Les vents du coeur

X Capítulo

Os dias que se seguiram foram tensos. O paciente não mais procurou o psicólogo, tudo entre eles se resumia a uma relação profissional. As sessões sem fim, onde as conversas giravam sempre em torno do passado e dos sentimentos de Hyoga, ficavam tensas a cada dia e Shun se perguntava se deveria mesmo insistir em continuar naquele emprego. Não estava conseguindo suportar e seu abatimento era visível, tinha insônia e estava longe de possuir a alegria de antes.

Mais uma sessão terminada, e ele voltou para seu quarto. O russo agora seguiria para a fisioterapia, os movimentos de suas pernas já haviam voltado e ele agora só precisava de uma muleta para se locomover. O rapaz oriental estava feliz com isso, mas sua melancolia era evidente. A frieza com que Hyoga passou a lhe tratar após o ocorrido no carro, machucava, por mais que ele tentasse se convencer de que era o melhor.

Estava enxugando os cabelos após o banho, ainda vestido no roupão, quando alguém bateu a porta do seu quarto. Abriu e encontrou Milo; ele estava elegantemente vestido num pulôver azul e calça risca-de-giz e levava os óculos na cabeça. Sorriu para o psicólogo.

- Shun, estamos indo. – ele disse – Mas, eu queria falar com você antes de partir.

- Claro, Milo...

- Eu quero saber o que acontece entre você e o Hyoga. – o escorpiano era direto e não poderia deixar de notar o abatimento de ambos e as olheiras.

- Entre eu e o Hyoga? – Shun repetiu sem jeito sobre o olhar sério do grego – Ah... não acontece nada...

- Não tente me enganar. O Hyoga está com um humor pior que o do Camus, esses dias! E você parece um zumbi! – falou o loiro, irritado – Shun, ficaremos uma semana na Espanha e eu gostarei que vocês dois se entendessem...

- Está tudo bem, Milo, eu não quero que você se preocupe, nós... bem, digamos que não estamos nos entendemos muito bem, mas eu prometo me esforçar mais...

O loiro grego afagou o rosto pálido do rapaz mais jovem.

- Escute, Shun, você sabe o quanto me preocupo com você, afinal fui eu quem lhe botou nessa... – ele disse e depois suspirou – Se for difícil demais ficar aqui...

- Milo, estou bem de verdade e quero que você aproveite a viagem sem se preocupar.

O mais velho o abraçou.

- Ok, vou confiar em você, até breve! – afastou-se e desceu as escadas. Camus o esperava na sala enquanto conversava com Hyoga que mantinha a mesma expressão fechada dos últimos dias. Em momentos como aquele, era como se visse uma cópia menor e um pouco mais jovem do namorado; os traços aristocráticos do rapaz se reforçavam a ponto de ele ficar extremamente parecido com o irmão, embora isso se devesse mais a expressão que a traços físicos.

- Bem, vamos? – falou envolvendo os ombros de Camus e olhando para o russo – Vê se você trata o Shun, bem, seu monstrinho!

- Por que você não vai catar coquinhos pelas praias da Espanha, Milo? – grunhiu Hyoga.

- Porque estarei muito ocupado fazendo outras coisas bem mais gostosas com seu irmão, não terei tempo! – piscou vendo os dois rebentos de o clã Verseau corarem.

- Milo! – reclamou Camus dando-lhe um beliscão, mas ele fugiu antes que a agressão ficasse mais forte. O grego riu e saiu andando para a porta. O ruivo se virou para o irmão que nunca lhe pareceu tão abatido, nem mesmo quando estava doente.

- O que está acontecendo, Hyoga? – ele perguntou observando-o.

- Nada, Camus, aproveite a viagem. – Hyoga tentou sorrir.

O ruivo ainda esperou o irmão dizer alguma coisa, mas o russo não se manifestou, então ele saiu.

Hyoga resolveu voltar para a biblioteca, já que não tinha nada mais a fazer, entretanto, seus pensamentos estavam fixos em Shun e suas palavras estranhas. Não, por mais que tentasse não conseguia ficar indiferente a ele e percebia toda a sua angústia.

- Chega disso! – disse pra si, abandonando o livro e saindo da biblioteca a procura do psicólogo. Foi para o segundo andar e empurrou a porta do quarto do rapaz sem bater, com tanta ânsia que esqueceu completamente a educação.

- Hyoga! – Shun parou estupefato e ele também. O mais jovem estava apenas com uma cueca boxer branca e segurava uma camisa que começaria a vestir.

Shun ficou parado com o tecido nas mãos, estarrecido demais para fazer qualquer movimento. O russo também não conseguia falar ou fazer nada. Ambos, muito embaraçados.

- Eu... – Hyoga começou a falar fazendo um movimento com o indicador, demonstrando todo seu nervosismo, extremamente corado e sem jeito – Eu preciso falar com você! Na... na biblioteca... vista-se e não demore!

Ele disse e se virou rápido saindo do quarto do psicólogo que continuava parado. Virou-se mais uma vez...

- E tranque a porta quando for se trocar! – falou com uma voz irritada para esconder o constrangimento. Voltou para a biblioteca deixando o rapaz mais novo estarrecido.

Minutos depois Shun entrava sério na biblioteca e mirava o loiro sentado na cadeira de couro. Ele usava uma camisa gola alta preta e calça jeans e parecia concentrado em algo no notebook.

- Você quer falar comigo?

- Senta... – frio como o gelo.

- Prefiro ficar de pé.

- Que seja. – respondeu o russo – Eu quero que me explique todas as acusações que me fez naquele dia no carro...

Shun riu nervoso.

- Depois de tanto tempo? Por que agora?

- Porque eu quero. Simples.

- Escute, menino rico... – começou Shun irritado – Eu não tenho satisfações a lhe dar sobre minhas palavras, o psicólogo aqui sou eu e você é obrigado a conversar comigo e não o contrário.

Hyoga tirou os óculos e o encarou. Shun pode ver a irritação em seus olhos.

- Então é isso que pensa de mim?

- É o que você tem demonstrado. Acho que você é o tipo de pessoa que sempre teve tudo o que quis e por isso pensa que...

- Shun, eu não estou falando como seu paciente então pare de me analisar. – falou se erguendo, apoiado na muleta. Shun recuou instintivamente o que fez o loiro rir – Por que você tem tanto medo de mim?

- Hyoga, há coisas sobre minha vida que você não conhece. – falou quase num sussurro porque ele se aproximava cada vez mais.

- Mas, estou disposto a conhecer...

Shun se afastou irritado.

- Eu não entendo suas atitudes! – volveu ele – Você se comportou friamente comigo por todos esses dias e agora me vem com essa? O que passa por sua cabeça, Hyoga Verseau?

- Yukida, eu sempre uso o nome oriental que minha mãe herdou do meu avô, acho que é uma queda natural pelo sangue nipônico.

- Que seja! Pare de brincar comigo! – esbravejou Shun irritadíssimo com o cinismo do loiro.

Hyoga voltou a se afastar dele e sentar de frente ao notebook. Seu rosto readquiriu a expressão fechada de antes.

- Por que você se acha apto a julgar todos os meus sentimentos, Shun?

- Porque sou psicólogo e entendo os corações humanos.

- Você é um garotinho muito do arrogante isso sim. – respondeu o russo, mas sua voz não se alterou – Não se preocupe, de agora em diante, o tratarei por Doutor Amamiya.

- Hyoga...

- Eu não tenho mais nada a falar, doutor, pode se retirar.

- Como queira! – falou Shun e saiu. Sua vontade era bater naquele garoto arrogante, mas precisava ter paciência, era uma virtude que precisava exercitar.

**************

Camus dirigia em alta velocidade pelas ruas de Madri.

- Você vai nos matar! – falava Milo assustado com o ziguezague frenético que o namorado fazia entre os carros, costurando sem nenhum cuidado.

- A culpa é sua, você sabia que o seminário começaria cedo e me convenceu a esticar a noite naquele pub barulhento! – reclamou o francês.

- E para se vingar, você quer me matar, é isso? – reclamou o loiro – Camus, para! Diminua a velocidade, por Zeus!

- Não. Chegaremos atrasados se eu fizer isso.

- E se você não fizer, eu vou pular desse carro! – explodiu o grego, irritado. Mas o namorado nem o ouvia, a velocidade só diminuiu quando já estavam próximo ao local da reunião e também, porque uma patrulha da polícia já seguia o carro e eles foram multados em algo em torno de cem euros.

Estavam subindo as escadas apressados, Milo reclamando sem parar, quando um carro preto chamou a atenção de ambos. Dois homens elegantemente vestidos em ternos negros subiam as escadas, seus cabelos longos e repicados esvoaçavam com a brisa da manhã espanhola e eles conversavam tranquilamente. Estancaram o passo ao ver os dois.

- Milo! – Saga falou se adiantando para cumprimentar o irmão.

- Oi, Saga... – respondeu o mais jovem de má vontade, recebendo um abraço do irmão.

Saga se afastou e cumprimentou Camus com um aperto de mão.

- Saga, vamos entrar! – chamou Kanon, irritado e evitando olhar para o irmão mais novo e seu amante.

- Kanon, seja educado, você não está vendo o Camus e o Milo? – perguntou o gêmeo mais velho irritado – Cumprimente o seu irmão e... o amigo dele.

- Olá! – disse Kanon de má vontade e se virou recomeçando a andar – Te encontro lá dentro, então.

O gêmeo mais novo marchou para dentro do prédio elegante.

- Idiota! – resmungou Milo entre dentes olhando o irmão que andava apressado para o prédio.

- Não se importe com ele, Milo, um dia ele compreenderá. – falou Saga com um sorriso – A mamãe...

- Eu não tenho nada a ver com sua mãe, Saga. – disse o caçula, sério – Não me passe nenhuma informação sobre ela, por favor...

- Milo, ela não está muito bem...

- Lamento. – falou e puxou Camus pelos ombros – Vamos, a conferência vai começar.

O francês se desculpou com os olhos enquanto era arrastado para dentro do prédio pelo namorado. O seminário durou algumas horas e depois eles foram almoçar num restaurante que servia comida catalã. Comiam em um tenso silêncio, até que Camus resolveu quebrá-lo:

- Milo, não fique com essa cara, você sabia que os encontraria aqui.

- Sim, eu sabia, mas... não esperava que o idiota do Kanon reagisse daquela forma!

Camus emudeceu. Magoa e raiva era o que enxergava no grego.

- Como você mesmo disse, ele é um idiota, não precisa ficar assim por causa dele. – tentou confortá-lo da melhor forma que sabia.

- Mas, aquele idiota ainda é meu irmão! – falou e provou o vinho de sua taça – E vamos parar de falar dele, certo, Camus?

- Como você preferir, agora eu acho...

- Não ache, por favor. – cortou, e o ruivo concordou com a cabeça. A refeição terminou como começou, tensa. Eles voltaram ao hotel para tomar um banho e descansar, antes de voltarem para o encontro, já que o seminário duraria o dia inteiro.

Milo deixou-se cair na cama ainda enrolado na toalha, ficou mirando o teto. Camus nada disse; estava de cueca em frente ao notebook falando com Hyoga pelo MSN. Olhou em direção ao grego que estava estranhamente calado e distante. Aquilo lhe remeteu a outra situação.

Eles estavam juntos há dois anos, pois cursavam a mesma faculdade apesar de cursos diferentes, então o grego resolvera levá-lo nas férias para conhecer sua família...

** Flash back**

Milo puxava Camus pela mão, enquanto praticamente corriam dentro do luxuoso salão do clube náutico. Camus olhava o local agradável, o piso de madeira que brilhava impecável e as imensas janelas de vidros que possuíam uma visão privilegiada do mediterrâneo, onde vários veleiros estavam ancorados.

- O clube era do meu pai, agora minha mãe cuida dele, enquanto os meus irmãos cuidam da construtora. – ele explicou seguindo o olhar do namorado – Se quiser, depois podemos velejar.

- Tudo bem, só não entendo muito bem porque estamos aqui, Milo, eu queria ir para Aspen*1!

- Você e essa mania de frio! – reclamou o loiro e o puxou para uma mesa reservada – Você não desconfia por que eu lhe trouxe aqui?

- Desconfio, mas tenho medo de perguntar. – falou divertido.

- Eu quero que conheça a mulher da minha vida! – riu o loiro – Minha mãe!

Camus engoliu em seco. Ele não imaginava uma mãe grega de outra forma que não fosse uma matrona super protetora e ameaçadora. Contou seus pensamentos para o grego que riu.

- Minha mãe não é assim, ela é muito parecida comigo!

- Ah, Mon Dieu,é disso que tenho medo! – falou o francês e Milo ignorou pedindo as bebidas.

Camus estava de costa para a entrada do restaurante, então viu o loiro se levantar e acenar. Virou a cabeça e viu dois homens de cabelos escuros e olhos esverdeados como os de Milo, sorrir para o grego e caminhar em sua direção. Eram gêmeos idênticos.

Milo se levantou e abraçou os irmãos e Camus se ergueu também para cumprimentá-los.

- Você nunca me disse que eles eram gêmeos. – falou o francês gentilmente, voltando a se sentar, assim como os outros homens.

- Nunca? Eu devo ter esquecido! – falou o loiro.

- Ele é assim mesmo, um cabeça oca! – disse Kanon batendo na cabeça do irmão mais novo.

- Cabeça oca é você! – reclamou Milo – E então, onde está a mamãe?

- Chegará em alguns minutos, você sabe como é mulher com essas coisas de se arrumar! – reclamou Kanon e pediu uma cerveja ao garçom.

- Mas, e então, Milo, como está o curso? E suas notas? Você não liga para dizer nada, esqueceu que tem família? – reclamou Saga e Camus percebeu que ele era uma espécie de pai para o escorpiano, já que perderam o pai havia pouco mais de quatro anos.

- É que andei ocupado. – falou meio sem jeito e olhou rápido para o namorado. Camus resignou-se; claro que Milo não contaria aos irmãos mais velhos a vida desregradas que levava em Paris e nem muito menos que só conseguira completar o semestre passado por causa do incentivo e quase ameaças do namorado.

- Milo, eu preciso saber como você está na faculdade, a mamãe vive cobrando que ligue mais, você parece que não se importa com a gente. – reclamou mais uma vez, Saga e depois sorriu para Camus – Perdoe-me, mas é que, às vezes, tenho que dar umas broncas nesse moleque.

- Sem problemas, eu também faço muito isso. – disse o francês tranquilamente e nesse momento os olhos de Kanon se voltaram para ele desconfiados.

- Você é colega do mesmo curso do Milo? – ele perguntou e o ruivo viu o loiro tirar um cigarro do bolso e acender, o que demonstrava que ficara nervoso com o comentário. O conhecia muito bem, e aquilo o preocupou.

- Não, eu faço artes plásticas, mas estamos no mesmo período e nossos campus são próximos. – disse Camus tranquilamente.

- E como ficaram amigos?

- Kanon, isso por acaso é um interrogatório? – indagou Saga, aborrecido com o olhar felino que o gêmeo mais novo lançava ao ruivo, mas percebendo que o rapaz francês não parecia nem um pouco intimidado.

- Na verdade o Camus não é meu amigo, Kanon... – falou Milo mirando dentro dos olhos do irmão.

- Bem, daqui a pouco é o horário do almoço, podemos pedir... – Saga tentou interromper a conversa que começava a ficar tensa.

- Ele é meu namorado. – Milo falou frustrando as tentativas de Saga.

Estabeleceram-se um breve e tenso silêncio e então Kanon começou a rir.

- Você está brincando, não é? – falou mirando o irmão caçula que balançou a cabeça negativamente.

- Não, Kanon, não estou e não sei por que está tão surpreso...

- Por quê? Você... você é um membro da família Seferis! – bradou o geminiano – Que merda você está dizendo?!

- Kanon, controle-se! – pediu Saga.

- Saga, como você quer que eu me controle?! – continuou Kanon possesso – Ele... ele... ele está dizendo que é um... que...

- Cuidado com as palavras, Kanon! – grunhiu Milo – Eu posso permitir que me ofenda, mas se ofender o Camus...

- Viado! – gritou Kanon – É isso que você é? Eu não acredito, Milo! Como ousa aparecer aqui com seu amiguinho e jogar isso em nossas caras?!

- Kanon, cala a boca! – pediu Saga se levantando porque os irmãos já haviam feito o mesmo e pareciam dispostos a sair no braço. Aliás, aquilo era fácil entre temperamentos como os deles.

- Isso mesmo, Saga! Cala a boca desse idiota ou eu mesmo calo, mas com meu punho! – gritou Milo.

- Você sempre apanhou de mim seu idiota e agora eu sei por quê! Você não passa de um...

- Se falar isso de novo, serei eu a bater em você, Kanon! – Saga segurou o irmão pelo colarinho e olhou ao redor, todas as pessoas no imenso restaurante olhavam para eles. Respirou fundo:

- Por favor, senhores, voltem a se sentar. – pediu envergonhado, largando o irmão.

Kanon ajeitou a camisa e mirou o irmão mais novo mais uma vez com uma expressão de desprezo.

- Eu não fico mais aqui! Estou indo embora, Saga! – ele disse e marchou para fora do restaurante.

- Por favor, Camus, perdoe meu irmão. – pediu Saga, envergonhado.

- Não tem do que se desculpar, Saga. – falou o francês – A culpa de tudo isso é do Milo.

- Minha? – o loiro mirou o namorado, incrédulo – O que eu fiz de errado?

- Você criou essa situação. – volveu Camus visivelmente incomodado – Se sua família não sabia da sua opção sexual, você deveria se reunir com ela e conversar antes de me apresentar como seu namorado. Isso, com certeza, nos pouparia de uma cena como essa.

- Concordo com o Camus. – falou Saga – Como sempre, você foi intempestivo e irresponsável.

Milo quase se encolheu com tantas reprovações a sua conduta.

- Devo mesmo ser um idiota. – murmurou.

- Sim, você é! – Saga disse e depois lhe afagou os cabelos espessos – Mesmo assim, é, e sempre será meu irmão caçula.

Milo sorriu para o irmão e nesse momento ele vislumbrou a mãe entrando no restaurante. Camus seguiu-lhe o olhar e apreciou a imagem da bela mulher de meia idade que entrava no restaurante. Possuía os cabelos curtos e loiros, num corte elegante até o queixo. Vestia um tailleur branco e uma blusa verde que combinava com seus olhos também azuis esverdeados. Sua pele assim como a de Milo exibia o bronze do sol mediterrâneo. Sim, eles eram muito parecidos.

Milo não esperou que ela chegasse a mesa, se levantou e a abraçou no meio do salão. A mulher sorriu com o carinho e beijou o rosto do filho mais novo, segurando em sua mão e o conduzindo de volta à mesa, onde foi cumprimentada pelo primogênito e o francês.

Sentou-se ao lado do caçula e pediu licença para acender um cigarro e Camus pensou que estava ali a pessoa de quem o namorado herdara o terrível hábito.

- Então, você é o motivo da desavença entre meus dois meninos? – ela falou friamente, olhando para Camus que ficou extremamente constrangido com o comentário.

- Mãe... – Saga tentou argumentar, mas a poderosa mulher fez um gesto de mão pedindo silêncio ao filho.

- O Kanon é mesmo rápido em correr para o colo da mamãe! – reclamou o loiro.

- Eu encontrei seu irmão desolado na entrada do clube e ele me contou a história por alto. Estava muito confuso e abalado, mas eu disse para ele que não precisava se preocupar com isso, não é Milo?

O loiro mirou a mãe sem entender e depois olhou o irmão mais velho que parecia também confuso.

- O que quer dizer? – Milo indagou a mulher que continuava sorrindo tranquilamente. Todos os seus gestos eram elegantes e ponderados e sua voz não se alterava.

- Milo, volte para a faculdade e da próxima vez que vier, me diga que tirou essas idéias absurdas da cabeça. – disse ela – Eu não quero que volte antes que possa dizer que tudo foi um engano...

- Não há enganos aqui, mãe, eu e o Camus...

- Sinceramente não me interessa saber. – disse a mulher com indiferença – Termine essa história com esse rapaz e não volte aqui antes disso.

Camus viu os olhos do loiro grego, marejarem.

- O que você está dizendo é que eu não devo voltar, a menos que desista do Camus?

- Camus ou seja lá quem for. – ela disse com desprezo – Tire essas idéias... subversivas da cabeça e volte apenas quando estiver preparado para levar uma vida decente.

- Decente? – ele repetiu e mirou a progenitora – Então eu sou indecente por amar outro homem?

- Não fale assim comigo, garotinho! – a mulher o mirou felinamente – Você não o ama, isso é algo que passará, você é só um menino! Saga diga pra ele!

- Eu prefiro me abster. – falou o mais velho – Quero apenas que se lembrem que temos um visitante à mesa!

As duas cabeças loiras se voltaram para Camus, meio constrangidas.

- Desculpe-me meu rapaz. – disse a mulher – Eu não quero ofendê-lo, essas palavras são para o meu filho, sinceramente, não tenho nada pessoal contra você e não desejo magoá-lo, o Milo errou o envolvendo numa discussão familiar...

- A senhora tem total razão, esperarei lá fora, com licença... – Camus se ergueria, mas Milo se levantou e o empurrou, ele caiu sentado e aturdido.

- Você não vai a lugar nenhum! Essa conversa envolve você ou não sente nada por mim a ponto de me deixar sozinho num momento como esse?!

- Milo, eu só acho que você deveria resolver isso com sua família. Não me sinto confortável em presenciar isso, é uma questão familiar. – falou Camus sem jeito.

- Milo, por favor, não seja vulgar. – disse a mãe – Deixe o rapaz sair, ele não precisa escutar essas coisas, vejo que ele é muito mais ponderado e racional que você. Não dou um ano para que ele próprio admita que eu tenha razão, encontre uma boa moça e se case também.

- Você fala como se o conhecesse! – esbravejou Milo – Você não sabe quem ele é e nem o que sentimos!

- Milo, eu também tive meus arroubos da juventude e eles passaram.

- Eu amo o Camus... – falou Milo, os olhos tiritando de raiva.

- Isso vai passar. – falou a mulher calmamente.

- Não, não vai e não preciso do seu consentimento! – volveu o loiro – Então essa é sua ultima palavra?

- Você me conhece o suficiente para saber que não vou mudar de opinião. Volte quando deres fim a essas idéias absurdas.

- Vamos, Camus! – o loiro chamou o namorado e Camus se ergueu embaraçado até a raiz vermelha dos cabelos.

- Filho, será que você não vê que... que esse tipo de gente só quer se aproveitar de você! – a mulher em fim demonstrou um pouco de sentimento, seus olhos marejaram e sua voz tremeu. Conhecia bastante o filho para saber que ele também não mudava de opinião. Ele era uma cópia talvez ainda mais teimosa de si mesma.

- Você não o conhece! – esbravejou Milo – Como ousa dizer uma merda dessas?!

- Milo, por favor, você ainda está falando com nossa mãe! – pediu Saga que também estava muito embaraçado.

- Eu não tenho mais nenhuma mãe! – disse o escorpiano e saiu andando – Vamos Camus!

Camus ainda lançou um olhar aos membros da família Seferis que estavam abatidos à mesa do sofisticado restaurante.

- Eu sinto muito... – disse e foi atrás de Milo.

Depois daquilo, eles voltaram para Paris, o escorpiano contratou um advogado que moveu uma ação para que a parte que lhe cabia da herança do pai, lhe fosse entregue, inclusive imóveis e as cotas da construtora. Vendeu tudo, conseguindo uma pequena fortuna, e nada quis da mãe. Rompeu definitivamente com a família, tentou inclusive mudar de sobrenome, mas o processo se mostrou desgastante e ele o abandonou. Passou um mês deprimido, mas se recuperou graças ao apoio de Camus. Decidiu dali em diante que não possuía ninguém além dele e que não choraria nunca mais por aquelas pessoas.

** Fim do flashback**

Camus observou o namorado que continuava estático sobre a cama.

- Milo, desse jeito, vamos nos atrasar. – disse, despertando o grego de seus devaneios.

- Ah, eu vou me trocar. – falou o loiro pulando da cama e começando a se vestir. O francês fez o mesmo e ficou observando o namorado, ele continuava sério e preocupado.

- Você não quer dizer nada? – perguntou em fim.

- Não tenho nada a dizer. – respondeu ríspido.

- Milo...

- Camus, eu tô com uma puta dor de cabeça e por favor, não quero falar sobre os Seferis hoje, hoje não.

- Tudo bem, mon ange, mas você sabe que em algum momento...

- Sei, mas vamos deixar isso para depois! – ele sorriu e começou a se vestir, ainda teriam que voltar para a conferência.

***********

E a semana passou. Camus e Milo voltaram da Espanha e agora o escorpiano preparava a festa de Hyoga, a reunião que já estava contando com cem convidados na singela lista. Shun e Aldebaran tentavam acompanhar e ajudar o furacão grego que se via em volta de atividades mil. Mas ele estava de bom humor, bem ao contrário do terapeuta que lhe parecia cada dia mais abatido.

Os dois estavam no jardim, Milo dava ordens a alguns empregados da empresa de decoração; na verdade, ele não deixava os pobres trabalharem em paz, sempre se intrometendo.

- Milo, não entendo por que contratou decoradores se você mesmo quer fazer as coisas! – Shun comentou rindo, vendo o grego tirar os lírios que enfeitavam o jardim de um dos pilares e colocando em outro.

- É verdade, mas não consigo ficar parado. – falou ele meio embaraçado – Eu quero muito que essa festa seja perfeita.

- Sei que é muito importante para você.

- Importante? Quem, o Hyoga? – riu – Ele é uma mala loira, isso sim! não sei como consegue gostar dele!

- Assim como eu não sei como consegue gostar do Camus! – devolveu Shun e corou instantaneamente com o sorriso malicioso que o grego lhe lançou – Bem, não que eu queira dizer que sinta o mesmo pelo Hyoga... eu não sinto... é que...

- Certo, Shun, eu finjo que acredito em você. Vamos ver como anda as cosias na cozinha, certo?

- Ah, tá bom, eu faço isso! – falou o psicólogo marchando para dentro da mansão. Ficou observando o movimento da cozinha, muita gente, aquilo já estava deixando-o tonto, só mesmo Milo para convencê-lo a ajudá-lo.

Seu celular tocou e ele olhou o visor. Suspirou com tristeza e atendeu, tentando parecer alegre.

- Oi!

- Olá, Shun, estava com saudades, você não me ligou mais...

- Ah, desculpe, eu... é que as coisas aqui estão confusas...

- O que está acontecendo? Você está diferente, alguma coisa que eu fiz?

- Não, claro que não... amor, eu... é complicado falar ao telefone... – Shun sentia uma angústia crescente, mas não conseguia dissimular ao ponto de escondê-la.

- Shun, estou com medo, o que está acontecendo com você?

- Eu estou bem...

- Quer que eu vá pra aí?

- Não precisa, por Deus! Você tem a faculdade, não deve se abalar até aqui por minha causa. Eu prometo voltar assim que puder e então conversaremos, certo?

- Tudo bem, eu amo você...

Shun engoliu em seco e fechou os olhos com força.

- Eu também te amo.

Quando abriu os olhos novamente, empalideceu; os azuis de Hyoga o miravam com extrema raiva que o loiro tratou de esconder assim que se viu encarado pelo psicólogo.

Sorriu seu sorriso mais sarcástico.

- Agora eu entendo, Shun, você ao menos deveria ter me contado.

- O... do quê...

- Não seja dissimulado, eu ouvi! – ele tentava ser o mais frio possível – Aliás, eu já sabia só não me lembrava.

Shun baixou o olhar, não poderia negar e nem explicar a ele tudo que acontecia em sua alma.

- Eu não sou dissimulado, Hyoga e estou farto de ouvir essas coisas! – falou e marcharia para longe (estavam próximos a porta da cozinha) se o russo não o segurasse pelos cotovelos e para isso deixasse a muleta cair.

- E eu estou cansado desse jogo, Shun! – esbravejou o russo – Se não queria nada comigo, por que me beijou? Ou você faz isso com todos os pacientes?

Os olhos do psicólogo marejaram e ele desviou-os para que o paciente não lhe visse a mágoa.

- O que você está dizendo, Hyoga?

- Shun, eu preciso entender, estou cansado desses joguinhos infantis!

- Jogo? Então é isso...? Ah, me deixa em paz! – ele disse e correu para o quarto. Não agüentava mais aquela situação. Não queria brigar com Hyoga e também não queria admitir o que sentia por ele. Ele era seu paciente, admitir aquilo, era admitir que todo o passado foi sua culpa.

Entrou no quarto e se jogou na cama, o passado voltando e lhe levando uma melancolia profunda.

Ele estagiava numa renomada clínica psiquiátrica, estágio conseguido pelo irmão. Estava adorando o trabalho, principalmente na ala pediátrica; adorava crianças e era sempre bom saber como elas estavam, era triste ver crianças na ala psiquiátrica. Tantos traumas, tanta dor.

Shun entregava-se de corpo e alma ao trabalho; tratava as crianças como se fossem suas, sempre atencioso, sempre amigo e foi assim que ele se tornou amigo de Kyoko, uma menina de doze anos que perdera os pais e possuía suspeita de esquizofrenia. Como psicólogo da área infantil, Shun achou o caso da garota interessante e ele era a única pessoa que a menina parecia confiar. Talvez, por ele parecer tão jovem, ela visse nele um amigo.

** Flashback**

Shun chegou cedo à clínica aquela manhã e encontrou Kyoko emburrada no jardim. Sentou-se ao seu lado e sorriu.

- O que foi, Kyoko? Por que tanto aborrecimento logo cedo?

- Ah, Shun, você me deu alta, você foi dizer aos meus tios que estou bem! Eu não estou bem, eu não quero ir morar com meus tios! – reclamou a menina e Shun afagou-lhe os cabelos negros.

- Kyoko, você não pode viver num hospital para sempre. Você está bem, não só eu como seu psiquiatra pensamos a mesma coisa, eu não posso deixá-la aqui. Aqui é um lugar para doentes.

- Mas, Shun, eu estou bem porque estou perto de você. Você não entende isso? Como poderei ficar sem você? Eu já disse que você é meu? Só meu, você não acredita?

Shun suspirou. A mimada menina era possessiva e tratava todos a quem nutria afeto como sua propriedade.

- Kyoko, eu já disse que as pessoas não pertencem umas as outras, além do mais, eu tenho outros pacientes.

- Mas, eu sou a mais importante, não sou? – os olhos da garotinha brilhava de angústia ao fazer aquele tipo de pergunta e ele sentia a necessidade de consolá-la, porém, não podia mentir.

- Todos são importantes, você também é.

- Shun, eu tenho que ser mais importante! – berrou a menina – Eu não conseguirei viver sem você, eu te amo!

- Kyoko, por favor. – falou Shun com carinho – Eu trabalho aqui, sempre que precisar, é só vir me ver, seu tratamento não acabará de uma hora para outra, ainda nos veremos muito.

- Não é a mesma coisa! – a menina cruzou os braços e depois olhou com olhos suplicantes para o psicólogo – Promete que sempre que eu precisar você vai me ver?

- Kyoko?

- Promete ou eu simulo uma crise para ficar aqui mais tempo!

Shun ponderou, aquela garota não estava bem, mas também não havia necessidade de permanecer internada. Contudo, aquela conduta dela o preocupava bastante.

- Tá bom, eu prometo.

- Então me dá o número do seu celular.

Shun fez o que ela pediu. Realmente se preocupava com seus pacientes e aquela menina precisava dele, não poderia abandoná-la simplesmente.

Kyoko saiu da clínica uma semana depois, mas uma tarde antes disso, quando Shun foi ao seu quarto fazer seu último relatório, ela estava diferente, estranhamente irritadiça.

- Kyoko, você está com algum problema?

- Estou.

- Posso ajudar?

- Por que você não gosta de mim, Shun? Eu sou feia?

O psicólogo estancou aturdido com a pergunta.

- Não, Kyoko, você não é feia, e eu gosto de você sim. – sorriu – Você é minha paciente e minha amiga.

- Então me beija. – ela disse e o enlaçou pelo pescoço, Shun recuou.

- Kyoko, pare com isso, eu... eu não posso fazer isso, você enlouqueceu? – ele perguntou e a menina sorriu com malícia.

- Aqui é um hospital de loucos, esqueceu? – falou e o beijou. O jovem terapeuta a afastou com delicadeza.

- Kyoko, se continuar com isso não poderemos ser amigos! – falou enérgico – Lembre-se que aqui eu sou seu médico, só isso!

- Você não gosta de mim! – gritou a garota.

- Não, dessa forma não, eu...

- Você é um mentiroso, Shun, e eu odeio você! – ela gritou e caiu em prantos sobre a cama.

- Kyoko...

- Eu vou embora amanhã, você me enganou, você disse que me amava!

- Não, Kyoko, eu não disse isso. – Shun mantinha-se calmo. Tinha pena da menina que estava confundindo seus cuidados profissionais com coisas totalmente sem sentido.

- Eu odeio você, Shun!

O psicólogo viu que não havia jeito da garota ouvi-lo, então relatou ao seu superior o ocorrido e pediu que fosse afastado da paciente. Então, outro psicólogo passou a cuidar de Kyoko em suas visitas semanais de terapia psicológica. Mesmo assim, sempre se interessava pelo seu caso, perguntava, lia os relatórios sobre seu progresso. Não sabia que mais tarde, tudo isso seria usado contra ele...

Estava dormindo certa noite, quando seu telefone tocou, era Kyoko.

- Shun, me ajuda!

- Kyoko, é você?

- Shun, por favor, eu fugi de casa, eu... está escuro, eu estou com medo!

- Me diz onde você está? – falou Shun e se ergueu da cama começando a se vestir.

- Eu não sei, está escuro! – a menina começou a chorar do outro lado da linha.

- Kyoko, me diz alguma coisa que possa me fazer, achá-la, eu vou ligar para seus tios...

- Se você ligar pra eles, eu me mato!

Shun engoliu em seco.

- Certo, eu prometo que não ligo.

A menina então disse mais ou menos onde estava e não foi muito difícil encontrá-la encolhida sobre um banco de praça. Ela correu para os braços do psicólogo assim que o viu.

- Shun, me ajuda, eu não posso ficar com meus tios, o tarado do meu primo não me deixa em paz! Shun, eu só tenho você, você é meu único amigo, me leva para sua casa, por favor!

Shun mirou o rosto desesperado da garota e Kyoko lhe contou como estava sendo molestada pelo primo de dezessete anos. Coisa que ele soube depois ser mentira.

- Você já conversou com seus tios?

- Eles não acreditam em mim, para eles eu sou apenas uma adolescente problemática! Shun, por favor, eu preciso de você, eu amo você.

- Vamos, vou levá-la pra casa e eu converso com eles, por favor, Kyoko, eu preciso conversar com eles, isso é muito grave.

A menina caiu em prantos.

- Shun, eles não vão acreditar, você precisa ficar comigo, só você pode me salvar!

Shun suspirou, não sabia o que fazer.

- Vamos, Kyoko! – ele a levou para o carro. A menina se sentou em silêncio encolhida e ele pediu para que colocasse o cinto. Tudo estaria bem se eles não tivessem que passar por uma barreira da polícia e o carro fosse parado.

Os policiais argumentaram para onde eles iriam. No inicio pensaram se tratar de um casal de adolescentes, mas quando seus documentos foram solicitados e descobriu-se que a menina não possuía documentos, as coisas se complicaram. Ele tentou argumentar e informar o ocorrido, dizendo que era um paciente; contudo, todas as notícias de pedofilia deixam as pessoas desconfiadas. Acabou algemado e levado para uma delegacia para prestar satisfação do que fazia e onde estava com a menina aquela hora da noite. Kyoko não ajudou, permaneceu muda e letárgica. Shun pediu para que ela contasse a verdade aos policiais que os interrogavam, ele não deveria...

- Ele é meu amante. – disse a menina sem nem mesmo olhá-lo. Desesperado, o psicólogo foi posto numa cela até que seu advogado chegasse o que durou horas. Ikki apareceu com o advogado que entrara com um abres corpo, só setenta e duas horas depois; tudo se transformou num escândalo sem fim. A família de Kyoko era poderosa, mas não conseguiu abafar o escândalo, então, fez tudo para que ele fosse responsabilizado. Shun foi demitido da clínica...

"Esse psicólogo sem caráter ou ética profissional, foi retirado do nosso quadro de funcionários. Nossa clínica preza pela ética acima de tudo e não admitimos esse tipo hediondo de comportamento..."

Sua vida se tornou um inferno sendo perseguido pela imprensa, denegrido, humilhado em praça pública; "pedófilo" era o menor dos xingamentos que recebia. Sua casa foi apedrejada por várias vezes, teve que se mudar; fora as agressões verbais que recebia sempre que precisava sair para prestar depoimento, tudo era muito humilhante...

"Fale a verdade, menininhas te excitam, não é?"

"Não..."

"Fale a verdade, rapaz! Quantas outras, você molestou?"

"Shun, você não precisa responder..."

"Eu não molestei ninguém, eu não fiz isso! Não fiz!"

"Dá pra ver por sua cara o quanto você é culpado!"

Os interrogatórios seguiam sempre essa linha. Humilhantes, deprimentes. Entrou em depressão. Trancou-se em casa, não podia mais andar nas ruas e nem queria, só tinha vontade de dormir para acordar do pesadelo. Os meses foram passando e com o tempo as coisas foram se acalmando. A junta de psicólogos e psiquiatras designada pelo promotor do caso para interrogar a garota, concluiu que ela mentia. Mais rebuliço na imprensa, as notícias recomeçaram. Ele fora inocentado e com isso, pode sair do país. Ikki achou necessário, já que o irmão se mostrava extremamente esgotado e deprimido com o acontecido.

Já estava na França, quando recebeu a notícia de que o caso tinha sido arquivado, a clínica feito uma retratação pública pela demissão injusta, e a família de Kyoko se desculpara publicamente pelas mentiras da menina que estava passando por um sério tratamento psicológico. Mas, para Shun nada daquilo importava, estava ferido, amargo por tentar ajudar alguém e ser usado por esse alguém. Sua mente tentava raciocinar que a garota só tinha doze anos e era psicótica, ele é que fora ingênuo. Mas nada daquilo melhorava seu estado de espírito. Os jornais japoneses fizeram do caso uma sensação, mesmo depois de arquivado; queriam entrevistas e até um livro foi publicado no país "A história de uma obsessão..." dando detalhes pavorosos sobre o caso e mergulhando fundo na mente doentia de Kyoko.

** Fim do flashback**

Desde então, Shun tentava se manter longe de qualquer coisa que lhe lembrasse o Japão, estava traumatizado, e então, aconteceu Hyoga, acordando todos aqueles fatos horrorosos do seu passado.

Shun suspirou com aquelas lembranças e as acusações de Hyoga levaram lágrimas aos seus olhos. Não queria se lembrar daquilo, por causa de um capricho de uma garotinha rica, sua vida e carreira acabaram. Não permitiria isso novamente, não permitiria isso nunca mais.

Continua...

N/A: Tá vendo que não sou tão má? Respondi algumas coisas, mas não dá pra responder tudo de vez, então calma, ok?

Espero que tenham gostado do capítulo, embora tenha ficado devendo no romance XD!

Aspen*1 É um importante resort nos Estados unidos, conhecido mundialmente por suas montanhas e seu clima, que propiciam a prática do esqui (luxuoso e caro).

Título: Os ventos do coração.

Obrigada a todos os meus leitores em especial:

Suellen-san, Cardosinha, Pandora Black (KKK deve ser a água mesmo!), Amaterasu Sonne, Julyana Apony, Mitsurugui26, Keronekoi, Temari_Nara, naluza, Shunzinhaah2, Arcueid, Mefram_Maru, ka-mi, xPsychOx, kenosuke, shermie, grazita.

Esses que além de ler, dispensaram um tempinho para deixar um review de incentivo.

Obrigada de coração!

Sion Neblina