Capítulo 10: Pânico e Fogo
Enquanto no bar e na discoteca as pessoas se divertiam, conversavam ou dançavam, numa varanda no telhado do bar e da discoteca, que normalmente estava fechada ao público, dois homens olharam à sua volta. Tinham aspecto duvidoso. Um deles tirou um pequeno frasco do bolso do casaco e despejou o conteúdo num orifício que existia e estava directamente por cima do tecto da discoteca. O segundo homem acendeu um fósforo e lançou-o para o orifício. Segundos depois, começaram a ouvir o crepitar de uma pequena chama. Sorriram.
"O chefe vai ficar contente. Daqui a pouco, vai estar isto tudo a arder." disse o primeiro homem.
"E se morrer alguém, esta discoteca está arruinada." disse o segundo homem. "Para sempre. O chefe é mesmo esperto."
"Pois é. Mandar-nos incendiar esta discoteca, que é a nossa principal concorrente. Quando estava for à vida, toda a gente terá de ir à nossa discoteca."
Os dois homens apressaram-se a sair dali e saíram da discoteca sem deixar rastos. Fecharam a porta que dava acesso ao telhado, para que ninguém ali aparecesse. Quando dessem pelo fogo, seria tarde demais.
Passara-se apenas dois minutos, mas o fogo já se tinha espalhado pelo teto do bar e da discoteca. Na discoteca, as pessoas continuavam a dançar entusiasticamente, quando subitamente uma viga caiu do teto, caindo em cima de algumas pessoas. A viga estava em chamas. As pessoas gritaram de medo, quando uma nova viga caiu, não acertando em ninguém por pouco.
Depois, o pânico começou e o fumo do fogo começou a invadir a discoteca. As pessoas gritaram e começaram a correr para tentarem sair da discoteca. Ricardo puxou Elisa para si.
"Vamos Elisa!" exclamou ele.
Enquanto isso, Bruno estava a entrar no bar e parecia furioso. Aproximou-se de Leandro e dos outros.
"Olha lá, seu estúpido, qual foi a tua ideia?" perguntou Bruno, furioso, encarando Leandro.
Nesse momento eles começaram a ouvir gritos e de seguida uma parte do tecto do bar ruiu, caindo em cima de algumas pessoas. Hugo, Ivo e Leandro levantaram-se rapidamente.
"Fogo!" gritaram algumas pessoas. "Há fogo! Fujam!"
De imediato, as pessoas começaram a correr e a ir umas contra as outras. O fumo começou a invadir o bar também, enquanto as pessoas gritavam. Leandro levou um encontrão e caiu no chão, enquanto Hugo abria caminho e Ivo o seguia. Ricardo e Elisa quase não viam nada, mas conseguiram chegar a uma saída de emergência e saíram para o exterior.
Na casa de banho, Amanda e Liliana começaram a ouvir gritos.
"Mas que raio se passa?" perguntou Amanda, abrindo a porta da casa de banho.
De imediato, imenso fumo começou a entrar na casa de banho e Amanda apressou-se a fechar a porta.
"Oh não! Há fogo!" exclamou ela, olhando para Liliana.
"Fogo? Temos de sair daqui." disse Liliana, apavorada.
"O corredor está cheio de fumo." disse Amanda. "Não íamos conseguir encontrar o caminho."
"Não quero morrer!" exclamou Liliana, começando a chorar.
"Calma. Não vamos morrer. Não vamos!" exclamou Amanda.
No bar, havia pessoas caídas no chão, a gemer. Bruno tinha sido atirado contra um dos sofás e estava a levantar-se, quando viu Leandro caído no chão, com dificuldade em levantar-se por causa do braço que tinha ao peito.
"Eu devia fugir e deixá-lo aqui pelo que ele me fez." pensou Bruno.
Bruno começou a correr para a porta de saída, mas parou.
"Bolas, não posso deixá-lo morrer. Não sou assim tão mau."
Bruno correu novamente para ao pé de Leandro e ajudou-o a levantar-se.
"Bruno..." gemeu Leandro.
"Vamos sair daqui."
Nesse momento, uma viga caiu perto deles, fazendo ambos gritar. Bruno puxou Leandro até à porta e conseguiram sair do bar.
Para Além da Adolescência
Por essa altura, Regina estava dentro do carro de um rapaz que conhecera na discoteca. Ele estava a beijar-lhe o pescoço e tentar desabotoar-lhe a blusa, quando Regina começou a ver as chamas a irromperem do bar e da discoteca.
"Não! Fogo!" exclamou ela.
"Fogo? Eu também estou em brasa, querida." disse o rapaz.
"Não é isso. Pára. Há fogo no bar!" exclamou Regina.
O rapaz parou de beijar o pescoço de Regina e olhou para o bar e discoteca, arregalando os olhos de seguida.
"Os meus amigos estão lá!" exclamou Regina, saindo do carro e começando a correr para o bar.
Para Além da Adolescência
Naquele momento, já parte da discoteca tinha ruído. Hugo, Ivo, Bruno e Leandro estavam já fora do bar, olhando para a destruição que estava a acontecer. Ricardo e Elisa chegaram perto deles.
"A Liliana ainda está lá dentro!" exclamou Ivo, olhando à sua volta.
"O quê?" perguntou Elisa.
"Ela e a Amanda foram à casa de banho. E não estão por aqui." respondeu Ivo. "Eu vou entrar e tirá-las de lá."
Ivo avançou, mas Ricardo impediu-o.
"Não. Não podes. Vais morrer se fizeres isso." disse ele.
Entretanto, Regina chegou perto dos outros.
"Pessoal, vocês estão bem?" perguntou ela.
"Estamos. Ainda bem que tu também estás bem." respondeu Elisa. "Mas a Amanda e a Liliana ainda estão lá dentro."
"O quê? Oh não!"
Na casa de banho, Amanda tinha acabado de partir a janela da casa de banho, para tentar sair, mas do outro lado existiam grades.
"Bolas, há grades do outro lado." disse ela.
"Oh não. Ah! A porta está a pegar fogo!" exclamou Liliana, assustada.
A porta da casa de banho estava fechada, mas agora começara a ser envolvida por chamas. Liliana deu um passo atrás.
"Vamos morrer, Amanda."
"Não vamos nada." disse Amanda, tentando manter a cabeça fria.
Tirou rapidamente o telemóvel da mala e depois apercebeu-se que apenas tinha o número de Regina e não tinha os números de mais nenhum dos outros. Abanou a cabeça e marcou o número.
"Espero que ela não esteja longe ou não tenha desligado o telemóvel." pensou Amanda.
Depois de dois toques, Regina atendeu.
"Amanda, estás bem?" perguntou ela.
"Claro que não, cabeça de vento. Eu e a Liliana estamos presas na casa de banho do bar. A porta está a pegar fogo e a janela tem grades. Estamos presas. Arranja maneira de nos tirar daqui!"
"Eu... eu vou tentar!" exclamou Regina. "Aguentem firme, por favor."
Regina desligou o telemóvel e falou com os outros.
"Podemos amarrar uma corda às grades e ao meu carro e usar o meu carro para arrancar as grades." disse Hugo.
"Vamos a isso!" exclamaram os outros.
Hugo correu na direcção do seu carro, sendo seguido por Regina, Ricardo, Ivo e Elisa. Bruno deixou-se ficar para trás, perto de Leandro, que agora estava sentado no chão.
Hugo chegou ao seu carro e levou-o até ao beco para onde dava a janela da casa de banho. Tanto ele, como Ricardo conheciam bem a zona à volta da discoteca, por isso sabiam onde estaria a janela. Hugo tirou uma corda do carro.
"Sempre disse que era bom ter tudo para uma emergência." disse ele. "Amarrem a corda às grades da janela. Eu amarro-a ao meu carro."
Ivo e Ricardo apressaram-se a amarrar a corda às grades da janela, enquanto Hugo fazia a mesma coisa, mas no seu carro. Amanda e Liliana viram-nos e aproximaram-se da janela.
"Até que enfim que nos vêm salvar." disse Amanda. "Já não era sem tempo."
"Aguentem só mais um bocadinho. Vamos tirar-vos daí num instante." disse Ivo.
"Eu tenho medo." disse Liliana.
"Vai correr tudo bem. Sê forte." pediu Ivo, virando-se depois para trás. "Hugo, já está."
"Ok! Cá vai!" gritou Hugo, entrando dentro do carro e começando a acelerar.
O carro fez ruídos bastante elevados, enquanto Hugo acelerava ainda mais, para tentar arrancar as grades.
"Não está a resultar." disse Elisa.
"Vamos ajudar." disse Ivo.
Ivo começou também a puxar a corda e Ricardo, Regina e Elisa apressaram-se a ajudá-lo.
"Vá lá pessoal, rápido." pediu Amanda, impaciente.
Nesse momento, a porta da casa de banho ruiu e imenso fumo começou a entrar na casa de banho. Liliana soltou um grito de pavor.
"Não! Amanda! Vamos morrer!" gritou ela.
No momento seguinte, cambaleou e caiu para trás, desmaiada. Amanda conseguiu agarrá-la antes dela cair ao chão.
"Oh, maravilha. Agora desmaiou." disse Amanda, de maneira sarcástica. "O que é que mais pode correr mal? Despachem-se senão morremos queimadas ou por inalação de fumo e eu volto como fantasma para vos chatear a cabeça!"
Com um solavanco, o carro deu um puxão em frente e as grades foram arrancadas. Ivo e os outros afastaram-se rapidamente, para não serem atingidos por elas. Quando as grades já estavam no chão e Hugo tinha parado o carro, os outros correram para a janela.
"A Liliana desmaiou. Ajudem-me a passá-la pela janela." pediu Amanda. "Está muito fumo aqui."
Ivo tirou os bocados de vidro que ainda estavam na janela e saltou para dentro da casa de banho. Ajudou Amanda a elevar Liliana e do lado de fora da janela, Ricardo, Elisa e Regina pegaram nela. Depois Amanda saltou pela janela e Ivo também, de volta à rua. Amanda respirou fundo.
"Uf, ar puro." disse ela, aliviada.
O grupo começou a ouvir as sirenes dos bombeiros. Ivo ajoelhou-se ao pé de Liliana.
"Liliana, estás a ouvir? Acorda." pediu ele.
"Ela está só desmaiada. Vai acabar por despertar." disse Amanda.
"Vamos sair daqui." disse Elisa.
Hugo estava já a recolher a corda. Ricardo e Ivo transportaram Liliana e puseram-na no banco detrás do carro. Depois Hugo arrancou e levou o carro até à parte da frente do bar, onde as pessoas estavam reunidas, enquanto os bombeiros já se apressavam a apagar o fogo. Os outros seguiram Hugo. Não tardou também a aparecerem duas ambulâncias e a policia.
Os amigos mantiveram-se sempre perto do carro de Hugo. Bruno pediu a um dos paramédicos para examinar Leandro e depois Ivo foi chamar outro para examinar Liliana.
"Ela está só desmaiada. Não parece ter ferimentos e está a respirar normalmente, pelo que não deve ter inalado muito fumo." disse o paramédico. "Podem estar descansados."
Quando os bombeiros conseguiram apagar o fogo, já só restavam destroços do bar e da discoteca. Liliana acordou e todos lhe perguntaram se estava bem.
"Sim, estou bem. Mas estava com tanto medo de morrer." respondeu ela.
"O pessoal salvou-nos." disse Amanda. "Mas acho que agora vou deixar de sair à noite por uns tempos."
Os outros concordaram. Leandro tinha sido examinado pelo paramédico, que lhe dissera que ele estava bem, mas o proibira de fazer esforços, para não piorar a condição das costelas e do braço partido.
"Mas não posso contar ao meu pai que quase morri encurralada na casa de banho." disse Liliana. "Ainda lhe dá uma coisa má e nunca mais me deixa sair à noite. Já vai ser mau quando ele souber que foi tudo queimado, quanto mais se sonhar que eu corri mesmo perigo de vida."
A polícia começou a interrogar as pessoas, mas rapidamente concluiu que ninguém sabia nada sobre a situação ou se sabia, não dizia. Às três da manhã, o pai de Liliana apareceu para a ir buscar e ao saber do que tinha acontecido, ficou super aflito, até a filha lhe assegurar, pela centésima vez, que estava tudo bem.
"Vamos para casa." disse o pai de Liliana. "Quando contar isto à tua mãe, ela vai ficar chocada. Onde já se viu, acontecer uma coisa destas?"
O pai de Liliana continuou a falar sem parar até entrarem os dois no carro e partirem. Nem tinha reparado em nenhum dos amigos de Liliana, só se preocupando com a filha.
"Vamos embora também." disse Amanda. "Estou mesmo cansada."
"Posso levar-te a casa?" perguntou Hugo.
"Levar-me a casa? Sim, parece-me bem."
Pouco depois, Amanda e Hugo tinham partido também.
"Elisa, eu vou levar-te a casa também." disse Ricardo.
"Não é preciso." disse Elisa. "A minha casa fica longe da tua."
"Não importa. Faço questão de ir contigo."
Elisa sorriu-lhe e depois de se despedirem dos outros, também eles foram embora, deixando Regina, Leandro, Ivo e Bruno para trás.
"Bom, acho melhor irmos levar-te a casa, Leandro." disse Regina. "Para não ires sozinho. Depois eu e o Ivo vamos para casa juntos, porque moramos perto um do outro."
"Não vai ser necessário. Eu vou levá-lo a casa." disse Bruno.
Leandro, Regina e Ivo olharam para ele, surpreendidos.
"Tu sentes-te bem?" perguntou Regina. "Deves ter inalado muito fumo e deu-te a volta à cabeça."
"Eu estou completamente bem." disse Bruno. "Apenas tenho de falar com o Leandro, por isso podemos falar pelo caminho. Vamos?"
Leandro hesitou, mas acabou por acenar afirmativamente.
"Ok, então vá, começa a andar, porque eu não faço ideia onde moras." disse Bruno.
Leandro revirou os olhos, despediu-se dos outros e começou a caminhar rua abaixo, com Bruno a seu lado. Regina e Ivo seguiram o seu caminho também.
"Foi uma noite complicada." disse Regina. "Quem é que haveria de adivinhar que isto ia acontecer?"
"É verdade. Bolas, escapámos por pouco. Mas houve pessoas que não tiveram a mesma sorte." disse Ivo.
Os bombeiros ainda estavam a fazer buscas no local e já tinham encontrado seis mortos até aquele momento.
"Eu estava no carro de... um rapaz qualquer que já nem me lembro o nome, quando vi o fogo." disse Regina. "Tive medo por vocês, mas pelo menos não passei pela experiência de ter de fugir do bar ou da discoteca."
"Foi complicado, as pessoas a gritar e as coisas a arder. Mas o que me custou mais foi pensar que a Liliana podia morrer, porque estava encurralada na casa de banho." disse Ivo. "Felizmente ficou tudo bem com ela."
Enquanto isso, Leandro e Bruno caminhavam em direcção à casa de Leandro.
"Porque é que me quiseste vir trazer a casa?" perguntou Leandro.
"Primeiro, porque não é seguro andares na rua a esta hora sozinho, principalmente com um braço ao peito e sem te conseguires defender." respondeu Bruno.
"A Regina e o Ivo teriam vindo comigo. Eles ofereceram-se."
"E como eu disse também, tínhamos de falar." disse Bruno. "Sobre o que aconteceu esta noite."
Leandro suspirou.
"Salvaste-me a vida, outra vez." disse Leandro. "Primeiro chamaste a ambulância, quando eu fui espancado e agora ajudaste-me a sair do bar, quando eu tinha caído e não me estava a conseguir levantar."
"Bem, é verdade que realmente te salvei a vida..."
"Porquê?" perguntou Leandro, encarando Bruno. "Porque é que me salvaste, se me odeias?"
"Eu não te odeio. E mesmo que odiasse, não te ia deixar morrer ali." respondeu Bruno. "Eu... tenho de te pedir desculpa pelo meu comportamento hoje. Tu ajudaste-me para eu não levar porrada e depois eu ainda te tratei mal."
"Mas depois eu vinguei-me e disse a verdade àquele rapaz." disse Leandro.
"Sim, é verdade, mas eu mereci. Ok, eu fiquei muito zangado, por teres fingido que eu era gay, mas depois percebi, quando disseste a verdade e aquele rapaz veio a correr atrás de mim, que se não tivesses mentido, ele teria logo tentado bater-me. Mas tu tinhas evitado isso e eu fui ingrato." disse Bruno. "Claro que fiquei irritado quando disseste a verdade ao rapaz e ele veio atrás de mim, mas agora a irritação passou. Vingaste-te e se fosse eu, fazia o mesmo. Ainda bem que eu o consegui despistar, senão agora estava feito em papa."
Leandro e Bruno riram-se.
"Será que alguma vez nos conseguiremos dar bem?" perguntou Leandro.
"Talvez sim, talvez não. Mas eu sou como sou. Sou implicativo, precipitado e às vezes estúpido, é verdade. E acho difícil isso mudar." disse Bruno. "Mas vou tentar não ser tão discriminatório."
"Enfim, acho que isso já é alguma coisa." disse Leandro, suspirando. "Mas eu também não posso mudar o que sou. Se tivermos de nos dar bem algumas vezes e mal outras, que seja."
Pouco depois, os dois chegaram ao prédio onde Leandro vivia com a sua família. Leandro agradeceu a Bruno por o ter acompanhado a casa e entrou no prédio. Bruno seguiu o seu caminho até casa, enquanto estava pensativo.
"Bom, considerando que salvei a vida dele hoje, será que isto faz com que se anule o que fiz, quando lhe bati e fiz com que ele partisse o braço e as costelas?" perguntou-se Bruno. "Espero que sim."
Em pouco tempo, Bruno estava a chegar à sua casa.
"Esta noite é realmente para esquecer. Ainda bem que sou resistente ao álcool, senão nem tinha conseguido chegar a casa. E ainda por cima, fui rejeitado a torto e a direito. Não tenho sorte nenhuma."
Para Além da Adolescência
Passaram rapidamente duas semanas desde o incidente da discoteca. Ao todo, tinham sido encontradas dezasseis vítimas mortais. Porém, talvez por justiça divina, uma semana depois daquela noite fatídica, os dois homens que tinham pegado fogo ao bar e discoteca sofreram um acidente de carro, sendo abalroados por um camião e ambos morreram. A discoteca do patrão de ambos ruiu completamente com um inesperado sismo que acontecera de dia, pelo que ninguém tinha morrido nesse incidente.
Os alunos receberam a nota do seu trabalho de inglês. Elisa e Ricardo, Liliana e Ivo tinham tido óptimas notas no trabalho, enquanto Leandro e Bruno, Regina e Amanda tinham tido uma nota razoável.
O grupo de teatro da escola tinha escolhido uma nova peça e, para surpresa de todos, Liliana tinha pedido para ter um papel com muitas falas, quando a professora já pensara dar-lhe um papel quase insignificante. Ricardo estava a terminar a sua formação e começaria logo de seguida a trabalhar no call center.
Elisa e Ricardo andavam agora sempre juntos e o namoro estava a correr bastante bem. Por seu lado, Amanda encontrava-se várias vezes com Hugo e estava contente por alguém estar interessado nela. Já Delfina, que tinha decidido subir na vida, seguira um plano nessas duas semanas.
Nessa tarde, já passava das seis e meia, quando Linda ia para sair, levando o pequeno Tomás consigo.
"Pronto, vamos embora então." disse ela. "Não vem, Delfina?"
"Eu vou ficar mais uns minutos. Tenho... umas coisas para fazer. Até amanhã." disse Delfina, tentando despachar Linda.
"Está bem. Até amanhã." disse ela. "Anda Tomás."
Tomás seguiu a mãe e foram embora. Delfina olhou à sua volta. Não parecia haver mais ninguém no edifício. Pegou na sua mala e foi rapidamente até à porta das traseiras e abriu-a. Um rapaz entrou por lá.
"Então, tem o que combinámos?" perguntou ele.
"Tenho. E tu, tens o dinheiro?" perguntou Delfina.
O rapaz pegou na carteira e mostrou a Delfina algumas notas. Delfina sorriu.
"Óptimo." disse ela, remexendo na sua mala. Tirou de lá duas folhas de papel e estendeu-as ao rapaz. "Aqui está."
O rapaz pegou nas folhas de papel e deu a Delfina as notas.
"Ok, parece que é mesmo o teste do professor Francisco. Boa." disse o rapaz, satisfeito.
"Foi um prazer fazer negócio contigo. Agora, põe-te a andar daqui antes que alguém apareça e nos veja aqui." disse Delfina.
O rapaz acenou afirmativamente e foi-se embora, enquanto Delfina punha as notas dentro da carteira.
"Esta ideia de conseguir os testes dos professores e depois, sem eles saberem, os vender aos alunos é uma maravilha." pensou Delfina. "Devia ter pensado nisto antes. Tenho acesso à sala dos professores e não foi difícil ter acessos aos testes. Agora os alunos pagam-me para eu lhes arranjar cópias. Eles têm boas notas e eu vou ficando com mais dinheiro. Sou tão inteligente!"
Delfina riu-se alto.
"Desde que ninguém descubra, está tudo bem para o meu lado." pensou ela.
Para Além da Adolescência
No dia seguinte, sexta-feira à tarde, havia um jogo de futebol entre a escola Santa Marta das Carumas e a escola José Pelicano de Marmotas. Como tinham a tarde livre, os amigos decidiram ir ver Ivo e Bruno jogar e Amanda estava também interessada em ver como Hugo se saía no jogo.
O grupo sentou-se nas bancadas que ficavam em frente do campo de futebol. Amanda aproveitou para retocar a maquilhagem, enquanto Regina falava animadamente com Liliana e Elisa. Ricardo e Leandro estavam a trocar impressões sobre futebol.
"Nem sabia que os gays gostavam de futebol. Pensei que não." disse Ricardo.
"Isso não tem nada a ver com a sexualidade da pessoa. Há quem goste e quem não goste de futebol. Eu gosto. Não sei jogar muito bem, mas gosto do desporto." disse Leandro.
Regina parou a conversa que estava a ter e riu-se.
"Isso e ficares a olhar para os rapazes a correr." disse ela.
Leandro tossiu e corou um pouco.
"Deixa lá que eu faço o mesmo." disse Regina. "São uns pães. Não concordas, Elisa?"
"Eu só tenho olhos para o Ricardo." respondeu Elisa, olhando para o namorado.
Ricardo sorriu-lhe e de seguida beijou-a. Amanda revirou os olhos.
"Pelo amor de Deus! Vocês não se largam? Credo, estão sempre aos beijos. Até enerva. Ainda bem que realmente o Ricardo não é meu namorado. Eu não tinha paciência para estar sempre colada a ele." disse ela.
"Ah, eu acho-os tão românticos." disse Liliana, sorrindo e olhando para Elisa e Ricardo a beijarem-se. "Também queria um namorado muito querido para mim..."
"Também não me importava." disse Regina. "Se bem que talvez me cansasse dele. Mas pronto, não me importava de ter um namorado querido. Já somos duas, Liliana."
"Três." acrescentou Leandro, sorrindo.
Ricardo e Elisa quebraram o beijo, mas continuaram a sorrir um para o outro.
"Olhem, vai começar o jogo!" exclamou Regina. "Força Ivo! Estamos contigo!"
Ivo, que já estava no campo, acenou aos outros, sorrindo. Bruno revirou os olhos e concentrou-se na ideia de que tinha de marcar golos. Hugo, já no campo também, acenou a Amanda, que lhe retribuiu o aceno.
"Está caidinho por mim." pensou ela. "O que até não é nada mau."
O jogo começou e a equipa da escola adversária quase marcou logo um golo. Depois, a equipa da escola de Santa Marta avançou e Bruno acabou por conseguir marcar um golo, o que fez com que os alunos da escola explodissem em aplausos.
"Estamos a ganhar!" exclamou Regina. "Boa!"
"O Bruno pode até nem ser a melhor pessoa de sempre, mas ao menos sabe jogar bem." disse Leandro.
O jogo continuou. Ivo, que estava à defesa, conseguiu bloquear os avanços de alguns jogadores da equipa adversária. Seguiu-se mais um golo da equipa da escola de Santa Marta, desta vez marcado por Hugo e depois os minutos passaram com investidas de ambos os lados, mas sem mais golos. No final da partida, os alunos da escola de Santa Marta estavam satisfeitos.
"Foi um bom jogo." disse Ricardo.
"Tens pena de não estares a jogar na equipa, não tens?" perguntou Elisa.
"Sim, é verdade. Mas nem sempre podemos fazer o que queremos e neste caso havia coisas mais importantes que o futebol." disse Ricardo.
Os amigos ficaram à espera que Bruno, Ivo e Hugo tomassem banho e se vestissem e quando eles saíram do balneário, felicitaram-nos.
"Viram o golo que eu marquei? Em grande estilo, heim?" perguntou Bruno.
"Foi realmente bom." disse Elisa. "Olha, até tirei algumas fotos com a minha máquina e tudo."
Elisa mostrou as fotos que tinha tirado durante o jogo a todos. Depois, acabaram por ir até ao café em frente à escola, para comerem e beberem alguma coisa e conversarem.
Na semana seguinte, depois das aulas terminarem, Ivo decidiu levar Liliana a casa e ela aceitou. Enquanto iam a caminho, aconteceu algo de que nenhum estava à espera. Um rapaz negro passou a correr e puxou a mochila de Liliana. Ela foi atirada ao chão.
"Ai!" gritou ela. "Ele roubou-me!"
Ivo hesitou, mas ao ver que Liliana estava bem, foi a correr atrás do rapaz. Uma velhota que ia a passar ajudou Liliana a levantar-se. Ivo conseguiu chegar até ao rapaz e recuperar a mochila, mas depois o rapaz desenvencilhou-se de Ivo e conseguiu fugir. Ivo regressou para perto de Liliana.
"Consegui recuperar a mochila, mas ele fugiu." disse Ivo.
Liliana, apesar de um pouco pálida, tinha apenas uns arranhões.
"Obrigada." disse ela, pegando na mochila. "Tinha a minha carteira na mochila. Fico-te muito agradecida, Ivo."
"Estes jovens são uma vergonha." disse a velhota. "Uns ladrões, é o que são! Já não se pode ir a andar descansado na rua, pois podemos ser roubados. Era um preto, por isso vê-se logo que é má raça. Não estaria você combinado com ele?"
A velhota lançou um olhar zangado a Ivo.
"Não. Eu nem o conhecia." defendeu-se Ivo.
"Ah, vocês os pretos conhecem-se todos." disse a velhota. "É uma vergonha virem para aqui roubar os outros."
"O meu amigo não fez nada. Não viu que ele me ajudou?" perguntou Liliana, aborrecida. "Lá por ter sido outro rapaz negro a tentar roubar-me, não faz de todos más pessoas."
"Ó minha querida, eu tenho mais experiência que você. Vá por mim e afaste-se desse rapaz." avisou a velhota.
"Pois eu não quero saber da sua experiência para nada. Anda Ivo, vamos embora."
Liliana pegou na mão de Ivo e arrastou-o dali. Quando já tinham deixado a velhota para trás, Liliana suspirou.
"Desculpa teres ouvido o que aquela velhota disse." disse Liliana. "Foi muito mal-educada."
"Não importa. Já estou habituado." disse Ivo, encolhendo os ombros. "Não é a primeira vez que me descriminam pela minha cor e de certeza que não será também a última."
"Oh, Ivo... mas não te deixes afectar." disse Liliana. "Tu és boa pessoa. A mim não me importa se tens um tom de pele diferente. O que interessa é o que está dentro de nós e não o exterior."
"Obrigado Liliana." disse Ivo, sorrindo-lhe.
"És meu amigo e nunca vais deixar de o ser, muito menos pela tua cor de pele. Podes sempre contar comigo." disse Liliana. "E mais uma vez, obrigada. Se não fosses tu, o ladrão tinha-me levado a mochila."
Ivo sorriu-lhe e depois reparou que continuavam de mãos dadas e corou um pouco. Só largaram as mãos quando chegaram à porta do apartamento onde Liliana vivia.
"Obrigada por me teres vindo trazer a casa. Até amanhã." despediu-se Liliana.
Ivo viu-a entrar no apartamento e suspirou.
"Ela é perfeita. Tão meiga e querida." pensou ele. "Cada vez gosto mais dela."
Continua…
