CAPÍTULO IX

À volta de Kagome para Londres foi bastante monótona. Sem nenhum rapaz alto e simpático para distraí-la, teve como única companhia seus pensamentos, que estavam longe de ser agra dáveis. Desde que Sesshoumaru partira, o tempo havia passado tão lentamente que era como se tivesse durado anos e não semanas.

No início fora difícil para ela admitir que ele havia mesmo desaparecido de sua vida. Vivia num constante estado de expec tativa. Cada vez que o telefone tocava, poderia ser Sesshoumaru, cada carta que chegava poderia ser dele. Sua frustração era crescente, sua ansiedade angustiante, pois Sesshoumaru jamais ten tou qualquer tipo de contato com ela.

O caminho de volta para casa pelas ruas de Londres rea vivou na memória de Kagome os últimos acontecimentos de sua vida. Tudo acontecera tão rápido e tão dolorosamente! Ela se sentia uma outra pessoa e era como se alguma parte do seu ser tivesse morrido. Estranhou muito a cidade, com seus baru lhos e cheiros característicos, num contraste gritante com a atmosfera agradável em que vivera nos últimos tempos. Seu apartamento lhe pareceu pequeno demais e, mesmo abrindo as janelas, continuou com uma sensação de falta de ar que a acompanhava desde sua chegada a Londres.

Era um alívio ter tanta coisa para cuidar, desde uma boa faxina no apartamento até desfazer as malas. Depois de pôr tudo no lugar e tomar um bom banho, Kagome deitou-se. Tinha chegado à hora de enfrentar os problemas de sua nova vida. Seus olhos se dirigiram para o telefone na mesinha ao lado. A tentação de ligar para Sesshoumaru foi enorme, mas ela afastou esta idéia com determinação. Lembrou-se de Kikyou e do encon tro que tiveram antes que ela partisse. Quando a irmã e o ma rido voltaram da lua-de-mel, pasKagomem por Monmouth antes de irem para a casa deles. Kikyou estava muito feliz e queria com partilhar sua alegria com toda a família. Kagome não lhe dissera nada sobre o drama que estava vivendo, mas a irmã soubera da troca de noivos e rira muito da história toda.

Apesar de não ter ousado desabafar com a irmã, Kagome sentira-se feliz pelo fato de as duas terem se tornado boas amigas finalmente. As antigas rivalidades haviam desaparecido por completo e pelo menos algo de positivo resultara da malfadada viagem.

Agora Kagome estava só, em seu apartamento, no primeiro dia da nova vida. Estava desempregada e teria que ir no dia seguinte à agência de empregos.

Ela levantou-se e começou a andar pelo apartamento, incapaz de dormir. Lembrou-se de que havia devolvido o anel de Kouga e que o outro, que Sesshoumaru lhe dera, estava bem guardado numa caixinha. Não conseguia entender por que não se apai xonara por Wolf, um homem tão atraente e cheio de qualidades.

Kagome resolveu voltar para a cama e tentar dormir, para enfrentar o dia seguinte, uma segunda-feira cuja única perspec tiva era à procura de trabalho.

Para seu alívio, a Srta. Frobisher, sua velha conhecida, ainda tomava conta da agência e prometeu-lhe fazer o possível para ajudá-la, mas avisou-a logo de que a situação estava muito difícil.

Durante uma semana Kagome preencheu inúmeros pedidos de emprego e acabou sendo chamada para duas entrevistas. Uma não lhe servia, porque era num lugar que precisava de alguém que falasse alemão, mas a outra era para uma firma de advo cacia que lhe pareceu perfeita. A única coisa que faltava para sua aprovação era uma carta de referência de Sesshoumaru.

Kagome passou horas ao telefone tentando falar com ele, mas ninguém atendeu. Toda vez que discava o número de sua casa, com o coração disparado, deixava-o tocar até a exaustão. Afi nal resolveu ir dormir, perguntando-se inutilmente onde e com quem ele estaria.

No dia seguinte não teve melhor sorte e sem ninguém para conversar enfiou-se na cama. sentindo-se mais miserável do que nunca e responsabilizando Sesshoumaru por todas as suas perdas e pelo estado angustiante em que se encontrava.

No outro dia deparou-se com mais um problema que também era diretamente relacionado com seu ex-noivo. Levantou-se bas tante enjoada e foi ao banheiro com as pernas trémulas, mal conseguindo parar em pé. Começou a fazer uns cálculos men tais, que lhe indicaram uma forte possibilidade de estar grávida. Desolada, deixou-se cair no chão do banheiro e chorou, o rosto escondido entre as mãos, aproveitando para desafogar toda a tensão dos últimos dias, o que depois de algum tempo a fez sentir-se um pouco melhor. Levantou-se devagar, reunindo for ças para pensar com sensatez. O melhor a fazer no momento era dedicar-se ao novo emprego, para que, pelo menos, finan ceiramente ela estivesse amparada.

Lembrou-se então da carta de referência e ligou para Sesshoumaru, e pela décima vez ele não respondeu. O jeito era ir até St. John's Wood. Se não encontrasse ninguém, usaria sua chave para entrar e deixar um bilhete.

Kagome tocou a campainha várias vezes antes de entrar. Com todo cuidado atravessou o hall e foi até a cozinha, sentindo-se quase como uma criminosa. O mal-estar aumentava à medida que andava pela casa vazia e silenciosa, sem nenhum sinal do dono, nem da governanta.

Torcendo as mãos nervosamente, chegou ao escritório e sentou-se para escrever o bilhete. Até as palavras lhe faltavam naquele momento, quando estava de volta ao lugar onde passara a maior parte do seu tempo nos últimos anos. De repente sen tiu a mão forte apoiar-se no seu ombro e não pôde evitar um grito de pavor. Sesshoumaru, mal vestido e com a barba por fazer, a olhava com ar de espanto.

— Quem esperaria que a filha de um reverendo fosse en trando numa casa assim sem se fazer anunciar?

— Sesshoumaru! — foi tudo que Kagome pôde dizer com a voz entrecortada e os olhos arregalados de susto.

— Quem mais poderia ser? Eu moro aqui, ou já se esque ceu disto também? — inclinou-se na direção dela, os olhos injetados e cheirando a bebida.

— Você está bêbado a esta hora da manhã!

— Como sempre, uma palavra calorosa e encorajadora. O que me encanta em você é que jamais me critica, minha querida.

O sorriso irônico de Sesshoumaru se transformou numa expressão de dor enquanto ele levava a mão à cabeça e fechava os olhos. Quem o visse naquele momento nem reconheceria o carismá tico Sesshoumaru Taisho. Descalço, vestindo uma calça velha e amar rotada, estava longe de merecer os suspiros apaixonados das mulheres que tanto o desejavam.

— O que está procurando aqui no escritório, se é que a per gunta não a constrange?

— Em absoluto. Faz dias que tento falar com você pelo telefone e ninguém atende. Preciso com urgência de uma carta de recomendação sua para meu próximo emprego, então resol vi buscá-la pessoalmente. Achei que você não estava, por isso ia deixar-lhe um bilhete. Agora aproveito para devolver minha chave. Pelo menos a Sra. Dobson deveria estar em casa. Ela foi embora?

— Não, dei-lhe folga por uns dias. Não escuto o telefone tocar aqui embaixo e a extensão do meu quarto eu desliguei há alguns dias.

— Quem tem cozinhado para você?

— Que eu saiba, ninguém. Não me lembro de qual foi à última vez que comi alguma coisa.

— Por que está bebendo deste jeito, Sesshoumaru?

— Porque tenho sede, ora! Escute, se eu subir e tomar um banho, promete que me espera até eu voltar?

— Está bem, se você prometer comer o que eu vou preparar. Sesshoumaru concordou e saiu cantarolando. Nem parecia o homem destruído de minutos atrás.

Kagome foi até a cozinha e teve certa dificuldade em achar algo com que pudesse fazer uma comida. Estava tudo limpo e arrumado, mas a geladeira estava quase vazia. Além de alguns ovos e umas garrafas de água tónica, não havia mais nada. Conseguiu achar um pão congelado no freezer e um pacote de sopa de cebolas. Leite em pó e café havia bastante no lugar de sempre.

Enquanto preparava a comida e o café, a cabeça de Kagome trabalhava com incrível rapidez. Seria pretensão sua pensar que era por sua causa que Sesshoumaru estava afogando as mágoas no álcool? Tudo indicava que não.

Esperançosa e até um pouco "alegre", ela conseguiu em pouco tempo fazer uma refeição razoável e apetitosa.

Quando Sesshoumaru entrou na cozinha, elegante, barbeado, com uma imaculada calça de linho bege combinando com a camisa no mesmo tom, não havia nem sombra do homem desalinhado que Kagome encontrara ao chegar.

— Desculpe-me o estado em que eu estava, eu não esperava ninguém aqui hoje.

— Não se incomode com isso e agora venha comer. Aceita um prato de sopa? Fiz café, torradas e o leite está quente. Vou servi-lo e depois tenho que ir embora, está bem?

— Não me acompanha? Por favor, acho que não fica bem me deixar comendo sozinho.

Kagome acabou aceitando e ambos tomaram a sopa em silên cio. Logo o prato de Sesshoumaru estava vazio e ele se levantou para enchê-lo outra vez.

— Meia hora atrás eu não conseguiria olhar para um prato de sopa, quanto mais saboreá-la como estou fazendo agora.

— Parece que as donas-de-casa francesas costumavam dar sopa de cebolas a seus maridos quando... Bem, em situações parecidas.

— Quando eles estavam caindo de bêbados, você quer dizer? — falou Sesshoumaru, com um sorriso.

— É você quem está dizendo, não eu.

— Por incrível que pareça, ainda estou com fome. Vou co mer mais, só que gostaria de algo mais sólido do que sopa.

— Que tal uma omelete?

— Se não for lhe dar muito trabalho...

— Claro que não.

Kagome levantou-se com toda disposição e em poucos minutos colocou uma magnífica omelete no prato de Sesshoumaru.

— Eu não sabia que você tinha dons culinários.

— Você nunca me perguntou...

— Obrigado, Kagome. Era disto mesmo que eu estava preci sando. É a primeira vez que me sinto reconfortado em muito tempo.

Kagome percebeu que a conversa se encaminhava para um assunto delicado e procurou parecer natural, levantando-se para buscar café.

— Primeiro tentei viajar para ver se me divertia. Fui até o sul da França, mas voltei depois de poucos dias, tão aborreci do quanto antes. Resolvi dedicar-me ao livro e isto também não funcionou.

— Por quê? — ela quis saber.

— As palavras estão todas na minha cabeça, mas não que rem sair. Parece que só há uma pessoa que pode me tirar deste bloqueio, você sabe quem é, Kagome.

— Agora preciso mesmo ir — disse ela, incapaz de susten tar a conversa por mais tempo.

Levantou-se e pegou a bolsa, mas Sesshoumaru impediu-a de sair, interpondo-se no seu caminho.

— Tem certeza de que veio aqui por causa da carta?

— Claro — respondeu ela, evitando os olhos dele.

— Olhe para mim, Kagome. — Sesshoumaru segurou-lhe o rosto en tre as mãos.

Ao ver-se tão próxima daquele homem, Kagome teve uma sú bita certeza do que a trouxera ali. Era evidente que a carta tinha sido uma mera desculpa para camuflar o real motivo que a fizera procurar Sesshoumaru. Agora não podia mais fugir à verdade.

Respirando fundo e sentindo que transpirava como nunca, ela falou baixinho:

— Existe uma outra razão. Vim para pedir-lhe um favor. Será que você pode se casar comigo?

Sesshoumaru ficou imóvel, olhando para ela com o rosto inexpres sivo. Depois de um tempo que pareceu enorme para Kagome, perguntou-lhe com suavidade:

— Por quê? A última coisa que eu poderia imaginar é que você tivesse a menor vontade de ver-me, quanto mais que ainda sentisse amor por mim.

— Estou com um problema, Sesshoumaru.

— Que tipo de problema, está precisando de dinheiro?

— Não, acho que estou grávida — ela disse, baixando os olhos depressa. Pronto, estava livre, tinha conseguido falar! Esperou bastante até ouvir a voz de Sesshoumaru.

— Você não tem certeza?

— Na verdade não fiz nenhum teste, mas os sintomas são por demais evidentes. Se você não estiver preparado para assu mir à situação, eu vou entender. Existem outras opções. . .

— Outras opções? Que diabo você quer dizer com isto, mulher? — O rosto dele estava transfigurado e Kagome teve medo.

— Algumas mulheres conseguem se virar sozinhas, ou mesmo...

— Deus me dê paciência! — vociferou ele, andando de um lado para outro, procurando se controlar. — Estou bravo não por causa da gravidez, assumo total responsabilidade por ela. O que me desconcerta, Kagome, é que você pense em outras saí das a não ser casar-se comigo. Mas eu entendo. Deve ter sido difícil para você passar por cima do seu orgulho e falar-me de casamento.

— Digamos que eu faria qualquer coisa para evitar que meus pais tivessem um neto bastardo.

— Mesmo uma coisa horrível, como casar comigo?

— Precisamente.

Olharam-se com enorme desagrado, mas logo em seguida Sesshoumaru desarmou-se.

— Que posso dizer, Kagome? Lamento profundamente o que ocorreu.

— Não mais do que eu, pode estar certo.

— Já que temos que enfrentar a situação, quando nos casa remos?

A conversa daí para frente pareceria cômica a um observa dor desavisado. Trataram do casamento como se fosse um ne gócio bastante desagradável para ambos, o que era absoluta mente falso, tanto para um como para outro. Brigaram por detalhes sem importância e ofenderam-se nas entrelinhas. De cidiram que se casariam o mais breve possível e que não haveria lua-de-mel. Tudo bem impessoal e sem graça, como convinha a dois teimosos que não davam o braço a torcer.

Já que nenhum de nós está delirando de felicidade com este casamento, é melhor nos resignarmos da melhor forma que pudermos — disse Kagome, com enfado.

— Sempre existe a possibilidade do divórcio — respondeu Sesshoumaru, sarcástico.

— Sou contra por princípio, mas, se não houver outro jeito, eu e o bebê vamos embora.

— O filho não é só seu.

— Experimente separá-lo de mim — gritou Kagome. Sesshoumaru percebeu o ridículo daquela conversa e riu, um tanto sem graça.

— Seria conveniente entendermos que vamos viver juntos e que o melhor é tentarmos nos acostumar com a idéia, se possí vel gostar dela.

— Você tem razão — respondeu ela, sem entusiasmo.

— Ligue para seus pais, conte-lhes as novidades e marque a data que lhe parecer mais apropriada.

— A que novidades você se refere?

— Diga-lhes que não aguento mais ficar um dia longe de você. Vamos deixar o resto para bem mais tarde, não é ne cessário que eles saibam tudo agora.

Kagome assentiu agradecida e discou o número do reverendo.

— Alô, mamãe? Está tudo bem por aí? Ótimo. Escute, espe ro que a senhora não tenha jogado fora seu chapéu de casa mento.