- Não tem jeito de Menma aprovar essa proposta. – Sasuke disse à Chouji enquanto subiam a escadaria espiralada da torre hokage.

- Ah é? Por que acha isso?

Sasuke não respondeu, mas Chouji não esperava uma resposta. Ele já havia suposto que toda a dúvida de Sasuke provinha dos complicados sentimentos não-pronunciados entre o Hokage, seu melhor amigo e uma certa Hyuuga. E claro que a dedução de Chouji estava correta.

Menma estava sentado em sua mesa. Ele já havia lido a proposta várias vezes. Era uma proposta racional. Realmente, poderia funcionar. Ele só tinha alguns problemas com alguns detalhes, como o fato de que Sasuke e Hinata seriam protagonistas nisso e teriam de trabalhar próximos por um período prolongado. Ele não gostava dessa parte nem um pouco.

Quando ele a resgatou, o alívio e a surpresa dele ter encontrado ela tão próxima do rio evaporaram rapidamente quando a primeira coisa que ela murmurou foi "Sasuke".

Ele ficou tão chocado com o nome que quase a derrubou. Então, decidiu a atribuir aquilo ao delírio intenso dela e tentar se esquecer do incidente. Focou-se então em leva-la para casa em segurança o mais rápido possível. Não podia perde-la também. Ela era a âncora que o prendia ao passado em qual ele era extremamente feliz. Ele não foi capaz de salvar seu filho, mas se recusava a ser incapaz de salva-la.

Mas depois que ela estava a salvo, descansando no hospital, depois de volta à casa dela e ele havia lido o relatório dela, o maldito relatório em qual ela disse que havia alucinado e ouvido a voz de Sasuke, ele não podia mais negar – estava com ciúmes.

Ele não conseguia evitar. E sua mente imaginativa, a qual ele podia atribuir suas criativas soluções que já haviam salvado sua vida múltiplas vezes, o traiu ao conjurar as piores e mais sórdidas imagens de Sasuke e Hinata juntos. Ele os imaginava entre beijos, mas não beijos castos e comuns. Não, na mente dele, Sasuke a beijava de maneira profunda, como se quisesse extrair seus molares e a tocava em locais que só Menma havia tocado. E era bem possível, já que o vadio de Konoha (que não ficava com ninguém há meses) trataria Hinata como uma fruta suculenta depois de anos no deserto.

E não ajudava que as pessoas lhes contavam relatórios não-solicitados e fantasiosos sobre a vida dos dois – ouvi dizer que eles estão noivos e é por isso que ele tem passado tanto tempo no bairro Hyuuga; ouvi que eles estão construindo uma casa juntos porque ela foi expulsa de casa; ouvi que ela está carregando o filho dele, por isso ele estava tão preocupado com ela saindo em missão.

A verdade era que ele queria ver Hinata feliz. Ele queria que ela risse e estivesse em paz consigo mesma. De qualquer forma, para ser realmente sincero, ele queria que ela fosse assim com ele. Ele prometeu trazer felicidade a vida dela e até havia o feito. Ele ainda queria cumprir essa promessa, mesmo que não tivesse nenhuma obrigação legal de o fazer. Foi ela quem desistiu do relacionamento deles, não ele, com o motivo sendo simples – eles não eram mais felizes.

Ele podia entender isto. Mas seria Sasuke que a deixaria realmente feliz? Menma não podia enxergar isso... ou simplesmente não queria.

Entraram em seu escritório o seu objeto de desafeto juntamente com Chouji. Como sempre, deu seu sorriso pleno, mesmo que não quisesse oferece-lo ali.

- Menma, considerou minha proposta? – Disse Chouji, sentando-se a frente do Hokage, ao lado de Sasuke.

- Sim... bem, por que deve ser Hinata, especificamente?

- Bem, eu pensei que, graças ao histórico dela nos últimos anos, ela seria convincente nesse papel. Sem mencionar que devido a conexão dela com você, ela é o que considerariam um recurso valioso. – Chouji respondeu objetivamente.

Menma franziu o cenho. Ele encarou Sasuke.

- O que você acha? Seria uma missão muito perigosa.

- Bem, achei que você não teria problema com essa, já que a mandou naquela última missão perigosa. – Estava claro que aquilo era uma provocação.

Chouji limpou a garganta, tentando não ficar na área de fogo.

- Enfim, ela não teria de fazer muito. Talvez eles até venham até ela.

- Eu não sei... – Menma pensou e repensou. Claro que na mente dele ele já havia decidido por negar a proposta, mas queria fazer parecer que ele estava considerando-a.

Entretanto, ele não contava com a arma secreta de Chouji:

- Por que não perguntamos a própria Hinata, então?

- O quê? – Os olhos de Menma se arregalaram.

Chouji se levantou e foi abrir a porta. Hinata entrou, esperando que fosse ouvir um sermão por ter deixado aquelas crianças viverem em sua missão. Estava preparada para isso. Quando viu Sasuke, quase empalideceu.

- Hinata. – Chouji foi até uma das paredes laterais para pegar uma cadeira para a ex-líder do clã Hyuuga, posicionando-a ao lado de Sasuke. Ela sentou-se evitando o olhar do Uchiha. – Chamei você aqui hoje porque pensamos em manda-la em outra missão.

- Certo. – Ela olhou para a mesa do Hokage, já que em lugar nenhum tinha um lugar seguro para seu olhar. A frente estava Menma e, para olhar para Chouji, teria de olhar para Sasuke também.

- Como você sabe, a situação em Mori no Kuni está instável, já que o governo está contaminado com problemas internos. Vamos auxiliar o governo com um multifacetado esforço contra-insurgência. Devido ao... – Chouji procurou uma maneira menos ofensiva de dizer aquilo - ... progresso em sua vida pessoal e profissional, eu pensava em enganar um dos líderes deles, fazendo-o acreditar que você havia nos traído e estava disposta a unir força a eles. Já que a situação do ópio naquela região está fora de controle e essa missão é bem restrita, propus que Sasuke fosse seu treinador.

Hinata ficou tão surpresa com aquela última parte que subiu o olhar para Chouji, encontrando Sasuke encarando-a com seu olhar tipicamente convencido.

Chouji pôde ver ela se preparando para recusar.

- Chouji, eu agradeço me considerarem para...

- Pense sobre isso. O tempo que precisar.

Menma queria sorrir. Chouji podia ter uma arma secreta, mas se virou contra ele porque Hinata não conseguia habitar o mesmo espaço que Sasuke. Menma não sabia quando a situação havia tomado este curso, mas sabia que gostava das coisas assim.

- Está dispensada, Hinata. – Ela não disse nada, só se despediu com um aceno de cabeça. O ânimo de Menma abaixou um pouco.


Na manhã seguinte, Sasuke a viu na confeitaria da rua Yanagi. O vento soprava por entre os salgueiros da rua, produzindo um leve assobio. Pelas janelas, pôde vê-la terminando de fazer seu pedido. O caixa entregou a ela o que pareciam rolos de canela, ele não tinha certeza. Mas, sabia que era o tipo de coisa que apodrecia os dentes assim que se aproximasse da boca. Um empregado varria a calçada. Ela era a única cliente.

Ela estava usando roupas bem diferentes do normal. Eram calças largas azuis, um grande casaco verde e cachecol. Claro que sabia que o frio fazia sua parte no vestuário atual da Hyuuga, mas ele sabia que não era só isso, nada de yukata por cima de roupas elegantes. Ali ele conseguia se lembrar de quando ela não parecia uma sem-teto que tinha de usar todas as roupas que tinha porque não sabia quanto frio faria. Normalmente ele poderia olhá-la com volúpia por dias, naquele momento ele podia até imaginar o cheiro de gatos saindo dela. Naquele momento mal podia imaginar porque Menma continuava tão fisgado nela. Bem, ela ao menos tinha um cabelo bom, uma pele boa e um lindo sorriso, quando ela se permitia sorrir.

Ele se aproximou da confeitaria e parou na porta. Ela estava saindo, já colocando um rolo de canela na boca. Quando viu ele, parecia que poderia se enterrar no chão logo abaixo dela. Ela engoliu com dificuldade.

- Vamos dar uma volta.

O funcionário subitamente sentiu a necessidade de varrer um pouco mais perto deles.

- Uchiha, estou ocupada.

- Hina, é claro que não está. Além disso, parece que você andou se divertindo com o confeiteiro. – Ele deu um risinho.

- O quê?

- Você tem glacê no canto da boca.

Se era possível ela fechar mais a cara, ela o fez enquanto limpava sua boca.

- Eu preciso ir. – Ela se virou para ir, acabando por encontrar o funcionário, que já não fingia que estava varrendo.

- Não acha que está exagerando pelo que aconteceu?

Ela parou e olhou para ele, seu olhar era aquele que indicava seus ataques verbais.

- Exagerando? De todas as pessoas você, Uchiha, acha que eu estou exagerando? – Sua voz subiu. – Isso não é nem o sujo falando do mal lavado, é o sujo falando do sujo.

- Quando foi que eu exagerei? – Quando disse aquilo, ficou feliz dela não saber que ele quase atacou Karin com a espada por ter falado mal dela.

Ela o fuzilou com os olhos.

- Isso não é exagerar! Meu irmão matou minha família, tudo que eu fiz se justifica!

- Vou fingir que concordo com você. – Sasuke nem sabia como uma conversa em qual ele pretendia confronta-la se tornou uma conversa sobre as escolhas da vida dele.

- Isso não é sobre mim. Isso é sobre você me chamar como seu salvador da floresta e me evitar completamente por uma semana quando eu descobri.

Hinata suspirou. Pensou que suas técnicas de distração alimentariam a necessidade de Sasuke se defender a ponto de se livrar daquela conversa. Mas devia ter se lembrado que o Uchiha era bem mais inteligente do que parecia além de ser seu mais novo perseguidor arrogante. Por que ele não a deixava em paz? Ela só queria se afogar em auto piedade e rolos de canela, naquele momento.

- Vamos sentar lá dentro e conversar. - Ele disse, aparentando mais uma ordem do que um pedido. Puxou-a pelo braço para dentro, sentindo, assim que passou da porta, uma dor aguda e seu braço amortecido. Estava claro que ela havia fechado seu tenketsu.

Eles se sentaram em uma mesa para dois.

- Seu braço deve ficar melhor em cinco minutos.

As sobrancelhas de Sasuke se uniram em um olhar severo, mesmo que soubesse que ele merecesse o ataque. Tocou nela sem aviso ou permissão mesmo sabendo dos problemas de intimidade dela...

- Por que está comendo isso tão cedo?

- Doces me ajudam a lembrar de tempos felizes. - Queria falar do tempo antes de sua mãe falecer. Nenhum rolo de canela chegava perto a receita de sua mãe, mas satifaziam a vontade nostálgica.

- Pensei que nem gostasse de doces, já que "açúcares artificiais não criam energia durável" você repetia isso como um papagaio na academia.

- Vá direto ao ponto, Uchiha.

- Está me evitando pelo que aconteceu na missão?

Ela respirou fundo. Sabia que ele falaria sobre isso, mas preferia acreditar que o assunto era outro.

- Sim

- Por que acha que aconteceu?

- Não sei, talvez eu esteja ficando louca. - Ela quase riu.

- Então eu estou ficando louco também. - Hinata olhou para ele com um olhar cheio de dúvida. - As vezes ouço meu irmão falando comigo

A Hyuuga não sabia o que responder. Só o encarou em um choque mudo por ele ter confessado algo tão privado a ela.

- Sabe o porquê? - Ela perguntou, em uma tentativa de entender sua própria cabeça.

- Não sei. Eu sinto falta dele, e arrependimento, deve ser.

Houve um momento de silêncio. Sasuke esfregou o próprio braço. A dor diminuía lentamente. Sabia que não tinha ninguém a culpar por aquilo além dele mesmo. Subitamente, se lembrou de algo. Um sorriso diabólico cruzou seu rosto.

- Acho que quer dizer que sentiu minha falta.

E pôde ver aquele olhar no rosto dela de novo! Céus, havia até se esquecido de como gostava de provocá-la. Deixou um riso baixo escapar.

Hinata normalmente negaria aquela afirmação como um reflexo. Mas estava mais ocupada observando a capacidade de Sasuke cultivar dor, arrependimento e erros, mesmo sorrindo e brincando. Na maioria das vezes ele era um grande idiota, claro. Mas ela sentia que podia invejá-lo com sua habilidade. Ser um idiota tinha suas vantagens, afinal.

- Espera, realmente sentiu minha falta?

- O quê? Não! - Ela mentalmente anotou que sua voz saíra tão aguda que ele não acreditaria nela.

- Por que está sorrindo então? - Foi aí que ela notou que o orgulho silencioso que sentira de Sasuke tinha transparecido em seu rosto. Ela fechou a cara e não disse mais nada. - Bem, seja o que for, não deveria ser um obstáculo nessa missão.

- Você acha que eu deveria aceitar. - Não era uma pergunta e ele percebeu.

- Tenho algumas restrições quanto a isso. Você fica confortável em saber que só estão te cogitando para isso porque acham que você não consegue seguir em frente? - Ele tinha certeza que aquilo a deixaria furiosa, mas era verdade

- Você espera que eu fique confortável com as pessoas achando que estou "mentalmente instável"?! - Ela respondeu com outra pergunta, colocando sua suposta condições entre aspas aéreas e bufou.

- Você está?

- Não mentalmente. Talvez emocionalmente. Como superou toda a dor?

- Eu não superei.

Hinata pensava que sim, mas podia entender.

- Honestamente, eu quero seguir em frente, ser feliz, como Menma. - Pensar na família de seu ex-marido fez seu estômago revirar.

- Ele não é feliz. - Ela o encarou com surpresa. - Ele se sente culpado porque agora está com a garota que ele amou a maior parte da juventude e foi abençoado com gêmeos enquanto você foi abençoada com disapontamento.

- Ele te disse isso?

- Ele não precisou.

- Eu quero que ele seja feliz, foi por isso que pedi o divórcio, em primeiro lugar. - Sasuke despertou ao ouvir aquelas palavras, sem nem perceber que estava se curvando. - Nós não estávamos nos fazendo felizes.

- E a sua felicidade?

- E a sua? Você é feliz? - Não foi dificil identificar o principal mecanismo de defesa de Hinata: rebater.

- Tenho momentos que não desejo estrangular pessoas, sim. - Sasuke riu da própria piada e encarou sua interlocutora.

- Como consegue fazer isso? Você parece bem ajustado, se eu chegasse perto disso, estaria feliz.

- Felicidade acontece em momentos, não continuamente, você sabe.

- Uchiha, para ser sincera, com o seu histórico, você nem deveria ser alguém com qualquer momento de felicidade, mesmo que mereça.

- E o quê? Você acha que não merece?

Ela respirou fundo.

- Eu acidentalmente matei meu filho. - Sasuke pôde perceber o esforço dela para não chorar.

- Eu intencionalmente matei meu irmão e não passa um dia em que eu não deseje não ter feito isso. - Ele disse aquilo com tanta calma que Hinata se pegou admirando-o de novo. Foi aí que as lágrimas rolaram por suas bochechas. Suas mãos limparam-nas automaticamente, como se nunca houvessem existido.

- E o que isso significa?

- Significa, Hina, que eu entendo culpa. Posso não entender a sua culpa, mas entendo culpa.

Eles ficaram em silêncio por um instante. Ela aproveitou para apreciar sua nostalgia culinária. Ambos levantaram-se e saíram da confeitaria. Estava claro no exterior, mas ainda em um frio fora de época. Mais pessoas saíam de suas casas para começar o dia. O funcionário da loja ainda varria do lado de fora.

- Eis um momento de felicidade da manhã. - Sasuke disse, olhando para ela com um sorriso.

- O quê?

- Agora parece que se divertiu não só com o padeiro, mas com toda a equipe da confeitaria. - Hinata o encarou, mais uma vez confusa. - Você tem glacê branco em toda sua cara.

- O QUÊ?! E você me deixou sair em público assim?! - Ela começou a limpar freneticamente o rosto enquanto ele ria. Nunca se cansaria de provocá-la.

- Agora você só tá espalhando mais, poderia ser uma personagem de Icha Icha.

- Pervertido. - Ela continuou limpando atrapalhadamente o próprio rosto.

- Me dê. - Ele pediu o guardanapo e limpou onde ela não percebera o glacê. Ele ficou surpreso por ela não quebrar o braço dela pelo contato. Ela ficou mais surpresa ainda.

- Obrigada.

Ele não sabia reagir aquilo. Nunca sabia reagir quando Hinata era genuinamente gentil com ele.

- É, bem, nos vemos por aí, Hina - Ele começou a caminhar.

- Uchiha? - Ele girou nos calcanhares. - Como vai a casa?

- Não tem ido a lugar algum. - Ele passou a mão pelos cabelos.

- Nesse caso vai precisar de minha ajuda.

Sasuke notou que estava se sentindo aliviado... e feliz.

- Claro. Nos vemos mais tarde? - Ela assentiu com a cabeça em resposta. E de certa forma, ele sentiu leveza nela, do jeito que não sentia há muito tempo.