DIA 10

- ONIX CONTRA YAMI -

Quatro figuras surgiram na Távola Redonda. Milnuxos se voltou para Asïx.

Milnuxos: Como estão indo os planos?

Asïx: Boa parte deles está tendo avanços satisfatórios. Alex seguirá para o Castelo do Esquecimento esta manhã.

Braxig se intrometeu.

Braxig: E, é claro, a boneca de fato é brilhante. A aniquilação do Xeven foi mesmo uma pena, como dizem.

Braxig abriu um largo sorriso. Asïx pareceu indiferente.

Asïx: Seus estudos estão todos seguros. Tudo foi registrado. Até agora, não houve nenhum problema.

De braços cruzados, Dilxan encarou Asïx.

Dilxan: E o que você fará quando houver um problema? Existem possibilidades que estão fora do seu controle.

Asïx: Ora, está insinuando que eu fui responsável pelo que aconteceu àqueles que foram destruídos pelo herói e seus amigos? Isso realmente me magoaria.

Braxig: Destruídos pelo herói, é?

Braxig deu uma risada, como se tentasse provoca-lo. Asïx apenas o ignorou.

Asïx: Edmyx e Doxulr me informaram que alguém vestido com o nosso casaco tem aparecido pelos mundos.

Dilxan: Eles tem certeza disso?

Asïx: Com certeza ou não, devemos investigar.

Milnuxos imediatamente se impôs.

Milnuxos: Envie a Onix.

Braxig deu de ombros.

Braxig: Qual é o sentido de enviar a Onix? Há uma chance do impostor ser, como dizem, um dos braços direitos do herói, não é mesmo? Vocês sequer têm uma pista da localização do herói?

Asïx respondeu quietamente. Não havia qualquer expressão estampada em seu rosto.

Asïx: Doxulr está vasculhando os mundos, mas ainda não o encontrou. E Alex foi enviado ao Castelo do Esquecimento para que pudesse buscar pistas sobre o herói e seus amigos.

Braxig cruzou as pernas, repousando seus cotovelos.

Braxig: O Alex, huh...

Dilxan: Enfim, como pode haver alguém vestindo o nosso casaco? Era para que todos eles estivessem sob nossos cuidados, até mesmo os reservas. Nos deveria ter sido relatado que algum desapareceu.

Asïx deu um pesado suspiro. Fora a única reação que ele havia demonstrado naquela reunião.

Asïx: Ainda não recebemos uma confirmação quanto aos dos membros do Castelo do Esquecimento. Vou pedir para que o Alex também investigue sobre isso.

Braxig balançava sua perna cruzada.

Braxig: Alex isso, Alex aquilo... vocês são mesmo os maiores amigos, heim? O que será que ficam tramando juntos?

Asïx: Agora que você mencionou, eu me pergunto o mesmo sobre você.

Com as palavras de Asïx, a atmosfera na sala congelou. Milnuxos se voltou para Asïx.

Milnuxos: Nós temos o nosso objetivo. Não se esqueça disso.

Asïx o encarou.

Milnuxos: Quero que fique de olho na Onix. Dessa forma, você também poderá descobrir mais sobre o herói.

Com suas ordens, Milnuxos desapareceu.

{ . . . }

Eu sonhei de novo. No meu sonho,

havia um lindo oceano... e eu

podia ouvir o som das ondas o tempo

todo. Será que eram as Ilhas do Destino?

Parando pra pensar, também dá pra

ver o oceano lá da Cidade Crepuscular.

Onix se levantou da cama, arrumou-se, e deixou seu quarto. Ela chegou um pouco mais tarde que de costume — já não havia ninguém do salão a não ser Asïx e Braxig. Onix foi até Asïx, que a encarou.

Onix: Bom dia. Qual é a missão de hoje?

Asïx: Fomos informados de que alguém está vestindo o casaco da Organização. Vá investigar.

Onix: E para onde eu vou?

Asïx: Agrabah, para começar.

Onix: Para começar...?

Asïx: Essa pessoa foi vista em vários mundos. Na verdade, ainda não sabemos ao certo se trata-se apenas de uma mesma pessoa. Também ainda não temos maiores informações quanto aos mundos nos quais esta pessoa apareceu.

Onix: Se encontrá-lo, devo eliminá-lo?

Asïx: Não, você deve descobrir que tipo de ser é este nosso amigo. Capture-o, se poder. Não o elimine.

Onix consentiu.

Onix: Entendido.

Braxig, que observava a conversa de braços cruzados, se aproximou.

Braxig: Você tem mesmo trabalhado bem ultimamente, né não, boneca?

Onix respondeu numa baixa voz.

Onix: — Obrigada.

Braxig: Obrigada? Cê não tem que agradecer.

Onix: Ora, mas você estava me elogiando, não estava? Eu estou errada?

Braxig: Ha, ha... nah, acho que se pode ver dessa forma.

Ele levou uma mão até a boca para conter um riso.

Onix: Eu disse algo engraçado?

Braxig: Não, não. Você tá ótima.

Onix encarou Braxig, ansiosa. Ao lado deles, Asïx não expressava nenhuma reação notável. Ele apenas observava.

{ . . . }

Enquanto isso, Lexci se encontrava no Castelo da Fera, junto a Dilxan. As diversas marcas de garras espalhadas pelo castelo diziam muito sobre a violência da batalha que a fera travava com os Sem-Corações. Mas — algo veio a cabeça de Lexci. Ele resolveu perguntar a Dilxan.

Lexci: Por que a fera luta? O que ele ganha com isso?

Dilxan: Se eu tivesse as respostas, não estaria aqui ouvindo suas perguntas.

Os dois conversavam enquanto subiam as escadas do grande salão. A porta logo ao topo das escadas levava ao salão de bailes. Abrindo a porta, Dilxan foi até o centro do salão. Ele olhou ao redor.

Dilxan: Mas que belo salão de bailes. Não é lugar para uma criatura tão repugnante quanto o nosso anfitrião... e parece que ele concorda comigo.

Lexci: O que te faz pensar isso?

Dilxan abriu um breve sorriso.

Dilxan: Parecem ter Sem-Corações por aqui, também, mas não vejo qualquer traço de um confronto. Posso apenas assumir que isso signifique que ele está evitando este lugar.

O que será que isso quer dizer?

Deixando o salão de bailes e subindo as escadas a esquerda, Lexci parecia continuar pensativo.

Dilxan: Espere — tem algo ali.

Talvez porque pensasse enquanto caminhava, Lexci se surpreendeu quando Dilxan o deteve. No corredor ao topo das escadas, havia um relógio perambulando.

Será o mesmo tipo de coisa que o

candelabro que eu vi antes?

?: Mais um dia em que o amo está a espreita pelo castelo, caçando aquelas criaturas... desse jeito, ele vai acabar passando o dia inteirinho sem ao menos falar com a Bela... de novo. Isso não pode continuar desse jeito... estamos ficando sem tempo.

O relógio falante parecia preocupado, murmurando consigo mesmo enquanto perambulava pelo corredor. De forma inconsciente, Lexci abaixou o olhar.

Lexci: Estão ficando sem tempo pra quê?

Dilxan: Ah, não percebe? Este é um dos residentes do castelo. E, como a fera, já foi um humano.

Lexci: A fera já foi um humano?

Dilxan: Sim... eu suspeito que um feitiço tenha sido lançado sobre ele para deixa-lo nesta forma. O mesmo deve ter ocorrido com o resto do castelo. E pelo que parece, esse feitiço veio com um tempo limite.

Lexci: O que acontece quando o tempo terminar?

Dilxan: Quem liga? Vamos continuar com a nossa busca.

Os dois voltaram a sua investigação.

É verdade, eu já passei por

esse corredor antes.

Correndo pelo corredor para que não fossem vistos pelo relógio, eles subiram mais escadas. Naquele lugar, havia muitas salas, e uma luz vinha da mais distante. Parecia que havia uma brecha na porta.

Dilxan: Uhm, sinto que possa haver alguém lá dentro. Seja lá quem for, deve ser importante para receber acomodações tão boas quanto às do amo. Dê uma olhada para ver quem é, Lexci.

Consentindo, Lexci espiou o quarto pela brecha na porta. Dentro do mesmo, havia uma mulher humana. Ela era a primeira humana que ele vira neste mundo.

?: Será que ele está perseguindo aquelas horríveis criaturas de novo? Ele tem feito isso todo dia, há semanas...

A mulher andava pelo quarto, perdida em pensamentos. Dilxan se aproximou de Lexci, também espiando pela porta.

Dilxan: Ohh... uma humana... bem quando eu começava a pensar que esse castelo só tinha aberrações e mobilha — ela deve ser a Bela.

Lexci se voltou para ele.

Lexci: Como você sabe?

Dilxan: Todos os servos falam muito sobre ela. Apenas acho adequado que alguém tão bem conceituado recebesse alojamentos de tão alto nível.

Lexci: Ela é bonita, né?

Bela de fato era uma mulher muito bonita. E, naquele castelo turvo e cheio de poeira, impregnado por um cheiro de mofo, apenas aquele quarto parecia cheirar bem, de certa forma.

Dilxan: Lexci — você se lembra o caminho para o quarto da fera, não?

Lexci: Acho que sim.

Dilxan: Então me leve lá.

Dilxan deu a volta, e Lexci o seguiu.

{ . . . }

Onix caminhava pela cidade de Agrabah.

Onix: — Nada aqui...

A ofuscante luz do sol refletia pelo chão.

Só falta olhar dentro da caverna.

Será que tem mesmo um

impostor da Organização por aí?

Onix: Tá tão quente...

Se eu pudesse, eu adoraria tirar esse casaco.

Eu ouvi que os casacos da Organização

são coisas especiais que protegem os nossos

corpos da escuridão. Então, eu devo mantê-lo no

meu corpo, ou pelo menos é o que o Asïx me

disse. Porque, se eu tirá-lo, eu serei consumida

pela escuridão. Mas o que é a escuridão?

O coração — e a escuridão. Tem tantas coisas

que eu ainda não consigo compreender.

Voltando-se para a caverna, Onix sentiu suas pernas vacilarem.

Onix: Huh —

Onix caiu contra uma parede, sentindo que seu corpo parecia sucumbir. Por um segundo, ela sentiu algo acelerar dentro de seu peito.

Será que isso... é um tipo

de memória? Quem é você...?

{ . . . }

Lexci e Dilxan se encontravam diante do quarto da fera.

Dilxan: Então é este o quarto da fera?

Lexci: Aham. Eu vou dar uma olhada lá dentro...

Lexci abriu quietamente a porta, e deu uma olhada. As cortinas estavam em retalhos, e as paredes estavam marcadas com grandes arranhões. Aquele quarto parecia terrivelmente violento, mas a fera não estava lá. E aos fundos, numa mesa iluminada pela luz do luar, havia uma rosa vermelha num recipiente de vidro.

— Uma rosa?

Lexci: Huh?

Naquele momento, diante dos olhos de Lexci — que continuava a espiar — uma névoa negra se formou no interior do quarto, e Dilxan surgiu de dentro dela. Parecia que, sabendo que a fera não estava lá, ele entrou usando um Corredor das Trevas. Dilxan observava a rosa fixamente. Ele murmurou.

Dilxan: Ora, ora... essa rosa — eu sinto um grande poder nela. A fera realmente deve estima-la.

Dilxan se virou, seguindo para fora do quarto.

Dilxan: Vamos RAC.

Ele passou diretamente por Lexci, que encarou suas costas.

Lexci: Tem certeza?

Dilxan: Por que não teria?

Lexci: Ora — não temos que investigar um pouco mais?

Dilxan: Bem... já fizemos umas boas descobertas, não acha?

Lexci: Se refere àquela moça?

Dilxan: Moça? Oh, está falando da Bela. Ela certamente parece estar conectada à fera de alguma forma. Mas a rosa que acabamos de ver é muito mais importante. Diga-me, Lexci — o que você acha?

Lexci: Ela parecia importante pra ele. E ele obviamente cuida muito bem dela.

Ela estava dentro de um recipiente de vidro,

numa mesa lá no fundo do quarto. E eu

meio que senti como se apenas aquele lugar

tivesse um certo brilho, como se fosse especial.

Dilxan: Precisamente, Lexci. Aquela rosa não é como qualquer outra. Para ele, pelo menos, ela parece ter mais valor do que qualquer outra coisa no castelo. Você viu o quarto. Estava em trapos — exceto por um canto.

Lexci: Talvez seja por isso que ele está lutando com os Sem-Corações. Será que ele quer proteger a rosa?

Dilxan: Mas é claro. Há um estranho poder ao redor dela... os Sem-Corações são atraídos por tal poder.

Lexci: Então sua luta está longe de acabar...

Lexci parecia perdido em pensamentos.

Eu não entendo — por que a

fera lutaria por uma coisinha assim?

Dilxan: Nosso trabalho aqui está feito, Lexci. A fraqueza da fera está clara.

Lexci: Está?

Dilxan: Estimar tanto alguma coisa te deixa à mercê da mesma. O coração dele é escravo da rosa, não vê? E isso, Lexci, é uma grande fraqueza.

Lexci: Não sei se estou captando.

Eu entendo cada vez menos as

coisas que o Dilxan diz.

Dilxan: E nem deveria. Você não tem um coração para amar. Vem. Vamos retornar.

Dilxan voltou a caminhar, e Lexci o seguiu.

{ . . . }

Na Cidade Crepuscular, Onix observava vagamente ao pôr-do-sol. No fim, ela não havia conseguido encontrar a pessoa com o casaco da Organização.

É um pouco cansativo, procurar

por algo que você não

tem nem certeza de que exista.

?: Você chegou cedo.

Ouvindo a voz atrás de si, Onix se virou. Lá estava Lexci, com um picolé em mãos. Um sorriso se formou em seus lábios.

Onix: O trabalho de hoje foi fácil.

Lexci: Acho que o Alex ainda tá naquela missão confidencial, huh?

Num breve murmuro, Lexci se sentou ao lado de Onix, começando a tomar seu picolé. Onix já havia terminado o seu.

Onix: E então, pra onde te mandaram, Lexci?

Lexci: Pro Castelo da Fera, com o Dilxan.

Pela expressão em seu rosto, ele pareceu ter se lembrado de algo, e logo se voltou para Onix.

Lexci: Você se lembra do amo do castelo, Onix?

Onix: Aham, a fera que a gente viu.

Lexci e eu fomos para o Castelo

da Fera juntos, numa missão.

Lexci: Bem, você estava certa. Ele quer mesmo proteger alguma coisa. Algo com o que ele se importa muito. Mas o Dilxan disse que isso é uma fraqueza.

Onix: Por que se importar com algo seria uma fraqueza?

Lexci abaixou o olhar.

Lexci: Eu não sei. Também não entendi.

Tem tantas coisas que nem eu e nem o Lexci

entendemos. Se o Alex estivesse

aqui, tenho certeza que ele nos explicaria.

Onix: Espero que o Alex volte logo...

Diante das palavras de Onix, Lexci consentiu.

Quando o Alex voltar, eu quero

perguntar um monte de coisas pra ele.

{ . . . }

Alex andava pelo Castelo do Esquecimento. Não fazia muito tempo desde a última vez que estivera ali, mas o interior do castelo havia mudado drasticamente. Os corredores e salas continuavam sendo feitos de rocha branca, assim como eram antes, mas suas combinações e as distâncias entre eles havia mudado.

Eu sei que as salas desse castelo mudam de

acordo com as memórias. Então de quem serão as

memórias que as estão fazendo mudar, agora?

Alex: Que saco...

Sussurrando, Alex olhou para o teto.

Eu já estou preso aqui há um bom

tempo, sem nada além de Penumbras pra

me fazer companhia. Já até estou

falando comigo mesmo. Esse castelo,

completamente vazio, está sob o controle

de Incorpóreos subordinados. Esses

Incorpóreos subordinados seguem

ordens com toda a lealdade, mas não

podem fazer nada além disso. A maior das

diferenças entre esses Incorpóreos e os

membros da Organização é que nós

podemos pensar por nós mesmos... bem,

na verdade eu não sei dizer ao certo o

que é "pensar". Será que há um tipo de

conexão entre "pensamento" e "coração"?

Alex: Argh, isso é um saco dos grandes...

Alex coçou a cabeça, e continuou com sua busca pelo castelo.

{ . . . }

?: Ainda não o encontrou?

Onix abaixou a cabeça — ela e Asïx eram os únicos no salão.

Onix: Sinto muito...

Nos últimos dias, eu tenho saído

diariamente, indo procurar por todos os

mundos, mas ainda não consegui

encontrar o impostor da Organização.

Asïx: E além disso, perdeu a hora porque dormiu demais...

Onix: — É que... eu não tenho dormido... muito bem, ultimamente... então...

Não é novidade, e definitivamente não é a

primeira vez que acontece, mas eu não

tenho conseguido dormir direito à noite. Eu

sonho. Na verdade, eu sonho o tempo todo, todo

dia. Talvez seja por causa disso... até durante

o dia, eu me sinto como um zumbi, e às

vezes sinto que estou prestes a desmaiar.

Asïx: Eu já disse — dormir apropriadamente também é uma missão.

Desde anteontem, eu tenho procurado

em dois mundos por dia. Mas mesmo assim,

ainda não consegui encontra-lo. O Asïx é tão

cruel, me criticando dessa maneira.

Asïx: Suas ordens de procurar pelo impostor da Organização vieram diretamente do Lorde Milnuxos. Se você não encontra-lo, estará desacatando as ordens dele. Está me entendendo, não é?

Onix: Uh-huh...

Eu não acredito que minha missão tenha sido

decidida por ordens do Milnuxos. Eu ouvi

dizer que é o Asïx quem determina as missões.

Asïx: Se é assim, então vá logo procurar por ele.

Asïx virou as costas para Onix, deixando o salão. Sozinha naquela grande sala, Onix abaixou a cabeça.

{ . . . }

Lexci havia seguido para um novo mundo. Era um lugar estranho e um tanto obscuro, apesar a grande lua que o cobria — a Cidade do Halloween. Tochas que queimavam numa tênue luz estavam dispersas aqui e ali, e a atmosfera do lugar era de suspense.

Lexci: Que mundo estranho...

Não vejo ninguém que me

pareça ser um civil.

Seguindo em frente, ele chegou num espaço aberto, aonde havia um grande dispositivo que parecia servir para uma certa função.

Lexci: O que é essa coisa?

No momento em que Lexci ergueu o olhar para analisar dispositivo, alguma coisa caiu de um ponto acima de sua cabeça, passando rapidamente na frente de seus olhos.

Lexci: Waah!

Era uma enorme lâmina, que parecia capaz de cortar um corpo humano em dois sem a menor dificuldade.

Lexci: Isso é perigoso... mas por que alguém deixaria uma coisa dessas por aqui?

Lexci inclinou a cabeça — e um morcego passou voando sobre ele.

{ . . . }

Onix havia seguido para o Castelo da Fera.

Parece que o impostor da Organização

está viajando de mundo em mundo.

Para humanos normais, o mundo no qual

cada um deve viver é fixo. Em outros

mundos, esse impostor da Organização

não é um humano normal. Mas isso é tudo

o que eu sei. Asïx me passou todas as

informações que as Penumbras

testemunharam, mas eu não consigo

imaginar que tipo de pessoa é o

meu oponente contando só com isso.

Seguindo pelo castelo, ela encontrou um grande jardim. No topo das escadas que iam dar no mesmo, Onix abaixou a cabeça.

Onix: Parece que ele também não está aqui.

Foi quando — Onix ergueu o olhar, empunhando sua Chave-Espada num rápido reflexo.

Essa presença — é uma

presença especial.

O dono de tal presença encontrava-se ao centro do jardim — era o impostor da Organização.

Seu capuz está tão erguido que

não consigo ver sua face. Encontrá-lo

foi tão repentino — o que eu faço?

O sujeito encarava Onix, com sua Chave-Espada em mãos, diretamente em seus olhos. No mesmo instante, uma espada de forma bastante macabra surgiu em suas mãos.

Então eu vou mesmo

ter que lutar?

Onix, com a Chave-Espada em mãos, se lançou contra seu oponente. Suas armas se chocaram.

Que sensação estranha...

Onix não conseguiu conter o impacto.

Quem é você? Eu

te conheço?

A hesitação tomava conta dos movimentos de Onix.

Não, mesmo sem essa hesitação, eu não

tenho certeza se poderia derrota-lo. Toda vez

que a espada do meu oponente se choca com a

Chave-Espada, as ondas de vibração fazem

com que eu sinta as minhas mãos fracas.

E então — sua Chave-Espada foi jogada longe, e o corpo de Onix foi lançado ao chão.

Eu me feri no peito — e tá doendo.

Não estou conseguindo respirar.

Caída com as costas voltadas para cima, Onix não conseguia se mover. Seu oponente abaixou o capuz e a encarou. Sentindo a mão dele tocar seu corpo, Onix se sentou, num mero reflexo. E então, ela viu o rosto do impostor da Organização pela primeira vez — um homem de cabelos prateados, com os olhos cobertos por uma venda negra.

Eu não sei por que, mas ele está se

afastando, como se estivesse com medo.

?: Seu rosto... quem é você, afinal? E por que você tem uma Chave-Espada?

O que ele quer dizer com isso?

Ao invés de responder, Onix lhe lançou outra pergunta.

Onix: Primeiro me diga... por que está vestido como um de nós?

O sujeito virou as costas para Onix, começando a andar.

?: Para garantir que o meu melhor amigo... durma em paz.

Para que o melhor amigo dele... possa

dormir? O que isso significa —?

?: Eu não sei quem você é. Mas... não se dá pra combater fogo com faíscas. Essa Chave-Espada... é uma fraude — inútil.

O sujeito pegou a Chave-Espada atirada no chão, jogando-a na direção de Onix. Ela abaixou o olhar por um momento, e então o encarou.

Onix: Minha Chave-Espada não é uma fraude! O que te dá o direito de dizer isso?

Essa Chave-Espada é algo importante, algo que

eu e o Lexci demos duro para recuperar.

Ela não é uma fraude, nem nada perto disso.

Onix empunhou sua Chave-Espada novamente, e logo se ergueu, lançando-se contra o sujeito. Mas — sem nem ao menos voltar a invocar sua arma, o sujeito esquivou do golpe de Onix, e a atingiu pelas costas. Onix caiu ao chão novamente.

?: Encontre uma nova galera. Confia em mim. Esses caras são da pesada.

Ele virou as costas para Onix, pronto para deixar o local.

Onix: Por quê?!

Onix gritou, sentando-se.

Onix: Você é quem é uma fraude!

Ele finge ser um membro da Organização,

e ainda diz que a minha Chave-Espada

é uma fraude — ele está mentindo, só pode.

O sujeito parou.

?: Tem razão. Pode-se dizer que... eu é quem de fato não deveria existir.

A figura do sujeito desapareceu dentre a escuridão. Deixada para trás, Onix bateu com seu punho contra o chão. E então, ela gritou — um grito que transcendia qualquer voz.

{ . . . }

Observando vagamente o pôr-do-sol, Lexci tomava um picolé, como sempre.

A Onix ainda não veio. Parando pra

pensar, acho que eu também não a tenho visto

no salão pelas manhãs, ultimamente.

?: E aí, Lexci!

Ouvindo aquela voz que não ouvia havia tempos, Lexci rapidamente se virou.

Lexci: Alex — você voltou!

Alex: Aham, acabei de chegar em casa.

Ele se sentou ao lado de Lexci.

Lexci: Cê chegou mais cedo do que eu esperava.

Alex: É porque eu sou demais. Mas como é que cê tá? E cadê a Onix?

Lexci deu uma mordida em seu picolé.

Lexci: Ela ainda não veio. Já tá ficando tarde... ela não costuma demorar tanto.

Mas hoje... por que será que ela

tá demorando tanto? Me sinto inquieto.

Eu nunca me senti assim antes.

Alex: Uhm... ah é, isso me lembra... cês pisaram na bola alguma vez, enquanto eu tava fora?

Lexci: Nós — não!

Lexci ficou vermelho, e Alex riu.

Talvez... essa inquietação

seja só coisa da minha cabeça.

Lexci: Por que será... que ela tá atrasada?

Lexci abaixou o olhar. Onix ainda não tinha aparecido.

{ . . . }

Não estou com vontade

de tomar picolé hoje.

Onix estava sentada em sua cama, abraçando seus joelhos.

Meus ferimentos estão doendo.

Eu acabei de ver uma grande contusão

que se formou, mesmo tendo o meu

casaco para me proteger. Mas vou

acabar me metendo em encrenca se

descobrirem que estou ferida... então eu

não vou relatar nada a respeito.

Aquele cara... o cara com os cabelos

prateados. O cara vestindo o nosso

casaco. O impostor da Organização. Ele

deve ter algum poder especial. Caso

contrário, eu não teria uma sensação

tão estranha em sua presença.

Não sentiria aquela atmosfera tão...

especial. O que é ele, afinal? Mesmo

se nós nos enfrentássemos mais

uma vez, no meu estado atual talvez

eu não fosse párea para ele. Mas eu

tenho que lutar. Eu tenho que lutar.

Eu tenho que lutar. Eu tenho que lutar.

Eu tenho que derrotá-lo —

{ . . . }

No fim, a Onix não apareceu na

torre do relógio, ontem. Até

mesmo o Alex fez um esforço pra ir...

Querendo contar logo para Onix sobre o retorno de Alex, Lexci desceu pelo corredor a toda velocidade, seguindo para o salão.

Eu posso ir pra minha missão

depois de falar com a Onix.

?: Me dá mais uma chance — por favor!

A voz que repentinamente ecoou pelo corredor era a de Onix.

Que ótimo. Parece que eu

vou poder vê-la, hoje.

Asïx e Onix estavam na próxima curva. Lexci pensou em correr até eles, mas a intensa atmosfera entre os dois o fez parar.

Asïx: Não podemos desperdiçar mais chances com você. Você foi um erro, um que jamais deveríamos ter cometido.

A Onix... é um erro?

O que ele quer dizer com isso?

Asïx encarou Onix, que permanecia com a cabeça abaixada, e então deixou o local. Lexci resolveu se aproximar.

Lexci: Onix...?

Onix se voltou para Lexci. Mas — saiu correndo, como se quisesse escapar.

Lexci: — Onix...

Sozinho no corredor, Lexci suspirou.

{ . . . }

Lexci estava numa missão com Dilxan, no Castelo da Fera. A única diferença entre esta e sua última missão ali era que dessa vez eles estavam eliminando Sem-Corações, ao invés de investigarem o local. Dilxan ia derrotando com firmeza cada Sem-Coração que lhe cruzava o caminho, usando suas lanças. Junto a ele, Lexci também acabava com os Sem-Corações, mas não conseguia para de pensar sobre o que havia acontecido com Onix naquela manhã.

O que foi tudo aquilo...?

Dilxan: Hmph... nada demais. Vamos, Lexci. Nossa missão acabou.

Lexci: Certo.

Eles haviam acabado de derrotar um grande Sem-Coração, mas ele não era lá muito forte.

Eu quero RAC logo, para que eu

possa ir ao ponto de encontro.

Talvez a Onix apareça por lá, hoje.

Lexci e Dilxan estavam para RAC, juntos, quando um grande rugido ecoou ao redor deles.

?: Graaaaaaaaaah!

Instintivamente, Lexci olhou ao redor.

Lexci: O que foi isso?!

Dilxan: Nosso feroz anfitrião, imagino. Vamos dar uma olhada.

Dilxan foi de encontro ao som, e Lexci e seguiu. O quarto da fera não ficava muito longe do ponto aonde eles estavam. A área nos arredores do quarto estava ainda mais destruída do que da última vez em que estiveram por lá, com ainda mais arranhões nas paredes.

Fera: Graaaaaaaaaaaaaaahh!

O rugido estava ainda maior e mais próximo do que antes. Eles podiam ouvir a fera se lamentando.

Fera: A última pétala logo cairá... e quando isso acontecer, eu perderei — não! Eu não suportaria — eu não quero nem pensar sobre isso!

Quietamente assistindo a situação por trás da porta, eles viram a fera colocar as mãos sobre o rosto. Dilxan murmurou.

Dilxan: Fascinante. Então, sua forma de fera deve estar, de alguma maneira, ligada a esta rosa.

Lexci: Será que ela tem algo a ver com o feitiço?

Dilxan: Sim. Se ele não completar uma certa tarefa durante o tempo de vida desta rosa, ele continuará sendo uma fera.

Dilxan abriu um largo sorriso.

Lexci: É verdade, um de seus servos tinha mesmo mencionado alguma coisa sobre eles estarem ficando sem tempo.

Dilxan: A chave para a sua forma amaldiçoada... he, he... isso pode nos ser útil.

Lexci: Como assim?

Dilxan: Seria apenas uma perca do meu tempo, tentar explicar isso para você. Vem logo. Vamos retornar.

Dilxan se retirou, sem responder a pergunta de Lexci. Ficando pra trás, Lexci virou as costas para o quarto da fera.

A rosa — que é importante para

ele... é uma fraqueza. Eu ainda não

consigo entender. Será que se

eu perguntar pro Alex, ele me ajuda

a compreender tudo isso...?

{ . . . }

Sem parecer realmente se importar com a investigação, Onix simplesmente golpeava os Sem-Corações diante de si. Seus alvos, Sem-Corações em forma de inseto, eram destruídos em apenas um golpe. Entretanto, para cada um que ela destruía, outro aparecia em seu lugar, e isso já começava a lhe dar nos nervos.

Ela estava em um mundo sombrio e obscuro, com uma infinidade de túmulos enfileirados — a Cidade do Halloween. Sobre sua cabeça, havia uma grande lua. Onix ergueu o olhar.

O que é... que eu

devo fazer?

{ . . . }

Ainda não havia ninguém na torre do relógio. Sentado sozinho, Lexci tomava seu picolé.

Seria tão bom se a

Onix viesse hoje.

Pouco depois, Alex apareceu.

Alex: Cadê a Onix?

Lexci: Eu também não a vi, hoje.

Alex se sentou ao lado de Lexci.

Alex: Putz.

Os dois ficaram sentados em silêncio, tomando seus picolés lado a lado.

É verdade — eu

ia perguntar pro Alex.

Lexci: Ei, Alex...

Alex desviou o olhar para ele, seu picolé em sua boca.

Alex: Huh?

Lexci: Tem alguma coisa que você não suportaria perder?

Alex tirou o picolé da boca, abaixando os ombros.

Alex: O quê? Da onde você tirou isso?

Lexci: É que eu topei com alguém hoje que... bem, ele tinha uma coisa assim. Algo tão importante que ele não suportaria perder. Por que eu não tenho algo assim?

Surpreso, Alex retomou o fôlego.

Alex: É porque você não tem um coração.

Lexci abaixou o olhar, observando seus pés.

Lexci: Uhh, acho que é...

Até Incorpóreos deveriam ter

coisas que não suportariam perder.

Mas... eu não tenho. Não consigo

encontrar as palavras certas. Como é

que eu posso explicar isso pro Alex?

Lexci: — Mas o Edmyx não tem coração, e aposto que ele ficaria bem chateado se alguém tirasse aquela cítara dele.

Alex: Uhm, é verdade, mas... eu não acho que seja exatamente a mesma coisa. Eu acho que o mais próximo disso que os Incorpóreos têm... são os nossos passados. Sabe, memórias das coisas que nós não suportaríamos perder, na época em que não suportaríamos perdê-las.

Lexci: Oh... é uma pena que eu não possa me lembrar do meu passado.

Lexci continuava de cabeça abaixada, o que pareceu deixar Alex pensativo.

Alex: Bem, e quanto ao seu presente?

Suas palavras foram um tanto surpreendentes, e Lexci logo voltou seu olhar para Alex.

Lexci: Huh?

Alex: Você tem memórias da sua época aqui na Organização, né?

Lexci: É... eu tenho, né?

Memórias... posso não

ter memórias do meu tempo

como humano, mas eu fiz

muitas memórias desde que

entrei pra Organização.

Lexci: Eu não suportaria perder as minhas memórias sobre você e a Onix.

Eu não quero esquecê-los. Afinal, é

isso o que significa perder suas

memórias. Se for verdade, para onde

será que foram todas as memórias

que pertenciam ao meu eu humano?

Alex: Viu só? Aí está. Todos tem algo com o que se apegam.

Lexci baixou o olhar novamente.

Isso... é tão... assustador...

E então — Lexci murmurou.

Lexci: Dá medo... pensar que eu possa perder vocês.

Alex: Medo? Medo é um sentimento.

Lexci: É, eu sei que não posso sentir, mas é que... ainda assim, esse pensamento me assusta.

Lexci tremia, como se estivesse com frio.

Sinto medo só de pensar nisso.

Medo...? O que é medo?

Alex: Então — é só um pensamento. Mas não um sentimento.

Lexci: Tem certeza?

Se o Alex e a Onix fossem

eliminados... isso me dá ainda

mais medo do que se a minha

própria existência se fosse.

Eu não quero pensar a respeito.

Alex: Talvez você só esteja se lembrando de como é sentir medo, e daí você acha que está sentindo isso nesse momento.

Alex observava o horizonte.

A Onix não veio hoje, de novo.

Lexci ergueu o olhar, observando o pôr-do-sol.

Se... se todas as minhas

memórias desaparecessem,

o que será que eu faria...?