto e viu o anjo correndo em sua direção, a mão direita erguida, fazendo com que os demônios em seu caminho fossem atirados para longe. Pode ver também que alguns anjos tiravam os sobreviventes dali.
- Cass... vá até Sam e... – foi impedido de falar. Sentia uma mão sufocar seu pescoço, e sabia que ninguém o tocava de verdade. Era aquela mulher, ela estava tentando matá-lo. Ainda assim ouvia os passos de Castiel, conseguia identificá-lo em meio a todos os outros.
- Fique longe dele! – não viu como Castiel tinha feito aquilo, só sentiu seu corpo e a garganta liberada, podia respirar novamente. Tinha que levantar e lutar de alguma forma. Apoiou uma das mãos no chão, a outra no joelho e fez força para erguer o corpo. Respirou fundo e deu o primeiro passo na direção dos confrontos, faria o que fosse preciso para manter Sam a salvo.
- Cass, precisam chegar até Sam!
- Os anjos já foram atrás dele, Dean, ele está bem.
O loiro sorriu ao ouvir aquilo. Sam estava a salvo, protegido, e ele lutaria para que continuasse assim. Avançou para um dos demônios quase ao mesmo tempo que Castiel. Um passo, outro, mais outro e de repente seu corpo parou. Sentiu algo rompendo a pele, causando dor, invadindo seu corpo. As costas estavam quentes e molhadas de repente, parecia estar afogando, como se água estivesse tomando conta de seus pulmões. Não!
Tentou respirar, não conseguiu. Queria andar, mas as pernas não respondiam. Queria chamar Castiel, mas a voz não saia. O gosto de sangue na boca. Levou uma das mãos às costas e sentiu um pedaço de metal fincado ali. Os dedos umedeceram, encontraram um líquido espesso, pegajoso, e quando a trouxe diante dos olhos, viu que estavam vermelhos. Sangue. Sua cabeça começou a rodar por causa da falta de ar, as pernas fraquejaram e Dean tombou. Um guerreiro caído no meio do campo de batalha. Era assim? Não ia ver Sam nenhuma outra vez?
Fechou os olhos e se concentrou. Logo a imagem do irmão sorrindo e tocando seu rosto se fez presente, acalmou seu coração, relaxou o corpo. Passou a sentir menos cada membro, como se o corpo deixasse de responder a tudo, mas a imagem de Sam ainda estava ali.
- Dean... DEAN! – um par de mãos o sacudia, tentava fazê-lo abrir os olhos. Aquela voz rouca, o tom preocupado. Castiel. Mas nem mesmo ele faria o loiro deixar a imagem de Sam. Se era para morrer, que fosse lembrando do irmão, da pessoa que mais o fazia feliz em todo o mundo. A única que importava. – DEAN! – mas a voz do anjo já estava distante demais, quase não podia ser ouvida.
Sammy... – uma nuvem escura tomou conta de seus olhos devagar, apagando a imagem de Sam que estava ali.
