Murray 10 - Guerreiro das Terras Altas

Hannah Howell

Escócia, século XV

Uma corrida contra o tempo!

Cada minuto dentro dos muros do Castelo de Drumwich representa perigo. A única esperança de Jolene é confiar em um prisioneiro acorrentado nas masmorras, que, em troca de liberdade, pode ajudá-la a escapar da fúria assassina de um primo cruel. Jolene está preparada para lutar por sua vida… Mas nos braços de Sigimor, ela logo se rende ao desejo do coração!

Sigimor Cameron chega tarde demais para salvar o homem com quem tinha uma dívida de gratidão, mas não a irmã dele. Aturdido com a atração que sente por Jolene, Sigimor parte com ela numa fuga alucinada. Com o inimigo cada vez mais perto, Sigimor descobre que só há uma maneira de salvar a vida de Jolene… E um acordo nascido da paixão só poderá ser selado com um beijo de amor…


Capítulo I

Inglaterra, Primavera de 1473

Chega de ficar olhando para mim! — Sigimor rosnou.

Liam Cameron ergueu uma sobrancelha em resposta à implicância do primo.

Quero saber qual será seu plano para tirar-nos desta encrenca.

Sigimor resmungou e apoiou a cabeça na parede úmida de pedra na qual estava acorrentado. Suspeitava de que Liam soubesse da verdade. Não havia plano nenhum. Ele, o irmão Tait, o cunhado Nanty MacEnroy, os primos Liam, Marcus e David estavam presos em uma masmorra, nas profundezas de um castelo inglês, onde um projeto de fuga em nada lhes serviria. Precisavam de um milagre propriamente dito. E pelo que fizera nos últimos tempos, Sigimor não se achava merecedor de nenhuma dádiva divina.

Aquela fora sua última tentativa de cometer uma boa ação, Sigimor admitiu e torceu a boca. Embora tivesse vindo a Drumwich não para praticar um ato caridoso, mas sim para saldar uma dívida. Devia a vida a lorde Peter Gerard. Nem titubeara quando o lorde requisitara sua ajuda. O pedido, porém, chegara tarde demais. Peter morrera dois dias antes de Sigimor e seus homens atravessarem os portões pesados de Drumwich. Logo ficara evidente que Harold, primo de Peter, não se mostrava disposto a honrar nenhum dos compromissos assumidos pelo parente morto. Sigimor considerou a ironia de morrer na casa do homem que lhe salvara a vida.

Nada lhe ocorre, não é?

Nada, Liam, nada. Se eu houvesse imaginado que Peter morreria antes de chegarmos, teria elaborado diretrizes para enfrentar um contratempo.

Jesus! — Nanty murmurou. — Eu preferia morrer em um campo de batalha a morrer neste país amaldiçoado. E ainda na forca, como os ladrões Armstrong ou Graham.

A sua Gilly não tem alguns Armstrong entre seus parentes? — Sigimor perguntou.

Ah-ah. Esqueci deles. São os Armstrong de Aigballa. Cormac, o proprietário das terras, casou-se com Elspeth, prima de Gilly.

Eles também são gatunos?

Não. Pelo menos não todos. Por quê?

Se acontecer algum milagre e pudermos escapar desta terrível armadilha, precisaremos de aliados no trajeto de volta.

Sigimor, estamos nesta Inglaterra amaldiçoada, no calabouço de uma fortaleza pertencente a um amaldiçoado lorde inglês, acorrentados a uma parede três vezes amaldiçoada. E seremos enforcados em dois dias. Não acredito que teremos de nos preocupar como o que será ou não necessário para a volta ao lar. A não ser que o canalha de Harold decida enviar nossos cadáveres para serem enterrados por nossos parentes.

Suas palavras, Nanty, de nada servirão para levantar nosso moral. — Sigimor ignorou a imprecação dita pelo cunhado. — Eu me pergunto por que não foram designados guardas para nos vigiar.

Estarmos presos com correntes grossas em uma parede que mais parece uma muralha não será um bom motivo? — Liam ironizou.

Talvez eu pudesse, com minha força descomunal, arrancar as argolas das pedras.

Ah! Estas paredes devem ter pelo menos três metros de espessura.

Dois metros e sessenta, para sermos mais exatos — uma voz clara e feminina afirmou.

Sigimor ficou embasbacado diante da mulher de pequena estatura parada do lado

de fora da cela e os olhava por entre as barras de ferro de grosso calibre.

Ela é minha.

Por que lhe ocorria essa noção absurda? Nunca vira aquela jovem que em nada se parecia com as mulheres que desejara em seus trinta e dois anos de existência. Além do mais, era inglesa.

A moça tinha constituição delgada, embora esse defeito não pudesse ser considerado grave. Esguia, era bem menor do metro e noventa dele. Sigimor sempre preferira mulheres altas e rechonchudas. Os cabelos dela eram escuros, provavelmente negros. Em qualquer ocasião, sentia atração pelas loiras. Porém, de maneira inexplicável, seu corpo ignorava as preferências costumeiras e ficara rígido. Na certa a situação de risco desordenara sua mente.

E os ferros que seguram as correntes nas pedras estão enterrados a uma profundidade de um metro — a jovem acrescentou.

Deduzo que a senhora não veio aqui para nos deixar felizes. — Sigimor foi irônico.

Não acredito que haja alguma coisa para alegrar seis homens acorrentados, horas antes do enforcamento. Ainda mais sendo escoceses dentro de uma masmorra inglesa.

Não posso tirar-lhe a razão. Quem é a senhora?

Lady Jolene Gerard.

Sigimor disse a si mesmo que, se ela pretendia parecer imponente, não adiantara endireitar as costas para apresentar-se.

Irmã ou esposa de Peter?

Irmã. Peter foi morto por Harold. O senhor chegou tarde para ajudá-lo.

Sigimor sentiu-se culpado, mesmo sem notar nenhum traço de acusação na afirmativa amarga.

Eu saí de Dubheidland na manhã seguinte após receber a mensagem de Peter.

Eu sei. Meu receio é que Harold desconfiou que Peter havia pedido ajuda. Meu primo manteve vigilância em todas as estradas que conduziam às propriedades de nossos parentes. Por isso Peter mandou chamá-lo. Ainda não descobri como Harold soube disso.

Milady tem provas de que foi Harold quem matou Peter? Jolene suspirou e negou com gestos lentos de cabeça.

Não. Mas também não tenho a menor dúvida de que tenha sido ele. Harold almejava Drumwich. Agora, a herdade é dele. Peter estava em perfeitas condições de saúde. Morreu gritando de dor e apertando o ventre. Harold alegou que o peixe estava estragado. Mais dois homens morreram.

Bem, não deixa de ser uma possibilidade.

Não posso negar. Tragédias desse tipo não são raras. Contudo, antes que o peixe dito podre fosse enterrado, dois dos cachorros de Harold comeram alguns pedaços dele. Os animais estão vivos e nem mesmo ficaram doentes. Claro que Harold não sabe que eu testemunhei o fato. Os cães avançaram no prato de Peter quando meu irmão passou mal. Harold não percebeu que tive de empurrar os cachorros para socorrer Peter.

Quem mais morreu?

Os dois homens mais leais a meu irmão. O cozinheiro disse que o prato era uma homenagem aos três, que adoravam peixe. Foi dito que a pesca tinha sido escassa e insuficiente para alimentar todos. Também foi servido a eles o último melhor vinho. Acredito que a bebida estivesse envenenada, mas não pude encontrar vestígios de nenhuma substância letal. A jarra e os canecos foram retirados e lavados antes que eu me desse conta do que havia acontecido.

Milady falou com o cozinheiro? — Liam perguntou.

Ele desapareceu.

Sigimor praguejou e apresentou rapidamente os parentes.

Nesse caso, Harold ficará impune. Milady não tem provas, e eu não estou em condições de ajudar a procurá-las. Acredito que a senhora deveria procurar outro lugar para viver, agora que Harold é o senhor de Drumwich.

Ele ainda não é nada. Há um pequeno impedimento.

Do que se trata?

Do filho de Peter.

Legítimo?

Sem dúvida. Reynard tem quase três anos. A mãe dele morreu ao dá-lo à luz.

Se milady está certa de que Harold matou seu irmão, será melhor afastar o menino daqui — Liam comentou.

Jolene fitou Liam por um instante e depois voltou-se de novo para Sigimor. A pequenina dama inglesa não pareceu abalada pela decantada beleza de Liam. Um fato inédito. Era certo que Liam, sujo e machucado, não estava em seu apogeu. Mesmo assim, Sigimor surpreendeu-se e ficou intrigado.

Harold não tentou arrancar-lhe a verdade à força? — Sigimor quis saber.

Não. Tenho certeza de que ele tentaria, se pudesse. Eu tenho me mantido escondida. Harold não conhece os subterrâneos de Drumwich.

A senhora é inteligente, mas Liam está certo. Quanto antes a senhora e o menino saírem daqui, melhor será.

Jolene fitou o homenzarrão em quem Peter confiara para salvá-los. Ele viera dos Highlands, região montanhosa do norte da Escócia. Era um homem confiável e honrado que entrara na Inglaterra para saldar uma velha dívida. E nenhum dos homens lhe pedira para tirá-los dali, apesar da precariedade da situação que enfrentavam. Nem haviam hesitado em aconselhá-la a fugir do alcance de Harold, levando o herdeiro de Peter. Eram homens grandes e fortes. Se fossem libertados, voltariam imediatamente para as montanhas escocesas. Harold não os encontraria com muita facilidade.

Jolene nem mesmo entendia por que não conseguia tirar os olhos de Sigimor, o maior de todos. Qualquer mulher seria atraída por aquele que se chamava Liam. A despeito das equimoses e da sujeira, era visível, mesmo sob a luz bruxuleante das tochas nas paredes, a beleza máscula daquele homem.

Qualquer mulher, menos ela. Aos vinte e três anos, acreditava que nenhum homem a deixaria fascinada. E não era o que estava acontecendo. O fato de não poder ver sir Sigimor de maneira distinta aumentava o poder de atração.

Jolene criticou a si mesma pelos pensamentos inaceitáveis. O mais importante no momento era a segurança de Reynard. Durante três dias e três noites ouvira Harold van- gloriar-se de que esquadrinhara toda a propriedade e interrogara todas as pessoas. Na noite passada, os interrogatórios tornaram-se brutais. Os gritos dos torturados ecoavam nos corredores. Não demoraria muito para algum dos conhecedores dos meandros de Drumwich não suportar mais as torturas. O sofrimento podia soltar a língua do ser humano mais fiel. Harold ficaria sabendo como encontrá-la. Sem possibilidade de aproximar-se de ninguém de sua família, suas últimas esperanças recaíam naqueles homens.

Sei disso. Preciso sair daqui levando Reynard. Terei de encontrar um local de difícil acesso, onde seja praticamente impossível Harold localizar-nos.

Pelo olhar de Sigimor, Jolene percebeu que ele começava a entender-lhe as pretensões.

Sigimor ficou tenso. Esperançoso. Lady Jolene afirmava estar oculta, mas se encontrava no calabouço, sem medo aparente de ser descoberta. Então seria possível escapar. Além disso, o que ela pretendia deixava-o com a nítida impressão de que viera em busca de auxílio. Seus homens também entendiam as intenções de lady Jolene e não deixavam de fitá-la. Tão esperançosos quanto ele.

Na Inglaterra, não há muitos locais onde Harold não pudesse alcançá-la — Sigimor ponderou.

Nenhum, na verdade. Um dos nossos homens perdeu a vida quando se dirigia à propriedade de nossos parentes. Será inútil tentar essa rota de fuga. Terei de encontrar outra.

Senhora, não é justo provocar um homem que espera pelo enforcamento, acorrentado a uma parede de pedras. — Sigimor prendeu a respiração diante do sorriso da bela irmã de Peter.

Pode ser que eu esteja tentando arrancar-lhe um oferecimento em vez de fazer um pedido. No primeiro caso, poderei refletir rapidamente e aceitar. Darei a mim mesma inúmeros motivos para a concordância. Se eu tiver de pedir, terei de aceitar a derrota e admitir minha incapacidade para resolver o caso sozinha. Esse é um golpe muito amargo para engolir.

O que é um problema seu.

Sigimor! — Liam lançou um olhar faiscante para o primo, antes de sorrir com doçura para lady Jolene. — Milady, se nos libertar deste lugar escuro e infecto, terá a minha palavra de que nos empenharemos ao máximo para ajudá-la a fugir com o garoto.

É uma oferta muito generosa, sir — Jolene agradeceu e tornou a fitar Sigimor

—, mas milorde deu-lhe o direito de fazer tal promessa? Ele honrará o compromisso?

Sigimor grunhiu, ignorou os olhares fulminantes dos outros homens durante alguns instantes e anuiu.

Ele tem o meu consentimento. Nós levaremos o menino.

E a mim.

Sigimor esperava que ela insistisse, para inteirar-se dos motivos.

Por que teremos de levá-la? A senhora não será ameaçada pelo fato de Harold ser o senhor do castelo.

Acontece que eu sou uma ameaça para Harold — Jolene explicou com frieza — e ele sabe disso muito bem. Se não fosse por Reynard, eu ficaria aqui e o faria pagar caro pela morte de Peter. Contudo jurei para Peter que protegeria Reynard com a minha própria vida, se preciso fosse. Como fui encarregada de criar o menino depois da morte da mãe, nem havia necessidade de pedir-me tal coisa. Assim mesmo, eu fiz o juramento.

Ali estava a razão para levá-la com eles, Sigimor refletiu. Embora não tivesse dado à luz o menino, era mãe dele em todos os sentidos. Aquela seria uma ótima maneira de manter o controle sobre lady Jolene. Porém seu sexto sentido lhe dizia que não seria uma tarefa tão simples. Contudo nada daquilo importava. Fora incapaz de salvar Peter, mas teria a oportunidade de preservar a vida da irmã e do filho dele. E mais. Com isso, livraria da morte os homens que arrastara para o perigo.

Estamos de acordo, milady — Sigimor declarou, solene. — Se nos libertar, nós a ajudaremos a cumprir o juramento.

Com as mãos trêmulas pela emoção do alívio, Jolene tentou ver qual das chaves, entre as que trouxera, serviria para destrancar a porta. Refletiu que a esperança era um sentimento embriagador. Por um momento, pensou que fosse desmaiar. Agradeceu a Deus, que não lhe permitiu demonstrar fraqueza diante daqueles homens.

A senhora não sabe qual é a certa? — Sigimor não soube definir se o aborrecia ou divertia ver a luta da jovem com o molho de chaves.

E nem poderia saber — Jolene murmurou. — Nunca tranquei nenhuma dessas

celas.

agora.

Por que não perguntou ao carcereiro? — Sigimor ironizou.

Ele estava dormindo.

Hum. Então será melhor rezar para que outro guarda não resolva fazer a ronda

Não há perigo. As sentinelas estão dormindo.

Todos?

Espero que sim.

E os soldados?

Também.

Todo mundo está dormindo em Drumwich?

Quase. Deixei alguns acordados. Os que gostariam de fugir, se tivessem oportunidade. — Jolene deu um grito de alegria ao conseguir destrancar a porta. Abriu-a e fitou Sigimor.

Sigimor ergueu uma sobrancelha e sacudiu as correntes que o prendiam à parede. Disfarçou um sorriso diante do olhar sombrio pensa-que-não-sei? de Jolene. Suspirou alto quando ela recomeçou a testar cada uma das chaves na fechadura das correntes. Suspeitou de que os murmúrios que se seguiram fizessem parte de uma imprecação.

Esqueceu tudo em segundos. A proximidade de Jolene despertava-lhe os sentidos. Seu corpo continuou a ignorar a constituição delicada da irmã de Peter, a fragilidade das mãos, dos pulsos e dos dedos longos. Nem mesmo parecia importar-se com a cor negra dos cabelos presos em uma trança que ultrapassava os quadris esguios. Sempre detestara cabelos escuros. Pior ainda. O alto da cabeça de Jolene mal alcançava o esterno dele. Apesar do aspecto físico da jovem estar em total desacordo com suas predileções, a mente não conseguiu fazer com que as ordens de indiferença fossem cumpridas.

—Tem mesmo certeza de que os homens de Harold estão adormecidos?—Sigimor procurou desviar a atenção da curva suave do pescoço elegante.

Ah-ah. Dei um pontapé em alguns para ter certeza. — Jolene achou difícil concentrar-se nas chaves e ignorar o homem alto e forte de quem estava próxima.

Como conseguiu isso?

Despejei uma poção na cerveja e no vinho servidos no jantar. Duas criadas serviram purgativos para os nossos amigos, enquanto os outros, sentados no grande hall, começavam a beber. Quase todos adormeceram ao mesmo tempo.

Quase?

Uma pancada na cabeça dos mais resistentes resolveu o assunto. Pronto! — Jolene sorriu ao libertar Sigimor das correntes e franziu o cenho quando ele lhe arrebatou o molho de chaves da mão. — Sou perfeitamente capaz de abrir uma porta.

Depois de encontrar a chave adequada — Sigimor resmungou enquanto livrava os outros. — Quanto tempo Harold e seus comparsas ficarão sob o efeito do sonífero?

No mínimo até o amanhecer. Talvez um pouco mais tarde. — Jolene concluiu que seis homenzarrões acorrentados eram menos intimidativos de que soltos, em pé e de olhar fixo nela.

Traduzindo isso em horas?

Duas, no máximo.

Sigimor pôs as mãos na cintura e enrugou a testa.

Por que esperou tanto tempo para nos libertar?

Tive de trancar algumas portas, curar ferimentos causados por Harold e ajudar os que bondosamente se propuseram a me auxiliar a escapar de Drumwich. Depois fui empacotar suprimentos para levarmos e arrumar as coisas que Harold roubou dos senhores. Considero despropositada sua crítica implícita, sir. Sou uma mulher magra e pequena. Mesmo assim, consegui deixar fora de combate todos os homens armados de Drumwich, com auxílio apenas de duas servas.

Ora, milady. Foi…

Sigimor! — Liam chamou-lhe a atenção e sorriu para Jolene. — A senhora agiu muito bem.

Obrigada por sua bondade, senhor. — Jolene retribuiu o sorriso.

Sigimor empurrou Liam com firmeza, porém sem brutalidade. Não entendia por que

aquela inglesa minúscula o atraía. Mas enquanto não descobrisse, não queria nenhum idiota trocando sorrisos com ela. Ainda mais Liam, que se vangloriava de ter metade das mulheres da Escócia a seus pés.

Como milady pretende tirar-nos daqui? — Sigimor perguntou.

Se quiser, poderemos sair pelos portões — ela retribuiu a ironia. — Na minha opinião, deveríamos escapar da maneira mais secreta possível. Se não deixarmos pistas, demorará um pouco mais para descobrirem o que aconteceu.

Harold achará suspeito o castelo cheio de homens adormecidos ou acabando de acordar.

Com certeza. Suponho que a falta de cavalos e o que fiz na estrebaria também o deixarão alerta.

Então vamos. Quero estar o mais longe possível daqui bem antes de Harold acordar.

Jolene liderou a fila dos sete que deixavam a cela.

Isso mesmo. Quanto antes alcançarmos a Escócia, mais cedo nos livraremos de Harold.

Não seria tão simples assim, Sigimor raciocinou enquanto seguia lady Jolene por uma passagem estreita e escura. Harold cometera um assassinato para apoderar-se de Drumwich. Lady Jolene temia pela vida do sobrinho e por sua própria. Os gritos ouvidos durante a noite eram indícios dos métodos brutais empregados por Harold para encontrar a prima e o garoto. Um homem desses não cessaria de caçá-los só porque ela cruzara a fronteira de uma país onde os ingleses não eram muito queridos. Harold seria sinônimo de encrencas durante algum tempo. Sigimor praguejou mentalmente ao observar o meneio suave dos quadris de lady Jolene. Harold não seria o único problema que ele teria de enfrentar nos próximos dias.

Capítulo II

Sigimor piscou por causa do súbito foco de luz. Precisava acomodar a vista e enxergar melhor para onde a inglesa os conduzira. Até deixarem para trás as muralhas de Drumwich rumo à Escócia, o mais aconselhável seria permanecer alerta. Não imaginava o que poderia ser pior do que aguardar a morte em uma cela escura e infecta. Não adiantava pensar nisso. Antes de tudo, deveria empenhar-se ao máximo para tirar sãos e salvos os cinco homens que o acompanharam a Drumwich.

Um barulho suave atraiu sua atenção no pequeno quarto. Um menino miúdo estava deitado em uma cama feita de mantas e peles. Cachos negros e lustrosos, imensos olhos azuis. Sigimor aproximou-se. Foi impossível deixar de retribuir o sorriso do garoto.

Mas não é assombroso? — Jolene levantou o sobrinho nos braços. — Ele não está com medo do senhor.

E por que deveria? — Sigimor perguntou, com humor.

Existem alguns motivos incontestáveis. O senhor é um estranho, parece uma montanha e está com cheiro de latrina.

Eu não cheiro nada disso! — Sigimor pegou a arma que Liam lhe entregava e teve vontade de dar um soco no rosto bonito do primo. — Onde estão os suprimentos?

Jolene apontou sete sacos que ela empacotara cuidadosamente.

Ali. Um para cada um. Antes de fugir, o velho Thomas selou os cavalos. Nos alforjes, os senhores encontrarão seus pertences e mais alguma coisa que coube nas bolsas de couro. Cobertores, odres com vinho e com água estão presos nas selas.

Jolene sorriu, agradecida, por Liam tê-la ajudado a acomodar Reynard em um suporte improvisado de tecido que trazia junto ao corpo. Todos vestiram e amarraram as capas.

Podemos ir, milady.

Jolene fez um gesto de entendimento com a cabeça. Sigimor pegou a sacola que ela pretendia carregar e a amarrou junto com a sua. Jolene tirou um archote da parede e iniciou a saída do refúgio. Percebeu que um dos homens também resolvera carregar uma tocha. O que a alegrou sobremaneira. A despeito da segurança que encontrara nas passagens subterrâneas do castelo, odiava aquela escuridão sufocante. Ousara acender tochas e velas somente na pequena câmara onde se refugiara com Reynard. E fora o pavor de Harold que a fizera enfrentar aquelas entranhas negras que se estendiam por baixo do castelo. Ter a seu lado seis homens altos e espadaúdos abrandava o medo que sentia de Harold e do breu dos corredores.

Pararam diante de uma porta de carvalho maciço embutida na parede grossa de

pedra.

Esta porta dá acesso a um túnel por onde se chega à estrebaria. — Por cima do

ombro, Jolene espiou Sigimor. — Será um pouco apertado para um homem do seu tamanho.

Sigimor empurrou a porta pesada, e Jolene fez uma careta devido ao cheiro forte de mofo que vinha do outro lado. Ela só verificara a passagem uma vez, para ter certeza de que poderia ser usada em caso de necessidade. Fora logo após a chegada de Harold a Drumwich. Era escura, estreita, úmida e bastante baixa em alguns locais. Ficara tão apavorada que não regressara mais ali. Naquela noite, arriscara a volta ao castelo pela estrebaria. Afastou as emoções e o pavor e começou a andar pelo passadouro. Estremeceu ao ouvir a porta bater atrás do último homem.

O solo acidentado não permitia um avanço rápido. Jolene teve de conter-se para não sair correndo. Queria escapar o mais depressa possível daquele lugar que lhe congelava o sangue. Tremendo, chegou até a porta que dava para a cocheira e nem

esperou que Sigimor a abrisse. Empurrou-a e cambaleou para os fundos da estrebaria. Por pouco não caiu sobre os montes de feno e os implementos agrícolas que escondiam a porta. Depois dos instantes em que tentou se acalmar, percebeu que não era a única que arfava. Teve vontade de estrangular Sigimor ao não ver o menor sinal de abalo no homem que também acabava de sair das catacumbas.

Mas que droga, Sigimor — Nanty resmungou, acompanhando o cunhado em direção aos cavalos. — Nada o deixa perturbado?

Ah, sim. A idéia de ser enforcado.

Sigimor reparou nos dois homens que roncavam em cima de um monte de feno. Embora tivesse de admirar o que Jolene fizera para ajudá-los a fugir, achava inquietante a idéia de que uma mulher delicada e pequena fosse capaz de dominar sozinha todos os homens armados do castelo. Aqueles camaradas nem precisariam das ordens de Harold para persegui-la. A maioria iria atrás de Jolene para vingar a humilhação sofrida.

Adiantou-se depressa e impediu que Liam auxiliasse lady Jolene a montar. Segurou-a pela cintura estreita e colocou-a sobre a sela. Depois de admirar as pernas esguias, ajudou-a a abaixar as saias para cobri-las. De novo sem entender os motivos, não queria que os outros cinco vissem o que ele vira. O olhar espantado de lady Jolene e o risinho maroto de Liam o irritaram. Afinal, nada fizera de errado.

Por que aquele espanto? E a zombaria?

Resmungando contra a perda de tempo, Sigimor montou e saiu à frente dos outros.

Ao ver dois homens parados diante das porteiras abertas, levou a mão à espada.

Não! — Jolene gritou e emparelhou a cavalgadura com a dele. — É o velho Thomas e seu filho. — Adiantou-se até o homem gordo e grisalho. — O senhor já deveria ter saído daqui.

Iremos assim que milady sair. Quero certificar-me de que estes portões ficarão bem fechados, sem que milady tenha de perder tempo por isso. Não sei quantas horas milady poderá ganhar com isso. Mas enquanto os tolos vasculham o castelo, milady já estará longe.

Muito obrigada, Thomas. O senhor é um bom homem. Por favor, trate de abandonar Drumwich enquanto pode.

Com certeza, milady, depois de cumprir suas ordens aqui na cavalariça. Tome cuidado e não se preocupe. O infame pagará pelos crimes cometidos.

Que Deus o ouça. Cuidem-se.

O que Thomas e o filho terão de fazer? — Sigimor perguntou, assim que atravessaram os portões.

Cortar todas as cilhas e passar estrume nos pedaços — Nanty respondeu e piscou para Jolene.

Um truque inteligente — Sigimor admitiu. — Isso os atrasará em, no mínimo, um

dia.

É o que esperamos. Embora tenhamos de contar com o ódio que, na certa,

tornará Harold muito criativo. — Jolene beijou a cabeça de Reynard. — Enquanto este menino estiver vivo, Drumwich jamais pertencerá a Harold.

Sigimor balançou a cabeça de um lado para outro e considerou o assunto.

Ódio e cobiça. Dois sentimentos que podem levar um vilão a superar os maiores obstáculos. O mais sensato será nos afastarmos de Drumwich com a maior presteza possível.

Sigimor instigou o cavalo a um passo mais rápido, e todos seguiram sua liderança. Praguejou contra a escuridão que não lhes permitia galopar a toda velocidade até a fronteira. Teria de esperar um pouco antes de poder permitir-se aquela urgência. Fitou de relance lady Jolene e o menino. Haveria momentos em que teriam de parar ou cavalgar com maior lentidão. Apesar disso, confiava que venceriam com segurança a distância que os separava de Dubheidland.

Com a ajuda de Nanty, um homem atraente, Jolene ajeitou Reynard na espécie de funda improvisada e tornou a montar. Embora estivesse no meio do dia, já sentia as conseqüências do longo tempo que passara em cima da sela. Apesar de os homens não se queixarem, sabia que as paradas necessárias por causa do sobrinho não lhes agradavam. Aquela fora a segunda e Jolene não perdia um minuto a mais do que o necessário. Mas era quase palpável a urgência dos cavaleiros prosseguirem no trajeto. Se ela e Reynard não estivessem presentes, eles fariam uma pausa apenas na fronteira e por causa dos cavalos. Sigimor comandou um galope, e Jolene estremeceu ao pensar em mais algumas horas de uma viagem cansativa.

Jolene tinha o pressentimento de que Harold não tardaria em segui-los. O receio dele seria que, uma vez em segurança e contando com proteção, a prima tentaria expulsá-lo de Drumwich. Harold não permitiria que o filho de Peter continuasse vivo. O menino seria uma ameaça constante e, ao atingir a maioridade, reclamaria seu direito à herança. Também não duvidava de que Harold fosse atrás deles na Escócia. O único ponto favorável era que, na Escócia, Harold correria perigo. Seus crimes poderiam ser descobertos, pois não contaria com aliados.

Não era seu caso, Jolene refletiu e fitou de soslaio seus partidários, seis gigantes sisudos que cavalgavam a seu lado. Mesmo que sir Sigimor Cameron devesse a vida a Peter e a ela, sentiu-se culpada por haver levado aqueles homens a se envolverem com seus problemas.

Seria correto fazer com que arriscassem a vida?

As propriedades inglesas e os títulos nobiliárquicos nada significavam para eles.

Os escoceses ficariam felizes se a aristocracia inglesa fosse banida da face da Terra.

Reynard balbuciou alguma coisa sobre ter visto um cervo. Jolene, mergulhada em pensamentos macabros, não lhe deu a necessária atenção. Apertou o sobrinho de encontro ao peito, enquanto a corrida árdua continuava. Gostaria muito de fazer Harold pagar pela morte de Peter, mas a segurança de Reynard falara mais alto. Reynard era uma parte de Peter, a memória viva do pai. O instrumento de todas as esperanças de Peter e de seus projetos para o futuro de Drumwich. Até que Harold fosse derrotado, ela teria de concentrar-se de corpo e alma na tarefa de proteger Reynard. Custasse o que custasse.

Aceitar essa realidade não abrandou seu drama de consciência em relação aos Cameron. Peter não titubeara em pedir-lhes ajuda para lutar contra o inimigo. O que ela também fizera. Porém um homem não relutava em pedir a outros homens para arriscarem suas vidas em uma luta que não lhes dizia respeito. A glória e a honra de uma batalha por uma causa justa eram como o alimento para um homem. Necessário e inquestionável. Talvez os homens nem considerassem a possibilidade da derrota ou da morte.

Não era seu caso. No momento em que pedira ajuda aos Cameron, Jolene estava certa de ter assumido a responsabilidade pela vida deles. Uma carga muito pesada para seus ombros frágeis. Entretanto não restara outra saída.

O sol já estava no ocaso e Jolene ainda não resolvera o assunto, quando eles pararam para o descanso noturno. O corpo dolorido e a exaustão fizeram com que esquecesse o dilema naquele momento. Apeou do cavalo e teve de segurar-se por alguns minutos na sela para equilibrar-se. Como Reynard adormecera logo após uma breve parada no meio da tarde, haviam prosseguido sem interrupções. Assim que os cavalos diminuíram a marcha, Reynard acordara e anunciara a vontade de fazer as necessidades. Jolene ainda estava espantada com a perícia de Sigimor. Ele segurara o garoto que, divertido, aliviara-se sem desmontar. Depois pegara Reynard no colo, e Jolene tivera de admitir que ficara agradecida por aquela bondade.

Jolene observou a fogueira acesa por Liam e avaliou as possibilidades de vencer o curto trajeto com dignidade. Quase nenhuma, foi a triste conclusão. Deu dois passos e as pernas trêmulas fizeram com que se largasse de encontro à sua montaria.

Será que os cavalheiros notariam que ela não chegara perto do fogo? Eles nem ao menos haviam se aproximado de seu pobre cavalo exaurido.

Sigimor, parece que a irmã de Peter está com algum problema—Nanty disse e sentou-se junto ao cunhado, diante do fogo.

Sigimor virou a cabeça e notou que lady Jolene ainda não se afastara do cavalo.

Lady Jolene não deve estar acostumada a viagens longas. Desconfio de que ela nunca excedeu a velocidade de um trote ligeiro em passeios curtos pela propriedade do irmão.

Coitada. Até eu estou todo dolorido, depois de um dia inteiro em cima de uma sela. — Nanty fez menção de erguer-se para ajudar Jolene, mas foi impedido pela mão pesada de Sigimor em seu ombro. — O cavalo dela precisa de alguns cuidados.

Não se preocupe. Eu farei isso. — Sigimor entregou-lhe Reynard. — Fique com o garoto.

Sigimor analisou lady Jolene ao aproximar-se. Descomposta, exausta e pálida. Ainda assim, bonita e muito atraente. Cílios escuros e espessos. Olhos cinzentos, nariz pequeno e reto, lábios bem delineados e polpudos que tentariam até um santo. Irritou-se com a própria demonstração de fraqueza. Apesar disso, teve vontade de acarinhá-la e admirou-a por haver enfrentado a adversidade sem queixumes.

Mas que droga!

Será melhor movimentar um pouco as pernas, ou a rigidez a impedirá de andar.

Sigimor conteve a vontade de sorrir ao ver o olhar fulminante com que era recebido.

Agradeço muito a bondade de ter vindo avisar-me. — Jolene não disfarçou o sarcasmo da voz. — Pode estar certo de que seguirei seu conselho, assim que minhas pernas estiverem convencidas a cooperar. — Uma pena que não pudesse atingir-lhe a canela. — O que está fazendo?

Sigimor não respondeu. Abraçou-a pelo ombro e afastou-a do cavalo.

Levando a senhora para dar uma volta. — Embora com o corpo retesado, Sigimor fingiu ignorar o tropeção de lady Jolene, que se agarrou na cintura dele para não cair. — Liam, cuide do cavalo de milady — ordenou ao primo e afastou-se com Jolene para ela movimentar-se.

Sempre acreditei que estivesse acostumada a cavalgar — Jolene afirmou, envergonhada.

Demora anos para alguém acostumar-se a montar durante dias seguidos.

Dias?

Isso mesmo. A menos que haja algum imprevisto, iremos direto para Dubheidland. Os únicos aliados com que posso contar no percurso são os MacFingal, meus parentes. Se Harold não vier em nosso encalço com muita rapidez, poderemos descansar um pouco no castelo deles.

A quanto distam essas terras?

Quatro dias a galope, se os animais puderem agüentar. Jolene teve certeza de que, após mais quatro dias iguais àquele, teria de ser carregada de liteira para dentro do castelo dos MacFingal. Estava começando a andar com certa normalidade. Porém a dor forte nas costas não cedera. Ouviu a risada de Reynard e viu Nanty brincando com ele de cabo-de-guerra. A cena a fez esquecer as dores. Aquele menino era o futuro dos Gerard de Drumwich. Um leve desconforto físico era um preço pequeno a pagar por isso.

Está melhor? — Sigimor perguntou e deteve-se ao lado da fogueira.

Jolene sentiu-se perturbada por sua relutância em afastar-se daquele homem grande e forte.

Ah, sim. Bastante. Eu gostaria de tirar um pouco dessa poeira. Haverá água por

perto?

Os anjos lhe sorriem, milady. Existe um riacho não longe daqui. Milady poderá

tomar um banho e bem frio, com certeza.

Se a água estiver congelada, farei um buraco no meio e terei água para um ótimo banho.

Pegue o que for necessário, e eu a levarei até lá.

Basta indicar-me a direção…

De maneira alguma. Milady não pode perambular sozinha por aí.

Eu não vou tomar banho na frente de um homem!

Eu me virarei de costas. É a única concessão que poderei fazer. A senhora e o menino não ficarão sozinhos até que Harold não constitua mais uma ameaça. — Sigimor cruzou os braços e desafiou-a em silêncio. Jolene abriu a boca para protestar, porém desistiu. Os grandes olhos verdes diziam-lhe que o escocês não voltaria atrás. Seria uma discussão inútil. Pedira-lhe ajuda e proteção. Sir Sigimor incluía algumas idéias peculiares a respeito disso. Desde que provara ser um homem honrado, Jolene resolveu aceitar a promessa dele de não olhar. Pegou depressa o que achou necessário para um banho. Precisava livrar-se da sujeira da estrada e do cheiro desagradável dos dias de esconderijo nos labirintos de Drumwich. Certificou-se de que Reynard estava feliz sob os cuidados dos homenzarrões e seguiu Sigimor.

Jolene teve de correr para acompanhá-lo. O cavalheiro tinha pernas muito longas. Bem-feitas e fortes. Nunca apreciara um físico masculino tão de perto. Admitiu que era um prazer admirar-lhe o firme derrière em movimento. Vestia-se à moda inglesa, sem luxo. Ou ele era vaidoso, ou nem ao menos imaginava como o calção longo colava-se em suas pernas. Nem que o gibão curto permitia uma visão tentadora. Chocada pelo próprio atrevimento visual, Jolene desviou o olhar.

Sigimor não tinha a beleza de Liam, mas era um homem bem atraente. Possuía cabelos vermelho-escuros e longos. Era parecido com Liam, embora tivesse nariz mais reto, queixo mais forte e traços mais másculos. Liam tinha uma beleza que causava impacto. A de Sigimor resultava de uma apreciação que, na certa, seria favorável. Os olhos verdes possuíam um brilho surpreendente. As sobrancelhas eram ligeiramente arqueadas. Os cílios escuros e espessos provocariam inveja em qualquer mulher. A boca era agradável, e os lábios faziam pensar em beijos.

Jolene ficou alarmada ao concluir que era um rosto que ela não se cansaria de apreciar.

Chegaram à margem do regato. Sigimor apontou-o e virou-se de costas. Jolene não perdeu tempo. Tirou as roupas e desejou que a água fria acabasse com o calor inusitado que sentia. Sufocou um grito ao entrar na água gelada. O banho teria de ser rápido. Pretendia apenas tirar o pó colado na pele. A água parecia mesmo oriunda de um buraco feito no gelo.

Sigimor repreendeu-se com energia. Seria uma falta de cavalheirismo espiar o banho de lady Jolene. Prometera virar-se de costas. Mas a vontade de vê-la banhar-se era irresistível. Talvez se visse o corpo esguio, sua preferência por formas rechonchudas faria com que esfriasse a mente e esquecesse aquele desejo absurdo.

Virou a cabeça de maneira imperceptível. Naquele instante, lady Jolene ficou em pé e Sigimor engasgou. Por pouco não traiu a si mesmo. A espiadela não o curara. Ao contrário. Teve de controlar-se para não tirar as próprias roupas e jogar-se no regato. Refletir que lady Jolene era uma aristocrata e, na certa, virgem, em nada diminuiu sua ânsia.

Como pudera ser tão cego e não enxergar a beleza das mulheres de pequena estatura?

A pele era translúcida e a cintura, a mais fina que ele já vira. Os quadris eram esbeltos e as nádegas, arredondadas o suficiente para despertar seu desejo masculino. Sigimor sentiu os dedos formigarem pela vontade de tocar no espaço acima das coxas esguias. Madeixas grossas de cabelos negros colavam-se na silhueta delgada e realçavam a palidez da tez suave. Lady Jolene virou-se um pouco e Sigimor pôde

apreciar a curvatura do busto. Era menor dos que estava acostumado a ver. Mas os seios eram firmes e perfeitos. Os mamilos róseos mostravam-se endurecidos por causa da água fria.

Sigimor gemeu baixinho quando lady Jolene esfregou o estômago. A água escorreu até a junção das coxas e infiltrou-se no triângulo de pêlos encaracolados e sedosos.

Virou a cabeça depressa. O traje moderno que vestira para a viagem à Inglaterra escondia pouca coisa. Não pretendia deixar lady Jolene chocada. Teve de esforçar-se para pensar em coisas bem diversas durante alguns minutos a fim de esfriar o ardor e não envergonhar uma dama.

Ah, como gostaria de estar vestido com um calção mais folgado e um casaco mais longo! A inocência de lady Jolene talvez a impedisse de ver os sinais óbvios de sua excitação. Mas seus parentes haveriam de dar boas risadas por causa disso.

Era do que eu estava precisando — lady Jolene declarou, já vestida e esfregando os cabelos com a camisa que trocara por outra. — Apesar de bem frio, o banho valeu a pena.

O sorriso de lady Jolene despertou novamente o desejo de Sigimor e ele não teve alternativa.

Vire-se de costas! — ordenou e tirou as roupas, enquanto caminhava em direção ao regato.

Jolene ficou boquiaberta. Por causa da voz de comando e do torso desnudo que surgiu de repente em seu campo de visão. Não conseguiu virar o rosto e mordeu o lábio para não gemer. Os ombros eram largos, as costas, lisas, e a cintura, estreita. A pele não era pálida como seria de esperar em um homem ruivo, e sim dourada. Os braços eram musculosos sem exagero. Nos antebraços havia uma faixa com desenhos intricados. Nisso ele tirou o calção, e Jolene sentiu tontura por causa do calor que a invadia. A pele dourada sob a luz da lua brilhava no corpo inteiro de Sigimor. O derrière era tão bem-feito e firme como supusera que fosse. As pernas longas eram musculosas e elegantes.

Jolene deu-se conta de que o mirava embasbacada e virou-se depressa.

Ah, como gostaria de vê-lo de frente! Aquele homem a transformava em uma criatura desavergonhada e libertina.

Nunca se interessara por físicos masculinos e muito menos fora por eles afetada. Não era nada agradável descobrir que um escocês ruivo fosse o primeiro a despertar-lhe o interesse e o desejo. Era filha, irmã e tia de condes ingleses. Seria loucura permitir que

o sangue se aquecesse e o coração batesse mais forte por um highlander. Seus parentes mortos deviam estar se revirando nas tumbas.

Perplexa, não entendia como a pouca atenção com que encarava o sexo oposto se transformara naquela ansiedade por um escocês ruivo. Não negava que tivera sonhos virginais com os cavalheiros bonitos e galantes que conhecera. Mas os estremecimentos que sentira nem de longe se comparavam aos que experimentava diante de sir Sigimor Cameron. Era uma emoção forte, feroz e indomável. E num momento bastante impróprio para padecer de tamanho fascínio. Ou mais exatamente, de um desejo puro e simples.

Teria de controlar-se a qualquer custo. Iria passar muito tempo na companhia de Sigimor, sem a proteção de nenhum parente. Era preciso resguardar a castidade. O que seria difícil, se fosse levada a um desvario febril todas as vezes em que encontrasse Sigimor. Felizmente, ele demonstrava pouco interesse nela como mulher a quem gostaria de seduzir.

Era imprescindível diminuir o interesse que sentia por Sigimor. Passara vinte e três anos sem emocionar-se por nenhum homem. Não seria difícil curar-se dessa aflição inesperada.

Sigimor aproximou-se, segurou-a pela mão e levou-a de volta ao acampamento. O calor dos dedos e da palma de Sigimor espalhou-se pelas veias de Jolene, de acordo com

as batidas do coração. Um gesto inocente que despertara um tremor interno. Jolene não sabia como esconder aqueles sentimentos até então desconhecidos. Eles permaneceram atuantes e foram fortalecidos com a presença de Sigimor a seu lado durante a refeição ligeira.

Jolene estendeu as mantas no chão para dormir e Sigimor fez o mesmo a poucos centímetros de distância. Se a idéia dele era manter-se tão próximo, Jolene não imaginava como faria para ignorá-lo. Dias e noites inteiros.

Teria forças para anular a forte atração por ele despertada?

Proteger a vida de Reynard não seria a única batalha difícil e perigosa a encarar dali para a frente.

Capítulo III

Jolene estremeceu quando Sigimor emitiu um grito ensurdecedor e instigou o cavalo a um galope feroz. Os outros animais, inclusive o dela, seguiram o líder. Enquanto lutava para manter o controle sobre a montaria, Jolene espiou por sobre o ombro. Ninguém os seguia.

Por que a pressa ainda maior? Haviam vencido grandes distâncias naquele dia. Sempre de maneira furtiva, evitando pessoas e vilarejos, para dificultar a possibilidade de serem rastreados por Harold. De repente, ao comando de Sigimor, todos pararam de uma só vez. Nanty e Liam desmontaram em instantes, ajoelharam-se e, com gritos de alegria, beijaram o chão. Jolene não conseguiu entender aquela súbita exuberância.

São dois retardados — Sigimor comentou, com um sorriso simpático.

Suponho que deva haver uma explicação razoável para tanto alarido — Jolene criticou.

Estamos na Escócia, milady.

Ah.

Jolene bem gostaria de acompanhá-los na euforia. Mas naquele país, seria sempre uma estrangeira indesejável.

Não se preocupe. Estará em segurança aqui.

Bem mais de que em Drumwich, com toda certeza. — Jolene suspirou. — A recepção que eles tiveram na Inglaterra não foi das mais agradáveis. Não me surpreende que estejam tão felizes em retornar à sua pátria.

São poucos os britânicos que recebem os escoceses com satisfação.

—E poucos escoceses recebem um inglês com um sorriso.

Não acredito que milady, por ser discreta e franzina, enfrentará problemas. — Sigimor inspirou fundo. — E bom estar de volta à Escócia, em todos os aspectos. Aqui, será mais fácil localizar nosso inimigo.

Como assim?

No momento em que Harold cruzar a fronteira, passará a ser vigiado. Cada homem que o vir espalhará a notícia do seu paradeiro. Saberemos em que direção o patife estará se dirigindo e quem o acompanha. Ele e os companheiros serão uma forte tentação para muitos. Não será fácil para Harold vir atrás de nós. Mesmo os que não são muito amigos dos Cameron se empenharão em criar-lhe problemas. Ninguém o ajudará. Pelo menos nenhum que possa ser chamado de escocês.

Ah, sei. A união contra um inimigo comum. Sigimor concordou com um gesto de cabeça, desmontou e ajudou Jolene a apear.

Faça o que tiver de fazer — ele a aconselhou. — Ficaremos aqui um pouco, antes de prosseguir o trajeto.

Jolene gemeu sem querer, mas não se queixou. Afastou-se para satisfazer as próprias necessidades e as de Reynard.

Ainda podia sentir o calor das mãos de Sigimor em sua cintura. As tentativas de usar a sensatez e a necessidade de sobrevivência para afogar a atração que sentia por aquele cavalheiro revelaram-se infrutíferas. O único recurso seria manter as emoções ocultas. O que lhe pareceu uma missão impossível diante do tempo que passariam juntos. Teria sido mais inteligente convencê-los a levá-la até um parente na Inglaterra em vez de vir para a Escócia. Tarde demais.

Felizmente Sigimor não percebera a atração que despertava nela nem demonstrara interesse por seus dotes femininos. Seria preciso encarar essas atenuantes como uma bênção.

Acredita que Harold nos seguirá aqui na Escócia? — Liam perguntou a Sigimor e ofereceu-lhe vinho de seu odre.

Acho que sim. — Sigimor não deixou de fitar a moita atrás da qual Jolene desaparecera havia pouco e tomou um gole da bebida. — O camarada já matou para deitar suas mãos imundas sobre Drumwich. Não acredito que os poucos habitantes das fronteiras poderão impedi-lo de fazer outro trabalho sujo para manter a hegemonia sobre a propriedade.

Isso significa que teremos de matar um fidalgote inglês?

Será uma luta de vida ou morte. E lady Jolene sabe disso. — Sigimor franziu o cenho e esfregou o queixo. — Harold não se contentará com o desaparecimento da prima. Nem confiará que ela se mantenha afastada com receio de perder a vida. Os meios empregados que permitiram a nossa fuga espetacular certamente o farão refletir que lady Jolene e um pouco mais de que uma jovem frágil que ele poderia manipular à vontade. A menos que a silencie para sempre, Harold terá de conviver com o medo de ela encontrar um aliado na Inglaterra. Outro fidalgo que tenha o poder de arrastá-lo para fora de Drumwich e fazê-lo pagar por seus crimes.

Ele terá também de perseguir os criados fugitivos?

Acredito que não. Mesmo que alguém resolva contar a história, ninguém dará ouvidos a um pobre homem, em detrimento das palavras de um lorde. Apesar disso, Harold não hesitará em cortar a garganta de qualquer servo que for encontrado. Ainda assim, creio que ele não os enxerga como uma ameaça.

A arrogância cegou-o. Harold jamais perdoará quem zombou tanto dele e dos seus soldados.

E sempre culpará lady Jolene por essa humilhação. — Sigimor tomou mais um trago de vinho e devolveu o odre a Liam. — Tenho a intuição de que há fatos que lady Jolene ocultou de nós.

Por lorde Harold não a ter matado junto com Peter?

É um ponto para ser considerado. Harold ficaria como tutor do menino. O herdeiro ficaria em suas mãos e seria morto a seu bel-prazer. Se o trabalho fosse bem- feito, ninguém questionaria a morte de Reynard. Muitas crianças morrem na infância. Pense bem, teria sido fácil envenenar lady Jolene junto com lorde Peter. Harold pretendia assegurar o domínio sobre Drumwich por intermédio da irmã do falecido lorde, tornando-a a muito amada lady de Drumwich.

Casamento? — Liam franziu a testa. — Eles são primos não muito distantes.

Haveria o problema da consangüinidade.

Os cofres de Drumwich devem ser abarrotados e conseguiriam a graça da Igreja. Lady Jolene deve ter um belo dote que não ficaria com Harold se ela morresse.

Além disso, ela é uma jovem muito bonita.

Sigimor irritou-se com o primo, que observava lady Jolene sair de trás da vegetação.

E… bonitinha, mas muito magra e pequena. — Sigimor ignorou o sorriso trocista de Liam. — Tenho certeza de que o patife de Harold quer o menino morto quanto antes. Mas não sei se ele pensa fazer o mesmo com lady Jolene.

Pretende pressioná-la para responder a algumas perguntas?

Ainda não. Isso em nada mudaria a nossa missão. Milady é bem inteligente para saber que o canalha acabaria por matá-la. Se aceitasse casar-se com ele, lady Jolene não descansaria enquanto não vingasse a morte do irmão e do sobrinho. Harold poderá ser tolo o suficiente para achar que milady se acovardou, mas não tardaria a enxergar o engano.

Se isso acontecer antes do previsto, lady Jolene estará condenada.

Tem razão, Sigimor. Não importa o que possa acontecer entre eles, o destino de lady Jolene e do menino está traçado. O túmulo.

Sigimor continuou a pensar no assunto enquanto se afastavam rapidamente da fronteira perigosa, mas a uma velocidade que não deveria cansar demais os cavalos.

Bandidos imperavam naquela região, e as ligações de Nanty com os Armstrong não os protegeriam.

Sigimor sorriu. Ali, Harold estaria ainda mais sujeito às emboscadas do que eles. Como duvidava que fossem bafejados pela grande sorte de livrar-se do inimigo pela ação dos assaltantes que infestavam a região, seria melhor inteirar-se dos fatos. Deu uma tossidela e fitou a irmã de Peter, que cavalgava a seu lado.

Lady Jolene, nunca se casou nem ficou noiva? Ela surpreendeu-se com a pergunta inesperada.

Fiquei noiva uma vez, mas o camarada morreu quando eu tinha dezesseis anos.

E nada mais foi planejado? Quantos anos tem agora? Vinte?

Vinte e três — Jolene revelou, de queixo erguido. — Papai morreu antes de planejar uma união que lhe fosse conveniente. Por duas vezes Peter tentou encontrar um marido para mim, mas não deu certo. Nisso a esposa dele morreu e eu me tornei a castelã de Drumwich. Peter pensava em casar-se novamente. Talvez por isso já tivesse começado a procurar um cunhado.

Foi quando Harold chegou.

Ah-ah. Peter não gostava de Harold e nem confiava nele. Mas era um primo. Parente consangüíneo. — Jolene deu de ombros. — Sem nenhuma prova concreta de traição, Peter nada pôde fazer. Teve de permitir que a serpente deslizasse pelo grande hall. Até o grande número de homens armados que o acompanhava teve explicação. Harold disse que havia se empenhado em agarrar os salteadores. Não demorou muito e percebemos que éramos prisioneiros dentro do nosso castelo. Pobre Peter. Não teve tempo de arquitetar um plano para nos livrar do assassino. Ele não queria iniciar uma batalha. As vantagens seriam de Harold. Teria sido uma carnificina. Harold agiu com rapidez. Peter morreu enquanto ainda estávamos abalados com o que acontecia.

O camarada usou o senso de honra de Peter para matá-lo — Sigimor acrescentou. — Harold sabia que Peter, homem bom, correto, enérgico e inteligente, nada faria contra o primo, mesmo sem confiar nele. E Peter jamais poderia supor o que se passava naquela mente assassina.

Teria sido diferente se Peter fosse desonesto?

Com certeza. Um pouco de malícia trapaceira o teria feito suspeitar das intenções de Harold. Poderia ter se preparado melhor para enfrentá-lo.

Jolene deu razão a Sigimor, mas procurou defender o irmão.

Peter devia ter alguma desconfiança, tanto que mandou chamá-lo.

Concordo, mas ele já tinha deixado a deslealdade invadir o castelo.

Não havia dúvida de que Peter cometera um grande erro que lhe custara a vida.

O senhor não teria feito o mesmo?

Não, se visse uma tropa fortemente armada entrando na minha propriedade. — Sigimor deu uma piscadela. — Sou desconfiado e matreiro. De início, eu tentaria descobrir por que Harold, em quem eu não confiava, tinha vindo visitar um parente, rodeado por um exército.

Peter pensou nisso, mas a cortesia…

As regras de cortesia não incluem deixar o inimigo à vontade. Nem deixar um filho em perigo. — Sigimor fitou o garoto, que ria na frente de Nanty, sentado na funda im- provisada de pano. — Parente de sangue ou não, eu o teria obrigado a deixar os soldados do lado de fora das muralhas do meu castelo. Harold não estava acima de Peter na hierarquia familiar. Por isso seu irmão não era obrigado, pela cortesia, a permitir homens armados dentro de seus portões.

Jolene não discutiu, mesmo sem ter certeza dos regulamentos. Implorara a Peter para não permitir que o séquito de Harold entrasse. Seu irmão dissera que não conhecia razão honrosa para negar-lhes abrigo. Ela não duvidava de que Sigimor fosse um homem honrado. Porém ele não fazia questão de ser um nobre fidalgo como Peter fora. Sigimor

tinha bom senso e boa percepção. Peter tivera altos ideais. Queria ser reconhecido como um perfeito cavalheiro. Sigimor era preocupado com a sobrevivência. Jolene amara muito o irmão, mas gostaria que ele houvesse sido bafejado com um pouco da praticidade de Sigimor. Poderia estar vivo naquela altura.

Milady é esperta. — Sigimor sorriu.

Jolene, hipnotizada por aquele sorriso, levou alguns instantes para entender o que ele dissera.

Não sou.

Claro que é. Os artifícios que usou para nos tirar de Drumwich mostraram um fino sentido de malícia. Foi um estratagema inteligente e sagaz.

Isso é um cumprimento?

De minha parte, sim. Acredito que a sua opinião não seja a mesma. Pelo brilho dos olhos verdes, Jolene teve certeza de que ele a provocava.

Na Inglaterra, não se encorajam mulheres a serem astutas nem maliciosas.

E o que se espera delas?

Que sejam corteses e refinadas. Uma mulher deve ter bom gênio e ser amável. Bondosa, em especial com os servos. Deve saber usar as agulhas e o tear. Conduzir com firmeza a administração do lar e atividades correlatas. Ser econômica, obediente e uma companheira fiel para seu marido. Providenciar paz e conforto para o seu lar.

Jolene não gostou da maneira como Sigimor sorria.

Quantas dessas qualificações milady já conseguiu?

Quase todas. — Ela rezou para não corar por causa da mentira.

Sigimor deduziu, pela expressão de Jolene, que não deveria achar graça nem chamá-la de mentirosa. O que o deixou ainda com mais vontade de rir.

Bem, nunca acreditei que os ingleses pudessem ser idiotas tão completos. Ah! Exceto pelo trabalho de agulha, pela administração do lar e pela economia, parece que os ingleses desejam que suas mulheres sejam parecidas com a minha Meggie.

Quem é Meggie? — Jolene não entendeu o ataque súbito de ciúme.

Minha cachorra. Creio que a maioria das mulheres deve ter um cheiro melhor.

Jolene fuzilou-o com o olhar, mas teve de contentar-se com a visão dos ombros largos. Sigimor afastava-se rapidamente. Seu aborrecimento foi ainda maior pelo fato de não ter certeza se fora insultada ou se recebera cumprimentos por não ser uma verdadeira dama. Ressentiu-se em nome das inglesas, sobretudo das que faziam questão de seguir o ideal de feminilidade em vigor, por Sigimor havê-las comparado a uma cadela. Admitiu que ela mesma já pensara a mesma coisa. Porém era seu direito. Afinal, teria de sujeitar-se a crenças e regras com as quais não concordava. Refletiu que o escárnio de Sigimor era hipócrita. Ele devia ser um dos que tentavam manter as mulheres submissas, apesar de não estar convicto dessa necessidade.

Confusa, aproximou-se de Nanty e ficou feliz com a alegria de Reynard.

Sigimor estendeu uma manta extra sobre Jolene e Reynard e percebeu o sorriso maroto de Liam.

Eles são muito magros para agüentar o frio — ele resmungou e foi para a mata. Praguejou ao perceber que o primo o seguia.

Hum… bonitinha, mas muito magra e pequena—Liam repetiu as palavras de Sigimor, com fala arrastada.

Uma dama inglesa mimada.

Mas também muito bonita. Tem uma pele… Já notou que é translúcida?

Já. — Sigimor cerrou os dentes. Não conseguia disfarçar que a provocação atingira o alvo.

Ainda bem que prefere as jovens loiras e bem mais robustas. Ou eu poderia pensar que está interessado na pequena lady Jolene.

Sua imaginação não tem limites, Liam. Trate de refreá-la. Isso é o que dá passar

muito tempo com os monges. Liam deu uma risada.

Já que lady Jolene lhe é indiferente, talvez eu pudesse… Sigimor virou-se tão depressa para encarar Liam que fez o primo desequilibrar-se para trás.

Talvez fosse melhor pensar em como esse seu sorriso encantador de nada serviria se não tivesse dentes. Pare de sorrir! Parece um bobo!

Sigimor suspirou alto, caminhou de volta ao acampamento pisando duro e foi alcançado por Liam.

Por que essa irritação, primo? Qual o problema de sentir atração por uma

mignon atraente? Ela é bem-nascida, é casta e deve ter um belo dote!

Não está enumerando as qualidades de uma boa esposa, está? — Sigimor recriminou-se por não descartar imediatamente essa idéia.

Não faz muito tempo, o primo estava pensando em casar-se.

Bobagem. Descartei a idéia. Não preciso de herdeiro. Dubheidland está coalhado deles.

Concordo. Mas isso não significa que não possa ter esposa e filhos.

Sigimor parou, virou-se, devagar dessa vez, encarou Liam e cruzou os braços na altura do peito. A tentação de dar um soco no primo era grande.

Como Liam ousava verbalizar a idéia que sir Sigimor, senhor dos Cameron, vinha acalentando havia tempo, embora se esforçasse para negar? A lógica lhe dizia que lady Jolene não era a pessoa certa para ele. Por que, então, as frases "ela é minha, ela terá de ser minha" reverberavam em sua mente?

Por acaso reparou no tamanho dela? E no meu? — Sigimor não gostou do ar de indiferença de Liam. — Um filho meu a rasgaria inteira.

Liam também cruzou os braços e fitou Sigimor com desprezo.

Isso é um absurdo, e o primo sabe bem disso.

Ela é inglesa. Acredito que o casamento seria considerado ilegal.

Talvez na Inglaterra, onde aquela lei vai e volta como a maré. Acredito que não poderia reivindicar as terras de lady Jolene, mas elas também não lhe fariam falta, não é?

Por que lhe ocorreu tocar no assunto, Liam Cameron?

Por ser essa a primeira jovem bem-nascida que lhe despertou interesse. Não adianta negar. Só ela, que é muito inocente, não notou isso. Todos nós enxergamos, literalmente, o tamanho do seu desejo por lady Jolene. Primo, você já está com trinta e dois anos. Nunca se permitiu mais do que brincadeiras ocasionais com meretrizes gordotas. Nem mesmo teve uma amante. Está na hora de se casar.

Sigimor jamais admitiria que Liam estava com a razão. Tinha grande apetite pelos prazeres carnais, mas não ficava satisfeito com os folguedos a que se entregava de vez em quando. Não conseguia esquecer que a mesma prostituta que o servia também se entregaria alegremente a outro por algumas moedas. Nas poucas vezes em que tentara cortejar uma jovem de boa linhagem, acabara falhando. Ou elas temiam seu tamanho ou se divertiam com seu caráter ou simplesmente o ignoravam. Não confessaria isso para ninguém, para não dar a idéia de ser um secarrão empedernido. Gostava da idéia de ter uma companheira para conversar e com quem pudesse dividir os problemas caseiros e familiares. Uma única vez, dez anos antes, pensara ter achado a mulher ideal. Fora um erro fragoroso. Por isso passara a agir com cautela. Preferia não aceitar o que sentia por aquela inglesa delicada.

O que o faz pensar que milady é uma boa escolha?

Ela o observa bastante.

Deve ter medo que eu tropece, caia por cima dela e a machuque.

Idiota! Ela faz isso por interesse. Milady considera os outros companheiros desta pequena cruzada.

Ela nem mesmo o olhou — Sigimor murmurou, lembrando-se de que ficara

surpreso por isso.

Pois é! — Liam riu. — Nem mesmo para mim. Ela não ficou intimidada com o seu tamanho nem com a sua maneira de ser. E pela forma como o fitava esta tarde, deduzi que o gênio de lady Jolene é compatível com o seu. Por falar nisso, sobre o que falavam?

Sigimor fez um gesto de pouco caso.

Ela explicou quais as qualidades femininas apreciadas pelos homens ingleses, e eu lhe disse que eram as mesmas da minha cachorra.

Agora entendo por que ela parecia querer esgoelá-lo. Primo, acho que nunca vai aprender como agradar a uma mulher.

Também lhe disse que as inglesas deviam cheirar melhor do que um cão.

Um milagre que ela não tenha desmaiado de tanto prazer — Liam murmurou e sacudiu a cabeça. — Você agiu de propósito, não foi? Não resiste a uma provocação para ver o que acontece.

Isso faz parte do meu charme. — Sigimor parou na beira do acampamento e fitou lady Jolene, que dormia. — Esqueça o assunto, Liam. Mesmo que haja uma atração mútua, isso nunca excederá um olhar ou um pensamento. Ela é uma lady inglesa, e eu sou um escocês grosseiro. Um homem sem escrúpulos quer matar tanto ela quanto o garoto. O menino é um lorde inglês, e lady Jolene, além de ter o mesmo sangue, é sua mãe de criação. Ela tem um segredo que deve ser importante. Por isso não o revelou. Vamos esperar para ver o que acontece.

Sigimor pegou uma manta para estender ao lado de lady Jolene.

Ótimo. Então esperaremos. Não se esqueça de manter os olhos bem abertos. E também a mente e o coração.

Sigimor acordou com uma blasfêmia e um punho pequeno que o esmurrava. Defendeu-se dos socos e percebeu que a mulher a seu lado não tentava matá-lo. Lady Jolene enfrentava um pesadelo. Reynard começou a chorar e Nanty aproximou-se. Sigimor pediu ao cunhado que levasse a criança para a sua cama e resolveu segurar lady Jolene, antes de que ela o machucasse de verdade.

Jolene se debatia sem controle. Praguejava e lutava contra o inimigo invisível com uma virulência espantosa. Sigimor deitou-se sobre ela com cuidado, para não machucá- la. E comoveu-se com o pânico que viu em seu olhar, quando ela despertou. Procurou acalmá-la com a mesma voz suave que costumava a empregar com os irmãos menores, sobrinhos e primos. Repetiu várias vezes quem ele era e onde ela se encontrava.

Quando conseguiu serená-la, Sigimor deu-se conta da intimidade da posição deles. Jolene prendia as pernas esguias entre as dele, e sua virilha pressionava a dela. A reação de seu corpo foi imediata e impetuosa. Jolene corou e arregalou os olhos. Apesar de uma voz interior recomendar-lhe o contrário, Sigimor roçou os lábios nos dela. A boca de Jolene era doce e suave.

O que pensa que está fazendo? — Jolene estremeceu.

Beijando… para deixá-la mais calma — Sigimor ergueu um pouco a cabeça e tocou na ponta do nariz de Jolene com o seu.

Já estou acordada. — Jolene caprichou na expressão severa e teve de conter a vontade de esfregar-se de encontro à masculinidade manifesta e rija.

O que a aterrorizava no sonho? — Sigimor a escutara praguejar contra Harold, mas queria conferir a resposta.

Jolene perguntava a si mesma como podia tremer tanto por causa de beijos tão leves no rosto.

A morte de Peter. — Não se tratava de uma mentira completa. Tinha sido aquele horror mesclado com outros receios e lembranças terríveis.

Por isso amaldiçoava Harold?

É.

Estou achando que não quer me contar toda a verdade, por isso terá de pagar uma penalidade.

Jolene não teve tempo de reagir. Sigimor beijou-a de maneira intensa e ela encolheu os dedos dos pés. Jolene procurou lutar contra as emoções que a incendiavam, mas perdeu a batalha no momento em que Sigimor esmerou-se em um beijo de língua. De repente, ele parou de beijá-la, libertou-a e deitou-se de costas para ela. Murmurou que Reynard estava com Nanty. E foi só.

Jolene fitou as estrelas e experimentou um tormento desconhecido no meio das coxas. Perguntou a si mesma por que tinha tanta vontade de esmurrar o gigante escocês. Pressentiu muitos problemas à frente, além daqueles oriundos de Harold, o assassino usurpador.

Capítulo IV

Harold está na Escócia.

Jolene sentiu um calafrio na espinha ao escutar a declaração de Liam. Até aquele momento, cavalgara ao lado de Sigimor, sem decidir se deveria desprezá-lo por havê-la beijado na noite passada ou se o instigaria a beijá-la de novo. De repente, voltava à realidade e de maneira brutal. Lembrou-se dos motivos que a haviam feito salvar aqueles homens e por que tivera de fugir para a Escócia. Sem pensar, encurtou as rédeas, e o cavalo, nervoso, perdeu o rumo.

Sigimor aproximou-se e bateu-lhe carinhosamente na coxa, sem deixar de fitar Liam, para lembrá-la de que não estava sozinha.

Surpresa, Jolene acalmou-se com o toque. A ponta de culpa que sentia por havê- los enredado nos próprios problemas começava a ceder. O ódio com que falavam de Harold deixava claro que ansiavam por vingança. Eles também haviam enfrentado de perto o risco de morrer sob o jugo do monstro. Eram cavalheiros que jamais se recusariam a ajudar uma mulher ou uma criança em perigo. E também pretendiam fazer Harold pagar por havê-los aprisionado, com intenção de enforcá-los.

Tem certeza? — Sigimor tirou a mão da perna de Jolene, assim que ela se tranqüilizou.

Absoluta. Ele vem agindo com descaramento e imprudência. Tem perguntado por nós e diz a todos que está atrás da esposa que fugiu com o filho deles. O canalha quer despertar indignação diante de um crime familiar e conseguir parceiros na perseguição.

E tem conseguido?

Aparentemente, sim. Ele é inglês. Motivo suficiente para que muitos o desprezem. E o fato de perder a mulher para um escocês corajoso faz a multidão delirar.

Não sei por quanto tempo ele bancará o marido enganado.

Somente enquanto for necessário — Jolene interrompeu-os. — Harold despreza os que não são nobres nem nascidos na Inglaterra. Ele considera os escoceses bárbaros e ignorantes.

Harold deixou isso bem evidente quando nos atirou no calabouço.

Claro que ele não é bobo. Logo entenderá que está servindo de chacota e mudará de tática.

Concordo, Liam. — Sigimor anuiu com gestos lentos de cabeça. — Ele poderá se esconder a qualquer momento.

Acha mesmo? — Liam torceu os lábios.

A intenção será fazer com que não saibamos do seu paradeiro. Se Harold trouxe dinheiro, poderá comprar alguns homens para ajudá-lo a fazer a busca por ele. Há homens que se vendem e, por dinheiro, ajudariam até um inglês. Sabe muito bem disso, Liam. Quantos vieram com ele?

Não sei ao certo, mas pelo que ouvi dizer, uns dez ou doze.

Não deixa de ser uma ameaça, porém não creio que devemos nos preocupar com um ataque-surpresa. Como ele deve supor para aonde estamos indo, não terá de ficar muito perto para nos caçar.

Sigimor, Harold saberá mesmo qual é o nosso destino? — Jolene perguntou. — Não acredito que Peter tenha dito a ele alguma coisa a respeito dos Cameron. Quando mandou chamá-lo, Peter já desconfiava do nosso primo há um bom tempo.

Mesmo que Harold ignore onde fica Dubheidland, não tardará a descobrir. Podemos não ser poderosos nem ricos, mas todos sabem quem somos e de onde viemos.

Sigimor voltou a atenção para Nanty, e Jolene não chegou a perguntar o

significado das duas últimas frases. Duvidava que os Cameron fossem conhecidos por sua crueldade. Homens que ajudavam uma mulher e uma criança, mesmo sendo oriundas de um país amaldiçoado diariamente pela maioria do povo, não poderiam ser maldosos. Desde que os conhecera, eles a haviam tratado com a maior cortesia. Exceto quanto ao beijo roubado por Sigimor. Homens que fossem uma ofensa à moral não tratariam uma mulher de maneira tão cavalheiresca. Interessante. Sigimor acreditava que os j Cameron de Dubheidland eram bem conhecidos.

Ela observou os seis guardiões espadaúdos e disse a si I mesma que a fama deles bem poderia ser devida à beleza 1 máscula que esbanjavam.

…não é Nanty? É preciso espalhar a notícia sobre as intenções de Harold e também que é preferível não sermos pegos de surpresa — Sigimor ironizou no comentário final. — Qual é a distância daqui até os Armstrong de Aigballa?

Não é muito grande. — Nanty deixou Reynard no colo de Jolene.

Ótimo. Vá até lá e conte a eles nossos problemas. Peça-lhes que fiquem de olho no patife.

Não quer que dêem um fim nele?

Nada me agradaria mais. Porém é melhor impedir que outros sujem as espadas com o sangue de um lorde inglês. Se Harold for imprudente e chegar a uma confrontação, nós mesmos daremos um fim nele. Não devemos permitir que essa luta se espalhe em demasia pelo território.

Nanty demonstrou sua concordância com acenos curtos de cabeça.

No caminho poderei parar na propriedade dos Murray e também falar com meus irmãos. Onde nos encontraremos?

Pretendo passar uma noite ou duas em Scarglas com meus primos. Depois irei direto para Dubheidland.

Todos desejaram boa viagem a Nanty, e Reynard começou a choramingar. Depois soluçou baixinho, chamando o cavalheiro que se afastava.

Jolene criticou a si mesma pelo ciúme que sentia. Depois de tudo o que a pobre criança enfrentara desde a chegada de Harold a Drumwich, não era para admirar que quisesse todos a seu lado. E quando Sigimor ergueu Reynard nos braços e o menino parou de chorar, Jolene irritou-se.

Nanty tem um trabalho muito importante para fazer — Sigimor explicou para Reynard e sentou-o na frente da sela. — Ele voltará quando terminar a tarefa.

Nanty é meu amigo. — Reynard fez beicinho. Sigimor incitou o cavalo a um passo regular.

Sei disso, mas ele é um homem e tem obrigações a cumprir. Algumas vezes isso implica deixar os amigos e a família por algum tempo.

Como papai fez. Sigimor suspirou.

É. Como seu pai.

Mas o papai não vai voltar.

Não. Ele terá de trabalhar para os anjos.

Quando os anjos deixarão que ele venha para casa?

Ah, meu filho, os anjos não podem mandá-lo de volta. — Sigimor afagou os cachos negros. — Não há maneira de retornar do Paraíso. Mas tenho certeza de que seu papai ficará muito feliz ao comprovar que o pequeno Reynard se transformará em um homem forte e corajoso. Assim as terras e o povo dele terão um novo lorde.

Aí vou poder dar um pontapé no traseiro do primo Harold, que roubou Drumwich da gente e mandou papai para os anjos.

Sigimor achou graça na expressão de espanto de Jolene.

É exatamente o que faremos, meu rapaz.

Jolene fitou o caminho na frente deles, e as lágrimas enevoaram-lhe a visão.

Sentia um nó dolorido na garganta. Reynard entendera muitas coisas, por ter ouvido mais comentários do que seria necessário. Ela também se comovera com a explicação singela e terna de Sigimor sobre a morte de Peter. Sigimor era um homenzarrão de maneiras rudes e expressões nem sempre de alto nível. Apesar disso, mostrava-se bondoso, gentil e paciente com o menino. E disposto a ajudar no que fosse possível.

Na verdade, os seis cavalheiros tratavam Reynard com brandura. Mesmo em Drumwich, onde todos demonstravam a maior consideração pelos Gerard, ninguém passava muito tempo com Reynard. Com exceção de Peter e dos dois soldados mortos com ele. Admitiu, com tristeza, que Peter e os amigos não haviam demonstrado a paciência e o entendimento daqueles escoceses. Eles tinham um carinho quase paterno pelo garoto e brincavam com ele sempre que havia oportunidade. E, na certa, horrorizados, cairiam do cavalo se a ouvissem dizer isso.

A surpresa maior foi a atitude de Sigimor. Ele comparara a inglesa ideal a um cachorro, mas acariciava os cabelos de uma criança e falava em anjos. O que tornava ainda mais difícil para ela endurecer o coração diante das emoções inconvenientes despertadas pelo escocês ruivo.

Há uma aldeia a poucas horas daqui — Sigimor aproximou o cavalo e interrompeu os devaneios de Jolene. — A estalagem é bem limpa. Pararemos lá para dormir.

Jolene estranhou.

Isso não deixará vestígios da nossa passagem pelo vilarejo?

Sim, mas não importa. Harold descobrirá onde fica nosso castelo e irá procurar- nos em Dubheidland. Não vejo motivos para que não possamos permitir-nos um pouco de conforto. — Sigimor apontou o céu. — Ainda mais quando temos uma tempestade à vista.

Jolene fitou o céu sem nuvens, mas evitou comentários.

Cama limpa e banho quente?

Tentador, não é?

Muito. Mas eu dispenso meu bem-estar pela segurança de Reynard.

Como eu já lhe disse, milady, Harold baterá na nossa porta, independentemente de quão invisíveis possamos ser. Se estiver determinado a achar nosso paradeiro, ele o fará. Ora essa, quem foi que disse que eu estava pensando no seu bem-estar?

Sigimor afastou-se e foi para perto de Liam.

Aquele homem acabaria por deixá-la maluca. Em um momento sentia ternura por ele. Em seguida, gostaria de ser uma mulher gigantesca para poder socá-lo.

A Estalagem dos Corvos era muito limpa e arrumada, apesar do nome estranho. O cheiro que vinha da cozinha deixou Jolene com água na boca. Seu estômago roncava com a expectativa. A única coisa que lhe desagradou era ver que todos a fitavam com um misto de espanto e horror. Teria I sido melhor ficar de boca fechada e deixar que Sigimor requisitasse o banho.

Santo Deus! Ela é inglesa! — o estalajadeiro falou em tom baixo e franziu o cenho para Sigimor. — O que o senhor está pensando? Trazer uma inglesa para dentro da minha hospedaria? Onde foi que a encontrou?

Sigimor cruzou os braços na altura do peito e fitou de cima o homem baixo e gordo. Jolene chegou a ter pena do coitado, mas ele fora muito rude. Levando-se em consideração também os outros quatro homens grandes e fortes que a acompanhavam, ela se admirou da relutância do sr. Dunbar. Na certa não imaginava em que águas tenebrosas estava entrando. Os demais fregueses tiveram o bom senso de ficar calados, ainda que a fitassem sem a menor sombra de boas-vindas. Jolene sentiu-se humilhada pela reação do camarada. Esperava que Sigimor não demorasse muito para deixar o sr. Dunbar mais cordato.

Isso mesmo, ela é inglesa — Sigimor resmungou. — Uma jovem inglesa

pequena, magra e choramingona.

Ah, como gostaria de dar-lhe um soco!, Jolene refletiu, aborrecida.

Eu jamais poderia imaginar que tantos bravos rapazes pudessem tremer de medo por causa dela — Sigimor zombou. — Mas já que ela fez todos ficarem com dor de barriga…

Nunca ouvi coisa mais idiota — o sr. Dunbar defendeu-se, falando alto para ser ouvido pelos clientes escandalizados que não paravam de murmurar palavras indignadas.

Uma coisa miúda como essa não vai assustar nenhum homem. Ela é sua…

É. — Sigimor não sabia se ria da fisionomia feroz de lady Jolene ou se acertava um murro na cara do estalajadeiro.

Nenhuma das duas coisas lhe daria o colchão macio e o banho quente que ele tanto almejava.

Não podia ter encontrado uma bela jovem escocesa, sir? O senhor me parece um cavalheiro distinto.

E sou. Eu tinha uma dívida de sangue. O irmão dela salvou minha vida.

Ele pediu um preço alto.

É verdade. — Sigimor fitou Jolene de esguelha. — Nada de tão trágico. Os ingleses treinam bem suas jovens. Elas têm de ser corteses e refinadas. Uma moça deve ter bom gênio e ser amável. Bondosa, em especial com os servos. Deve saber usar as agulhas e o tear. Conduzir com firmeza a administração do lar e atividades correlatas. Ser econômica, obediente e uma companheira fiel para seu marido. Providenciar paz e conforto para o seu lar.

Credo! Os idiotas pensam que estão treinando cães?

É o que se pode imaginar.

Jolene não resistiu. Deu um pontapé na canela de Sigimor e virou o rosto para não ver a careta de dor. Seu aborrecimento cresceu ao perceber que todos riam para ela. Ou melhor, dela. De novo, uma dama inglesa fora comparada a um cachorro.

Não me parece que ela aprendeu todas as lições — o sr. Dunbar murmurou.

Sigimor percebeu as intenções nada gentis de Jolene em relação ao dono da estalagem e abraçou-a pelos ombros. Com firmeza, para salvaguardar pelo menos as canelas do gordote. O homem verificou o número de quartos disponíveis, os preços com e sem banho. Enquanto seguiam uma criada rechonchuda, Sigimor pensou se Jolene entendera que ficariam no mesmo quarto.

Jolene fez um exame acurado nos seus aposentos e concluiu que estava tudo bem asseado. Estendeu Reynard sobre a colcha grossa. Antecipou o prazer de dormir em uma cama macia e sob um teto de verdade. Tirou a capa, dobrou-a e deixou-a ao pé da cama. Foi só então que percebeu a presença de Sigimor. De braços cruzados, fitava-a com uma ansiedade que a deixou inquieta.

Este quarto é bastante aceitável, milorde. Não se preocupe. Pode ir para os seus aposentos.

Estes são os meus aposentos — Sigimor respondeu e sorriu. Chocada, Jolene segurou a respiração e depois sacudiu a cabeça.

Isso é inaceitável. Não posso dormir com um homem no quarto. Seria uma atitude imprópria para uma dama.

Dividir um acampamento com seis homens por acaso é aceitável?

Claro que não, mas Jolene jamais daria o braço a torcer, nem que tivesse de dormir em uma cama de pregos. Não poderia revelar-lhe o verdadeiro motivo por que não queria ficar com ele no mesmo quarto. Era a maldita atração que sentia por ele e que aumentava a cada minuto. Não sabia explicar por que lhe parecia muito mais íntimo ficar com Sigimor no mesmo quarto do que dormir no chão ao seu lado.

Aqui só há uma cama. — Jolene odiou a si mesma ao sentir que corava.

Não se preocupe. Ela é bem grande.

Antes que Jolene pudesse argumentar, uma batida na porta anunciou seu banho. A discussão teve de ser encerrada na frente da criada e de dois rapazes que a ajudavam.

Ela é sua…

Claro. Todos imaginavam que fosse esposa de Sigimor e que Reynard fosse filho deles. Bem, até que seria melhor assim, levando-se em conta a recepção fria que tivera.

O otimismo se desfez quando a criada estendeu um biombo diante da cuba de madeira. Com certeza Sigimor, não pretendia deixar o quarto nem para ela tomar banho.

Depois que os três empregados saíram, Jolene pôs as mãos na cintura e franziu o cenho.

Então?

Então o quê?

O senhor não vai sair para tomar seu banho?

Bem, na verdade, a tina é uma só. Os rapazes vão trazer mais um ou dois baldes de água quente daqui a pouco. Liam e os outros também querem tomar banho e a hospedaria só tem duas tinas. — Sigimor deitou-se ao lado de Reynard e arqueou uma sobrancelha. — Será melhor apressar-se, milady, antes que a água esfrie. Ah, por favor, não a deixe com cheiro floral.

Jolene abriu a boca e fechou-a sem nada dizer. Pelo pouco que conhecia de Sigimor, era de prever que ele não mudaria de idéia. Lançou-lhe um olhar fulminante, pegou o sabonete com cheiro de lavanda, roupas limpas e foi para trás do biombo. Aliás uma proteção melhor do que ele virar-se de costas. Aquela viagem estava sendo altamente prejudicial para o seu decoro.

Apesar de aborrecida, Jolene deu um suspiro de prazer ao mergulhar na água quente. Por alguns momentos, ficou deitada, de olhos fechados, completamente descontraída. Endireitou-se depressa, com medo de ser surpreendida. Sigimor merecia tomar banho frio e com perfume de lavanda. Passou o esfregão no corpo com deleite quase erótico e entregou-se às carícias da espuma.

O humor dela melhorou deveras depois de ter-se banhado e vestido. Esfregou os cabelos molhados com uma toalha seca e sorriu para si mesma ao sentir o perfume de lavanda. Pegou suas coisas e saiu de trás do biombo.

—Estou sentindo cheiro de flores — Sigimor resmungou, levantou os dois baldes de água que os rapazes haviam trazido e foi para trás do anteparo.

Lavanda francesa — Jolene respondeu, já sentada diante do fogo para secar os cabelos. — Um sabonete de muito boa qualidade.

Sigimor deu um suspiro que poderia ser ouvido a distância, largou os baldes no chão e voltou para perto de Jolene, de mão estendida.

Não tenho sabão.

Deixei o meu para secar na banqueta ao lado da tina. — Jolene deu um sorriso doce e engoliu a vontade de gargalhar diante da expressão azeda de Sigimor.

Ele voltou para a banheira, onde despejou um balde de água quente e deixou o outro para lavar a cabeça. Tirou as roupas e suspirou de novo por causa da fragrância suave que o rodeava. Se não evitasse o cunhado e os primos até o perfume evaporar, acabaria por dar-lhes uma surra para que não caçoassem dele. Praguejou ao pegar o sabonete e sentir a fragrância acentuada. E tornou a proferir uma imprecação quando ouviu o riso abafado de Jolene. Prometeu a si mesmo nunca mais deixar em casa o sabão que sempre usava. Sem perfume.

Depois de aprontar-se, ajudou Jolene a dar banho em Reynard e a lavar as roupas deles. O jantar foi trazido no quarto. Sigimor sentou-se na cama com Reynard, enquanto os criados tiravam a tina, os baldes e as toalhas usadas.

Não conseguia tirar os olhos de Jolene, que trançava os cabelos. Embora cabelos escuros nunca houvessem atraído sua atenção, a cabeleira negra e sedosa de Jolene deixava-o arfante. Gostaria de ver o manto negro espalhado por cima do corpo esguio e

ela de braços estendidos para ele. Liam estava certo. O desejo que sentia por Jolene era muito forte, quase palpável.

Preocupado em diminuir sua excitação, voltou os olhos para Reynard.

Auxiliou Jolene a dar comida para o garoto e acomodou-o na cama pequena que o sr. Dunbar providenciara.

Sentou-se junto à mesa redonda onde o jantar fora servido e comeu sem erguer os olhos do prato. Só ousou fitar Jolene quando julgou estar em condições de controle. Viu-a lamber uma gota de vinho dos lábios, e o desejo retornou com vigor.

Liam chegou a dizer onde Harold se encontrava? — Jolene tirou da bolsa um punhal ornamentado que ganhara de Peter quando fizera dezoito anos e começou a descascar uma maçã.

Bem mais perto do que seria do nosso agrado.

Perdemos uma boa dianteira, não é?

Provavelmente. O sujeito deve estar a ponto de matar seus cavalos, ou então mudando de montaria de tempos em tempos. — Sigimor notou-lhe a palidez e admirou a maneira como ela mantinha o receio sob controle. — Não se preocupe. Se ele estivesse na nossa perseguição direta, já nos teria alcançado. Nós não avançamos muito depressa.

Por mim e por causa de Reynard.

Principalmente pelo garoto. Se fosse por milady, eu lhe avisaria qual seria o ritmo da ação para que sofresse em silêncio. Reynard é um menino saudável, porém muito jovem para agüentar uma corrida dura até Dubheidland.

Jolene fitou o sobrinho, que dormia. Um organismo exausto era uma porta de entrada para uma doença febril. Teve de dar razão a Sigimor. Impossível pensar em uma desabalada carreira com uma criança pequena.

A criada entrou para retirar os pratos. Era hora de dormir e só havia uma cama. A fisionomia de Sigimor garantiu-lhe que não haveria solução conciliatória. Assim mesmo, todas as tentativas seriam válidas.

O senhor poderia dormir no chão.

E desprezar um leito grande, limpo e macio? Nada disso. Harold está por perto, milady. Não posso deixar a senhora e o menino sozinhos, sem proteção. Vá para a cama. Precisamos descansar. Eu dormirei em cima do acolchoado, e milady ficará por baixo das cobertas.

Apesar de contrariada com o arranjo, ela foi até a cama e tirou o vestido. O camisão era modesto e nada revelava. Assim mesmo, sentiu-se corar ao entrar sob as cobertas. Recriminou-se com energia. Falsos recatos eram desnecessários em tais circunstâncias. Até chegarem a Dubheidland, Sigimor e os outros teriam de ficar perto dela e de Reynard. Não poderia esperar que eles fizessem mesuras ou agissem com pudores excessivos.

Sem querer, Jolene fez uma careta e fechou depressa os olhos quando Sigimor se despiu e ficou de calção. Ver aquele deus em sua glória masculina lembrou-a do motivo real por que não queria dormir a seu lado. A tentação de tocá-lo era grande. Ceder àquela tentativa só lhe traria mais problemas. Começou a pensar que o Senhor pretendia pô-la à prova, quando sentiu Sigimor aproximar-se. Abriu os olhos e deu com aquele rosto bonito bem perto do seu. A intensidade do olhar verde arrepiou-a.

Seria desejo? Era, com toda certeza.

O senhor quer dizer alguma coisa antes de dormir? — JoIene admirou-se com a calma da própria voz.

Não. Eu só queria um pequeno beijo de boa-noite. — Sigimor sorriu ao vê-la arregalar os olhos e beijou-a.

Jolene segurou-o pelos ombros para afastá-lo. Ficou perturbada ao sentir a pele quente e suave sob suas palmas e teve de engolir a vontade de abraçá-lo pelo pescoço. Sigimor recuou, sorriu, desejou-lhe um bom sono e virou-se de costas. Costas largas,

fortes, sem manchas. Jolene sentiu o coração bater forte e o fogo queimar em suas veias. O cabo de seu punhal saliente entre aquelas omoplatas não deixaria as costas de

Sigimor ainda mais encantadoras?

Capítulo V

Jolene andou pela mata aos tropeções, em busca de um lugar para aliviar suas necessidades. Bocejou com tanta energia que sentiu uma ferroada no queixo e os olhos lacrimejaram. Culpou Sigimor pela exaustão que sentia. Depois do beijo que a deixara ardente de ansiedade, ele lhe dera as costas e dormira, enquanto ela ficara acordada a maior parte da noite. Tensa pelas reações até então desconhecidas e apavorada com a idéia de que não hesitaria em entregar a virgindade a Sigimor, virara-se de um lado para outro durante muito tempo.

Adormecera pouco antes do alvorecer, quando Sigimor a acordara com a disposição de quem havia descansado a noite inteira. Não entendia como Sigimor despertava nela estados de ânimo tão contraditórios. Em um momento, era uma paixão nova e assustadora, em outro, vontade de torturar e matar.

Depois de desafogada, olhou ao redor e alarmou-se. Não viu sinal dos Cameron nem de suas vozes. Cansada e imersa em seus pensamentos, não se preocupara em observar o rumo que tomara nem a distância que percorria. Olhou o céu e tentou lembrar- se das lições de Peter para encontrar o Norte, onde estava localizada a Escócia.

Começou a andar e logo entendeu que estava no caminho errado. Não havia mata cerrada no lugar onde deixara seus acompanhantes. Inspirou fundo para acalmar-se e disse a si mesma que, na certa, se embrenhara na floresta sem perceber.

No instante em que resolveu parar e gritar por socorro, as árvores começaram a escassear. Ouviu o tilintar leve dos arreios de um cavalo e murmúrio de vozes. Feliz, correu em direção aos sons e ignorou o instinto, que lhe recomendava maior cautela, à medida que se aproximava da clareira. Recriminou-se e sorriu. Devia ser a inquietação de receber uma reprimenda de Sigimor por haver demorado tanto.

O sorriso se extinguiu assim que chegou mais perto do grupo. Deveria ter dado atenção ao seu sexto sentido. Havia um erro claro que a euforia não lhe permitira desvendar. Algo alarmante. As vozes eram de ingleses.

Mais tarde poderia até achar graça na maneira como ela e os três homens se entreolharam, boquiabertos. Alguém precisava ensinar os escoceses a contar. Havia apenas dois homens com Harold, e não uma dezena ou mais. Jolene praguejou e preparou-se para fugir. Harold e seus companheiros foram mais rápidos.

Apesar do pressuposto de que seria incapaz de vencê-los, não tinha a intenção de render-se com facilidade. Pretendia fazer Harold suar a camisa. Seu consolo era Reynard encontrar-se fora do alcance do assassino.

Harold e seus homens eram espertos. Bloquearam o caminho por onde ela viera e fizeram-na correr em círculos. Jolene percebeu uma trilha na floresta e tentou uma fuga.' Harold atirou-se atrás dela e derrubou-a no chão com tal violência que a deixou zonza. Arfando, nem mesmo conseguia lutar para libertar-se.

Não posso acreditar que a senhora tenha caído em minhas mãos. — Harold tirou o punhal de Jolene da bainha e, cambaleando, pôs-se em pé.

Jolene ficou de costas e esforçou-se para respirar melhor.

Onde está o filho bastardo de Peter?

O herdeiro de Peter está fora do seu alcance sanguinário. — Jolene voltou a respirar com maior normalidade e sentou-se.

Será mesmo? A senhora está em meu poder. Isso tornará muito mais simples lidar com o problema do menino. — Harold agarrou-a pelo braço e levantou-a. — Onde estão aqueles seus guardas malditos?

O senhor acha mesmo que eu estaria aqui se soubesse? — Jolene sorriu, irônica. — Eu me perdi na mata. Quer que os chame?

Faça isso e será o último som que emitirá na vida. Lady Jolene Gerard, esteja

certa de que eu não titubearia em arrancar essa sua língua irreverente.

Jolene sentiu um arrepio diante da ameaça. Harold puxou-a em direção à pequena fogueira e sentou-a no chão com violência. Dois coelhos estavam sendo assados, o que a fez imaginar que Harold pretendia ficar um pouco por ali. Seria uma boa vantagem. Os Cameron deviam estar procurando por ela, e haveria uma chance de a encontrarem.

Milorde — um dos homens, alto, magro e com o rosto marcado pela varíola, interveio —, não seria melhor sairmos daqui?

Por quê? — Harold perguntou e sentou-se ao lado de Jolene.

Aqueles escoceses não devem estar longe.

Nós os ouviremos quando se aproximarem. Conforme o combinado, esperaremos aqui pelo restante dos meus homens.

Milorde…

Esperaremos aqui! — Harold repetiu, impaciente. — Pelo amor de Deus, Martin. Estamos com milady. Ela servirá de escudo, mesmo que esses idiotas cheguem antes dos nossos homens. Agora pegue meu odre de vinho.

Jolene respirou mais aliviada. As preocupações mais que razoáveis de Martin tinham sido ignoradas. A arrogância de Harold permitiria que os Cameron a localizassem com maior facilidade. No momento, teria de preocupar-se apenas com Harold e com dois de seus asseclas. Rezou para que Sigimor e os outros a encontrassem, antes de que ela tivesse de enfrentar mais alguns companheiros de Harold.

Ela está demorando muito. — Sigimor fitou a mata por onde Jolene havia sumido.

Mulheres são assim mesmo. — Liam ofereceu água ao primo.

Nem sempre. — Sigimor bebeu um grande gole, devolveu o bornal de couro a Liam e coçou o queixo, sem tirar os olhos da floresta.

Talvez ela esteja… enjoada. Milady pareceu-me um pouco pálida. E bastante cansada. — Liam fitou Sigimor com atenção.

Por que está me olhando desse jeito?

Não fui eu quem passou a noite com ela em um quarto onde havia apenas uma cama. Por acaso…

Não! Fiquei por cima das cobertas e lady Jolene, por baixo. Nada mais do que

isso.

Sigimor procurou não pensar em quanto a desejara e continuava desejando.

Partilhar uma cama com Jolene fora um tormento, e ele não pretendia repetir a dose. Pelo menos até ter permissão de deitar-se a seu lado… sem roupas. Ele poderia tocar naquela pele sedosa, nos seios perfeitos, na… Sigimor tratou de afastar imagens provocativas de sua mente. Não fora uma atitude sensata ceder à tentação de beijá-la de novo. Demorara muito para dormir e durante o dia inteiro sentira o gosto de seu lábios macios. Seu único lenitivo era a quase certeza de que ela correspondera à sua paixão.

Cada vez mais inquieto, Sigimor refletiu que Jolene era uma donzela bem-nascida. E pela inocência de seus beijos, podia jurar que o desejo era uma novidade para ela. Seria possível que, temerosa pelo que poderia suceder, fugira dele?

Bobagem. Jolene podia ser ingênua, mas não era tola nem se atemorizava com facilidade. Consciente da chama que os envolvera, ela teria lutado contra o desejo ou teria aceitado o fato como inevitável. Não teria fugido. Nem deixado Reynard para trás. Não se arriscaria a ser apanhada por Harold. Alguma coisa estava errada. Com toda certeza.

Por que não a seduziu? — Liam indagou. — O primo a deseja tanto… Sigimor fitou-o com semblante sombrio.

Jolene é uma lady inglesa e virgem. Eu não sou um conquistador experiente e romântico como o senhor.

Isso me parece mais um insulto — Liam murmurou, sorrindo. Sigimor ignorou o comentário de Liam.

Seduzir uma jovem como lady Jolene não me parece digno de um cavalheiro. Na verdade, desonrar jovens nunca foi do meu agrado. Digamos que seja um pouco desonesto. E indelicado.

Pode ser. Há muitas moças que aceitam deitar-se com homens por prazer ou por algumas moedas. Isso deixa satisfeitos a maioria deles. Outras gostam do jogo da sedução.

Jolene não faz parte de nenhum desses grupos.

Eu sei. Ela é uma jovem com quem os homens se casam.

No momento, é uma dama que está perdida. Eu vou à procura dela.

Já imaginou como ela ficaria envergonhada se a encontrasse em um momento… desagradável?

Ela haverá de recuperar-se. Não ficarei esperando de mãos atadas, temeroso por ofender-lhe a modéstia, enquanto lady Jolene poderá estar doente, perdida ou sabe- se lá mais o quê.

Sigimor gostou de Liam ter desistido de argumentar. Ordenou aos primos David e Marcus para ficarem com Reynard e os cavalos. Embrenhou-se na floresta à procura de Jolene, ao lado de Liam e de Tait. Não arriscaria a segurança de lady Jolene pela possibilidade embaraçosa de encontrá-la em meio a uma situação íntima. A intuição advertia-o de um grave perigo.

Sentiu-se surpreso pela preocupação que lhe envenenava a mente. Era muito mais de que uma dívida de sangue, fosse em relação a Peter ou a Jolene, ou sua tendência natural para proteger uma mulher. Apesar de conhecê-la havia bem pouco tempo, lady Jolene tornara-se muito importante para ele. Sigimor podia entender a excitação por uma mulher atraente, mas o que sentia por lady Jolene era bem mais complexo de que uma simples atração. O mais intrigante era que esse temor pelo bem-estar e pela segurança deveria resultar de um relacionamento mais duradouro e afetuoso.

Sigimor também achava estranho que não sentisse urgência em afastar-se de lady Jolene para que a situação não se complicasse. Desde o momento em que a conhecera, tivera um sentimento de posse em relação a ela.

Ela é minha. Apesar de impertinente, miúda e morena.

Ela é perfeita. Mesmo quando o fuzilava com fúria inegável naqueles olhos cinzentos.

Saber que ela estava deitada a seu lado, sã e salva, fizera-o pensar no futuro. Era simples prever os empecilhos que encontraria pelo caminho se resolvesse casar-se com uma inglesa. Porém os benefícios eram óbvios, como a excitação que Jolene despertava nele. Nunca sentira desejo tão instantâneo e poderoso por nenhuma mulher. Não seria possível continuar ignorando a importância do fato.

Teria de trazê-la de volta, mesmo que fosse à força!

Jolene veio até aqui — Sigimor observou os rastros no solo — e voltou por uma direção errada.

Acha que ela pretenderia alcançar a Inglaterra a pé? —Tait perguntou com intenção de fazer graça, mas não sem uma ponta de preocupação.

Arriscando-se a ser agarrada por Harold? De jeito nenhum. Lady Jolene não deve ter prestado atenção ao caminho e se perdeu na floresta. Liam, a que distância Harold estava de nós?

Muito perto, muito perto — Liam suspirou. — Mesmo assim, não pensei que já estivesse soprando no nosso cangote.

E se estiver? Lady Jolene pode ter ido direto ao encontro dele.

Então será melhor nem gritarmos por ela. — Tait seguiu as pegadas com Liam e Sigimor. — Talvez por isso ela não esteja pedindo socorro aos brados.

Também pode ser que não faça isso por orgulho — Sigimor alegou. — Ela haveria de preferir convencer-nos de que pretendeu dar um passeio. Quando deixamos o quarto na estalagem, lady Jolene virou à esquerda em vez de ir para a direita, onde estava a escada. Ela arrumou a desculpa da curiosidade. Queria saber o número de quartos existentes naquele piso. Lady Jolene não possui muito senso de direção e deve estar perdida. Pode ter perambulado por um bom tempo antes de admitir a verdade. Espero que esse seja o único problema.

Seguir os rastos de Jolene era difícil. Ela pesava pouco e os sinais dos passos eram tênues. Quanto mais o tempo passava, mais Sigimor ficava aflito. Além de Harold, existia outros perigos na mata. Pediu a Liam que perscrutasse a área, para ver se não havia problemas à frente. Ver o semblante sombrio dos parentes trouxe-lhe certo conforto.

Ah, não via a hora de passar uma bela descompostura em lady Jolene.

Jolene fitou o céu e praguejou em voz baixa. Logo o sol mergulharia no poente. Se alcançasse êxito em uma fuga, o escuro dificultaria uma perseguição. Mas também seria penoso atravessar uma região desconhecida sem enxergar nada. Se pudera perder-se em plena luz do dia, o que dizer no escuro? Não conseguiria voltar até onde se encontravam os outros. Com o abominável senso de direção que possuía, acabaria no País de Gales.

O problema maior seria ludibriar Harold e os outros dois, sempre atentos. Assim mesmo, recusava-se a pensar que se tratava de uma tarefa impossível. Precisava apenas de uma chance. Ou melhor, de um pequeno milagre. Assim que os dois asseclas se distraíssem por um momento, tentaria escapar. Poderia atingir a cabeça de Harold com a pedra que trazia escondida embaixo da saia e correr. Uma de suas habilidades era a corrida em percursos longos. Rezou por uma oportunidade.

Nós nos casaremos assim que voltarmos a Drumwich. — Harold fitou-a com intensidade.

Pelo visto, Deus não pensava em atender-lhe as preces, Jolene refletiu, desanimada.

Uma brincadeira muito sem graça, primo.

Eu não costumo brincar e nós somos primos distantes. Não foi difícil conseguir uma licença especial, pois nossos laços sangüíneos são muito frágeis.

E muitos bispos, gananciosos.

Quanto desrespeito pelo nosso clero, milady. Eu apenas fiz um presente para a Igreja, em reconhecimento pela ajuda e compreensão.

Jolene lançou-lhe um olhar fulminante.

Quanta liberalidade com dinheiro que não é seu por direito.

Drumwich e a herança são meus.

Tudo pertence a Reynard, herdeiro de meu irmão.

Por enquanto. — Harold tomou uma dose de vinho e ofereceu o odre a Jolene. A sede foi maior que a vontade de recusar. Jolene limpou bem a boca do gargalo,

antes de bebericar um gole. Harold semicerrou as pálpebras, e as íris azul-pálidas reduziram-se a um fio. Jolene concluiu que o irritara, mas duvidou que fosse capaz de refrear a própria língua. Estar perto do homem que matara Peter levava seu ódio a um nível insuportável. Ainda mais sabendo que, se pudesse, ele mataria Reynard.

O que quer dizer com isso? — Jolene devolveu-lhe o bornal, trêmula de raiva.

Crianças pequenas têm muita facilidade para morrer.

O senhor teria coragem de sujar as mãos com o sangue de uma criança inocente?

Não, se eu tiver outro recurso. Na verdade, pensava em anunciar publicamente sua condição de bastardo. Embora não me custasse usar meios mais fáceis e definitivos, torná-lo ilegítimo seria uma solução.

Isso de nada adiantaria. O senhor não é o próximo nome na linha sucessória.

Serei herdeiro de Peter depois de Reynard.

Por um instante, Jolene pensou que se tratasse de uma verdade. Mas percebeu a intensidade com que ele a fitava. Harold esperava que ela fosse tola o suficiente para acreditar. Era como ele sempre agia, quando faltava com a verdade.

Peter jamais o escolheria como sucessor. Ele não romperia uma seqüência legítima. Mesmo se o fizesse, meu irmão não o teria escolhido. Peter não confiava no senhor. Ele teria designado Roger, a quem amava como irmão e em quem depositava uma fé ilimitada.

Jolene viu o punho fechado de Harold e preparou-se para um golpe. Ficou surpresa ao perceber o controle não habitual do primo, o que a deixou ainda mais temerosa.

Eu ficarei com Drumwich e com milady — Harold afirmou, com a voz eivada de cólera.

O senhor jamais ficará comigo!

Eu me casarei com milady. Com isso, assegurarei meus direitos sobre Drumwich. E, é claro, sobre a senhora.

Jolene sentiu-se enojada só em pensar em ser tocada por aquelas mãos imundas de sangue. Harold corou, o que a fez supor que ela não conseguira disfarçar a náusea.

Harold devia ser um louco! Imaginar que ela se submeteria ao homem que matara Peter e que pretendia fazer o mesmo com Reynard!

O casamento só é válido com o consentimento da noiva. O senhor deve saber que eu jamais diria "sim".

O sorriso de Harold a fez estremecer.

Fui bastante cuidadoso na escolha do sacerdote que oficiará a cerimônia. Uma vez casados, o seu rico dote passará a pertencer-me. Torná-la minha esposa me dará o direito de trazer Reynard de volta a Drumwich.

Jolene foi incapaz de argumentar. Um padre poderia facilmente ignorar suas negativas e seus protestos. O representante da Igreja nem teria de ser corrompido por uma boa recompensa. A maioria dos sacerdotes acreditava que as mulheres eram retardadas e não sabiam o que era melhor para elas. Harold poderia ameaçar-lhe a vida, caso não concordasse em casar-se com ele. Jolene não tinha certeza se seria preferível a morte a tornar-se esposa de Harold. Ele era esperto e sabia que, se a matasse, perderia tudo. Por isso, iria torturá-la para obter a aceitação. Jolene não era covarde, mas nunca pusera à prova sua capacidade de suportar a dor. Seria preciso apenas um "sim" murmurado para que ela se tornasse esposa de Harold perante Deus e as leis da Ingla- terra. Caíra em uma cilada. Harold tinha razão. Por intermédio dela, conseguiria trazer Reynard para Drumwich. As leis dos dois países exigiriam isso. Os Cameron teriam de pagar caro se, mesmo para protegê-lo, tentassem ficar com o garoto.

Jolene afastou a noção de derrota que a invadia. Poderia fraquejar e afundar na maldade de Harold. Isso não significava que teria de ficar em poder dele. Nem que os planos de Harold teriam o sucesso que ele apregoava.

Haveria uma oportunidade de escapar. Teria de acreditar nisso ou tudo estaria perdido.

Eu terei direito a uma noiva casta?

A pergunta sem rodeios assustou Jolene e ela corou ao lembrar-se dos beijos de Sigimor. A expressão de ódio no rosto de Harold assustou-a. E, mais uma vez, o primo manteve o controle.

Na certa ele não pensaria em arrastar até o altar uma noiva machucada, Jolene refletiu com cinismo.

Então a senhora permitiu que o escocês bastardo a tocasse, não é?

A qual deles o senhor se refere?

Jolene perguntou-se o que a levara a provocá-lo daquela maneira.

Está pretendendo fazer-me acreditar que a orgulhosa lady de Drumwich tornou- se uma prostituta vulgar?

Vulgar? Jamais! Entretanto o senhor haverá de convir que homens tão atraentes, belos e fortes…

Escoceses imundos! Milady desonrou o nome e o sangue dos Gerard! — Harold inspirou várias vezes para acalmar-se. — Não. Nem posso acreditar. Milady não se rebaixaria tanto. Ainda mais com um daqueles Cameron. Bárbaros demais. Infames. São conhecidos em suas malditas terras por seu mau gênio, por sua tendência a procriar somente ruivos e por seus modos excêntricos. Agora entendo por que eles a levaram.

Pelo menos não são conhecidos por matar os próprios parentes por causa da cobiça.

Foi o peixe estragado que matou Peter.

Jolene teve vontade de arranhar o rosto de Harold.

Foi vinho envenenado.

Isso nunca poderá ser provado. Ninguém dará ouvidos ao reclames de uma esposa desobediente contra o marido, lorde de Drumwich. Quando estivermos casados, sua palavra nada valerá contra a minha. Milady também não contará com nenhum apoio.

Meus parentes…

Reze para que eles mantenham a neutralidade, se os quer vivos.

O senhor não poderá matar a todos.

Poderei silenciar um número suficiente deles para deixar os demais tementes a Deus ou a mim. — Harold ergueu-lhe o queixo. — E se me causar muitos problemas, nem mesmo a idéia deste corpo macio a meu dispor me impedirá de matá-la. O que seria uma pena. — Acariciou-lhe o rosto e irritou-se por Jolene afastar a cabeça. — Eu preferia ouvi- la gritar de prazer quando a possuísse. Nós dois poderíamos transformar os Gerard de Drumwich no maior poder da Inglaterra.

Jolene nem se surpreendeu pelos planos mirabolantes e execráveis do primo. Se Harold houvesse aprendido a refrear o ódio e a agir com sutileza, poderia tornar-se uma ameaça muito maior. Se o poder dele Harold excedesse os domínios de Drumwich, seria um desastre.

Jolene considerou seriamente uma tentativa de fuga e rezou para que a sorte a ajudasse. Nisso, um dos homens de Harold gritou em sinal de alerta. O grito foi seguido por um alvoroço entre os cavalos. Os dois guardas concentraram a atenção para impedir que os animais fugissem e um deles falou em uma cobra.

Suas preces tinham sido atendidas! Embora uma serpente pudesse ser considerada uma salvadora esdrúxula, Jolene aproveitou imediatamente a distração de Harold.

Agarrou a pedra que mantivera escondida sob as saias e levantou-se. Harold voltou-se para ela e só teve tempo de praguejar antes de ser atingido na cabeça e cair como um saco de batatas.

Jolene retomou seu punhal e saiu correndo.

Capítulo VI

Corra!

Jolene disparou pela floresta e deu-se conta de que seu anjo da guarda tinha sotaque escocês. Liam surgiu a seu lado e passou à sua frente. Manteve dianteira suficiente para ser seguido e proximidade que lhe permitiria ajudá-la se fosse preciso. Jolene não disse uma só palavra, nem mesmo agradeceu. Poupou o fôlego para correr.

Liam deteve-a somente uma vez. Assobiou como um melro. Jolene nem chegou a cumprimentá-lo pela perfeição do canto.

A resposta foi imediata. Isso significava que os outros Cameron não estavam longe. Jolene não precisou de nenhum sinal para reiniciar a corrida. Se soubesse o caminho, teria passado na frente de Liam, de tanta ansiedade para encontrar Sigimor e os outros.

A primeira coisa que notou foi o semblante sombrio de Sigimor, que se transformou na mais bela visão de sua vida. Nada mais lhe importava. A não ser correr direto para ele.

Para seu alívio, Sigimor recebeu-a com os braços abertos e apertou-a de encontro ao peito. Jolene cingiu-lhe a nuca, e a sensação de saber que estava salva foi indescritível.

Problemas? — Sigimor soltou-a um pouco e ficou satisfeito pelo fato de Jolene não se afastar dele.

Harold — Liam explicou, assim que retomou o fôlego.

Ele a seguiu?

Ele virá em seguida.

Sigimor desvencilhou-se e fitou-a.

Agüentará correr mais um pouco?

Sim. Apenas mostre-me o caminho.

Então vamos. Mais tarde discutiremos o resto.

Eles saíram correndo em direção à clareira onde os outros esperavam. Jolene supôs que a discussão consistiria em perguntas indelicadas a respeito de Harold. E antes teria de enfrentar uma boa reprimenda. O que lhe daria algum tempo para refletir sobre as respostas. Não pretendia contar-lhe toda a verdade, mas também não diria mentiras.

Nisso ocorreu-lhe que Liam poderia não ter sido responsável pela oportunidade de fuga e ele ter ouvido grande parte da conversa. Liam não hesitaria em transmitir as palavras para Sigimor, letra por letra. Quando pararam de correr, Jolene esperava que ainda tivesse fôlego para o debate. Não tinha certeza do que Sigimor poderia fazer se descobrisse os planos de Harold.

Algo lhe dizia que isso lhe traria mais problemas. Como se já não os tivesse em quantidade suficiente.

Assim que se aproximaram dos demais, Sigimor, com poucas ordens, pôs todos em movimento. Ele aconchegou Reynard de encontro ao peito, e Jolene não protestou. Sigimor era um cavaleiro exímio e não se sentiria tolhido por causa do peso de uma criança. O que às vezes acontecia com ela. Gemeu ao montar no cavalo, mas não se queixou. Concordava com o plano de Sigimor. Teriam de aproveitar o restante da luz do dia para distanciar-se de Harold com a maior presteza possível. Mais tarde teria tempo para recuperar-se de seus ferimentos e de sua provação.

Vários quilômetros adiante, o céu escuro do final de crepúsculo foi o motivo da parada deles. Jolene apeou e pensou que fosse desfalecer de cansaço. Tirou Reynard dos braços de Sigimor e segurou-o para que ele esvaziasse a bexiga. Depois de comer, o garoto adormeceu e Jolene invejou-o. Viera escorado no corpo forte e grande de Sigimor durante o galope acelerado e ainda mergulhava em um sono sem pesadelos.

Dali a pouco Jolene dirigiu-se para atrás da moita e refletiu como seria prazeroso

ficar pressionada no peito largo e macio de Sigimor. Descansar a face na pele cálida. Alisar-lhe os ombros, enquanto ele a cingia com aqueles braços musculosos e…

Jolene ouviu passos leves atrás de si. Virou-se depressa. Era Sigimor.

Preciso de um momento para ficar sozinha — Jolene reclamou, mas ele não arredou o pé.

Eu sei. Vim para escoltá-la.

Não poderei fazer nada com o senhor a meu lado.

Milady poderá usar um dos lados da árvore ou da moita, e eu ficarei em posição oposta.

Mas assim o senhor poderá escutar-me — Jolene sussurrou, chocada.

Não creio que se trate de alguma novidade.

O olhar divertido acabou por aborrecer Jolene. Seria como jogar ao vento o pouco de recato que lhe restara. Na verdade, gostaria de gritar com Sigimor, argumentar contra essa invasão de privacidade, mas nada fez. Ele não se comoveria com nenhum argumento. Além disso, ela precisava aliviar-se com urgência. Murmurou uma imprecação e foi para trás de uma grande árvore rodeada por uma moita alta. Agachou-se e esperou. Apesar da vontade aguda, nada aconteceu. A proximidade de Sigimor a inibia. Não poderia deixá-lo ouvir ruídos tão íntimos. Ainda mais sendo um homem por quem sentia forte atração. Uma situação constrangedora.

O senhor terá de fazer algum barulho. Cantar, por exemplo.

Oh, não. Milady não gostaria de ouvir-me cantar. Jolene ouviu-o gargalhar e estreitou os lábios.

Está bem. Então permaneceremos aqui a noite toda e eu ficarei com as minhas vísceras seriamente prejudicadas.

Por que a senhora mesma não canta?

Sigimor! Será que não poderia ao menos fazer-me essa gentileza?

Não diga depois que não a avisei.

Sigimor resolveu cantar, e Jolene levou tamanho susto que nem mesmo percebeu como começava e chegava ao fim. Usou um quadrado pequeno de linho para se enxugar e lavou as mãos com a água do odre que trouxera. Abaixou depressa as saias, deu a volta na árvore e tapou a boca de Sigimor com a mão. Os olhos verdes, visíveis apesar da pouca luminosidade, e bem-humorados de Sigimor eram provas de que não se sentira insultado. Ao perceber a ponta da língua dele em sua palma, ela arrancou a mão depressa.

Eu não tinha razão? — Sigimor notou as faces ruborizadas de Jolene, sem saber a causa. Poderia ser de raiva ou de vergonha. Ou de desejo.

Jolene procurou esquecer o que a pequena carícia a fizera sentir. Pensou no tom de voz estranho que na certa espantara todos os seres viventes da floresta.

Não entendo como uma pessoa com uma voz tão bonita possa ter um canto tão desafinado. O senhor não tem o menor ouvido musical.

Nenhum — Sigimor confessou e levou-a pela mão de volta ao acampamento.

Jolene fitou as mãos dadas e refletiu se o escocês era uma espécie de feiticeiro. A idéia se justificava pela maneira como ele a fazia estremecer e sentir calor só pelo fato de segurar-lhe a mão. Não se lembrava de ter sentido coisa parecida. Mas também nenhum homem tocara em sua mão antes.

Sigimor parou assim que chegaram ao acampamento. Os outros quatro homens o fitavam com sisudez extrema. Com o canto dos olhos, Jolene viu-o apontar para ela. E os grandalhões passaram a mirá-la com fisionomias acusadoras.

Milady pediu a ele para cantar? — Liam espantou-se.

Bem, naquele momento, pareceu-me uma boa idéia — Jolene murmurou, enquanto ela e Sigimor sentavam-se junto à fogueira.

Pedir a Sigimor para cantar jamais será uma sugestão feliz.

Pelo menos ele tem grande dose de bondade para saber °s danos que sua voz pode causar a um inocente — Marcus comentou.

Entendo. — Jolene riu e olhou para Sigimor. — É Preciso admitir que o senhor não se aborrece com as críticas.

Ele deu de ombros.

Trata-se de uma pequena falha da natureza. Conheço outras bem piores. Por exemplo, perder-se nas barbas do acampamento e ser aprisionada pelo inimigo.

Pela expressão de Sigimor e dos outros, Jolene desconfiou de que teria de escutar um sermão sobre tudo o que fizera de errado e sobre quais as normas a seguir dali para a frente. Pegou uma tigela e serviu-se de cozido de coelho preparado por um dos Cameron. Precisava comer para ter energia. Nem que fosse para evitar a raiva e as discussões inúteis. Reconheceu que merecia um sermão. Fora descuidada e arriscara a vida de todos. Esperava lembrar-se disso quando Sigimor começasse o relatório sarcástico dos erros que ela cometera. Ele fazia sermões muito mais contundentes do que os de Peter. Teria de morder a língua para não se defender.

Diga-me, Liam, quais foram as situações difíceis enfrentadas por lady Jolene?

Sigimor gostava do olhar fulminante com que ela o fitava.

Bem, Harold e mais dois homens a capturaram — Liam respondeu.

Só três homens? — Mal-humorado, Sigimor encarou o primo. — Não lhe ocorreu que seria uma ótima oportunidade para acabar com o patife?

Ah-ah, pensei. Mas eles estavam à espera do resto do bando. Não tive tempo hábil de verificar se os outros se encontravam próximos o suficiente para constituir uma ameaça. Não seria razoável matar Harold e ser surpreendido por uma dezena de homens armados. Refleti que o melhor seria afastar lady Jolene de perto dele.

Foi melhor assim. De qualquer modo, não poderíamos

surpreendê-lo por estarmos divididos. Como conseguiu tirar lady Jolene de lá?

Uma cobra assustou os cavalos e os dois idiotas que tomavam conta deles. — Liam brindou Jolene com um sorriso de aprovação. — Milady não perdeu nenhum segundo e aproveitou a chance. Atingiu a cabeça de Harold com uma pedra e correu. O homem estava tão seguro de seus planos que nem mesmo a havia amarrado.

Quais planos?

Os mais maldosos — Jolene apressou-se em responder, antes que Liam o fizesse. — Tomar posse de Drumwich. Nada do que ele disse deverá alterar os nossos projetos, Sigimor.

Jolene fez um esforço para aparentar calma e inocência. Mas deduziu que não fora bem-sucedida pela maneira como Sigimor estreitava os olhos.

O que foi que ele disse, Liam?

Harold pretende casar-se com lady Jolene. Quer assegurar a posse de Drumwich por intermédio dela. E também por intermédio dela, trazer Reynard de volta. Harold informou-se a nosso respeito e sabe para onde vamos. Chamou-nos de bárbaros e infames. Disse que somos conhecidos em nossas terras malditas por termos mau gênio, pela nossa tendência a procriar somente ruivos e pelos nossos modos excêntricos. Ah, e também somos escoceses imundos. Ele ameaçou nossas vidas, a dela e a do menino. Por um momento pensou que lady Jolene havia tomado um de nós como seu amante. Depois achou que ela não teria coragem de fazer 1Sso, por causa das nossas qualidades já descritas. Não foi, milady?

Jolene anuiu e endereçou a Liam um olhar entendido. Traidor. Ele devia ter ouvido o comentário sobre seu dote, mas nada mencionara sobre isso. Talvez não considerasse

o fato importante.

Desconfio que Harold queira casar-se com lady Jolene por outros motivos além de Reynard e do que ela possa ter testemunhado a respeito da morte de Peter. — Um pensamento surpreendeu Sigimor mas não o desconcertou. — Milady teria de casar-se

com ele ou morrer.

É verdade. Parece que Harold obteve uma licença especial e tem um sacerdote de prontidão. As duas concessões foram obtidas pelo uso generoso da fortuna de Reynard.

Ele não acredita que possa mantê-la dócil e resignada pelo casamento, não é? Jolene imaginou se as palavras tinham sido insultuosas.

Não, mas ele se esforçará ao máximo para conseguir os objetivos — ela disse.

O que, sem dúvida, incluirá boa dose de sofrimento físico. Harold também mencionou cortar minha língua. Não tenho certeza qual será seu método de escolha. Morte ou mutilação. Claro que ainda me restaria escrever as acusações. E se ele me apanhasse, cortaria minha mão.

Apavorado com as imagens do destino de Jolene ao lado de Harold, Sigimor tentou um pouco de humor negro.

Pelo menos, só uma delas.

Não senhor, as duas! Eu sei escrever com as duas mãos, embora o texto fique mais legível quando uso a direita. Também posso escrever com o pé direito. Deus me ajude. Poderei acabar como um toco de mulher.

Pela maneira como os cavalheiros a miraram, Jolene corou pelo que acabava de confessar.

Ninguém pode escrever com os dedos dos pés. Não dá para segurar uma pena.

São muito curtos.

A maioria, sim. Os meus não são.

Mostre.

Ora, que ousadia. Claro que não vou mostrar nada.

Também não temos papel nem pena. Veremos o truque mais tarde. Isso não importa no momento. — Sigimor encerrou o assunto antes que a polêmica se prolongasse em demasia.—Agora entendemos por que Harold não desistirá. Ele não quer apenas o menino. Também não é só por temer que milady procure ajuda e o faça pagar pelos seus crimes. Deveria ter-nos contado que Harold pretendia casar-se com a senhora para assegurar o título, as terras e ainda ficar com o garoto sob a sua guarda.

Como eu não mostrei intenção de colaborar com os planos dele, supus que Harold desistiria.

Um homem que deseja uma mulher não desiste com facilidade. Harold sabe que milady representa uma ameaça para ele, mas também que poderá lhe ser útil durante um certo tempo. Ele perseguirá os objetivos até que milady se torne um problema demasiado difícil de contornar. Harold a enxerga como um prêmio tão importante e rico quanto Reynard, ou maior.

Desde que a voz dele engrossou, Harold anda atrás de todas as mulheres que conhece.

E deve estar tentando conquistá-la há bastante tempo.

Jolene gostaria de negar, mas foi incapaz de dizer uma mentira tão deslavada. As suspeitas de Sigimor deviam basear-se no que ela dissera durante o pesadelo. Contestá- lo seria uma inútil perda de tempo. Harold passara a interessar-se pela prima desde a adolescência e nunca deixara de ser persistente. As poucas vezes em que ele conseguira abordá-la em locais escuros ainda faziam parte de seus pesadelos. Sua salvação fora o fato de a maior parte dos parentes em comum não gostar de Harold e muito menos confiavam nele. Por isso, pouco o vira durante aqueles anos todos.

Se Liam não tivesse escutado os planos de Harold, tudo seria mais fácil. Mesmo assim, suas pretensões em nada haviam mudado. Por mais nefandos que fossem os planos de Harold, pretendia manter a si mesma e a Reynard fora das garras dele. Independente se fosse forçada ou não a casar-se, Harold continuaria a representar uma ameaça, enquanto não pagasse por seus crimes. Não entendia por que Sigimor a fitava

como se ela tivesse mentido. Ela apenas deixara de mencionar alguns detalhes sórdidos. Lamentou mais uma vez não ter contado a Peter sobre as perseguições de Harold.

Seu silêncio teria sido por vergonha, por não querer causar problemas, por não desejar um enfrentamento de Peter com Harold ou por centenas de outras razões. Todas desculpas tolas. Se houvesse contado a Peter o assédio que sofrerá desde a primeira vez, Harold já não constituiria uma ameaça. Peter jamais teria permitido que o primo pisasse outra vez em Drumwich.

Tratou de afastar depressa as idéias que só lhe traziam forte sentimento de culpa. De nada adiantaria pensar no que deveria ter feito e não fizera. Seria melhor repetir indefinidamente que Harold era o culpado. Assim acabaria por acreditar nisso.

Não é verdade? — Sigimor interrompeu-lhe os devaneios. Jolene lembrou-se de que ele continuava a aguardar uma resposta.

É, de vez em quando, Harold criava problemas.

E por que Peter não o matou?

Eu não contei nada a meu irmão. — Jolene suspirou. — Estava pensando em como tudo teria sido diferente se eu houvesse dito o que acontecia.

Peter teria matado o canalha há muito tempo.

Obrigada pelo consolo — Jolene ironizou, furiosa.

Mas essa é a verdade. — Sigimor felicitou-se por ter despertado a raiva que substituiu a tristeza no olhar de lady Jolene. — Milady não precisa de absolvição. Ocultar os fatos não deixou a vida de Peter em perigo. Foi a cobiça que sujou as mãos de Harold de sangue. Seu primo é o único culpado do que houve. Se ele não fosse um assassino cruel e frio, poderia ter continuado a importuná-la e não ter feito nada de mais grave.

Jolene insistiu na idéia de que Sigimor a deixaria maluca. Ele fizera um comentário que lhe causara um furor tão grande que seria capaz de arrebentar-lhe a cabeça a pauladas. E ainda por cima parecera divertir-se com isso. Dali a instantes, foi muito compreensivo e a confortava. Ah, como gostaria de arrancar os cabelos!

É o que tenho dito a mim mesma várias vezes. — Jolene jamais daria o braço a torcer. — Mas não deixa de ser alarmante Harold estar tão perto de nós.

Irritante, eu diria. Em um dia ou um pouco mais, dependendo da rapidez com que vencermos o trajeto, estaremos em Scarglas. Ficaremos lá por uns dias, enquanto traçamos os planos. Teremos de enganar Harold e tomar a dianteira, antes de o canalha perceber que partimos de Scarglas há algum tempo.

Não pretende pedir auxílio de nossos primos? — Liam perguntou. — Eles poderiam ajudar-nos a acabar com o problema.

Nada mais certo. O velho Fingal adoraria a oportunidade de aterrorizar e enfiar a espada em alguns ingleses. Contudo, como eu já disse antes, não gostaria de envolver ninguém mais nesse conflito. Aceitarei uma ajuda, nada mais. Nós temos o direito de matar Harold. Um direito que se torna ainda mais claro se ele nos perseguir até Dubheidland. Nós assumiremos os problemas que advirão da morte de um lorde inglês. Poderemos provar que agimos com justiça e em legítima defesa.

Também não seria correto e justo se um parente nos defendesse?

Sem dúvida. Mas o ponto de vista dos ingleses é diferente do nosso. Por exemplo, os saxões estão enfrentando desavenças e nem se importam em perder alguns compatriotas. Veja só. Harold cruzou a fronteira, armado e pronto para a luta. Nós não sabemos qual a posição dos seus aliados à mesa do rei e nem o poder dessas alianças. A morte de Harold poderá trazer como conseqüência um grande clamor. Não desejo que outros sejam envolvidos no problema.

Liam suspirou e anuiu.

Não discuto. Mas também temos provas de que lorde Peter pediu sua ajuda.

Certo. E também de que a castelã de Drumwich implorou para que a socorrêssemos.

Implorou? — Jolene murmurou.

Sigimor ignorou a interrupção e fitou-a com uma sobrancelha erguida.

Milady tem seus próprios aliados, não é verdade?

É, tenho, sim. Infelizmente, como Harold conhecia todos, pôde planejar não só como detê-los, mas também como frustrar nossas tentativas de alcançá-los. O senhor era o único desconhecido para ele. Peter nunca fez alarde do fato de ter salvo a vida de um escocês, chefe de um clã. Nas poucas vezes em que comentou o caso, o fez de maneira vaga, sem citar nomes. Ele só me contou a história a seu respeito depois de ter mandado chamá-lo. Harold não foi o único que ficou surpreso com a sua chegada. Tentei mandar avisar que Peter estava morto, mas Harold se encarregou de evitar que a notícia se espalhasse.

Depois que entramos na Inglaterra, falamos com poucas pessoas. Fizemos o possível para não sermos vistos nem ouvidos.

Jolene tomou um gole de vinho oferecido por Sigimor e passou o odre para Tait, que estava sentado à sua esquerda.

Isso foi bastante sensato. Podemos não estar em guerra. Porém a lembrança dos ataques dos escoceses ainda não Se extinguiu. Tenho a impressão de que muitos habitantes de Drumwich até a fronteira sofreram algum tipo de perda. — Jolene suspirou.

Assim como seus conterrâneos sofreram nas mãos dos ingleses. Por isso, Harold deve ter enganado muitas pessoas, aproveitando o fato de que elas ainda tivessem sede de sangue inglês.

Creio que os camponeses escoceses podem estar sob ameaça de algum tipo de repressão, que Deus os ajude. Até mesmo os patifes das fronteiras o deixaram em paz. Se soubesse disso, jamais teria mandado Nanty na frente. Harold moveu-se com muito maior rapidez do que eu poderia supor. Teremos de planejar uma maneira de frustrá-lo, de negar-lhe o que está procurando. Mesmo que ele consiga pôr suas mãos imundas em milady e em lorde Reynard.

Jolene aguardou um relato dos planos, mas Sigimor limitou-se a observá-la em silêncio. Os outros tomaram atitudes idênticas. Era como se eles soubessem de algo que ela ignorava. Aquilo deixou-a aborrecida. Na certa haviam discutido planos e julgavam desnecessário informá-la do que se tratava. Uma injustiça muito grande.

A grande sabedoria masculina na certa decidira que o segredo era imprescindível para proteger a delicada sensibilidade feminina!

Bem, Sigimor Cameron, não pretende me contar do que se trata?

Lady Jolene, talvez fosse melhor conversarmos amanhã cedo, quando estivermos mais descansados.

Jolene inspirou fundo para conter a raiva que ameaçava emergir e sorriu com doçura.

Sigimor, diga agora.

Sigimor adorava ver o esforço que ela fazia para não pular-lhe no pescoço e estrangulá-lo. As mulheres raramente demonstravam o que sentiam, ainda mais quando se tratava de um desprazer. Muitas tinham medo dele, o que lhe desagradava. Muitos homens também o receavam, o que o deixava satisfeito. E aquela inglesinha linda, quando provocada, não hesitava em fitá-lo como se estivesse pronta para dar-lhe uma surra. E ele achava aquilo muito atraente, mesmo sob o risco de ser considerado maluco.

Acredito que será melhor esperar até amanhã, quando sua mente não estiver anuviada pela exaustão.

Sigimor, a única coisa que está anuviando minha mente agora é uma fúria sem tamanho. Diga o que está acontecendo. Por favor. — A tentativa de ser cortês não teve o efeito desejado pela ênfase e lentidão com que foi pronunciada.

Sigimor deu de ombros.

Como queira. O plano é o seguinte. Milady e eu vamos nos casar.

Capítulo VII

O que foi que o senhor disse?

Milady e eu vamos nos casar, assim que encontrarmos um sacerdote.

Mesmo sob o impacto do choque, Jolene considerou que Sigimor Cameron não lhe parecia insano. Entretanto, para enunciar tal maluquice, só podia estar sofrendo de um grande transtorno nas faculdades mentais. O pior fora Sigimor ter dito aquilo como se pedisse para alguém passar-lhe o sal.

Aliás, nem mesmo pedira. Anunciara o fato, como se contasse com uma concordância prévia.

Depois do terremoto, emergiu o ódio em conseqüência de uma dor que ela não entendia. Jolene disse a si mesma que se tratava de vaidade ferida e ignorou a voz que caçoava daquela explicação patética. Não se tratava de um romance. Era uma manobra estratégica de guerra destinada a deter Harold. Mais tarde, talvez considerasse aquilo um gesto de galanteria. Naquela altura dos acontecimentos, era a mesma coisa que ser pedida em casamento por seu dote, por suas terras ou por sua genealogia. Um forte desprezo por esse tipo de aliança era uma das razões por que se mantivera solteira até os vinte e três anos.

Isso é um absurdo totalmente desnecessário! Não vejo nenhum motivo favorável ao que o senhor pretende impor.

Não? Harold quer se casar com milady. Esse é um dos motivos por que ele está atrás de nós.

O senhor disse certo. Um dos. Se, por hipótese, eu me casasse com o senhor, isso não o faria desistir.

Mas estará protegida se ele a apanhar. Não poderá forçá-la a casar-se com ele. Até o sacerdote mais ávido por dinheiro hesitaria em unir um homem a uma mulher que diz já ser casada.

Um casamento entre nós não seria legal na Inglaterra.

Um representante de Deus haverá de querer certificar-se disso. O que não será difícil se a cerimônia for oficiada por um sacerdote. Harold também não se arriscará à ilegalidade. Ele quer herdeiros para manter Drumwich em seu poder, mesmo após a sua morte.

Apesar da sensatez das palavras de Sigimor, Jolene negou com gestos de cabeça. Não saberia dizer o que estava contestando. Se aquela veracidade ou a vontade inexplicável de concordar com o plano. Embora sempre pensasse em casar-se, ter um lar e filhos, pretendia mais do que Sigimor lhe oferecia. Mais do que uma união forçada para atrapalhar os objetivos de Harold. A forte atração que sentia por Sigimor era um fator de impedimento. Era fácil prever um futuro sombrio em que seus sentimentos se aprofundavam, ao contrário dos dele, que nada sofreriam.

Seria um porvir amargo e doloroso. Vira muitas vezes o que acontecia quando apenas um dos cônjuges amava o outro. Na família dela abundavam tais casamentos. Sua própria mãe se tornara uma mulher amargurada e difícil, depois de amar durante anos um marido que não lhe retribuía o mesmo afeto. Por isso Jolene sempre pensara em poder pelo menos opinar na escolha de um esposo. Sempre haveria a possibilidade do fracasso e do coração ferido, mas nunca com uma certeza tão grande. Pelo que testemunhara em sua vida, matrimônios arranjados por causa de dinheiro, propriedades ou poder raramente eram felizes. Uma união feita para aborrecer um inimigo não teria resultado muito diverso.

Esse é um péssimo plano.

Jolene sufocou um ai, mas que rudeza quando Sigimor pôs-se em pé e levantou-a pelo braço.

Precisamos conversar sobre isso — ele afirmou.

Achei que era o que estávamos fazendo. E, se não me engano, eu disse não.

Jolene praguejou em silêncio. Sigimor ignorou a resposta e puxou-a até a mata próxima. Era patente que ele não sabia aceitar uma negativa e que tentaria convencê-la do contrário. Inquietou-se por estar sendo afastada dos demais. Imaginou alguns métodos de convencimento que a fariam concordar de imediato com esse plano maluco.

Teria de ser forte, Jolene advertiu-se. Sigimor poderia tentar qualquer tipo de persuasão. Beijos destinados a enlouquecer. Olhos verdes para enfeitiçar. Voz profunda e sedutora. Ela não se abalaria.

Teve de lembrar a si mesma de que fazia parte da família Gerard, conhecida por sua determinação. Algumas pessoas invejosas diziam tratar-se de uma teimosia cega. No seu caso, qualquer uma das alternativas serviria.

Sigimor encostou-a em um tronco de árvore grosso e coberto de limo. Apoiou as mãos nos lados da cabeça de Jolene e fitou-a de cima. Em vão ela tentou evitar o poder daqueles olhos. Era injusto que ele não se sentisse atraído. Pelo menos, não o demonstrava. Jolene usou toda sua força de vontade para transmitir um ar de calmo desinteresse. Rezou para que o escocês alto e convencido não percebesse o tamanho da fraude.

Sigimor avaliou a expressão distante e fria, e sentiu uma ponta de dúvida. Mas se descontraiu ao analisar os grandes olhos acinzentados. A perturbação era evidente, embora fosse difícil de ser decifrada. E não se parecia em nada com a frieza que lady Jolene queria aparentar. A linda inglesa não conseguia esconder seus sentimentos. Aqueles olhos adoráveis eram a janela de seu coração e de sua alma. Sigimor pretendia esforçar-se ao máximo para descobrir o que eles refletiam. Dessa vez não seria enganado nem ficaria cego diante dos desejos e sentimentos de uma mulher. Estava decidido a compreender Jolene. Ou, pelo menos, a chegar bem próximo disso.

O instinto dizia-lhe que Jolene não enganaria ninguém. Não brincaria com as emoções de um homem somente para alimentar o orgulho e a vaidade. Contudo nenhuma cautela seria demasiada. Estava convencido de que lady Jolene era a mulher certa para ele. A companheira ideal. Poderia persuadi-la a casar-se com ele usando apenas esse argumento. Mas dessa vez ele queria conduzir a dança. Havia dez anos fora conduzido, e a humilhação daquela época ainda doía. Embora sem acreditar que Jolene agisse de má-fé, não se podia prescindir da precaução.

Milady tem alguma objeção em aceitar-me como marido?

Não ao senhor em particular, mas ao seu raciocínio.

E o que há de errado nele? Harold quer forçá-la a desposá-lo. Assim tomará posse legal de Drumwich e prenderá o pequeno Reynard em sua teia. Se estiver casada comigo, ele não poderá agir dessa maneira.

Não. Mas Harold também nada fará se não conseguir me agarrar.

Ele já fez isso uma vez.

Mas que droga! Jolene engoliu em seco. Era difícil argumentar contra uma lógica consistente e fria. Ainda mais quando os motivos contrários eram baseados em emoções. Sua experiência, embora bem limitada, comprovara que argumentos emocionais eram desprezados ou ignorados pelos homens. Tudo o que fosse baseado em sentimentos, mesmo os mais bem fundados, era reputado indigno de consideração. Não acreditava que Sigimor tivesse um julgamento tão rigoroso. Mesmo assim, não confiava que pudesse demovê-lo. Mas não custava tentar. Seria um consolo se ele entendesse a negativa.

Então deveremos ter muito cuidado para que o fato não se repita.

Milady…

Jolene pressionou a ponta dos dedos na boca de Sigimor e afastou-os sem demora. Atônita, perguntou-se como um homem tão rijo podia ter lábios tão macios e quentes. Ficou ainda mais espantada ao tomar consciência do calor que a invadia com

aquele simples toque. Tratou de afastar a estupefação para concentrar-se no tema principal.

O senhor pode imaginar por que ainda estou solteira aos vinte e três anos?

A senhora disse que contava dezesseis anos quando seu noivo morreu. Além disso, os saxões são uns tolos. Todo mundo sabe disso.

Jolene corou diante da lisonja um tanto ofensiva para uma inglesa.

Pode até ser. Contudo afirmo-lhe que preferi continuar sozinha a casar-me por causa do meu dote, da minha linhagem, por alianças de poder ou política. E certamente não pretendo aceitar um marido só para atrapalhar a vida de Harold.

Milady tem a cabeça cheia de fantasias de amor, romance e outras baboseiras que os menestréis vivem miando por aí.

Não precisa usar de tanto escárnio. Quero ser vista não apenas como um monte de moedas, uma bela escritura ou um acordo assinado.

Ah, eu a vejo de maneira bem diversa — Sigimor murmurou.

O calor dos olhos dele percorreu-a da cabeça aos pés. Até encontrar Sigimor, Jolene não experimentara aquela ansiedade que chegava a doer, mas não duvidava do que sentia. Sigimor despertava nela emoções fortes com a maior facilidade. Se ele soubesse disso, procuraria tirar vantagem do fato.

O desejo também não é um bom motivo para o casamento. O desejo é transitório e o matrimônio, perene.

Milady, eu tinha uma dívida de sangue com seu irmão. Não pude pagá-la, certo? Por isso terei de manter a senhora e o garoto em segurança, fazer Harold pagar pelos seus crimes e assegurar-me de que o filho de Peter fique com tudo que o pai lhe deixou.

O senhor não precisa desistir da vida por causa disso.

Não vejo o assunto por esse aspecto. Tenho trinta e dois anos. Com certeza, não preciso de herdeiros. Mas eu gostaria de ter filhos. Para que sejam legítimos, será preciso uma esposa. Se milady voltar para a Inglaterra sem estar casada e sem Peter como tutor, o celibato não durará uma semana.

Aquela também era uma verdade. Um homem seria nomeado tutor de Reynard e, sem dúvida, teria poder também sobre ela. Até Peter já pensara em arranjar um marido conveniente para a irmã. Aquela seria a primeira providência a ser tomada pelo tutor de Reynard. Sigimor nem sabia que ela era uma herdeira. Naqueles casos, o rei costumava assumir o controle sobre a vida da órfã e sobre a herança. O monarca obrigava o enlace com algum favorito da corte ou um parente necessitado.

Jolene arrepiou-se inteira.

Milady pode ter certeza de que não estou atrás de nenhum dos itens mencionados. Não terei direito a nenhum dote e nenhuma aliança será possível entre nós. Pela ascendência inglesa, sua nobre estirpe de nada me valerá.

Sei disso…

O importante é que não pretendo fracassar novamente. Eu a protegerei a qualquer custo e farei o mesmo com o filho de Peter. Eu me empenharei ao máximo em meu objetivo, que é mandar Harold para o inferno. Mas o destino é caprichoso. Se Harold não fosse um tolo arrogante e a tivesse prendido, a senhora estaria a caminho da Inglaterra. Casada e deflorada.

Jolene empalideceu.

Casar-se comigo poderá acabar com a ameaça, ou, pelo menos, enfraquecê-la

prosseguiu Sigimor. — O enlace também me daria o direito, pela lei dos dois países, de caçar o infame até dentro do grande hall de Drumwich, se necessário fosse.

Sigimor avaliou a face expressiva de Jolene. Teve esperança de que as emoções menos estimulantes que eram visíveis fossem conseqüentes às lembranças de Harold. Enrolou no dedo uma mecha dos cabelos negros e tentou encontrar outros motivos para convencer Jolene, caso ela ainda hesitasse. Lady Jolene estava destinada a ser sua cara-

metade. Tivera certeza disso no momento em que imaginara tê-la perdido para Harold. Mas não queria parecer um idiota. Não lhe diria que ela era a mulher perfeita para ele e por isso queria desposá-la. Teria de convencê-la da lógica e da praticidade de seus argumentos. Se tudo o mais falhasse, ainda restaria um recurso. Seduzi-la.

Jolene imaginou qual o motivo do sorriso de Sigimor. Nada havia de divertido. Ele derrubara, de maneira irrefutável, todos os motivos por ela apresentados. Se aceitasse o pedido de Sigimor, inutilizaria todos os planos de Harold. Sigimor empregara um arrazoado lógico e prático.

E por que não dizer doloroso?

Sigimor não pronunciara uma só palavra de afeto, amor ou paixão.

Mas se eles se conheciam havia poucos dias, como esperar outra coisa daquela proposta inesperada? Embora Jolene admitisse que imaginava algo bem diferente.

Sigimor oferecia-lhe razões mornas. Jolene queria um romance vibrante.

Por um momento, deliciou-se com o imaginário. Sigimor proclamava o amor em altos brados. Implorava, de maneira romântica, que se casasse com ele e o tornasse o mais feliz dos mortais.

Uma grande bobagem, ela se recriminou. Nem acreditaria em Sigimor se ele afirmasse estar tomado por uma grande paixão. O pouco tempo de conhecimento impossibilitaria que isso ocorresse. Além do mais, Sigimor não era a espécie! de homem que se empenharia em cortejar uma mulher com doçura. Se concordasse em casar-se com ele, teria de aceitar também o fato de que Sigimor Cameron jamais seria o cavaleiro de seus sonhos juvenis. Não lhe traria ramalhetes de flores, não sussurraria palavras doces em seus ouvidos, nem: entoaria melodias de amor sentado a seus pés. O que, aliás, seria uma bênção, pelo que o ouvira cantar.

Mas que reflexões mais disparatadas! Não poderia aceitar Sigimor Cameron para marido! Casar-se com um homem só por ele dever a vida aos Gerard seria tão detestável quanto unir-se, a mando do rei, a algum parasita da corte. O melhor seria esquecer aquele escocês enorme e atraente que lhe despertava emoções incontroláveis.

Não… eu não me casaria por motivos tão frívolos.

Acha que eu sou um leviano?

Não me referi ao senhor, mas aos argumentos que me apresentou.

Permita oferecer-lhe mais um…

Sigimor beijou-a antes que Jolene pudesse esboçar uma única palavra de protesto. Ela fez uma débil tentativa de afastá-lo, empurrando-lhe o peito. Em seguida, abraçou-o pelo pescoço. Sigimor, com a ponta da língua, acariciou-lhe os lábios. Jolene abriu-os e estremeceu diante da avidez com que ele lhe explorava o interior da boca. Beijar Sigimor era um prazer indescritível. Jolene só notou que Sigimor a levantara do chão e a encostara em uma árvore quando o beijo terminou.

Era a esse frio que se referia, Jolene? — Sigimor beijou-lhe o pescoço e sorriu pela rapidez da pulsação que sentira.

Não…— Jolene advertiu-se de que não havia propósito em ficar tão arfante. — O senhor já provou sua teoria. Pode parar agora.

Agora posso.

Sigimor beijou o ponto sensível atrás da orelha e sentiu-a estremecer. Jolene correspondia de maneira maravilhosa. Por mais que ansiasse continuar com aquela sedução, Sigimor buscou forças para combater seu desejo. Não seria correto tirar-lhe a virgindade daquela maneira. Encostado em uma árvore e com seus companheiros a poucos metros de distância. Se continuasse, teria um prazer enorme. Porém as conseqüências talvez fossem amargas. Jolene poderia encarar o assunto como um exercício de poder para conseguir a anuência dela. Sigimor endireitou-se e, com delicadeza, deixou-a de pé no chão. Segurou-a entre os braços, quando Jolene largou-se de encontro à árvore. Corada, arfante e com os olhos escurecidos. Aqueles sinais de

paixão tornavam maior a dificuldade em refrear a ânsia que sentia por ela.

Veja só, milady. Existe uma boa razão para um casamento que não é tão fria assim, não é verdade?

Hum.

Jolene fez uma pequena tentativa para soltar-se, mas Sigimor a segurou. Ela considerou que não seria digno lutar, embora escutasse uma voz que a acusava de ser mentirosa.

Como eu já mencionei, o desejo pode ser fugaz e por isso não deve ser avaliado como um esteio de uma união.

Milady pode ser inocente…

Posso? — Jolene ofendeu-se.

Sigimor fingiu não perceber o tom irritado.

…mas eu não sou e vou lhe contar… Jolene impediu-o de argumentar.

Tenho observado que, embora os homens exijam castidade das mulheres, eles se entregam aos prazeres da carne antes de se casar e sem o menor constrangimento. E muitas vezes, também depois. Acredito que a palavra mais correta para isso é hipocrisia. Homens…

Poderemos falar sobre isso mais tarde. Ou melhor, durante uma noite em que estejamos aquecendo os pés diante da lareira, no meu quarto.

Pensar no quarto de Sigimor fez Jolene sentir calor. E aborreceu-se consigo mesma por querer imaginá-lo desnudo em uma poltrona ao pé do fogo. Deu como certo ter sido enfeitiçada por ele. Era a única explicação plausível para a mudança radical que se operara nela em poucos dias. Antes, nem mesmo perdia tempo pensando em homens. Naquela altura, tentava visualizar Sigimor sem roupas. Bebendo vinho. Segurando-a no colo e beijando-lhe a orelha.

Recriminou-se com rapidez e violência. Era preciso insular um pouco de bom senso em sua mente confusa. Além do momento ser bastante inadequado para idéias escandalosas.

Seria mesmo? Sigimor despertava nela idéias intrigantes e perturbadoras. Já fora beijada antes. Nas poucas vezes em que isso ocorrera, só tivera vontade de atingir a cabeça do descarado que cometera tal ousadia. Os beijos de Sigimor deixavam-na com vontade de deitá-lo no solo e jogar-se por cima dele. Na verdade, não saberia o que fazer depois, Poderia descobrir a resposta àquele enigma se concordasse com a proposta dele. Sob as bênçãos da Igreja, poderia explorar a sensualidade que Sigimor despertava nela com tanta facilidade.

Por que não aceitar o casamento? Apesar de ser uma idéia insana, não conseguia descartá-la. Admitiu que jamais se sentira atraída por nenhum homem. Sigimor fora o primeiro que fizera desabrochar nela a feminilidade cuja existência, até então, fora ignorada. Embora um pouco rude, Sigimor era um bom homem. Bonitão, forte e jovem. Atraente ao máximo. Jolene duvidou que o rei, ou qualquer um que fosse nomeado tutor dos Gerard, pudesse apresentar-lhe um candidato com todas essas características. E também não queria ser arrastada a um enlace com Harold.

A senhora está longe, perdida em pensamentos. — Sigimor divertiu-se.

Ah. — Jolene corou. — Perdão. O senhor não ia me contar as histórias da sua juventude depravada? Pode começar.

Sigimor franziu o cenho.

A senhora deve estar me confundindo com o sem-vergonha do Liam — ele resmungou. — Mesmo assim, tenho experiência suficiente para saber que as chamas que se acendem entre nós são tão raras quanto a violência delas. Também não sou idiota para supor que isso durará para sempre. Elas talvez nos matarão em poucos anos. Mas a senhora se engana em acreditar que, por isso, andarei atrás de outras mulheres. Farei um

juramento diante de um sacerdote e de Deus. Milady será minha esposa. Eu encaro certas coisas com muita seriedade. Nunca fui de levar para a cama a primeira garota que sorrisse para mim. De verdade.

O senhor está afirmando que será um marido fiel?

Não foi o que eu disse? — Sigimor pareceu ofendido. — Se a senhora não me expulsar da sua cama, não terei motivos para procurar outra mulher. Conheço muitos homens que traem suas esposas e muitas mulheres que traem os maridos. Isso nunca fez muito sentido para mim. A menos que a convivência tenha se tornado tão gelada quanto um lago no inverno. Meu tio não foi fiel a nenhuma de suas mulheres e procriou um exército de bastardos. Entretanto nunca foi um homem feliz. Poucos desses adultérios têm origem em uma grande paixão ou em um amor imorredouro.

Sigimor interrompeu o discurso e lembrou-se dos desentendimentos que presenciara na época.

A maioria dos homens fala bobagens sobre as necessidades masculinas — ele continuou. — Acredito que a obsessão por mulheres envolve orgulho, vaidade ou algum tipo de jogo. Se uma mulher corresponde com satisfação às necessidades do marido, não vejo por que ansiar por outras paragens. Pular de cama em cama somente causa problemas e traz ao mundo bastardos que terão uma vida difícil pela frente.

Aquele era a promessa de fidelidade menos romântica que uma mulher poderia ouvir. Jolene percebera um tom de escárnio quando ele falara em grande paixão e amor imorredouro.

Sigimor Cameron não teria sensibilidade?

Recordou-se então do que soubera dele pelos outros. Tornara-se o senhor de suas terras aos vinte anos. A morte do pai e ficar responsável por um bando de irmãos menores fora apenas uma pequena parte do peso que caíra sobre seus ombros. Uma epidemia de febre ceifara a vida de muitos adultos do clã. Sigimor assumira também a responsabilidade por um grande número de viúvas e órfãos, muitos destes ainda bebês. Ele não titubeara em criar os que haviam perdido os pais nem em ajudar as mulheres desamparadas. Pela maneira como tratava Reynard, Jolene concluiu que Sigimor fizera muito mais pelas crianças de que alimentá-las e dar-lhes abrigo. Não cumprira apenas com seus deveres por falta de alternativa. Sigimor aparentava rudeza, mas tinha um grande coração, embora jamais lhe ocorresse admitir uma fraqueza dessas. Jolene refletiu nas chances que teria de receber afeto de Sigimor.

Seria uma grande oportunidade de transformar um matrimônio acordado por razões práticas em um vínculo verdadeiro. Os benefícios imediatos também teriam de ser considerados. Isso frustraria os planos de Harold. Ela não teria de submeter-se ao domínio e à vontade do rei. E ainda contariam com o desejo mútuo que os incendiava. Em última instância, se tudo não passasse de um terrível engano, ela poderia voltar à Inglaterra e pedir uma anulação. Depois de Harold ter sido derrotado, era evidente. Por motivos óbvios, Jolene achou melhor não mencionar o raciocínio final.

Sigimor segurou-lhe o queixo e, com a ponta do polegar, acariciou-lhe os lábios polpudos.

Eu descendo de boa cepa. Minhas terras e minha fortuna permitirão que tenha uma vida farta. Darei o melhor de mim para que ninguém lhe cause aborrecimentos. Cos- tumo levar muito a sério minhas promessas. — Sigimor beijou-a com delicadeza. — Sendo assim, lady Jolene, aceitaria casar-se comigo? — O beijo seguinte foi eivado de paixão. — Não gostaria de ver até aonde nos levaria essa vontade?

Sim. — Jolene não reconheceu a rouquidão da própria voz.

Sim para isso ou sim para casar-se comigo? — Sigimor provocou-a com beijos leves e castos.

Sim, eu me casarei com o senhor.

Ele tomou-a nos braços. O beijo seguinte deixou Jolene com os joelhos bambos.

Ainda zonza, notou que Sigimor se afastava. Depois segurou-a pela mão e rumou para o acampamento.

Jolene não podia compreender como ele passava do quente para o frio com tanta facilidade. Irritava-a saber que Sigimor podia recuperar o controle com presteza, enquanto ela continuava com tontura.

Sairemos à procura de um sacerdote amanhã cedo — Sigimor anunciou no momento em que se encontraram com os outros.

Ele insistiu para que Jolene fosse descansar logo após as congratulações oferecidas pelos parentes de Sigimor. Jolene entendeu os motivos do repouso antecipado e enrubesceu. Reynard dormia estendido na cama rústica no meio das mantas que seriam ocupadas pelos cavalheiros escoceses.

Jolene descalçou as botas e escondeu-se embaixo do cobertor para tirar o vestido.

O camisão modesto a fez desejar que houvesse trazido alguma coisa mais delicada.

E para quê?, recriminou-se mais uma vez. Já não fora suficiente concordar com uma insensatez?

Encontraremos um sacerdote a meio dia de viagem daqui — Liam afirmou quando Sigimor se sentou diante da fogueira.

Ótimo. — Sigimor pegou o odre de vinho que passava de mão em mão.

Ansioso?

Sigimor não respondeu. Tomou um grande gole de vinho, de olhar fixo na mulher delicada que em breve seria sua esposa. Em menos de um dia, teria o direito de partilhar sua cama. Ou melhor, sua manta, por enquanto.

Ansiedade era uma palavra muito pálida para descrever o que ele sentia.

Capítulo VIII

Desconfiada, Jolene fitou o sacerdote baixo e gordo com quem Sigimor conversava. Ela e os Cameron haviam saído bem antes do amanhecer e galopado em alta velocidade até a pequena aldeia. O tempo fora suficiente para refletir, mas não lhe dera oportunidade de trocar algumas palavras com Sigimor. Era evidente que a pressa dele se devera ao receio de levantar mais discussões a respeito do que fora decidido.

E Jolene pretendia exatamente o contrário. Argumentar.

Puxou Sigimor pela manga. Ele apertou-lhe a mão e continuou a trocar idéias em tom persuasivo com o padre. E em gaélico, a língua falada na Escócia e que ela não entendia.

Por que usavam outro idioma se o representante da Igreja os saudara em inglês fluente? Sigimor estava tentando esconder alguma coisa? Oh, não. Isso seria diminuir muito o valor de um cavalheiro que dava o melhor de si para proteger-lhes a vida. Que outros motivos justificariam tanto segredo? Sigimor a pedira em casamento. Ela aceitara. Não havia necessidade de nenhum mistério.

Jolene queria ter um diálogo em particular com Sigimor. Sem que ele a beijasse, sem que encostasse o corpo no dela, sem lambidelas no pescoço. Um colóquio simples, evitando altercações. Precisava expor o plano que engendrara durante a viagem cansativa até aquele lugar. Sigimor se casaria com ela e evitaria que Harold concretizasse seus planos macabros. Mas não teria de ficar amarrado a vida toda a uma mulher a quem não amava.

Enquanto esperava o término da discussão, Jolene deu uma examinada na pequena igreja de pedra diante da qual estavam parados. Rezou para não perder a coragem de apresentar o plano a Sigimor. Se demorasse muito, seria capaz de vacilar. Receava não encontrar energia suficiente para salvar ambos de um casamento imposto pelas circunstâncias.

Sigimor percebia a aflição de Jolene, mas continuava tentando mostrar ao primo William as conveniências da proposta. De nada adiantava um padre na família se o camarada não podia satisfazer-lhe um pedido em caráter de urgência. Quando Liam lhe informara quem era o sacerdote, ficara feliz de poder tratar do caso com um parente. Estava ansioso para tornar Jolene sua esposa e levá-la para a cama, antes que ela se arrependesse. Em vez disso perdia um tempo enorme discutindo com um primo que se mostrava relutante em agir contra os regulamentos.

Milorde, há certas normas que devem ser seguidas — William Cameron afirmou e fitou Jolene de esguelha. — E ainda por cima, ela é inglesa.

Sigimor irritou-se pela maneira desagradável com que William olhava para Jolene.

Sei disso.

Há um tempo certo para se fazer correr os proclamas. Em seguida, os pais devem assinar a concordância…

Os dela estão mortos. O parente mais próximo é o que nos persegue com intenções assassinas. Se o bandido puser suas mãos imundas em lady Jolene, ele a levará de volta para a Inglaterra, onde se casarão. E, com certeza, o sujeito não terá de esperar por nenhuma formalidade.

A Inglaterra está cheia de sacerdotes corruptos! — William irritou-se. — E não queira afirmar que por trás das suas intenções, milorde, há apenas um gesto nobre. Milorde deseja lady Jolene e por isso está tão ansioso. Ora, não custa esperar algumas semanas.

Ah, que vontade de estrangular um padre!

Sigimor! — Liam repreendeu-o, sorriu para William e continuou em gaélico: — Primo, pode até ser que os motivos de Sigimor não sejam apenas magnânimos, mas isso

não muda a realidade do que ele lhe contou. Lorde Harold pretende casar-se com lady Jolene para assegurar o direito sobre o que se apoderou, depois de ter matado lorde Peter. Quando se livrar do menino, fará o mesmo com ela. Um marido para lady Jolene será um empecilho para os planos maquiavélicos de lorde Harold. Dessa maneira, mesmo se ele a seqüestrar, teremos como salvá-la. William, duas vidas não valem uma pequena descontração na lei?

As leis foram feitas para…

Para evitar que um patife ganancioso ponha as mãos em uma herdeira e a humilhe. Sigimor nada ganhará com esse casamento. O dote de lady Jolene não sairá da Inglaterra. Um contrato não dará a ela a proteção necessária. O casamento precisa da bênção de um padre. Agora, se o primo ainda acha que deve obedecer às regras, leia os proclamas três vezes e espere apenas alguns minutos entre as leituras. Podemos elaborar um documento, pois temos testemunhas.

William hesitou, antes de anuir.

Está bem. Esperarei sete minutos entre cada citação. Liam, ajude-me a redigir um contrato matrimonial. — William virou-se em direção ao interior da igreja.

Sigimor — Jolene chamou-o, depois de que os outros saíram —-, estive pensando e tive uma idéia…

Era o que eu temia — ele murmurou. Jolene fingiu não ter ouvido.

Não discuto nenhum dos seus pontos de vista. Contudo o enlace não precisa ser levado às últimas conseqüências. Se não for consumado… — Jolene deu um pequeno grito ao ser arrastada em direção ao pomar de macieiras que ficava atrás da igreja. — Para onde vamos?

A algum lugar onde eu possa dizer algumas coisas sem ser ouvido.

Jolene não protestou. De qualquer forma, ela também não queria que estranhos escutassem uma conversa íntima sobre a realização carnal do casamento deles. Jolene acreditava na sensatez de seu raciocínio, mas assim que foi abraçada por Sigimor, duvidou que obteria uma concordância. O mais curioso era que ela nem mesmo se aborrecia com a possibilidade da recusa.

Acha mesmo que eu iria concordar em não me deitar com minha mulher? Apertada de encontro ao peito largo, Jolene achou difícil manter alguma coerência.

Mas não desistiu.

Um casamento plenamente consumado é para sempre. Nós nos encontramos pela primeira vez há apenas alguns dias e passamos a maior parte desse tempo em cima do lombo de um cavalo, fugindo de Harold. Talvez nem sejamos adequados um para o outro. Mas se… bem, se dormirmos na mesma cama, não haverá volta.

A afirmação não era bem exata, porém Jolene preferia abandonar um casamento pró-forma a um marido de verdade.

Eu sei. E por que não haveríamos de combinar um com o outro?

Nós nem nos conhecemos direito. Daqui a um mês o senhor poderá arrepender- se por causa dessa irreflexão. Por que não esperar um pouco até ter certeza de que é isso mesmo o que deseja?

Eu lhe mostro por quê.

Sigimor levantou-a do chão. Jolene segurou-se no pescoço dele para manter o equilíbrio e nem teve tempo de protestar. Sigimor beijou-a, e ela perdeu a vontade de rebelar-se. Quando o beijo terminou, Jolene continuou agarrada nele e inclinou a cabeça de lado para deixar o pescoço exposto aos carinhos úmidos que a deixavam trêmula.

Mesmo recusando-se a casar, Jolene, não poderá negar por muito mais tempo o que sente. — Sigimor contornou o formato da orelha com a ponta da língua e sentiu Jolene estremecer. — Acho que sabe disso.

Ela admirou-se por não se envergonhar das próprias sensações. As regras eram

claras. Uma dama deveria preservar com unhas e dentes a virtude até o casamento. E jamais permitir liberdades a nenhum escocês grande e forte. Mesmo assim, Jolene não podia contestar a veracidade das palavras de Sigimor. Casada ou não, iria para a cama com ele. Não teria força de vontade suficiente para dar as costas às emoções ardentes provocadas por Sigimor.

Se estivessem casados, pelo menos não cometeria nenhum pecado, Jolene ponderou enquanto era deixada em pé no solo, com delicadeza. E também a hipótese de voltar para a Inglaterra e pedir uma anulação não seria afastada.

Por que não permitir-se um pouco de prazer pelo tempo que fosse possível?, questionou a si mesma ao mirar os olhos verdes escurecidos pelo desejo. Se a paixão de Sigimor fosse passageira e se nada mais houvesse para mantê-los unidos, ela ainda teria uma maneira de escapar. Poderia voltar para a vida antiga e contaria com belas memórias para aquecer-lhe as noites frias e solitárias.

Está bem — concordou em um fio de voz.

Sigimor pegou-a pela mão e, a passos largos, levou-a de volta à igreja.

Palavras doces e promessas gentis, mesmo em número reduzido, teriam sido muito bem-vindas!, Jolene cismou, enquanto corria para acompanhar Sigimor. Ele não tinha a menor sutileza para cortejar uma mulher. Em compensação, seus beijos a faziam perder o juízo.

Sigimor não chegou a bater na porta. Esta foi aberta pelo padre, que os convidou a entrar. Em alguns segundos atravessaram a pequena nave central e ajoelharam-se diante do altar. Jolene percebeu a presença dos outros Cameron ao lado deles. Lamentou que nenhum membro de sua família, exceto Reynard, estivesse presente. O menino era muito pequeno para entender a importância da ocasião. Enterrou o sentimento de culpa que a acometeu ao fazer o juramento sagrado. Ainda não desistira de anular o matrimônio, assim que Harold fosse derrotado. Evitou pensar que estivesse cometendo perjúrio. Afinal, só fugiria em último caso. Se não houvesse nenhuma esperança de felicidade no casamento.

Depois dos votos consagrados e das bênçãos oferecidas, Sigimor levou-a até uma pequena mesa encostada na parede.

O contrato matrimonial — ele apontou a parte inferior da folha. — Pode assinar

aqui.

Jolene anuiu e começou a ler.

O que está fazendo? — Sigimor perguntou.

Lendo o documento. — Jolene admirou-se da simplicidade do manuscrito.

Está em latim…

Eu percebi.

Além do espanto de comprovar que Jolene era uma mulher culta, Sigimor sentiu-se

ofendido pelo cuidado com que ela lia as frases.

Acha que preparei alguma armadilha?

Claro que não. Mas Peter era taxativo. É preciso ler atentamente qualquer documento antes de assiná-lo. Ele dizia que um pequeno erro ou o uso incorreto de algum termo poderia alterar o significado de uma declaração escrita. Independentemente da honestidade ou da confiabilidade de quem elaborasse a redação. Mesmo que não houvesse má-fé, outra pessoa poderia aproveitar-se do erro em benefício próprio.

Sigimor acalmou o orgulho e concordou com os ensinamentos de Peter. Liam e William também murmuraram seu apoio aos sábios conselhos de lorde Peter Gerard. Os Cameron a perdoaram, pois Jolene não conhecia a precisão dos escritos de Liam. Quando ela começou a assinar, Sigimor espiou por cima do ombro da noiva.

Jolene Ardelis Magdalen Isabeau de Lacy Gerard Cameron? Minha nossa, o nome é maior que a dona!

Acho que mamãe quis homenagear a família inteira, mas foi detida a tempo. O

coitado de Peter também teve essa sorte. — Jolene sorriu para Reynard. — Mas ele evitou que a esposa sucumbisse ao mesmo impulso. Reynard tem apenas o nome dos dois avôs. Reynard Henry Gerard. Alguns parentes desaprovaram a atitude de Peter. Disseram que um nome curto era… plebeu. Meu irmão sempre respondia que poucos diriam isso quando Reynard atingisse a maioridade. Será Reynard Henry Gerard, conde de Drumwich e barão de Kingsley. Se ele quiser, claro.

Sigimor fitou o menino, que pulava de um colo para outro.

Um peso demasiado para os ombros de uma criança tão pequena.

E ainda ficará maior por causa dos títulos da família de sua mãe. Se não nascer mais nenhum menino, as denominações honoríficas ficarão para Reynard.

Se o menino morrer, Harold terá direito a eles?

Não. Harold não tem nenhum vínculo familiar com a mãe de Reynard. Nem mesmo sei se ele tem conhecimento de todos os direitos de Reynard. Isso poderia mudar- lhe os planos. Como tutor legal, Harold teria acesso a todas as riquezas que estivessem dentro das propriedades. Mas ele deve saber a importância de Reynard para a família da mãe, pois também impediu minha comunicação com eles, assim como fez com os meus parentes.

O tutor de Reynard deverá ser cuidadosamente escolhido.

É verdade. No entanto não terei voz ativa no assunto.

Bem, não adianta preocupar-se com isso agora.

Jolene anuiu e Sigimor afastou-se com o sacerdote. Ela custou a acreditar que estivesse casada. Não havia anéis e nem haveria celebração. Em poucos minutos estariam de volta às selas e galopariam até o anoitecer. A noite de núpcias também não lhe garantia uma cama decente.

O irmão de Sigimor e os primos rodearam-na. Deram boas-vindas ao novo membro da família e permitiram-se beijos calorosos. A alegria deles abafou um pouco a perturbação e a ponta de tristeza que não a abandonavam. Liam tomou-a nos braços e beijou-a na boca. Imediatamente um braço forte arrastou-a para longe.

Mantenha os lábios longe de minha esposa! — Sigimor avisou o primo e levou Jolene para fora da igreja.

Eu apenas lhe desejava felicidades. — Liam deu risada. — Beijar a noiva é um costume antigo.

Sigimor fez um comentário grosseiro a respeito do que Liam deveria fazer com aquele costume. Jolene corou, apesar da vontade de rir. Seu marido era possessivo. Tal sentimento e mais o desejo que sentia por ela deram a Jolene um raio de esperança quanto ao futuro deles.

Sigimor acomodou Reynard na bolsa-canguru improvisada com uma manta e ajudou Jolene a sentar-se na sela. Segurou-lhe a mão e franziu a testa.

Uma noiva deveria ter um anel.

Não importa. Com Harold em nosso encalço, tais coisas perdem o significado.

Prometo-lhe um anel assim que chegarmos a Dubheidland.

Sigimor beijou-lhe o anular e caminhou até seu cavalo. Jolene sacudiu a cabeça.

Não poderia imaginar que Sigimor se preocupasse com um detalhe daqueles.

E todos pensavam que era difícil entender as mulheres!

Jolene instigou a montaria para alcançar Sigimor. Esperava ocupar a cabeça com a solução dos problemas que poderiam surgir. Assim não passaria os minutos na expectativa do que aconteceria na noite de núpcias.

Jolene embasbacou-se diante do marido e procurou não engolir a língua. No início do pôr-do-sol, haviam parado em uma estalagem. Sigimor, com muita presteza, providenciara um quarto, um banho e uma boa refeição. Encarregara Tait de ficar com Reynard durante a noite. Depois de tomar banho e comer, Jolene tirara a roupa, ficara de camisão e se deitara depressa. Naquele momento, Sigimor, completamente nu,

preparava-se para entrar debaixo do acolchoado.

Nervosa, não sabia para onde olhar. Sentia curiosidade, pois nunca vira um homem sem roupas. E Sigimor era imenso. Ah, como ela gostaria de imaginar o que deveria ser feito. Sentia-se ainda mais alarmada pelo tamanho da saliência na virilha do marido.

Sigimor era um homem muito bonito, Jolene concluiu, evitando mirar o que a amedrontava. Bastante alto, músculos rijos e físico bem-proporcionado. No peito, poucos pêlos vermelho-escuros. Uma linha fina deles começava no umbigo e terminava no denso ninho de caracóis em volta do…

Ah, as pernas eram longas, bem torneadas e pouco pilosas. Jolene voltou a fitar a junção entre elas e corou. Não ficara intimidada pelo tamanho quando Sigimor se pressionara contra ela durante os beijos. Imaginara que fosse por causa das roupas que os separavam e admirara-se de nunca ter notado nada parecido em nenhum homem.

Sigimor suspirou e sua rigidez aumentou ao sentir-se observado. A esposa era virgem. Por isso ele teria de agir sem pressa e com delicadeza. Deduziu que Jolene fora muito protegida e que talvez tivesse de explicar-lhe, teoricamente, tudo o que iria acontecer.

Droga! Teria de conseguir uma dose muito maior de paciência da que possuía. Bem, o valor do prêmio compensava o esforço. Com mais um suspiro, deitou-se ao lado de Jolene.

O que é isso? — Sigimor perguntou, soltando o fitilho do camisão.

Uma camisa que as mulheres usam por baixo do vestido. Com tanta experiência, nunca… — Jolene não terminou de falar, pois Sigimor tirou-lhe a peça pela cabeça.

Uma mulher não precisa usar nada para dormir com o marido. — Ele jogou a camisa no chão.

Então, por que algumas mulheres gastam dinheiro em camisolas enfeitadas com fitas e rendas?

Essa é uma coisa que nunca entendi. Talvez para dizer que pensaram nos maridos. Uma bobagem, porque depois eles têm de tirar tudo.

Jolene, atordoada pela nudez de ambos, nem pensou em rir. Recusava-se a encorajar a provocação de Sigimor.

Jolene — Ele beijou-lhe a boca com leveza —, eu não vou machucá-la. Bem, talvez só um pouquinho, mas isso faz parte da natureza. Não posso fazer nada a respeito. Mas é só da primeira vez, entendeu?

Nada. — Jolene sorriu diante do desalento do marido. — Sinto muito. Acho que fui criada dentro de uma redoma. Como nunca estive próxima de me casar, nenhuma mulher foi designada para me explicar o que acontece no leito matrimonial. Acredito que a melhor solução seja o senhor mesmo fazer isso. Seguirei suas instruções.

Não deixa de ser uma idéia.

Sigimor queria regalar-se com a visão daquele corpo esguio. Ansiava por conhecer o sabor da pele translúcida, dos lábios até os dedos dos pés. Na ida e na volta. Sonhara em fazer mil coisas, uma vez que conseguisse levá-la para a cama. Mas as fantasias teriam de esperar. Dessa vez precisaria curvar-se diante da inocência dela. Seria preciso estar consciente de seu recato e, ao mesmo tempo, despertar-lhe a paixão. Tinha esperança de que as chamas do desejo fossem tão intensas a ponto de tornar insignificante a perda da virgindade.

Sigimor beijou Jolene, que se colou nele. Sigimor agradeceu a Deus por ela ser tão receptiva a seus beijos. Devagar, começou a acariciar-lhe o corpo, beijando-a toda vez que a sentia ficar tensa por algum carinho mais ousado. Desejou encontrar uma maneira de deixá-la ainda mais ansiosa para prosseguir, pois não sabia por quanto tempo agüentaria a lentidão daquele jogo amoroso.

Jolene entrelaçou os dedos nos cabelos de Sigimor, enquanto era beijada nos seios. Ela se admirava pela suavidade das carícias de Sigimor, por ele ser tão grande e forte. Estremecia sob os dedos e os lábios do marido. Algumas partes do corpo palpitavam, ansiosas para serem tocadas. Sigimor passou a língua entre os seios e provocou os mamilos com a ponta dos dedos. Jolene gemeu, incrédula pela intensidade de suas emoções.

Sigimor, é certo eu sentir tanta ansiedade?

Ele estava no limite de seu controle. A textura suave da pele, o sabor dos lábios de Jolene e os gemidos de prazer eram muito excitantes. Não se sentia capaz de conversar, responder a perguntas, ainda mais depois de descobrir a extrema sensibilidade dos seios da esposa. Fitou os botões róseos que adornavam o busto alvo e se deleitou com a próxima etapa.

Muito certo. Eu também estou ansioso.

Jolene arregalou os olhos ao sentir o calor úmido da boca de Sigimor em seu busto. Arqueou o corpo, procurando… sem saber o quê. Agarrou-se em Sigimor quando sentiu a língua dele rodear-lhe as pontas túrgidas e sentiu tontura com a sucção firme que o marido nelas empreendia. Sigimor murmurava palavras roucas de elogio e encorajamento. Jolene nem chegou a entendê-las, por causa da mente nublada pela excitação. Contorceu-se pelo prazer que sentiu ao ser acariciada no ventre. Procurava corresponder às carícias, mas Sigimor conseguia esquivar-se dos toques quando ela tentava tirar as mãos de suas costas ou braços. O tremor do corpo de Sigimor aumentava o desejo de Jolene. Mas ela se retesou, assustada, ao sentir as mãos dele entre suas pernas.

Sigimor?

Ah, minha pequena esposa, eu farei com que sempre almeje ser acariciada por seu marido.

Sentir o calor úmido da feminilidade de Jolene quase ocasionou um desastre. Sigimor agarrou-se nos limites tênues de seu controle para não manchar os lençóis como um adolescente imberbe. Beijou-a, enquanto prosseguia com o manejo sensual. Agradeceu de novo a Deus por Jolene ser uma mulher muito ardente.

Com muita calma, ele ergueu o corpo e começou uma penetração lenta. Cerrou os dentes e lutou contra a urgência de possuir a esposa sem mais delongas. A maneira como Jolene o prendia com o corpo sinuoso era alucinante. Pressionou uma vez a virgindade com moderação e aguardou que o corpo de Jolene se ajustasse à nova conquista. Estava tão empenhado em conter-se que demorou alguns momentos para perceber que a natureza de Jolene era complacente. Apenas um gemido leve marcou o defloramento.

Já terminamos? — Jolene perguntou, um tanto frustrada em sua inocência. — Não senti nenhuma dor, apenas uma fisgada.

Sigimor não teve forças para rir.

Ainda não, Jolene. Pode considerar-se uma mulher de sorte. As portas da sua donzelice não tinham trancas muito firmes.

Sigimor começou a mover-se dentro dela e Jolene não teve mais condições de articular frases conexas. Segurou-se com força no marido e seguiu-lhe o ritmo. Todos os desejos pareciam concentrados em um único ponto. O de união entre os dois corpos. Desesperada, não imaginava como desvencilhar-se daquele emaranhado de emoções que a fazia padecer. De repente, o nó foi desfeito e Jolene mergulhou em ondas de prazer. Mal percebeu que Sigimor investiu mais algumas vezes, chamou-a pelo nome, enrijeceu-se, estremeceu e banhou-lhe o ventre com a essência cálida de seu ser.

Alguns minutos depois, ainda atordoada, ela nem se mexeu quando Sigimor se levantou. Ele voltou em seguida e limpou-lhe o baixo-ventre com um pano molhado. A seguir deitou-se e tomou-a nos braços. Jolene aconchegou-se e suspirou de prazer.

O final não foi a provação que eu esperava — ela murmurou, entorpecida pela vontade de dormir.

Sigimor sorriu e beijou-lhe o alto da cabeça. Estava muito feliz por haver-lhe proporcionado um prazer tão intenso na noite de núpcias. Bem, para Jolene não fora uma provação. Para ele, fora a tarefa mais árdua e exaustiva que já enfrentara. Mas também lhe proporcionara a maior satisfação de todos os desempenhos masculinos de sua vida. Sonolento, abraçou-a com ternura. Sua esposa não demoraria a descobrir que possuía um marido muito ardente.

Capítulo IX

Jolene acordou sozinha no quarto. Nem sinal de Sigimor. Por um instante, os acontecimentos da véspera pareceram-lhe um sonho. O corpo dolorido, porém, era uma prova de que se casara mesmo com Sigimor.

Seria bem melhor se houvesse despertado com os beijos do marido, e não em uma cama vazia. Levantou-se, usou o reservado precário e lavou-se. Não havia por que aborrecer-se. Harold estava na perseguição deles. Uma pequena perda de tempo com sutilezas poderia ser fatal. Fora uma grande bondade Sigimor ter permitido que ela dormisse até o dia clarear. Conhecia muito bem a urgência dele em levar todos sãos e salvos para dentro das muralhas de Dubheidland.

Levantou a camisa e torceu o nariz por causa do cheiro de cavalo. Lavou a peça na bacia que usara para as abluções e estendeu-a em uma cadeira perto do fogo. Procurava uma camisa limpa na sacola, quando escutou barulho na tranca da porta. Voltou correndo para a cama e puxou o lençol até o pescoço. Sigimor entrou, trazendo uma bandeja com o desjejum.

Ah, esse é o maior prazer para um marido. — Deixou a refeição em cima de um banco rústico e fechou a porta. — Encontrar a esposa nua e esperando na cama por ele.

Jolene notou o brilho costumeiro no olhar do marido e abafou a raiva que se insinuava em sua mente. A verdade daquelas palavras não fora suficiente para esconder uma provocação.

Ora, mas esta esposa nua está mais interessada no pão e no queijo que esperam por ela na bandeja.

Ah, sim. É bom mesmo comer alguma coisa. Espere um pouco. — Sigimor pegou a bandeja e deixou-a no colo de Jolene. — Vai precisar de toda a sua energia.

Teria de aprender a enfrentá-lo no próprio jogo, Jolene ponderou, mastigando um pedaço de pão. E quase engasgou ao ver Sigimor tirar as roupas.

O que está fazendo?

Também quero me despir.

Jolene tomou um gole de sidra para fazer descer o miolo colado na garganta.

Recato não faz parte do seu vocabulário, não é?

Não com muita freqüência. Uso-o apenas para não me pavonear diante do mundo e da sua santa mãe. Por acaso não saí vestido do quarto?

Muita consideração de sua parte. As mulheres da aldeia devem ter ficado desapontadas.

Jolene sorriu ao ver a face corada do marido. A falta de decoro de Sigimor não se devia à vaidade, embora tivesse o direito de orgulhar-se de sua aparência. Era um belo homem. Ele acabou de tirar as roupas, e Jolene não achou a masculinidade tão chocante como na noite anterior. Pudera, também não se encontrava em ação. O repouso, porém, durou apenas alguns instantes… Jolene arregalou os olhos, intrigada com as dimensões.

Sigimor conteve uma gargalhada e sentiu-se enrijecer ainda mais sob o escrutínio

dela.

Segure a bandeja com firmeza.

Apesar de fascinada, Jolene obedeceu. Sigimor voltou a ocupar seu lugar na cama.

O lençol que ela segurava debaixo dos braços foi arrancado quando Sigimor ajeitou as cobertas sobre a parte inferior do corpo. Jolene teve certeza de que ele agira de propósito. Usou os cabelos longos para disfarçar a nudez e, com o cenho franzido, fitou a fisionomia sorridente do marido. Não podia culpá-lo pela falta de pudor, mas ela também não podia abandonar com facilidade os ensinamentos de uma vida inteira. Muitas pessoas teriam ficado chocadas se soubessem que ela e Sigimor estavam desnudos na cama, mesmo sendo casados. Concluiu que fora uma sorte não ter sido instruída por

nenhuma matrona antes do casamento.

Quando partiremos? — Jolene perguntou.

Depois do meio-dia. Mandei os garotos procurarem o esconderijo de Harold. Garotos não era um termo muito adequado para os Cameron, todos altos e fortes.

Enfim…

Onde está Reynard?

Com David e as crianças do estalajadeiro. David não é tão bom rastreador como os outros, mas é um guarda excelente. Dizem que sente o cheiro de perigo no ar.

Sigimor deitou-se de lado, sobre um cotovelo, empurrou Jolene um pouco para a frente e passou-lhe a ponta do indicador na espinha. Ela arrepiou-se. Sigimor sentou-se por trás de Jolene e jogou os cabelos dela para a frente. Beijou-lhe a nuca, acariciou-lhe as laterais do dorso e apertou-lhe a cintura. Beijou-a nas costas e nos ombros. Deliciou-se com a pele sedosa, passou as mãos por baixo dos cabelos negros e apertou-lhe os seios com suavidade. Brincou com eles até sentir os mamilos túrgidos.

Jolene gemeu um protesto quando Sigimor a soltou. Piscou, surpresa, ao ver o marido na sua frente. Ele retirou depressa a bandeja de cima da cama e a colocou na mesa.

Já é de manhã — Jolene protestou ao ser deitada de costas.

E eu estava com imensa vontade de vê-la sob a luz do sol. — Sigimor puxou o lençol para baixo e agachou-se sobre a esposa.

Sentir-se observada transformou a vergonha no calor do desejo. Jolene sempre aceitara o fato de ser magra, pequena e deficiente nas curvas que os homens tanto apreciavam. Mesmo assim, a maneira como Sigimor olhava para ela fazia com que se sentisse bela, desejada e sensual. Sufocou um gemido de prazer quando Sigimor beijou- lhe o estômago. Enquanto ele beijava cada centímetro de pele exposta, Jolene acariciava- lhe os músculos rijos das costas e dos ombros. Gritou ao sentir os seios dentro da boca do marido, que os sugava gulosamente. Arranhou-lhe o dorso dourado, da nuca até a cintura. Uma noite nos braços de Sigimor a transformara em uma libertina despudorada.

Sigimor deslizou as mãos entre as pernas de Jolene, e ela em vez de ficar tensa, deliciou-se com as carícias eróticas. As sensações que Sigimor lhe despertava eram violentas, o que a deixava um pouco assustada. Apesar de casados, ela o conhecia havia poucos dias. Mas em segundos Jolene esqueceu os próprios escrúpulos. Sigimor tornou- se mais uma vez responsável pela emergência da mulher selvagem que jazia adormecida havia tantos anos. Arqueada, Jolene contorcia o corpo, implorando em silêncio a realização que a libertaria daquela angústia. Contudo não conseguiu verbalizar o que mais desejava no momento. Unir-se de novo a Sigimor, sentir toda a pujança dentro de si e esquecer do mundo.

Milady — Sigimor mordiscava-lhe os lábios —, eu não poderia imaginar uma esposa tão ardente e tentadora.

Sendo assim, senhor meu marido, por que resiste à tentação? — Jolene perguntou com voz rouca. — Acho que está brincando comigo.

A antecipação torna o prazer mais intenso.

Não tenho certeza de que poderei sobreviver a essa espera.

Nem eu.

Jolene, de pálpebras fechadas, deu um grito de prazer e de surpresa quando Sigimor a penetrou de repente. Ele fechou os olhos, encostou a testa na da esposa e ficou imóvel. Jolene descerrou as pálpebras e julgou que ele também pretendia apenas saborear o momento da união. Apertou-lhe o corpo com a força que possuía nos braços e pernas delgados. Sigimor abriu os olhos. A paixão que escurecia o verde das íris brilhantes fez o desejo de Jolene subir às alturas.

Minha Jolene, fomos feitos um para o outro — Sigimor começou a movimentar- se dentro dela e beijou-a.

Ele movia a língua no mesmo ritmo do corpo. Jolene pensou que enlouqueceria de desejo. Dobrada para trás, colou a pélvis em Sigimor e agarrou-se nas costas do marido. Era um convite mudo para ele prosseguir mais depressa e mais fundo. A tensão de Jolene chegava ao limite do suportável.

Sigimor sentiu o início das convulsões do corpo delgado da esposa. Estimulado pela voz enrouquecida que gritava seu nome, pelos calcanhares delicados que batiam em suas coxas musculosas e pelo calor úmido que o mantinha preso, em instantes ele a seguiu no abismo do prazer. Sigimor largou-se de encontro a Jolene, mas ficou de lado para não fazer muito peso sobre ela.

A paixão com que Jolene se entregava era surpreendente. Apesar de tanto que a desejara e da correspondência a seus beijos, Sigimor nunca imaginara um prazer tão impetuoso ou uma satisfação tão grande. Também não poderia supor que ela correspondesse com uma paixão feroz semelhante à sua.

Acordara naquela manhã, refletindo sobre o que havia sentido na noite anterior. Atribuíra a intensidade das sensações à virgindade da esposa, à certeza de que era o primeiro homem em sua vida e aos dias em que sonhara com aquele momento. Entrementes seu ponto de vista fora modificado. Tornava-se mais forte a idéia de que eles formavam um casal perfeito. Era possível que Jolene não reconhecesse a importância do que cintilava entre eles. Precisava descobrir uma maneira de fazê-la entender a raridade do que compartilhavam e o significado daquilo.

Sigimor levantou-se da cama e trouxe um pedaço de pano molhado.

Exausta, Jolene nem se mexeu quando o marido limpou-lhe o interior das coxas e jogou-se em cima dele no momento em que Sigimor voltou a se deitar. Não lhe agradava demorar-se mais do que o marido para se recuperar. Podia atribuir como causas o tamanho e a energia em dobro, além do hábito. Apesar disso, Jolene receava que Sigimor não sentisse por ela uma paixão profunda. Quando ele a beijava ou encostava nela, a resposta era total. Alma, corpo e mente gritavam em conjunto. Embora sentisse um prazer enorme com Sigimor, odiava pensar que apenas uma parte dele correspondia.

Não posso acreditar no que fizemos à luz do dia. Sigimor sorriu.

À luz do dia, no escuro da noite, sob a lua cheia, no chão, na mesa do grande hall, em uma cadeira… ufa! — Sigimor ergueu-lhe a mão e beijou os nós dos dedos. — Está se preocupando à toa. Agradeço a Deus por ter recebido uma esposa que não soubesse nada a respeito do relacionamento íntimo de um casal. Assim não teve de escutar conselhos de nenhuma matrona azeda. A mulher lhe encheria a cabeça com absurdos e tornaria nosso leito matrimonial tão gelado quanto o dela.

Será que elas fazem isso? Que injustiça…

Infelizmente é o que acontece.

Como sabe o que elas dizem?

Por intermédio de Usa, minha irmã. Ela escutou os ensinamentos quando uma de suas amigas estava para se casar. A mulher fez questão que Ilsa estivesse presente na preleção. E afirmou que minha irmã jamais deveria dar ouvidos a seus irmãos. Disse que éramos porcos libidinosos e que só lhe diríamos mentiras, no caso de sermos indagados. Ilsa não gostou do juízo que a mulher fazia de nós nem acreditou na nossa falta de sinceridade.

Jolene anuiu, pensativa. Era difícil imaginar a infância e a adolescência de uma jovem criada em meio, conforme suspeitava, a uma horda masculina. Apesar do pouco tempo que conhecia os Cameron, entendia como a garota devia ter se ofendido. Certamente não diriam inverdades para a irmã.

Ilsa me procurou e perguntou-me o que acontecia entre um homem e uma mulher.

Jolene ergueu a cabeça do peito de Sigimor.

Ela teve coragem de fazer isso?

E por que não? Eu criei Ilsa desde pequena. Minha irmã tinha nove anos ou menos quando a mãe dela morreu. Meu pai tornou a casar-se, mas a mulher não se interessava muito pelos filhos dos outros. Para dizer a verdade, meu pai não teve muita sorte com as esposas. Enterrou quatro. Elas foram boas para gerar filhos, mas não para cuidar deles.

Que pena…

Apesar disso, as poucas recordações que tenho de minha mãe não são das piores. Ela se preocupava com o que meu pai fazia ou deixava de fazer. Nem sobrava muito tempo para mim.

Jolene pensou nas mulheres que conhecia e como os filhos eram tratados.

Há mulheres que deixam tudo por conta das babás. Agora diga-me, quais foram os conselhos que tanto perturbaram sua irmã?

Sigimor acariciou-lhe as costas e alegrou-se pela maneira como seu desejo florescia novamente.

A mulher foi direto ao assunto. Nada mais do que isso. Por haver sido criada com tantos irmãos e primos, Ilsa não foi superprotegida. Por isso se aborreceu com o que a mulher disse.

Jolene segurou o rosto do marido e fitou-o com seriedade.

Começo a pensar que existe uma certa relutância de sua parte em terminar essa história.

Bem, não tenho muita certeza se eu deveria falar. Receio que acredite nas normas expostas pela matrona.

Tarde demais para isso, meu senhor. Assim mesmo, estou curiosa. Pode começar.

Não ficar sem roupas.

Pelo decoro arraigado em sua mente, Jolene achou que obedeceria a essa norma. Mas depois de deliciar-se com o contato pele a pele, certamente quebraria o regulamento.

Não daria certo. Por mais que eu me envergonhe, prefiro ficar nua. A próxima?

Não tocar em nada abaixo ou acima da cintura.

Sigimor acariciou-lhe as nádegas e apertou-as. Adorou sentir a maciez em suas mãos e mais ainda a maneira como Jolene mexia os quadris ao ser acariciada.

O ambiente tem de ser muito escuro e é preciso ficar embaixo das cobertas. Será melhor a esposa fechar os olhos. Assim não verá o corpo do marido. Alguns beijos são permitidos, mas ela deverá manter a boca fechada. É absolutamente proibido o beijo de língua.

Pelo amor de Deus! — Jolene nem queria pensar no tanto que teria perdido se tentasse seguir aqueles conselhos. — O que uma esposa pode e deve fazer?

Suportar.

Era mesmo inacreditável. Se aqueles eram os avisos que se davam às noivas, não era para admirar que tantos casamentos se resumissem a alianças de patrimônio, riqueza e poder. Sentiu-se uma tola por querer mais do que paixão de Sigimor. Pelo menos era um sentimento comum aos dois.

Mas também não precisava ser só isso, Jolene insistiu com o coração.

Qual o pecado de desejar uma união venturosa? Ou esperar que o marido pensasse da mesma maneira? Jolene tinha medo de alimentar expectativas grandes demais.

O que sentia por Sigimor poderia ser facilmente explicado. Ela fora criada com muitas restrições. O marido rompera todas as barreiras e a libertara. Ele a deixava alucinada pelo desejo e mostrava-se interessado em satisfazê-la.

Jolene sentiu piedade das mulheres que pautavam a vida por essas regras. Ainda que a devoção e o pudor delas fossem preservados aos olhos dos outros, perdiam muito

mais do que recebiam.

As mulheres mais velhas, que se pressupõem mais experientes, deveriam explicar às mais jovens como manter a paixão e o respeito do marido e como alcançar o amor dele. Era o que ela pretendia fazer quando fosse matrona.

Será que minha esposa estaria inclinada a suportar mais um pouquinho? — Sigimor beijou-lhe o pescoço.

Jolene gemeu de prazer quando o marido lhe mordiscou a orelha.

Se eu puder… — Jolene caprichou na imitação de um mártir.

E o juramento de me obedecer?

Eu murmurei aquele trecho. As palavras tornaram-se ininteligíveis.

Sigimor não chegou a apresentar outro argumento. Batidas na porta antecederam o chamado de David. A reação de Jolene foi instantânea. Pulou da cama, agarrou seus pertences e correu para trás do biombo. Sigimor enfiou o calção e gritou para David entrar.

Harold vem atrás de nós — David anunciou, dentro do quarto. — Liam, Tait e Marcus acabaram de chegar com a notícia.

Sigimor praguejou e começou a vestir-se.

A que distância está o homem?

Liam está selando os cavalos, e os outros estão arrumando as coisas. — A resposta foi significativa.

Pode ir — Sigimor ordenou. — Peguem o menino e saiam imediatamente. Direto para Scarglas. Jolene e eu os encontraremos lá. O que está esperando?

David desistiu de responder, fechou a boca e correu para fora do quarto. Jolene saiu de trás do anteparo, amarrando a camisa.

Sigimor…

Não discuta, por favor. Por mais que nos apressemos, vamos demorar mais alguns minutos para partir. Liam voltou e começou com urgência os preparativos para a partida. Isso quer dizer que Harold está muito perto. Se eles saírem agora, poderão deixar a aldeia sem serem notados. Não há tempo para descobrir a que distância de nós Harold se encontra ou por que Liam está tão aflito.

Sigimor ajudou Jolene a vestir-se, antes de continuar:

Desconfio que a pressa de Liam se deve ao fato de Harold estar com a tropa completa. Se tivermos sorte, também poderemos passar despercebidos. Caso contrário, poderemos pelo menos distrair a atenção de Harold. Ele cansará a si mesmo e aos cavalos à nossa procura. Enquanto isso, Reynard será levado para Scarglas. Harold não tentará enfrentar os MacFingal, meus primos.

Tem certeza, Sigimor? Harold já provou ser mais rápido e esperto do que eu poderia imaginar que fosse. Ah, se pudéssemos despistá-lo…

Nós conseguiremos. — Sigimor trançou os cabelos da esposa, enquanto ela amarrava o vestido. — Pode confiar nos MacFingal. Não tenho tempo de lhe contar uma história, mas meus primos aprenderam bem como enfrentar um inimigo. Ninguém é mais astucioso de que eles. São capazes de tirar um corpo de um caixão que está sendo levado para a sepultura por parentes.

Hum, essas recomendações não me deixam ansiosa para conhecê-los. Sigimor apanhou o que era deles e saiu do quarto, levando a esposa pela mão.

Eles podem ser meio excêntricos, mas são ótimas pessoas — respondeu.

A mulher do estalajadeiro esperava-os ao pé da escada. Deu a Jolene um odre com água e um pequeno bornal com mantimentos.

Seus cavalos estão prontos na porta da cozinha.

Se o homem perguntar por nós…

A mulher cruzou os braços sobre o peito largo.

Imagine se vou dizer a algum inglês sem-vergonha como achar cavalheiros tão

distintos e valentes. Podem ir em paz. Aquele rapaz bonitão já pagou as despesas. Vão logo! — A mulher agitou o avental e enxotou-os até a porta dos fundos.

Jolene teve de correr para acompanhar o marido e fez o possível para não tropeçar. Os cavalos estavam à espera deles. Enquanto Jolene montava, Sigimor amarrava os pertences nas selas. Jolene preparou-se para enfrentar a dura corrida que teriam pela frente. Era uma boa amazona e confiava que pudesse manter o mesmo ritmo de Sigimor. Esperava que a viagem longa não fosse motivo para atrasá-los.

Sigimor montou e eles saíram da aldeia por um caminho tortuoso e deserto. Sigimor olhava para os lados, procurando sinais de Harold e de seus homens. Quando a estrada tornou-se a única alternativa para deixar o vilarejo, ele deteve o cavalo para olhar a distância.

Pelas imprecações ditas, Jolene entendeu que o marido agira com inteligência ao mandar os outros na frente. Aproximou-se de Sigimor e quase repetiu o que ele dissera.

Harold e seus soldados não estavam longe. Seria impossível confundi-lo, mesmo sem os doze homens que o acompanhavam. Harold não deixava dúvida de que era um inglês, pela maneira de agir e de trajar-se. Depois do pequeno período de convivência com os Cameron, Jolene entendia as diferenças fundamentais entre os dois povos. Se não fosse pela proteção da tropa armada, Harold seria atacado, roubado e morto. Com toda certeza.

Não temos escolha, Jolene. Iremos a passo lento, como se fôssemos viajantes comuns ou aldeões a caminho do mercado.

Jolene não confiou no plano. Ela poderia passar incógnita se abaixasse o capuz e enrolasse o corpo com a capa. Mas um homem ruivo de um metro e noventa chamaria a atenção de qualquer maneira. Contudo Sigimor não era tolo e devia saber que as chances deles eram mínimas. Jolene seguiu-o sem nada retrucar.

Se a perseguição tiver início, Jolene, não tire os olhos de mim. Não tente virar a cabeça para ver a que distância eles se encontram. A hesitação, por menor que seja, poderá nos retardar.

Acha que poderemos deixá-los para trás?

Claro. Conheço estas terras e eles, não. Se Harold nos perder de vista, terá de diminuir o passo para se orientar. Sei de alguns lugares que poderão servir de esconderijo, se for necessário. Será melhor ainda se ele não desconfiar que estaremos nos dirigindo para Scarglas.

Jolene não estava tão confiante. Harold vinha no encalço deles com uma tenacidade notável. Com certeza, descobrira onde Sigimor vivia e onde localizar os parentes que poderiam dar-lhe cobertura. Rezou para que os MacFingal fossem perigosos e sagazes como Sigimor os descrevera.

Trotaram por alguns minutos e não foram perturbados. Jolene chegou a pensar que a sorte lhes sorria, quando um grito soou atrás deles. Harold chamava-a a altos brados e fazia ameaças virulentas a Sigimor. Jolene estava convicta de que Harold os reconhecera por causa de Sigimor. Ela, embrulhada na capa modesta, não despertaria suspeitas. Fitou o marido e viu-o dirigir um gesto grosseiro para Harold. De certo modo, Jolene intuiu que Sigimor gostava de desafios.

Vamos, Jolene! — Sigimor esporeou o cavalo e saiu a galope.

Jolene, sem alternativa, imitou-o e procurou esquecer o bando que vinha atrás

deles.

Capítulo X

A chuva intensa não dava trégua. Jolene, encharcada até os ossos e com muito frio, arrepiou-se por inteiro. Pensou nos camponeses, que se alegravam por causa das sementes recém-plantadas e que não viam água havia mais de uma semana. Outro benefício naquele tempo miserável era saber que Harold e os outros também sofriam por causa disso.

Sigimor continuava impassível em cima da sela. O único indício de que o tempo também o incomodava era ter se enrolado na capa grossa de lã xadrez. Jolene aborreceu-se, mas teria de lhe dizer que estava muito cansada para prosseguir. Precisava aquecer-se e secar as roupas, antes de continuar. As mãos congeladas não lhe permitiam usar as rédeas com destreza.

A velocidade com que galopavam havia aumentado muito a distância entre eles e Harold. Mas este nunca desistia, quando se tratava de um projeto maligno. O fato de Harold insistir na caçada humana, mesmo com aquele tempo horrível, era assustador. Por um lado, dava a medida de sua tenacidade. Por outro, de seu desespero. Harold devia supor que, se Sigimor e ela alcançassem Dubheidland, estariam seguros. O que, para ele, seria um infortúnio difícil de contornar.

Jolene não via a hora de chegar a Scarglas, um refúgio onde poderia descansar e recuperar-se da gripe que certamente contrairia depois desse dia infeliz. Pensou em Reynard e rezou para que nada houvesse acontecido com ele. Mesmo a salvo de Harold por enquanto, o menino poderia adoecer por causa da chuva. Como no momento nada podia fazer a respeito do sobrinho, tratou de esquecer seus temores. Confiou que os Cameron cuidariam muito bem de Reynard.

Espiou em volta através da espessa cortina de água que caía. Perdida em seus pensamentos, nem notara que Sigimor havia tomado um caminho pelas montanhas. Mesmo com a neblina, dois cavaleiros seriam visíveis em uma encosta árida. A despeito de suas dúvidas para onde se dirigiam, Jolene não fez perguntas. Não queria parecer crítica. Sigimor não merecia censuras, depois de tudo o que fizera por ela e por Reynard.

Ele fez sinal de parada e apeou do cavalo. Ao redor, apenas a colina rochosa. Ajudou-a a desmontar. Por causa das pernas trêmulas, Jolene teve de segurar-se no marido para não cair. Gostaria de aconchegar-se em seus braços, o que de nada adiantaria. Sigimor estava tão frio e ensopado quanto ela.

Agora teremos de andar a pé e levar os cavalos — Sigimor explicou.

Daqui para a frente, o caminho torna-se perigoso, não é verdade?

É uma trilha bastante irregular, mas por ela chegaremos a um bom local que nos proporcionará abrigo. — Sigimor beijou-lhe a testa e segurou as rédeas do próprio cavalo.

Pise com cuidado. O solo de pedras fica muito escorregadio com a chuva.

Ele tomou a dianteira pela trilha rochosa. Queria demonstrar fortaleza de espírito diante da esposa, mas amaldiçoou Harold e o tempo. Jolene não se queixara uma vez sequer, nem mesmo quando despencara a chuva torrencial. Via-se que ela estava a ponto de desmaiar de exaustão. Quando a beijara, sentira a fronte como um bloco de gelo. Sua esposa era bem mais forte do que parecia à primeira vista, mesmo no limite de suas forças. O estado de Jolene era preocupante. Ele era maior, mais musculoso e mais acostumado àquele tempo. E mesmo assim, perdia calor do corpo com rapidez. Finalmente chegaram a uma gruta cuja entrada era oculta por uma curva da encosta e um matagal. Dentro da caverna, uma escuridão impenetrável. Sigimor tirou do alforje uma vela e uma pederneira. Uma vez a chama acesa, trouxe-a para perto de Jolene.

Pálida e completamente molhada, ela tremia, batendo os dentes. Sigimor ficou alarmado. Conhecia os riscos de uma friagem tão grande. Jolene precisava ser aquecida, de roupas secas, sentar-se em frente de uma lareira e de comida quente. E não teria

nada disso até atingirem Scarglas.

Sigimor derramou um pouco da cera quente em um pequeno nicho na parede de pedra e ali colou a vela. Voltou até onde estava Jolene e tirou-lhe o traje molhado, sem dar atenção aos protestos apenas murmurados. Pegou uma camisa da sacola e esfregou o tecido na cútis enregelada até aquecê-la. Em seguida, vestiu-lhe roupas enxutas, embrulhou-a em duas mantas e a fez sentar-se perto da vela. O mais preocupante era a docilidade com que Jolene aceitava os cuidados, depois das leves reclamações iniciais.

Ele trouxe os cavalos para dentro da gruta e conduziu-os até a extremidade mais afastada. Não ousou livrar os animais das selas, pensando em uma fuga rápida. Trocou a própria vestimenta gotejante por outra em boas condições. Não quis acender uma fogueira. Harold poderia estar mais perto do que ele imaginava e seria alertado pela claridade ou pelo cheiro de fumaça. Procurou o pedaço de turfa que trouxera no saco de couro oleado e certificou-se de que não umedecera. Desenrolou seus cobertores, sentou- se ao lado de Jolene e cobriu a ambos com a lã quente. Quando abraçou a esposa, ela se agarrou nele, já sem tremer tanto.

Espero que Reynard esteja bem — Jolene falou com voz fraca.

Os garotos cuidarão bem dele. Sem Harold para afastá-los do caminho, com toda certeza foram direto para Scarglas. Agora Reynard deve estar bem agasalhado em uma cama macia.

Acha que Harold encontrará esta gruta? — Jolene, mais aquecida, experimentou a volta dos receios.

Acredito que não. Este lugar não é fácil de ser encontrado, mesmo durante o dia. Meu primo Ewan me mostrou a caverna no ano passado, depois que as nossas famílias reataram os laços de amizade. Nem sempre a paz impera por aqui, e ele indicou os bons esconderijos que poderiam nos tornar invisíveis para o inimigo.

Talvez devêssemos apagar a vela.

Não se preocupe. A luz é muito fraca. Além disso, daqui a pouco eu a deixarei no fundo, onde estão os cavalos.

E o que pretende fazer? Não vai para fora, vai? —

Jolene temia que ele arriscasse a vida e também que a deixasse sozinha.

É evidente que não. Quero ficar próximo à entrada para ver ou ouvir alguma coisa. Precisamos localizar o canalha.

Não creio que ele tenha chegado tão perto de nós. No momento em que a chuva começou, Harold deve ter procurado algum abrigo, nem que fosse só para ele. Harold sempre detestou se molhar.

Sujeitos homens como ele não gostam de sujar as mãos delicadas ou amassar as roupas finas. Preferem veneno ou um punhal nas costas de um homem. O ideal é quando pagam alguém para lhes executar as ordens. Harold quer nos impossibilitar de chegar a Dubheidland, pois sabe que dessa forma perderá o jogo. Ele também quer impedir que algum parente fique sabendo da morte de Peter e da fuga que se seguiu. Quanto mais ele demorar para agarrar os fugitivos, maior a chance da família sair no seu encalço. Ele precisa de lady Jolene e de lorde Reynard para se proteger dessa ameaça.

Harold terá também de voltar a Drumwich para tomar posse da herdade. Ele não confiaria em ninguém para fazer isso.

Eu sei. — Sigimor levantou-se e ajudou Jolene a ficar em pé. — Sente-se mais para trás. Assim que eu souber onde Harold está, poderemos acender uma fogueira.

Isso seria ótimo, apesar de que estou bem mais aquecida agora.

Pelo menos parou de bater os dentes.

Satisfeito com o sorriso da esposa, Sigimor prendeu a vela em uma saliência de pedra no fundo da gruta e certificou-se de que Jolene se encontrava enrolada nos cobertores. Por insistência dela, reservou um para si mesmo, jogou-o por cima dos ombros e foi até a entrada. Mais tranqüilo em relação a Jolene, voltou os pensamentos

para Harold. Se o bandido encontrasse o esconderijo, Jolene e ele ficariam em uma situação difícil.

Enquanto escutava atentamente por sinais de uma possível aproximação de Harold, Sigimor refletia em como Jolene e ele escapariam caso fossem encurralados. Teriam de rezar por muita sorte. Não poderiam montar e sair a galope. A trilha era bem estreita. Apesar de pequena, a boca da caverna permitiria a entrada de uma ou duas pessoas de cada vez. Mesmo assim, Sigimor não confiava em sua destreza para vencer doze ou mais homens, se atacassem aos pares. Ou se um o empurrasse para trás o suficiente para dar passagem a outros. Mesmo sendo um tanto orgulhoso quanto às suas habilidades de lutador, a superioridade numérica do inimigo era preocupante. Nem poderia mandar Jolene para Scarglas. Com um terrível senso de direção, sua esposa iria direto para os braços de lorde Harold. Como já acontecera uma vez.

Sigimor afastou a idéia de que a pausa na gruta talvez fosse um erro de cálculo que poderia se transformar em um desastre. Ele não tivera outra opção. A vida de Jolene enfrentara grave perigo. Sentira as mãos esguias muito mais geladas de que o esperado para a situação. Embora sem queixar-se, provavelmente ela nem mesmo poderia comandar as rédeas dos cavalos.

Um som longínquo de arreios deixou-o tenso. Olhou para trás e teve a impressão de que Jolene adormecera. Não importava. Ela acordava com rapidez e, mesmo sonolenta, seguiria as ordens sem problemas. Era melhor que descansasse um pouco. Sigimor voltou a atenção para a entrada e tirou a espada da bainha.

O barulho de homens que se aproximavam tornou-se mais forte e parou a poucos metros da caverna. Perto demais, Sigimor considerou e praguejou. Nem o barulho que faziam nem o ruído da chuva eram suficientes para abafar o resfolegar dos cavalos no fundo da caverna. Impossível arriscar-se a recuar para acalmá-los. Escutou um homem falar muito próximo dali. Na certa se escondia sob uma saliência de rocha. Sigimor prestou atenção. Urgia descobrir os planos de Harold e se ele localizara o esconderijo.

Milorde, precisamos encontrar um lugar para nos esconder — Martin falou, encolhido debaixo de uma pequena saliência de rocha ao lado de Harold.

Eu sei que eles vieram por aqui, Martin! — Harold perscrutou através do véu de água que caía do minúsculo telhado de pedra.

Com esta chuva, nós não os encontraríamos, mesmo que estivessem a poucos passos daqui. E ainda nem escureceu de todo. Daqui a pouco nada mais enxergaremos. Os homens estão exaustos e congelados. E os cavalos também.

São uns fracos, isso sim. E os dois escoceses? Devem estar acostumados, ou

não?

O fato de estarem habituados ao mau tempo não impede que fiquem cansados

nem os faz querer galopar por tanto tempo no meio desta tempestade. Há uma pequena cabana ao pé destas colinas, no final da trilha. Parece abandonada, mas será suficiente para nos abrigar. Poderíamos passar a noite lá.

Mas que sugestão mais idiota! E o que faremos pela manhã? Ficaremos chupando o dedo como um bando de débeis mentais? Nossa presa estará bem longe e não haverá nem sombra de rastro para ser seguido.

De qualquer modo, temos pouca coisa para nos orientarmos, a não ser dejetos ocasionais dos cavalos. E o que importa perder algumas pegadas? Sabemos para aonde estão indo e temos homens que nos levarão até lá.

E depois, fazer o quê? Cercar o castelo com um exército de doze homens? Ficaremos em clara desvantagem nas terras daquele gigante ruivo e bobalhão. E quanto ao outro lugar que os escoceses apontaram como provável refúgio de Cameron? Scarglas, me parece. Todos ouvimos o que eles contaram sobre os moradores de lá. Pelo que nos disseram, os MacFingal, além de serem parentes dos Cameron, ainda têm poderes sobrenaturais. Não teremos a menor chance de tirar de Scarglas o menino e

aquela excomungada.

Por acaso milorde acreditou naquelas baboseiras sobre bruxaria? — Martin escarneceu. — Boatos, nada mais. Os MacFingal podem muito bem ter espalhado tais histórias para manter estranhos afastados do castelo.

Não pretendo arriscar o meu pescoço só por causa da sua abalizada opinião. Por isso mesmo estamos correndo tanto. Maldição! Eu quase a agarrei daquela vez. Ela e o bastardo. Se eu tivesse capturado o grandalhão, o clã aceitaria, sem titubear, a troca do lorde pelo menino.

Milorde não vem dizendo que pretendia matá-lo?

Eu não afirmei, em nenhum momento, que o devolveria ao seu povo, uma vez que estivesse em poder do garoto, afirmei? Muito menos que o mandaria de volta vivo. Se eu seguir meus planos à risca, terei tudo o que desejo.

Jolene na minha cama, a criança nas minhas mãos e sir Sigimor Cameron de volta às masmorras de Drumwich. Pode acreditai-, Martin. A morte para esse canalha intrometido será bem lenta. Hum, talvez eu até possa usá-lo para submeter Jolene. Segundo aquele maldito padre, ela acredita que Cameron é seu salvador. Duvido que Jolene possa ignorar, durante muito tempo, os gritos de agonia do seu ídolo. A vadia orgulhosa se apressará em barganhar comigo.

Em vão Martin tentava limpar com a manga a água que escorria por seu rosto.

Por que milorde não a mata? Ela só lhe causará problemas. Pelo amor de Deus, sir Harold, nenhuma mulher vale isso. Teria sido melhor se a tivesse matado desde o começo, junto com os outros. A esta hora estaríamos muito tranqüilos em Drumwich, com o menino e o castelo em nossas mãos.

Cuidado, Martin — Harold advertiu-o em tom gélido. — Não tome tantas liberdades, mesmo levando em conta nossa parceria antiga. Apenas um menino me separa do título de conde de Drumwich.

Certo, milorde. — Martin sentia-se cansado e infeliz demais para temer a ira de Harold. — Se lhe agrada, mantenha sua prima viva para brincar com ela. Embora eu não consiga compreender por que faria isso.

No passado, Jolene me esnobou muitas vezes. Eu me casarei com ela para assegurar minha reivindicação de Drumwich e para engordar meus cofres. Depois, eu a farei pagar por cada não que tive de escutar. Acabarei com aquele orgulho. Usarei o corpo dela de todas as maneiras possíveis e imaginárias, até ela abaixar a cabeça de vergonha. Hum, também o deixarei experimentar alguma coisa, se quiser. Ela haverá de derramar lágrimas de sangue por cada indignidade que me causou com a sua fuga para estas terras malditas.

Martin lembrou-se do que Harold costumava fazer com as mulheres e chegou a apiedar-se de lady Jolene.

E se ela e Cameron já se tornaram amantes?

Ela pagará por isso também. — Harold olhou através da chuva grossa. — Sei que eles estão por perto. Juro que quase os posso ouvir respirar. Mas agora já está muito escuro. Onde estão os meus homens?

Desconfio de que alguns ainda se encontram ao pé da colina, tentando convencer os escoceses a guiá-los pela trilha. Considerando-se o tempo que os perdemos de vista, muitos podem ter achado um local para se esconder. — Martin perscrutou a penumbra. — Veja, eu os julguei mal. Eles estão lá atrás, tão colados nas rochas como nós.

Se o senhor não foi capaz de enxergar nossos homens que estavam tão perto, então é o momento de suspender as buscas. Duvido que teremos outra chance como essa. Será melhor eu começar a traçar a estratégia para tirar lady Jolene de trás das muralhas do castelo dos Cameron.

Por que não em Scarglas?

Se houver oportunidade, é evidente que o farei. Mas duvido que dê certo. Os escoceses disseram que os MacFingal têm enfrentado inimigos há muitos anos. Nunca foram derrotados nem tiveram suas muralhas invadidas. Já não afirmam o mesmo de… de… daquela coisa que os malditos cabeças-vermelhas chamam de sua fortaleza. Preciso resolver logo esse assunto e voltar para Drumwich o mais depressa possível. Antes que os meus parentes fiquem sabendo dos meus planos. Eles podem até criar coragem para sair atrás de Jolene e Reynard.

Ficaremos à espreita dos Cameron em Scarglas?

Sim. Eles passarão por lá com certeza. Vão querer resguardai— Reynard do temporal. Ficaremos por perto e tentaremos pegá-los na saída. Agora vamos abandonar esta rocha maldita.

Sigimor prestou atenção aos ruídos da descida vagarosa dos homens. Tivera de sufocar a vontade de sair da caverna e jogar os dois no despenhadeiro. Certamente daria conta deles e de mais alguns. Porém nada lhe garantia que o restante fugiria diante da morte do líder. Além disso, se fosse ferido ou morto, deixaria Jolene desamparada.

Uma coisa era certa: sua ânsia de matar Harold não diminuiria pelo fato de o bandido estar fora de seu alcance. Os planos de Harold para Jolene gelaram o sangue de Sigimor. Convenceu-se de que seria preciso impedi-lo, de qualquer maneira, de aproximar-se de sua esposa. Pensar que o homem poderia tocar em Jolene encheu-o de fúria. A mesma que quase o cegara ao escutar o que Harold pretendia fazer para vê-la sofrer. Pela primeira vez na vida, pensara em matar um homem a sangue-frio e com o maior sofrimento possível. Não sentia o menor remorso pelo instinto vingativo de que fora acometido.

O barulho da retirada sumiu e Sigimor voltou para o fundo da caverna. Jolene ainda estava adormecida. Felizmente não ficara sabendo dos planos doentios que Harold lhe reservava. Sob um certo aspecto, ela continuava inocente. Sigimor não queria que sua pureza fosse manchada pelas imundices de Harold. Jolene contava com motivos suficientes para preocupações.

Sigimor largou-se no chão, encostado na parede, e fitou o rosto de Jolene. Dormindo, parecia uma criança. Ela era bonita demais para um homem rude como ele. Era muito nobre para um escocês sem estirpe. E na certa, rica demais. Se ficara solteira por tanto tempo, era por Peter ter-lhe permitido uma chance de escolha.

Tarde demais para esse tipo de pensamento. Se refletisse melhor, não teria aspirações tão elevadas. Paciência. Naquela altura, não abriria mão de Jolene por nada deste mundo. Jolene era seu par perfeito desde a inteligência até a paixão. Ela era tão ardente que seria impossível considerar o leito matrimonial um lugar-comum, mesmo ao longo do tempo. A satisfação que tivera com amantes ocasionais em nada se parecia com o que experimentava ao lado de Jolene. Nenhuma das mulheres que conhecera retribuíra um beijo ou um carinho com a intensidade de Jolene. Seria impossível desistir do prazer com que ela o presenteava.

Teria de imaginar uma maneira de prendê-la a seu lado para que nunca pensasse em abandoná-lo. A paixão que os aquecia era um dos caminhos, e Sigimor pretendia aprimorar esse vínculo. Se sua irmã estava certa, havia outras coisas além dos prazeres da carne para unir uma mulher a um homem. De acordo com Usa, só se podia conquistar uma mulher de maneira completa pelo coração. Se, para isso, Sigimor tivesse de usar palavras bonitas, estaria perdido.

Quando escureceu totalmente, ele sacudiu Jolene de leve. Ela acordou com um sorriso doce e olhar terno. Apenas a urgência de levá-la embora para longe de Harold impediu-o de deitar-se a seu lado.

Jolene, teremos de sair agora. — Sigimor ajudou-a a desenrolar-se dos cobertores e sentar-se.

Descobriu onde Harold estava?

Sim. Há pouco, ele se encontrava a poucos passos de mim. — Sigimor tirou o odre de vinho do alforje e ofereceu à esposa.

Jolene tomou um bom gole de bebida para acalmar-se. Sigimor conservou o sangue-frio, pois não havia perigo imediato de uma ameaça por parte de Harold.

Ele foi embora? — Jolene devolveu-lhe o vinho.

Foi. — Sigimor tomou um trago e guardou o odre. — Ele e os soldados percorreram a trilha à procura de refúgio. A chuva e a proximidade da noite o derrotaram.

Era esse o seu plano?

Mais ou menos. Isso e mantê-lo ocupado procurando Reynard.

Deve ser difícil para um guerreiro correr do inimigo sem poder fazer nada.

Sigimor ficou satisfeito por ser considerado um lutador, apesar de tudo o que acontecera desde Drumwich. Aos olhos de Jolene, o marido agia daquela maneira por causa dela e do menino. Muitas mulheres não teriam reconhecido isso.

Não me importo. Claro que eu gostaria de ter uma chance de enfrentá-lo no final, mas não me arrependo das táticas que escolhi. Harold tem dois escoceses traidores a seu lado. Seria uma luta desigual. Catorze ou quinze contra cinco. Um planejamento cuidadoso poderia até significar uma vitória. Porém… meus homens não são contratados. Eles carregam meu próprio sangue em suas veias. Cada vez que eu encaro uma batalha, considero o fato de que, ao término dela, haverá a possibilidade de enterrar um irmão ou um primo. Isso me faz pensar seriamente no mérito de um combate. Por isso analiso com cuidado todas as alternativas.

Nesse caso, a cautela não foi exclusivamente por minha causa e por Reynard?

Digamos que não. Mas o meu primeiro pensamento foi onde deixá-la durante a contenda. Em segundo lugar, o que aconteceria se Harold vencesse a batalha. Por isso, a urgência em alcançar Dubheidland. Mas sou obrigado a confessar que, se encontrasse uma maneira de acabar com a vida daquele bandido, eu o faria sem pestanejar.

Jolene anuiu.

Eu também já pensei nisso. Nunca desejei a morte de ninguém. O instinto assassino que Harold me inspira aumenta ainda mais o meu ódio por ele. Eu gostaria de cuspir em cima do seu caixão.

Sigimor entregou-lhe as rédeas do cavalo.

Bem chocante. — Ele fez uma careta. — Uma inglesa nobre e respeitável com tais idéias? — Conduziu-a para fora da gruta e constatou que a chuva diminuíra um pouco.

Jolene seguiu o marido com cuidado no caminho estreito e escorregadio.

Uma inglesa nobre e respeitável também não deveria pensar em atirar gigantes escoceses montanha abaixo.

Que presunção. Sem este gigante escocês a seu lado, a nobre inglesa estaria perdida.

Jolene não encontrou nenhum argumento para aquela verdade tão humilhante.

Descobriu algum dos planos de Harold? Projetos em demasia para o gosto de Sigimor.

Ele foi informado sobre Scarglas e Dubheidland. Faremos um pequeno descanso em Scarglas. Meus parentes vão se divertir distraindo Harold, enquanto escapamos para Dubheidland. Se Harold for tolo o suficiente para nos enfrentar lá, a minha inglesa nobre e respeitável terá satisfeito o seu desejo.

Qual deles?

O de cuspir na cova de seu primo.

Capítulo XI

Santo Deus! Ela é inglesa!

Para não receber um pontapé na canela, Sigimor abraçou a esposa pelos ombros e puxou-a para o seu lado. Entendia o aborrecimento de Jolene. Tornara-se cansativo ouvir aquele comentário toda vez que ela pronunciava a primeira frase. O mais irritante era terem acabado de chegar a Scarglas, estar em pé no grande hall e com as roupas ensopadas pingando água no chão. Sigimor franziu o cenho e fitou os irmãos e os primos sentados à mesa principal.

Não disseram nada a eles? — ele indagou, sem dirigir-se a ninguém em particular.

Na verdade, não — Liam desculpou-se. — Sentamo-nos aqui neste minuto. Assim que chegamos, corremos para tomar um banho, dar banho e comida para Reynard e deitá-lo na cama. Descansamos um pouco, enquanto David ficava de plantão.

Fico satisfeito de ver que a preocupação angustiante a respeito do nosso destino não os impediu de ter um merecido descanso. — Sigimor teve vontade de dar uma surra em cada um daqueles tontos que sorriam diante de seu sarcasmo. E respondeu ao tio que o mirava, carrancudo. — Isso mesmo, meu tio. Ela é uma inglesa de cabelos escuros e está molhada, enregelada e faminta.

Fingal, por acaso perdeu seu senso de hospitalidade? — Uma mulher pequena, loira, dona de belos olhos cor de violeta aproximou-se de Jolene e deu-lhe o braço. — Ewan, atenda Sigimor, antes de que ele bata em alguém — ela falou com um homem magro, alto e de cabelos escuros. — Venha, milady. Mandarei preparar um banho e roupas limpas. Em seguida, voltaremos para comer alguma coisa, e meu sogro fará todas as perguntas que quiser. Sou lady Fiona MacEnroy MacFingal, ou Cameron, se quiser. Sou a esposa de lorde Ewan.

Eu sou lady Jolene Gerard de Drumwich, milady — Jolene disse, enquanto saíam do grande hall. Depois acanhou-se e fitou Sigimor de esguelha. Felizmente, ele estava ocupado em falar com o velho MacFingal. — Isto é, lady Jolene Gerard Cameron.

Não fique constrangida. Demora um pouco para acostumarmos ao casamento e ao novo nome.

Jolene sentiu-se à vontade com Fiona. A anfitriã levou-a até um recinto onde um banho já estava sendo providenciado. Fiona explicou que já os esperava e ajudou-a a tirar as roupas. Jolene sentiu-se melhor no momento em que entrou na tina de madeira com água quente. Lavou-se com o sabonete de lavanda, enquanto Fiona procurava um traje adequado. Durante o tempo inteiro, contou histórias sobre os MacFingal e os Cameron, ajudada por uma mulher mais velha chamada Mab.

Jolene, beba isto. — Fiona entregou-lhe um caneco de estanho com uma bebida aromática e escura.

Cautelosa, Jolene aceitou e tomou um gole. O sabor agradável encorajou-a a esvaziar o recipiente, sob os olhares aprovativos de Fiona e Mab.

É algum remédio especial?

Fiona deixou de lado o caneco e pôs-se a ajudar Jolene a lavar os cabelos.

É, sim. Não sabemos exatamente seu modo de ação, mas ele evita febre e tosse depois de uma exposição à chuva e ao frio. — Fiona pegou uma toalha. — Há quanto tempo está casada com Sigimor?

Uma noite. — Jolene corou diante do sorriso da anfitriã.

Nós não a aborreceremos com perguntas. Terá de responder a muitas quando voltarmos ao grande hall.

As mulheres agiram com eficiência e rapidez. Em pouco tempo, enxugaram-na, vestiram-na e trançaram-lhe os cabelos ainda úmidos. Enquanto se esmeravam na tarefa,

falaram bastante sobre os MacFingal, o que serviu para descontrair um pouco Jolene. Porém o receio do encontro que teria de enfrentar deixou-a nervosa na volta ao hall, ladeada pelas duas.

Sigimor, também de banho tomado e cabelos molhados, a esperava à porta. Apertou a mão da esposa e levou-a até o tablado da mesa principal. Jolene ouviu as risadinhas de Mab e Fiona, que se afastavam para ocupar os próprios lugares. No momento em que ela e Sigimor se sentaram, as questões tiveram início.

Jolene admirou-se da habilidade com que Sigimor respondia às indagações sem cuspir a comida. Decidiu concentrar-se na refeição e permanecer em silêncio pelo tempo que fosse possível. Acostumada às altercações entre os Cameron, ignorou os argumentos ríspidos trocados de quando em vez entre Sigimor e o tio. Fora prevenida por lady Fiona e Mab a respeito da tendência do velho lorde em discutir com todos acerca de qualquer coisa. Como Sigimor era um parceiro à altura, Jolene continuou a saciar a fome, antes que alguém resolvesse dirigir-se a ela.

Analisou sutilmente os MacFingal e percebeu que também estava sendo observada. Lady Fiona era muito bonita, apesar das marcas leves no rosto. Ewan era alto e esbelto como Sigimor, mas tinha cabelos escuros. Os Cameron brilhavam em contraste com os parentes morenos. Lorde Ewan era um homem bonito e tinha cicatrizes no rosto. Sua expressão perdia a severidade somente quando fitava a esposa. A maioria dos homens tinha o mesmo aspecto, embora os traços de alguns fossem mais suaves e outros tivessem olhos azuis. Jolene deduziu que o velho lorde na certa fora um homem muito atarefado.

Era um tanto surpreendente e Jolene deduziu que, em Dubheidland, encontraria a mesma situação. Era difícil acreditar que a maioria dos homens presentes fossem primos de Sigimor. Jolene tinha algumas primas e poucos primos. Sua família, tanto por parte do pai quanto da mãe, era formada por poucas pessoas. Seus parentes ficariam mortos de inveja de ver tantos descendentes masculinos em um só tronco. Altos e fortes, todos deviam ser guerreiros experientes.

Por que não matou o canalha? Por acaso estava doente, Sigimor? Jolene foi incapaz de suportar o insulto ao marido.

Ele jurou proteger a mim e a Reynard. Não é possível empenhar-se em uma batalha com uma mulher e uma criança por perto.

Não vejo por quê.

Fingal gostava mesmo de contrariar.

Teríamos de ficar empoleirados em uma árvore enquanto Sigimor lutasse?

A senhora é tão impertinente quanto esta outra. — O velho senhor apontou para Fiona e voltou a falar com Sigimor: — O fato de não cortar a garganta do camarada não justifica que tivesse de se casar para proteger lady Jolene.

Não se pode negar, Fingal, que o casamento ajudará e muito. Até mesmo os ingleses não aprovariam que um compatriota seqüestrasse a esposa de outro. Mesmo que Harold consiga prender Jolene outra vez, ele não poderá levar avante seus planos, pelo menos por enquanto.

Mas casar-se com uma saxã! — Fingal sacudiu a cabeça. — Isso vai corromper nosso bom sangue escocês.

A insinuação de que Sigimor cometera grave crime contra a nação ao casar-se com ela esgotou de uma vez a paciência de Jolene.

Espere um pouco, milorde! Sou filha e irmã de um conde. Não acho que Sigimor se rebaixou ao casar comigo!

Um conde inglês.

Chega — Ewan pronunciou a palavra em voz baixa, mas em tom autoritário. — Ela é esposa de Sigimor e agora faz parte da nossa família. Não quero ouvir mais nenhum insulto dirigido a lady Jolene.

Eu não a insultei — Fingal protestou.

De maneira indireta, sim. Eu preferia que Sigimor nem pensasse em matá-lo por uma questão de honra, o que me forçaria a enfrentar um primo. Se meu pai está com vontade de vingar-se dos ingleses, sugiro que vá atrás desse desclassificado que pretende matar uma jovem e uma criança para ficar com o que não lhe pertence. — Ewan virou-se para Sigimor. — Não o ouvi pedir para que o auxiliemos nessa luta.

Nem pedirei. Seria ótimo se fôssemos todos ao encontro dele. Assim poderíamos matá-lo, e minha esposa poderia cuspir no caixão dele.

Sigimor! — Jolene protestou, envergonhada pela revelação. Ele não deu importância à reprimenda.

Entretanto essa disputa tem de ficar entre mim e Harold. Tenho um motivo justificado para matá-lo, ainda mais que ele agora está perseguindo minha esposa.

Se a sua causa é justa, então a nossa também será, por sermos consangüíneos.

Não temos certeza se os ingleses pensarão dessa maneira. Não tive tempo de analisar meu inimigo. Não sei quem são seus aliados, se é que ele tem algum, nem se são poderosos. Se Harold morrer na Escócia, poderá haver um clamor generalizado. Se isso ocorrer, eu deverei ser o único a responder pela sua morte. Nem mesmo o rei poderá refutar meus motivos.

Suas causas podem não ser consideradas tão justas, Sigimor. Afinal, você fugiu da Inglaterra com uma lady inglesa e o herdeiro de um conde. Depois matará o homem que veio para resgatá-los, e que, por acaso, é parente deles. O que acha dessa interpretação?

Estou com a carta em que Peter pediu minha ajuda. Nela, ele declarou que estava sendo atraiçoado e que receava pela vida de seu filho. Harold nos atirou nas masmorras e nos acorrentou. Seríamos enforcados, apesar de termos entrado em Drumwich com as espadas embainhadas e a convite de seu lorde. Jolene não estava prometida a ninguém e agora é minha esposa. Se Harold nos seguir até Dubheidland e continuar com as ameaças, esse será um motivo suficiente para eu matá-lo.

Bem, se você acha…

Além disso, os parentes de Jolene poderão depor contra Harold.

Tenho esperança de que pelo fato de Harold estar afastado de Drumwich — Jolene interveio —, alguém possa entrar em contato com a minha família para relatar o que aconteceu. Ninguém gosta de Harold e também não confiam nele. Todos admiravam e respeitavam meu irmão.

Então, Sigimor, não vai permitir que matemos alguns saxões? — Fingal perguntou.

Não. Somente se tentarem matar um MacFingal — ele respondeu.

Acredito que poderemos encontrar um meio de resolver o assunto sem arriscar a vida. Uma vez que as espadas estejam desembainhadas, poderemos matá-los.

Pensativo, Sigimor fitou o tio e depois a esposa.

Jolene, acredito ser melhor você se sentar perto da lareira. Meu tio quer discutir sobre o que fazer com Harold, e talvez a conversa não lhe agrade.

Suponho que seja para eu não ouvir os elogios que serão feitos aos ingleses.

Acertou.

Jolene revirou os olhos e foi até a outra extremidade do grande hall, onde ficavam os bancos de espaldar alto ao redor da imensa lareira. Fiona acompanhou-a, talvez para não dar a impressão de que a nova prima fora afastada como uma criança travessa.

Fingal adora uma discussão e Sigimor, de convencê-lo a fazer o que não gosta.

Já percebi que os Cameron adoram uma polêmica. Sigimor também é bastante teimoso. Nesse pouco tempo em que o conheço, já tive vontade de espancá-lo pelo menos umas dez vezes.

Só isso? Ah, ele deve estar em sua melhor fase. — As duas riram e logo Fiona ficou séria. — A irmã dele é casada com meu irmão Edmund. Conheço Sigimor e sua família há alguns anos. Ele é um bom homem.

Isso é verdade.

Milady o ama, não é mesmo? Embaraçada, Jolene gaguejou.

Bem… acredito que eu… poderia amá-lo. Mas seria melhor se… não o amasse.

Por que diz uma coisa dessas?

Jolene simpatizava com Fiona e achou que poderia confiar nela.

Sigimor será muito criticado por haver se casado com uma inglesa. Além disso, nós nos conhecemos há menos de uma semana. Depois de algum tempo, ele poderá se arrepender dessa decisão precipitada.

Eu também não conhecia Ewan havia muito tempo, quando tive certeza de que se tratava do homem da minha vida. Na época, ambos tínhamos inimigos, mas nunca du- videi do que sentia por ele. Muitas pessoas deviam ter pensado que era uma loucura casar-se com um homem duro e frio. Mas eu sempre tive a intuição de que essa era a face que ele mostrava ao mundo. Demorou um pouco para Ewan acreditar em mim e também para eu achar o verdadeiro homem que estava escondido dentro dele.

Sigimor não ocultou muito seu caráter. Mas o que ele esconde a sete chaves é o que eu quero.

O coração dele, não é? Nesse aspecto, os homens são uns covardes. Meu irmão Connor e Ewan são assim. Até Edmund, de certa maneira, tem medo de baixar o escudo de proteção. Os homens guardam seus sentimentos como se estivessem ocultando o tesouro do rei. Mas quando amam uma mulher, não há bem mais precioso. Sigimor se parece com eles, porém não acredito que tenha erguido uma muralha tão alta.

Mesmo assim, não sei se Sigimor permitiria que eu a escalasse. Por outro lado, talvez fosse melhor que eu nem mesmo tentasse. O fracasso pode ser pior do que não tentar. Sigimor se casou comigo para me livrar de Harold. Por que está sacudindo a cabeça? Não o ouviu dizer isso há pouco?

Essa não é a única razão. Jolene corou.

Ele não mencionou nenhuma outra.

Fiona bebericou a sidra fervida com especiarias que um garoto trouxera para elas.

Um homem não precisa se casar para satisfazer os instintos carnais. Há muitas raparigas dispostas a saciar-lhe os desejos. O macho sempre pode seduzir a que realmente quiser. Se Sigimor achasse apenas que milady precisava de uma marido para protegê-la, teria procurado designar um dos seus irmãos ou primos para assumir a responsabilidade. Nada disso. Sigimor a quer como esposa. O difícil será fazê-lo confessar o porquê de tanta reserva.

Jolene tomou um gole de sua sidra e refletiu sobre o que Fiona dissera. Na verdade, pressentia em Sigimor algo mais do que uma paixão e um senso de dever. Ele se mostrara ciumento e possessivo. Preocupava-se com seu bem-estar. Suspirou. Jolene se agarrava à menor evidência de que Sigimor nutrisse por ela um sentimento mais profundo. Um caminho perigoso, cheio de armadilhas.

Não sei no que devo acreditar. Não posso esquecer da importância de Reynard no episódio.

Ah, sim, um belo garoto. Ele está dormindo com os outros meninos. Meus filhos e sobrinhos. O menino será uma grande responsabilidade sobre seus ombros, Jolene. Não a invejo. Sua escolha será muito difícil, mesmo depois de Sigimor afastar a ameaça representada por Harold.

Jolene entendeu que evitava pensar no assunto por covardia. E as opções que teria pela frente não desapareceriam por serem ignoradas. Teria de enfrentá-las com bastante discernimento, pois uma vez decidido o que fazer, não haveria retorno. As razões por que teria de ficar ao lado de Reynard eram claras. Para ficar com Sigimor, não.

Não existe ninguém a quem pudesse confiar a educação de Reynard?

Sim. Meu primo Roger e sua esposa. São jovens e, apesar de casados há dez anos, não têm filhos. Meu irmão era muito amigo de Roger. Ele é um homem bom e honesto. Mas essa tutela somente seria possível com a autorização do rei.

Ah, os reis! — Fiona revirou os olhos. — Sempre se intrometem onde não há necessidade. É, isso poderá ser um Problema. Pode ter certeza de que o rei, ao tomar uma decisão, não pensará apenas no bem-estar da criança. Seu irmão não teria deixado uma preferência por escrito?

Acredito que sim, mas Harold deve ter destruído todos °s documentos que não o favorecessem. Minha esperança é que algum parente confiável possa conseguir a atenção e os favores do rei. — Jolene tomou um gole do vinho de maçã para afastar a vontade de chorar. — Mesmo nesse caso, Harold poderá interferir. As incertezas me assustam. Fiona segurou-lhe a mão.

Posso imaginar e até alegrar-me por não ter de enfrentar problemas semelhantes. Agora, se fosse comigo, eu deixaria de lado as preocupações com Reynard. Ele está bem cuidado e em segurança. No momento, nada se poderá fazer além disso. Reze apenas para que as decisões tomadas por seu marido sejam favoráveis a milady e ao menino.

Sei que está certa. Sempre fui uma pessoa sensata, mas a prudência e a razão me abandonaram ultimamente.

Ah, milady, quando o amor entra em jogo, o bom senso escapa pela janela. E o pior é quando não se tem certeza de ser retribuído. Se me permite um conselho, por enquanto concentre seus pensamentos em seu marido. É preciso decidir o que espera dele e se há alguma chance de conseguir o que deseja.

E como fazer isso?

Terá de amá-lo e esperar. Simples, não é? Não há outra coisa a ser feita. Tentar modificar-se para tentar agradar a um homem tem sabor de traição para nós mesmas.

Simples, se não tivesse de considerar Reynard, por exemplo. Mesmo se ela aprovasse a escolha do tutor, teria coragem de abandonar o sobrinho? Não assumira o papel de mãe por achar que Peter voltaria a casar-se. O que não impedira que tia e sobrinho houvessem criado laços muito fortes de afetividade. Reynard sofrerá perdas graves cuja extensão ainda não podia entender.

Teria coragem de impor-lhe outra privação?, Jolene perguntou-se, amargurada.

Não podia evitar a angústia, embora não tivesse poder decisório sobre o assunto.

O futuro de Reynard estava entrelaçado com o seu próprio ao lado de Sigimor. Seria justo tentar conseguir mais do que paixão e dever? Um lugar no coração de Sigimor seria maravilhoso. Resultaria em um casamento com o qual sempre sonhara. Porém seria uma crueldade se tivesse de deixar Sigimor para ficar ao lado de Reynard. E ao observar a aproximação de Sigimor e Ewan, teve certeza de que seria um desastre se optasse por ficar ao lado de Reynard. Não seria correto tentar alcançar o amor do marido para depois fazê-lo sofrer.

Mas que seriedade, Jolene. — Sigimor sentou-se ao lado da esposa e abraçou- a pelos ombros.

Estávamos discutindo problemas femininos — Fiona disfarçou. — A cobiça dos homens será sempre uma fonte de infortúnios.

Se não querem contar sobre o que estavam falando, é só dizer — Sigimor resmungou.

Ewan, Sigimor está me chamando de mentirosa. — Fiona franziu o cenho diante da risada do marido. — Exijo que defenda minha honra.

Sigimor, não diga isso de minha esposa. — Ewan fez um esforço para manter a seriedade.

Mesmo se ela estiver faltando com a verdade?

Ah-ah. O certo seria fingir que acredita e com um sorriso. É o que eu faço.

Como marido, terá de aprender algumas coisas.

Como, por exemplo, sair daqui antes de apanhar?

Jolene teve vontade de rir por causa da braveza com que Fiona fitava Ewan. Invejava a afeição compartilhada por ambos. Era tudo o que ela esperava de um casamento. Sentir o abraço de Sigimor em volta de seus ombros a fez imaginar se algum dia alcançaria a graça de desfrutar laços afetivos tão intensos. Amar Sigimor não seria difícil. Temia apenas pelas conseqüências.

Ah, meu caro sobrinho, esqueci-me de lhe dizer uma coisa. — Fingal aproximou-se de Sigimor. — Há uns dois dias, veio uma mulher aqui procurar abrigo por uma noite. Disse chamar-se lady MacLean e perguntou por você.

Não imagino quem seja — Sigimor sabia muito bem quem era a mulher.

Lady Bárbara MacLean, Forbes de solteira. Ah, vejo que se lembrou, como ela

previu.

É, eu sei… bem, mas já faz muito tempo. Eu era quase um menino. Por que ela

perguntou por mim?

Ficou curiosa quando soube que éramos parentes dos Cameron de Dubheidland.

Talvez tivesse sido apenas um motivo para manter uma conversa amena durante o jantar. — Fiona levantou-se. — Sabemos como isso tem sido difícil. Bem, já é tarde. Lady Jolene deve estar exausta. Venha, Jolene. Eu lhe mostrarei onde Reynard está dormindo e depois os aposentos que o casal poderá ocupar.

Jolene aceitou a mão estendida de Fiona.

Eu gostaria de ter ficado lá para saber quem era aquela mulher e o que ela queria de Sigimor — Jolene comentou com Fiona enquanto subiam a escada estreita.

Será melhor esperar até Sigimor recuperar-se do choque por causa da notícia.

Melhor dizendo, até ele encontrar uma resposta conveniente.

De certa maneira. Sigimor não mentiria. Ele só precisa de um tempo para ordenar os pensamentos. Veja, Reynard está dormindo aqui.

Jolene engoliu as dúvidas e seguiu Fiona. Mais de dez crianças dormiam no enorme recinto. Fitou Reynard com carinho e depois o menino que Fiona apontou como seu filho mais velho, Ciaran. Achou o garoto muito grande para ser filho de Fiona, mas a cortesia não permitiu perguntas indiscretas.

Ciaran é filho de meu marido — Fiona satisfez-lhe a curiosidade, já no corredor

e de uma mulher que ele conheceu há mais de nove anos.

Sei o que pretende, Fiona. Mas eu estou com o pensamento fixo em um nome.

Fiona riu e abriu a porta de um aposento amplo com lareira, tapetes grossos e belas tapeçarias.

Eu entendo. Tive o mesmo problema em relação a Helena, mãe de Ciaran. — Fiona foi até a cama de casal e apontou a camisola estendida em cima do acolchoado. — Essa é a sua resposta.

Jolene acariciou o tecido sedoso.

Isso é o que uma mulher usa para tentar um homem. Não é o que pretendo fazer para receber meu marido.

Sei disso. Um cajado na cabeça de Sigimor iria aborrecê-lo ainda mais. — As duas riram. — Nada disso. Vista essa peça íntima e espere por Sigimor. Será bom para lembrá-lo do que ele tem no momento e fazê-lo esquecer o passado. Sigimor lhe contará do que se trata e afastará qualquer memória que ainda restar no minúsculo cérebro masculino. Se quer uma sugestão, fique perto da lareira ao começar o interrogatório.

Jolene sabia que seu corpo ficaria visível à claridade das chamas.

Milady é um tanto ousada.

Não discordo.

E muito inteligente. Cúmplices, as duas deram boas risadas.

Capítulo XII

Ewan, se eu beijasse sua mulher, suponho que o primo me mataria — Sigimor comentou, observando Fiona e Jolene se afastarem.

Se sua esposa não se encarregasse disso primeiro. — Ewan trocou um sorriso com Sigimor e fitou o pai com ar de crítica. — Por acaso pensou um pouco antes de vir aqui falar sobre Bárbara na frente de lady Jolene?

Sem dúvida. — Fingal cruzou os braços na altura do peito. — Pensei em como Bárbara é uma jovem bonita, escocesa e com carne em cima dos ossos.

Sigimor procurou controlar a raiva. Fingal não mudaria nunca.

Ela está casada há nove ou dez anos. Eu não me envolvo com mulheres casadas.

Pois fique sabendo que ficou viúva.

Sigimor admirou-se por não ter sentido a menor emoção com a notícia. O fantasma de Bárbara o abandonara de vez, e isso graças a Jolene. Nem a antiga pergunta "e se?" viera à sua mente.

E por que eu deveria me importar com o estado civil de Bárbara?

Lady MacLean assegurou que, antes de se casar, teve um relacionamento íntimo com você, meu sobrinho. E que também se encontraram em várias oportunidades, depois do casamento dela. Não vejo razão para tanta beatitude agora.

Ah, como desejava estrangular Bárbara! Sigimor deu de ombros.

Bárbara mentiu. Eu a vi por acaso uma ou duas vezes depois de ela haver se casado com um lorde rico e velho. Nada mais do que isso. Saiba de uma coisa, Fingal. Bárbara é uma grande mentirosa, e até duvido que tenha deixado Scarglas sem antes ter experimentado um ou dois MacFingal. Agora minha esposa deve estar pensando que sou algum conquistador que deixou várias amantes espalhadas pelo mundo. E por causa de uma prostituta mentirosa que deve estar procurando outro marido para levá-lo à miséria.

Eu pensava apenas em lhe conseguir uma mulher escocesa que pudesse, pelo menos, agüentar seu peso.

Ah, com certeza Bárbara é bem experiente no assunto. Mas eu prefiro a minha Jolene.

Mas ela é inglesa!

É verdade. E irmã de um conde inglês, que descanse em paz, a quem devo minha vida. Além de ser uma jovem que jamais conheceu, e nem conhecerá, o peso de outro homem!

Fingal afastou-se resmungando.

Tanta perturbação só por Jolene ser inglesa? Será que não podem enxergar que ela é apenas uma jovem pura que precisa de amparo?

Eles não tardarão a entender o valor de lady Jolene. Além do mais, agora ela é uma Cameron. Você verá, Sigimor, que se trata de uma irritação passageira. Jolene é uma jovem bonita e Fiona gostou dela. Mas devo confessar minha suposição de que o tipo físico de Bárbara lhe agradasse mais.

Isso acontecia no passado. O episódio com Bárbara foi um erro e me decepcionou muito.

Eu sei. Mas agora terá de dar algumas explicações à sua esposa.

Com certeza. Não viu o olhar dela? — Sigimor suspirou. — Ah, como eu não gostaria de falar sobre velhas loucuras.

Todos temos nossas velhas loucuras, primo. As esposas têm um faro especial para descobrir tais coisas.

A sua amante, Ewan, está morta e enterrada. A minha resolveu me assombrar.

Bárbara parecia bem interessada em saber notícias suas. Mas, pelo menos, não

trouxe um filho para ser criado pelo pai. — Ewan estremeceu. — Eu e Fiona amamos o menino, porém não foi fácil contar a ela sobre Ciaran. O melhor é fazer a revelação da verdade e acabar de uma vez com o mistério. Pense no que aconteceria se lady Bárbara tivesse a chance de contar a história pessoalmente para Jolene.

Pelo amor de Deus! Eu teria de dormir na estrebaria.

Descobri uma coisa, Sigimor. Se a antiga amante tiver agido de má-fé no passado, a esposa se voltará contra ela. Por isso a melhor alternativa é explicar tudo o que houve e fazê-la entender que a outra nada mais representa na sua vida.

Pois é o que farei. — Sigimor ficou em pé, preparado para a confrontação. — Jolene acreditará em mim. O único problema será como fazê-la conhecer a história, sem que ela pense que fui um jovem cretino.

Ewan riu e Sigimor saiu do grande hall. Subiu a escada e deteve-se diante da porta dos aposentos que sempre ocupava em Scarglas. Disposto a explicar Bárbara para Jolene.

E se Jolene não pedisse explicações? E se não se incomodasse nem sentisse ciúme?

Entrou no quarto, aborrecido por causa daquela falta de confiança não habitual. Revelaria os fatos a respeito de Bárbara e teria de agir conforme as circunstâncias. Bateu a porta e trancou-a.

Jolene encontrava-se em pé junto à lareira. Envolta pela luminosidade das chamas, parecia vestir nada mais de que um nevoeiro. A camisola rendada e guarnecida com debruns escondia muito pouco do corpo delgado. Os cabelos negros e brilhantes estavam soltos. Era como se estivesse nua, e o fato de não estar excitava-o ainda mais.

Entretanto ela mantinha as mãos nos quadris e ostentava uma expressão feroz. Impaciente, batia um dos pés descalços na pele de carneiro que ornava a frente da lareira.

Quem é Bárbara? — Jolene perguntou, deliciada ao comprovar a reação dele diante da vestimenta diáfana.

Bárbara? — Sigimor só pensava em atirar Jolene no tapete. — Ah, lady Bárbara MacLean. Bem, eu a conheci há uns dez anos.

Ela deve ter uma memória fabulosa.

É que eu sou um camarada inesquecível. — Ele tentou descontrair o ambiente. Sentou-se na beira da cama e tirou as botas. Não poderia negar que a reação de

Jolene lhe agradava. Olhou-a de relance. Sua esposa estreitava os olhos e fechava as mãos em punhos. Disse a si mesmo que se quisesse usufruir o convite implícito naquele traje, seria melhor não provocá-la demais.

Uma mulher não mostra tanto interesse em um homem, sem ter segundas intenções. Ainda mais quando se trata de um que ela não encontra há mais de dez anos. Nem acho que o senhor seja tão inesquecível, Sigimor.

Ele ignorou a alfinetada.

Não faz tanto tempo assim. Apesar das minhas tentativas de evitá-la, eu a vi algumas vezes depois disso. Com certeza, ela fez perguntas a meu respeito por haver ficado viúva.

Ela estará à procura de um amante?

Acredito que seja de um marido. Bárbara deve ter ficado na miséria. Encontrei o marido dela há cerca de dois anos. Bêbado, falou sem se preocupar em ser ouvido. Disse que seus dois filhos eram as únicas coisas boas do seu casamento com Bárbara. Nem mesmo estava certo de que o caçula fosse seu, pois sua esposa havia tido um caso com o sobrinho dele. Como o sangue do menino era o de um MacLean, não tinha feito maiores escândalos. Queixou-se de que a mulher o deixaria na penúria se ele deixasse. E declarou que havia fechado o cofre para sempre. Acredito que ele manteve o juramento.

Jolene descontraiu-se ao comprovar que as frases não envolviam nem um pouco

de ternura.

Por que ela achou que o fisgaria agora?

Porque, há dez anos, eu era um rapaz tolo, louco e cego de desejo. Sentia-me lisonjeado pelas atenções de uma rapariga bonita e bem-nascida. Eu tinha vinte e dois anos, mas muito pouca experiência de vida amorosa. — Sigimor tirou a camisa e apontou as faixas tatuadas nos dois antebraços. Marcas que levaria para o túmulo. — Fiz isto para impressioná-la. Quase morri. Os traços infeccionaram e passei muitos dias ardendo em febre. Eu a tinha ouvido elogiar os desenhos permanentes feitos na pele de outro homem e quis que ela me admirasse. Bárbara nunca viu o resultado.

Jolene desejou nada ter perguntado sobre Bárbara. Era possível imaginar a carga de emoções que a mulher despertara nele. E as palavras atuais vinham carregadas com resíduos de dor e de ódio. Jolene acreditava que fosse possível mitigar as chagas de um coração ferido. Mas não estava convencida de que teria habilidade ou tempo para fazer isso. Ainda mais se Bárbara estivesse empenhada em conquistá-lo.

Acho os desenhos muito atraentes — Jolene sentiu-se uma tola. — Ela o abandonou por outro homem?

Bárbara já havia escolhido o velho lorde MacLean, um homem trinta anos mais velho do que ela, quando ainda estávamos juntos. Era um sujeito rico que procurava uma esposa que pudesse lhe dar um herdeiro. Bárbara ansiava por conhecer diferentes jovens, antes de se casar.

Vários?

Isso mesmo. Fiquei de cama algum tempo, mas a febre cedeu e as feridas cicatrizaram. Resolvi visitá-la para lhe fazer uma surpresa. O surpreendido foi o homem que estava por cima dela.

Oh, Deus! — Era difícil imaginar Sigimor como um homem inexperiente, mas Jolene se compadeceria por qualquer pessoa que encontrasse seu amor nos braços de outrem.

O pior de tudo foi descobrir que eu tinha sido um grande tolo. Eu a escutei assegurar ao pobre rapaz em seus braços que o enlace com MacLean no dia seguinte em nada mudaria o relacionamento entre eles. Bárbara se assustou quando me viu e implorou para que eu nada contasse a MacLean. Mandei o jovem embora, despejei alguns insultos contra mulheres de vida fácil e saí. Eu pretendia avisar MacLean, mas não consegui encontrá-lo. Enojado, decidi voltar a Dubheidland. Ela tentou algumas vezes recuperar o passado, mas eu não me interessei. Mesmo porque jamais me agradou enganar outro homem.

O que deixara Bárbara ainda mais determinada a reconquistá-lo, Jolene concluiu. Pensara que enterrando o ciúme, sentir-se-ia melhor. Ledo engano. Não fora esclarecido o que Bárbara representava para ele. Sigimor não lhe falara em amor, mas os homens temiam aquela palavra. Mesmo que ele a amasse, Jolene estava convicta de que enfrentaria problemas no futuro. Bárbara não renunciaria a seus intentes. Ao que tudo indicava, o objetivo dela era Sigimor.

Sigimor interrompeu-lhe o curso dos pensamentos. Sem roupas, diante dela, pôs- lhe as mãos nos ombros e beijou-a no rosto.

Não se preocupe, Jolene. Ela nada mais é do que uma memória triste das sandices cometidas por um jovem.

Jolene corou pela maneira que o marido a fitava.

Lady Bárbara está à sua procura. E pelo que acaba de me contar, ela não desiste de uma caçada.

Isso não significa que conseguirá me prender na sua rede. Não sou mais nenhum rapazelho inocente. Agora, diga-me: onde conseguiu esta roupa íntima tão tentadora?

Fiona. Não foi o senhor meu marido quem garantiu a inutilidade dessas coisas?

Acho que mudei de idéia.

Jolene fitou a prova daquela afirmação.

Já percebi.

Na certa, Bárbara lembrava-se dos atributos de Sigimor. Uma mulher libidinosa como aquela provavelmente gostava do potencial dele. Talvez quisesse comprovar se as condições haviam permanecido inalteradas. Jolene deduziu que lady Bárbara não procurava apenas um cofre cheio.

E garantiu a si mesma que, se a mulher aparecesse em Dubheidland, não iria encontrar caminho fácil. Independentemente do que o futuro reservava para ela e Sigimor, lutaria por seus direitos de esposa. E, como tal, teria muitas vantagens sobre uma intrusa.

Jolene acariciou o marido entre as pernas dele e, no limite do suportável, Sigimor pediu-lhe que parasse.

Jolene temeu ter sido muito ousada ou ter-lhe causado algum desconforto.

Eu não deveria ter feito isso?

Faça-o sempre que quiser. Mas o prazer de suas mãos suaves é demasiado para mim. — Ele achou graça na perplexidade de Jolene. — Se continuássemos, chegarei ao clímax antes de lhe dar prazer.

Ah. — Jolene corou e Sigimor desamarrou os laços que prendiam o tecido transparente. — Vamos para a cama?

Não. Quero possuí-la em cima do tapete, diante da lareira.

Jolene estremeceu ao imaginar o que se seguiria, quando Sigimor tirou-lhe a camisola com gestos lentos. A excitação derrubou o decoro, as incertezas e o receio. Sigimor tomou-a nos braços e beijou-a. Jolene pressionou-se de encontro a ele e alegrou- se com o contato das peles nuas. A hesitação abandonou-a e cedeu lugar a idéias ousadas.

Depois de beijar-lhe os lábios, Sigimor abaixou a cabeça e concentrou-se nos seios, enquanto lhe acariciava o corpo com as mãos grandes e fortes. O tremor de Jolene aumentava com a intensidade da sucção e do movimento da língua. As emoções intensas deixavam-na eufórica. Sigimor, com beijos e carícias, trazia à tona uma devassidão antes desconhecida de Jolene. Ela se transformara em uma mulher que esquecia limites e regras. E a metamorfose lhe agradava. O prazer que sentia era inenarrável.

Em seguida, Sigimor deitou-a no tapete e penetrou-a. A ânsia de Jolene ressurgiu e ela se agarrou no marido. A ferocidade da paixão dele não lhe desagradava nem um pouco. Pelo contrário, levou-a a um êxtase arrebatador, alcançado junto com Sigimor.

Depois de alguns minutos, ele se levantou. Cumpriu a rotina de limpar os traços do amor deles e levou Jolene para a cama. Ruborizada, ela retornou ao antigo embaraço. Sigimor deitou-se e abraçou-a com energia.

Ah, minha pequenina esposa. Por que essa vergonha? Você só experimenta a liberdade completa sob os efeitos da paixão, não é?

E como eu poderia reagir diante da perda total de controle?

Ouso afirmar que deveria ser com satisfação. E agradecimento por seu marido fazê-la gritar.

Eu não gritei. Sigimor deu uma risada.

Meus ouvidos ainda estão tinindo. Além do meu nome, houve alguns "não pare" e outros tantos "mais, mais".

Aquela provocação era demasiada. Jolene beliscou-o na parte mais sensível entre as pernas e o gemido de dor agradou-lhe sobremaneira.

Não havia como negar que Sigimor a deixava desvairada, mas não era preciso vangloriar-se por isso.

Que mulher cruel! — Ele passou levemente a ponta dos dedos nas costas de Jolene e se deliciou com os arrepios que sentia sob seus dedos.

Sigimor nunca tivera uma amante tão ardente e ousada. Em sua maioria, as mulheres que levara para a cama haviam sido pagas para isso. Encontradas com facilidade nas estalagens ou tavernas. Como de costume, preferira as mais rechonchudas e limpas e dava-lhes o mínimo de prazer para que ele mesmo pudesse satisfazer-se. Uma verdadeira troca de favores.

Com Jolene, o estímulo era intenso e total. O menor gemido e o mais leve tremor aumentavam a vontade de satisfazê-la. A realização de Jolene despertava nele um prazer muito acima do esperado. Se tivesse um meio de controlar a si mesmo, gostaria de passar a noite toda experimentando diferentes maneiras de fazê-la gritar. A visão de Jolene atingindo o orgasmo era inebriante e lembrava o apogeu da natureza. A explosão que alcançavam juntos era uma bênção divina.

O fato de ter sido o primeiro e único homem de sua vida dava a Sigimor uma sensação de bem-estar perfeito. Imaginava tentar com Jolene outras coisas que não fizera antes. E fazê-la procurar inovações. O pensamento incitou-o mais uma vez. Jolene inspirava-o a tornar-se um bom amante. E insaciável.

Sua cupidez teria de ser esquecida por enquanto. Jolene dormia profundamente em cima dele. E nem era para causar espanto, pelo dia difícil que haviam enfrentado. Seria uma sorte se ela não ficasse doente.

Sigimor alegrou-se pela reação de Jolene a respeito de Bárbara. O sentimento de posse e ciúme fora bem evidente. Era sinal de que Jolene aceitava a situação deles como marido e mulher, e não admitia ingerências. Um homem teria de ser capaz de gerar o amor a partir da paixão. E Sigimor estava determinado a conseguir esse objetivo.

Abraçou Jolene, pôs o outro braço sob a cabeça e lembrou-se de Bárbara. Embora houvesse conhecido outras, ela fora seu primeiro amor. A primeira que não fora paga para satisfazê-lo. A primeira que despertara nele a idéia de casar-se. A traição de Bárbara tivera o efeito de uma punhalada. Na verdade, ferira seu orgulho e fora um golpe fatal na vaidade que sempre tivera. E o conduzira de volta às mulheres pagas. Um negócio grosseiro, mas honesto. Talvez a maior mágoa fora a solidão, depois de haver fantasiado a companheira ideal na figura de Bárbara.

Sigimor beijou a cabeça de Jolene. Dessa vez não havia dúvida. O mais difícil seria fazê-la entender isso.

Inquietava-se com o estrago que Bárbara poderia fazer se resolvesse persegui-lo. Jolene não tinha segurança na própria capacidade de atração. Bárbara destruiria qualquer vínculo que ele conseguisse estabelecer com Jolene. De alma, coração e mente.

Conhecia Bárbara. Não havia como se iludir. Ela usaria todos os meios possíveis para ser aceita. Se resolvesse bater nos portões de Dubheidland, seria difícil impedi-la de despejar veneno nos ouvidos de Jolene.

Poderia manter Jolene presa ao leito matrimonial, até Bárbara desistir e voltar para

casa.

Sigimor bocejou, sonolento, e sorriu com prazer pela expectativa do plano.

Capítulo XIII

Harold continua escondido, à espreita — Sigimor comentou ao entrar no solar onde Jolene e Fiona cuidavam das crianças.

Jolene havia adorado aqueles dois dias, embora soubesse que desfrutava de uma paz enganosa. Harold seguira-os até Scarglas e não se desencorajara com as emboscadas sucessivas preparadas pelos MacFingal. Jolene não conhecia o modo de ação dos novos parentes escoceses, mas pelo comportamento deles, a diversão fora garantida.

Jolene, diante da lareira, ajeitou no colo Ahearn, o filho de Fiona.

Será que ele não tem cavalos suficientes para bater em retirada? Os animais que vi ontem no pátio eram deles, não eram?

Sigimor foi rodeado por várias crianças. Reynard, Ciaran e outras de idades variadas. E, sem perda de tempo, começou a brincar com os meninos.

Eram, sim.

Jolene acariciou as costas de Ahearn e admirou-se do amor recíproco entre Sigimor e os garotos. Refletiu que seu marido seria um bom pai e foi afetada por uma ansiedade que nunca lhe ocorrera. Ter filhos com Sigimor. Considerou que sua vida se tornava cada vez mais confusa. Harold. A morte de Peter. Um marido. Uma mulher que emergia do passado de Sigimor. E, de repente, aquela vontade louca de levar no ventre um filho do homem a quem poderia ter de renunciar.

A risada de Reynard chamou-lhe a atenção. Com a graça de Deus, o menino ignorava o perigo que corria. Sem nunca ter convivido com outras crianças, seu sobrinho estava feliz por ter com quem brincar. Por ser herdeiro, na maior parte do tempo fora afastado dos filhos dos servos. Peter teria ficado apavorado se visse seu infante divertindo-se com as crianças bastardas do velho MacFingal, a maioria delas filhas de mães plebéias. Peter fora um homem que se orgulhava de sua posição social e fazia questão de preservá-la a qualquer preço. Ele tivera três filhos antes do casamento e nunca lhes permitira se aproximarem de Reynard, assim como o velho lorde Gerard mantivera os filhos ilegítimos afastados de Peter e dela.

Jolene envergonhava-se de haver compactuado com uma atitude que, naquela altura, lhe parecia injusta. Reynard teria se divertido muito com seus irmãos, fossem eles bastardos ou não. Quando a vida deles voltasse ao normal, se pudesse opinar sobre a vida futura de Reynard, daria um jeito para que alguns hábitos fossem modificados.

Fiona veio buscar o filho adormecido, e Jolene lamentou ter de entregá-lo. O olhar de simpatia de Fiona foi claro. Ela compreendia a vontade de Jolene de ter seus próprios filhos. Fiona afastou-se com o bebê e foi seguida por vários meninos pequenos. Jolene teve de sufocar a sensação de vazio que começava a torturá-la.

Sigimor provocou os garotos maiores e aproximou-se de Jolene. Creditou a tristeza da esposa à menção da permanência de Harold nos arredores de Scarglas. Ele sentou-se na cadeira de encosto de carvalho, defronte a Jolene.

Seus primos não conseguiram fazer com que Harold fosse embora?

Infelizmente não — Sigimor sorriu quando os travessos deram um grito e saíram correndo —, apesar de eles detestarem invasores.

Reynard está adorando a companhia de outras crianças. Ele sempre foi muito solitário, mas se adaptou aos outros com muita facilidade. Grita e suja a roupa com o mesmo entusiasmo dos demais.

Em Drumwich não havia crianças?

—Tínhamos várias, mas não de origem semelhante. Peter teve três filhos antes de se casar, porém a sua preocupação maior era dar-lhes um teto e evitar que o atrapalhassem. Atitude idêntica a de meu pai em relação aos próprios filhos ilegítimos.

Agora, eu estava justamente me recriminando por ter aceitado uma injustiça dessas sem reclamar.

Acredito que Peter não mudaria de opinião.

Talvez não… — Jolene suspirou e passou para outro assunto. — Seu tio é um camarada singular.

Pode estar certa de que a opinião é unânime.

E pelo que pude ver, também não conhece limites. Mas tem uma faceta admirável de caráter. Cuida de todos os filhos, bastardos ou não. Muitos lordes ignoram os rebentos concebidos fora do leito matrimonial. Ou então fazem como Peter e meu pai fizeram. Atiram algumas moedas no caminho dos filhos e se consideram muito generosos. Seu tio cria os ilegítimos junto com os outros e lhes oferece a oportunidade de uma vida melhor.

Ele também traz para dentro de Scarglas os perdidos e os rejeitados. Durante sua vida, sempre fez mais inimigos do que amigos. Por isso Ewan agora é o lorde. Meu primo estava convencido da loucura do pai até Fiona concluir que MacFingal era uma criança mimada em um corpo de adulto. — Sigimor sorriu por Jolene ter achado graça, mas logo ficou sério e segurou-lhe a mão. — Nós sairemos daqui esta noite.

Por isso veio me falar de Harold, não foi?

Isso mesmo. Eu pensei que ele desistiria, mas não foi o que aconteceu. Nós temos de abandonar Scarglas antes que Harold traga a luta para dentro da herdade de meus primos.

Jolene anuiu, apesar da vontade de ficar em Scarglas. A estranheza inicial cedera a uma sensação de bem-estar e segurança. Fiona se revelara uma boa amiga. E tudo isso acontecera mesmo com a presença de Harold do lado de fora das muralhas. Desagradava-lhe a idéia de que teria de desistir do conforto e voltar para a difícil tarefa de enganar Harold até que alcançassem Dubheidland, que era outra incógnita, pois teria de enfrentar um grande número de estranhos.

Reynard também ficaria triste ao abandonar os novos amigos e suas brincadeiras.

Era muito pequeno para compreender a necessidade de partir.

Não será uma tarefa insana gostar de Dubheidland, Jolene. — Sigimor tentou parecer mais confiante do que na Validade estava.

Eu sei, não se preocupe. Tenho pena de Reynard. Ele não ficará nem um pouco satisfeito com a novidade.

Posso imaginar. Quer que eu fale com o menino?

Seria uma covardia de minha parte…

Bobagem. O plano foi meu e terei de lhe dar as más novas. Eu farei isso na presença de Ciaran e de mais alguns garotos.

Por quê?

Diante dos outros, Reynard haverá de querer aceitar o destino como um homem.

Como um homem? — Jolene repetiu, espantada. — Ele acabou de fazer três

anos.

Não importa. Reynard não vai querer dar a impressão aos outros de que não

passa de um bebê choramingas. Reynard é muito inteligente. Tem a compreensão de um menino mais crescido. Os mais velhos entenderão que não há alternativa. Às vezes crianças são melhores conselheiras que os adultos. Depois que eu virar as costas, os outros o farão compreender a realidade.

Jolene anuiu.

E em uma linguagem acessível para ele. Reconheço minha covardia e aceito a sua sugestão.

Sigimor recostou-se na cadeira e sorriu.

A sua fisionomia não esconde o sentimento de culpa. Esqueça isso, Jolene.

Ultimamente teve de dar a Reynard várias notícias terríveis. Além do mais, precisou levá- lo fazer muitas coisas que não lhe agradavam. A carga sobre seus ombros, Jolene, tem sido muito pesada. Não vejo mal algum em aliviá-la um pouco.

Eu entendo a sua boa vontade, embora não tenha me preocupado com o assunto antes. É que estes dois dias foram tão tranqüilos e Reynard está tão feliz…

Eu sei. Jolene, por que pareceu tão triste quando Fiona levou o bebê daqui?

Absorta nas tristezas que Reynard teria de enfrentar por causa de Harold, Jolene disse a verdade sem pensar.

Adorei embalar Ahearn. Estou com vinte e três anos. Muitas mulheres da minha idade já têm vários filhos… — Corou ao perceber a confissão que fazia. — Nada importante.

Sigimor levantou-se e beijou-lhe a testa.

Claro que importa, se isso a entristece. A vontade de ter filhos é muito natural nas mulheres. — Sigimor piscou antes de abrir a porta. — Logo terá um bebê nos braços. Prometo que terá quantos filhos quiser.

Seu grande tolo! Sigimor saiu, rindo.

Jolene relanceou um olhar pelo recinto. Não poderia imaginar que sentiria falta de Scarglas. Em parte era a incerteza de encontrar outra vez as pessoas a quem rapidamente se afeíçoara. Se contasse a algum conterrâneo que relutava em deixar Scarglas e seu povo, certamente a qualificariam de louca. Sentia-se segura e bem-vinda, apesar dos resmungos constantes de MacFingal pelo fato de ela ser inglesa. Sentiria muita falta de Fiona, a primeira amiga de verdade que tivera. As duas se entendiam muito bem. Pareciam almas gêmeas. Seria muito difícil abandonar uma pessoa com quem sim- patizara desde o primeiro momento.

A promessa de Sigimor também a entristecia. Nem mesmo tinha certeza se poderia continuar junto com o marido. Por isso não ousava sonhar com lindos bebês de cabelos vermelhos. Apesar de o bom senso recomendar-lhe que esquecesse tais idéias, o desejo de ter filhos com Sigimor permanecia incólume. Era terrível cogitar de que teria de abandonar essa fantasia.

Jolene resolveu voltar para seu quarto e empacotar seus pertences.

Ah, teria de evitar pensamentos melancólicos! Tudo por culpa de Harold!

O ódio por ele serviria ao menos para varrer a dor de seu coração. Se não fosse pela ganância de seu primo, ainda estaria em Drumwich, ao lado de Peter, preparando-se para um provável casamento de conveniência. Não teria conhecido Sigimor nem Fiona. Nem lamentaria a falta de filhos ruivos que ainda nem concebera.

Furiosa, entrou nos aposentos que ocupava. Disfarçou as mágoas e refletiu a respeito das maneiras que poderiam ser usadas para fazer Harold pagar por seus crimes.

Trate bem de lady Jolene — Ewan recomendou ao aproximar-se de Sigimor, no pátio iluminado por tochas.

Faltava muito para o amanhecer. Jolene e Fiona despediam-se em meio à névoa úmida, sem dar atenção aos homens.

Por que acha que eu não faria isso?

Eu me referi à convivência diária em sentido bem amplo. O problema de lady Jolene continua sem solução, Sigimor. Mesmo que a ameaça de Harold deixe de existir, o futuro do garoto ainda não foi decidido. Isso envolve o destino de lady Jolene, pela promessa que ela fez ao irmão.

Ela é minha esposa e acabará seus dias ao meu lado.

Lady Jolene tem a guarda do sobrinho, embora a lei não lhe reconheça esse direito. Trata-se de uma conseqüência da decisão de lorde Peter. Não adianta fechar os olhos a essa verdade.

Ela e eu enfrentaremos os percalços que surgirem. — Sigimor fingiu não ouvir o

praguejar do primo. — Nossas esposas se tornaram muito amigas, apesar de terem se conhecido há apenas dois dias.

Isso mesmo. — Ewan aceitou a mudança de assunto. — Fiona gostou de lady Jolene de imediato. Disse-me ter percebido que eram almas gêmeas, assim que a conheceu. Ela acha que lady Jolene deve ter sido uma pessoa muito solitária. Fiona me contou que lady Jolene se assustou com o nosso bando familiar e a preveniu de que o mesmo poderia acontecer em Dubheidland. Fiona acredita que lady Jolene e o menino viviam longe dos outros. Lorde Peter devia ser um homem orgulhoso e na certa não permitia qualquer tipo de aproximação com os menos aquinhoados pela sorte.

Jolene afirmou exatamente o mesmo. É um milagre que ela não seja tão orgulhosa quanto o irmão. Acho que Jolene não combinava com a aristocracia inglesa.

Essa é a opinião de Fiona. Aliás, ela mandou dizer que, se você, meu primo, não cuidasse bem da esposa, teria de se haver com ela. Eu afirmei para minha mulher que não se preocupasse, pois faria você sentir o gosto de sangue antes.

Sigimor resmungou. Não queria pensar no que aconteceria depois de encerrada a disputa com Harold. Tinha um plano e pretendia levá-lo adiante. Jolene haveria de amá- lo. Só se deu conta de que falara alto a última frase ao ouvir a risada de Ewan.

Desejo-lhe boa sorte, primo. — Ewan olhou para Fiona e sorriu com ternura. — Se conseguir que ela diga que o ama, faça-a acrescentar para sempre. O marido de sua irmã concorda comigo. É preciso ouvir isso para se ter certeza de que é verdade.

Sigimor prometeu a si mesmo que seguiria o conselho de Ewan.

Preste atenção, Jolene. — Fiona segurava as duas mãos dela. — Pense bastante antes de tomar alguma decisão. Sei que Reynard é muito importante, mas a sua vida com Sigimor também é.

Não tenho certeza de que temos alguma coisa em comum — Jolene falou com tristeza.

Poderá não ter adquirido essa convicção nem quando chegar a hora de decidir. Sigimor é como Ewan e meu irmão, Connor. E, de várias maneiras, como Edmund, meu outro irmão. Eles lutam contra o amor, mas não conseguem viver sem a mulher que lhes desperta um sentimento tão indesejável. Palavras doces também não constituem o forte deles. É preciso levar em consideração atitudes e comportamentos.

E como poderei confiar em meu próprio julgamento? Poderei ver o que eu desejaria que fosse, e não o que é verdade.

Fiona sorriu, compreensiva.

Isso é difícil, mas não impossível. Quando um homem como Sigimor entrega o coração, é para sempre. Homens com esse temperamento amam com fervor. Se eles se casam, jamais pensarão em outra. Poucas mulheres bem-nascidas como nós contam com essa bênção.

Ah, Fiona, eu gostaria tanto de um casamento assim, mas…

Não pense no motivo que Sigimor alegou para se casar. O começo não é importante. Eles costumam mentir para si mesmos quanto a isso. Quando chegar a hora crucial, faça algumas perguntas para si mesma. A paixão é intensa e compartilhada? — Fiona anuiu ao ver Jolene corar. — Era o que eu pensava. Pude ver isso no olhar de Sigimor quando a fitava.

Trata-se apenas de desejo.

Sigimor não foi muito diferente de Ewan. Ainda bem jovem, aliviava a necessidade se era muito forte. Nada mais do que isso. De vez em quando arrumava uma confusão. Não teve amantes e não cortejou jovens de alta classe. Dormia sozinho. Exceção feita com lady Bárbara, um erro na juventude, não se envolveu com nenhuma mulher. Eu o observei bem e lhe garanto que nunca o vi tão preocupado com alguém. Não acho que seja apenas desejo.

Jolene observou os preparativos do marido para a partida.

Veja, Sigimor está com tudo pronto. Deixe-me enumerar logo o restante das perguntas que terá de fazer a si mesma. Ele faz todo o possível para lhe proporcionar conforto? Demonstra ser possessivo e tem ciúme? Conversa a respeito dos problemas? Fica furioso quando alguém a trata com desrespeito? Dá explicações se é solicitado a fazê-lo? É um bom ouvinte? Fica preocupado quando a vê triste? Fica à vontade e dá boas risadas em sua companhia? Ele a abraça durante a noite?

Jolene procurou guardar os itens na memória.

Essas coisas são importantes?

Muito. Eu gostaria de aconselhá-la melhor. Assim mesmo, prometa que responderá com muito critério a esses quesitos, antes de se decidir entre o sobrinho e o marido.

Eu juro.

Fiona abraçou-a. Sigimor aproximou-se e rodeou os ombros da esposa.

Pronto para partir, primo?

Tudo preparado, Fiona. Fingal contou que os rapazes estão mantendo Harold bem ocupado.

E injusto arriscar a segurança de outros — Jolene interveio. — O problema é meu, não deles.

Ninguém está em perigo. — Ewan chegou perto dos três e abraçou Fiona. — Eles se limitaram a provocar e a enganar o patife. Deixaram o inglês tonto. E vão prosseguir no esquema durante a noite toda. Até lá, a dianteira dos primos será bem grande.

É verdade — Sigimor anuiu. — Depois disso, Harold ainda terá de providenciar cavalos novos.

Jolene e Fiona reviraram os olhos ao mesmo tempo, diante da alegria dos maridos ao comentar o infortúnio de Harold. Sem avisar, Ewan adiantou-se e, a guisa de despedida, beijou a nova prima de maneira não muito fraterna. Imediatamente Jolene foi arrastada até o cavalo e jogada para cima da sela por um marido feroz. Ewan e Fiona sorriam com satisfação, de braço dado, por causa do ciúme demonstrado por Sigimor. Jolene refletiu que não ficaria surpresa em saber que Fiona e Ewan haviam planejado a cena só para ver a reação de Sigimor.

Na saída de Scarglas, Jolene olhou para trás e respondeu ao aceno de Fiona. Depois concentrou-se em manter o passo afinado com os Cameron. No momento tivera a resposta a uma das dez perguntas enunciadas por Fiona. Era das mais fáceis, pois Sigimor já revelara ser um homem possessivo. Com as dez questões respondidas, Jolene teria condições de calcular o que o marido sentia por ela. Jolene prometera a Fiona, por amizade, considerar os resultados. No momento entendeu que faria tudo por si mesma.

A saída furtiva de Scarglas lembrou-a de como a sua vida e a de Reynard estavam ameaçadas. Sigimor deixara Reynard com Liam, pensando no pior. Assim poderiam galopar a toda velocidade, se tivessem de escapar da perseguição de Harold. Eram sinais de incerteza que os rodearia enquanto Harold vivesse.

Sigimor diminuiu o passo e aproximou-se da esposa.

Não se afaste, Jolene. O sol vai demorar a surgir e será perigoso perder-se na escuridão.

Pode ter certeza de que ficarei por perto — Jolene assegurou ao marido. — Se eu achar que estou ficando para trás, amarrarei as rédeas na cauda do seu cavalo.

E se nos perder de vista?

Eu ficarei parada, sem me mover. — Jolene repetiu os ensinamentos que lhe tinham sido ministrados de maneira exaustiva por Sigimor, depois de ela ter sido apanhada por Harold. — Eu também poderia cantar um pouco.

E se sua voz for tão afinada quanto a minha?

Certamente não chegará nem aos pés da sua — Jolene zombou do marido.

Até mesmo um sapo canta melhor do que eu. — Sigimor piscou ao ver Jolene rir e ficou satisfeito ao comprovar que a tristeza começava a abandoná-la. — Gostou de Fiona, não é?

Muito. Já lhe aconteceu sentir afeição por alguém que acaba de conhecer?

Sigimor pensou em responder afirmativamente. Mas calculou que o local e o momento não eram adequados para uma declaração de tal monta.

Está falando em reconhecer um amigo desde a primeira vez que o encontrar? Jolene concordou com um gesto afirmativo da cabeça.

Isso mesmo. O tipo de pessoa que nos faz entender uma verdade muito simples. A maioria dos indivíduos que consideramos amigos na realidade não passam de simples conhecidos. Senti por Fiona uma ligação forte, imediata e profunda. Compreendi que nunca antes tive o privilégio de contar com uma amiga. Essa noção poderia ser considerada irrelevante. Afinal, eu tinha Peter.

Peter era o lorde e seu irmão. Não duvido da amizade que os unia, mas não devia ser a mesma coisa. Tenho um irmão gêmeo, Somerled. Não creio que dois irmãos possam ser mais chegados de que isso. Também faço parte de uma família grande e unida. Mas entendo a que está se referindo. E perceber que há um forte traço de união com um quase desconhecido.

Já lhe aconteceu isso?

Duas vezes. Com Liam, embora ele seja meu primo, e com Nanty. Para ser sincero, eu deveria incluir Ewan na lista. Senti o mesmo em relação a ele, porém mantive a cautela por causa do rompimento de relações entre as famílias e pela maneira como ele se apossou de Fiona. Ele raptou Fiona e a tomou como esposa sem consultar a família dela. Mesmo assim, eu não o matei.

Quanta bondade, milorde. Acredito que Fiona deve ter lhe agradecido pela decisão.

Ah, sim. Mas Connor ficou bastante desapontado por eu não ter, no mínimo, deixado algumas marcas no camarada.

E ele também não fez nada, não foi?

Não. Fiona já havia escrito para ele sobre Ewan e dito ter aceitado se casar com

ele.

Ah, e o fato de arriscar-se à fúria de Fiona, caso acabasse machucando Ewan,

nada teve a ver com a sua decisão de se conter.

Sigimor riu.

Sem dúvida, ela teria tentado me matar. — Ele notou que Jolene estreitava os olhos e, por sobre o ombro, perscrutava a escuridão. — Não, não estamos sendo seguidos. Acredito que chegaremos a Dubheidland antes que Harold retome a perseguição. Eles deixarão a pé as terras de MacFingal.

Jolene sorriu levemente e sacudiu a cabeça.

Sinto como se ele estivesse me ameaçando há meses, e não há dias. Eu não podia supor que Harold fosse tão cruel e capaz de tantas barbáries.

No começo, ele pretendia capturá-los por causa dos seus projetos mirabolantes. Agora, deve ter caído em desespero. Precisa dos dois para se proteger. Harold deve saber que, com o passar dos dias, aumenta a possibilidade de os parentes descobrirem suas maquinações. Nesse caso, o perseguido passará a ser ele.

Deus permita que isso aconteça.

Não posso concordar com esse ponto de vista. Se Harold descobrir que está sendo caçado pela família, sua vida, minha esposa, poderá estar em perigo ainda maior.

Como assim? Harold pretende me matar de qualquer maneira.

Mas não de imediato. Estava pensando em usá-la para consolidar o domínio dele sobre Drumwich. Se Harold souber que a família tomou conhecimento dos seus crimes, o casamento com lady Jolene de nada lhe adiantaria. Nesse caso, ele ficará com

uma idéia fixa. A de vingança. Não tenha a menor dúvida de que seu primo a culpará por todos os fracassos.

E a Reynard também? — Jolene sussurrou. O pavor de que Harold cometesse uma maldade contra o menino impediu-a de falar alto.

Acho que Reynard será poupado. Por tudo o que Harold tem feito e pelo que me contou sobre ele, penso que aprendi a conhecer o monstro que seu primo é e seu provável método de ação. Quando Harold desconfiar que perdeu a batalha, esquecerá Reynard. A menos que tenha em mente trocar a própria vida pela do menino. Não acredito nisso. Harold vai querer vingar-se de quem o enganou, de quem fugiu de Drumwich levando Reynard e os prisioneiros. De quem o fez percorrer a Escócia até perder a última chance de conseguir o que ambicionava. Desconfio que ele a verá como causa de todos os males e ferimentos, das horas de desconforto, do dinheiro gasto, de cada humilhação e indignidade sofridas.

Qualquer um que escutasse as palavras de Sigimor, poderia pensar que ele conhecia Harold havia anos. Seu julgamento era preciso. Harold a culparia por tudo o que saíra às avessas, desde que ele matara Peter. Seu primo haveria de querer fazê-la pagar um alto preço pelos erros que ele mesmo cometera. Era um pensamento aterrador que não deixava de arrepiá-la, mesmo com o consolo de saber que pelo menos Reynard estaria a salvo da sanha do monstro.

Jolene procurou afastar o medo que a assombrava. Não era o momento para vacilações. De uma maneira ou de outra, o final da provação estava próximo. Ela e os Cameron haviam feito, e continuariam fazendo, todo o possível para manter a si mesma e Reynard em segurança. Além do mais, tinha uma fé inabalável era Sigimor. Se ele não conseguisse derrotar Harold, ninguém mais o faria. O mais sensato seria manter o pensamento fixo na batalha que teria pela frente e esquecer a probabilidade de seu final.

Tem razão. Harold vai querer que eu arque com os prejuízos. Ele sempre foi um mestre em culpar os outros por tudo o que saía errado. Quando estivermos em Dubheidland, será a vez de Harold espiar por sobre o ombro.

Tem toda razão, Jolene. Por isso estou tão ansioso para chegar lá. — Sigimor chegou mais perto e acariciou-lhe a coxa. — E também por esse motivo galoparemos sem descanso até atingir os portões do castelo.

Ele afastou-se e foi falar com Tait.

Jolene suspirou e procurou não pensar em que estado ficariam suas nádegas no final da viagem.

Capítulo XIV

Santo Deus! Ela é inglesa!

Jolene fitou Somerled, o gêmeo de Sigimor, com um olhar fulminante. Haviam passado quase dois dias galopando sem trégua, pela urgência de chegar. Estava exausta, faminta, machucada e suja. Foi impossível manter o autodomínio. Não suportou o olhar estarrecido do homem que era uma cópia de Sigimor e que refletia a expressão de todos os Cameron ali reunidos.

Isso mesmo, sir, eu sou inglesa! Saxã! Irmã de um lorde inglês da fronteira.

Algum problema? — Irritada, afastou uma mecha de cabelos da testa.

Sigimor conteve a vontade de rir. A família perdeu o ar aterrorizado e espantou-se diante da fisionomia ameaçadora de Jolene. Na certa apiedavam-se dele, por causa da fera com quem se casara.

Jolene, por favor… — Sigimor começou, pacificador.

O que foi? — Ela mal o olhou e, furiosa, continuou a encarar Somerled. — Estou cansada de ver essa reação toda vez que conheço algum escocês! Pareço portadora de alguma doença contagiosa? A tão falada hospitalidade escocesa nada mais é do que uma boa dose de grosseria!

Ah, aqui está Nancy, nossa governanta de muitos anos. — Sigimor empurrou delicadamente a esposa na direção de uma mulher gorda e grisalha que se aproximara.

Ela providenciará um banho e roupas limpas. Mais tarde, depois de um pequeno repouso, terminaremos as apresentações. O que acha? Um sono reparador é mais do que necessário, depois do que enfrentamos.

Senhor meu marido, por favor, não fale comigo como se eu fosse louca — Jolene sibilou. — Onde está Reynard?

Liam o levou para o dormitório das crianças, pois o menino estava adormecido.

Ótimo. — Jolene fez uma pequena mesura para os homens presentes no grande hall, deu o braço a Nancy, que sorria, e deixou para trás a aglomeração. — Talvez até a hora do jantar, algumas pessoas tenham encontrado um pouco de cortesia.

Sigimor caiu na risada assim que Jolene desapareceu nos corredores de Dubheidland. Caminhou até a mesa principal, ocupou seu lugar e encheu um caneco de cerveja. Bebeu até saciar a sede. Naquele meio-tempo os irmãos haviam se sentado e os primos ficaram reunidos atrás deles.

Talvez eu tenha sido… digamos, um pouco ríspido — Somerled desculpou-se.

Mas que droga, Sigimor, ela é inglesa! Onde estava a sua cabeça quando se casou?

Em cima do pescoço! Eu a queria para esposa! — Sigimor suspirou e, diante dos olhares escandalizados dos parentes, contou toda a história. Desde o momento que atravessara os portões de Drumwich até a volta para Dubheidland. — Mais alguma pergunta?

Não houve tempo para os perplexos articularem questões. Liam irrompeu no grande hall e caminhou a passos largos rumo à plataforma. Sorriu para os desanimados e saudou todos com entusiasmo. Sentou-se e deixou vaga a cadeira que em geral ocupava ao lado de Sigimor. Um gesto óbvio de que a reservava para Jolene.

Será que perdi a parte costumeira "Santo Deus! Ela é inglesa!?" — Liam indagou, antes de encher o caneco com cerveja.

Sim, primo, perdeu — Sigimor respondeu. — E também a história da nossa aventura.

Fui falar com Nanty. Ele chegou antes de nós e calculou que já estivéssemos aqui. Disse ter ouvido comentários sobre o inglês que se dirigia para Dubheidland a toda velocidade. Dará mais detalhes pela manhã. Ele tornou a dormir, antes de eu sair do quarto. Nossos soldados manterão vigilância.

É essencial que todos fiquem de sobreaviso. Se o canalha puser as garras em Jolene e no menino, voltará voando para a Inglaterra.

Não se aborreceu pelo fato de Sigimor casar com uma inglesa? — Somerled perguntou a Liam.

De maneira nenhuma. Por que eu deveria ser contra uma jovem que me salvou de morrer enforcado?

Ela os salvou para que pudessem ajudá-la.

Lady Jolene teria feito o mesmo, ainda que não necessitasse da nossa ajuda.

Ela sabia que o irmão tinha mandado nos chamar e que nada havíamos feito de errado.

Contrair matrimônio com uma dama, qualquer que seja, só para evitar que ela se case com outro não me parece uma atitude inteligente.

Acontece que ela é bonita, bem-nascida, mais forte do que a sua aparência frágil possa sugerir e muito boa companhia. — Sigimor interferiu.

Ela é muito geniosa — Somerled afirmou, e vários parentes murmuraram concordâncias.

Jolene foi insultada, Somerled. Sorte sua ela ter se irritado. Se Jolene começasse a chorar, eu seria obrigado a dar algumas lições de amabilidade e uns bons socos em meu querido irmão gêmeo. Não vejo motivo para esse espanto coletivo.

Ora, talvez se perguntem por que um lorde escocês teria de se casar com uma inglesa. Poderia muito bem ter escolhido uma jovem escocesa nas melhores famílias. — Somerled não se conformava. — Ainda mais com a irmã de um lorde saxão!

É melhor que todos se acostumem com isso. — Sigimor fitou os parentes com dureza. — Ela é uma jovem indefesa que viu o irmão morrer gritando de dor. Depois teve de se esconder, junto com o sobrinho, do assassino de seu irmão. Passou três dias nos subterrâneos de seu castelo e ouviu os gritos dos que eram torturados. Harold queria forçá-los a revelar o esconderijo de Jolene. Ah, sim, eu ia me esquecendo! Ela é uma lady inglesa que salvou a minha vida, a de Liam, a de Tait, a de David, a de Marcus e a de Nanty.

Não discordo. Mas ela fez isso em troca de pagamento.

Tem razão. Lady Jolene queria que a ajudássemos a tirar o menino das garras de Harold, um canalha impiedoso. Nunca pediu mais do que isso. E estou de acordo com Liam. Ela teria nos libertado de qualquer maneira. Mesmo se houvéssemos recusado ajuda. Não tenho a menor dúvida disso. Contudo existe mais um pormenor que deve ser levado em consideração. Eu, Sigimor Cameron, quero ver Harold morto. Ele matou o homem que uma vez salvou a minha vida.

Sigimor esquadrinhou a assembléia com olhar estreitado.

Harold quer matar uma mulher e uma criança apenas por cobiça. Eu desposei Jolene por minha livre e espontânea vontade. A conspiração macabra de Harold me forneceu apenas um bom pretexto para levar Jolene diante de um sacerdote. Que, por sinal, foi muito difícil de ser convencido a realizar a cerimônia. Portanto escutem bem. Lady Jolene é minha esposa, uma Cameron. — Sigimor ficou satisfeito ao ouvir a aprovação entusiástica de Liam. — Daqui para a frente, só quero saber de estratégias para liquidar Harold, o Usurpador.

Depois de alguns minutos de silêncio pesado, ouviu-se a voz de um adolescente:

Nós mataremos o patife, antes que ele encoste um dedo na nossa lady.

Sigimor voltou-se para Fergus, seu irmão mais novo de quase treze anos. Alto e magro, era o irmão, exceto Somerled, que mais se parecia com ele. O rapazote, nervoso pelos olhares reprovativos que recebia, começou a mexer-se no assento. Sigimor presenteou-o com um largo sorriso, comovido por sua rápida aceitação da cunhada estrangeira. Teria de certificar-se de que o menino não seria molestado por essa atitude arrojada.

Isso mesmo, Somerled — Fergus encorajou-se diante do apoio do irmão mais

velho. — Lady Jolene é apenas uma jovem indefesa que fez de tudo para salvar uma criança.

Obrigado, Fergus. — Sigimor levantou-se. — Somerled, preciso tomar um banho e descansar um pouco. Caso contrário não encontrarei forças para descer e jantar. Terá tempo suficiente para deixar de lado seus preconceitos tolos e refletir sobre as maneiras de evitar que lorde Harold faça algum mal à minha esposa e ao seu sobrinho.

Não está nem um pouco preocupado com essa história? — Somerled insistiu com Liam.

Não. Se os observar por algum tempo, compreenderá por quê.

Ainda acho um motivo muito fraco casar-se com uma mulher só para livrá-la de outro homem.

Ah, sem dúvida. A menos que se use esse motivo com todo o empenho para forçar um sim. — Liam deu um sorriso torto diante da carranca de Somerled. — Claro que tem todo o direito de ficar desconfiado. Mas logo haverá de concluir que tudo está bem. Pare de criticar Sigimor. De nada adiantará e só lhe trará a inimizade de seu irmão. O velho Fingal já tentou de tudo. Até mesmo quis fazer Sigimor voltar a interessar-se por lady Bárbara MacLean, uma bela escocesa. Ela está viúva e tem perguntado a respeito de Sigimor. Porém no momento, a maior ameaça ao enlace deles é Harold, que logo estará rondando Dubheidland.

E haverá de morrer por isso! — Somerled sentiu o sangue dos Cameron falar mais alto e contou com o grito de apoio de vários parentes. — Como foi que o deixaram para trás?

Muito simples. O camarada perdeu os cavalos na propriedade dos MacFingal.

Liam gargalhou e logo foi imitado por outros.

Harold tomou a cerveja amarga trazida pela garçonete gordota. Todos os fregueses da taverna mal iluminada fitavam o grupo com expressão pouco amigável. Não podia culpar seus homens que só pensavam em sair dali o mais depressa possível. Se não fosse pela premência de conseguir cavalos, nem mesmo teria parado naquela estalagem escocesa.

Milorde, vamos ter encrencas — Martin comentou, sentando-se em frente a Harold.

Acha mesmo? — Harold tomou mais um gole da bebida fermentada, para sufocar a vontade de esbravejar. — Tivemos de entrar em um país habitado por bárbaros. Aqueles MacFingal imundos roubaram nossos cavalos e nossos mantimentos. Temos sido enganados todas as vezes que tentamos comprar cavalos e comida. Cada um dos sujeitos aqui presentes teria o maior prazer em cortar nossas gargantas. E o senhor me diz que vamos ter encrencas? Pelas barbas do profeta, o que foi que aconteceu até agora, seu idiota?

Aborrecimentos de menor monta, se o que eu ouvi for verdadeiro — Martin retrucou com calma, depois da rapariga servir mais cerveja e afastar-se.

Os Cameron decidiram nos enfrentar como homens?

Não. Estamos sendo seguidos. Dizem as más-línguas que não somos os únicos ingleses a tomar o rumo de Dubheidland.

Harold apoiou um cotovelo sobre a superfície irregular da mesa e descansou a testa na palma da mão. Praguejou, da maneira mais profana que conhecia, durante alguns minutos. Considerou uma injustiça que o mundo se desintegrasse ao seu redor. Ele se instalara em Drumwich e se livrara de Peter com muita facilidade. Deveria ter sido suficiente, mas não fora. Tivera de percorrer aquele país amaldiçoado, arrastando atrás de si um bando de homens que se tornavam cada vez mais rebeldes. Pagara o valor de um corcel bem treinado por uma égua desdentada. Desembolsara uma quantia polpuda

para comprar aveia e queijo.

Não foi difícil decifrar o enigma a respeito de quem os seguia. Os Gerard, seus parentes, haviam descoberto o que acontecera em Drumwich. Ele experimentara apenas um leve gosto do sonho acalentado havia tanto tempo e que, naquele momento, se desfazia em pó. Harold sabia muito bem a quem culpar.

Matarei aquela excomungada! — ele sussurrou com voz rouca de ódio. — Aos poucos. Sem piedade.

Ah… — Martin anuiu. — O desejo finalmente se consumiu na própria chama. Harold endireitou-se e fez um sinal para a criada trazer mais cerveja.

Nada disso. A ânsia continua firme e forte. — Harold esperou a moça encher o caneco, pegar a moeda e afastar-se. — Preciso arquitetar um plano. A maldita estragou tudo. Eu daria a ela de bom grado o poder que tive nas mãos. A desgraçada me deixou na sombra do cadafalso, mas eu a farei lembrar de cada obstáculo que encontrei pelo caminho. E tirarei bom proveito, antes de lhe cortar o pescoço.

Existe uma possibilidade de os ingleses não estarem atrás de nós. Há muitos motivos para a presença deles e nem sempre as histórias são contadas com exatidão.

Martin, sabe tanto quanto eu que isso não é verdade. Eles querem a minha cabeça. Se não for isso, pretendem resgatar Jolene e o garoto. Nesse caso, terei apenas um breve período de sossego, antes de ela os mandar à minha procura.

Um tumulto na entrada atraiu a atenção dos circunstantes.

Harold arregalou os olhos. Uma mulher caminhou até a lareira, perto de onde ele e Martin estavam sentados. Ela tirou o manto e jogou-o para o homem magro que a acom- panhava. Harold disse a si mesmo que era a primeira visão agradável que ele tinha naquele país povoado por selvagens. Alta e voluptuosa, era o tipo de mulher que despertava imediatamente os instintos masculinos. Muito bonita, feições perfeitas, loira e olhos azuis cintilantes. A julgar pelo traje azul-marinho suntuoso e pelas jóias, não devia pertencer à plebe. Harold felicitou-se por haver tomado um banho e trocado de roupas, enquanto seus homens tentavam comprar cavalos.

Poderemos alugar um quarto e sair amanhã bem cedo — o jovem afirmou. — Será bom voltar para casa. — Ele pendurou a capa da mulher em um gancho ao lado da lareira.

Teremos de fazer mais uma parada, Donald — ela comentou, enquanto aquecia as mãos diante das chamas.

Donald praguejou e fitou-a com desgosto.

Ainda não desistiu dessa tolice? Sabe muito bem que ele não é rico.

Tem mais dinheiro do que eu.

Quanto a isso, até eu sou mais abonado…

Iremos até Dubheidland e ponto final. Preciso de um marido, Donald. Em breve precisarei até de um teto. E isso também atingirá você.

Nada disso. Irei procurar minha irmã. Ela não me negará abrigo, por quanto tempo eu quiser. — Donald sacudiu a cabeça. — Não fique esperançosa, Bárbara. Minha irmã ficará feliz em ver a prima pedindo esmolas pelas ruas, depois de ter descoberto que a senhora dormiu com o marido dela. Sigimor Cameron também não a receberá de braços abertos, depois do que fez com ele. Pelo que ouvi dizer, Sigimor não esquece facilmente uma traição. Haja vista a pouca atenção que ele lhe concedeu nas poucas vezes em que foi abordado pela senhora nos últimos dez anos.

Não sei por que tenho de agüentar a sua companhia, Donald!

Então não devia ter insistido para eu vir junto. Por acaso teve medo de viajar desacompanhada?

Ah, deixe de bobagens! Preciso me esquentar e comer alguma coisa. Depois iremos direto para Dubheidland. Chegaremos lá antes do anoitecer. Não pretendo gastar dinheiro nesta hospedaria nojenta.

Sigimor Cameron fechará os portões para nós.

Ele não fará isso. — Bárbara sorriu e tirou uma mancha de poeira da saia. — Ele se lembrará das pessoas às quais estou ligada e não vai querer ofendê-las.

Acredita que Sigimor não sabe que os seus aliados a abandonaram? Bárbara, ele não é um eremita.

Confie em mim. Sigimor permitirá a nossa entrada. Preciso apenas encontrar uma maneira de ele nos hospedar por mais de uma noite.

Milady, talvez eu possa lhe ser útil — Harold ofereceu-se e o casal fitou-o com espanto.

Milorde é inglês! Como poderá me ajudar? E por que está oferecendo seus préstimos?

Porque tenho interesse em algo que se encontra em Dubheidland.

O que é?

A esposa de Sigimor Cameron.

Então ele se casou? — Donald sacudiu a cabeça. — Isso coloca um ponto final em todos os seus planos, Bárbara.

Ela não deu atenção ao primo. Reconheceu no inglês uma esperteza muito semelhante à sua.

Tem certeza de que estamos falando do mesmo homem? Sigimor Cameron, lorde de Dubheidland, está casado?

Por enquanto. — Harold bebericou a cerveja e aguardou que Bárbara entendesse as entrelinhas. Ficou em pé e apresentou-se. Apontou Martin e explicou de quem se tratava. Esperou Bárbara dar-se a conhecer e identificar o primo. — Podemos conversar, milady?

Harold sorriu após alguns instantes. Lady Bárbara anuiu e mandou o primo trazer duas cadeiras, que foram postas junto à mesa dos ingleses. Harold refletiu que aquela mulher caíra do céu. Ela faria qualquer coisa para atingir seus objetivos. Pela primeira vez, desde que soubera do casamento de Jolene com o lorde de Dubheidland, sentiu o ódio abrandar-se. Dar uma surra no padre e tê-lo deixado à morte não tivera um efeito apaziguador. Por meio dessa estranha, poderia vingar-se de Jolene por tudo que ela o fizera perder.

Jolene arregalou os olhos diante do belo vestido verde-escuro que Nancy estendeu na cama. O curioso era constatar que lhe serviria muito bem. O mais preocupante, descobrir a quem pertencera.

De quem era?

Nancy sorriu com ar entendido.

Com ciúme, hein? Muito bom, muito bom. — Nancy não fez caso da negativa murmurada. — Era da irmã de milorde. Apesar de ter emagrecido bastante depois do nascimento dos filhos, muitas roupas deixaram de lhe servir, por causa das modificações sutis que acontecem no corpo de uma mulher. Ela deixou os trajes aqui, com a idéia de que poderiam servir para alguém. E talvez para ela mesma, se não tivesse o que usar durante uma visita inesperada.

É maravilhoso! — Jolene extasiou-se com a textura suave da lã.

Milady ficará linda vestida com ele. Será um deleite para os olhos de milorde. Os outros, todos uns bobos, ficarão boquiabertos.

Talvez fosse melhor eu comer no quarto. Isso permitiria mais tempo aos parentes de Sigimor para se acostumarem com a idéia de que ele está casado e, Santo Deus, com uma inglesa!

Jolene observou o aposento quase espartano. A única concessão à suavidade ficava por conta de um tapete de pele de carneiro colocado diante da lareira.

E, está precisando mesmo de um toque feminino — a velha governanta

adivinhou-lhe os pensamentos e ajudou-a a sair da cama.—Aliás, como todo o castelo de Dubheidland.

A mobília é muito bem-feita. — Jolene passou os dedos nos entalhes dos balaústres maciços da cama. — Estranho que as mulheres do falecido lorde Cameron não tenham deixado marcas da sua passagem por aqui.

E possível encontrar vestígios da presença delas no solar, nas cozinhas e na cabana das ervas. O resto do castelo ficava por conta dos rapazes. O quarto de Ilsa também possui atmosfera feminina. Ela e o marido ocupam aquele aposento quando vêm para cá. Assim como as poucas damas que nos visitam. Dubheidland sempre foi um reino masculino. A maioria das mulheres que prestam serviços no castelo nem dorme aqui. Talvez elas o façam agora que milorde tem uma esposa. Bem, vamos ver se esse traje lhe serve. Milorde já deve estar à sua espera, milady.

Jolene gostou da mudança de assunto. Começava a sentir-se culpada com as insinuações do que poderia fazer como senhora de Dubheidland. Ansiava por terminar aquele calvário, mesmo sabendo que o fim poderia significar a ruptura do casamento com Sigimor. Queria ver Harold morto e enterrado. Precisava saber quem seria escolhido como tutor de Reynard. Teria de conhecer suas opções, para decidir. E independentemente do que decidisse, o sofrimento se faria presente. Quanto antes recebesse o golpe, melhor. Não teria de temê-lo mais.

Milady, para que preocupar-se tanto? — Nancy trançou os cabelos de Jolene, prendeu-os para cima e cobriu-os com um véu verde-pálido. — A senhora está linda. Não dê atenção às caras feias nem aos murmúrios. São todos bons rapazes, apesar de um pouco tolos, mas não gostam de surpresas. E estão preocupados com Sigimor, embora milorde detestasse saber disso.

Jolene percebia que Nancy procurava deixá-la à vontade, porém a última afirmação não lhe agradou. Acompanhou Nancy até o grande hall e teve certeza de que seria odiada por aquela multidão de Cameron se decidisse ficar ao lado de Reynard. No mínimo, seria humilhante para Sigimor ser abandonado pela esposa, que decidira regressar à Inglaterra. Além da infelicidade pela atitude drástica que tomaria, Jolene ainda teria de contar com a maldição dos Cameron. E, sem dúvida, os MacFingal engrossariam o coro. Só em pensar na fúria que desencadearia, teve vontade de voltar para a cama e esconder-se sob as cobertas.

Sigimor a esperava na entrada do grande hall. Ele usava uma manta escocesa em vermelho e branco, camisa branca e botas de pele de gamo. Jolene teve de recriminar-se pela vontade de suspirar como uma adolescente. Seu marido era alto, bonito, forte, imponente. Com uma pincelada de barbárie. Tudo o que uma mulher poderia desejar. Se tivesse de abandonar Sigimor, aquela seria a imagem do marido que guardaria na memória até o fim de seus dias. E sem a menor dúvida, todas as lembranças viriam acompanhadas por um sentimento de perda.

Jolene envaideceu-se pelo olhar apreciativo e pelo sorriso com que o marido a recebia. Encorajada, caminhou até ele de cabeça erguida e deu-lhe a mão. Sigimor olhou- a de novo, dessa vez como cenho franzido.

O que é isso na sua cabeça? — ele perguntou. — Por que está escondendo os cabelos?

Uma dama casada deve esconder os cabelos — Nancy afirmou o que Sigimor deveria saber.

Não gosto disso. — Sigimor desprendeu o véu dos cabelos de Jolene e entregou-o a Nancy. Também preferia a trança longa que a esposa usava antes, mas decidiu deixar a censura para depois. Nancy começava a mostrar-se ofendida. — Explique-me tudo mais tarde. Se existirem costumes intrínsecos à condição de esposa, Jolene poderá segui-los quando for à corte ou coisa parecida. Aqui, em família, não será necessário nada disso. Este é Fergus. — Apresentou o irmão mais novo, que se movia

furtivamente atrás dele. — O bebê da família. — Fergus fitou Sigimor com raiva e este piscou para Jolene. — Ele pediu para sentar-se a seu lado.

Eu ficarei muito honrada. — Jolene sorriu para o rapaz imberbe, que era bem mais alto do que ela.

Enquanto caminhavam rumo à mesa principal, Jolene respondia ao questionário de Fergus sobre Reynard. O rapaz estava fascinado pelo fato de um menino tão pequeno ser barão e conde. Jolene falava e observava os homens reunidos no imenso saguão. Teve a impressão de que o choque inicial cedera. Em seu lugar instalara-se uma precaução visível em todos os rostos. Quem mais a desconcertou foi Somerled. Ele se levantou quando ela se sentou à esquerda de Sigimor, e aquela foi a única cortesia concedida. Não era possível duvidar que Somerled não a aprovava como pessoa nem como esposa do irmão.

Os cumprimentos e sorrisos simpáticos de Liam, Tait, David e Marcus não a acalmaram. Não adiantaria contar com eles e nem com outros, quando chegasse o momento decisivo. Imaginar como eles se sentiriam e reagiriam deixou-a com humor negro.

Jolene esforçou-se para comer o que Sigimor empilhara no prato e desconsiderou os olhares fixos nela. As conversas giravam em torno do que acontecera durante a ausência do lorde de Dubheidland. Ela pôs-se a avaliar o grande hall. Era bem mobiliado. Bancos, cadeiras estofadas e mesas de carvalho maciço. As cadeiras eram em número bem maior de que as encontradas nos mais exclusivos saguões londrinos. As melhores travessas, os talheres mais finos e os canecos mais bonitos não eram de uso exclusivo da mesa principal. Armas da melhor qualidade decoravam uma das paredes. Na outra extremidade, em cima da lareira enorme, uma tapeçaria grande e ricamente bordada, representando uma batalha. Segundo os padrões ingleses, os Cameron de Dubheidland não podiam ser considerados ricos. Mas estavam muito longe de serem pobres.

Jolene ficava tensa diante do olhar de Somerled. Ele abriu a boca, porém nem chegou a falar. Ouviu-se uma agitação do lado de fora. Jolene sentiu-se aliviada por um momento. Nisso, a porta foi aberta e uma loira alta, bonita e sensual entrou no grande hall de Dubheidland. Jolene fitou Sigimor de relance. A expressão de desalento e fúria do marido deu-lhe a certeza de que se tratava de lady Bárbara MacLean.

Jolene apertou a faca com força. Sigimor disse a Somerled de quem se tratava e ergueu-se para cumprimentar a visitante. A maneira com que lady Bárbara se derreteu em cima de Sigimor deixou Jolene com ânsia de vômito. Sigimor ajudou a beldade a andar até uma poltrona próxima da lareira. A mulher sentou-se e segurou as mãos de Sigimor. Jolene não suportou mais aquela visão. Sem pressa, ficou em pé e andou até onde o par se encontrava, mal notando a presença de Fergus a seu lado.

O que aconteceu com ela? — Jolene perguntou, enfurecida e desconsolada diante da beleza da outra.

Diz ela que os três foram assaltados por ladrões. — Sigimor gostou da fúria da esposa. — Durante o entrevero, ela machucou um tornozelo ou a perna. Não entendi muito bem.

Bárbara deu um grito agudo quando Jolene levantou-lhe a saia e as pernas ficaram expostas. Nada além de algumas escoriações na perna direita. Mesmo sem ser especialista no assunto, as contusões leves despertaram as suspeitas de Jolene. Não pareciam ser ferimentos oriundos de uma queda ou de um ataque. Os dois homens que a acompanhavam tinham as roupas um pouco amassadas e alguns arranhões nas faces. Jolene encarou lady Bárbara e teve certeza de que a outra representava. E que o fingimento fazia parte de um jogo.

O que vai fazer, Jolene? — Sigimor perguntou com calma, ao ver que a esposa tirava o punhal do bolso da saia.

Eu estava julgando a extensão dos ferimentos. — Jolene notou que Bárbara

cobria as pernas com extrema lentidão. — Quando um osso permanece exposto, temos de cortá-lo, para que ele não apodreça o membro todo. — Estreitou os olhos ao ver Bárbara agarrar novamente as mãos de Sigimor. — Muitas vezes é necessário cortar um ou dois pedaços.

Pode usar a minha faca — Fergus ofereceu. — Ela é maior.

Sigimor conteve-se para não rir. Não fez caso das testas franzidas da esposa e do irmão e ordenou-lhes que pedissem a Nancy para preparar acomodações destinadas aos hóspedes. Embora satisfeito pelo ciúme que Jolene revelara, a inquietude também se fez presente. Bárbara sempre fora indício de problemas, e ele não queria saber de conflitos em seu casamento. Depois da saída de Jolene, imaginou quanto teria de ser hospitaleiro para não ofender os brios da família de Bárbara e de seus poderosos aliados.

Capítulo XV

Sigimor, o que essa inglesa faz aqui? — Bárbara indignou-se. — Ela está me ameaçando com um punhal!

Para sermos mais exatos, ela está apenas segurando um, sem fazer nenhuma pontaria. — Sigimor ouviu sons engasgados. Somerled e Liam, que haviam se aproximado, continham a custo as risadas. — E essa inglesa é minha esposa.

Bárbara pareceu chocada, mas Sigimor não se convenceu da veracidade do espanto. Ela pressionou os seios fartos com uma das mãos, e o gesto pareceu calculado. Na certa era como Bárbara costumava fazer para atrair as atenções masculinas para o busto tão admirado. Mesmo sem entender o porquê, Sigimor teve certeza de que ela soubera de seu casamento. Estranhou a rapidez com que Bárbara chegara a Dubheidland, já que saíra de Scarglas havia menos de uma semana.

O que o fez se casar com uma saxã?

Pelo que me consta, lady MacLean, o assunto não é da sua conta. Bárbara procurou ocultar o lampejo de ódio com uma atitude típica.

Agora, faça-me o favor de contar o que aconteceu, sem todos aqueles lamentos.

Sigimor escutou a história e depois fitou Donald. — É tudo?

É. — Donald não se mostrou disposto a acrescentar detalhes.

Donald era parecido com Bárbara. Bonito, feições perfeitas, olhos azuis e cabelos loiros. Porém era mais alto, mais esbelto e dava a impressão de estar mal-humorado. Sigimor teve a intuição de que a rabugice não se devia somente à briga com os ladrões. Teria sido envolvido contra a vontade em algum plano de Bárbara?

Pelo que os MacFingal haviam contado, Sigimor deduziu que ela teria vindo até ali para atraí-lo. Entretanto pareceu-lhe uma tolice, indigna de uma mulher esperta, fazer tamanho esforço só para ser considerada adúltera. Se o sexto sentido lhe dizia que Bárbara tinha conhecimento de seu enlace, era provável que ela não encarasse o matrimônio como um ato válido, pelo fato de Jolene ser inglesa. A idéia se justificava. Os tribunais e a Igreja da Inglaterra concederiam facilmente uma anulação a uma inglesa casada com um escocês.

Pelo que vi, seus ferimentos não são nada graves. Não terá de manter repouso. Irei buscar um drinque. Precisará esperar um pouco para que os quartos sejam preparados.

Sigimor não tomou conhecimento das tentativas obstinadas de Bárbara para atrair- lhe a atenção. Voltou à mesa principal, seguido por Liam e Somerled.

Quem é aquela mulher? — Somerled perguntou.

Eu a conheci há dez anos. — Sigimor limpou três canecos vazios com um guardanapo de linho. — Tolices de jovem. Ela se casou com um velho senhor rico que faleceu há pouco tempo.

Deixou a viúva com dinheiro?

Acho que não. — Sigimor revelou a conversa que tivera com o velho lorde MacLean dois anos antes.

Por isso ela procura outro marido e se lembrou do antigo amante. Agora entendo o jogo para conseguir hospedagem aqui.

Também não acreditou na história dela?

Não. Ladrões são raros por aqui. E se alguém estivesse disposto a perturbar a região, não seria tão gentil com as vítimas.

Tem razão — Liam concordou. — Teria deixado os três em bem pior estado do que eles alegam estar. Ou poderia tê-los matado.

Era nisso que eu estava pensando. — Sigimor encheu os canecos com vinho.

Fiquei tentado a expulsá-los.

E por que não o fez?

Lady Bárbara tem amigos e família influentes. A menos que houvesse motivo excepcional, eu não ousaria recusar-lhe hospitalidade. Bárbara os faria sabedores do fato que, naturalmente, seria aumentado de forma assustadora. Eles não são pessoas que se deva irritar ou ofender.

Então teremos de ficar com a mulher por um tempo — Somerled concluiu. — Quem sabe se não irá embora depressa, por ter descoberto que o antigo amor não está mais solteiro.

Nada me agradaria mais — Sigimor garantiu —, mas duvido muito que Bárbara tome essa decisão. Acredito que ela já soubesse que eu estava casado.

Por que essa encenação toda? Ela não vai ganhar nada com isso. A não ser que meu ilustre primo rompa as próprias normas e decida que o adultério não é um pecado tão grande.

Isso não acontecerá. E muito menos com aquela desclassificada. Quando a conheci, Bárbara já era uma mulher experiente. E se tudo o que eu soube dela depois disso for verdade, admiro-me que ainda não tenha ficado com as pernas tortas. Tomem cuidado, garotos. Ela é terrível.

Não somos lordes e nem dispomos de riquezas — Liam declarou. — Seríamos uma péssima escolha para uma mulher daquele naipe.

Isso depende do grau de desespero dela. Tentem aproximar-se de Donald. Seja qual for o plano de Bárbara, ele não me pareceu de acordo. Embora tenha sido uma espécie de brinquedo de estimação durante anos, Donald não tem a mesma índole de Bárbara. Ele poderá deixar escapar algo. Aposto que há alguma coisa por trás da fachada de caça-maridos.

Sigimor levou o vinho para os hóspedes indesejáveis. Respondeu por monossílabos às tentativas de lady Bárbara de entabular uma conversa. Aborreceu-se com a contumácia da mulher em referir-se ao relacionamento passado deles. Mas enquanto falava, ela não deixava de mirar Liam de revés. Bárbara não resistia aos encantos de um homem, ainda mais um tão atraente como Liam. Mas ela era esperta e sabia que deitar-se com Liam poderia levar ao naufrágio a oportunidade de tornar-se a senhora de Dubheidland. Sigimor refletiu que nem ela mesma avaliava por quanto tempo poderia resistir à tentação. Se Bárbara não fosse sinônimo de confusão certa, ele até poderia achar graça nos conflitos em que a mulher se debatia.

Suspirou, aliviado, quando Nancy veio anunciar que o recinto dos hóspedes fora preparado. Bárbara não lhe deu tempo para pensar. Atirou-se nos braços dele, e Sigimor teve de carregá-la até os aposentos indicados pela governanta. Foi estranho sentir simpatia pelas expressões sombrias de seus parentes. Sua família poderia não ter recebido Jolene com boa vontade, mas a desaprovação às atitudes de Bárbara demonstrava que a semente da aceitação já fora plantada. Confiava que a própria Jolene faria o germe se desenvolver.

No quarto, Sigimor descobriu que Bárbara era bem mais forte do que aparentava ser. Sentou-a na cama e ela quase o derrubou por cima de si mesma, agarrada no pescoço dele.

Como faria para desvencilhar-se daquele abraço apertado? Sigimor tirou as mãos da cama e segurou-lhe os pulsos.

Largue-me, Bárbara. — Procurou controlar a raiva que fermentava. A mulher, insinuante, esfregou-se de encontro a ele. — Agora.

Por que essa frieza comigo, Sigimor? Será que não se lembra mais dos bons momentos que tivemos juntos?

Sigimor fitou o belo rosto e as curvas provocantes. O sonho da juventude já não existia. Aquela beldade não despertava nele nenhuma emoção positiva. Mesmo que fosse um homem livre, duvidava que ela conseguisse atraí-lo.

Estou casado. — A afirmação foi acompanhada por um aperto maior nos pulsos e Bárbara estremeceu.

Com aquela saxã esquálida e morena?

Cuidado, Bárbara. Não tolero insultos à minha mulher.

Sabe tão bem quanto eu que não tem de se manter fiel a esse casamento. A anulação pode ser conseguida facilmente. Venha, meu bravo cavaleiro, permita-me recordá-lo do que desfrutamos juntos no passado.

Se Bárbara o beijasse, na certa se desiludiria com a frieza por ele demonstrada. No instante anterior ao beijo, viu-a mirar a porta de relance. Sigimor atirou a cabeça para trás e apertou os pulsos dela com tanta força que a fez sufocar um grito. Mas Bárbara não o soltou. Sigimor proferiu uma imprecação, e Jolene aproximou-se.

Jolene percebeu o agastamento do marido em conseqüência da captura a que estava sendo submetido. O que não serviu nem um pouco para aplacar-lhe o ciúme. Em outra ocasião ela poderia até achar graça diante do horror que via nos olhos verdes de Sigimor. Naquele momento, não soube decidir qual dos dois mereceria morte mais dolorosa. Notou a expressão de triunfo de Bárbara e resolveu não satisfazer a ladra de maridos.

Sigimor, eu vim até aqui para me certificar de que os nossos hóspedes foram bem atendidos. — Jolene orgulhou-se da calma com que falava. — Pelo visto, sua idéia foi a mesma, não é verdade?

É, sim, Jolene. Só que ainda não consegui me soltar. Acho que lady Bárbara deve estar com tontura — ele ironizou.

Jolene acreditava ou não em suas palavras? O rosto impassível de sua esposa era uma incógnita.

O golpe de Jolene foi tão ligeiro que Sigimor nem percebeu o que acontecia. Mas surtiu o efeito desejado. Bárbara deu um gritinho e soltou o pescoço de Sigimor. Com lágrimas nos olhos, a loira passou a mão na axila, onde Jolene a atingira.

Deixo-o agora, senhor meu marido. Por favor, certifique-se de que nada está faltando para a nossa hóspede. Avise-me se ela quiser fazer curativos nos ferimentos.

Sigimor viu-a sair e refletiu na voz doce, na cortesia e na fúria de Jolene. Teria de explicar muito bem o cenário que ela encontrara, se pretendia uma permissão para entrar na cama da esposa naquela noite. Bárbara já começava a causar distúrbios. E o biquinho que ela fazia deixava-o cada vez mais irritado.

Sigimor, sua mulher me machucou. — Bárbara fungou como uma criança pronta para chorar. — Isso é uma crueldade.

Foi muito bem merecido.

Sigimor! Como pode falar assim comigo depois do que houve entre nós?

Lady MacLean, não me lembro de nada, a não ser de alguns encontros com finalidade meramente sexual. Se milady não tivesse aliados e parentes tão poderosos, eu a teria deixado apodrecer do lado de fora dos meus portões. Eu soube de tudo a seu respeito, depois daquele dia em que encontrei o jovem Douglas aninhado entre as suas coxas. A senhora tem deixado um rastro de infelicidade por onde passa. Mas não fará isso aqui, lady Bárbara. Poderá ficar em Dubheidland até eu achar que está recuperada ou até eu descobrir se ainda conta com alianças. — Sigimor foi até a porta e deteve-se com a mão na tranca. — Se alguma coisa acontecer com minha esposa, garanto-lhe que vai se arrepender amargamente por haver começado esse jogo.

Sigimor dirigiu-se ao grande hall, a passos largos. Sentou-se em seu lugar e serviu-se de cerveja.

Já a acomodou? — Liam quis saber.

Deixei a sem-vergonha no quarto, e, se ela for esperta, sairá daqui antes que seja expulsa. — Sigimor recostou-se no espaldar da cadeira e tomou um grande gole de cerveja.

Precisamos saber dos últimos acontecimentos e mandar espiões com maior freqüência à corte do rei.

Por que esse interesse súbito nos assuntos reais? — Somerled mostrou-se curioso.

Se eu souber que Bárbara não conta mais com o apoio de aliados e parentes, poderei escapar dessa armadilha. Se ela rompeu com eles ou eles a descartaram, poderei mandá-la embora. Recordo-me que tínhamos sucesso quando resolvíamos descobrir intrigas e bons relacionamentos. Mas era sempre um item por vez. Acredito que desta vez não seremos tão seletivos.

É uma boa idéia, ainda mais que as ocorrências vêm se modificando com muita rapidez — Somerled concordou.

A sua sugestão poderá trazer-nos maior segurança, sem termos de pagar um preço alto por isso.

E pelo que se pôde perceber nos relatos de Sigimor, lady Bárbara costuma agir de maneira proposital, tentando criar desordens — Liam conjeturou.

Como foi bem-sucedida algumas vezes, ela não desistiu de tentar — Sigimor declarou. — Eu mesmo sou uma prova disso. Bem, haverei de descobrir quais suas verdadeiras pretensões.

O que ela fez hoje? — Liam escutou o relato de Sigimor e espantou-se. — Essa mulher não perde tempo. Ela é mesmo uma vadia. Por que deixou Jolene sozinha depois de tudo?

Sigimor suspirou.

Sei que não deveria ter feito isso. Mas eu precisava pensar um pouco, antes de falar com ela. É possível que Bárbara esteja procurando um marido. Mas o fato de eu ter uma esposa não a fez desistir do intento. Isso não faz sentido.

Ela deve estar pensando em se livrar de Jolene, forçando-a a voltar para a Inglaterra — Liam supôs.

Ainda assim, Jolene continuaria sendo minha esposa.

Qualquer um dos dois seria atendido sem demora se pretendesse anular o casamento. Mesmo que não saiba disso agora, Jolene seria informada do fato, assim que voltasse para a Inglaterra.

Sigimor detestava pensar na facilidade com que Jolene poderia livrar-se dele, se quisesse.

Foi o que Bárbara afirmou. Agora me ocorre uma questão. De onde ela tirou esse conhecimento? Será que foi orientada? Senhores, não posso afastar a idéia de que não foi apenas a procura de um marido que trouxe Bárbara a Dubheidland. Será que ela me considera tão simplório a ponto de cair novamente na sua armadilha?

Mulheres como Bárbara acreditam muito em si mesmas. Por isso ela achou que o atrairia, como fez com tantos outros que cederam aos seus encantos. Lady Bárbara enganou um grande número de homens. Não me espantaria descobrir que ela nos considera uns tolos.

Como eu já fui idiota uma vez, justifica-se pensar que poderia repetir a dose.

Ainda não nos disse o que ela representou na sua vida — Somerled argumentou. — Nem me recordo de tê-lo ouvido pronunciar esse nome.

Isso aconteceu quando você, meu irmão, percorria o país à procura de meios para encher nossos cofres. Uma tarefa que, aliás, foi muito bem-sucedida. Muito obrigado.

Disponha. Agora conte-nos sobre Bárbara. Se soubermos de quem se trata, será mais fácil entender por que ela imagina que poderá fazê-lo capitular.

Sigimor inspirou fundo e, de maneira sucinta, contou o que acontecera entre ele e Bárbara. Agradou-lhe descobrir que o relato não o aborrecia. Ficou satisfeito por comprovar que Liam e Somerled demonstravam simpatia pelo jovem ingênuo que se

deixara enredar por uma mulher experiente. Talvez eles tivessem histórias semelhantes guardadas a sete chaves.

Bárbara deve presumir que será necessário apenas fazer algumas concessões para reparar o passado — Somerled deduziu. — Ela pode atribuir o fato de ter sido rejeitada após o casamento ao receio que alguns homens têm de comprometer a reputação.

Não creio nisso. É mais do que evidente que Bárbara não espera que eu mantenha meu juramento matrimonial.

Ela também pode ter conhecido vários homens que não se importavam com as leis de Deus.

É verdade. — Sigimor terminou a bebida e levantou-se. — Isso não vai nos levar a nada. O que me aborrece é não atinar com o que está escondido atrás da encenação levada a efeito por ela.

Como sugeriu, manteremos contato com Donald — Somerled afirmou. — Amanhã cedo, começaremos a procurar por Harold. Acha mesmo que ele não desistiu da perseguição?

Tenho certeza. Harold deve estar decidido a vingar-se. Ele vai querer punir Jolene por tudo o que sofreu. E ainda deve estar com intenção de se casar com ela, para legitimar seus direitos sobre tudo o que roubou. Mas agora não é só a caçada que o está movendo. Na verdade, ele poderia ter ficado em Drumwich para solidificar sua posição. Harold teria como segurar Jolene quando ela voltasse para reaver o que lhe foi tomado. Acredito que ele reconhece ter cometido um erro e culpa Jolene por isso. E deve estar desesperado, o que o torna ainda mais perigoso.

Então agora será nossa vez de persegui-lo — Liam afirmou.

Sigimor despediu-se e foi para seus aposentos, acalentando a idéia de Liam. A porta estava destrancada. Um bom sinal. Entrou no quarto e passou a trava nos suportes. Jolene estava sentada no tapete diante da lareira e escovava os cabelos.

Ficou tensa quando Sigimor entrou e sentou-se diante dela. Sem olhar para ele, continuou escovando os cabelos. Desde o momento em que o deixara com Bárbara, Jolene repassara inúmeras vezes a cena que presenciara naquele quarto. Não duvidou do constrangimento de Sigimor, que não demonstrava intenção de ceder à provocação da beldade. Naquele momento.

E mais tarde? E na próxima vez? O que lady Bárbara representara para ele? Finalmente Jolene fitou-o e notou a expressão conhecida.

Não me olhe desse jeito.

Que jeito? — Sigimor sorriu.

Com olhar mal-intencionado. Este não é um bom momento, depois do que eu

vi…

Ele ergueu a mão para interrompê-la.

Jolene, eu não estava lá por vontade própria e creio que sabe disso.

Quer que me sinta culpada por haver me irritado?

Claro que não. Se a situação fosse inversa e também não intencional, eu estaria

até agora fazendo picadinho do atrevido. Jolene, você tem todo o direito de ficar zangada. Eu me comportei como um retardado e acreditei naquela mulher há dez anos. Hoje repeti a dose por havê-la carregado até o quarto. Eu deveria supor que se tratava de um ardil e que ela se colaria em mim como uma sanguessuga. No momento em que nos encontrou, eu procurava um jeito de me desvencilhar dela sem a machucar.

Parecia disposto a beijá-la. — Jolene apertou o cabo da escova, esperando por uma resposta.

Não posso negar. — Sigimor fez uma careta ao ver a esposa empalidecer. — Por causa da insistência dela, pensei em deixar que me beijasse para comprovar minha frieza. — Sigimor pegou a escova, deixou-a sobre o tapete e segurou as duas mãos de

Jolene entre as suas. — Bárbara não consegue despertar em mim nenhuma emoção.

Mas ela é tão linda…

Sei que ela é uma mulher que chama a atenção. Se eu dissesse o contrário, poderia me chamar de mentiroso. Mas também enxergo toda a podridão que se esconde atrás de tanta beleza. Cobiça, egoísmo, vaidade e uma total incapacidade de se importar com o mal que causa ao próximo. Ela quer um marido e acredita que ainda sou o mesmo ingênuo de dez anos atrás. Bárbara é tão vazia que nem mesmo estou certo de que poderei convencê-la desse engano.

Por que não a manda embora? Nós dois sabemos que os ferimentos dela são mais do que superficiais. Nem acredito que tenha sido roubada.

Liam, Somerled e eu somos da mesma opinião. Só que não posso fazer isso. Bárbara tem família e amigos muito influentes. Se ficasse frustrada por eu ter lhe negado abrigo, poderia inventar as histórias mais absurdas. Preciso ter cuidado. Bárbara não vale o prejuízo que seria causado se ela resolvesse espalhar que sofreu abusos ou que foi insultada.

Jolene admitiu que Sigimor estava certo. Também não duvidou das intenções de Bárbara em destruir a harmonia do casal, se tivesse oportunidade de fazê-lo. Por outro lado, se ela inventasse mentiras, poderia haver derramamento de sangue. Lady Bárbara MacLean não valia nem mesmo uma lágrima derramada por ela, quanto mais sangue!

Por quanto tempo teremos de aturá-la sem parecermos insultuosos?

Alguns dias, não mais de que isso. Os ferimentos dela não passam de escoriações leves. Se eu descobrir que Bárbara perdeu os contatos importantes, será convidada a retirar-se imediatamente. O estranho é que poderemos tirar algum benefício da situação. Não se espante. É verdade. Percebi que devemos procurar informações mais precisas sobre as alianças de poder. Eram assuntos aos quais eu não dava atenção, como se não me dissessem respeito.

Tem razão. São itens importantes a ser considerados.

Liam e Somerled também concordam comigo. Teremos de mandar uns dois rapazes para a corte.

Se Liam aceitasse o encargo, seria a pessoa ideal. É educado, sabe ser encantador e é muito bonito. Se a sua corte for igual à nossa, ele seria mais do que bem- vindo.

Pelas mulheres — Sigimor resmungou, mas reconheceu o mérito da sugestão da esposa. — Estou brincando. Liam tem muitos amigos e os homens também gostam dele. E não podemos esquecer que as mulheres constituem uma excelente fonte de informações, mesmo quando se interessam apenas pelo aspecto de um homem. Isso sem falar nas boateiras que podem revelar fatos inusitados. Falarei com Liam. Se ele concordar… — Sigimor tomou a esposa nos braços. — …estará tudo resolvido e…

Milorde quer ir para a cama.

Na verdade eu estava pensando no tapete, como em Scarglas.

Sigimor… — Jolene sussurrou e lembrou-se do que haviam feito sobre a pele de carneiro.

Jolene esfregou o rosto no peito de Sigimor. Haviam passado momentos incríveis em cima do tapete, com as chamas por testemunhas. Não se lembrava de como viera parar na cama, mas isso também não lhe importava. Sigimor ressonava, exausto. Depois do que haviam passado nos últimos dias, nem mesmo sabia como estava acordada. Um redemoinho de pensamentos era responsável por sua insônia.

Lady Bárbara.

Aceitar o fato de que Bárbara queria prender Sigimor em sua teia não impedia Jolene de suspeitar de uma trama maior. Várias pessoas haviam lhe dito que a mulher soubera antes que Sigimor estava casado com uma inglesa e que o choque não passara

de uma boa encenação. As criadas não deixaram dúvidas quanto a isso. Também ouvira Bárbara dizer que o casamento poderia ser anulado facilmente.

Como ela soubera disso? Jolene nem imaginava. E isso a preocupava. Teria de discutir o assunto com Sigimor.

As pálpebras começaram a pesar. Jolene criticou a própria fraqueza em ter posto seus problemas nas mãos de Sigimor. Mas não fora bem assim. Ela sabia que Sigimor e os outros estavam cientes de que ela os teria soltado, mesmo se houvessem se recusado a ajudá-la. Eles também tinham uma conta a acertar com Harold.

Pensar em aconselhar-se com alguém, dirimir dúvidas ou pedir ajuda para encontrar respostas também não eram sinais de fragilidade. Duas pessoas enxergavam melhor do que uma só.

Sonolenta, Jolene prometeu a si mesma que falaria com Sigimor na manhã seguinte a respeito dos assuntos que a perturbavam. E jurou que, com aliados ou sem, lady Bárbara MacLean iria arrepender-se de ter nascido caso não tirasse suas belas mãos de cima de Sigimor.

Capítulo XVI

Jolene dobrou a camisa de Fergus que ela havia remendado. O grande hall estava quase vazio. Apenas três moças da aldeia limpavam o recinto. Depois do almoço, os homens tinham saído em perseguição a Harold, assim como fizeram pela manhã. Ela se inquietava por Harold não ter sido localizado.

Por que ele teria desistido, depois de uma perseguição tão pertinaz? Seria pelo que sofrerá em Scarglas? Teria retornado a Drumwich para salvar o que restara de seus planos mirabolantes? Impossível acreditar nisso. Jolene o conhecia bem. Seu primo continuaria a maquinar, escondido, esperando uma oportunidade para agir. Ela estremeceu.

Está com frio, Jolene? — Fergus perguntou.

Ela sorriu, espantada por não tê-lo ouvido aproximar-se. Refletiu que o garoto ficaria tão alto e bonito como Sigimor e Somerled. Exceto os Cameron, que a acompanhavam desde Drumwich, Fergus fora o único que a aceitara de imediato. Procurou consolar-se, dizendo a si mesma que era cedo para os demais tirarem conclusões. Os parentes de Sigimor ainda não haviam passado nem dois dias em sua companhia. E esse pouco tempo fora quase totalmente dedicado à localização de Harold. Os Cameron pouco haviam permanecido em Dubheidland. A caçada começara de imediato.

Não estou com frio. Foi apenas um pensamento tenebroso.

A respeito daquela dama que estamos hospedando?

Não, não. Eu pensava em Harold. Estou preocupada, pois parece que ele se evaporou.

Os homens o encontrarão e ele haverá de sangrar até morrer.

Os garotos sempre eram sedentos de sangue. Mas o comentário de Fergus na certa destinava-se a deixá-la mais animada. Com um sorriso terno, Jolene entregou-lhe a camisa remendada. O jovem agradeceu e saiu correndo. Como os outros. Recriminou a si mesma por essa idéia. Os Cameron haviam saído para agarrar o inimigo dela. Era ridículo pensar que fora abandonada. Depois de tantos dias na companhia do marido e dos outros, achava difícil ficar sozinha.

A incerteza quanto ao futuro piorava a situação. Se soubesse que ficaria para sempre ao lado de Sigimor, poderia começar um trabalho produtivo. Havia muitas coisas para serem feitas. A primeira seria melhorar um pouco o aspecto severo do castelo, apesar do domínio masculino.

Mas como fazer alguma modificação em Dubheidland se cogitava da possibilidade de voltar para a Inglaterra? Sigimor não haveria de querer nada que o lembrasse da presença de uma esposa ingrata e traiçoeira.

E Bárbara MacLean?

A conversa que Jolene pretendera ter com Sigimor ainda não acontecera. No tempo em que estiveram juntos, fizeram amor e dormiram. E falaram a respeito de Harold. Jolene inquietava-se com o conhecimento excessivo de lady Bárbara sobre assuntos alheios. Pensou em procurar respostas com Bárbara, pessoalmente. Mas previu que a mulher não diria nada que não fosse do próprio interesse.

Intrigava-a também o fato de Bárbara ainda se encontrar em Dubheidland. Sigimor e grande parte da família a evitavam. A mulher tinha como companhia os dois homens que a escoltavam e, ocasionalmente, Nancy, que a servia muito mal-humorada. A governanta não escondia o desdém que nutria pela intrusa. Lady Bárbara encontrava-se bem instalada e recebia tudo o que solicitava, exceto Sigimor. Uma razão plausível para a sua permanência, apesar da frieza geral, era Bárbara não ter para onde ir.

Jolene deixou de lado a costura, uma das poucas tarefas que podia executar sem

sentir-se culpada. Levantou-se e foi até a porta. Nancy veio ao seu encontro, emburrada.

O que houve, Nancy? Algum problema?

Nenhum, exceto atender aquela bruxa loira. — Nancy fez uma careta de desagrado.

Eu entendo, Nancy. Lady Bárbara é uma amolação e das grandes. Porém não podemos tomar outra atitude. Teremos de suportá-la mais um pouco.

Sei disso. Mas tenho tanto o que fazer e ela me chama a toda hora, pedindo coisas.

O quê, por exemplo?

Vinho, pão e queijo, depois de ter feito uma lauta refeição. Eu a avisei de que, se não parasse de comer, sairia rolando daqui, quando chegasse a hora. — Nancy sacudiu a cabeça. — A mulher tem uma língua viperina. Nunca vi ninguém blasfemar tanto.

Jolene abraçou a criada. Se seu destino fosse permanecer em Dubheidland, tinha certeza de poder contar com a amizade e o apoio de Nancy. Nan, como gostaria de chamá-la dali para a frente, fora uma figura materna na vida dos Cameron, mesmo sendo apenas dez anos mais velha que Sigimor.

Pobre Nan. — Jolene afastou-se. — Se não fosse pelo receio da mulher atirar Sigimor no chão e se jogar por cima, eu pediria para ele mesmo atender a nossa hóspede. — Sorriu quando Nan deu risada. — Contudo eu mesma estava pensando em falar com ela. Se quiser, poderei levar-lhe comida e vinho.

Jolene deu o braço a Nan e as duas se dirigiram à cozinha. Nan pegou uma bandeja e pôs em cima o que Bárbara havia pedido.

Tem certeza do que pretende fazer, milady? Aquela mulher é uma víbora e quer seu marido! Nem quero pensar no que ela poderá lhe dizer e nas mentiras que poderá inventar.

Jolene recriminou-se. Era preciso não suspirar, maravilhada, dentro daquela cozinha enorme, bem equipada e muito limpa que tanto gostaria de utilizar.

Nan, há varias incógnitas que somente lady Bárbara poderá desvendar. Se ela tiver boa vontade, é óbvio.

Ora, não se preocupe à toa, milady. Ela representou apenas o primeiro sonho lascivo de um jovem.

Oh, não é nada sobre Sigimor e ela. Eu pretendia falar com meu marido a respeito, mas ele está muito ocupado. Não tenho dúvida de que Bárbara tem intenções de fazer Sigimor cair em uma armadilha. Mas tenho a intuição de que há bem mais por trás disso.

E eu tenho a intuição de que ela está preparada para uma estadia longa, como se não tivesse para onde ir.

Também pensei nisso. Bárbara foi casada com um homem muito rico. Sigimor me contou as queixas do camarada. MacLean afirmava que ela o levaria à miséria, por isso não lhe daria mais nem um centavo. Por outro lado, ela é mãe dos filhos dele. O marido não poderia deixá-la sem recursos e sem um lar para criá-los.

E se o marido entregou a guarda dos meninos a parentes?

Se esses familiares não gostassem de Bárbara, e ela tivesse ficado sem dinheiro…

…deve ter se tornado uma parenta pobre e indesejável — Nancy deduziu. — Pode ter sido banida.

Tem razão, Nan. Isso é importante e tem de ser considerado. Se a família a abandonou, então pode-se presumir que ela não conta mais com os tais aliados poderosos a quem Sigimor se referiu. Poderemos mandá-la embora.

Seria maravilhoso. Mas não é isso que a está preocupando, é?

Não. Intriga-me o fato de Bárbara saber que Sigimor tinha se casado com uma

inglesa. De acordo com os que a viram chegar, ela teve uma belíssima atuação ao fingir surpresa.

Também ouvi falar nisso.

Diga-me, Nan, como é que ela soube?

Os boatos movem-se com a rapidez do vento. Jolene sacudiu a cabeça.

Não acho que seja tão simples. Bárbara também tinha conhecimento dos motivos que poderiam levar a uma anulação rápida.

Mas o casamento foi consumado, não foi? Jolene corou.

Claro, mas isso não importa no caso. Sou irmã de um conde inglês, e Sigimor é um lorde da Escócia. Nenhum dos meus parentes esteve presente para aprovar o enlace. E talvez nem tivessem dado o consentimento, apesar dos meus vinte e três anos. Como ela soube de todas essas coisas?

Um enigma, sem dúvida. Milady, sou capaz de apostar que ela nada dirá, ainda mais se houver razões ocultas.

Pode ser. Mas não custa tentar. — Jolene levantou a bandeja. — Os acompanhantes permanecem com ela?

Ah, sim. Os dois não saem de lá. Donald não me parece má pessoa. Não gosto do tal de Clyde. Apesar de muito bonito, é asqueroso.

Jolene dirigiu-se aos aposentos de Bárbara e sentiu um frio na espinha. Teve de concordar com o ponto de vista de Nan. Clyde era envolto por uma aura de frieza e malignidade que assustava. Supôs que ele faria qualquer coisa a pedido de Bárbara. Considerando-se o tipo de mulher que ela era, o fato soava alarmante.

Tia Jolene! — Reynard chamou-a, aproximando-se da porta do quarto de Bárbara. — O que a senhora está fazendo?

Vou levar comida e bebida para a nossa hóspede.

Eu quero ajudar.

Jolene não teve tempo de recusar e pedir que se afastasse. Reynard bateu na porta, e ela se recriminou por ser tão desconfiada. Aquelas pessoas nada poderiam fazer contra ele ou mesmo contra ela, dentro do castelo de Dubheidland.

Se a conversa desandasse em uma discussão, mandaria Reynard sair.

No momento em que entrou no aposento, Jolene admitiu que errara ao não mandá- lo de volta ao dormitório das crianças. Reynard correu para o lado de Donald, que se distraía em entalhar o que parecia ser uma peça de xadrez. O homem assustou-se ao vê- los, mas logo sorriu para o menino. Entretanto foi a fisionomia tenebrosa de Clyde que realmente a preocupou, ainda mais que ele e Bárbara se entreolharam com expressões similares.

Bárbara sentou-se na cama onde estivera recostada e Clyde fechou o livro que lia para ela.

Então, a senhora finalmente resolveu fazer uma visita à sua hóspede.

Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas. — Jolene deixou a bandeja sobre a mesa e estranhou a rapidez com que Clyde se postou atrás de Donald e Reynard.

Sobre mim e Sigimor? Quer saber o que fomos no passado? Ou o que poderíamos ser de novo?

Sei tudo a respeito do assunto. Sigimor me contou.

Bárbara deu uma risadinha, enquanto amarrava o cordão dos sapatos.

Por acaso acreditou nele? Minha querida, Sigimor é um homem. E os homens mentem.

As últimas reservas de Jolene a respeito do marido e Bárbara caíram por terra. A mulher nem ao menos conhecia o caráter de Sigimor.

Milady, meu marido não mente. Não faria isso comigo e nem a seu respeito.

Então, o que a senhora tem para me dizer, ou melhor, para perguntar?

Eu estou curiosa para saber como milady ficou sabendo que Sigimor estava casado e com uma inglesa. E também como teve conhecimento de que o enlace poderia ser anulado com facilidade.

A surpresa de Bárbara não agradou a Jolene.

Eu não sabia. Por acaso não viu o meu espanto?

Não vi. E as testemunhas não duvidaram de que se tratava de uma encenação. Bem convincente, mas não passou disso. Milady soube de tudo antes de entrar em Dubheidland. Dizem que os boatos se espalham facilmente por aqui. Mas não creio que seja com essa velocidade. Como soube?

Bárbara sorriu e pegou a capa enfeitada de peles que se encontrava ao pé da

cama.

Ora, foi Harold quem me disse. Quem mais poderia ser?

Jolene ficou estática. Seus receios, dúvidas e inquietações formaram um bolo

gelado no estômago. Suas suspeitas se confirmavam. Bárbara sabia que a mulher inglesa de Sigimor partiria em breve. Bárbara não desistira. Ela estava simplesmente à espera de que o impedimento aos seus planos fosse removido. Jolene arregalou os olhos e abriu a boca.

Se eu fosse a senhora, não gritaria — Bárbara aconselhou-a e levantou-se.

Jolene fitou os homens com expressão de horror. Clyde apertava Reynard de encontro a si mesmo, com uma faca encostada na garganta do garoto. Reynard, aterrorizado, chorava sem emitir nenhum som e sem lutar.

Milady é mãe — Jolene tentou argumentar, sem desviar os olhos do sobrinho.

Como pode permitir que uma criança pequena seja tratada dessa maneira?

Ah, sim. Eu dei à luz dois meninos. Foi o preço que tive de pagar por um marido rico. — Bárbara hesitou. — É, talvez se esse fosse um de meus filhos, eu sentiria uma pontada de aflição. Mas como não é… Aliás, ele não passa de um fedelho saxão.

O que fará depois de levar-nos para Harold?

Voltarei para consolar Sigimor da humilhação e da infelicidade.

Acha que ele acreditará na sua história? Ou que eu fugi, arriscando minha vida e a de Reynard, sabendo que Harold está à solta?

Minha querida, eu direi a ele que milady foi embora para se encontrar com os seus parentes que estão atrás de Harold.

Apesar de satisfeita por saber que a família descobrira os crimes de Harold, a notícia deixou-a ainda mais apavorada. Se isso fosse verdade, seu primo não precisaria mais dela nem de Reynard, exceto como objetos de vingança. Sua única chance seria Harold pensar em usá-los em troca de sua própria vida. Mas, dependendo de quanto ele estivesse furioso pelo que perdera, nem mesmo isso serviria. O pior seria se Sigimor acreditasse em Bárbara.

Jolene tratou de afastar a idéia absurda. Sigimor conhecia muito bem lady Bárbara e não acreditaria nela. Antes de mais nada, ele se acharia no dever de descobrir se ela e Reynard haviam encontrado a família, sãos e salvos. Era preciso confiar que Sigimor viria em seu auxílio. Ou seria consumida pelo pavor.

Milady não deveria estar tão certa de que Sigimor tomará como verdadeiras suas afirmações, depois de ter comprovado quem a senhora era há dez anos. — Jolene conseguiu falar com segurança. — Ele não dá crédito a nenhuma das suas palavras.

Então, por que Sigimor permitiu que eu ficasse?

Porque milady tem uma família influente e amigos poderosos. Sigimor sabe que milady poderá lhe causar muitos problemas e também que a senhora não vale isso. Mas, pelo jeito, meu marido se enganou. Acho que a senhora não conta com a influência de mais ninguém. Nem de amizades, nem de parentes. Caso contrário, teria usado o poder deles para conseguir as atenções de Sigimor. Ou de alguém mais rico do que ele. Não seria forçada a aceitar esquemas degradantes de um assassino.

Uns idiotas miseráveis, todos eles! Fiz o que eles queriam. Casei-me com aquele velho horrível e dei-lhe um herdeiro. E qual foi a minha recompensa? Nada! O velho repulsivo me deixou sem um centavo! Nem mesmo tenho um teto para me abrigar. Ah, sim, o imbecil me deixou uma choupana em um lugar deprimente rodeado por navios e uma ninharia para sobreviver como uma mendiga. Meus parentes me ajudaram? Não. Eles disseram que eu era uma meretriz, um estorvo, uma mácula no nome deles! Bateram aquelas portas podres na minha cara! Ah, eles pagarão bem caro por isso. Escute o que eu lhe digo. Muito caro!

Jolene respirava fundo para manter a calma, enquanto Bárbara espumava de ódio, antes de calar-se, sombria. Se lady MacLean agarrasse algum idiota para marido, certa- mente tentaria vingar-se. Ela e Harold possuíam caracteres semelhantes.

O dinheiro que Harold me prometeu, se eu a entregasse a ele junto com o menino, vai ajudar bastante. — Bárbara sorriu. O ódio e a rispidez haviam desaparecido de maneira alarmante.

Pois milady está muito enganada se acredita na palavra de Harold — Jolene comentou.

Nós dois fizemos um acordo. Eu lhe darei o que ele deseja e eu conseguirei o que preciso. Dinheiro e caminho livre para chegar até Sigimor. Com o que receberei de Harold, manterei uma vida confortável até que possa levar Sigimor perante um sacerdote.

Sigimor somente compareceria a uma igreja por sua causa, milady, se fosse para rezar pela sua alma imunda. E essa é uma boa possibilidade, se quer mesmo acreditar em Harold.

Ah, que mulher maçante… — Bárbara ajeitou a saia. — Harold não vai me trair. Nós somos muito parecidos. Se não fosse inglês, eu seria capaz de pensar nele como marido. Na certa, Harold entenderia minha necessidade de vingar os insultos aos quais fui submetida. — Amarrou a capa e cobriu a cabeça com o capuz. — Será melhor irmos logo. Quero estar de volta antes do regresso de Sigimor.

E como pensa que vamos sair daqui?

Clyde encontrou uma boa maneira de escapar. Todos os castelos possuem passagens secretas, e Clyde tem um bom faro para encontrá-las. Achou uma para nós e um bom esconderijo para Harold. Ele deve estar rindo à toa pelo esforço mal sucedido dos Cameron para encontrá-lo.

Bárbara foi até a lareira, virou um entalhe estranho na extremidade do consolo e fez aparecer uma abertura na parede grossa. Clyde tirou um archote de um dos candelabros de parede e, com a ponta da faca nas costas de Reynard, cutucou o menino para a frente, rumo à passagem escura. Sorrindo com falsidade, Bárbara acenou para Jolene segui-lo. Sem alternativa, Jolene atravessou a soleira e parou. Bárbara pegou uma vela e, com ar carrancudo, fitou o primo, que não se movera.

Vamos — ela ordenou. — Não podemos perder tempo.

Eu ficarei aqui — Donald avisou-a, o olhar brilhante no rosto pálido.

Por quê?

Para mim, chega. Não quero me envolver mais nessa história.

Donald, o preço por uma traição é muito alto.

Não duvido disso. Sei muito bem do que é capaz, prima. Não tenha receio.

Ótimo. Se Sigimor perguntar pela esposa, não diga uma só palavra.

Juro que farei o que pede. Não direi nada. Deixarei as mentiras para lady Bárbara. Milady é bem melhor nisso do que eu.

Ainda bem que reconhece, paspalho. — Bárbara ergueu a cabeça e virou-se para Jolene. — Ande logo. Não pretendo ficar aqui a vida inteira.

Jolene fitou Donald e alcançou o corredor, seguida por Bárbara. A passagem era tão escura e estreita quanto a que usara para deixar Drumwich e Harold. Refletiu na ironia da situação. Usava uma rota idêntica para retornar ao perigo do qual escapara.

Donald levantou-se, fechou a passagem secreta e encostou a fronte na pedra fria. Em seguida suspirou e recomeçou a entalhar a peça de madeira. Só lhe restava esperar. Os Cameron retornariam em breve. Rezou para que algum deles viesse procurá-lo e o fizesse romper a promessa que fizera a Bárbara. Esperava estar vivo até lá. Tinha quase certeza de que Bárbara não sobreviveria para contar suas mentiras.

Acho que o camarada voltou para a Inglaterra. — Somerled jogou no banco a toalha com que se enxugara e pegou roupas limpas.

Sigimor suspirou enquanto esfregava os cabelos e fitou os homens que haviam saído com ele. Estavam todos reunidos na grande telheiro destinado aos banhos que mandara construir havia tempos com uma finalidade: permitir espaço suficiente para um bando de homens sujos poderem limpar-se ao mesmo tempo. Todos esperavam sua reposta ao comentário do irmão gêmeo. Durante dois dias haviam perseguido Harold e nem sinal dele. Os homens supunham que o canalha desistira.

Não concordo. — Sigimor pendurou a toalha em um dos inúmeros ganchos de madeira da parede e começou a vestir-se. — Ele está escondido em algum lugar.

Se fosse assim, nós o teríamos encontrado. Conhecemos a região muito melhor do que ele.

Mas isso não quer dizer que ele não possa ter encontrado um bom esconderijo. Há muitos por aí. Somerled, não sei como explicar, mas desconfio de que Harold ainda esteja aqui. E perto de nós.

Teve alguma visão? — A zombaria foi clara no tom de voz de seu irmão Ranulph.

Sigimor anuiu com gestos lentos de cabeça, enquanto Tait e Nanty atiravam Ranulph em um dos tanques de banho.

—Trata-se apenas de uma questão de lógica. Um homem matou para alcançar seus objetivos. Largou tudo para trás, arriscando-se a perder o que já havia conseguido, para empreender uma caçada quase sobre-humana em território inimigo. Não acho que ele iria meter o rabo entre as pernas e voltar para casa sem mais nem menos.

Talvez esteja certo — Somerled admitiu com relutância, enquanto saía com Sigimor do galpão. — Mas é humilhante saber que não temos capacidade para encontrar o inimigo nas nossas terras.

Eu… — Sigimor assustou-se ao ver Fergus correndo ao encontro deles. — O que houve, meu rapaz?

As sardas de Fergus brilhavam no rosto pálido.

Eles sumiram! — Fergus puxou Sigimor pelo braço rumo ao castelo. — Jolene e Reynard não foram encontrados em lugar nenhum! Eles foram falar com a mulher e desapareceram!

Sigimor ficou mudo. Por um instante, deixou-se levar por Fergus, sem esboçar reação. Só se recuperou do choque quando chegou ao grande hall e viu Nancy, também muito pálida, ao pé da escada.

Tem certeza de que eles desapareceram? — Sigimor gritou para Nancy.

Sim, milorde. Tanto milady quanto o menino. Ah, e também lady Bárbara e um daqueles idiotas… Ah, perdão… homens que a acompanhavam. O tal de Clyde. O primo dela ainda está aqui, mas não quer responder às nossas perguntas.

Sigimor subiu os degraus de dois em dois e foi direto aos aposentos de Bárbara, seguido pelos demais. Ao entrar, sentiu o pavor crescente congelar-lhe o sangue. No quarto, estava apenas Donald, perto da lareira, entalhando um pequeno objeto de madeira. Atônito, viu o rapaz sorrir.

Já não era sem tempo — Donald alegou. — Milorde demorou demais.

Onde está minha esposa? — Sigimor gritou. Donald deixou a peça em cima da mesa com cuidado.

Hum, não posso responder a essa pergunta.

Mas terá de fazê-lo, se quiser sair vivo daqui.

Ah, sim. Isso é o que mais quero. Até fiquei esperando para dar as respostas certas.

Sigimor esforçou-se para aplacar o desespero e o ódio que sentia. Donald não o desafiava em absoluto. Algo lhe dizia que o rapaz tinha esperança de poder ajudar. Mas seu estado de espírito não lhe permitia ter calma suficiente para não constranger Donald. Percebeu que Fergus, Nancy e Somerled o rodeavam.

Onde está lady Bárbara? — Sigimor resmungou, apertando com força o punho da espada. Para sua surpresa, o rapaz sorriu de novo.

Ah, finalmente! A essa questão poderei responder. Ela levou lady Jolene e o menino para o tal de Harold. — Assustado, Donald recostou-se no assento ao ver Sigimor dar alguns passos em sua direção. — Eu disse a ela que era errado. Eu a avisei contra o homem.

Mas não fez nada para impedi-la, não é?

Não. Tinha esperança de fazê-la mudar de ponto de vista até lady Jolene e o garoto entrarem aqui. De repente, entendi que nem podia esperar que Bárbara me deixasse viver. Receei até que ela mandaria Clyde cortar o meu pescoço caso eu tentasse impedi-la ou a denunciasse. Harold lhe prometeu uma fortuna. Bárbara acredita que ele honrará a promessa e que ela poderá voltar aqui para cortejá-lo, milorde. Eles foram para as catacumbas.

Pensei que estivessem lacradas. — Sigimor fitou Somerled, que praguejava.

Liam e eu as abrimos recentemente. — Somerled deu de ombros. — Elas estavam fechadas desde que nosso pai era jovem.

Como lady Bárbara e Clyde escaparam sem ser vistos? A igreja onde estão as catacumbas dista cinco quilômetros daqui.

Sigimor notou que Donald virou entre os dedos a figura entalhada e fitou a peça semelhante no canto da lareira.

Com os infernos! Eu havia me esquecido dessa passagem secreta! — Sigimor olhou para Donald. — Há quanto tempo lady Bárbara saiu?

Há umas duas horas e a pé. Milorde! — Donald gritou, antes de Sigimor sair. Sigimor virou-se devagar.

Sabe a vontade terrível que tenho de matá-lo?

Acho que sim.

Então, por que ainda está aí?

Quero pedir-lhe permissão para levar o corpo de Bárbara para casa — o rapaz falou com humildade.

Capítulo XVII

Jolene sentiu o gosto amargo da bílis. Não conseguia deixar de fitar os corpos de Clyde e de lady Bárbara estendidos no chão. Nunca vira ninguém ser assassinado com tanta frieza e rapidez. Bárbara, felizmente, morrera sem ter noção do perigo que a ameaçava. Clyde fitara Harold com espanto e até admiração, no décimo de segundo que decorrera entre perceber que alguém se aproximava por trás e ter a garganta cortada. E antes de morrer, cometera uma boa ação.

Empurrara Reynard na direção de Jolene. Ela escondera o sobrinho debaixo da saia, para que o menino não visse a execução.

Só conseguiu olhar para Harold quando os dois matadores arrastaram os corpos para outro lugar.

Milorde vai perder todos os aliados se continuar a matá-los.

Eles venderam a senhora e o menino para mim. O próximo passo seria vender- me para os Cameron. — Harold deu de ombros.

Julgou-os por um crime que ainda nem haviam cometido.

Bárbara tinha a idéia fixa de se tornar a lady do castelo cujo nome nenhum ser civilizado consegue pronunciar. E teria feito qualquer coisa para que sir Sigimor a desposasse. Ela o enganou para se livrar da senhora, minha querida prima. Para conseguir a atenção dele, a bela Bárbara teria me traído. — Harold fitou os dois corpos empilhados na extremidade do recinto. — Estou preocupado com aquele primo dela que não quis acompanhá-la.

Jolene acariciou as costas de Reynard, que tremia de medo, e refletiu que Donald devia ter pressentido o perigo que corria nas mãos de Harold.

Isso deve ser desapontador, não é verdade? Harold ignorou o sarcasmo de Jolene.

Sairemos daqui assim que escurecer. Ainda não decidi o que fazer com milady, mas creio que poderei usar o menino para comprar alguma coisa. A minha vida pela dele. Nossos parentes devem estar ansiosos para tê-lo de volta ileso. Mas não sei se poderei lhe conceder essa ventura, prima. — Harold olhou em volta. — Um esconderijo excelente, não é mesmo? Foi Clyde quem o encontrou. Ficamos aqui aconchegados, secos e seguros, enquanto os Cameron se descabelavam à nossa procura. Ah, como são horríveis aqueles cabelos vermelhos!

Com certeza, Clyde ficou bem impressionado com essa demonstração de agradecimento. — Jolene analisou a câmara mortuária principal, onde deviam estar alojadas algumas das mais antigas sepulturas. — Eu me admiro que Sigimor não o tenha procurado aqui.

Martin acredita que o local foi aberto recentemente, depois de ficar lacrado por muitos anos.

Milorde — Martin aproximou-se, apressado —, trago uma mensagem dos seus parentes.

Não havíamos combinado fazer contato com eles somente amanhã?

Eles pegaram um dos homens que mandamos como espiões e ele confessou

tudo.

Bem, e agora?

Eles querem um encontro, milorde. Sir Roger manda saudações. Pede a

presença de milorde ou de um homem da sua confiança amanhã.

Onde e quando?

Em uma clareira, a uns três quilômetros de onde nos encontramos. Uma hora depois do amanhecer. O local não é difícil de encontrar. A poucos metros daqui, é possível enxergar-se o alto da torre quadrada de uma igreja. A partir daí, em linha reta,

chega-se à clareira.

Quantos homens estão com ele?

Uns vinte. Fora dois escoceses. Acredito que devem ser os MacFingal. Eles têm o jeito daqueles bastardos. E foram os que pegaram o nosso homem.

Preciso pensar. — Harold praguejou e passou a mão nos cabelos. — Eles pediram resposta?

Não. Sua presença no encontro foi dada como certa. Harold anuiu e fitou Jolene com ódio.

Não consigo raciocinar ao lado desse fedelho choramingão. Afaste-se!

Mais do que depressa, Jolene segurou a mão de Reynard e saiu de perto de Harold. Passou pelos cadáveres de Bárbara e de Clyde e por um túmulo grande de pedra. Sentou-se no chão rente à extremidade da tumba, recostou-se na parede, pôs Reynard no colo e ocultou-se na sombra. Observou Harold andando de um lado para outro. Abraçada a Reynard, rezou para que o primo os esquecesse por um bom tempo.

Alegrou-se com a notícia de que Roger se encontrava por perto. Seria a salvação de Reynard. Harold não deixaria escapar a oportunidade de barganhar sua vida pela do garoto. Mesmo que não cumprisse nenhum dos acordos feitos, hipótese mais do que provável, pelo menos Reynard não ficaria nas mãos do inimigo. Jolene tinha certeza de que Roger faria o impossível para resgatar o garoto.

Procurou não pensar no próprio destino. Se começasse a imaginar o que Harold poderia fazer com ela, perderia o tênue controle que lhe restara. Precisava ser calma e corajosa para o bem de Reynard. Isso significava esquecer os planos macabros de Harold em relação a si mesma. Prendeu-se na convicção de uma esperança. Em breve, Sigimor viria à sua procura.

Para esquecer o pior, passou a escutar atentamente o que era dito. Martin e Harold conversavam em voz alta e os sons ecoavam pelo enorme recinto. Pelo jeito, o ódio de Harold aumentara, fumegante.

Milorde, o menino comprará a nossa liberdade.

Sei disso, mas se eu puder levá-lo pessoalmente a Drumwich, haverá uma oportunidade de recuperar o castelo. O garoto é a chave de tudo, Martin!

Milorde, a única porta que ele poderá abrir com essa chave é a da nossa libertação. Sir Roger está acompanhado de vinte homens, além de dois MacFingal, que não roubarão os cavalos deles por serem partidários dos Cameron. Os malditos escoceses trouxeram sir Roger até aqui para que se unam aos Cameron contra nós. Acredito que sir Roger já soube de tudo e pode ter um exército atrás dele. O menino será a nossa liberdade, a nossa vida e talvez algum dinheiro.

E daí? Para onde iremos?

Para a França ou qualquer outro país onde possamos vender nossa habilidade com a espada. Além disso, milorde deve considerar a hipótese de pedir um resgate por lady Jolene.

Jamais! — Harold gritou e parou de andar. — Por causa dela estamos nesta embrulhada! Ela arruinou tudo e terá de pagar por isso. Cada instante de sofrimento fará com que se lembre do mal que me causou. — Harold perscrutou a câmara mortuária até ver Jolene. — A senhora se casou com aquele escocês maldito!

Como soube? — Jolene estremeceu.

O padre. Nós a seguimos até lá. — Harold aproximou-se, abrindo e fechando os punhos. — Depois de uma ligeira persuasão, ele soltou a língua. E pagou o preço pela participação, assim como a senhora também pagará.

O senhor matou um sacerdote? — Jolene ficou surpresa por ainda se chocar com as atrocidades executadas por Harold. Mas aquela superara as expectativas.

Não. Quando o deixamos, ainda estava vivo, mas com certeza deve ter rezado pela morte.

Harold, o padre era um Cameron. — Ela escutou Martin praguejar. — Um primo legítimo de Sigimor. O senhor deu aos Cameron mais um motivo para que o odeiem. Mesmo que use Reynard para negociar com sir Roger, os Cameron moverão céus e Terra até encontrá-lo.

Harold não pareceu dar importância à ameaça, porém Martin estreitou o olhar, preocupado.

Acha que me importo com isso? Eles nunca nos ameaçaram. Só correram de nós e se esconderam.

E os levaram para dentro das terras deles, até os portões de Dubheidland, onde mora uma imensidão de parentes e parceiros — declarou Jolene.

Harold investiu contra ela, mas, de maneira surpreendente, foi agarrado por Martin, Durante alguns minutos, os dois se digladiaram, dando voltas no salão macabro. Harold praguejava e ameaçava Martin, mas este não o soltava. De repente, Harold pareceu desistir da contenda. Martin soltou-o devagar e recuou. Harold desembainhou a espada com muita rapidez e estendeu-a na direção de Martin. Jolene segurou a cabeça de Reynard e manteve o rosto do menino de encontro ao seu peito, certa de que se seguiria mais um assassinato. Martin ficou imóvel. Jolene não decidiu qual seria o motivo. Ou ele confiava no valor que representava para Harold, ou hesitava em puxar a espada contra seu senhor. Nisso um brilho na mão dele a fez entender a realidade. Martin segurava uma faca e faria bom uso dela, antes mesmo de Harold atacar com a espada. Imóveis, os demais homens só observavam. Jolene imaginou que a lealdade deles pendesse para o lado de Martin.

Pretende defender essa vagabunda? — Harold perguntou, com voz rouca por causa do ódio.

Por enquanto — Martin retrucou. — Ela está com o menino e ele tem de ficar incólume.

Harold estremeceu, cerrou as pálpebras e tornou a embainhar a espada com

vagar.

Eu me entenderei com ela mais tarde. Martin anuiu e a faca desapareceu.

Como queira, mas acredito que milorde deveria considerar a possibilidade de

usar milady para evitar a retaliação dos Cameron.

Os outros homens ecoaram murmúrios aprovativos.

Repito que os Cameron não constituem nenhuma ameaça. Nunca nos enfrentaram. Só correram de nós.

Até agora. Eram apenas seis homens e levavam milady e o garoto. Não encaro como covardia eles nos terem evitado. Foi uma atitude inteligente, uma tática correta. Milady tem razão. Nós estamos no país deles, rodeados por parentes e aliados. Agora é a nossa vez de estarmos em inferioridade numérica e de nos escondermos dos caçadores.

Jolene notou que os homens não tiravam os olhos de Harold. Era evidente que concordavam com Martin e temiam pela reação do lorde demoníaco. Entendiam que haviam sido apanhados em uma rede perigosa e pretendiam sair dela. Jolene supôs que, se Harold começasse a mostrar menor interesse em escapar do que em vingar-se, ele se veria às voltas com algumas espadas. Uma esperança súbita animou-a. Uma rebelião interna poderia dar-lhe uma oportunidade de fugir. O melhor seria manter-se alerta.

E por acaso tem algum plano? — Harold debochou de Martin.

Tenho. — Martin ignorou o escárnio. — Usaremos o menino para manter as espadas inglesas embainhadas, e lady Jolene para sair deste maldito país. — Ele suspirou e passou a mão no rosto. — Ela é a esposa de sir Sigimor. Por causa desse detalhe, a honra exigirá que ele faça o possível para protegê-la e mantê-la viva. Se negociarmos o menino com os Gerard e lady Jolene com os Cameron, talvez possamos sair desta enrascada com a maior riqueza. A nossa vida. Pense nisso, Harold. A única

alternativa seria aumentar um pouco a dificuldade para eles nos matarem.

Um som leve chamou a atenção de Jolene, mas ela procurou desconhecê-lo. Era importante não perder uma só palavra do diálogo entre Harold e Martin. Sua sorte dependeria do que fosse resolvido. Harold estava disposto a fazê-la pagar por tudo o que ele perdera e pelo fracasso de seus planos. Se Martin o convencesse da justeza de seu raciocínio, haveria para ela uma possibilidade de sobrevivência. Pediu a Deus para que Harold aceitasse a proposta de Martin. Eles poderiam usá-la como um escudo até embarcar para a França, A idéia de passar alguns dias nas mãos de Harold era de arrepiar. Contudo permaneceria viva e daria tempo para Sigimor vir atrás dela.

Sigimor, com semblante sombrio, deixou no chão o corpo do homem que acabava de matar. Havia mais de uma hora, Jolene se encontrava no subsolo da velha igreja de pedra, prisioneira de Harold. Sigimor sentia o estômago pesar como chumbo pela suposição do que o canalha poderia ter feito durante esse tempo. Fora necessário reunir toda sua força de vontade para conter a urgência de sair correndo e gritando rumo às catacumbas.

No momento em que Fergus lhe dissera que Jolene sumira, o medo o enregelara. Receio por ela, pavor de perdê-la, de ser incapaz de salvá-la. Impossível parar de pensar nas ameaças que Harold enumerara. Ouvia as palavras do homem execrável, sem esquecer de nenhuma. A lógica lhe dizia que não houvera tempo de cumprir coisa alguma, mas Sigimor não estava em condições de aceitar raciocínios lógicos. Sua mente sussurrava que, para matar, alguns instantes bastavam.

As sentinelas foram afastadas, tanto as de dentro quanto as de fora — Liam avisou-o ao se aproximar.

Isso mesmo. — Somerled chegou do outro lado. — Os dois escoceses traidores fugiram para as colinas. Nem tivemos de adverti-los.

Não existe honra entre ladrões — Tait murmurou e abaixou-se ao lado do corpo do homem que Sigimor matara. — Acredito que se trata de homens contratados. Se pudermos encurralar os que estão lá embaixo, eles se renderão.

Concentrar-se na batalha que teria de enfrentar era a única maneira de não enlouquecer, Sigimor afirmou para si mesmo.

E como pretende conseguir isso?

Existem mais dois acessos às catacumbas — Liam respondeu. — Os guardas dessas duas entradas com certeza não têm conhecimento da morte desse aí.

Será que nenhum deles é escocês?

Não, não. Tenho certeza de que os nossos compatriotas bateram em retirada. Eles tinham sido designados para nos vigiar e para avisar Harold se nos aproximássemos. Como viemos direto para cá, sem sermos percebidos, devem ter pensado que desistimos da busca e que demos o jogo por perdido. Deixaram que os saxões se entendessem e salvaram a própria pele.

Diga-me onde as entradas se localizam e onde acha que Harold está refugiado.

Sigimor fechou os olhos e escutou com atenção. Liam e Somerled afirmaram que havia apenas uma câmara onde Harold e seus homens poderiam esconder-se sem ter de rastejar. Depois de refletir um pouco, Sigimor dispersou os trinta homens que se encontravam com ele. Sete através de cada um dos três acessos, e o restante permaneceria em cima, para vigiar-lhes a retaguarda e evitar a fuga de algum partidário de Harold. Calcularam quanto tempo seria necessário para que os grupos se livrassem das sentinelas e assumissem sua posição. Sigimor escolheu um sinal para anunciar o ata- que. Nanty ficaria em cima com os soldados. Somerled e mais seis homens atravessariam a entrada principal dentro da igreja. Liam e mais seis iriam pela passagem externa.

Sigimor amaldiçoava a escuridão das galerias subterrâneas, que o impedia de

prosseguir com maior rapidez. Nisso uma luz tênue o fez sorrir. Harold estava por perto. Teve de controlar-se para não sair correndo e arriscar-se a fazer um ruído indesejável. À medida que avançavam, seus homens colaram-se às paredes, ao som das vozes que aumentavam de volume.

Sigimor moveu-se como um felino até o final da passagem. Espiou para dentro da câmara. Contou seis homens, além de Harold e um outro, o tal de Martin, de quem se lembrava de Drumwich.

Quando se preparava para voltar às sombras, ouviu uma leve fungadela. Olhou à direita e conteve um grito de alegria. Jolene estava sentada no chão, em um canto formado pela parede e uma grande sepultura de pedra, a meio metro dele. Com Reynard no colo, não tirava os olhos de Harold. Sigimor recuou para a escuridão e deu um suspiro de alívio. Jolene não aparentava estar ferida.

Sua idéia tem seus méritos — Harold admitiu. — Prenso pensar um pouco a respeito.

Pensar o quê?

Em uma maneira de seguir sua sugestão e manter Jolene comigo. Martin praguejou.

Nenhuma mulher vale uma vida!

E quem disse que pretendo morrer por ela? Sigimor deu o sinal de ataque com satisfação. O som leve que imitava o pio de um melro recebeu duas respostas rápidas. Saiu do corredor e postou-se em frente a Jolene. Imediatamente, surgiram vinte Cameron que rodearam Harold e seus homens. Com fisionomias implacáveis e espadas desembainhadas, os escoceses formavam uma bela visão. Sigimor encheu-se de orgulho e prazer. E sorriu diante do espanto de Harold.

Sinto muito, Harold. Seus planos fracassaram. A morte está à sua espera.

Agora.

Harold deu um grito de fúria e arrancou a espada da bainha. Sigimor contava com

a hipótese de ele não se render. Queria ter o prazer e o privilégio de matá-lo. Saiu da frente de Jolene e, imediatamente, um de seus homens substituiu-o. Foi ao encontro do desafio de Harold, antes que o excomungado desistisse.

A custo, Jolene manteve o rosto de Reynard de encontro ao peito. O menino se contorcia sem parar. Ela estremecia a cada choque de espada contra espada. Por causa das paredes de pedra, o volume do barulho aumentava muito. O pavor de Jolene de que ocorresse uma tragédia diminuiu ao ver a maestria com que Sigimor manuseava a pesada arma. Harold era um bom espadachim, mas Sigimor era muito superior. Harold iria morrer ali mesmo.

Jolene olhou em volta. Martin e mais dois homens tinham se rendido. Desarmados, observavam a luta ao lado de Liam.

Outros quatro haviam cometido o erro de puxar as armas. Dois já estavam mortos. Apesar de sua inexperiência em combates, deduziu que os outros dois não demorariam a seguir o mesmo caminho. Embora a luta fosse homem a homem, os Cameron superavam os inimigos em habilidade. Jolene voltou a fitar Sigimor no instante em que o combate terminava. Harold fez um movimento em falso, e Sigimor aproveitou a falha. Enterrou a lâmina larga no peito de Harold. A morte foi ligeira e indolor. O golpe fora certeiro no coração. A vida dos outros dois homens também terminou de maneira rápida e silenciosa. Sigimor limpou a espada no colete bordado de Harold e tornou a enfiá-la na bainha. Sorriu para Jolene e anuiu, antes de voltar a atenção para Martin e aos outros

dois comparsas de Harold.

Sinto-me um tanto misericordioso por haver encontrado minha esposa sã e salva. Saiam daqui. Não parem para roubar os mortos. Nem dêem água aos cavalos até que estejam bem longe das minhas terras. Continuem correndo até sair da Escócia. Meu bom humor pode ter vida curta. Ranulph, escolte-os para que os nossos homens que

estão do lado de fora não os matem. Tait, Gilbert, sigam os três. Ao menor deslize, podem matá-los.

Jolene ouviu a voz fria e dura do marido que repercutia no recinto. Sigimor Cameron, um guerreiro de verdade. Até a concessão da vida a Martin fora feita em tom implacável. Os homens de Harold estavam mortos. Com certeza, também os que haviam ficado do lado de fora. Ela vira a frieza com que Sigimor matara Harold. Jolene não tivera ocasião de avaliar Sigimor, o guerreiro, uma faceta que ela desconhecia. Apesar de tudo, não estava nervosa. Sentia-se orgulhosa do marido. Sorriu quando Sigimor agachou-se diante dela e acariciou-lhe o rosto com a mesma mão que havia pouco segurava a arma mortal. Era difícil conter a vontade de jogar-se nos braços dele e beijá-lo.

Não está ferida?

Não. Martin tentou o tempo inteiro convencer Harold de que eu seria útil na negociação. Ele queria sair vivo disso. Pelo menos, conseguiu o que queria. — Ela voltou os olhos na direção dos corpos de Bárbara e de Clyde. — Ao contrário deles.

Sigimor estremeceu ao seguir o olhar de Jolene e fez um sinal a seus homens para que os cadáveres de Bárbara e Clyde fossem removidos.

Donald quer levar a prima para casa.

Na certa, ele supunha que não se podia confiar em Harold.

Mas também não fez nada para evitar que a raptassem.

Por outro lado, ele o auxiliou, não foi?

Sim, mas só depois de eu fazer a pergunta certa. Pode imaginar uma coisa dessas?

Jolene sorriu para Tait, que veio buscar Reynard e afastou-se com o menino nos braços.

Eu ouvi Donald fazer promessas a Bárbara. Não o culpo por não haver tomado uma atitude mais enérgica. Ele também estava em perigo. Clyde o teria matado.

Sigimor anuiu e ajudou-a a ficar em pé. Inalou a fragrância dos cabelos de Jolene e abraçou-a pelos ombros. Pegou uma tocha para iluminar o caminho e conduziu-a para fora das catacumbas. Alguns homens ficaram na câmara para livrar-se dos corpos e coletar o que fosse de valor.

Jolene abraçou-o pela cintura e relatou o que havia acontecido desde que ela e Reynard tinham entrado nos aposentos de Bárbara. Evitou a notícia de que seu primo Roger se encontrava nas proximidades. A presença dele significava que teria de tomar uma decisão. No momento, queria apenas usufruir a liberdade ao lado de Sigimor.

Foi seu primo William, o padre, quem revelou a Harold que nós havíamos nos casado. — Jolene inspirou fundo. Já estavam do lado de fora. — Harold disse que para convencê-lo a falar, teve de usar de violência. E que, depois, o deixou agonizante.

Irei com alguns homens até lá — Gilbert decidiu. — Se for necessário, levaremos o primo William para Scarglas. Fiona e Mab poderão cuidar dos seus ferimentos. Elas o deixarão curado.

Pobre homem. — Sigimor suspirou, depois que Gilbert saiu apressado. — Eu não me espantaria se houver outros pelo caminho que tenham sofrido nas mãos de Harold. Infelizmente, nada poderemos fazer.

É verdade. Harold sempre deixava uma trilha de destruição por onde passava. Ele deveria ter sido morto há muito tempo, mas ninguém ousava oferecer provas. Além do mais, era de nobre estirpe, o que fechava os olhos de muitas pessoas.

Eu sei. Os pobres podem ser enforcados apenas por uma suspeita. Os ricos têm de ser flagrados com as mãos sujas de sangue, e, mesmo assim, podem livrar-se de uma acusação. — Ele levantou Jolene, deixou-a em cima da sela e montou atrás. — Ainda me sinto clemente. Por isso deixarei Donald ficar esta noite e o mandarei embora pela manhã.

Ah, este meu marido é um verdadeiro santo — Jolene zombou, e ambos riram.

Ela recostou-se em Sigimor e pôs as mãos nos braços dele, quando começaram a cavalgar. Era difícil acreditar que Harold não representasse mais uma ameaça e que tudo estivesse terminado. Harold não seria mais uma sombra maligna a persegui-la. Não haveria mais facas encostadas na garganta de Reynard e nem perspectivas de morte.

Mas as conseqüências não poderiam ser afastadas. Roger.

A necessidade de fazer uma escolha.

Ainda assim, nada deveria empanar a felicidade do momento. Teria mais algumas horas para fingir que tudo estava bem. A resolução seria tomada depois do amanhecer.

Capítulo XVIII

Jolene continuava tensa. Nem mesmo o banho quente com essência de lavanda a deixara mais descontraída. Durante algum tempo conseguira abafar o inevitável. Teria de separar-se de Sigimor. As tentativas de afastar aqueles pensamentos terríveis a haviam deixado perturbada. Com certeza, Sigimor notara seu alheamento, mas pareceu aceitar o fato como resultado do que acontecera no período de cativeiro.

Era muito difícil conter a vontade de chorar em sua última noite ao lado de Sigimor. Nenhum outro caminho se apresentava diante dela. Reynard era uma criança e por isso as necessidades dele eram mais prementes do que as suas ou as de Sigimor. Fizera um juramento no leito de morte de Peter.

Zelaria pelo bem-estar e pela segurança do sobrinho. Isso era bem diferente do que entregar Reynard a alguém que o levasse de volta a Drumwich e ela nunca mais o visse.

Ignorou o que teria de ser feito. Falar com Sigimor, revelar a presença de Roger e o encontro marcado com Harold. Receava que Sigimor tentasse convencê-la a ficar, a dar as costas para o seu juramento, para o seu dever, para Reynard. O pior seria ele nem mesmo tentar demovê-la de seu intento.

Saiu do banho e esfregou-se com uma toalha. Pegou a camisola delicada que fora presente de Fiona e teve de engolir nova fonte de lágrimas. Nunca mais encontraria Fiona. Nunca mais ouviria Nan dizer que os Cameron, todos homenzarrões, agiam como crianças. Nunca mais veria nenhum deles nem os MacFingal.

Passaria o resto da vida sem a euforia dos beijos de Sigimor. Jolene teve de sentar-se na cama, atrasada. Precisava combater aquela tristeza imensa. Sigimor era muito sensível. Se desconfiasse de alguma coisa, haveria de forçá-la a contar o que estava acontecendo. Urgia deixar o pranto para mais tarde. Na verdade, teria a vida inteira para chorar o que fora perdido.

Depois de alguns minutos, Jolene conseguiu acalmar-se um pouco e vestir a camisola. Naquela noite, tinha intenção de acumular lembranças que haveriam de lhe aquecer a cama vazia. Fariam amor até à exaustão. E, para isso, empregaria algumas idéias originais. Corou ao pensar nelas, mas disse a si mesma que o recato seria esquecido. A mulher sensual e selvagem que despertava nos braços de Sigimor assumiria o controle.

Em pé diante da lareira, Jolene escovava os cabelos e esperava. Era a imagem que pretendia deixar gravada na mente de Sigimor. Com certeza, os primeiros sentimentos seriam o ódio contra ela e o orgulho ferido. Mas, no futuro, depois da tormenta, talvez Sigimor se lembrasse da ex-esposa com um pouco de ternura. Ela à sua espera, para fazer amor.

Sigimor entrou no quarto e fechou a porta devagar. A aparência de Jolene tirou-lhe o fôlego. Sentira-lhe a perturbação desde que haviam saído da igreja, porém Jolene não fizera comentários. Talvez estivesse chocada pelo assassinato de Bárbara e de Clyde. A crueldade deixava marcas, embora essa conclusão não o satisfizesse.

O que ela teria para manter em segredo?, perguntou-se.

Sigimor caminhou em direção a Jolene e resolveu deixar as questões para o dia seguinte. Dali a alguns segundos, ele talvez nem se lembrasse do próprio nome. Envolveu a esposa entre os braços, tirou-lhe a escova das mãos e beijou-a. O beijo de Jolene continha uma dose de desespero, na certa pelo que ela enfrentara naquele dia. Acontecimentos daquele tipo sempre deixavam uma pessoa com ânsia de aproveitar as alegrias da vida.

Sigimor recuou para tirar a roupa, e Jolene impediu-o de fazê-lo, tomando a tarefa para si. Sigimor rangeu os dentes ao sentir a suavidade das mãos de Jolene em sua pele.

Jolene aproveitava cada oportunidade para acariciá-lo enquanto o despia.

Ela ajoelhou-se para desamarrar-lhe as botas. Depois de deixar o marido completamente desnudo, não permitiu que ele a tomasse nos braços. Beijou-lhe o pescoço e acariciou-lhe o físico musculoso. Procurava gravar na memória todas as saliências e reentrâncias. Beijou cada centímetro daquela pele dourada. Usava a língua para aliviar o reflexo de alguma pequena mordida que houvesse dado involuntariamente. Sigimor começava a arfar, o que a deixou ainda mais deliciada.

Sigimor gemeu quando Jolene beijou-lhe uma perna para baixo e depois a outra para cima. Deteve-se na parte interna das coxas. Envolveu a masculinidade evidente com uma das mãos e provocou-a sem piedade. Sigimor praguejou, e JoIene sorriu. Ela sonhara em agradá-lo da mesma forma que ele fizera inúmeras vezes.

Vai acabar por me levar à loucura — Sigimor murmurou.

Talvez seja essa a minha intenção. — Jolene rodeou-lhe o umbigo com a língua.

A senhora, minha esposa, está ultrapassando os limites de seus sonhos mais selvagens.

O senhor, meu marido, nem imagina como eles são desregrados.

Sigimor não chegou a fazer comentários. Agarrou-se nos cabelos da esposa, que se esmerava na tarefa de dar-lhe prazer. Sentir os lábios quentes e a língua ávida deixaram-no cego de desejo. Lutou para refrear a paixão, determinado a aproveitar o deleite durante o maior espaço de tempo possível. Mas logo sentiu o controle começar a romper-se.

Ainda que seu maior desejo fosse saborear o que ela o fazia sentir, Sigimor disse a si mesmo que estava na hora de parar. Muito próximo do apogeu, queria realizar-se no âmago de Jolene. Deitou-a no tapete e tirou-lhe a camisola. Beijou-a com toda a fome que o consumia e deslizou a mão por dentro das pernas sedosas. Quente e úmida, Jolene o recebeu com entusiasmo. As lisonjas que ele pretendia sussurrar-lhe no ouvido saíram em forma de rosnado quando os corpos se uniram. O calor de Jolene e seu corpo delgado, que se arqueava, fizeram-no entender que palavras e pensamentos se tornavam desnecessários. Teria somente de aproveitar a paixão que os envolvia.

Jolene… — Sigimor a chamou depois de ter voltado a si do êxtase que o deixara exaurido. Carregou-a para a cama e largou-se a seu lado — …por acaso pretende me matar?

Só se for de prazer. — Ela aconchegou-se no marido e alisou-lhe o estômago.

Ah! Se eu quisesse, poderia fazer com que os seus olhos saíssem das órbitas.

Isso é um desafio?

Revigorado, Sigimor empurrou-a, deixou-a de costas e ajoelhou-se sobre ela.

Isso mesmo, minha senhora. Aposto que a farei ficar tão fraca que não conseguirá erguer um dedo, antes que consiga acabar comigo.

Pois eu duvido.

Então concorda com o desafio?

O senhor tem certeza de que saberá aceitar uma derrota?

Não tenho intenção de perder.

Nem eu.

Sigimor abriu um olho e notou que as chamas estavam quase extintas. Gemeu e cerrou a pálpebra quando Jolene sacudiu um dedo diante do rosto.

Admito que perdi.

Ainda bem. — Jolene, largada, de costas, deixou cair a mão do lado.

Com esforço, Sigimor abraçou-a pelos ombros, puxou-a para seu lado e bocejou.

Acho que será melhor limitarmos esse desafio.

Uma idéia sensata.

É, eu pretendo viver por muito tempo. — Sonolento, sorriu diante da risada de

Jolene.

Ela escutou-o ressonar, e a vontade de chorar voltou, intensa. Desvencilhou-se dos braços do marido e sentou-se a seu lado.

O corpo estava satisfeito. O coração, despedaçado. Sigimor representava tudo o que ela sempre idealizara em um marido. E seria obrigada a deixá-lo. Olhou pela janela. Não poderia ficar ali nem mais um momento. Sair de Dubheidland às escondidas iria requerer muito tempo. E um trajeto longo a aguardava. Fitou o marido e teve de desistir de beijá-lo. Receou que ele acordasse.

Estremeceu em virtude do corpo dolorido e saiu da cama com cuidado. Vestiu-se sem tirar os olhos de Sigimor e pegou debaixo da cama a sacola pequena com seus pertences que ali escondera antes. Imóvel e indecisa por alguns instantes, tornou a pensar em Reynard e nas promessas que fizera. Saiu do quarto sem fazer um mínimo barulho.

Pegar Reynard foi relativamente simples. O menino dormia perto da porta do dormitório. Os outros garotos tinham sono pesado. Enrolou-o em uma manta, pegou o saco com as roupas dele e deixou o recinto.

Entrou no aposento que fora ocupado por Bárbara, deitou o sobrinho na cama e vestiu-o. Ele despertou no momento em que Jolene o ajeitava na bolsa improvisada com um lençol que iria nas suas costas, amarrada na frente. Espantado, Reynard olhava para os lados. Pareceu apavorar-se ao comprovar onde se encontravam.

Psiu, meu amor. Não há perigo. Está tudo bem. Vamos visitar uma pessoa.

Que pessoa?

O primo Roger.

Que bom. Eu gosto do primo Roger.

Ele também gosta do valente Reynard. — Jolene pegou a bagagem escassa e foi até a lareira para alcançar a passagem secreta.

Por que temos de ir por aí? Ela pegou um archote.

É muito cedo e não quero perturbar ninguém. Todos estão cansados pela luta que enfrentaram para nos salvar.

Jolene chegou ao corredor, com a mentira que dissera aumentando o peso da culpa. Repreendeu-se. Teria de esquecer as mentiras, o remorso, o marido que dormia em paz e que acordaria sozinho. E, acima de tudo, o sofrimento que lhe apertava o coração a cada passo que a distanciava de Dubheidland. Teria pela frente um trajeto longo. Seria melhor prestar atenção ao caminho, para não se perder.

Jolene chegou à clareira onde Roger aguardava por Harold um pouco mais tarde do que fora determinado. Receou que ele já tivesse partido. Para seu alívio, um homem surgiu de trás das árvores que delimitavam o roçado. Era Roger. Espantado, ele nada disse. Apenas a abraçou.

Reynard recebeu atenções e cuidados. Uma fogueira foi acesa. Jolene sentou-se em uma manta dobrada diante do fogo e bebericou um pouco de vinho que lhe fora oferecido. Narrou para Roger tudo o que acontecera, inclusive a morte de Harold. Ele, por sua vez, fez um relato do que havia feito desde que soubera da morte de Peter. Explicou que fora o escolhido como tutor de Reynard e que Emma já estava em Drumwich, ansiosa pela chegada do garoto.

Atônita, Jolene terminou o vinho, ficou em pé e olhou em direção a Dubheidland.

Espero que tenha gostado. — Roger levantou-se.

Muito. Era o que eu mais desejava.

Bem, sobre esse seu casamento do qual ouvi falar, poderemos conseguir uma anulação.

Roger franziu o cenho ao vê-la negar com um gesto de cabeça.

se.

Apesar de ter de deixar Reynard, a escuridão do sofrimento começava a aclarar-

Eu vou voltar.

Para sir Sigimor? Jolene, ele é escocês!

É verdade. Um escocês grande, rude e ruivo. E é meu marido. — Ela sorriu,

alegre e inconformada com a própria idiotice. — E eu o amo.

Ora, Jolene. — Roger passou a mão nos cabelos. — Depois de passar por momentos tão difíceis, é possível desenvolver emoções enganosas. Fique algum tempo em Drumwich e acabará percebendo que esse não é um casamento adequado. — Ele proferiu uma imprecação ao vê-la negar de novo. — Seu marido a ama?

Não tenho certeza. Mas ele tem ciúme e é possessivo.

Muitos homens são, porém isso não quer dizer nada.

Ele está sempre pensando no meu conforto e não tolera quando me insultam.

Como qualquer gentil-homem faria.

Sigimor não é exatamente um gentil-homem.

Está vendo? Para uma mulher da sua estirpe, o marido tem de ser um cavalheiro de verdade.

Ele conversa comigo sobre uma infinidade de coisas e escuta o que tenho para

dizer.

Jolene…

Sigimor procura entender as minhas mudanças de humor e pergunta os

motivos.

Ele é escocês!

Ele fica tão à vontade comigo como fica com seus irmãos. Também ri muito quando estamos juntos.

Não digo que ele não seja um bom amigo, mas… Jolene fitou o primo e corou.

A paixão é intensa e quente — ela sussurrou. — Sigimor me segura nos braços a noite inteira.

Jolene ficou surpresa ao ver Roger ficar vermelho.

Pretende mesmo ficar com seu marido?

Tenho de voltar para meu marido. Compreendi que o amo, mas nada confessarei a ele por enquanto. Acredito que Sigimor poderá me amar algum dia. O amor dele por mim ainda é inconsciente. Não importa. Tenho de voltar para Dubheidland. Mesmo que Sigimor ainda não me ame, é o único homem que eu desejo para marido.

E Reynard?

O menino aproximou-se deles.

Reynard, meu querido, terá de ser um garoto corajoso. Irá para Drumwich para morar com o primo Roger e a prima Emma. Eu vou voltar para Dubheidland e viver com Sigimor.

Não gostei. — Reynard sacudiu a cabeça e apertou os lábios. Jolene abaixou-se na frente dele e beijou-lhe a face.

Eu não quero deixá-lo, meu amor, mas não tenho escolha. Sou casada e terei de ficar com meu marido.

Eu preciso voltar porque sou herdeiro?

Porque é um sucessor, um barão e um conde. Há uma porção de pessoas aflitas pela volta do futuro lorde de Drumwich. Sigimor também é um lorde e precisa de mim para ajudá-lo a tomar conta do seu povo. Essa é a tarefa de uma esposa.

Reynard começou a chorar e Jolene tomou-o nos braços. Ela fez um esforço para demonstrar tranqüilidade e não chorar junto com ele. Por alguns momentos continuou a repetir o que já dissera. As lágrimas de Reynard cessaram. Ele fungou e foi para perto dos outros homens.

Ele sentirá bastante — Jolene sussurrou para o primo.

Claro que sim. — Roger abraçou-a.

Eu gostaria de poder dividir-me em duas.

É o que todos nós desejamos às vezes.

Estou chorando, Roger. Se Reynard chegar perto, avise-me para eu parar.

Roger esboçou um sorriso triste e segurou-a nos braços, enquanto ela desabafava a dor. Afagou-lhe as costas e olhou na direção de onde Jolene viera. Arregalou os olhos.

Das sombras da mata surgiam vários homens. Um olhar mais atento deu-lhe a certeza de que estavam tensos e prontos para uma batalha. Reynard observou os recém- chegados, sorriu e acenou para o mais alto. Nem o reconhecimento fez Roger descontrair-se. Um daqueles gigantes ruivos na certa era o marido de Jolene. Mas nenhum deles tinha semblante amigável.

Capítulo XIX

Jolene!

O grito enraivecido de Sigimor ainda não acabara de ecoar pelos corredores e ele já estava fora da cama, enfiando a roupa de qualquer maneira. Calçava as botas quando Liam e Nanty irromperam no quarto, carrancudos, sonolentos, vestidos pela metade, espadas em riste. Atrás deles, o número de familiares foi aumentando. O corredor ficou lotado de homens armados e expressão semelhante. Sombrios, caras de sono e mal- arrumados.

Ficou maluco, Sigimor? — Liam foi ríspido, depois de olhar o aposento e nada encontrar de ameaçador. — Deu o alarme por nada?

Jolene sumiu. — Sigimor pegou a espada.

O que disse a ela que a fez ir embora?

Por que sempre acha que eu sou o culpado? Alguém a tirou daqui.

Não pode ser. — Liam sacudiu a cabeça.

Como pode ter tanta certeza?

O ilustre Sigimor Cameron ainda está vivo.

Sigimor deu razão ao primo, embora preferisse rastejar sobre cacos de vidro a admitir uma coisa daquelas.

Jolene deve estar voltando para a Inglaterra com o garoto.

Sozinha? Ela não cometeria um desatino desses.

Sigimor tinha suas dúvidas. Os agrados e a paixão desenfreada da noite anterior tinham sido propositais. Fora uma despedida, e não a consolidação do matrimônio.

Jolene teria uma surpresa se pensava que ele se conformaria. Convencido de ter finalmente encontrado a companheira ideal, jamais desistiria dela.

Sigimor não podia acreditar que Jolene partira sem que houvesse uma meta definida. Mesmo que ela sempre arrumasse desculpas quando errava o caminho, era consciente de não ter senso de direção. Se saíra sozinha, na certa alguém a esperava em algum lugar próximo, aonde ela pudesse chegar com segurança. Jolene fora encontrar-se com uma pessoa que a levaria de volta para Drumwich.

O ciúme feroz durou apenas alguns instantes. Jolene jamais teria se casado com ele se houvesse deixado um amor na Inglaterra. Era uma verdade tão certa quanto ele se chamar Sigimor Cameron. Uma hipótese era ela ter ido ao encontro de algum dos aliados ou parentes ingleses mencionados por Harold. O que explicaria a inquietação de Jolene, mesmo depois de ter sido libertada. O que havia gerado a desconfiança de que ela guardava um segredo.

Infelizmente ficara cego pela paixão. O que mais o deixava furioso e machucado era Jolene ter usado o afeto dominador de modo intencional. Tratou de endurecer o coração e, quando chegou à porta, todos saíram da frente.

O que vai fazer? — Liam indagou.

Trazer minha mulher de volta.

Mas não sozinho, meu amigo.

Sigimor observou sua grande família correr para os quartos, com a intenção de preparar-se para acompanhá-lo. Chegou a pensar em partir sem seus parentes. Mas daria outra impressão chegar ao local do encontro de Jolene com uma pequena tropa armada. Se os parentes dela tivessem vindo atrás de Harold, na certa estavam armados.

Desceu até o grande hall para tomar o desjejum e esperar pelos outros.

Finalmente Sigimor saiu de Dubheidland, refletindo se alguém havia ficado para tomar conta do castelo. Um olhar atento revelou que Somerled e Ranulph não tinham vindo. Os outros dez irmãos residentes em Dubheidland estavam com ele, inclusive Fergus, o caçula. Em uma contagem rápida, enumerou doze primos e Nanty, como não

podia deixar de ser. Nem poderia falar a sós com Jolene quando a encontrasse. Teriam de voltar a Dubheidland para conversar e esclarecer tudo. Havia uma pequena conta a acertar com Jolene e a presença da família era um fator de constrangimento.

Sigimor teve a impressão de que alicates lhe apertavam o peito. Estivera tão preocupado em alcançar a rendição de Jolene que nem se dera conta de quanto ele mesmo capitulara diante dela. Seus planos bem elaborados para conduzir o espetáculo haviam falhado fragorosamente. Sua única esperança de evitar a humilhação era certificar-se de que Jolene o aceitaria naquele confuso estado de espírito em que se dividiam a alegria e o tormento.

Alguém deveria tê-lo avisado que o amor era tão complicado!

Sigimor nem percebeu o movimento rápido e brusco que imprimiu às rédeas. O cavalo empinou-se levemente e andou de lado. Mais do que depressa acalmou a montaria e fingiu não perceber os olhares espantados da tropa.

Por um momento procurou enganar a si mesmo e impedir que a verdade viesse à tona. Outro fracasso total.

Ele amava Jolene.

Enquanto se preocupava em salvá-la e, ao mesmo tempo, conseguir uma companheira, Jolene lhe roubara o coração com seus dedos esguios e pequenos. Imaginara prendê-la em virtude da paixão. E o que acontecera? Jolene o capturara de maneira completa e irreversível, sem que ele nem sequer houvesse percebido como isso ocorrera. Nem se dera conta de como Jolene fazia um homem experiente de trinta e dois anos suar e tremer como um garoto imberbe

Ele amava Jolene.

Amava uma inglesa miúda de cabelos negros que não tremia diante de sua fúria, não lhe obedecia cegamente e nem mesmo o faria sob ameaça ou tortura. E ainda conseguia ser mais impertinente do que Ilsa, sua única irmã. Sigimor não se surpreenderia se Deus e os anjos estivessem rolando de tanto rir.

A partir daí, haveria somente uma solução lógica para o problema. Jolene teria de amá-lo. O plano de fazer com que ela o amasse fora baseado apenas no fato de que uma esposa deveria amar o marido. Claro que pensara em facilitar a própria vida com esse privilégio. No momento se tornara uma necessidade vital como o ar que respirava.

Não duvidava que Jolene gostasse dele. O que não lhe trouxe orgulho nem vaidade. Não acreditava que uma mulher se entregasse tão naturalmente e com uma paixão tão intensa se não gostasse do homem com quem fazia amor. Claro que seria possível alimentar e lapidar aquele sentimento até que se transformasse em amor. Mas, pelo visto, o desejo quente e voraz não conseguira aprisionar o coração de Jolene.

Sigimor sabia que elogios, palavras doces e provas de afeição sempre ajudavam. Mas ele nunca se preocupara em percorrer os meandros da difícil arte de cortejar uma mulher. Ergueu a cabeça e analisou Liam. Pedir conselhos a ele seria degradante, mas não havia ninguém mais versado do que Liam naquele quesito.

Por que está me olhando? — Liam fez a pergunta ao sentir o olhar fixo de Sigimor.

Ora, nós o estamos seguindo. — Sigimor deu de ombros. — Eu me perguntava se o primo tomou a direção correta.

Estou seguindo uma pegada muito clara. Jolene deve ter dado pão para o garoto mastigar. O que ele deixa cair deve ser o mesmo tanto que está comendo.

Sigimor notou o pedaço de pão que Liam apontava e olhou para a frente, onde alguns melros bicavam alguma coisa no solo.

Os meninos gostam de ver passarinhos atrás deles.

Não acho que o primo estivesse me olhando por causa disso. Nunca o ouvi questionar minha capacidade de seguir um rastro.

Mas também nunca tive de lhe confiar as pegadas de minha esposa.

Oh, não. Exceto por aquela vez em que ela foi direto até as garras de Harold. — Liam incitou o cavalo a um passo mais rápido e revirou os olhos quando Sigimor o acompanhou. — Mandei Nanty na frente para ver se ele descobre alguma coisa sobre o tal encontro imaginário.

Ótimo. — Sigimor praguejou em silêncio por Liam ter desconfiado da inverdade de suas palavras e pela zombaria às suas deduções.

Se tem algo a perguntar ou para dizer, fale logo. Não gosto de dissimulações.

Acha que Jolene pode ter fugido?

Não acho que ela tenha fugido, no sentido literal da palavra. Acredito que todos nós esquecemos o papel de Reynard na história. Ele é o lorde de Drumwich, o único herdeiro de Peter. O assassino de Peter, que desejava apossar-se de tudo o que era de Reynard, está morto. Portanto não há mais necessidade de o garoto ficar escondido na Escócia, não é mesmo? Na verdade, isso seria muito prejudicial para ele.

Sigimor murmurou uma imprecação. Mais uma vez, Liam estava certo. Embora não ignorasse a importância da origem de Reynard, dera pouca atenção ao que aconteceria depois da derrota de Harold. Era mais fácil enxergar Reynard como uma criança em vez de imaginá-lo como lorde de um castelo inglês. Por uma ou duas vezes pensara no que seria feito assim que a ameaça ao menino se apagasse. Assim mesmo, de maneira bem fugaz. Não fizera planos para aquele futuro. Muito menos conversara com Jolene a respeito do assunto. Absorto em fazer Jolene tornar-se parte integrante dele mesmo, desconsiderara a responsabilidade da tia com o sobrinho e o juramento que ela fizera ao irmão. Um erro grave e não lhe ocorria um modo de retificá-lo.

Fora um imbecil. Não tomara conhecimento da escolha difícil que Jolene teria de fazer, assim que Harold não mais constituísse uma ameaça. Jolene cuidava de Reynard desde que o menino nascera. A ligação forte entre os dois saltava à vista. Jolene, por ser mulher, não seria indicada como tutora do sobrinho. Mas isso não significa que se afastaria dele. No fundo de seu coração, Sigimor admitiu que sua atitude tinha uma explicação: a ferocidade com que tentava segurar Jolene a seu lado. Durante o tempo inteiro ele tentara fazer a balança pender a seu favor, pensando, de maneira inconsciente, na hora da decisão.

Naquela altura, seu maior temor era Jolene já ter feito a escolha e não haver se decidido por ele.

Cerrou as pálpebras. O sofrimento era imensurável. Um futuro árido e solitário desenhava-se em sua mente. Apesar da família enorme que estaria sempre a seu lado, Sigimor teve certeza de que jamais se livraria daquele vazio.

Sigimor?

Sim? — Sigimor piscou para as árvores que ladeavam a estrada. — Ela terá de ficar com o sobrinho.

Pode ser. Jolene enfrentou uma escolha difícil.

Ela já decidiu.

Não se pode ter certeza.

Não? Se Jolene quisesse ficar ao meu lado, por que fugir no meio da noite? Por que não me disse que precisava se encontrar com alguém? Por que não me pediu para ir junto e ajudá-la a resolver o futuro de Reynard?

Não sei. Talvez Jolene estivesse com medo de ser influenciada a ficar. Quem sabe o que se passava em seu coração quando chegou o momento decisivo? Ela amava muito o irmão, presenciou seu assassinato e fez um juramento antes de ele morrer em meio a grande agonia. Jolene ama o sobrinho a quem criou como mãe e fará qualquer coisa para o bem-estar dele. Jolene é esposa de um homem que terá de ficar na Escócia e tudo o que pertence a Reynard está na Inglaterra.

Ela não me ama. — Sigimor declarou com amargura e teve esperança de não parecer patético.

E quem pode afirmar isso? Ela gosta do homem teimoso que está ao meu lado.

Liam ergueu a mão para impedir o protesto de Sigimor. — Jolene jamais teria consentido no enlace nem o teria recebido na cama se não lhe dedicasse algum sentimento. Ela o teria encarado para dizer que estava na hora de voltar para Drumwich com Reynard. Se ela não gostasse do marido, não teria evitado a confrontação. Jolene tomou uma atitude drástica por receio de ser influenciada a não cumprir com o seu dever. A promessa feita no leito de morte do irmão amado.

Os dois puxaram as rédeas para deter os cavalos. Nanty vinha na direção deles.

Sigimor pensou no que Liam dissera. Jolene não era covarde, apesar da fuga que empreendera. A noite de delírios compartilhados também era um fato a ser levado em consideração. Creditara o ar de desespero que permeara aquelas poucas horas ao fato de Jolene ter encarado a morte de perto. Mas certamente fora pela necessidade de acumular um punhado de memórias. Se Jolene não gostasse dele e estivesse ao seu lado apenas por obrigação, não iria querer guardar nenhuma lembrança. Aquela noção era confortante de certa forma, mas não solucionava o problema. Jolene escolhera o sobrinho. Sigimor não confiava que o encontro com ela pudesse alterar a decisão da esposa. O que só aumentaria o sofrimento de ambos.

Teria de haver um outro caminho, ele pensou em meio a grande angústia. Uma solução que permitisse a Jolene a incumbência com o sobrinho e ficar ao lado do marido.

Lady Jolene está em companhia de vários ingleses, em uma clareira na mata — Nanty anunciou.

O primeiro pensamento de Sigimor foi de lutar para ter a esposa de volta. Uma idéia absurda. Matar a família dela só iria piorar a situação.

Quantos são?

Uns vinte ou mais. Bem armados, mas não estão ameaçando lady Jolene nem o menino.

Aliados ou parentes?

Parentes. Pelo menos alguns deles se parecem com ela. Têm cabelos negros.

Ela deve ter falado que a família se encontrava aqui, enquanto estava em poder de Harold. Isso explica a atitude intempestiva que ele tomou. Seus objetivos caíram por terra ao saber que os parentes de Jolene haviam descoberto o que havia acontecido em Drumwich e tinham vindo em auxílio dela.

Nanty anuiu.

Ele não teria tempo de se casar com ela para garantir a posse de Drumwich. Pedir um resgate era tudo o que lhe restava fazer. A vida de Jolene e de Reynard pela dele. Ou silenciar a testemunha de seus crimes.

Podemos alcançá-los sem sermos vistos?

Sim, se tivermos cuidado. Poderemos cercá-los por trás das árvores. Tenho, a impressão de que dois de seus parentes de Scarglas estão com eles. Não pude aproximar-me o suficiente para ver de quem se tratava.

Escolta de segurança?

Certo. Uma proteção contra maridos enraivecidos.

Por mais tentador que possa parecer, um escândalo desagradaria a Jolene. — Sigimor percebeu o riso disfarçado de Liam e de Nanty. — Os ingleses estão prontos para partir?

Não. Estão conversando.

A indecisão tomou conta de Sigimor, diante da expectativa de todos.

Seria justo interferir na resolução de Jolene? Era claro que ela optara pela obrigação e pelo amor a Reynard. Além do mais, a recusa de Jolene em voltar para Dubheidland poderia abrir um ferida em seu peito bem maior de que a deixada por Bárbara. Uma humilhação mais profunda e que o faria sofrer para o resto da vida.

O orgulho lhe recomendava que o melhor seria voltar e esquecer Jolene, embora

estivesse certo de que ela jamais abandonaria sua memória. Nem mesmo haveria a oportunidade de odiá-la, depois de compreender o grande dilema em que Jolene se debatera. Mas se regressasse naquele momento, haveria de conviver com uma incerteza. E se houvesse feito uma tentativa de fazê-la mudar de idéia, Jolene teria consentido? Sigimor não poderia viver sob a sombra dessa dúvida, mesmo correndo o

risco de ser rejeitado.

Suspirou fundo para tomar coragem e começou a distribuir ordens. Com a ajuda de Nanty, mandou os homens em diferentes direções. Teriam de cercar a clareira com o menor alarde possível. Determinou que não atacassem, a menos que fosse para salvar as próprias vidas. Para ter Jolene de volta, não queria passar por cima dos cadáveres da família dela. Ele e Liam observariam o que se passava dentro da clareira.

Lady Jolene pode estar planejando voltar — Liam comentou.

Nada disso. Jolene não agiria com tanto segredo se não pretendesse regressar à Inglaterra com os seus conterrâneos. Se ela tivesse intenções de entregar Reynard aos cuidados da família, teria me contado. Eu poderia ter sugerido que eles viessem a Dubheidland.

Noto que não está mais enfurecido.

Estou com raiva, mas entendi que isso de nada adiantará e que também não é justo. Eu fechei os olhos diante de uma situação que não poderia ser ignorada. O que aconteceria depois da morte de Harold. Planos teriam de ser feitos, discutidos e resoluções, tomadas. Não nego que Jolene deveria ter falado comigo. Mas como eu nunca lhe perguntei nada, ela poderia muito bem ter pensado que não me agradava falar nisso. E, de certo modo, ela estava certa. Eu nem queria ouvir tocar no assunto. Reconheço, Liam, que teve razão ao afirmar que Jolene estava diante de uma escolha difícil.

Ela teria de deixar não só a família, mas também trocar seu país por outro onde não tinha sido bem recebida.

Sigimor suspirou.

Teria de abandonar o menino que criou desde o nascimento. Reynard é um filho para ela. Jolene tentou evitar que Reynard a visse como mãe. Mas isso não convenceu o próprio coração. Poderia ela resistir aos apelos do sobrinho que acabou de perder o pai? Teria coragem para deixá-lo? Não se tratou de uma simples escolha entre o marido e o sobrinho. Se quer saber, Liam, nem sei se eu ficaria satisfeito com a volta de Jolene, se ela tivesse de abandonar seu dever e não honrasse o juramento feito a um moribundo.

Afastar-se do sobrinho poderia representar algo bem menos…

Pode ser, mas isso impediria que Jolene viesse a se arrepender mais tarde? Ou mesmo de ressentir-se contra mim e passar a me odiar?

É uma possibilidade. Sigimor, eu só vejo um caminho. Dizer-lhe que a ama.

E por que eu teria de fazer isso?

E por que não? Trata-se da verdade.

Sigimor sentia-se perturbado por Liam ter reconhecido nele um sentimento que ele mesmo acabava de descobrir,

Eu nunca disse uma coisa dessas para ninguém. Jolene é minha mulher. Nada mais importa.

Importa, e muito, se pretende que ela fique ao seu lado e feliz.

Jolene estava feliz. Eu salvei a ela e ao menino, providenciei tudo o que era necessário e fizemos amor até à exaustão.

Isso é bom, muito bom. Mas será que fez tudo certo? Talvez…

Talvez fosse melhor parar com essas ironias. Isto é, se pretende chegar até o dia do seu santo padroeiro. Claro que fiz tudo certo. Posso não ter cortejado e levado para a cama metade das moças deste país como o primo fez, mas tenho experiência suficiente na matéria. Jolene se inflama comigo.

Isso é visível, não há como negar. Mas eu insisto. Não se pode amarrar uma mulher só com a paixão. Qualquer mulher com inteligência, e isso Jolene tem de sobra, sabe que o ardor de um homem pode ser fugaz se não houver na base um sentimento profundo e verdadeiro. Jolene tem de saber que existe um espaço reservado para ela no seu coração, na sua vida, e não apenas na sua cama.

Sigimor concordava com Liam, mas teve necessidade de defender-se.

Não acho que ela dê importância a essas coisas.

Ela era uma virgem inglesa da mais alta linhagem que se casou com um escocês. Isso diz muito. Primo, entenda que não é o único que teria de fazer concessões. Jolene terá de abandonar Reynard e a sua pátria. Será preciso bem mais do que um homem bom de cama para Jolene tomar uma resolução dessas. Terá de cortejá-la. Terá de afirmar seu amor por ela, meu amigo.

É um pouco tarde… — Sigimor murmurou ao se aproximar da clareira onde Jolene estava com os ingleses.

Nunca é tarde demais. Ela ainda não foi embora. Diga-lhe algumas palavras

doces.

Na frente de um bando de saxões?

Eles ficarão bem impressionados. Não duvide disso.

Apesar de reconhecer mais uma vez a justeza do raciocínio de Liam, Sigimor não

poderia aceitar o conselho. Não era um homem versado em palavras doces nem estava acostumado a falar abertamente sobre seus sentimentos. Jolene entenderia aquela limitação. Sentiu um nó na garganta ao tomar, junto com Liam, um lugar no círculo dos Cameron que rodeava Jolene e os ingleses. Perderia a única e última oportunidade de ter a esposa de volta. Não sabia dizer palavras doces de amor.

Ao olhar para Jolene, perdeu completamente a vontade de cortejá-la. Ela estava nos braços de um homem alto e bem-apessoado. O homem tinha cabelos negros e devia ser um primo. Ora, Harold era primo, e os laços de sangue não o haviam impedido de desejá-la. Isso nem mesmo seria um obstáculo ao casamento. Cego de ciúme, Sigimor só pensou em arrancá-la dos braços daquele cavalheiro insolente.

Palavras doces, primo — Liam tornou a avisar quando Sigimor desmontou.

Não gritarei com ela.

Liam suspirou ao ver a expressão tenebrosa de Sigimor.

Não esqueça a própria recomendação. Não matar nenhum inglês.

Não vou matá-lo. Eu me limitarei a lhe quebrar os braços.

Capítulo XX

Jolene, temos companhia.

Ela afastou-se de Roger, espiou em volta e arregalou os olhos. Encontravam-se rodeados por uma tropa de escoceses. Todos sisudos, inclusive Fergus. Jolene deduziu que os Cameron não podiam saber que Roger era seu primo e que o abraço era fraterno. Avistou Sigimor e sentiu uma alegria imensa, apesar da expressão carrancuda com que ele a fitava.

Aquele homem é seu marido? — Roger perguntou, vendo Sigimor desmontar e caminhar ao encontro deles.

Isso mesmo. Ele é sir Sigimor Cameron, lorde de Dubheidland.

Parece mais um touro bravio.

Jolene teve de concordar com o primo. Sigimor vinha de cabeça levemente abaixada, os ombros largos curvados para a frente, punhos fechados. Uma avaliação rápida foi suficiente para ela perceber que os Cameron e os dois MacFingal antecipavam uma luta. Mais do que depressa, Jolene se pôs de frente para Sigimor e de costas para Roger.

Saia do meu caminho — Sigimor ordenou, parando diante dela.

Não o deixarei machucar Roger. Ele é meu primo.

Estou começando a acreditar que seus primos são amigáveis demais.

Jolene escondeu a surpresa e a satisfação pelo ciúme de Sigimor. Ousou acreditar que tomara a decisão certa.

Roger é casado e estava me consolando. Só isso. Ele soube do que aconteceu em Drumwich e veio à procura de Harold.

Interessante… Por que não me contou isso ontem? Não poderia ter feito um intervalo na sua ilimitada sofreguidão noturna para ao menos mencionar a presença dos seus parentes na região?

Os MacFingal não contiveram as risadas. Jolene ficou muito vermelha e fulminou com o olhar tanto o marido quanto os MacFingal.

Sigimor! Será que precisava ser tão… descortês?

Eu? Pois para mim parece descortesia fazer amor com um homem até ele ficar largado, sair da cama de manso e ir ao encontro de um exército de homens na floresta!

Se não parar de falar essas coisas, pedirei a Roger para lhe dar uma surra.

E por que não faz isso? Estou com uma vontade louca de lhe quebrar os braços. Assim, ele aprenderá a não abraçá-la mais. Além disso, eu gostaria de atingir mais uma meia dúzia.

Roger, não vai dizer nada? — Jolene envergonhou-se pela atitude do marido. Seu primo deu de ombros.

Sinto muito, Jolene. Pelo que entendi da conversa, sou obrigado a dar razão a sir Sigimor. Se Emma tivesse feito uma coisa dessas comigo, eu não teria ficado de melhor humor.

Homens! São todos iguais. O primo… — Jolene sufocou um grito de espanto. Reynard surgiu por trás e deu um pontapé na canela de Sigimor. — Reynard! Por que fez isso?

Porque ele é um homem malvado! — Reynard, chorando, lutou para livrar-se de Roger, que o prendera entre os braços, e fitou Sigimor, que esfregava a canela. — Ele vai roubar minha mãe. Quero bater no traseiro dele!

Sigimor observou as lágrimas e a fúria do garoto. Depois fitou Jolene. O sofrimento visível no olhar da esposa era tão pungente que se tornava difícil não confortá-la. E teve de repreender-se à luz do entendimento. Além de fazer um julgamento errôneo da situação, também se enganara a respeito de Jolene. Ela mudara de idéia em relação ao

cumprimento do dever. Sentiu-se culpado pela alegria que o invadiu diante dessa possibilidade. Devia ser traumático para uma criança tão pequena como Reynard aceitar uma sucessão de perdas. Rezou para que Roger fizesse jus à impressão que tivera dele. Assim, o garoto ficaria bem amparado.

Acho que nós três precisamos conversar — Sigimor disse e virou-se para os Cameron: — Podem ficar à vontade. Poderemos demorar um pouco. Não haverá luta com os ingleses… e nem com aqueles dois tontos — referiu-se aos MacFingal e agachou-se na frente de Reynard. — Agora, meu rapaz, pode desejar uma boa viagem para os seus amigos.

Para Nanty também? — Reynard estava com os lábios trêmulos.

Também, Reynard.

Quero ficar com eles. São meus amigos.

Bons amigos não se perdem. São para sempre. Poderá chamá-los quando precisar. Agora, vá. Despeça-se. — Sigimor ficou em pé e Reynard correu para o lado de Nanty. — Vamos, Jolene. Temos de conversar. — Virou-se e foi em direção à outra extremidade da clareira.

Camarada presunçoso — ela murmurou.

Pelo que me contou da vida dele — Roger deu o braço a Jolene e ambos seguiram o gigante ruivo —, Sigimor não poderia ser de outro jeito. Não deve ter sido fácil ver-se, da noite para o dia, como lorde de um castelo povoado de parentes, meninos em sua maioria. Um homem não pode controlar tantas pessoas apenas com doçura, gentileza e conversas amenas. — Apontou Nanty e Liam, que trocavam desaforos com os MacFingal. — Os Cameron são boas pessoas, mas um tanto indomados.

Uma observação acurada, Roger. — Ao ver que Sigimor os observava de braços cruzados na altura do peito, Jolene imitou-lhe a pose e a carranca. — Claro que poderão melhorar se levarem uns cascudos na cabeça.

Chega de baboseiras, Jolene. Comece com o que soube por intermédio de Harold — Sigimor ordenou.

Ele sabia que Roger o perseguia por haver descoberto seus crimes — Jolene respondeu. — Enquanto estivemos nas catacumbas, Harold foi avisado de que Roger queria se encontrar com ele neste roçado.

Milorde pretendia falar com Harold? — Sigimor fitou Roger. — Por acaso duvidou dos crimes cometidos?

Não, mas ele era meu parente consangüíneo. Achei que deveria lhe dar o direito de se defender das acusações.

A resposta dele seria matá-lo.

Sem dúvida. Mas eu me preparei para uma traição. Jamais confiaria em Harold. Depois de resolver o caso com ele, eu tinha o propósito de dirigir-me a Dubheidland. O velho Thomas me informou com quem Jolene e Reynard haviam partido.

Milorde não teve receio dos grandes aliados que Harold dizia ter?

Não, pois os meus eram muito mais poderosos. Harold sempre me considerou um simples baronete. Ele achava que a minha herdade era pequena e desprezava minha esposa por ela ser filha de um cavaleiro. O erro de Harold foi nunca olhar um pouco adiante. A ganância deve ter lhe limitado o campo de visão. A linhagem da minha Emma remete à família real, e ela é muito querida na corte. Minha mãe descende de uma família nobre e poderosa. O rei me concedeu pessoalmente o direito de ser o tutor de Reynard. Fiz o pedido assim que recebi a visita de um dos criados de Drumwich. O pobre rapaz fugiu do castelo poucas horas depois da morte de Peter, para me relatar o acontecido. Cheguei a Drumwich um dia após a partida de Harold, que havia saído em perseguição aos Cameron.

Se tivéssemos ficado em Drumwich, milorde teria encontrado a mim e aos meus homens pendurados na forca. Harold não ficou sabendo que milorde foi nomeado tutor,

ficou?

Não. Por isso eu quis conversar com ele. Precisava avisá-lo de que havia

perdido Drumwich e que de nada adiantaria ferir Jolene ou Reynard. Eu tinha intenção de levá-lo ao rei para um julgamento.

Haverá algum problema quando o rei souber que Harold teve o que mereceu, aqui mesmo na Escócia?

Não, pelo contrário. Embora poucos duvidassem da culpa dele, não havia sangue na sua espada, por assim dizer. Harold teria sido julgado e o rei ficaria em situação delicada. Os aliados de Harold também são influentes, embora não se igualem aos meus em poder. O rei dará graças aos céus por ter se livrado de uma circunstância embaraçosa. Ninguém argumentará contra o seu direito de matar Harold, sir Sigimor. Ele fez ameaças contra o senhor, contra a sua família e seqüestrou sua esposa. Como tutor de Reynard, posso testemunhar por que tive de vir até aqui para encontrar o menino. O caso será dado por encerrado.

Sigimor anuiu e fitou Jolene.

Não vai me dizer que veio até aqui só para trazer Reynard, vai? A senhora nem mesmo sabia que Roger tinha sido nomeado tutor. Se quer saber, foi uma covardia ter fugido como um gatuno sorrateiro. Não lhe passou pela cabeça a idéia de que deveria pelo menos me avisar que eu estava a ponto de perder minha esposa?

Jolene fez uma careta. Ser chamada de covarde feriu seus brios, mas teve de aceitar a recriminação como devida. Ela não tivera coragem de contar ao marido o que pretendia fazer. Temia duas hipóteses. Sigimor poderia tê-la forçado a permanecer em Dubheidland, ou nem mesmo se preocuparia em pedir-lhe que ficasse. Imaginara ainda que ele, com o orgulho ferido, poderia persegui-la, como de fato acontecera. Mesmo assim, ela fizera o que lhe parecera correto. E durante o trajeto que empreendera para encontrar-se com Roger, entendera que não poderia viver sem Sigimor. Mas não pretendia falar sobre o assunto na presença de tantos homens.

Eu mandaria avisá-lo quando chegasse a Drumwich.

Ah, mas quanta bondade. — Sigimor resmungou com satisfação ao vê-la estremecer. — Que atitude pretendia tomar em relação a mim e a respeito do nosso matrimônio, uma união muito bem consumada e abençoada pela Igreja?

Bem, eu sou filha de um conde saxão, como se diz por aqui. O senhor é um lorde escocês. Nós não obtivemos a permissão de nenhum dos meus parentes nem do meu rei…

A senhora pensou em anular o casamento. Sim, eu já ouvi falar que se pode fazer isso. Por acaso, lady Jolene Cameron, não lhe passou pela cabeça que poderia estar carregando no ventre um filho meu? E que a anulação faria dessa criança um bastardo?

Jolene já pensara nisso, mas jamais confessaria a verdade.

Eu teria esperado até ter certeza de não estar grávida.

Sigimor teve vontade de sacudi-la até escutar os ossos dela chocalharem, mesmo sabendo que jamais lhe encostaria um dedo com intenção de machucá-la. As palavras de Jolene tinham o poder de vergastadas em pele nua. Nem mesmo sabia o que desejava ouvi-la dizer. Mas certamente não eram aquelas frases calmas e frias que anunciavam a intenção de livrar-se dele.

Jolene teria mesmo mudado de idéia? Precisava ter uma conversa séria com a esposa para esclarecer de uma vez por todas o que estava acontecendo. Mas o local não era apropriado, como também não era adequada a enorme platéia formada pelas famílias Cameron e Gerard. Porém teria de saber o que ela decidira. Esfregou o queixo. Considerou a melhor maneira de perguntar-lhe isso, sem expor as próprias emoções confusas e intensas.

Jolene estava se despedindo de mim quando milorde chegou. — Roger ignorou

a cotovelada de Jolene. — O rei não ficará satisfeito ao saber que uma herdeira inglesa se casou com um lorde escocês. Mas tenho certeza de que Peter aprovaria o enlace. Afinal de contas, a vida da irmã e do único filho foi salva por milorde. Jolene possui um pequeno castelo na Escócia, herdado de uma tia materna. Será seu por direito. — Roger sorriu diante do espanto de Sigimor. — Antes que o rei arquitete um plano para confiscar a fortuna de minha prima, eu lhe mandarei os bens móveis e o dote de Jolene da mesma maneira como cheguei até aqui. Passando em segurança com a ajuda dos seus amigos e parentes. Se preferir, poderei enviar tudo para o castelo escocês de minha prima.

Sigimor desconfiava de que Jolene tivesse um bom dote, mas não imaginava poder recebê-lo. Recusar seria uma tolice. Além disso, conversar sobre o assunto com Roger seria uma boa maneira de evitar, de momento, uma discussão com Jolene. O mais importante era a certeza de que ela voltaria a Dubheidland com ele.

Precisamos acertar alguns detalhes antes que milorde se retire — Sigimor sugeriu e acenou para Liam. — Se achar conveniente fazer um acordo por escrito, meu primo é um excelente escriba e tem uma caligrafia primorosa.

Roger concordou e Sigimor avisou Jolene que conversariam em Dubheidland.

A não ser que queira falar diante desse batalhão.

Jolene sacudiu a cabeça e observou os três homens se acomodarem em cima de algumas pedras grandes, do lado oposto da clareira. O fato de o marido interessar-se tanto pelo dote aborreceu-a por um momento. Contudo a surpresa dele fora autêntica ao ficar sabendo da existência do castelo. Estava ciente de que Sigimor não se casara com ela por amor, mas também não fora para auferir lucros. Sigimor na certa faria bom uso da riqueza que ela trazia para o casamento. Havia muitas melhorias a serem implementadas em Dubheidland. Além disso, os filhos com que seriam abençoados poderiam ter uma educação primorosa. Felizmente a fortuna dela não caíra nas mãos de Harold.

Refletiu no que Sigimor falaria com ela, assim que voltassem para Dubheidland. Não duvidava que teria de enfrentar um longo sermão. Como Sigimor tinha o costume de fazer referências aos momentos íntimos, ela esperava que a conversa fosse privativa. Desgostava-a supor a impressão que Roger levaria dela, assim como os outros homens que haviam escutado as acusações de Sigimor. O melhor seria não pensar sobre o teor da conversa. Não pretendia iludir-se, esperando palavras de amor. A desilusão seria amarga.

Suspirou diante da aproximação de Fergus e de Reynard. Fergus vinha muito sério, parecido demais com Sigimor. A fisionomia confusa e triste de Reynard era de cortar o coração. O garoto hesitou por um momento, antes de jogar-se nos braços dela. Era um sofrimento saber que o veria muito pouco, depois de que ele fosse embora com Roger.

Fora uma escolha difícil, mas correta, Jolene tentou consolar-se. Roger e Emma dariam a Reynard o amor e a orientação de que ele precisava. Ficariam encarregados de administrar a herança do garoto até que ele chegasse à maioridade. Ainda que lhe custasse admitir, Jolene sabia que Reynard e Drumwich precisavam de um homem para cuidar de tudo. E Sigimor jamais teria permissão para administrar um condado inglês. Nem ele cobiçaria tal encargo.

Quero que volte para casa comigo — Reynard murmurou quando Jolene se sentou no chão e pegou-o no colo.

Ela não pode. — Fergus abaixou-se na frente deles.

Lady Jolene é a esposa de Sigimor. Esposas têm de ficar ao lado dos maridos.

Ele franziu o cenho, com ar de crítica. — Embora a regra tenha sido esquecida.

E por que eu não posso ficar?

Nós iríamos gostar muito, mas não será possível. Um lorde tem de voltar para o seu castelo, ainda mais que há um título de conde à sua espera.

Eu não quero ser conde.

Não há como recusar. Todos nós nascemos com uma missão que deverá ser cumprida. Ser um herdeiro é uma grande responsabilidade e uma questão de dignidade pessoal. Poucos são os que têm esse privilégio.

Reynard fitou Jolene, que anuiu.

Reynard, meu querido, o melhor que poderá fazer pela memória honrada de seu pai será cuidar das terras e do povo dele. Roger e Emma ficarão em Drumwich a seu lado. Eles o amarão e o ensinarão a ser um conde digno e estimado por todos. Um homem que faria o orgulho de seu pai.

Por que a senhora não pode mais me amar? Jolene beijou-lhe o rosto e acariciou-lhe os cabelos.

Eu sempre o amarei, Reynard. Só não posso voltar para Drumwich. Nunca se esqueça, meu querido, de que seu lugar está garantido no meu coração.

Eu não perderei seu amor, assim como Sigimor disse que não se perde um bom amigo?

Exatamente. E se precisar de mim, estarei sempre ao seu lado.

Jolene abraçou o sobrinho. O valente garoto suspirou e limpou com raiva as lágrimas teimosas. Ela mesma teve de fazer um esforço enorme para não chorar. Era preciso manter a serenidade para o bem de Reynard.

Esperava que Liam, Roger e Sigimor terminassem logo com as formalidades. A separação era terrível, mas quanto antes ela fosse embora, melhor. Não conseguiria reter o pranto por muito mais tempo.

Milorde cuidará bem do menino, não é? — Sigimor perguntou a Roger, depois de enrolar um dos acordos de casamento que ambos haviam assinado e entregá-lo a Liam.

Pode ficar sossegado. Emma e eu não fomos abençoados com filhos, embora os desejássemos demais. Reynard será nosso filho. Minha mulher está em Drumwich, ansiosa pela chegada do garoto. Sou um Gerard e assumi um compromisso. Farei com que Reynard se torne um jovem capaz de honrar o nome da família e de administrar Drumwich com sabedoria.

Ele não odiará a tia que o abandonou? — Sigimor fitou Jolene e o menino abraçados.

De maneira nenhuma. Não permitiremos que ele esqueça a dedicação de Jolene, os riscos que ela correu e o tamanho do seu amor. Nem o que os Cameron fizeram por ele. Milorde pode contar conosco. Drumwich continuará sendo uma pacífica propriedade inglesa da fronteira, onde ninguém pensa em derramar sangue escocês.

E se milorde e lady Emma tiverem um filho?

Quando nós nos casamos, Emma tinha quinze anos e eu, dezessete. Isso foi há dez anos e minhas sementes nunca criaram raízes. Vivemos muito bem, mas sei que minha mulher está ansiosa para assumir o papel de mãe de Reynard.

Ambos são muito jovens. Ainda poderão ter filhos. Os pais desse camarada — Sigimor apontou Liam — estavam casados fazia quase vinte anos quando ele nasceu. Nesse tempo, meu pai tinha gerado quinze. O velho MacFingal, meu tio, gerou um exército. A mãe de Liam era irmã de meu pai e de MacFingal e só teve dois filhos, já em plena maturidade. — Sigimor acompanhou Roger, que se levantou e deu-lhe uma pancadinha afetuosa no ombro. — Ninguém conhece os desígnios de Deus.

É verdade. Mas não direi a Emma o que me contou. Seria uma crueldade alimentar-lhe novamente as esperanças.

Ainda bem que ela aceita bem o destino. A mãe de Liam se revoltou com a falta de filhos durante quase duas décadas. O destino é caprichoso.

Eu sei. Não se preocupe com Reynard, sir Sigimor. Eu amava Peter como se ele fosse meu irmão. Será muito fácil amar seu filho. E minha esposa tem um grande coração.

Sigimor suspirou.

Assim como o de Jolene, que ficará partido com a distância. Ela está consciente de que será muito difícil ver novamente o sobrinho.

Creio que não. A propriedade que Jolene herdou não é distante da fronteira. Se não estivermos em guerra, poderemos combinar visitas ocasionais.

Será ótimo. Eu nada prometerei a Jolene por enquanto. Caso as visitas não se concretizem, o sofrimento será maior. Por favor, lorde Roger, seja sincero. Jolene havia resolvido voltar para Dubheidland?

Sim, milorde. Jolene me comunicou sobre a decisão pouco depois de se encontrar comigo. Para dizer a verdade, tentei demovê-la do intento. — Roger sorriu ao ver o cenho franzido de Sigimor. — Jolene é uma rica herdeira. Sua Majestade não receberá com agrado a idéia de haver perdido a chance de encontrar um casamento para ela. Eu fui contemplado com a tutela de Reynard, mas o rei não quis deixar Jolene sob a minha guarda. Ele gosta de recompensar homens leais com noivas que sejam herdeiras órfãs. Não há muitas jovens nessa condição.

Tem certeza de que o rei não vai querer trazê-la de volta?

Absoluta. Se ele aventar tal conjetura, eu lhe direi que Jolene está muito bem servida e grávida de seu marido, um lorde escocês. — Roger sorriu à guisa de desculpas.

Nenhum inglês haveria de casar com ela agora.

É evidente. Eles sabem que não há termo de comparação com os maridos escoceses. — Sigimor ignorou o protesto gaguejado de Roger. — Será melhor levar minha esposa para casa e providenciar logo essa criança. Não quero que ninguém o acuse de ser mentiroso.

É muita bondade sua. — Roger franziu o cenho e seguiu Sigimor, ao lado de Liam, que achava muita graça em tudo.

Ao ver Roger e Sigimor se aproximarem, Jolene deixou Reynard em pé e levantou- se. Fergus postou-se ao seu lado, rígido como um guerreiro. Jolene imaginou duas alternativas. Ou o rapaz pretendia interpor-se entre ela e a fúria de Sigimor ou ele fazia questão de lembrar a Roger que os Cameron tinham direitos sobre ela. Talvez fosse um pouco de cada.

Jolene olhou ao redor. Os outros Cameron já estavam montados e reunidos atrás dela, atentos a Roger e aos seus homens. Alguns parentes de Sigimor piscaram para Jolene. Já a consideravam parte integrante da família. Aquela demonstração de posse de certa maneira era confortante. Jolene não tinha certeza de que precisassem dela nem de que o marido a amava. Mas passara a ser considerada um membro do clã.

Sigimor preparou um cavalo e amarrou a sacola com os pertences da esposa na sela, enquanto Jolene falava com Roger. Seu primo a fez assinar alguns documentos. Em um deles constava a declaração de que lady Jolene Gerard aceitara, por livre e espontânea vontade, o marido que seu irmão escolhera. Não era verdade, mas ela assinou sem pestanejar. Isso tornaria as coisas mais fáceis para Roger, caso o rei se aborrecesse com o casamento. Além do mais, estava convencida de que Peter aprovaria aquela atitude.

Seguiu-se o momento mais triste para Jolene. Despedir-se de Reynard. Ele não chorou nem se rebelou, apesar dos lábios trêmulos. Jolene orgulhou-se muito do sobrinho. Peter teria sentido emoção idêntica. Ela deu mais um beijo no garoto e deixou-o no colo de Roger. Teve certeza de que o primo amaria Reynard e o educaria para ser um homem íntegro. O que não deixava de servir-lhe como consolo.

Sigimor despediu-se de Roger e de Reynard. Ajudou Jolene a montar e liderou a tropa de volta a Dubheidland. Somente uma vez Jolene olhou por sobre o ombro. Roger consolava Reynard.

Jolene virou a cabeça depressa e manteve o olhar fixo à sua frente. Ela também aceitaria a separação com uma dignidade que deixaria orgulhosos seus ancestrais. Os

Gerard eram fortes, corajosos e capazes de suportar com firmeza os golpes do destino.

Capítulo XXI

Jolene chorara e soluçara durante o trajeto inteiro. Receoso de que ela se descontrolasse e caísse da sela, Sigimor detivera a tropa e sentara a esposa diante dele.

Em Dubheidland, cansada de tanto chorar, fora levada para a cama como uma criança. Não obstante, ainda tivera forças para envergonhar-se por tamanha falta de coragem e de dignidade.

Jolene tirou a compressa fria que colocara sobre os olhos. Examinou-os diante do espelho. Já não estavam tão inchados e vermelhos como quando acordara. A água de alfazema ajudara a diminuir os danos que as poucas horas de sono não haviam conseguido afastar. Mergulhar no sofrimento deixara-a com o corpo dolorido. O único benefício daquela perda total de controle era ter evitado, por um tempo, conversar com Sigimor.

Contudo os momentos de solidão haviam terminado. Verificou a saia, o corpete e o fechamento dos ganchos. O teor e os resultados daquela conversa dependeriam do tamanho de ira de Sigimor. Ocorreu-lhe alegar uma dor de cabeça ou algo semelhante que lhe permitisse não descer para a refeição noturna.

Nada disso! — Jolene resmungou e saiu do quarto. — Não é hora para covardia!

Atravessou os corredores de cabeça erguida. Lembrou a si mesma que a escolha fora dela. Por causa de Sigimor, afastara-se de sua família, de seu lar e de seu país. Nada lhe assegurava que poderia vê-los novamente. Aquele seria um argumento mais do que suficiente para rebater qualquer ofensa ou orgulho ferido. Sigimor deveria aborrecer- se apenas por ela ter ido sozinha, arriscando a própria vida. Nada mais.

Jolene hesitou antes de entrar no grande hall. Admitiu que seu maior receio não era a cólera do marido por causa da fuga. Temia que Sigimor não entendesse o significado da difícil decisão que ela tomara. E, mesmo compreendendo, que ele não reconhecesse o fato. Tudo poderia voltar ao que era antes. Sigimor a trataria com bondade, respeito e paixão todas as noites. Porém Jolene almejava muito mais de um marido. A resolução de ficar com Sigimor talvez fosse a esperança de obter aquele muito mais. Se o marido não entendesse o sentido de seu ato de coragem, Jolene começaria a duvidar do acerto da própria decisão.

Assustou-se quando sentiu uma mão em seu ombro. Fergus segurou-a com firmeza e olhar ansioso. Na certa atento para evitar que ela tentasse fugir de novo. Sigimor poderia estar pensando a mesma coisa. Jolene não considerara aquela conseqüência. Nem que o orgulho dele poderia estar abalado. Nem mesmo que o marido poderia ter perdido a confiança na esposa.

A senhora está pálida e triste — Fergus comentou o óbvio.

Eu sei, mas isso passa.

Fergus acompanhou-a até a cadeira junto de Sigimor.

Seu primo cuidará bem de Reynard — Fergus afirmou. — Ele terá uma família e voltará ao lar onde nasceu.

Eu sei. Se pudesse vê-lo de vez em quando, não sofreria tanto. Bem, tratarei de não encarar isso como uma tragédia. Roger vai amá-lo como a um filho. Reynard poderia ter sido levado ao rei e entregue aos cuidados de um estranho. Foi uma sorte Roger ter sido indicado pelo rei.

Sigimor observou seu irmão mais novo aproximar-se com Jolene. Nunca a vira tão abatida. Suspeitou que o sofrimento dela não se devesse apenas à separação de Reynard, mas também à morte de Peter. Jolene nem tivera oportunidade de pranteá-lo. Premida pelas circunstâncias, tivera de empenhar-se na luta contra Harold para proteger Reynard. Apesar de entender o sofrimento da esposa, seu rancor não cedera. A angústia

não o abandonara, mas a palidez de Jolene deixava-o incerto quando à conveniência de expor as queixas. O que aumentava o aperto em seu coração.

Jolene sentou-se a seu lado e, pelo semblante dos familiares, Sigimor deduziu que eles não aprovariam recriminações. Todos a fitavam com apreensão e simpatia. Para ele, reservaram olhares de advertência. Naqueles poucos dias, Jolene acabara conquistando o coração dos Cameron. O que denotava, sem dúvida, um bom augúrio. Contudo Sigimor aborreceu-se. Não concedera aos parentes o direito de interferir nas atitudes que reservava à esposa. Pelo fato de terem sido envolvidos na localização de Jolene, na certa deduziam que o relacionamento do casal não teria de ser tão privativo como o esperado.

Sigimor bebericava a cerveja e observava Jolene comer. Ela não perdera o apetite e, ocasionalmente, fitava-o de revés, receosa. O que o levou a imaginar que era incapaz de ocultar a zanga e a desejar que o mesmo não ocorresse com suas incertezas. Percebeu que, aos poucos, Jolene começava a irritar-se. O que, de certa forma, deixou-o aliviado. Corada e com o olhar brilhante, ela perdia o ar de fragilidade. Assim, seria mais fácil admoestá-la.

Vai ficar remoendo por muito tempo o que tem para dizer? — Jolene não suportou mais a situação constrangedora.

Não estou remoendo nada — Sigimor respondeu com uma calma que a impacientou ainda mais.

Então, por que continua olhando para mim, mudo?

Decerto por temer um novo plano de fuga. Ah, que bobagem — ele continuou depressa, sem dar-lhe tempo de retrucar. — Seu modo de ação é diferente. A escapatória ocorre depois de me deixar cego e inerte pelo excesso de satisfação.

Sigimor conteve um sorriso ao ver Jolene enrubescer intensamente. Irrequieta, mal controlava a raiva. Ele decidiu continuar a provocá-la. Seria uma boa maneira de esclarecer a situação. Serviu-se de outra porção de cozido de coelho.

Acho melhor eu comer em dobro. Se está concebendo algum ardil para esta noite, preciso de uma dose extra de energia. Caso eu seja usado exaustivamente para saciar seu apetite carnal, poderei recuperar-me mais depressa. Assim, impedirei que milady vá para muito longe ou que se perca.

Sigimor arregalou os olhos. Jolene proferiu uma imprecação muito utilizada pelos homens e levantou-se com brusquidez. Seria preciso também ter uma conversa séria com seus irmãos e primos para que não prestassem tanta atenção aos diálogos particulares de seu lorde.

Saindo da mesa tão cedo? — Sigimor continuou a zombaria. — Não acha que deveria alimentar-se mais um pouco? É preciso energia para maquinar artimanhas que impeçam um homem de pensar.

Milorde é o homem mais insuportável que já conheci. Arrogante, grosseiro…

Se tenho tantos defeitos, por que voltou?

Porque sou uma mulher insana e lunática. E também por haver perdido os últimos resquícios de inteligência que Deus me concedeu. Não há outra explicação para o fato de eu amar um idiota tão birrento e intolerável. — Ao perceber o que havia confessado, Jolene deu um grito surdo, pegou a tigela de cozido que Sigimor acabara de encher e despejou-a na cabeça dele. — Ah, maldição, veja o que me obrigou a fazer! Eu costumava ser muito mais cortês!

Sigimor piscou para afastar o caldo que escorria nos olhos e espiou a esposa sair correndo do hall. Ficou satisfeito ao vê-la subir a escadaria rumo aos quartos. Pelo menos ela não deixava o castelo. Não gostou dos sorrisos marotos de Nancy e Fergus, que procuravam limpar-lhe os cabelos e o rosto. Refletiu no que faria diante da possibilidade de encontrar a porta de seus aposentos trancada.

Por acaso vai continuar sentado aí? — Somerled indagou, com a voz trêmula de

riso.

Trata-se de uma atitude inteligente, visando a segurança. — Sigimor acenou para que Nancy e Fergus se afastassem. — No quarto, tenho muitas armas afiadas que só devem ser utilizadas em casos extremos. — De repente, as palavras de Jolene voltaram à sua mente. — Ela me ama!

Se quer saber, Sigimor, Jolene tem toda razão de questionar a própria sanidade quanto a isso. Ela também o chamou de idiota, birrento e intolerável. Nós nos sentiremos inclinados a concordar com essa opinião, se não sair correndo atrás dela.

Que mudança rápida de opinião a respeito de uma pessoa! — Sigimor ironizou.

Para quem desaprovava o casamento com tanto empenho…

Não gosto do povo que habita a Inglaterra nem do fato de meu irmão ter se casado com uma inglesa. O que não afasta o mérito de lady Jolene, uma pessoa digna dos maiores elogios. Também não foram do meu agrado os motivos que o levaram a se casar com ela. Proteção e desejo. Será que ainda não descobriu o que está escondido atrás desse escudo? Ambos me parecem muito teimosos e se recusam a enxergar isso. Tive certeza de que lady Jolene o amava quando ela retornou a Dubheidland. Sua esposa desistiu de muita coisa para ficar ao seu lado.

Eu sei. — Sigimor suspirou e levantou-se. Olhou com desalento para o cozido que se espalhava no chão. — Tenho de tomar um banho e trocar de roupa. Não quero derramar guisado de coelho na cama.

Ignorou os murmúrios de seus familiares e foi até a porta.

Não se esqueça de cortejar sua esposa — Somerled gritou.

Diga-lhe palavras doces — Liam aconselhou-o no mesmo tom.

Está bem, está bem. Idiotas! — Sigimor murmurou e acenou com enfado. — Somerled! Vou pegar um traje seu.

Quando teve certeza de que ninguém poderia vê-lo, subiu os degraus de dois em

dois.

Jolene impacientara-se pela demora, mas perguntou a si mesma por que não trancara a porta ao ver Sigimor entrar no quarto. Notou que ele trocara de roupa e estava com os cabelos molhados. Voltou depressa a olhar pela janela, para esconder o rubor das faces.

Tensa, disse a si mesma que, em um momento de raiva, desnudara a alma não só diante dele, mas de todos os que se encontravam reunidos no grande hall. Nem por isso alcançaria a ternura que tanto almejava. Ela o insultara e jogara guisado na cabeça de Sigimor. Perguntara a si mesma por quanto tempo teria de esconder-se no quarto, antes que o incidente vexatório fosse esquecido. Suspirou. Certamente o caso seria comentado até ela ficar velha e seria um dos assuntos mais referidos no dia de seu enterro.

Sentada no peitoril de pedra da janela, Jolene assustou-se ao sentir as mãos de Sigimor sobre as suas. O calor dele irradiou-se às suas costas e invadiu-lhe o corpo. Sigimor conseguia despertar-lhe a paixão, mesmo quando sua maior vontade era atingi-lo com um cajado.

Ele beijou-a no alto da cabeça e teve certeza de que nunca enfrentara tanta dificuldade para encontrar palavras adequadas.

É verdade que me ama? — Sigimor recriminou-se pela idiotice da pergunta.

Ainda bem que a família não o ouvia.

Jolene pensou seriamente em virar-se e dar um soco no belo nariz do marido. Mas não haveria sentido negar. Ela afirmara aquilo em alto e bom som. Diante de inúmeras testemunhas.

É, foi o que ouviu. Por isso não voltei a Drumwich com Reynard e Roger.

Sigimor admirou-se da franqueza de Jolene, apesar da raiva que ela demonstrava sentir. Mas a tristeza na voz também poderia ser conseqüente à resolução tomada. Era compreensível. O amor pelo marido lhe custara caro. E o que recebia dele? Apenas um

pouco de arrebatamento. Liam estava certo. Jolene era inteligente e sabia que a paixão de um homem podia ser passageira. Porém sua inocência não lhe permitia distinguir as diferenças entre o amor ardente que os envolvia e sexo sem significado.

Como explicar isso a Jolene, sem ser grosseiro? Teria de dizer-lhe que conhecia de sobra o vazio dos momentos em que levara para a cama mulheres que eram esquecidas na manhã seguinte. Seria terrível Jolene escutar a verdade, depois de ter confessado que o amava.

Teria de falar alguma coisa. Não podia continuar ali parado, como um imbecil que se regozijava com o fato de ser amado por ela. Procurou em vão por palavras realmente ternas. Só lhe ocorriam lisonjas corriqueiras e de gosto duvidoso. O mais conveniente seria fazerem amor. Sob o efeito da paixão arrasadora que Jolene lhe despertava, com certeza não lhe faltariam os termos que ela gostaria de ouvir. Deslizou as mãos pelos braços da esposa, segurou-a pelos ombros e virou-a de frente para ele.

Se me ama, por que foi embora? — Sigimor desamarrou-lhe o vestido.

Jolene fitou-o, sem encontrar uma resposta. Deixara a família, o lar e a pátria por Sigimor, mas a hora da verdade ficara para trás. Se Sigimor soubesse o que se passava na mente e no coração dela, talvez fizesse uma alusão aos próprios sentimentos. O que daria a Jolene a oportunidade de avaliar quanto teria de lutar para conseguir o que mais desejava. O amor do marido.

Pensei que pudesse honrar o juramento que fiz a Peter. Eu não queria ir. Mas somente entendi que não poderia voltar a Drumwich no momento em que tive de optar. — Ela o observou tirar-lhe a última peça do vestuário.

Entendi. — Sigimor começou a tirar as próprias roupas.

Jolene sentiu o desejo imediatamente atiçado. Sigimor era um homem alto, forte e viril. Demonstrava, em toda sua pujança, o ardor que sentia por ela. Embora ficasse satisfeita por despertar nele tamanho apetite, ansiava por conquistar-lhe também o coração. Tudo acabaria se não estivessem unidos por laços mais profundos.

Ah, como você é bonita… — Sigimor murmurou de encontro à boca de Jolene e beijou-a.

Ela abraçou-o pela nuca e entregou-se ao beijo, colada no corpo do marido. Não esconderia mais seus sentimentos. Jolene o amaria com intensidade. Sigimor haveria de descobrir que o sentimento era recíproco. Era um sonho tolo, mas o único que teria para se apegar.

Não gostei de acordar e constatar sua fuga. — Sigimor beijou-lhe o pescoço, o colo e chegou aos seios. — Eu tinha intenção de invadir Drumwich, se necessário fosse, para trazer de volta o que me foi roubado.

Gemendo enquanto Sigimor sorvia os mamilos túrgidos, Jolene mal encontrava forças para sussurrar.

Eu não roubei nada.

Claro que sim. — Sigimor continuou a sucção e ergueu a cabeça para estudar os resultados. — Roubou-me este busto translúcido e os botões rosados que me dão tanto prazer.

Sinto muito não ter podido deixá-los em cima do travesseiro. — Jolene lamentou que o sarcasmo das palavras fosse diminuído pela rouquidão de sua voz.

Sigimor sorriu ao beijar-lhe o estômago. Gostava daquelas respostas rápidas e afiadas, mas nem sonhava em admitir o fato. Pôs as mãos no abdômen da esposa e imaginou-o aumentado.

A minha semente já pode ter criado raízes. — Ele beijou-lhe o baixo-ventre. — Eu passarei muitas noites em claro, suando frio e pensando que um Cameron poderia ter nascido na Inglaterra. — Sigimor sentou-se e acariciou-lhe as pernas. — Ah, eu também seria privado da satisfação de tocar nestas lindas pernas. Esguias e fortes. Bem torneadas e sedosas.

Ele se deteve durante alguns minutos em beijos e lambidelas nas pernas. Os gemidos suaves de Jolene tinham para Sigimor o efeito de uma música. Ela sempre o fazia imaginar que fosse o maior amante da Terra.

Jolene ergueu os quadris em um convite mudo, e Sigimor iniciou a união dos corpos de maneira lenta e ritmada. Fechou os olhos e perguntou a si mesma como era possível fazer amor com tanta ternura se ele não a amasse.

Ao perceber que Sigimor não se movia, entreabriu as pálpebras. Apoiado nos cotovelos, ele a fitava intensamente.

Sigimor? — Trêmula de emoção, Jolene abraçou-o pelos quadris.

Isto também me seria subtraído. — Ele se movia com vagar dentro da esposa.

Nem pode imaginar como o calor e a maciez me fariam falta. — Encostou a testa na de Jolene. — Sem este doce ancoradouro, eu seria relegado ao frio, à solidão e ao sofrimento. Ficaria abandonado ao tormento de acordar no meio da noite, trêmulo, sem este fogo para me envolver.

Jolene não conseguia raciocinar com clareza, por causa dos movimentos contínuos e vagarosos de Sigimor.

Mas eu voltei…

Ele lutava para conter-se e prosseguir no jogo. Ao sentir que a excitação de Jolene estava próxima da explosão, apressou o ritmo das investidas.

Ainda bem. Quando acordei e descobri que você havia me abandonado, pude entender uma grande verdade. Eu tinha sido despojado de dois elementos vitais.

Jolene admirou-se por Sigimor continuar falando normalmente.

Como assim?

A alma e o coração, minha bela Jolene. — Ele roçou os lábios nos dela. — Eu a amo, minha alma gêmea.

Jolene estremeceu. Com os braços e as pernas segurou Sigimor com força. Em segundos, ele gritou o nome da esposa e encontrou a própria realização.

Depois de um longo tempo, Jolene saiu do torpor causado pela intensidade do amor compartilhado. Creditou às palavras de Sigimor e aos toques magistrais o arrebatamento mais extraordinário que já experimentara. Ele esmerou-se em limpar os dois com uma toalha úmida e depois voltou para a cama. Jolene não perdeu tempo. Deitou-se em cima do marido e contorceu-se levemente ao contato do corpo grande e forte. Beijou-lhe a ponta do nariz e sorriu.

Então é verdade que me ama? — Ela evitou rir pela maneira como Sigimor suspirou e revirou os olhos.

Vai querer falar sobre isso agora, não é?

Um pouco. Quando foi que se deu conta…

O mesmo eu lhe pergunto — Sigimor interrompeu-a.

Bem, foi logo depois do nosso casamento, mas eu procurei enterrar o sentimento.

Por causa de Reynard e do juramento feito a seu irmão.

Jolene anuiu e passou a ponta do dedo no desenho intrincado que rodeava os braços musculosos.

Para mim, era muito importante manter-me fiel ao que havia prometido a Peter. Além disso, Reynard é uma criança muito pequena e as necessidades dele deveriam ter precedência sobre tudo o mais. Sigimor, eu fugi por temer que você pudesse me convencer a desistir de um dever sagrado. Mas ao encontrar-me com Roger, percebi que não poderia passar por cima dos meus sentimentos, mesmo sem ter certeza dos seus. Entendi que, ao entregar Reynard aos cuidados extremosos de Roger, eu estava cumprindo com o meu dever e honrando minha promessa. Voltar para Drumwich seria um ato de covardia. Eu tinha fugido com medo de sofrer pela possibilidade de não haver conquistado o coração de meu marido.

Meu coração passou a lhe pertencer no momento em que eu a vi através das barras da minha cela em Drumwich. E me recusei a enxergar a verdade. Eu procurava defeitos onde não havia. Não conseguia silenciar a voz que me dizia: ela é minha. Uma inglesa de cabelos escuros, tão miúda que eu receava amassá-la se fizéssemos amor. Nada disso me impediu de sentir que estava diante da mulher pela qual eu havia esperado a vida toda. Minha companheira.

Jolene beijou-o e procurou abraçá-lo com o corpo inteiro.

Eu esperei tanto por uma declaração terna… Isso teria evitado sofrimento para nós dois.

Eu não poderia lhe oferecer palavras de amor, pois só entendi do que se tratava quando fui abandonado. Pensando bem, acho que comecei a perceber meus sentimentos quando Harold a fez prisioneira. Mas não tive oportunidade de dizer nada. Lady Jolene Cameron tinha escapado na calada da noite. — Sigimor acariciou-lhe as costas. — Agora que dissemos palavras afetuosas um para o outro, tudo está bem, não é mesmo?

O alívio de Sigimor era cômico. Ele não era um homem que se derreteria com freqüência em frases melosas. Não importava. Depois de ter-lhe dito que a amava, Jolene enxergaria o amor em cada ato e em todos os beijos. Assim fora desde o princípio. Mas sem a confissão, ela não confiaria no próprio julgamento. Provavelmente, decorreriam longos períodos de tempo entre declarações semelhantes. Mas Jolene seria capaz de ouvir palavras doces sempre que fosse repreendida por descuidar-se e todas as vezes que fizessem amor. Sigimor, porém, não precisava saber disso.

Uma mulher pode sentir insegurança se o amor por ela não for reiterado de vez em quando — Jolene murmurou.

Sigimor segurou-lhe o rosto e beijou-lhe a ponta do nariz.

Preste atenção, minha adorada inglesinha, minha eterna companheira. Eu a amo. Veja bem. Eu disse isso duas vezes hoje. Jolene Cameron é a melhor parte de mim mesmo, é meu consolo, minha alegria, meu orgulho e minha razão de viver que se renova a cada dia. Nunca duvide da sua importância na minha vida. Ou levará umas boas palmadas neste seu lindo bumbum.

Ah, Sigimor, eu o amo, seu malvado encantador.

Só hoje? — ele reclamou, muito sério.

Não, meu guerreiro corajoso. Eu o amo o tempo todo e o amarei para sempre — Jolene sussurrou. — Até que o sol se esqueça de raiar ao alvorecer.

O beijo que Jolene recebeu de Sigimor foi a resposta que ela aguardara com tanta ansiedade.

Epílogo

Fronteira escocesa, Ano de 1476

Jolene sorriu para o bebê que segurava no colo e fitou o primo. Emma, sentada no chão diante da lareira, ria das brincadeiras dos maiores: Reynard, os meio-irmãos e os primos.

Roger, este é um menino maravilhoso. Gorducho, saudável e feliz. Emma está radiante de alegria, não é mesmo?

O bebê estendeu os bracinhos, e Roger tirou-o do colo de Jolene.

Para nós, Peter foi um verdadeiro milagre. Tão extraordinário quanto suas filhas gêmeas — Ele deu uma piscadela — de cabelos negros.

Ah, foi uma comoção geral quando elas nasceram. Com tantos tios, verdadeiros e honorários, correm o risco de ficar mimadas em demasia. — Jolene acariciou o ventre protuberante. — Este será um menino.

Acha que seu marido ficou desapontado por não ter conseguido um herdeiro?

Jolene olhou para Sigimor, que também estava sentado perto do fogo. A filha Bridie escalava o pai como se ele fosse uma montanha.

Por acaso ele parece decepcionado? — Ela e o primo riram. — Não. Como ele mesmo dizia, sucessores é que não lhe faltam. Sei que o primo está muito feliz com o seu herdeiro. E que teria ficado igualmente feliz se fosse uma filha.

É verdade. — Roger beijou o alto da cabeça do filho. — Seu marido predisse que teríamos um filho. — Roger contou a Jolene o que Sigimor lhe dissera naquele encontro na clareira, três anos antes. — Eu não ousei acreditar em Sigimor. — Quando voltei para Drumwich com Reynard, Emma o tomou nos braços e chorou de alegria. E também ficou muito feliz quando trouxemos os outros filhos de Peter para dentro do castelo. Depois do falecimento da irmã de Emma e do cunhado, nossos dois sobrinhos vieram morar conosco. O castelo cheio de crianças transformou Emma na mulher mais feliz do mundo. A tristeza que ela às vezes não conseguia ocultar desapareceu totalmente.

Então nasceu esse lindo Peter.

Que foi um presente de Deus.

Jolene lamentou a demora para a realização daquele encontro em sua herdade escocesa tão bem administrada por Sigimor. A gravidez dela e a de Emma haviam ocasionado diversos atrasos. Reynard, que estava para completar seis anos, a recebera com alegria normal de um sobrinho que não encontrava a tia havia tempo. Nada mais do que isso. Ele passara a considerar Emma e Roger seus pais legítimos e contava com uma porção de crianças para brincar. Embora a entristecesse saber que sua importância na vida do menino declinara e que Peter não passava de uma memória agradável, Jolene teve certeza de que havia sido melhor assim.

Roger percebeu o olhar melancólico com que a prima fitava Reynard.

Emma gosta muito dele, e eu também.

Eu sei, não é difícil de comprovar. Só uma criança muito amada pode ser tão feliz. Ainda não lhe agradeci por haver dado o nome de meu irmão a seu filho. Fiquei comovida com a homenagem.

Emma fez questão. Quando tivemos certeza da gravidez, contei a ela o que Sigimor me havia dito. Emma ficou muito impressionada. Ela acreditou que a intuição de Sigimor teve uma razão de ser e que a morte trágica de Peter havia sido um caminho para encontrarmos tanta alegria. Por isso decidiu perpetuar a memória dele em nosso filho. — Eles ouviram um grito de criança. — Veja, alguém se machucou.

Jolene viu Sigimor segurar Allason no colo e sentar-se no chão. Os olhos verdes e

imensos da filha estavam pesarosos, e a menina fazia biquinho. Sigimor fazia um esforço para não rir. Pai excelente, amoroso, mas severo quando se tornava necessário. Para Jolene, condescendente demais com as travessuras das filhas.

Mamãe, eu me machuquei. — Allason estendeu o bracinho e mostrou uma minúscula marca vermelha.

Jolene beijou o local.

Como foi que isso aconteceu, querida?

Caí quando levantei o banquinho. Era muito pesado.

E para que fazer isso?

Para jogar na cabeça de Reynard. Ele não queria me ouvir.

Jolene não fez caso do riso mal disfarçado de Roger e repreendeu a linda filha. Pela enésima vez, avisou-lhe sobre a necessidade de controlar o temperamento e a inconveniência de agredir as pessoas. Seguiu-se uma pequena altercação a respeito da cortesia de desculpar-se com Reynard. Argumento rejeitado com veemência pela menina de dois anos.

Ora, mamãe, eu não bati nele!

Depois de alguns minutos, Allason deu um suspiro digno de uma mártir e obedeceu à mãe. Jolene franziu o cenho para Roger e Sigimor, que se divertiam com a cena. Mas não chegou a adverti-los. Nova confusão se formava. Reynard estava muito bravo. Allason, furiosa. Bridie, ao lado da irmã e em total apoio a ela, igualmente alterada. Emma cerrava os lábios para não rir.

Eu já vi esse olhar antes — Roger comentou com Sigimor. — Foi há três anos, quando milorde chegou ao meu acampamento para buscar sua esposa. Perdão, mas parecia um touro enfurecido. Embora essa expressão não combine com as feições bonitas e delicadas de suas filhas, não se pode negar que era muito semelhante à delas no momento.

Sigimor beijou Jolene no rosto.

Fique tranqüila, querida. Darei um jeito nisso.

Sigimor abaixou-se ao lado das filhas e abraçou-as pelos ombros. As duas começaram a falar ao mesmo tempo. Jolene sempre se admirava como o marido conseguia decifrar aquele tagarelar desordenado. Observar o comportamento de Sigimor com as filhas sempre a deixava emocionada. Virou a cabeça e notou que Roger lhe sorria.

Fico satisfeito por vê-la tão feliz e apaixonada.

Nem pode imaginar o grau da minha felicidade, Roger.

E até um cego poderia ver a intensidade da paixão de Sigimor pela esposa e pelas lindas gêmeas diabretes.

Eu sei. Não duvido desse amor, embora Sigimor seja um pouco rude e não ter o hábito de me cortejar com palavras doces. Mas, apesar da escolha difícil que tive de fazer, não me arrependo. Até a preocupação com as conseqüências indesejáveis da minha atitude na vida de Reynard foi esquecida. Nós dois acabamos ficando nos lugares devidos.

Roger concordou com um gesto de cabeça.

Vou levar Peter para a ama-seca.

Algum tempo depois da saída de Roger, Sigimor aproximou-se de Jolene. Sentou- se no mesmo banco de espaldar alto e abraçou-a pelos ombros. Sorrindo, Jolene aconchegou-se ao marido.

A paz voltou a reinar. Allason achou que Reynard não havia aceitado as suas desculpas com a reverência necessária para o caso. E Bridie, como sempre acontece, apoiou-a inteiramente. — Jolene deu uma risada e Sigimor alisou-lhe o ventre volumoso.

Está se sentindo bem?

Muito. Eu não queria adiar esta visita por mais tempo. Apesar da troca de

cartas, continuava preocupada com Reynard. Eu precisava vê-lo para ter certeza de que era feliz. A minha decisão naquele dia foi mais importante para Reynard do que para mim.

Continua achando que tomou a atitude correta? Jolene sorriu para o marido e acariciou-lhe o rosto.

Na verdade, Sigimor, quando pensei em abandoná-lo, entendi que não haveria escolha. Eu teria de ficar ao seu lado, por mais terrível que fosse separar-me de Reynard. E encontrar-me com ele ajudou a cicatrizar a ferida. Agora sou testemunha da vida feliz de Reynard.

Sigimor beijou-lhe a testa.

Acredito que, apesar dos momentos difíceis de indecisão, a felicidade sorriu para todos.

É verdade. Apesar do meu receio de prejudicar Reynard, meu sobrinho parece ter encontrado a serenidade.

Minha querida esposa, foi mesmo acertado decidir-se por mim, não foi? — Sigimor não escondeu a presunção.

Com certeza, meu marido. — Jolene imitou-o, com superioridade. — Assim como eu também fui para o senhor.

E será para sempre, Jolene. Eu soube disso assim que a vi e resolvi conquistá-la.

E conseguiu de maneira completa.

Ótimo. Eu gosto de vencer.

Sigimor deliciou-se com a risada de Jolene. Ele adorava a esposa e as duas filhas,

que haveriam de deixá-lo com cabelos brancos antes do tempo. Logo teria mais um ser para amar. A criança que estava a caminho. A vida era boa. Apertou os ombros da companheira por quem esperara trinta e dois anos.

Jolene, nosso amor será para sempre.

E continuará a existir na eternidade. Sigimor anuiu. A vida era maravilhosa.