DEZ
O que eu tinha feito para estar na frente deste homem pela segunda vez no mesmo século, eu não sabia dizer, mas com certeza estava sendo castigada. No entanto, o fato mais perturbante era estar em seu apartamento, que era um tanto aconchegante, em pleno Brooklyn. Uau, às vezes fazemos cada imagem das pessoas... cadê a masmorra de pedra e as tochas bruxuleantes? Realmente decepcionante!
A guarda do lugar, entretanto... Assim que Luc viu o armário do episódio anterior desapareceu com um "tchauzinho chéri" tão rapidamente que parecia que o próprio diabo estava em seus calcanhares. Bem, talvez isso não estivesse tão longe da verdade. Agora, cá estou eu, sentada num sofá com um vampiro de cada lado esperando a entrada triunfal de Abrahamn.
— Bem vinda, cara pequena — soou a voz atrás de mim, enquanto uma mão soltava meu cabelo do coque. — Assim está bem melhor, realça o seu rostinho provinciano.
— Han, vou tomar isso como um elogio, levando-se em conta que você adorava dizimar pequenas vilas do interior.
— Pois é — disse Abrahamn, agora já na minha frente como se surgido do nada, com um ar melancólico —, não se fazem mais virgens puras e castas como antigamente. Você não sabe como o mercado está difícil atualmente. Estou tendo que apelar para as menores de idade, e mesmo assim, você não sabe o que eu encontrei...
Sorri um sorriso amarelo, tentando duramente apagar a imagem mental da minha cabeça. As preferências de Abrahamn, definitivamente, não eram da minha conta.
— Com certeza não é para conversar sobre o passado que estou aqui. Mas, antes disso, será que dá para se livrar dos seus cães de caça? Eles estão invadindo meu espaço pessoal. — Numa piscada de olhos e estávamos sozinhos na sala, e eu já não tinha tanta certeza se tinha tomado uma boa decisão. Somente a sua presença preenchia todo o cômodo, fazendo uma leve pressão na base de minha nuca, como se estivesse com ânsia de vômito. Uma cena nada bonita, eu sei. — Então, o que me traz à sua humilde residência?
Abrahamn sorriu.
— Ah, não, não. Pensei que soubesse de meus gostos, pequena, porque senão saberia que não conseguiria viver em um lugar tão diminuto. Você está aqui para um pouco de perspectiva.
"Perspectiva de como é viver no subúrbio?", pensei em dizer, mas consegui controlar a minha boca antes dela dá com a língua nos dentes. Eu já havia dito que o lugar era aconchegante, mas ainda prefiro meu AP no Park Avenue. É mais fácil de se transitar sem ser sem ser percebida pelos telhados. Mas, apesar da minha divagação interna, fiz um sinal de compreensão e deixei-o falar.
— Já soubemos de mais mortos drenados e isso está começando a me incomodar. Não gosto de ter servos mal-educados. Creio que conheça a minha política de "comer e limpar" e, realmente, não gosto daqueles que deixam suas bagunças para os outros. Por isso a trouxe aqui. Você tem um mês para me trazer a cabeça desse desgraçado, e ninguém da polícia deve saber o que aconteceu — seu ar ameaçador de segundo atrás, no qual me fez grudar as mãos no encosto do sofá, desapareceu quando ele sorriu enigmaticamente e abriu os braços. — E aqui está a sua perspectiva. Um pequeno estímulo extra para a execução rápida de sua missão.
— Como assim?
Sua resposta foi um olhar misterioso ao redor, e eu podia jurar que por alguns segundos ele havia fixado seu olhar na lareira, para então desaparecer, me deixando a ver navios. Alguém devia ensinar etiqueta a esses vampiros velhos. De que adianta ter milênios de existência se não conseguem manter uma conversa simples e direta?
Fiquei ainda um tempo sentada no sofá, absorvendo o dia de cão que eu tive. Eu certamente me dividia ao pensar que estava fazendo a coisa certa, pegando um cuidado descuidado e tudo mais, ou se se não fosse pelos impulsos sexuais de Luc eu estaria fazendo qualquer outra coisa muito mais interessante do que dançar nas mãos de Abrahamn. Ás vezes me pergunto se o castigo por quase ter revelado nosso segredo justamente para os figurões da política seria algo muito doloroso....
— Merde! Como posso pensar isso?
Comecei a andar pela sala, pensando em como umas poucas horas nesta nova farsa já estava chegando nos meus nervos. O cheiro amadeirado do lugar estranhamente possuía um efeito calmante, uma sensação de dejà vu entorpecendo os meus sentidos, me fazendo esquecer do insuportável cheiro de sangue que impregnou em mim mais cedo e também todas as possíveis opções de tortura para Luc que começava a engendrar na minha cabeça.
Quando dei por mim estava na frente da lareira, como se uma força magnética houvesse me guiado até lá. O console estava cheio de fotografias. Uma típica família americana — um pai, uma mãe e a filhinha. Várias fotos de todas as fases de crescimento da garota, uma do casamento, uma de todos num piquenique com um grande labrador dourado sendo domesticado por um homem com chapéu de pescaria.
Nada de mais, nenhuma razão para que Abrahamn pudesse...
— Putz que pariu! — O palavrão saiu da minha boca sem que eu ao menos sentisse enquanto me voltava para as duas fotos do casal. A do casamento foi tirada, provavelmente, depois de terem saído do colegial. Mais de uma década deve ter se passado e as feições das pessoas mudam, a inocência no rosto de um menino foi substituída pela dureza da experiência, mas a do piquenique... por debaixo da sombra do chapéu, por trás da barba por fazer e do enorme cão, lá estava ele, Dean.
Meu incentivo.
Se eu não pegasse o novato em um mês, a família de Dean, e ele próprio, iriam arcar com as conseqüências.
Meu incentivo.
Oh, nada como trabalhar sobre pressão! O gosto de sangue invadiu a minha boca e nauseou-me imediatamente. Não havia percebido que mordia meu próprio lábio. Iria me sentir fraca em instantes, a sede ameaçaria me controlar. Eu tinha de encontrar meu fornecedor. Tinha de sair daqui, senão o meu incentivo talvez não duraria para virar um trunfo para Abrahamn.
— Oh, mon Dieu, m'aidera! Je ne peux pas! Je ne peux pas!*
Enquanto a escuridão tomava conta da minha vista, imagens serpenteavam pelos meus olhos. A floresta, olhos verdes carinhosos, a miragem do sol batendo contra a areia, fogo, olhos azuis com a profundidade de um oceano.
Antes de me perder na escuridão da imensidão consegui despertar por breves segundos. Passos no corredor. De repente, meu sistema se aguçou e todo o mal estar passou. Não havia mais sangue. E um outro aroma tomava conta do ar. Meu incentivo estava se aproximando.
Como um gato acuado, fui para a minha rota de fuga mais próxima, a janela, que estava emperrada. Lógico, não poderia ser de outra maneira. Se eu a forçasse, denunciaria minha presença e estava a apenas milésimos de segundo de uma confrontação. Quando investigava uma segunda janela escutei o som da chave na porta. Tarde demais. Nos poucos segundos que levou para a porta se abrir, me escondi no armário de casacos. Que fim de carreira! Mas, pelo menos, quando o indivíduo do meu pacote "um novato vale por três" fosse para o interior da casa, eu poderia sair tranquilamente pela porta.
Entre as persianas da porta do armário pude ver que era o Dean que havia entrado. Não que eu precisasse de alguma confirmação, seu cheiro inundou a casa no instante em que pôs os pés nela.
Ele segurava um ramalhete de rosas e o aroma das flores se misturava perfeitamente com seu cheiro almíscar, o que me fez recordar o porquê da minha promessa de só ficar na presença dele em lugares abertos. Voltando a espiar por entre as persianas, acompanhei o movimento lento e automático dele ao retirar a gravata. Sua cabeça estava em outro lugar, seus olhos mais densos do que nunca. Ao passar a mão pelo primeiro botão de sua camisa, ainda segurando o ramalhete com a outra, ele se virou para a lareira.
Me empertiguei no meu lugar, me atrapalhando com alguns tacos de golfe que perfuravam minhas costas. Havia deixado alguma das fotografias fora do lugar? Mas ele parecia alheio à sua posição. Mirava a foto do piquenique enquanto balbuciava coisas incompreensíveis. Suas palavras não o eram, mas seu hálito deixou claro que ele havia bebido. Uma tensão se apoderava de mim enquanto presenciava aquela figura estóica parado friamente no meio da sala. Ele nada demonstrava, mas sua postura tinha todo um significado, só que eu não conseguia entender.
Comecei a me sentir claustrofóbica, uma necessidade de abandonar meu esconderijo e ir abraçá-lo. Nada racional fazia sentido. Aquele lugar antes agradável agora enquanto ao mesmo tempo exibia uma confortabilidade para mim, me impulsionava ao não racional. Seu cheiro almiscarado, seu hálito impregnado de cerveja, seu coração acelerado, sentia-me num transe, tentando lutar contra um imã exercendo sua força magnética em mim.
Quando já estava de pé, com a mão na maçaneta, pronta para me revelar, Dean virou de supetão e atravessou o corredor para o interior da casa. Foi quando percebi, novamente, que havia parado de respirar. Caí sobre meus joelhos tentando racionalizar o que tinha acabado de acontecer. Nenhuma resposta veio à mente. Empurrei a porta sem fazer barulho, me recobrando, quase desfalecida, cambaleei até a porta, ainda não em posse de minhas forças totais, mas, mesmo assim, ainda mais rápida que um humano, me vendo livre daquele lugar que era o meu incentivo ou, talvez, a minha total perdição.
N/A: Gente, mil perdões pelo atraso, mas 2009 chegou bombando! Primeiro fiquei doente, depois operei, depois arranjei um emprego e as aulas começaram! Yeah! Passei no vestiba! Mas to criando uma tabelinha pra ter atualização pelo menos uma vez por mês, juro que tentarei seguir! Sei que to sumida dos chats, mas adoro todas vocês! Bjocas!!!
* "Oh, meu Deus, me ajude! Eu não posso! Não posso" em francês.
