Capítulo X

James

Emmeline e eu estávamos deitados de bruços em um grosso cobertor xadrez, tomando sol no lago Gambler. Eu olhava para a água, pensando como era feliz por ser jovem e apaixonado.

Ao ouvir o som agudo de uma risada feminina, virei a cabeça. Não era Emmeline que ria.

Era Lily. Ela protegia os olhos do sol com a mão e suas pernas bronzeadas e bem-feitas estavam esticadas.

Sem me preocupar em como ela tinha vindo parar ali, deitei minha cabeça em seu colo, sorrindo e olhando seus olhos brilhantes. Devagar, ela se curvou e roçou de leve os lábios na minha orelha. Depois sua boca tocou a minha e, esticando meu braço, passei a mão por seus grossos cabelos ruivos. Depois me levantei, sentando e apertando mais ainda meus lábios contra os dela. Em seguida, estávamos nos abraçando tão forte que parecíamos uma mesma pessoa.

Bem na hora em que beijava Lily, acordei. Meu coração batia forte, e eu até suava um pouco na testa. Meu mundo estava fora de controle. O que poderia estar me acontecendo?

Claro que já tinha sonhado com Lily outras vezes. Todo mundo que conhecia já tinha estado presente em meus sonhos uma vez ou outra. Mas nunca sonhara que a beijava.

Senti como um bofetão. Emmeline era a garota que deveria estar em minhas fantasias. Ela era minha namorada, e eu estava apaixonado por ela. Mas aquele longo beijo em Lily me pareceu tão real que meus lábios ainda sentiam os dela.

O relógio na cabeceira mostrava 12h15. Um pouco envergonhado por estar dormindo até tão tarde, fui para o banheiro escovar os dentes e afastar da mente qualquer pensamento sobre Lily.

Todo mundo sabe que os sonhos não significam nada. Só porque sonhei que beijava Lily, isso não queria dizer que realmente desejava beijá-la. A gente tinha dançado uma música romântica na noite anterior, e ter um sonho inocente com ela era muito natural.

Lavei o rosto com água fria e decidi ir procurar alguém para um joguinho de basquete. Eu estava precisando de um pouco de exercício. O sonho com Lily não significava nada.

— Não tem nada a ver — declarei para meu reflexo no espelho. — Néris. Nerusca. Nadica de nada.


— Fala, Potter, como foi o baile? — perguntou Sirius, na segunda-feira de manhã.

Estávamos na biblioteca outra vez, para fazermos o trabalho de história. O assunto eram as pirâmides do Egito. Eu estudava a parte histórica e Sirius trabalha na época atual, sobre as pirâmides e as tumbas.

— A banda estava um saco, mas dei sorte e curti bastante – respondi.

Sirius ergueu uma das sobrancelhas.

— Engraçado. Eu já vi o Radio Waves outras vezes e achei legal.

— Legal para quem gosta — observei, abrindo um livro. — A propósito, Marlene não estava no baile.

Como pensei, o comentário que fiz tirou da cabeça de Sirius o interesse pelo assunto sobre a banda ridícula de Amos Diggory. Ele então atirou uma olhada à recepção e viu Marlene McKinnon entrando na biblioteca e indo tomar seu lugar, em frente ao computador. Vi que ela olhou disfarçadamente em nossa direção e logo se voltou.

Sirius afastou sua cadeira.

— Lembrei agora que me esqueci de devolver um livro. Volto já, já.

Inclinei-me para ver Sirius paquerando. Queria que ele simplesmente convidasse Marlene para um encontro e saísse dessa enrascada. Sirius pegou um livro e começou a esfregar as mãos por um instante. Depois de um curto papo, ele voltou para nossa mesa, todo desengonçado.

— Como é que foi? – perguntei, dando-lhe um tapinha nas costas.

— Uma droga. Eu me sinto um idiota total perto dela

Ele colocou as mãos no rosto mas vi que espiou para Marlene por entre o vão dos dedos.

Resolvi deixa-lo entregue às suas lamentações e voltei para o livro de história. O prazo era de apenas uma semana, e ainda tínhamos de aprender um bocado sobre os faraós e pirâmides.


— Estou aqui não faz um semestre e já sou amiga de todas as pessoas certas – disse Emmeline na quarta-feira à tarde. Nós estávamos sentados em meu carro e estivéramos nos beijando por uns quinze minutos.

Minha barriga deu um nó. Como sempre acontecia quando Emmeline começava a falar de seu índice de popularidade. No começo eu pensava que ela só queira conhecer as pessoas.

Mas agora achava que era uma obsessão. É até mesmo já tinha observado como chegava a ser grosseira com algumas pessoas que não estavam na lista dos mais populares

— Puxa, que legal – falei – Agora sua vida está completa

Emmeline concordou

— E tudo isso graças a você – ela jogou os longos cabelos para trás e ficou me olhando, enamorada – Ainda bem que encontrei você

— O que você quer dizer?

Procurei ser gentil mas por dentro achei uma basbaquice

— Bem, como todo mundo gosta de você, automaticamente passam a gostar também de mim. Você é meu anjo

Nas últimas semanas vinha pensando que Emmeline me amava, e que eu a amava. Mas algumas dúvidas não saiam da minha cabeça.

Emmeline não demonstrava nenhum interesse em conhecer meus amigos a menos que fossem líderes de torcida ou atletas. E sempre que ela dizia que me amava a palavra "popularidade" vinha logo em seguida. Basicamente, Emmeline me tratava mais como um troféu de que como namorado.

De repente me bateu um pensamento de que eu tinha forçado a mim mesmo a me apaixonar por Emmeline porque queria ganhar a posta com Lily. Mesmo sabendo que Emmeline só se interessava em ser popular, meus motivos afinal não eram muito melhores que os dela.

A voz animadinha de Emmeline cortou meu devaneio.

— Eu acho que nós somos o casal mais bonito do Colégio Hogwarts High. Você não acha?

Balancei a cabeça, concordando em silêncio, mas sentindo que meu mundo se espatifara em mil pedacinhos


Quinta—feira à noite Lily e eu estávamos batendo papo no escritório da casa dela, assistindo ao filme Uma jornada inesquecível. Esse era outro de nossos favoritos, e eu me sentia relaxado pela primeira vez depois que Emmeline me chamara de "meu anjo".

Lily olhava fixamente para a televisão, comendo pipoca direto. Eu não estava a fim de que ela ficasse zombando de mim no caso de eu perder a posta. Mas, ainda assim, queria falar sobre Emmeline. Afinal ela era minha melhor amiga a e sabia bem mais sobre as mulheres do que eu.

— Lils, eu acho que Emmeline só quer aparecer – disse eu, enchendo a mão de pipoca

— Não brinca – Lily respondeu suspirando

— Pensando bem, não estou tão apaixonado por ela como achava

— Hmmm – disse Lily.

— Lils, você está me ouvindo? – cutuquei seu braço

— Acha que Amos ainda ama Tanya? – perguntou em vez de responder a minha pergunta

— Lily, acabei de dizer que acho que não amo Emmeline

Ela deixou de lado a pipoca e me olhou

— O caso é que a senhora McGonagall chamou Amos para ler o poema, que ele tinha escrito, em voz alta

Pelo jeito Lily não estava nem um pouco interessada em ouvir o que eu tinha a dizer

— E daí? – perguntei

— Era um poema de amor

— Por favor, me poupe dos detalhes – Não estava a fim de ouvir nada sobre Amos Cara-de-panaca.

— O poema não era sobre mim

— O que?

Admito que agora ficara curioso

— Bom, as palavras eram sobre perda e "distância cruel", como ele escreveu – Lily mordeu o lábio e balançou a cabeça.

— E daí? – tinha a impressão de que ela queria chegar a algum ponto

— Acho que ele escreveu o poema para Tanya, o que significa que não está apaixonado por mim.

Poderia jura que vi uma lágrima dependurada no olho dela

— Esse cara é um saco. Você ficará melhor se ele ainda amar Tanya

De repente me ocorreu uma ideia. Se Lily terminasse com Amos e eu terminasse com Emmeline, a gente ainda estaria empatado em relação à nossa aposta. Quem sabe? Podia ser que eu me apaixonasse de novo até o Baile de Inverno. Tudo era possível

— Amos não é um saco — respondeu Lily, elevando a voz — Se disser isso mais uma vez, eu detono você. Fique quieto!

Estava ficando chateado com Lily. Ela acabara de dizer que Amos ainda gostava da antiga namorada. Se isso não era realmente um saco, então o que seria?

— Está bom, o que você queria que eu dissesse?

Lily recostou-se no sofá

— Tanya virá para o Dia de Ação de Graças. Você acha que devo me preocupar com isso?

— Se você não quer que eu diga que Amos é um saco, então não tenho nada a dizer – falei com firmeza

Lily enfiou o rosto em uma almofada do sofá.

— James, você se importa em ir embora agora? Não estou a fim de papo

Ela desligou a televisão pelo controle e fechou os olhos

Sem me despedir, saí pisando duro. Precisava levar um papo sério com Lily sobre o fato dela só se importar consigo mesma e com o pateta do seu namorado.

No caminho de volta comecei a pensar em Emmeline de uma forma diferente. Ela devia ter seus probleminhas, mas quem não tinha? Pelo menos se mostrava sempre feliz quando me via e nunca tinha me chutado pra fora de sua casa...

Tinha dado uma completa meia-volta. Na verdade, Emmeline ficaria feliz em ver nesse momento.