Rachel não era como Finn que, desde sempre, tivera certeza do que queria e de que tinha talento para conseguir, mas vinha adquirindo confiança em seu potencial, desde que conseguira sua vaga na escola de drama de Los Angeles, como pupila de Isabelle Wright. Além disso, antes de ir para o primeiro teste para o elenco de O Diário de Anne Frank, ela tinha recebido todo o apoio do namorado e seus desejos de boa sorte e, com isso, se sentia preparada para o que viesse.
No entanto, naquela tarde, ela, infelizmente, aprenderia que sorte, incentivo e talento nem sempre são o suficiente, e que obstáculos inesperados podem surgir em nosso caminho, mesmo quando a gente já se livrou de outras barreiras que havia nele antes. As pedrinhas no sapato da vez atendiam pelos nomes e sobrenomes de Regina George, Gretchen Weiners e Karen Smith, sendo a primeira delas sua concorrente direta para interpretar o papel principal e as outras duas espécies de abelhas operárias obedientes à rainha da colmeia.
Berry pensava que bullying era coisa de escola e que não acontecia mais quando as pessoas se tornavam adultas. Porém, definitivamente, estava errada em seu julgamento e isso ficou claro logo no primeiro dia, quando dividiu o camarim com a tal Regina e a garota perguntou se ela não tinha espelho em casa, por que ela nunca fizera cirurgia plástica no nariz ou tomara hormônio do crescimento, além de ter dito com todas as letras que ela não passaria daquela fase pois não tinha nada do que era necessário para interpretar Anne.
Felizmente, a praga não tinha dado certo e ela fora chamada para um novo teste, dois dias depois, quando, então, teve que lidar não só com a garota como também com as amigas dela, que entraram em uma sala de ensaios disponibilizada para os candidatos, como se fossem as donas do lugar.
"Não tem ninguém aqui." Karen disse, como se Rachel fosse invisível.
"Eu to ouvindo um zumbido chato, que tá me incomodando." Regina afirmou, arrogante, cobrindo os ouvidos com as mãos, ao perceber que sua adversária não parara de falar parte do texto da peça, treinando em frente ao espelho.
"É só uma mosca insignificante que você vai esmagar em pouco tempo." Gretchen falou, fazendo um movimento com os dedos, como se pegasse um inseto entre eles, o apertasse e depois jogasse os restos mortais fora, com nojo.
"Qual é o problema de vocês, hein?" Rachel perguntou, se aproximando afinal. "Eu tava aqui passando o texto antes de vocês chegarem, e tenho tanto direito quanto você, Regina."
"Ela fala nossa língua." Debochou Karen e as três riram.
"Falo e entendo muito bem, e não to gostando nada do que eu to ouvindo." Rach colocou as mãos na cintura, desafiadora.
"E quem se importa se você gosta ou deixa de gostar?" Regina disse com desdém, olhando suas unhas.
"Tudo que eu quero é fazer em paz os testes e tentar participar da peça, exatamente como você e as outras três garotas que passaram pra essa fase, mas parece até que eu fiz alguma coisa pra você, do jeito que você fala!" Berry irritou-se ainda mais.
"O que você fez foi existir, queridinha." Uma das operárias comentou.
"E deixar o mundo mais feiosinho." A outra completou.
"Eu até não me incomodaria com a sua existência, afinal o mundo é como é e, se eu consigo ir à Europa e ignorar os pombos, eu poderia te ignorar também." Regina afirmou, se aproximando mais de Rachel, como se quisesse intimidá-la. "Mas o problema é que você não sabe o seu lugar e isso, sim, é uma coisa que eu não aceito."
"Só porque te falaram que a protagonista é judia, você achou que tinha chance, é, coitadinha?" Karen perguntou, obviamente não querendo realmente uma resposta.
"Pra ser judia não precisa ter um nariz horroroso que nem o seu e o daquela Barbra, não, meu bem! A Gina é judia." Gretchen revelou.
"E linda e loira!" A outra elogiou a própria aparência.
"Sinceramente? Eu tentei ser civilizada, mas eu não vou mais perder meu tempo com vocês." Rachel disse, indo, então, em direção à porta.
"Vaaaaai, nanica!"
"Caipira."
"Barriga de pochete." Ela ouviu as três falando mais absurdos e rindo às suas custas, enquanto tentava não chorar, sabendo que elas não mereciam o gostinho.
Felizmente, conseguiu se acalmar o suficiente para passar em mais um teste e ficar entre as três finalistas para o posto de protagonista da montagem. Todavia, isso só fez aumentar a raiva de Regina e suas escudeiras, que riam e repetiam em voz alta, para quem quisesse escutar, coisas desagradáveis que pensavam sobre ela, toda vez que passava por elas em um corredor qualquer da faculdade.
Ela não sabia mais o que fazer para não se incomodar com os insultos e, muito menos, para que elas parassem de mirar os holofotes na direção de sua baixa estatura, do tamanho não tão proporcional de seu nariz ou de seus seios quase infantis. Nunca tinha sido alvo de bullying na escola e achou que conversar com alguém que tinha passado por isso poderia ajudar, então foi até o quarto de Marley, a quem ela sabia que a timidez rendera maus momentos no ensino médio.
Não foi possível, entretanto, contar com a ajuda de uma de suas melhores amigas, que estava enfrentando seus próprios problemas e, apesar de não ter procurado por ela antes, foi quem acabou aproveitando para desabafar, quando conseguiu parar de chorar compulsivamente. Ela e a irmã gêmea haviam tido uma briga bastante séria, depois de uma brincadeira de péssimo gosto de Mandy, que usara roupas dela, fora em seu lugar a um encontro com o menino com quem ela estava ficando, e chegara até a beijar o garoto, antes de se revelar.
"E como é que ficaram as coisas?" Rachel perguntou, com cuidado.
"Entre mim e ele, tudo bem. Ele viu que eu fui vitima que nem ele e tal." Disse, parecendo não muito preocupada com isso, de qualquer modo. "Mas entre mim e ela..." Suspirou. "Ela é minha irmã! Deveria me ajudar, me apoiar, e não me magoar assim!"
"Eu nem sei o que dizer, amiga. Ela é sua irmã e..." Berry lamentou. "Você quer que eu fique aqui com você? Quer sair um pouco?"
"Não, Rach. Obrigada. Você já ajudou muito, me ouvindo, e eu vou tomar um remédio pra dor de cabeça e tentar dormir."
"Então, eu vou indo." Rachel levantou-se da cama, se despedindo. "Qualquer coisa, é só me chamar, ok?" Ofereceu, abrindo a porta. "Só uma coisa: você sabe onde ela tá?" Perguntou, pensando em conversar com a outra gêmea que, apesar de, como ela, nunca ter sofrido bullying, era a única outra amiga que ela tinha na faculdade.
"Eu acho que no quarto da Carol. Se ela não foi pro seu, só pode ter ido pra lá." Deu de ombros.
Estava certa sobre a irmã, que tinha ido mesmo dormir no quarto de uma veterana, onde Rachel a encontrou, sozinha. Carol tinha emprestado o quarto e ido dormir com o namorado, que estudava educação física em outra faculdade.
"Espero que você não tenha vindo me dar sermão." Mandy falou sem nem mesmo cumprimentar Rachel antes.
"Não. Na verdade, eu vim falar sobre um problema meu. Mas, já que você tocou no assunto, eu não acho certo o que você fez com a sua irmã."
"Ai, foi só uma brincadeira! Ela é muito certinha!" Disse, se fazendo de superior, mas Rachel sabia o que significavam seus olhos vermelhos e rosto inchado.
"Certinha ou não, ela é sua irmã e espera o seu apoio, não uma brincadeira dessas. E eu sei que você tá arrependida porque, por mais engraçada que você tenha achado a sua própria brincadeirinha, você não quer ficar brigada com ela."
"Merda!" A outra reclamou, se jogando na cama. "Dessa vez, eu exagerei, né? Será que ela vai me perdoar? Eu nem sei pedir desculpas direito."
"Você usa duas palavrinhas mágicas." Rachel ensinou, sentando-se perto dela. "Me perdoa ou me desculpa. Então, você admite que errou e diz que ela é importante pra você, e que não vai acontecer de novo."
"Admitir que eu errei? Prometer que eu não vou fazer merda de novo?" Mandy franziu a testa.
"Amiga!" Rachel repreendeu, mas não conseguiu não rir do jeito dela.
"Tá bom, tá bom... eu me rendo! Aquela boba não podia ser mais diferente de mim, mas eu adoro ela! Eu vou lá agora." Levantou-se. "O que você queria falar comigo?" Perguntou, curiosa e solícita.
"Não é nada importante." A outra desistiu, sabendo que o assunto entre irmãs era mais urgente. "Amanhã, a gente conversa." Sorriu, e as duas saíram do quarto, juntas, andando até a outra ponta do corredor.
Rachel deixou Mandy na porta do quarto das gêmeas e seguiu para o dela, pegando o telefone e discando o número de Quinn, que disse para ela ignorar as garotas e dar seu melhor nos testes, pois tinha certeza de que ela seria a melhor e ficaria com o papel, dando assim um tapa com luva de pelica nas três. As duas se falaram por pouco mais de meia hora sobre outros assuntos sem importância e, no final, a loira assegurou à morena que estaria presente na estreia da peça, assistindo tudo da primeira fila e aplaudindo de pé no final do espetáculo.
Em seguida, ligou para Santana, que a aconselhou a pagar na mesma moeda, destacando os defeitos das três "inimigas", e fazendo com que elas também se sentissem desconfortáveis, envergonhadas. O telefonema foi rápido porque Santie estava saindo naquele momento para encontrar a namorada, mas a próxima ligação foi a mais longa de todas, pois Sam era o amigo que tinha mais novidades para contar sobre suas novas atividades e amigos, apesar de não ter ajudado em nada em relação à questão que apelidou de "ataques de abelha".
A última ligação da noite não foi longa, mas foi a mais doce de todas, e a que fez com que ela relaxasse definitivamente. O namorado sempre tinha as palavras certas nas horas certas e rebateu todo e cada um dos ataques das garotas malvadas com um elogio que vinha do fundo de seu coração. Afirmou que o nariz fazia o rosto dela único porque a maioria das meninas que eles conheciam tinha um nariz pequeno e afinalado. Disse que o tamanho dela a deixava delicada e feminina, e que adorava poder carregá-la no colo com facilidade. Lembrou-lhe como seus seios se encaixavam em suas mãos da forma mais perfeita.
Antes de se despedir com um "Eu te amo" e desligar, ele ainda desejou que ela "quebrasse a perna" no teste da manhã seguinte, e assegurou que tudo daria certo e que, mesmo se ela não conseguisse o papel naquela montagem, outras viriam, ainda melhores, porque ela tinha talento e determinação.
Foi com as palavras dele na cabeça que ela subiu ao palco para apresentar o monólogo que preparara, saindo dele orgulhosa de si mesma e com a certeza do dever cumprido.
E foi também com as palavras dele na cabeça que ela voltou ao palco, na tarde daquele mesmo dia, para receber o veredicto final da banca que estava escolhendo o elenco de O Diário de Anne Frank.
