Mais uma vez, a atualização do Beco. Mais uma vez, peço desculpas pelo capítulo longo.
Eu gostaria de dizer que estamos na reta final (e estamos!), porém é uma reta um pouco tortuosa e conto com a paciência de todos para os detalhes que estão se desenrolando a fim de não deixar nenhum evento ou personagem para trás.
Esse capítulo foi muito difícil de escrever e, provavelmente, eu posso ter alcançado o pícaro do gênero angst antes de trazer alguma luz e conforto. O gênero continua oscilando, mas tenho que avisar de antemão que haverá violência nas páginas que seguem. Peço também que tenham paciência comigo e não me odeiem até chegar o final.
Meus agradecimentos são insuficientes para todas as reviews tão detalhadas, construtivas, questionadoras e com tanto carinho. Recebi um apoio tão inesperado quanto maravilhoso e me considero afortunada por contar com vocês nessa jornada.
Gostaria de dedicar esse capítulo a autora Nimrodel Lorelin. Além de ser uma escritora fantástica e grande amiga, eu descobri uma Irmã em Armas de Gondor. Sua amizade é um presente digno da Árvore Branca.
Notas: 1. As instruções de Éomer, na primeira parte do capítulo foram retiradas de um curso de defesa pessoal que eu fiz. (Pena que não foi com o Éomer... nem nada parecido, mas foi bem útil).
2. Os eventos abaixo ocorreram enquanto Gandalf, Frodo, Legolas e Gimli iniciavam sua luta no Solar e estão entrelaçados aos fatos do Capitulo 9, em Todas as Cores.
3. Os pensamentos estão identificados com aspas / Lembranças e o Universo Mental dos Personagens estão em itálico.
Ok, sem mais delongas... Vamos meter o pé na estrada!
I&I&I&I&I&I&I&I&I
Correntes do Bem, Correntes do Mal
I'm walking down the line
That divides me somewhere in my mind
On the border line of the edge
And where I walk alone
Estou andando por todo o caminho
Que divide em algum lugar na minha mente
Na fronteira que beira o precipício
e aonde eu ando sozinho
Read between the lines of what's
Fucked up and everythings all right
Check my vital signs to know I'm still alive
And I walk alone
I walk alone I walk alone
I walk alone I walk alone
Leia nas entrelinhas
O que está arruinado e está tudo bem
Checo os sinais vitais para me certificar que ainda estou vivo
E eu caminho sozinho
Eu caminho sozinho, caminho sozinho.
My shadow's the only one that walks beside me
My shallow heart is the only thing that's beating
Sometimes I wish someone out there will find me
Till then I walk alone
I walk alone
Minha sombra é a única que caminha ao meu lado
A única batida é do meu coração inócuo
As vezes eu desejo que alguém lá fora me encontre
Até lá, eu caminho sozinho
Eu caminho sozinho
I walk this empty street
On the Boulevard of broken dreams
When the city sleeps
And I'm the only one and I walk alone
Eu caminho nesta rua vazia
Na Alameda dos Sonhos Despedaçados
Quando a cidade dorme e eu sou o único
E eu caminho sozinho.
I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&
O Início da Estrada – Lothíriel, Rohan e o Minotauro
O medo deveria estar corroendo suas entranhas, mas Lothíriel experimentava o poderoso entorpecente do choque e da incompreensão, sem protestar ou emitir som algum enquanto o homem que conhecera toda a vida como primo, amigo de seu marido na Terra-Média e leal conselheiro de Elessar arrebatava-a sem grandes gentilezas para o sedan prata. A rua estava imóvel e as pessoas andavam tranqüilas, então, subitamente, o sedan arrancou com ferocidade e o asfalto sob as rodas se derreteu em um único caminho negro, com borrões de rostos e gritos ao seu redor.
O corpo de Lothíriel foi lançado para frente, o impacto contra o painel varreu a sua mente por alguns instantes antes da pontada atroz de algo queimando em sua testa. Ela mordeu os lábios para não gritar e oferecer um espetáculo de fraqueza ao homem a seu lado.
Morghan girou o volante, enquanto o veículo recuava diante do carro de passeio. Sem mover um músculo da face, ele mudou a marcha e saltou em marchas abruptas, arrancando gritos indignados dos transeuntes. Estendeu a mão para empurrar a moça para trás do banco e sem perder o embalo, apanhou o telefone para falar com seus homens no Beco. Minos não ia ficar satisfeito por Morghan ter saído sem acabar com o garoto de programa deixando a vitória para o Ilusionista, mas ao menos, ele confirmara a informação e de uma forma ou de outra, conseguira também prestar a tal "ajuda" ao Sinastoi. A procuradora encrenqueira não atrapalharia mais o caminho do vice-prefeito e o Comissário teria que amargar a perda da preciosa aliada. O fato de ser esposa dele só aumentava o sabor da jogada. Comunicou os fatos em poucas palavras e só ao desligar o celular, voltou a pensar no que faria com a moça. Elysie Rávo.
Morghan sorriu para si mesmo. É, não era má idéia. Saige e suas artimanhas o deixavam maluco, os antigos jogos de sedução já não o envolviam, somente o apelo físico que se tornara uma prisão. As escravas do Beco tinham medo de Saige e ele não gostava mais de caçá-las no Solar, as profissionais da Treze estavam interessadas em algum benefício e as clientes do Fantasma o entediavam. As que realmente o excitavam pela sua coragem e beleza, acabavam se exaurindo com a natureza do Minotauro. Ou cercadas de proibições de Minos, como a tal Dama, considerada exclusiva do Arqueiro. Dois personagens que Minos fizera questão de afastar de Morghan sem mais explicações. Ele não engolia nenhuma das teorias de Saige sobre o assunto, mas pouco se importava com os garotos de programa do Beco e uma hora, a tal Dama ia se enjoar de se divertir com o loiro da Treze. Era questão de tempo até ter uma chance de ver se a Dama era realmente severa.
É, e ele simplesmente gostara da Promotora, sem nenhum motivo claro. Não era má idéia de forma alguma.
--- Você se... – ele interrompeu a frase ao voltar o rosto rapidamente para moça. Esboçou um rápido sorriso e tornou a atenção para a estrada, dirigindo feito um louco. – É, se machucou. Seu marido não a ensinou a colocar o cinto de segurança?
O tom desprovido de emoção combinou de maneira bombástica com as fagulhas de fogo em seu o rosto. Lothíriel levou a mão à fronte e sentiu uma umidade conhecida. As ruas pareciam destituídas de vida, exceto riscos e borrões. E ver o próprio sangue nos dedos trêmulos teve o poderoso efeito de reanimar a adrenalina.
"Em caso de seqüestro, a reação violenta do agressor visa imobilizar a vitima, deixando-a entender que sua cooperação garante a chances de sobrevivência. É uma programação mental e a mente humana responde de imediato, procurando chances de cooperação para sobreviverem onde só existe a intenção de submissão."
--- Eu prefiro uma armadura, seu imbecil! – vociferou, exaltada, à lembrança das palavras do marido. Sem pestanejar ergueu a mão e golpeou o rosto de Morghan com a mão fechada.
O anel de casamento rasgou a pele de Morghan e ele fitou-a com surpresa. A fúria deixou seus olhos ainda mais negros, brilhando perigosamente.
--- Você é uma criatura bem interessante, dona Promotora. – falou, o indicador traçando a marca deixada. Fitou o sangue do corte com um movimento lento, antes de estudar o rosto indignado da moça com um rápido sorriso frio. Levou o indicador aos lábios sugando o sangue rapidamente, o rosto atento mais uma vez na estrada. – Vamos nos divertir muito.
Aproveitando a surpresa dele e o próprio choque, Lothíriel voltou a atingi-lo no rosto e em todas as partes que estavam a seu alcance, gritando em uma cadeia crescente. – PARE IMEDIATAMENTE ESSE CARRO, SEU MOSTRO ESTÚPIDO, SUA BESTA, ENERGÚMENO! O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO COMIGO?! – os gritos de Lothíriel alcançaram decibéis incomparáveis e ela rompeu numa fúria revoltada com a transformação de Morghan. – PÁRE ESSE CARRO, SEU ANIMAL! EU QUERO MEU PRIMO DE VOLTA!
--- SUA PEQUENA INSANDECIDA! – gritou Morghan de volta, tentando recuperar a pista. O carro sacolejou e subiu na calçada. Os gritos e os golpes de Lothíriel tiveram o efeito de desgovernar o veículo. A raiva tomou conta de Morghan e em um movimento certeiro, agarrou o pescoço dela com a mão livre, a outra no volante.
A voz de Éomer retornou a mente de Lothíriel quando os pulmões rugiram em protesto, ela quase pode ver a expressão solene e decidida do marido, em meio a dezenas de mulheres da comunidade que haviam respondido ao convite sobre defesa pessoal. Lothíriel sabia que muitas haviam ido até ali atraídas pela própria admiração pelo físico do marido, mas sabia que muitas outras já tinham passado por momentos de extremo terror e queriam dar um basta de uma vez por todas ao medo. No final, a severidade com que Éomer tratava o assunto, sua paciência e conhecimento técnico nivelaram todas para o mais sincero interesse. A sua própria participação no treinamento deu um ambiente de confiança e família e os dois se lembraram das inúmeras reuniões nas aldeias de Rohan e em Edoras.
Lothíriel não se lembrava quando precisara usar aquelas instruções consigo antes e se agarrou as poucas memórias que fluíam dentro do desespero imediato para respirar.
"É um seqüestro emocional, antes do físico. Reaja! Não deixe que o choque e a surpresa paralisem sua mente. Lembre-se que o agressor só quer a submissão e nada garante que ele deixará que vocês saiam com vida. E para algumas situações, pode ser preferível morrer a sobreviver. A chance de sobrevivência está na reação imediata, surpreenda o seqüestrador logo nos primeiros momentos, quanto mais tempo você demorar, quanto mais distante o agressor a remover da cena primária, onde ocorreu o seqüestro, menos chances de escapar vocês têm. Ponha na cabeça que é uma questão de vida e morte, não há meios termos, vocês podem morrer. Repitam!"
O inicio do tráfego da manhã livrou inúmeros pedestres de atropelamento. Entre gritos, buzinas e batidas nos carros que começavam a ganhar as ruas para a rotina diária, Morghan concentrou-se em deixar a via comum e entrar em um trecho largo para a via expressa. Lothíriel continuava se debatendo freneticamente contra o punho fechado em sua garganta, e Morghan deu um grunhido de raiva quando as unhas dela entraram na carne, ferindo-o sem piedade.
--- Pare com isso ou vou matá-la desse jeito! – avisou Morghan, afrouxando um pouco a pressão contra o pescoço dela. Virou o volante para a direita, o carro guinou com um som horrível, mas jogou ligeiramente para a esquerda, voltando a estabilidade.
O som do coro hesitante voltou à mente de Lothíriel. Éomer gritou dentro do círculo e Lothíriel levou um susto, imediatamente, elas reagiram. Uma mãe de dois filhos, vitima de assalto gritou que não ia morrer e Éomer sorriu, satisfeito, antes de prosseguir, com grande intensidade em seu olhar.
"Uma vitima disposta a matar e morrer deixa de ser uma vítima. Não dê chances ao agressor para subjugá-la, lute, lute com o que tiver, dentes, unhas, gritos, mostre com seu olhar e seu corpo que você não vai se render. Mulheres têm a tendência de não ferir para matar e isso é usado amplamente nos seqüestros. O agressor não vai ter piedade de vocês"
Éomer chamou a mãe de dois filhos e perguntou onde ela o acertaria. Ela ficou envergonhada e todas riram, incluindo Lothíriel. Éomer sorriu e disse que não era suficiente, na verdade, um erro.
"Esse tipo de golpe não inutiliza o agressor, não pára um carro, não dá chances de fuga. Acerte-o no rosto, cegue-o, de preferência, enfie os dedos nos olhos dele"
Lothíriel riu com o cara de repúdio e pavor nos olhos das mulheres.
A raiva avolumou-se entre os escombros da sua alma e Morghan manteve a pressão sob o corpo da moça até sentir um leve amolecimento. A via expressa estava calma, mas o número de veículos aumentava rapidamente, os rostos dos motoristas entravam e saíam de foco como fotografias em modo automático. O zumbido do motor e os gritos indignados dos que entendiam a cena dentro do sedan sacudiram as labaredas vermelhas que ardiam para libertar o Minotauro e ele pressionou o acelerador com fúria, antes de atentar para a moça, muito quieta agora.
"E se não der certo?"
"Pare de lutar e finja cooperação. Não gaste suas energias à toa, use para uma nova chance, mas seja como for, não perca a coragem. Você está lutando pela sua vida!"
Lothíriel arqueou o corpo para trás, sentindo um pequeno alívio com a posição que abriu o espaço ínfimo na sua garganta. Sua cabeça estava latejando, os pulmões ardendo com a falta de oxigênio, o teto do carro pareceu pontilhado por estrelas doentes, com borrões amarelos e manchas negras. Ela soltou as mãos, incapaz de manter a fúria do próprio ataque com a aterradora conclusão que sua reação não daria certo. Aquela seria a última imagem antes de perder a consciência para a morte. Forçou a mente a trabalhar, lembrando-se das palavras de Éomer, a falta do precioso combustível da vida fazia com que os pensamentos se esvaíssem em uma sombra de pensamentos confusos.
"Eu vou morrer, eu prefiro morrer" pensou, a súbita conclusão arrancando um pedaço da sua alma com a identidade do ser que lhe roubaria a vida. Lágrimas quentes sugaram a sua energia, lavando o sangue de seu rosto. Oh, Éomer!
"Repitam comigo: Eu não sou uma vítima! Eu não vou morrer!"
As mãos dela tombaram para contra o corpo libertando Morghan das unhas afiadas. Mais uma tentativa, dizia para si própria, agarrando-se a voz de Éomer e a sua determinação em revê-lo, porém, o seu corpo não acompanhava a vontade de sua alma, a tristeza e a surpresa aliando-se contra a debilidade física.
Com o domínio do veículo e o toque de algo quente em sua mão, Morghan virou o rosto para Lothíriel e teve a visão atordoante sob o véu vermelho que era a visão do Minotauro. O rosto delicado voltado para cima, os lábios abertos à procura de ar, com a palidez rubra dos seus olhos exaltando os riscos translúcidos de lágrimas.
Suas mãos soltaram a carne macia do pescoço dela numa reação automática e o corpo da moça tombou para trás contra a porta do carro. O grito alto de uma gaivota explodiu nos ouvidos de Morghan e sua visão falhou em borrões de vermelho sangue, mármore e azul de memórias e a estrada à frente, como os pixels danificados de um monitor em curto circuito.
"Não seja bobo. Eu estou pedindo!"
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O mármore entalhado das colunas arqueadas abria-se majestosamente para o céu azul do pátio aberto. Era primavera e o aroma salgado do mar erguia-se com o barulho das ondas, espalhando um ar úmido e rico, entorpecentes em sua perfeição.
--- Eu não vou fazer isso. – observou Faramir, os braços cruzados em uma atitude solene de negativa. Ela era teimosa, mas ele era mais.
Lothíriel imitou o gesto do primo, sem se importar que os cabelos presos, anteriormente, no alto da cabeça caiam-lhe em mechas desordenadas no rosto. Aliados ao rosto afogueado pela discussão e o pé marcando sua indignação em estocadas furiosas no piso, a imagem só aumentava a impressão de uma menina birrenta aos olhos do primo.
--- Eu estou pedindo, Faramir. – ela apertou os olhos prateados com teimosia. Soprou, os lábios quase cerrados. – Por... favor.
--- Você sabe como pedir com gentileza. – opinou a voz grave de Éowyn, com uma pitada de humor e ironia. Suspirou alto. – Pobre Éomer, sabe Erü o que você faz com meu irmão.
Lothíriel abriu a boca ao ver o sorriso de Faramir e voltou à face para a cunhada, tranqüilamente sentada em um divã macio, trazido especialmente para o pátio externo do palácio. O vestido de linho branco com fios de ouro assentava-lhe gracioso na silhueta, mostrando os primeiros sinais da gravidez.
--- Eu cuido muito bem do seu irmão. – exclamou Lothíriel, imprimindo um tom de mágoa. – E você não está ajudando!
Éowyn arqueou as sobrancelhas para cima de maneira estudada.
--- Você não me pediu...
Com o sinal de perigo, Faramir descruzou os braços e se aproximou da prima lentamente sem esconder seu afeto. Apesar da distância imposta pelas responsabilidades de cada um, sexo e grande diferença em idade, Faramir adoravam Lothíriel desde o seu nascimento, mesmo sem poder dar-lhe a atenção e usufruir a sua companhia com assiduidade. Além de admirar e respeitar o seu pai e Príncipe de Dol Amroth, Faramir via em Lothíriel traços da herança élfica paterna com a elegância e a força típica feminina, além de um gênio peculiar. Era amorosa e dedicada filha, irmã e aliada de todos, astuciosa e inteligente nos assuntos tipicamente masculinos, respeitando os limites impostos pelas tradições de Gondor. Tudo que fazia, Lothíriel encontrava o apoio do pai, embora fosse vigiada com um zelo veemente dos irmãos. Faramir sempre cedera aos caprichos de Lothíriel e sua curiosidade com o que ele aprendia, sendo um estudioso. Boromir implicava com Lothíriel o tempo inteiro, em coro com os primos, ameaçando-a de incentivar a união da moça com um dos beornings quando atingisse a idade certa, mas constantemente, fazia-lhe as vontades, fingindo uma austeridade que estava longe de sentir. Era uma dádiva para eles tão formosa e inteligente companhia, em pausas de paz que os faziam esquecer dos eternos conflitos nas fronteiras e sonhar com o futuro.
--- Lothy, o que você me pede é além da minha possibilidade de primo. – fitou-a com algo que achou próximo de severidade. – Sabe que deve falar com Éomer primeiro. Ele me mataria se você retornasse para casa ferida pela minha mão.
--- Você não tem medo do meu marido, não use uma desculpa absurda dessas para se negar a me ensinar. – replicou Lothíriel, entre divertida e frustrada.
Faramir fingiu pensar e replicou, estalando os dentes.
--- Bom, acho que tenho. – a risadinha de Éowyn provocou um sorriso cúmplice no rosto do Senhor de Ithilien. - Tratando-se da esposa dele, meu cunhado e amigo pode ser bastante radical, Lothy.
--- Meu marido é muito sábio. – riu Éowyn olhando avidamente para o pequeno prato frutas trazido pelo servo do palácio. Agarrou o cacho de uva com apetite. – Obrigado, estou com tanta fome.
--- Você está sempre com fome! – replicou Lothíriel, momentaneamente esquecida da briga rindo junto com Faramir. Suspirou e agitou a mão no ar, quase implorando. – Por favor, Faramir, Éomer não vai permitir, justamente, porque acha que vou me machucar, mas eu não quero ser um fardo inútil! – demonstrando frustração e receio, Lothíriel rufou – Na última campanha, o éored inteiro teve que voltar porque um tapado perdeu o controle do cavalo e veio na minha direção! Éomer quase o matou só pelo susto!
--- Tapado?
--- É, não me olhe, foi Merry quem disse. – agarrou a barra da túnica de Faramir, fitando-o com olhos súplices. – Por favor, primo!
Faramir apanhou as mãos dela com carinho.
--- Lothy, você mesma o disse: Éomer quase o matou só pelo susto. – deu um tapinha gentil nas mãos dela e apertou o queixo da prima. – Eu respeito Éomer e só a ele cabe a decisão de ensiná-la. Além disso, você não quer deixar sua cunhada viúva, quer? – beijou a fronte de Lothíriel, dando o assunto por encerrado – É minha palavra final.
Lothíriel exalou um longo suspiro. O brilho determinado nos olhos do primo indicava que o sorriso gentil era apenas uma forma de amenizar a negativa. Ela conhecia aquele olhar e sentiu a derrota.
--- Lothy... – chamou Éowyn, docemente. Brincando com as uvas antes de arrancá-lo do cacho, a Senhora de Ithilien ignorou o aviso do marido. – Quando o bebê nascer, eu posso ensiná-la.
--- Éowyn...
--- Éowyn! – Lothíriel exultou – Você fará isso?
--- Claro. – Éowyn jogou a última uva na boca e mordeu com entusiasmo, limpando a boca com a ponta dos dedos. Riu-se dando de ombros – Minha vida não correrá risco com Éomer. – levantou-se tranqüila e aproximou-se dos dois. – Além do que, todas as mulheres de Rohan sabem se defender. É injusto e ...hum.. temerário que a própria Rainha não saiba lutar com a espada. – Estendeu o indicador para Faramir, desviando o olhar rapidamente para a entrada da serva. – Não discuta comigo, querido. Eu tenho razão e você vai ajudar Ah! O almoço está pronto! – abriu seu sorriso brilhantes para os dois convidando em tom alegre. – Vamos entrar?
Lothíriel exibiu seu ar triunfante e aceitou o braço livre do primo.
--- Quando duas Rainhas conspiram... – lamentou Faramir, à moda de Rohan e resignou-se a escoltar as duas mulheres para dentro.
I&I&I&I&II&I&I&I&I&I&I&I&
O ar escapou dos pulmões de Morghan e foi como se ele tivesse sofrido o impacto direto contra uma parede de espinhos. Reduziu a velocidade do veículo abruptamente, fitando a estrada pontilhada de cores, borrões de vermelho, completamente atônito. Por pouco não entrou na traseira da picape à frente.
O motorista buzinou e aumentou a distância entre eles. Morghan estendeu a mão e agarrou o pulso da moça e entrou com o automóvel no acostamento estreito. Levou algum tempo para o veículo obedecer ao comando do motorista, zigue-zagueando contra a mureta de proteção e danificando o metal.
--- Elysie. – chamou Morghan, apalpando o pulso fino com vigor. Piscou, confuso entre sentimentos antagonistas e imagens interpostas, o colorido do passado, o vermelho do presente.
O veículo perdeu a estabilidade e Morghan pressionou os freios com força, à mão firme no volante evitando a colisão total com a mureta, a outra mão puxou a moça desacordada para o seu lado, agarrando-a pela cintura para que não voltasse a se chocar com o painel. A carroceria do carro rangeu e os pedais pareceram se soltar com a turbulência, Morghan jogou o sedan de leve para a esquerda e o automóvel iniciou a parada comendo o cimento da mureta de segurança, com frenéticos rebites para a estrada.
Foi com alívio que Morghan conseguiu parar o veículo danificado no acostamento.
--- Elysie...- chamou, sacudindo a moça com vigor. Fitou-a através do véu falho de vermelho e cores, procurando o movimento da respiração sem o detectar.
Morghan fechou os olhos com força e suspendeu os cílios piscando várias vezes para limpar a visão. O quadro vermelho sangue e as cores ainda estavam lá, oscilando sua percepção de passado e presente. Algo quente estalou no seu corpo, subindo como chamas ruidosas e chicotes negros que castigavam a lógica. Brumas brancas, névoas de esquecimento. Sua mente pareceu ficar mais clara e de repente ele teve vontade de rir, a incompreensível parada súbita na estrada graças àquela mulher. Estava morta, então, o melhor era seguir em frente, levá-la para o Beco. Uma pena, mas os servos da "limpeza" cuidariam daquilo. Para isso havia as grandes caçambas na Sete.
O pensamento geralmente confortador da Sete de alguém para finalizar o serviço causou uma reviravolta no estômago de Morghan e ele voltou a fitá-la. Imaginar aquela moça tão bonita, com lua prateada nos olhos e constante alegria dentro de um saco plástico das caçambas da Treze trouxe ondas de náuseas e um torpor de desespero. Lembrou-se de outros corpos empilhados ali e mais uma vez, uma avalanche de magoa subiu pela sua garganta e a infalível raiva não subiu com ela.
"Eu não me importo", deu de ombros e procurou o pulso na altura de seu pescoço. "Seria uma pena que você morresse". Os dedos procurando a carótida pulsando através da pele em um atestado de vida. Na via contrária, um dos carros reduziu a velocidade e Morghan se forçou a um sorriso infalível de conforto, dispensando o homem da ajuda. Sabia que ele não ia parar, as pessoas tinham a consciência pesada, mas adoravam quem as libertasse de qualquer fardo de auxilio. Não foi diferente daquela vez.
Morghan voltou à atenção para o retrovisor, ele procurou o carro de polícia ao ouvir a sirene, provavelmente, no inicio do trevo da estrada. Não se importou. Era sempre divertido, quando não era tedioso lidar com eles.
Seus dedos não marcaram o compassado de vida e Morghan retirou os óculos, puxando a moça pela nuca. Arqueou as sobrancelhas com a palidez colorindo-se de azul em seus lábios.
--- Pensa que venceu, não é? – murmurou para ela, a sensação incômoda de desespero querendo voltar e acabar com a paz do ódio.
Decidido, Morghan abriu a porta do motorista e saltou do veículo. Deu a volta até a porta dos passageiros, abrindo-a com raiva. Puxou a moça pelo braço, arrastando-a no banco até envolvê-la nos braços.
--- Não vai ser tão fácil, Elysie. – comentou, abaixando-se até o asfalto e colocando a moça agora, um pouco mais delicadamente no chão. Inclinou a cabeça até o vale dos seios, colando o ouvido na espádua de Lothíriel e resmungou ao ouvir o silêncio, ao invés das batidas ritmadas do coração. Alinhou a coluna e xingou baixinho. – Não, não... – deslizou a mão pelo pescoço da moça lentamente até os seios, sentindo o osso longo por debaixo da blusa, até identificar a saliência final. Fechou o punho e marcou com os olhos a localização. Ergueu o braço no ar calculando a força correta para não quebrar as costelas da jovem.
Seu punho desceu em uma reta perfeita e estalou em um soco oco contra o tórax da moça. A coluna dela arqueou de leve e a cabeça de Lothíriel resvalou para o lado. A tela rubra reduziu-se a uma penumbra fina, como se a moça estivesse parada em um pôr do sol vermelho-alaranjado.
O Mar. Gaivotas.
Morghan inclinou-se um pouco e ajeitou a face da moça para cima, obstruindo a passagem de ar do nariz com os dedos, pressionando o queixo fino para baixo e assim, os lábios azulados se abriram.
Campo de trigo dourado, ondulando com o vento.
Verde e branco. Uma flâmula altiva com o cavalo branco em seu centro.
Aspirou o ar na maior quantidade que podia, descendo a cabeça lentamente até que o ar retido em seus pulmões alcançasse o destino. A face em cores de branco e azul entrou em sua mente como uma pintura a óleo, afastando para longe, o vermelho. As mãos de Morghan perderam a segurança e seu corpo se contraiu em ondas de terror, quase perdendo o preciso o ar para ela.
Seus lábios encontraram os de Lothíriel, empurrando com força o ar oxigenado para os pulmões da moça.
"Por que está lendo as cartas do seu pai escondido, Lothy?"
Aqueles lábios macios, frios e ausentes do sorriso que era só dela. Morghan calou o Minotauro por minutos, suportando sua fúria para aplacar a dúvida que advinha em ondas, ondas de tristeza, ondas de amor, ondas de esquecimento.
"Não são do meu pai, são endereçadas ao meu pai"
"Ah, interessante construção de palavras. Bom, de quem são?"
"São de Éomer, rei de Rohan, meu futuro marido, logo, também pertencem a mim"
--- Volte, Elysie. – murmurou, fitando com ansiedade o movimento torácico ausente que se elevara com a invasão do ar da sua boca, dos seus pulmões e agora parecia quieto, em acusação. – Eu não vou machucá-la mais. – fechou os olhos, atordoado com as memórias, a tristeza e ausência do ódio. – Eu prometo.
"Seu futuro marido não escreveu para você?"
O riso! O riso dúbio: o som juvenil de menina, o tom certo de mulher.
"Ele ainda não sabe que vai ser meu marido."
Outro riso. Uma boca parecida com a sua, um som que não parecia ser o seu. Uma alma que certamente não lhe pertencia.
"Posso ajudá-la a resolver este detalhe inconveniente?".
Os olhos cinzentos dissolvendo a menina em mulher apaixonada, o espelho da esperança nas luas de prata.
"Eu sei que pôde, primo! Oh, Eu sei que sim!".
"Primo!"
Morghan estremeceu e não se importou com o mundo ao redor, ainda girando e girando. As cores, tão antigas estavam de volta.
--- Lothy... - o murmúrio saiu num soluço e Morghan teve o primeiro sinal de consciência. A ferida em sua face, aberta pelo anel de casamento da moça ardia incessantemente e o tornou mais alerta ao sol do dia em tons amarelos. Apalpou o pescoço a procura do sinal de batidas rítmicas.
Batidas rítmicas contra o solo. Uma trovoada, um terremoto no solo. O campo ondulante e dourado parecia se abrir à passagem deles: Rohirrim.
"Deu certo! Deu certo! Eu vou me casar com ele, Faramir!"
Morghan ergueu o pulso, não tão firme quanto antes, pois sua mão estava pesada com a esperança e o desespero. Seus olhos ardiam, desacostumado com aquela íris cinzenta, seu coração ardia em chamas, desacostumado ao sentimento. O Minotauro rugia em fúria escarlate, em choques de dor em chicotes de metal, mas era dia sob os olhos de Morghan, um dia dourado e não uma cortina turva e vermelha. Um dia dourado além do véu líquido de lágrimas.
O som de pneus derrapando em uma guinada brusca. Porta abrindo num rompante, gritos enfurecidos.
--- Afaste-se! – aquela voz era como o trovão, tão furiosa como um minotauro, prometendo sangue e fúria.
Morghan ignorou aquela voz e suas lembranças. Desceu o punho naquele ponto de esperança, onde a saliência do osso pressionaria o coração com a força certa, empurrando-o em uma manobra mecânica e lembrando-o dos braços que esperavam o corpo que o abrigava, das faces que esperavam o sorriso, dos corações que bateriam junto ao seu ritmo em felicidade.
--- Éomer! – a voz feminina vestida de urgência - NÃO!
O corpo de Lothíriel arqueou-se com o golpe e se o seu coração batera tão forte, tão forte ao retornar o ritmo da vida, decerto teria sido ele quem empurrara o seu próprio e Morghan teve certeza que ela estaria de volta. Sequer sentiu o fogo que atravessava sua alma, insensível ao projétil que ultrapassava seu corpo, surdo aos rugidos do Minotauro, as brumas de Saige, as ordens de Minos. Nada tinha importância, o som cristalino da mulher que chegara ou do homem que estava ali para roubar sua vida.
Ela voltaria. Ela voltaria.
Tão certo quanto ele, sua essência de cores contra o vermelho, partiria.
O céu dourado transformou-se em nuvens vermelhas. Muito acima de sua cabeça, tombada no chão, o dia despedia-se das cores, como se um imenso tapete de sangue estivesse sendo estendido sobre a Terra.
I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I
Éomer saiu da viatura com a arma em punho, assimilando imagens com a velocidade do pensamento e sua mente gritando em revolta profunda, negando-se a acreditar e acreditando antes mesmo que houvesse uma resposta.
O punho erguido era uma ameaça e nenhuma palavra poderia apagar o terror absoluto do corpo estendido no asfalto, sem o brilho luminoso da lua em seu rosto, não poderia apagar a falta do sorriso atrás dos lábios azulados. Não havia força de sangue ou amizade que pudesse superar o laço de uma vida inteira e outras que os Valar concedesse.
Éomer abaixou a arma e deixou que o metal caísse no chão. O vulto de Éowyn passou por ele e abaixou-se ao lado de Lothíriel.
--- Lothy? – chamou baixinho esfregando as costelas dela com o punho fechado, como já vira Elladan fazer inúmeras vezes.
--- Ela... ?
Éowyn ergueu o rosto e apertou os olhos contra o sol. Não ousou olhar para trás e ver outro corpo atrás do seu, um dia parte dele, numa extensão não muito bem definida pelo coração. Não ousaria vê-lo caído em alguma poça de sangue. Poderia lidar com tudo, desde que fosse um tudo dividido em partes. Uma parte de cada vez.
--- Não. – seu queixo tremeu, mas Éowyn o empurrou para cima, endurecendo o maxilar . Repetiu, convicta. – Não.
Éomer a imitou abaixando-se ao lado de Lothíriel e tocou no rosto da esposa. A veemente negativa de Éowyn teve o condão de devolver seu espírito ao corpo. Os olhos castanhos escurecendo rapidamente enquanto assimilava as imagens separadas, soube imediatamente o que Lothíriel fizera, sua reação ao seqüestro e seu peito se insuflou de orgulho com a coragem da esposa, o coração esmigalhando-se com o resultado. Teria que honrá-la com a mesma coragem.
--- Ele estava fazendo uma manobra de ressuscitação, Éomer. – concluiu Éowyn, virando o rosto para as marcas no pescoço da cunhada. Checou o pulso e a respiração. – Temos que terminá-la.
Éomer não hesitou e segurou a nuca de Lothíriel, abrigando o ar dos pulmões com mais do que oxigênio. Ao descer a boca até os lábios da esposa, o Rei de Rohan sentiu a cabeça rodar com pedaços de memória se soltando como folhas ao vento. Soprou o ar para dentro da boca dela e com aquele toque, Éomer não estava mais no asfalto e sim sob os tetos de Meduseld. Seus braços aninhavam um corpo cheio de calor, fitavam olhos prateados que lhe sorriam ansiosos pelo beijo de uma nova vida.
E aquela lembrança foi tão vívida que Éomer estranhou a estrada, o barulho de carros que passavam devagar em curiosidade, o céu aberto ao invés do Salão de Teto Dourado. Estranhou Lothíriel deitada, a ausência de seus olhos ou do seu sorriso.
--- Eu vou matá-lo, Éowyn. – falou Éomer, baixinho. Fitou a irmã, muito sério, as palavras proferidas com a pausa necessária de um juiz. – Isso foi imperdoável. Eu vou.
Éowyn sustentou o olhar ferido que se transformava rapidamente em uma conclusão. Sem esperar resposta sua resposta, Éomer repetiu o ato de soprar ar e memórias para dentro da esposa.
--- Acho que já matou. – proferiu Éowyn, uma calma congelada. Nunca soube como suas emoções ficavam entorpecidas em momentos como aquele, mas assim o era. Primeiro, as ações; as palavras, se necessárias, sucediam os atos, e só então, os sentimentos.
Mas qualquer regra era à base da estrondosa exceção. E não foi diferente com a Princesa e Dama de Rohan, Rainha de Ithilien, renomada Dama do Escudo, mil vezes esposa de Faramir em Arda, a sempre fiel amiga dos Escolhidos dos Valar e atual gloriosa companheira de Legolas.
O som de algo rascante tentando retornar a superfície arrancou o sentimento do seu lugar de ordem e correu para a dianteira.
--- Lothíriel! – quase gritou, uma alegria louca se transformando em alívio supremo.
Lothíriel descerrou os cílios abrindo enormemente os olhos, ainda vendo um extenso Corredor com imagens vivas em movimento. Aquela sensação de plenitude foi engolfada pela luz ofuscante do sol e então, o grito agudo dos pulmões repletos de ar, o coração bombeando o sangue em uma batida louca.
Ela abriu a boca e começou a tossir, levando as mãos à garganta, o ar queimando ao passar pela traquéia. A confusão se dissipou no conforto de braços quentes, um imenso circulo de força ao seu redor.
--- Lothíriel... – sibilou Éomer, em estado de graça, arrebatando-a para o infinito protetor dos seus braços. Amparou o arquejar do corpo debilitado com a tosse, agradecendo em frases atropeladas no espaço secreto da sua mente. Ela voltara, ele sabia. Estivera lá e voltara.
Era uma dádiva. Uma dádiva dos Valar.
Éowyn sentiu um frio subindo sua espinha como as teias de uma aranha, tecidas lentamente ao subir pela sua pele. Voltou-se devagar, pronta para outra conclusão tão atordoante como benção dos Valar para Éomer e para todos eles.
Inclusive para ele. Faramir. Morghan. Minotauro.
Éowyn fez menção de se levantar, mas Éomer a conteve pelo braço, segurando-a com firmeza.
--- Não. – uma sombra caiu sobre a alegria no rosto do rohirrim. – Ele não é mais um dos nossos.
Delicadamente, Éowyn colocou a mão na face de Lothíriel, a outra na mão que a retinha.
--- Eu aprendi com Legolas que aqueles que amamos uma vida inteira não pode ser julgado por um único ato. – Éowyn sustentou o olhar de Éomer com altivez, completando com doçura. – Eu vivi muitas vezes ao lado de Faramir, meu irmão... Permita-me apenas fechar seus olhos, é o mínimo que lhe devo. Por favor.
Éomer cerrou a mandíbula contraindo o maxilar em ricto de contrariedade e revolta. Todo o seu íntimo gritava contra aquele argumento da irmã e ele queria desesperadamente afastá-las daquele lugar, para muito longe. Não queria mais pensar no que vira, nos fatos desenrolados do Beco sob a persona do Minotauro, nas marcas deixadas em Lothíriel, na traição que doía em seu coração, maior do que as inúmeras histórias ao lado de quem considerara, mesmo na longa ausência dos anos, um amigo.
O movimento de Lothíriel em seus braços arrancou Éomer dos pensamentos de conflito e ele se apressou em dedicar-lhe atenção. A cor havia retornado ao seu rosto com a suavidade da primavera e sua respiração era cadenciada, livre.
--- Não deve impedi-la, Éo... – sussurrou, pousando nele seus olhos prateados. – Só ela pode...
Éowyn dirigiu um agradecimento silencioso a Lothíriel e afastou os dedos do irmão, ainda cravados em seu braço. Como se fosse um sacrifício físico, Éomer permitiu que Éowyn se afastasse, contrariando seu próprio bom senso.
--- Só ela pode salvá-lo, Éomer. – continuou Lothíriel
--- Ele está além do nosso poder, Lothy. – suspirou Éomer, seu rosto era uma máscara de severidade, mas beijou a fronte da esposa, enlaçando-a com firmeza pela cintura. – Só Erü pode decidir isso. Venha.
Lothíriel aceitou a ajuda do marido encontrando a força sólida que precisava para se erguer. Assistiu Éowyn se aproximar de Morghan e fitou Éomer com uma dureza incomum nos olhos prateados.
--- Ela pode e deverá salvá-lo – sentenciou, o tom de voz inflexível, soprando o hálito sobre o rosto inclinado do marido sobre o seu. – Pelo seu bem, pelo nosso bem, pelo de todos. - fechou os olhos, suspirando com as memórias – Essas são as palavras de Olórin.
A conclusão atingiu Éomer com a força do longo inverno em Rohan. Seus músculos se contraíram e ele negou com a cabeça, aturdido.
Olórin. Gandalf. O Corredor.
Não podia ser verdade. Teriam perdido a preciosa companhia do amigo Maiar?
O asfalto sob o brilho de Anor em seus tempos modernos pareceu-lhe tão cruel como as planícies de Gorgoroth. Aquelas perdas jamais haviam se repetido depois do Primeiro Retorno dos Escolhidos. Não estava no Manual, Glorfindel não permitia que os Escolhidos sofressem qualquer penalidade das trevas em suas tarefas. Voltavam quando queriam, retornavam quando preciso. Jamais arrebatados.
Éomer fitou Lothíriel em seus braços.
Exceto, pelo capítulo IV.
"Não"
Não, ele não aceitaria tão fácil.
--- Não. – ergueu a voz, conduzindo a esposa até o veículo. Gritou – Éowyn, afaste-se dele!
I&I&I&I&I&I&I&I&I
Éowyn soube, antes mesmo de dobrar os joelhos e aproximar-se de Morghan que ele estava vivo, mas não fez menção de se afastar. Como era próprio de sua natureza, não recuaria diante de nenhum perigo, seja qual fosse sua natureza e força. Não hesitaria nunca diante da possibilidade de salvar alguém caro ao seu coração, mesmo que se passassem anos, vidas ou Eras.
A conversa rápida com Arwen ao telefone na madrugada havia trazido dúvidas importantes as suas próprias. A Marca era inquestionável e Éowyn a descobrira naquela mesma noite, após deixar o Beco. Quando Lothíriel chegara ao 5º Distrito, intimamente, ela soube que o círculo estava completo. Todos estariam reunidos no Beco e somente uma missão muito importante seria motivo para agregar os Escolhidos em um único local. Mais do que salvar Frodo, ela sentiu naquele instante que tinham que salvar Faramir de si próprio.
Éowyn estudou as linhas que sabia de cor, em um rosto que era responsável por inúmeras expressões de alegria, júbilo e preocupações. Por muitos anos, Faramir contemplara o passado analisando-o com serenidade, mas seus olhos cinzentos estavam sempre perdidos em algum ponto incompleto que ele não podia compartilhar com o futuro.
As palavras de Lothíriel não causaram surpresa e soube que Éomer não aceitaria facilmente. Ela havia prometido que ajudaria o irmão e não falharia. Sua alma justa, sua mente honesta não conseguiria aceitar a dualidade de Morghan. Não poderia perdoar Faramir enquanto existisse o Minotauro. Antes ele se afastaria do Círculo dos Escolhidos, negaria as missões, se apartaria dos amigos. Jamais Éomer aceitaria dar as mãos para os Escolhidos sabendo que haveria um vácuo eterno no lugar de um amigo, ainda que houvesse traído os códigos de lealdade e justiça.
Éomer jamais havia aceitado o Capítulo IV. Nenhum argumento do Lorde havia convencido-o que havia justiça em suas linhas, nem mesmo o Rei Thranduil, o qual Éomer dedicava o mais nobre respeito e admiração fora capaz de convencê-lo.
Nem mesmo Théoden, que o irmão amava com todo coração, pudera demovê-lo da sua firme decisão. Ninguém pudera fazer com que Éomer marcasse a letra de seu nome no capítulo IV.
Eles perderiam sua companhia. Seu espírito recusaria o Corredor.
--- Éowyn, afaste-se dele!
Éowyn usou toda a sua disciplina e força de vontade para manter-se firme quando Morghan abriu os olhos e fitou-a, com grandes órbitas negras no lugar da íris cinzenta dos filhos de Gondor, sem o menor traço de vestígios esverdeados, herdados da mãe e presente quando estava alegre, sob o brilho de Anor.
--- Tarde demais. – sibilou Morghan, erguendo-se com um reflexo felino. - Olá, Dama.
Éowyn se levantou também, altiva e segura, com o brilho da manhã emprestando a força do sol em seus cabelos. Não havia medo em seus olhos, apenas a certeza de que reinava em suas mãos, à vontade do Destino.
--- Olá, Minotauro.
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No meio da Estrada – Segundas Chances são Elos
A enfermeira abriu a porta do quarto do rapaz e sorriu quando viu a policial dormindo na poltrona. OS monitores permaneciam mostrando os sinais estáveis do menino. Ele havia despertado no começo da manhã e embora não desse mostra de recuperar a memória, comera com apetite e conversara educadamente com todos. O neurologista estava satisfeito e já cedera alta, só faltava o parecer do clinico.
--- Você demorou rapaz. – disse a enfermeira, cedendo passagem para o recém-chegado. – Ela esperou a noite inteira.
--- Obrigado, você é muito gentil. – o moço sorriu de maneira travessa e piscou. – E bonita, é casada?
A enfermeira riu, corando e bateu no ombro do moço. Sabia que ele estava brincando com ela, pois deveria ter três vezes a sua idade.
Ao menos, era o que ela, erroneamente, imaginava.
--- Já, senhor e tenho um filho com a sua idade!
--- Foi o que pensei. – ele riu e coçou a cabeça, embaraçando os cabelos cacheados. – Sempre chego por último com as melhores.
--- Ora, seu menino – a enfermeira tentou conter o riso. Avisou – Vou checar se o médico já assinou os papéis da alta dele e volto para falar com vocês.
O rapaz agradeceu e fechou a porta quando a enfermeira saiu. Fitou a policial adormecida e cruzou os braços.
--- Não se faz mais turnos como antigamente! – observou, aproximando-se do leito do rapaz. Cutucou-o no ombro e ele piscou várias vezes. – Bom dia! Meu nome é Udhorat e vou acompanhá-lo até a sua casa!
Juno despertou esbaforida e levantou-se da poltrona um pouco atordoada. Ouviu o nome apresentado pelo jovem, lembrando-se da autorização do comissário. Checou o relógio e refletiu o que teria acontecido naquelas horas tediosas em que passara no hospital.
--- E bom dia para você também! – saudou Udhorat, sem deixar de esboçar alguma ironia. – Vejo que todos descansaram a contento.
Juno retribuiu o sorriso do rapaz com má vontade, sem compreender como um menino poderia cuidar de outro. Ele parecia mais jovem que o convalescente, com olhos grandes e azuis, os cabelos cortados que não escondiam a ondulação de cachos naturais. Parecia muito despojado e a vontade, vestindo calça jeans e camiseta com o inusitado slogan Salvem as Baleias. Carregava uma caixa bonita com uma pasta de couro sobre a tampa.
--- Você é advogado? – perguntou, desconfiada.
Udhorat, conhecido pelos amigos como Meriadoc Brandebuque, O Magnífico no Condado ou simplesmente, Merry, devolveu o olhar na mesma intensidade, segurando a língua afiada dentro da boca.
--- Eu me apresentei, madame. – respondeu, educado, moderando o gênio como podia para se ver logo livre da mulher, que a seu ver, não atuara em seu papel a contento. – Sou ecologista. E a senhora, quem é?
Além do que, Éomer não parecera nada satisfeito com ela e só existia um motivo para isso. Merry também era bastante sensível a qualquer pessoa que tivesse sido ligeiramente desagradável com as damas de Rohan.
--- Você deve saber quem eu sou, rapaz. – ela desfez a armadura, ao ver que não conseguiria nenhuma informação de Udhorat. Estendeu a mão – Meu nome é Juno Alighete, do 5º Distrito. O Comissário pediu para aguardá-lo. – ela arqueou a sobrancelha e recolheu a mão após o aperto firme de Merry. – Posso saber para onde irá levá-lo?
O rapaz deitado no leito, foco da atenção limitava-se a balançar a cabeça de um lado para o outro, acompanhando o diálogo. Sua mente estava limpa como um caderno novo, a alma cheia de expectativa por algo que iniciaria em breve. Sua nova vida. Não tinha certeza ao certo, mas uma voz macia havia prometido uma nova chance e a voz do ecologista tinha o mesmo tom pacífico.
Meriadoc foi incisivo. Era uma qualidade muito sua que atingira os pícaros da excelência com os muitos anos de dedicação na ecologia, defesa do meio ambiente e em palestras mundiais. Sempre abordado por lideres do governo para integrar o lobby político da questão ambiental, Meriadoc Brandebuque aprendera rapidamente que sua coragem, inteligência e astúcia eram-lhe grandes ferramentas para escapar de armadilhas muito mais sutis do que os cercos com a espada.
E por Erü, como Merry preferia as espadas aos políticos!
--- Eu concluo que se eu fui chamado para a tarefa e a senhora não tem ciência, é por que devemos deixar assim, não concorda? – pergunta com ênfase de ponto final e um ligeiro sorriso condescendente.
--- Ótimo. – Juno engoliu a dispensada elegante do rapaz e se despediu do convalescente. Este lhe prestou pouca atenção.
Os dois observaram a mulher saindo com pisadas duras.
Meriadoc suspirou, satisfeito com a saída de Juno. Depositou a caixa sobre a cama, entregou a pasta para o rapaz e abriu a tampa.
--- Eu trouxe roupas para você. – avisou, enumerando os itens enquanto retirava da caixa. O convalescente se levantou, espiando tudo com curiosidade e gratidão. – Alguns itens de uso pessoal, uma agenda e um celular. Ah, sim. – Merry sorriu com o entusiasmo do rapaz. Ele achava uma pena como ficava sempre com a melhor parte, observar a felicidade dos que tinham uma segunda chance, mesmo que não tenha sido pelas suas mãos, mas Elessar tinha muitas coisas urgentes para fazer. Como todo Rei que se preze, estava concentrado em salvar vidas e não em ser agradecido. Com certo orgulho, prosseguiu. – Aí você tem seus documentos pessoais, identidade, seguro social, habilitação e etc. Chaves do seu apartamento e dinheiro. – Merry retirou o cartão da mão do rapaz e riu, apontando o indicador. – Cuidado para não gastar tudo, amigo, você tem um financiamento de três meses até se ajeitar, certo? Ok, certo! O que eu esqueci? – Merry coçou o queixo e estalou os dedos. – Opa, quase que esqueço do principal. Aqui está, a dona Elysie falou com a reitoria da Universidade, você deve entregar esse documento para a secretaria. E... vamos dizer que você está sob observação, rapaz. – Merry bateu no ombro do antigo Tibet e fitou-o com intensidade. – Seja honesto, ande na verdade e honre a chance que recebeu. Provavelmente, a gente não vai se ver por um bom tempo, mas eu desejo muito sorte a você!
O rapaz fitou a própria identidade e repetiu o nome com alguma estranheza, mas logo sua mente assimilou as informações e ele ficou triste ao ver que Udhorath se preparava para ir embora.
--- Você já vai?
--- Sinto muito, amigo, eu estou com muita pressa. – desculpou-se Merry e atendeu o celular pedindo tempo. – Você vai ficar bem sozinho.
--- Eu nunca mais vou vê-lo certo? – perguntou o rapaz com seriedade e uma pontada de triste. – Nem você, nem o outro.
Meriadoc sorriu. Não importava como a galera do Corredor trabalhava, todos eles sempre guardavam alguma lembrança do amigo de Gondor. Era assim que funcionava, uma estrela que cede um pouco de luz sobre a terra, nunca era completamente esquecida.
--- Talvez um dia. – consolou.
--- Eu gostaria de agradecê-lo. – ele se apressou, emendando as palavras depressa – E a todos. – ele franziu o cenho, incerto de saber como sabia, sem exatamente saber. – Sinto que muitas mãos contribuíram e... não estou falando só disso – apontou a caixa e a pasta – Estou falando de... – ele encolheu os ombros, um pouco envergonhado das palavras que soavam dramáticas, mas os olhos inteligentes de Udhorath pareciam compreendê-lo, muito mais que ele próprio compreendia. Sorriu, acanhado. – Falo da minha vida. Bem, espero encontrar trabalho depressa...
Meriadoc acalmou Pippin com algumas palavras. Como sempre, Pippin não entendia porque não podia simplesmente despejar tudo que precisava dizer ao telefone. Contraiu o cenho ao identificar com clareza as palavras cerco, luta e resgate.
--- Estou indo, Pip! – desligou o celular apressado. --- Eu tenho que ir. Seja leal e honesto, isso recompensará todo o trabalho. – acenou e se encaminhou para a porta. – A propósito, se algum dia, a gente te procurar para pedir um favor, você pode dizer que não, certo?
--- Certo, não! Não, claro que farei! – aquilo sim foi um consolo e o rapaz ficou muito feliz com a perspectiva.
Meriadoc abriu a porta sorrindo intimamente. Ele tinha escolha, claro, mas até hoje, desde que os Escolhidos começaram o trabalho no Beco, nenhum dos recuperados havia se negado a ajudar quando precisavam. Aquele Rei sabia o que estava fazendo.
Parou no batente e perguntou, franzindo as sobrancelhas.
--- Ei, por acaso, você gosta de baleias?
I&I&I&I&II&I&&II&I&I&I&
O Fim da Estrada – Elrohir, Elladan, Arwen e o Beco
A estrada parecia interminável, Arwen conferiu o horário no relógio de pulso, pontilhado por estrelas de diamantes. Ao seu lado, Elrohir inalava em grandes lautos de ar, buscando equilíbrio entre a amplitude do céu e as sombras que coroavam os automóveis que passavam rapidamente, contaminados com a própria energia de seus condutores.
--- Como você está, Ro? – perguntou Arwen, voltando a face em uma rápida análise do perfil do irmão, antes de concentrar-se na estrada. – Estel disse-me que o Beco é como uma caixa, com estreitas ruas apinhadas de gente a caminho da Sete e de volta. – ela engoliu em seco e apertou os dedos contra o volante. – Você terá que escolher pontos de concentração para evitar se confundir... Elrohir?
Elrohir arredondou os olhos negros e exalou o ar dos pulmões.
--- Arwen, eu preciso estar lá. – ele ignorou os vácuos de energia morta e chamas que parecia persegui-los e apertou com mais força, os dedos de Elladan, ainda em seu ombro. – Você não sente?
Arwen maneou a cabeça em afirmativa, retirou uma mecha do rosto, jogada pelo vento com um movimento delicado. Antes mesmo de conversar com Gandalf e tocar a mente de Legolas, Arwen já sabia que teria que ir ao Beco. Porque a Marca aparecera da noite para o dia, como um aviso solene que estavam em perigo.
Perigo para o corpo. Perigo para o espírito.
Léron grunhiu e começou a rosnar baixinho.
--- Eu sei que é o certo a fazer, Ro. – Arwen estendeu o braço e apertou a mão do irmão, pousada no joelho. – Temos que conseguir.
--- Nós vamos. – Elrohir ensaiou um sorriso. Seus olhos escuros pareceram ainda maiores no rosto pálido. – Não vamos, toron-nin? – questionou, como sempre, os seus pensamentos e desejos só pareciam reais e possíveis, quando Elladan os compartilhava e confirmava com sua própria voz.
A demora na resposta alertou Elrohir e os dois procuraram o rosto de Elladan. Ele permanecia na mesma posição, a face para baixo, a fronte tocando a nuca de Elrohir, a mão sobre seu ombro.
--- Ele está dormindo? – sibilou Arwen, olhando para trás, com uma expressão perplexa.
Elrohir saltou do banco com o susto e o corpo de Elladan caiu para trás quando o gêmeo soltou sua mão. Léron ganiu alto e se adiantou. As patas entre as pernas de Elladan, a coluna arqueada em estado de alerta, seu focinho voltou-se para Elrohir, as grandes manchas negras em seu pêlo cinzento.
--- Saía da frente, Lér! – vociferou Elrohir, angustiado com o imenso lobo entre ele e seu irmão. Era um dia quente, Anor a postos no alto do firmamento e ainda assim, Elrohir sentiu frio. Seu lábio inferior estremeceu e ele apertou com força o banco, o corpo estalando com os músculos se torcendo no esforço abruto de virar-se para trás e estudar aquelas cores.
Oh, as cores de Elladan.
Arwen piscou confusa e reduziu a velocidade, voltou o rosto para trás, umedecendo o lábio inferior, alternando uma expressão atônita para o sono profundo de Elladan e aquele semblante transtornado, tão pouco comum em Elrohir.
--- O que você vê? – perguntou Arwen, eletrizada no banco da frente. Sua vontade era de largar o volante. – Eu vou parar o carro.
Elrohir estudou a movimentação da estrada. Os golpes de círculos nodosos de energia alaranjada, cinza e negro que saltavam dos veículos de um lugar para outro, subiam na atmosfera como fogos de artifício. O veículo de Arwen prosseguia incólume e Elrohir sabia que era devido a própria aura brilhante da irmã, um halo de luz prateada, tão bela quanto as estrelas de Elbereth.
--- Não... – sua voz saiu rouca, num murmúrio. – Ficaremos bem em movimento.
--- O que você vê? – repetiu Arwen e voltou a aumentar a velocidade. Não conseguia deixar de virar o rosto para trás a todo instante. E apesar do seu coração estar disparado dentro do peito com o alarme na face de Elrohir, não havia nada em Elladan que justificasse o pânico dos irmãos.
Elladan estava deitado de costas no banco, o pescoço pendido para trás e sua cabeça curvada para o lado. O semblante do gêmeo era de serenidade, os cílios escuros semi cerrados em uma doce sonolência, como se não houvesse nada de perturbador em se cair assim, sem mais nem menos, em um sono irresistível, tão inconseqüente, como uma vertigem humana.
Elrohir girou o controle do banco até que o encosto descesse mais e escorregou para mais perto do irmão. Léron arqueou o corpo para trás, os pêlos cinzentos ampliando-se como um leque, a arcada dentária do grande lobo ficou a mostra, aumentando o tom do rosnado ameaçador. O animal hesitou por alguns instantes com a proximidade de Elrohir, como se ressentisse do próprio ato, mas então, reforçou a postura agressiva e uivou com sofreguidão.
Uma sólida parede viva entre Elrohir e Elladan.
--- Dan... – murmurou Elrohir, compreendendo a atitude do lobo. Ajoelhou-se no banco rebaixado, escorregando devagar, centímetro por centímetro para perto do irmão. --- Ele está lá de novo, Arwen... Está vibrando. – Elrohir fechou os olhos e tornou a abri-los, permitindo que aquela janela aberta se expandisse, não obstante a visão da energia o enlouquecesse de contradições e emoções tão intensas, que pareciam ser arrancadas da sua alma, ao invés de simplesmente sentidas. Respirou profundamente – Ele está lutando, estrela.
--- Oh, Ilúvatar! – Arwen manteve o autocontrole por um fio, mantendo-se na estrada. – O que posso fazer? Elrohir – o irmão não respondeu e ela chamou mais alto, assustando-o. Elrohir parecia estar hipnotizado. – Elrohir!!
A circunferência esplendorosa de um verde limão que lembrava clareiras na primavera, o aroma de cedros, saúde, juventude e cura estava sendo esmagada por um traço rubro de fogo. Era uma linha que contornava o corpo de Elladan e empurrava para baixo a sua própria aura, que vibrava e se retorcia, na tentativa de expulsar aquela energia intrusa.
Léron uivou mais uma vez e deslocou seu corpo para frente, na tentativa de afastar Elrohir de Elladan.
--- Ele está com medo... – murmurou Arwen, a imagem do lobo tomando-lhe a visão de Elladan. – Elrohir, Léron está com medo, está tentando defendê-lo de Elladan. Por que? – Arwen estendeu a mão e sacudiu Elrohir. – Elrohir! Você está me escutando?! Oh, Ilúvatar! – Arwen sentiu os olhos ardendo e a estrada ficou embaçada a sua frente. – Ajude-me, Elbereth! O que devo fazer?
O silêncio envolvia Elrohir. Ele só tinha olhos para a batalha de energia, a aura do irmão expandindo-se e vibrando, vibrando intensamente, mas não conseguia iluminar o aposento interno da sua mente até o exterior, sufocado com aquelas chamas inglórias que o percorriam. Um traço negro surgiu, reforçando em linhas aterrorizantes as ondulações vermelhas e Elladan contraiu o rosto, seu corpo arqueou-se de leve, num gemido.
--- Ada...
--- Não! – Elrohir gritou e saltou para frente, agarrando a mão do irmão. Léron avançou num salto, uivando de dor. Assim que apanhou a mão de Elladan, as chamas se extinguiram por um breve segundo e então retornaram, um círculo intenso e furioso de vermelho e negro. Escorrendo como lavas para a sua mão e atingindo sua própria energia. O choque imediato atingiu sua pele como ferro incandescente e Elrohir conteve o grito de dor quando a Marca se incendiou.
Léron avançou o corpanzil para frente empurrando Elrohir com fúria na direção do console frontal. As mãos dos gêmeos se soltaram e o lobo recuou, ainda mais enlouquecido de dor, postando-se firmemente entre Elrohir e Elladan.
O choque contra o painel aumentou a dor da queimadura e Elrohir sentiu a cabeça girar com as rápidas imagens que o haviam atingido. Ergueu o corpo massageando a nuca e quase caiu sobre Arwen, quando a moça freou bruscamente, sem aviso.
O corpo inteiro de Arwen tremia e ela fitou Elrohir com imensos olhos azuis, cheios de terror.
--- Você está suando... – ela tocou a fronte de Elrohir e fechou os olhos com uma expressão de dor. – Minhas costas... – ela soluçou. – Minha alma está ardendo! – ela estremeceu com o toque de Elrohir em sua face e abriu os olhos, fixando-os no retrovisor. – Oh, Elbereth! – com um gritou, Arwen girou a ignição e deu a partida de maneira abrupta, a picape saltou com uma guinada.
Elrohir ergueu o corpo ao ver um sedan prata se aproximando em alta velocidade. Segurou-se no banco e no console, assistindo Arwen aumentar a distância entre os veículos e o sedan prata iniciar uma tentativa de frenagem, batendo inúmeras vezes contra a mureta de segurança.
Sua cabeça estava girando em imagens confusas. A aura de Elladan diminuía cada vez mais ágil, uma força viva que então se ampliava, lutando com as chamas intensas e as linhas negras, agora estalando com o barulho de correntes de ferro.
--- Ada... – repetiu Elladan, murmurando sonolento como se estivesse em transe.
--- Ele não vai conseguir. – concluiu Elrohir arrumando-se no banco. A picape atingira a velocidade anterior e ele buscou o perfil de Arwen. – Você sentiu.
Arwen engoliu em seco, fitando rapidamente Elrohir antes de voltar a atenção a estrada. Ela havia sentido sim, as dores intensas da Marca e algo novo. Arwen executou uma prece silenciosa, pois sabe que o nome de Elrohir estava sangrando em sua pele agora.
Eles não vão conseguir!
--- Eu não tenho escolha. – proferiu Elrohir, os lábios cerrados. Fechou o punho fitando o irmão e as cores da batalha mesmo com os olhos fechados. – Perdoe-me, Dan... Eu não tenho escolha.
Arwen sentiu o impacto das palavras de Elrohir e sua dor crescente. Sabia que ele tinha razão, mas as Marcas estavam ardendo em sua pele, a ponto de tirar sua visão clara da estrada e tudo ao seu redor.
--- Espere, Ro, por favor, espere... – implorou com tamanha veemência que Elrohir abriu os olhos, fitando-a com determinação. Ela sustentou a dureza que reluzia nas órbitas negras do irmão, antes de empurrar as palavras para fora da boca. – Espere antes de invadir a mente dele... Espere, você não vai conseguir...
--- Esperar o quê, Arwen?! – gritou Elrohir perdendo o controle, para se arrepender imediatamente, ao fitar o caminho das lágrimas descendo como fios perolados pela face da irmã. Sua voz mudou de tom, em um lamento profundo – Eu sinto muito... Eu não posso tocá-lo, defendê-lo, Arwen! – em nada mais que um murmúrio, Elrohir contraiu os punhos com visão a frente de seus olhos, agora se desenrolando na sua mente. – Ele vai morrer... Eu não tenho escolha.
--- Você vai morrer com ele! – rebateu Arwen, as palavras dolorosas percorrendo caminhos sombrios. – Espere, Elrohir. – Arwen estremeceu e encontrou um lugar seguro na própria mente. – Segure o volante.
Elrohir obedeceu imediatamente. Ela sentia, sabia, porque também morreria com eles. Com desespero renovado, Elrohir agarrou o volante e sussurrou.
--- Rápido, Arwen.
Arwen fechou os olhos e levou as mãos ao rosto, concentrando-se num mundo além do visível, além das dores no corpo e dos tormentos da alma.
I&I&I&I&II&I&I&
As folhas de Imladris esvoaçavam em espirais violentas como se arrancadas das arvores. O vento gemia em sofrimento com a perda das pétalas, das folhas e das nuvens que ocultavam as estrelas.
Arwen corria incansável entre as trilhas verdejantes que se tingiam de vermelho. As folhas cegavam seu caminho, o vento açoitava seus cabelos negros soltos atrás das costas, os ramos e galhos se levantavam como mãos em garras para agarra-lhe as vestes erguendo barreiras para impedir seu caminho.
Atrás de cada copa que se despedaçava, ao longo da sua corrida desesperada, Arwen via chamas que envolviam o corpo do guerreiro, rolando no chão como se lutasse com imensa fera. Ela forçou as pernas para frente, notando as imagens apenas com a visão periférica, forçando-se a não parar, a não se concentrar naquela cena.
Alcançou a pequena ponte e o lago cristalino reluziu com novas imagens, e mais uma vez Arwen impulsionou o corpo para frente, fugindo a tentação de olhar as cenas na mente de Elrohir, o sofrimento de Elladan. A tempestade rugiu arrancando as árvores milenares de Imladris de suas raízes e Arwen ergueu os braços para se proteger da chuva que desabou, inesperadamente, em grossos pingos vermelhos como sangue.
O amigo teria que perdoá-la por trazê-lo a tão tenebroso cenário, naquele espaço comum de lar mental que dividia com os gêmeos. Ali era um recanto de paz, laços de sangue e amor, mas agora, a Marca transformara aquela ligação em um campo de guerra.
Ela sabia que ele a perdoaria.
--- Legolas!!!
Arwen continuou correndo e correndo, gritando e chamando pelo amigo, vagamente ciente das palavras de Elrohir ao seu lado no veiculo, no seu desespero que era visível naquele espaço em comum. Ultrapassou um arco vivo de galhos verdes que se desfolhavam com gemidos e lamentos, o piso lamacento das gotas sanguinolentas manchando seu vestido. Alcançou então, uma súbita claridade, a luz do dia feriu seus olhos e quase caiu ao chão com a mudança de cenário.
Braços fortes a seguraram, antes de cair.
--- Arwen? – Legolas a conteve segurando-a pela cintura. – O que aconteceu? – o elfo contorceu o rosto vendo a destruição além do arco vivo das arvores.
--- Algo está atacando Elladan e ferindo Elrohir. Eles vão morrer, Legolas.– Arwen sentiu o coração se acalmando com a placidez na Eryn Lagaslen da mente de Legolas. –Você descobriu o que está causando isso?
A face bonita do elfo ganhou uma dureza súbita.
--- Sim, descobri. Tenho a autorização de Manwë para resolver. Pode ganhar algum tempo para mim? – ele pediu, decido. Voltou o rosto para além dos campos visíveis da mente deles e suspirou, proferindo as palavras com melancolia – Tenho que agir junto com Mithrandir...
Os traços de Arwen se contorceram em dúvida, mas Legolas sorriu e abraçou a amiga carinhosamente.
--- Não se preocupe, vai dar certo.
Arwen fechou os olhos e aproveitou a paz da luminosidade brilhante do amigo.
--- Eu confio em vocês... – sussurrou. – Elrohir quer entrar na mente de Elladan, Las. É muito perigoso.
Legolas afastou Arwen pelos ombros e ficou sério.
--- Confie nos antigos, Arwen. – beijou a fronte dela, afastando-se devagar. – Espere meu sinal. Deixe que Elrohir faça o que seu coração diz que é certo. – Legolas fitou a floresta úmida de sangue e destruição. Seus olhos azuis escureceram de fúria ao enxergar as mesmas cenas que Arwen vira antes em todos os pontos da clareira. – Você tem que partir agora.
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Espere meu sinal.
Arwen descobriu os olhos arfando rapidamente para equilibrar a respiração e agarrou o volante com ambas as mãos. Deu um grito abafado ao desviar para a direita, na última saída da auto-estrada para a parte sombria da cidade.
--- Elrohir. – chamou, atenta ao tráfego na avenida. – Vamos chegar ao Beco em pouco tempo. Ro?
Arwen voltou o rosto para o irmão e viu a brancura pétrea da palidez tingindo-lhe o semblante. Elrohir não piscou, os olhos negros bem abertos, congelados em uma expressão de doloroso espanto.
Um véu cobriu os olhos de Elrohir e o brilho escuro das órbitas luminosas se apagou.
Agora, Arwen.
Legolas, bem a tempo.
--- Oh, Elbereth. – Arwen pisou fundo no acelerador e jogou o carro para a esquerda, zigue-zagueando para fugir ao transito da avenida principal. – Elrohir! – ela dominou o volante com uma mão e tocou no ombro de Elrohir com a outra. – Você tem que ir agora! Ajude Elladan!
Elrohir abriu os lábios e seu peito se estendeu com a ampla inspiração, como se ele tivesse esquecido até aquele instante de respirar. Piscou várias vezes para arrancar o véu que secava seus olhos. Não escutara uma única palavra de Arwen, exceto uma.
Elladan.
Estou indo, toron-nin.
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O repouso do guerreiro estava manchado com as gotas de chuva. As folhas douradas e verdes tinham seu brilho apagado pela lágrimas sanguinolentas.
Elrohir caminhou lentamente pela clareira buscando o irmão e o arrepio de medo subiu sua espinha, porque ele já havia percorrido aquele trilha inúmeras vezes em seus pesadelos, e sabia o que encontraria.
O tallan vazio e o desespero. As folhas cantariam canções de saudade perguntando onde estava Elladan e ele gritaria junto com elas, encontrando apenas a mulher-demônio, a ausência do irmão.
Mas não era um pesadelo. Era real.
"Estou chegando, Elladan", disse Elrohir ultrapassando o tallan vazio com a lembrança da tempestade. "Espere por mim... Espere".
A clareira se findava numa bifurcação sinuosa, havia duas trilhas floradas em direções diversas. Elrohir fitou ao longo do caminho para o espaço comum do encontro dos irmãos, e lá só viu destruição e fogo, labaredas de fúria e lágrimas de sangue. Voltou o corpo devagar, caminhando com o coração dentro do peito partindo-se em mil pedaços. Seus olhos negros se acenderam com a alma do guerreiro se preparando para a luta.
E então os viu. Elladan e a mulher demônio em uma luta que mais parecia uma dança. Ela girava entre chamas e rebatia os golpes de Elladan lançando teias escuras que o envolviam como chicotes. Ele gritava em agonia, uma mistura estranha de sentimentos, mas ainda resistia, embora os laços negros estivessem em seu pescoço e as chamas em seu corpo.
Elrohir gritou e correu na direção deles.
--- Elladan!!!
O riso da mulher demônio explodiu acima de sua cabeça e se transformou em algo maior e descomunal. Ela não estava sozinha!! Uma simples porta, era o que era, para algo ainda pior e cheio de ódio.
--- Elrohir?
Elrohir estancou abruptamente e voltou-se surpreso. Seus olhos se arregalaram imensos na face.
Atrás dele a outra trilha estava iluminada. E a figura parada no caminho estava nimbada pela luz mais bela que ele já vira. Tão pura e quente, acolhedora e segura que seus olhos se encheram de lágrimas.
--- Ada?
Elrond sorriu e fixou seus olhos sábios, cheios de serenidade no filho.
--- Venha comigo, Elrohir.
Elrohir voltou o rosto para a visão de Elladan e a mulher-demônio, as nuvens de chamas e calor que ameaçava desabar mais uma vez sobre o irmão gêmeo.
--- Não posso, Ada. – lamentou, chorando silenciosamente. – Não posso deixá-lo.
Elrond permaneceu no mesmo lugar, mas estendeu a mão para o filho. A luz que partia dele era tão intensa como o brilho de Elbereth.
--- Você não irá abandoná-lo, ion-nin. – garantiu Elrond, o semblante cheio de compreensão. – Apenas ficará seguro, junto com ele, até que isso termine. – a mão de Elrond continuava estendida e o Senhor de Imladris repetiu, mais uma vez, as palavras que eram a energia do amor em forma de linguagem. – Confie em mim, ion-nin.
Elrohir o fitou hesitante, seu coração clamava pelo pai e gritava pelo irmão. Estendeu a própria mão, caminhando com passos lentos, sem saber o que pensar.
--- Ada...
--- Confie em mim, Elrohir. – repetiu Elrond com o sorriso do Tempo Imutável em seus lábios. – Não sabe que eu jamais o abandonaria a própria sorte, ion-nin?
Elrohir deixou que Elrond apanhasse sua mão e se lançou nos braços do pai, com a confiança irrestrita que possuíam. Seu coração se encheu de júbilo quando sentiu uma outra presença junto deles. Uma energia pura que completava sua alma.
Elrohir afastou-se de Elrond e as lagrimas desceram grossas e ininterruptas pela sua face ao fitar Elladan.
--- Toron-nin! – a alívio saiu num grito e Elrohir passou o braço pelo pescoço do irmão trazendo-o em um abraço apertado. – Eu pensei que tinha te perdido.
Elrond observou os filhos reunidos naquele abraço e olhou além deles, para a clareira onde a luta continuava. A mente de um elfo pode guerrear inúmeras batalhas, pensou o sábio lorde de Imladris, desde que seus corações estejam seguros.
Elrohir afastou-se de Elladan, tocando a face idêntica a sua e os dois olharam para a clareira, felizes por estarem juntos, mas confusos com a luta acirrada que parecia estar destruindo tudo ao redor.
Exceto onde tocava a luz de Elrond.
--- Ada, eu não entendo. – proferiu Elrohir, confuso. – Eu estou lutando ao lado de Elladan, mas também estou aqui?!
--- Ada sempre me traz para cá, Ro. – explicou Elladan apertando os olhos para a mesma cena.
Elrond se aproximou dos filhos e pegou os dois pelo braço, caminhando na trilha contrária. A luz convidativa mostrava as flores intactas, as copas verdes e as fontes de água cristalina adiante.
--- É apenas uma pequena luta, meus filhos, em que seus corações não precisam estar presentes, apenas a sua resistência ao mal. – falou Elrond, conduzindo-os com firmeza e amor, impedindo-os de recuar. – Tudo acabará em breve, pela mão de valorosos amigos, vocês podem descansar agora. – a face de Elrond intensificou-se de algo que somente seus olhos viam, e ele sorriu para Elrohir. – Outra batalha os aguardam, mas não agora... Não agora...
Os três alcançaram o pátio florido, a fonte de água prateada e a imensa estátua de Gil-Galad, translúcida e magnífica no centro.
Elladan apanhou a mão de Elrohir. E os dois olharam para trás.
--- Venham... – convidou Elrond, com um tom de voz macio e cúmplice que atraiu a atenção dos filhos. Ele sorriu abertamente ao enxergar os dois filhos tão jovens como crianças em suas túnicas de dormir. – Eu acho que você não conhece essa estátua, Elrohir...
Elladan piscou para o pai e seguiu para frente, trazendo o irmão pela mão.
--- Eu pedi para ada mostrar a você, toron-nin... – confessou Elladan, com um sorriso satisfeito cheio de si, ao compartilhar o segredo. – Ela é mágica, quer ver?
Elrohir olhou para cima, embevecido com o brilho de Gil-Galad e sua postura de guerreiro, sua flecha em prontidão e a vida que parecia percorrer a estátua.
--- Eu quero, ada. Faça a mágica para mim...
Elrond aquiesceu e se voltou para a estátua, agradecendo os Valar por permitirem sempre que ele protegesse seus filhos. Fitou a pequena figura escondida atrás da estátua, e ela cobriu o riso infantil com as costas da mão.
--- Posso ver também, ada? – perguntou Arwen, saindo de mansinho de trás da estátua.
Elrohir e Elladan aproximaram-se da irmã envolvendo-a em um circulo protetor. Os três olharam para cima, contemplando Gil-Galad e o brilho de Elbereth, sob as mãos postas em luzes do pai.
E a escuridão, as chamas e a morte deixaram de existir, no exato instante em que Elrond arrancava gritos de felicidade dos filhos com a bela estátua em movimento.
--- Faça de novo, ada!!!
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As buzinas soaram terrivelmente altas, incômodas como uma fanfarra deselegante, antecipando gritos enfurecidos para a picape estacionada no meio do caminho.
Arwen abriu os olhos e despertou com o festejo do coração de três elfos e a luz de um grande senhor iluminando sua alma. Alinhou a coluna, piscando confusa para a manhã da cidade cinzenta, amenizando sua discrepância com aquele universo mental tão mais belo, por conta do brilho de Anor.
E porque eles estavam vivos.
Os motoristas deixaram seus veículos e se aproximaram da picape, enraivecidos e confusos com a súbita parada daquele carro no meio da rua, atrapalhando o fluxo da manhã.
Elrohir despertou depois e no instante seguinte, ele deparou-se com os olhos bem abertos de Elladan. O irmão bocejou espreguiçando-se no banco.
--- Eu deveria matar os dois por entrar na minha mente desse jeito. – falou Elladan, baixinho, os olhos negros cintilando como gemas preciosas. Então, ele sorriu com o canto dos lábios e estendeu a mão para Elrohir. – Ficará para a próxima vez. Obrigado, Ro, por ficar ao meu lado. – com a mão livre, Elladan acariciou os cabelos de Arwen. – Obrigado, Arwen... – ela sorriu timidamente e ele bagunçou as madeixas escuras da irmã. – Por ser tão intrometida!
Os três riram e levaram um susto quando um dos motoristas bateu na porta com fúria.
--- O que vocês pesam que estão fazendo, hein? – a voz do homem desapareceu, bem como a sua cor, ao ser presenteado com o focinho imenso do lobo. Ele gritou pulando para trás, com as mãos para cima, agitando-as freneticamente. – UM LOBO!
Léron arreganhou os dentes e antes que Elrohir pudesse contê-lo, o animal pulou agilmente pela janela aberta e mostrou-se em plena ira no meio da rua, os pêlos eriçados, a grande boca aberta com dentes ferozes em ameaça.
--- Mírimon! – gritou Elladan, deslizando até a janela. – Volte aqui!
Arwen deu a partida na picape, sentindo a alma mais leve apesar da confusão. O carro a sua frente saiu cantando os pneus e as pessoas corriam loucamente, aterrorizadas, buscando entrar em seus veículos para se salvarem.
Elrohir viu as cores cintilando ao redor dos corpos humanos e acabou rindo quando os verdes hesitantes, os rosas opacos e os cinzas líquidos se transformaram todos em um tom marrom fulgurante. Nada como o medo para nivelar a energia, pensou Elrohir, achando graça da pose do lobo. Léron limitava-se a rosnar com pose de predador, sem se mover do lugar. Elrohir refletiu que os homens não conheciam os animais direito mesmo, se Léron quisesse atacar, não ficaria ali parado, com aquela pompa toda.
--- Meu Erü que confusão! – desabafou Elladan abrindo a porta da picape. – Mírimon, venha aqui. – voltou o rosto sobre ombro ao ouvir o riso do irmão. – Do que está rindo, Ro?
A picape rodou lentamente, enquanto os carros ultrapassavam o veículo em alta velocidade.
--- Bom, Léron está tentando ajudar. – observou Elrohir dando de ombros. Grito – Pronto, Lér, está ótimo!
O lobo rufou e correu ao lado da picape. Elladan cedeu-lhe espaço e Léron saltou de mansinho, entrando no automóvel com a cauda no ar.
--- Acho que não foi uma boa idéia trazê-lo, Mírimon. – lamentou Elladan ao fechar a porta. O lobo fitou-o com insolência, mas empurrou o ombro do elfo com o focinho. Elladan riu com a empáfia do animal. – Você é metido, hein?
Elrohir ajeitou o banco e fitou o irmão.
--- Léron acha que você é um ingrato. – riu o gêmeo.
--- Ah, é? – Elladan acariciou a orelha do lobo. – Você tem razão, Mírimon. Você foi de grande ajuda. – os olhos de Elladan encontraram os do irmão no retrovisor e Elrohir tornou a se voltar no banco. – Evitou que o meu irmão cabeça dura se machucasse.
--- Cabeça-dura, é? – Elrohir maneou a cabeça, fingindo insatisfação. – Você é mesmo um ingrato.
Elladan sorriu de leve. – Não há obstáculo que o impeça não é toron-nin?
Elrohir retribuiu o sorriso – Por você, Dan – as órbitas escuras se iluminaram, em um retrato exemplar dos olhos que o fitavam. – Nenhum. Nunca.
A picape reduziu a velocidade e Arwen entrou com o carro por uma rua estreita. Diversos jovens e casais embriagados caminhavam trôpegos, rindo muito e falando alto. Homens e mulheres de diversas idades e trajes. Léron rosnava baixinho quando eles passavam ao lado do carro, mas nenhum deles prestavam atenção a picape. Estavam envolvidos com as histórias da madrugada, os prazeres vividos, a musica alta que ainda retumbava em seus ouvidos e o efeito do álcool no sangue.
--- O que é isso? – replicou Elrohir com ar de nojo. De alguma forma, a experiência na estrada o tornara mais resistente a visão das áureas, mas ainda assim, era algo perturbador e ele desviou o rosto – Ilúvatar, salve-me.
Até então em silêncio, Arwen reduziu a velocidade dirigindo com cuidado. Era um verdadeiro enxame de pessoas.
--- Infelizmente, não será possível, Ro. – a elfa suspirou – Estamos chegando no Beco.
Elladan fixou a atenção além do mar de homens e mulheres. Sua visão estava na entrada da Treze, com a luz do sol ampliando os contornos sombrios do Fantasma, o zunido de alguma coisa medonha que se contorcia embaixo das pedras e a sensação de perigo que jazia imóvel, a espreita.
--- Você sentiu também, não é mesmo? – perguntou Arwen, estudando a mudança na face do irmão pelo retrovisor. O automóvel girou entrando na Treze e o labirinto de ruelas, edifícios se exibiu em ascendência escura pela Sete.
Havia muita poeira, pedras soltas e agitação no final da Sete. Estava eclipsado pela saída dos clientes do Fantasma, mas com a debandada provocada pela manhã alta, os elfos notaram que alguma coisa estava errada no Beco.
Arwen parou o automóvel, sem o saber, rente ao mesmo poste em que o Arqueiro havia recostado no início daquela noite.
--- Temos que encontrar Estel. – sugeriu Elladan.
Elrohir apontou para o final da Treze, os olhos fixos na torre que se distinguia dos outros edifícios do labirinto.
--- Ele está ali.
Arwen girou a chave e enfiou o objeto na bolsa.
--- Como você sabe?
Elrohir meteu o dedo liberando a trava da picape com o semblante carregado.
--- Eu conheço a cor da alma de Estel... É única em qualquer lugar. – abriu a porta e saltou, apressando-os. – Venha, temos que correr. Ele não está sozinho.
Os irmãos não precisaram ouvir duas vezes.
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Glossário
Boulevard of Broken Dreams. – Musica da banda Green Day. (inicio do capítulo)
Eryn Lasgalen – A Floresta das Folhas Verdes, Reino do Rei Thranduil, renomeada no Ano Novo dos elfos, após o final da Guerra do Anel e a gloriosa vitória de Thranduil sobre o ataque a Floresta, recuperando a paz e aumentando o seu domínio em comum acordo com Celeborn e Galadriel também vitoriosos aos ataques a Lórien, expulsando a maldade e purificando a floresta. (Apêndice B, O conto dos Anos, RtR).
Gil-Galad – Nasceu na Primeira-Era, sexto e último dos Altos Reis dos Noldor. Depois da destruição de Beleriand durante a Guerra da Ira, Gil-galad fundou o reino de Lindon, localizado a noroeste da Terra-média, entre as Montanhas Azuis e o Grande Mar. Lá ele e seu povo prosperaram, até que Sauron retornou. Após a queda de Númenor, Elendil e seus filhos vieram a Terra-média e formaram uma aliança com Gil-galad, "A Última Aliança de Elfos e Homens". Eles marcharam rumo a Mordor e sitiaram Sauron em sua Torre Negra. Sauron foi derrotado, mas Gil-galad encontrou a morte durante a batalha.
(Eu introduzi uma estátua de Gil-Galad na fic, que não consta nos livros de Senhor dos Anéis. Porém, não é difícil imaginar que os elfos, hábeis e talentosos, com grande prazer pela arte, beleza e música não honrariam seus antepassados, renomados em grandeza de feitos com algo parecido. Foi uma licença poética, por assim dizer, mas não me parece inverosímil)
Léron/Mírimon – Livre
Toron-nin – irmão, sindarin.
Ion-nin – filho, sindarin.
