Capítulo8

Harry entrou em seu dormitório sem saber o que ia encontrar. Uma Gina adormecida? Uma Gina recém banhada, nua? Uma Gina preparada para lutar?

Uma Gina preparada para o prazer?

Com irritação, se deu conta de que o coração lhe pulsava descompassadamente no peito. As palmas das mãos suavam. "Idiota", pensou. Ele não era humano, nem tinha medo, nem era inexperiente. E, entretanto, não sabia como dirigir aquela mulher, aquele... Castigo.

O que não esperava era ver Gina caída no chão, inconsciente, em um atoleiro

Vermelho... Sangue? Harry estremeceu.

- Gina?

Correu a seu lado e a fez girar brandamente para tomá-la nos braços. Vinho, só era vinho. Graças aos deuses. Tinha a rosto manchado e algumas gotas se derramaram desde seu rosto aos braços de Harry. Ele esteve a ponto de sorrir. Quanto tinha bebido?

Pesava tão pouco que nem teria se dado conta de que a levava nos braços se não fosse pelas descargas elétricas que provocava nele o contato com sua pele.

—Gina, acorde.

Ela não despertou. De fato, Harry teve a impressão de que se afundava mais na inconsciência, porque o movimento de seus cílios cessou.

Com um nó na garganta, Harry se esforçou por falar.

—Acorde, faça-o por mim.

Nem um gemido, nem um suspiro.

Preocupado por sua falta de resposta, a levou até a cama, ele tirou a jaqueta molhada e a afastou a um lado. Embora não quisesse soltá-la, a depositou sobre o colchão e tomou seu rosto entre as mãos. Tinha a pele gelada.

—Gina.

Não houve resposta.

—Gina... Vamos, preciosa. Acorde.

Em nome de Zeus, o que lhe aconteceu? Não tinha experiência com mortais bêbados, mas aquilo lhe parecia estranho.

A cabeça de Gina rodou a um lado. Seus olhos permaneciam fechados. Tinha uma cor azul nos lábios, e o suor lhe escorregava pelas têmporas. Não estava somente bêbada. Acaso tinha adoecido por passar a noite naquela cela? Não, não tinha dado sinais de se encontrar mau. Acaso Sirius a tinha tocado sem se dar conta? Não, não podia ser. Gina não tossia, nem estava coberta de marcas de varíola. Então o que ocorria?

—Gina. — repetiu.

Não podia perdê-la, ainda não. Não tinha conseguido o suficiente dela. Não a tinha acariciado como sonhava, não tinha falado com ela. A surpresa fez Harry piscar. Se deu conta de que queria falar com Gina, não só saciar seu corpo dentro do dela. Não só interrogá-la, a não ser falar. Conhecê-la e averiguar o que a transformava na mulher que era.

Todos os pensamentos de matá-la se desvaneceram, foram substituídos por pensamentos de salvá-la, fortes e inegáveis.

—Gina, me diga algo.

Harry sacudia a cabeça, impotente, sem saber o que fazer. Ela seguia gelada; ele pegou as mantas e a envolveu nelas com a esperança de lhe dar calor.

—Gina, por favor.

Enquanto a olhava, nela se formaram hematomas sob os olhos. Aquele acaso era o castigo que lhe tinham imposto os deuses? Vê-la morrer lenta e dolorosamente?

— Rony! —gritou, sem deixar de olhá-la— Tiago! Me ajudem!

Harry se inclinou e uniu seus lábios com os dela, com a esperança de poder lhe infundir a respiração. Sentiu calor. Um comichão... Ela separou os lábios manchados de azul e gemeu. Por fim. Outro sinal de vida. Harry esteve a ponto de rugir de alívio.

—Me fale, preciosa — disse enquanto lhe afastava o cabelo úmido da testa— Me

Diga o que acontece.

— Harry —balbuciou ela, mas seus olhos permaneceram fechados.

—Estou aqui. Me diga como posso te ajudar. Me diga o que necessita.

—As mate. Mate às aranhas —disse, com uma voz tão fraca que ele teve que se esforçar para ouvi-la.

—Não há aranhas, preciosa.

—Por favor — sussurrou ela, e uma lágrima escapou entre seus cílios—Estão correndo pelo meu corpo.

—Sim, sim, as matarei. — respondeu Harry.

Embora não a entendesse, ele passou as mãos pelo rosto, pelo pescoço, pelos braços, o abdômen e as pernas.

—Já estão mortas. Estão mortas, prometo isso.

Com aquilo, pareceu que Gina relaxava um pouco.

—Comida, vinho. Veneno?

Ele empalideceu. Não tinha pensado nisso, não tinha levado em conta... O vinho era para eles, os guerreiros, não para os humanos. Como o álcool dos humanos não tinha efeito neles, frequentemente Draco acrescentava umas gotas de ambrosia que tinha roubado dos céus e que mantinha guardada. Acaso a ambrosia era veneno para os mortais?

"Eu lhe fiz feito isto", pensou Harry, horrorizado. "Eu. Não os deuses".

Gritou e deu um murro ao cabeceio de metal da cama. Notou uma aguda dor nos nódulos e começou a sangrar. Isso não o aplacou, assim voltou a dar outro golpe na cabeceira. A cama retumbou, e Gina gemeu de dor.

"Basta. Não pode lhe causar dor", disse Harry. Se obrigando a se tranquilizar.

—O que posso fazer para te ajudar? —perguntou.

—Chame um médico. — sussurrou ela fracamente.

Um curador humano. Sim, sim. Tinha que conseguir levar um médico ao castelo, posto que não podia levar Gina a cidade.

—Encontrarei um médico, preciosa, e o trarei.

Ela gemeu e, por fim, abriu os olhos.

—Harry.

—Não vou demorar, prometo isso.

—Não... vá — disse ela, que estava a ponto de chorar. —Me dói. Dói muito. Fique. Então ele se levantou da cama e se aproximou da porta.

— Draco! Tiago! Lupin! —gritou. O som de sua voz retumbou contra as paredes. —

Rony! Sirius!

Não os esperou, mas sim voltou para a cama. Ali, entrelaçou seus dedos com os de

Gina.

—Que mais posso fazer para aliviar sua dor?

—Não me solte —ofegou ela, e Harry se deu conta de que tinha estria vermelhas nas comissuras dos lábios. O veneno estava se estendendo?

—Não vou, mas, o que mais posso fazer?

—Não sei. Vou... Morrer?

— Não! Não. Isto é minha culpa, e não o permitirei.

—De propósito?

—Nunca.

—Então como? —gemeu ela.

—Foi um acidente. O vinho não é para os humanos. Não sabia se ela o tinha ouvido.

—Vou... Vomitar —disse ela entre arcadas.

Ele pegou a terrina de fruta vazia e a aproximou. Ela se arrastou até a borda da cama e vomitou. Harry afastou seu cabelo para trás.

Era bom ou mau que se purgasse?

Gina se deixou cair sobre o colchão no momento em que Lupin e Draco apareciam correndo na sala, com uma expressão confusa no rosto.

—O que? —pergunto Lupin.

—O que ocorre? —pergunto Draco. Estava suando, e as rugas de tensão que lhe rodeavam os olhos estavam muito marcadas.

Os braços de Lupin sangravam de novo, e tinha a mão torcida. Além disso, em cada mão usava uma adaga. Claramente, estava preparado para a batalha. Ao presenciar a cena, sua confusão se fez maior.

─ Necessita de ajuda com o golpe final?

— Não! O vinho estava misturado com a ambrosia de Draco. Eu o deixei aqui —

Confessou, e se sentiu culpado e desolado, e olhou a Draco. — Salva-a.

Draco cambaleou.

—Não sei como fazê-lo.

—Tem que saber. Passa muitas horas com os humanos! Me diga como posso ajuda-la

—Oxalá pudesse. — disse, e passou o dorso da mão pela testa suarenta. — Nunca

Compartilhei o vinho com nenhum deles. É nosso.

—Perguntem as outras humanas se sabem o que tenho que fazer. Se não souberem, que Rony se transporte a cidade e encontre um médico para trazê-lo aqui. — Morte era o único dos guerreiros que podia se mover de um lugar a outro com um pensamento. Lupin assentiu e saiu correndo.

Draco disse:

—Sinto muito, Harry, mas estou no limite. Necessito de sexo. Ouvi sua chamada da porta principal e vim em vez de partir. Não deveria tê-lo feito. Se não chegar logo a cidade eu...

—Entendo.

—Compensarei isso mais tarde —disse Draco, e desapareceu pela porta.

—Harry — gemeu Gina de novo. O suor lhe corria pelas têmporas. Tinha a pele azulada, mas tão pálida, que ele via as diminutas veias azuis que tinha debaixo. — Me conte... Uma história. Algo que me faça esquecer a dor. —disse ela, e fechou os olhos.

—Relaxe, preciosa. Não deve falar — sussurrou Harry. Foi ao banheiro, esvazio a terrina, limpou e secou, no caso de ela vir a precisar novamente. Depois voltou junto à cama e a encontrou com os olhos fechados ainda.

—Por que... seus amigos o mataram?

Ele nunca falava de sua maldição, nem sequer aos guerreiros que sofriam a seu lado. Não deveria falar com ninguém de sua maldição, e menos ainda com Gina, mas isso não o deteve. Ao vê-la se retorcer de dor, faria qualquer coisa para distraí-la.

—Mataram-me porque têm que fazê-lo. Estão malditos, como eu.

—Isso não explica nada.

—Explica tudo.

Passaram vários minutos em silêncio. Ela começou a se retorcer, como se estivesse a ponto de vomitar de novo. Ele a tinha posto doente e estava obrigado a lhe distrair de sua dor.

—Aqui vai a história de minha vida. Sou imortal, e estou na Terra desde o começo

Dos tempos.

—Imortal. —repetiu ela —Sabia que era mais que humano.

—Eu nunca fui humano. Me criaram como guerreiro para proteger ao rei dos deuses. Durante muito tempo, o servi bem e o ajudei a manter o poder, e o protegi, inclusive, de sua família. Entretanto, não acreditou que eu fosse o suficientemente forte para velar por sua posse mais apreciada, uma caixa feita com os ossos da deusa da opressão. Encarregou essa tarefa a uma mulher. Ela era a caçadora mais forte, mas isso feriu meu orgulho.

Felizmente, Gina tinha relaxado.

—Para lhe demonstrar que tinha sido um engano, ajudei a liberar os demônios que tinham naquela caixa, e se estenderam por toda a terra. Como castigo, os deuses me uniram a um deles —disse Harry. Pôs uma mão no abdômen dela e começou a acariciar brandamente, com a esperança de que aquilo a acalmasse.

Ela exalou um suave suspiro. De alívio? Oxalá.

—Um demônio. Suspeitava.

Sim, ela devia sabê-lo. Entretanto, Harry não entendia por que o tinha confessado com tanta facilidade.

—Mas você é bom. Algumas vezes. Por isso seu rosto se transforma?

─ Sim.

Ela pensava que ele era bom? Cheio de satisfação, continuou com a história.

—Eu soube em que momento me ocorreu, porque senti uma ruptura por dentro, como se algumas partes de mim estivessem morrendo, como se estivessem se atando a outra coisa, a algo mais forte que eu mesmo.

Tinha sido a primeira vez que o tinha compreendido o conceito de morte. Entretanto, não sabia que muito em breve o ia entender intimamente.

Ela emitiu outro delicado suspiro. Harry não sabia se entendia o que estava lhe

Contando. Ao menos não estava chorando nem se retorcendo de dor.

—Durante um tempo, perdi contato com minha própria vontade. O demônio me controlou por completo e me obrigou a.

A todo tipo de perversidades, pensou. Teve visões de sangue e morte, de fumaça, de cinzas e de completa desolação. Nem sequer ele mesmo podia suportar aquilo, e não ia carregar Gina com essas lembranças espantosas.

Depois recordou como o espírito tinha afrouxado sua dominação, como ele tinha saído daquela névoa e a fumaça negra de sua mente se dispersou com uma brisa doce da manhã, e tinha deixado para trás essas lembranças odiosas.

O demônio o tinha obrigado a matar Pandora, a guardiã que o ser odiava mais que tudo. Ao final, sua sede de sangue se aliviou, e o monstro se retirou a um canto da mente de Harry, e tinha deixado que ele enfrentasse às consequências.

—Tive que me afastar daquela caixa. — disse ele com um suspiro.

—Caixa —sussurro Gina, e o deixou assombrado—, demônios... Tinha ouvido algo parecido. —disse. Abriu a boca para seguir falando, mas não pôde. Gritou e alargou as mãos cegamente para pegar a terrina.

Harry reagiu com rapidez e lhe aproximou a terrina em um segundo. Ela vomitou enquanto ele a segurava, a protegia como não tinha feito nunca com outra pessoa. Dar consolo era algo novo para ele. Oxalá, ele estivesse fazendo corretamente. Nunca tinha recebido um apoio assim de seus amigos. Todos eram muito reservados a respeito de suas torturas, como ele.

Quando Gina terminou, voltou a colocá-la sobre o colchão e, uma vez mais,

Limpou seu rosto. Depois olhou o céu.

—Sinto muito ter falado assim de vocês. — sussurrou— Mas, por favor, não façam mal a ela por meus pecados.

Voltou a olhá-la, e se deu conta de que sua vida se dissolveria em um nada se a perdia. Como era possível? Há uma hora, se convenceu de que seria capaz de matá-la...

—Deixem-na viver — acrescentou — e farei tudo que queiram.

Qualquer coisa? Perguntou uma voz muito baixa, que provinha do fundo. Não era a voz de Violência, nem nenhuma voz que ele tivesse ouvido antes.

Harry piscou, ficou imóvel. Passou um momento antes de que sua surpresa se convertesse em confusão.

—Quem está aí?

Gina se sobressaltou por sua pergunta e o olhou com os olhos avermelhados.

—Eu. — gemeu.

—Não me faça conta, preciosa. Dorme. —disse ele brandamente.

"Quem acha que sou, guerreiro? Será que não imagina quem tem o poder de te falar assim?".

Harry passou outro momento assombrado antes de assimilar a resposta. Podia ser um Titã? Ele levava anos enviando suplicas aos Gregos, e nunca lhe tinham respondido. Além disso, os Titãs tinham chamado Tiago para que fosse aos céus, só com uma voz...

Sentiu esperança e medo. Soube que faria tudo se aqueles Titãs fossem

Benevolentes e o ajudassem. Se fossem malvados e piorassem as coisas, entretanto... Apertou os punhos.

Tinham ordenado a Tiago que assassinasse a quatro mulheres inocentes. Não

Podiam ser benévolos. Maldição! Como ia interagir com aquele ser? Com humildade? Eles veriam isso como uma amostra de debilidade?

"Qualquer coisa?", insistiu a voz, e se ouviu uma gargalhada. "Pensa bem antes de

Responder, e pensa que sua mulher poderia morrer".

Harry olhou o corpo trêmulo de Gina e se deu conta de que, até aquele momento, ninguém o tinha necessitado. "Não posso deixar que sofra assim", pensou.

Teria que se arriscar com os Titãs. Quisessem o que quisessem dos guerreiros,

Fosse qual fosse o propósito, se arriscaria.

—Qualquer coisa. —respondeu.

Lupin ofegava enquanto ia correndo ao quarto de Rony. Tinha perdido muito sangue nos últimos dias, mais do que o normal. A necessidade de dor, aquela dor terrível e bela, o invadia com mais força ultimamente.

Não sabia por que e não podia detê-lo. Já não era capaz de controlá-lo, na realidade. Durante os últimos dias, tinha deixado de tentar. O que queria o espírito de Dor, o obtinha. Cada dia que passava, Lupin perdia um pouco mais o desejo de controla- lo. Uma parte dele queria se abandonar à dor e se deixar levar. Experimentar um nada e o intumescimento que lhe proporcionava cada pontada de sofrimento.

As coisas não tinham sido sempre assim. Durante um tempo, tinha aprendido a

Viver com o demônio, a coexistir pacificamente com ele. Naquele momento...

Dobrou uma esquina e a luz que entrava por uma das janelas o cegou momentaneamente; entretanto, não se deteve. Nunca tinha visto Harry tão assustado. Tão vulnerável. E por uma humana, uma estranha. Uma isca. Lupin não gostava, mas considerava Harry um amigo e o ajudaria em tudo o que pudesse. O ajudaria, embora desejasse desesperadamente que as coisas voltassem ao normal, quando Harry se enfurecia e morria cada noite, e na manhã seguinte se comportava como se não tivesse ocorrido nada. Porque, quando Harry fingia que tudo ia bem, para Lupin era mais fácil fingir também.

Quando viu Rony, todos aqueles pensamentos desapareceram de sua mente.

Rony estava sentado no chão com os joelhos cruzados, e a cabeça apoiada nas mãos. Tinha o cabelo ruivo revolto, como se se tivesse passado muitas vezes os dedos entre eles, e parecia que estava fora de seus limites. Lupin engoliu em seco.

Se aquela situação podia desequilibrar o estoico Rony...quanto mais se

Aproximava, mais forte era o aroma de rosas. Morte sempre cheirava a rosas, o pobre.

—Rony. — disse. Rony não reagiu.

—Rony. — repetiu.

Entretanto, não obteve resposta.

Lupin o agarrou pelo ombro e o sacudiu brandamente. Nada. Se agachou e olhou ao guerreiro nos olhos. Entretanto, seu olhar estava vazio, sua boca imóvel. Lupin o entendeu. Em vez de partir fisicamente da fortaleza, como de costume, se transladando em segundos de um lugar a outro, Rony tinha partido espiritualmente.

Era algo que fazia muito poucas vezes, porque deixava seu corpo vulnerável a qualquer ataque. O mais provável era que tivesse pensado nisso para que ao menos, em uma forma que não respondia a estímulos, ficasse vigiando a porta de seu quarto enquanto ele saía para recolher almas.

"Então, estou sozinho", pensou. Só ficava uma coisa por fazer.

Abriu a porta e entrou de repente no quarto de seu amigo.

As quatro mulheres estavam sentadas na cama, sussurrando, mas ficaram em silêncio assim que o viram. Todas ficaram pálidas. Uma delas soltou um ofego. A mais jovem, uma loira muito bonita, ficou em pé com as pernas trêmulas e adotou uma postura de lutadora para se interpor entre sua família e ele. Levantou o queixo e o desafiou com o olhar

E seu corpo endureceu. Ocorria cada vez que se aproximava dela. Na noite anterior a tinha estado cheirando; talco doce, e tormentas. Tinha passado horas suando, ofegando, tão excitado que tinha pensando em lutar com Harry por Gina, acreditando que era ela quem o tinha deixado reduzido aquele estado.

Aquela, mulher era prazer e céu, uma festa para seus sentidos castigados. Não tinha cicatrizes nem sinais de uma vida dura. Tinha a pele imaculada, branca e os olhos pretos e brilhantes. E uma boca vermelha, feita para rir e para beijar.

Se tinha sofrido momentos de dor, não o deixava entrever. E isso atraía a Lupin. Entretanto, ele sabia que suas relações só podiam acabar mau.

—Não me olhe assim —lhe espetou o anjo com cabelo colorido, apertando os punhos de ambos os lados do corpo.

Tinha pensado em golpeá-lo? Era uma ideia risível. Ela não podia saber que ele desfrutaria. Que quereria mais e mais e mais, que lhe rogaria que lhe batesse mais.

"Faria um favor ao mundo se deixasse que os Caçadores me cortassem a cabeça".

Odiava a si mesmo. Odiava o que era e o que se via obrigado a fazer. O que desejava.

—Se tiver vindo nos estuprar, deveria saber que vou lutar com você. Não o conseguirá facilmente. —disse a garota.

Semelhante coragem em alguém tão pequeno o deixou assombrado, mas não se distraiu de sua tarefa.

—Alguma de vocês sabe como curar a uma humana? Ela piscou.

—A uma humana?

—Uma mulher. Como você. A garota piscou de novo.

—Por que?

—Sabe como? Não tenho muito tempo.

—Por que? —insistiu ela.

—Me responda, e possivelmente lhes deixe viver outro dia mais.

—Tonos, responde, por favor —pediu a mais velha das mulheres. Além disso, estendeu uma mão enrugada, trêmula, e a puxou pelo braço para atraí-la para a cama.

Tonks. O nome lhe invadiu a mente. E o pronunciou em voz alta sem poder evita-

lo.

—Tonks. É bonito. Eu me chamo Lupin.

A garota resistiu obedecer a anciã e escapou de seu braço sem deixar de olhar a

Lupin. De repente, ele se sentiu ansioso por escapar dela e de sua provocadora inocência.

—Perguntarei uma vez mais. Alguma de vocês é curadora? —ladrou. Ante sua brutalidade, a moça empalideceu, mas não se retirou.

—Sim... Se for médica, promete que se salvarão minha mãe, minha irmã e minha avó? Não têm feito nada errado. Viemos a Budapest para esquecer, para nos despedir de meu avô. Nós...

Ele elevou uma mão e ela ficou calada. Ouvir coisas sobre sua vida era perigoso. Ele já tinha vontade de abraçá-la e consolá-la por uma perda que, obviamente, a tinha feito sofrer.

—Sim, perdoarei suas vidas se a salva. —mentiu.

Se devia acreditar o que tinham dito os Titãs, Tiago explodiria muito em breve, se voltaria louco pelo sangue e a morte. Não teria outro propósito que assassinar aquelas mulheres. Dar a elas um pouco de paz de espirito durante seus últimos dias era algo misericordioso, pensou Lupin. Seus dias finais. Não gostou de pensar nisso.

Ela fechou os olhos, suspirou e disse:

—Sim, sou médica.

—Então, venha comigo.

Para não perder mais tempo, deu a volta rapidamente e saiu da sala. Tonks o seguiu. Lupin deixou as demais mulheres trancadas, e depois, tentou manter uma distância prudente entre o anjo e ele.

"Oh, Deus santo", pensou Ninfadora Tonks com o coração em um punho. "Por que fiz isto? Não sou médica".

Tinha estudado um ano de anatomia na faculdade, sim. E tinha feito um curso de

Reanimação cardiorrespiratória no caso de que seu avô sofresse um ataque cardíaco, claro. Entretanto, não era médica, nem enfermeira. Só era uma artista que lutava por se sobressair e que tinha pensado que umas férias em família poderiam ajudar a aliviar a dor que lhes tinha causado a morte do avô.

O que ia fazer se aquele soldado, porque claramente era um soldado, lhe pedisse que levasse a cabo uma operação cirúrgica? É obvio, se negaria. Não podia pôr a vida de outra pessoa em perigo. Entretanto, possivelmente fizesse qualquer outra coisa. Tinha que salvar a sua família. Eram suas vidas as que estavam em perigo naquele momento.

Em um esforço por se tranquilizar, se concentrou em estudar a seu captor enquanto este caminhava diante dela. Tinha a pele bronzeada e os olhos escuros. Era alto, e tinha os ombros mais largos que tinha visto em sua vida. Só o tinha visto uma vez antes, e tampouco sorria. Em seus olhos tinha dor. E nos braços tinha cortes recém feitos, nas duas ocasiões.

Tonks queria falar com ele, lhe perguntar o que esperava dela, mas não encontrava a voz. Tinha um nó em sua garganta. Não sabia por que fora sequestrada, e já quase não lhe importava. Só queria sair daquele castelo tétrico quanto antes, esquecer a seus musculosos habitantes e voltar para sua casa, no Novo México.

De repente, sentiu tanta nostalgia que esteve a ponto de voltar a chorar. Cumpriria

Aquele soldado sua promessa se o ajudasse? Ela duvidava muito, mas a esperança se impôs sobre a razão. Faria o que pudesse e rezaria para que ocorresse um milagre. Entretanto, não podia se convencer de que ia ocorrer um milagre. "Provavelmente, essa besta te matará se algo sair errado".

"Oh, Deus Santo", repetiu. Se fracassasse, não tinha dúvida de que sua família e ela morreriam. Muito em breve.

Quando Lupin entrou no quarto com a moreno com algumas mechas rosa a que se supunha que Tiago tinha que matar, Harry quase se pôs a chorar de alivio Gina tinha vomitado várias vezes, até esvaziar seu estômago. E depois tinha vomitado um pouco mais.

Ato seguido, desabou sobre o colchão e tinha deixado de respirar. Em meio do desespero, Harry tinha tentado falar de novo com o Titã, mas o deus não tinha feito nada. Quando Harry tinha aceitado fazer qualquer coisa em troca da ajuda que lhe emprestasse, o ser poderoso o tinha abandonado.

O Titã lhe tinha dado esperanças, e depois as tinha jogado por terra. Harry se perguntava quais eram as intenções do deus, e já tinha a resposta, se divertir com crueldade, com sadismo.

Lupin se separou do vão da porta e a garota entrou na sala.


Oi gente! Estou muito feliz em voltar com uma história que eu amo, obrigada pela motivação e apoio, vou tentar postar o próximo o mais rápido possível.

Até a próxima!