************************Cap 10 Quando o espírito cala o corpo fala.************************
Terça-feira, Santuário de Atena.
Casa de Gêmeos.
Dois dias haviam se passado desde a festa de Halloween.
Por causa da indisposição de Geisty no pós-festa, Saga impôs à amazona um repouso forçado, a cercando de cuidados e carinhos, mas Serpente era uma pessoa agitada, e se manter em repouso, além de ser uma situação atípica, lhe era tarefa extremamente penosa.
Mesmo com o descanso forçado, o corpo de Geisty parecia não querer colaborar para que ela retomasse os treinos físicos. Sentia-se fraca, indisposta, enjoada... Em contrapartida, a mente da morena se agitava a cada dia, e foi essa agitação interna foi que levou Geisty a dar um basta no repouso imposto pelo namorado.
Disposta a levar o dia mais dentro da normalidade possível, a amazona desceu as escadarias das Doze Casas logo após almoçar com Saga e foi direto para o Templo de Baco.
Muito precisava ser organizado para a noite de expediente. Tinha como cliente agendado há semanas um diplomata dinamarquês, e não podia se dar ao luxo de não atendê-lo.
Como ela mesma dizia: O tempo urge e a dívida cresce!
E assim, sem se deixar abater pelo cansaço e a constante sensação de azia, a italiana passou a tarde em seu quarto no bordel, e logo que a noite caiu se preparou para o expediente que começaria em breve.
Estava deslumbrante como sempre, com maquiagem e penteados impecáveis, e um rico vestido branco que realçava toda a beleza de sua pele morena trabalhada no bronzeado.
Sem sombra de dúvidas que todo o encanto mediterrâneo da jovem instigaria ao diplomata de terras tão frias.
E esse passou a ser o seu objetivo nos últimos anos. Instigar ao máximo o desejo de qualquer um que pusesse os pés naquele bordel e mostrar o porquê de ser ela a joia da casa!
Como de costume a amazona aguardava em seu quarto para que Saga viesse lhe buscar e juntos descerem até o salão, onde desfilavam sua beleza, cumprimentavam os clientes e negociavam valores nos atendimentos.
Mas, enquanto isso não acontecia, Geisty se encontrava sentada em uma poltrona carmim com um caderninho em mãos no qual repassava frases básicas em dinamarquês que ela mesma havia pesquisado, uma vez que sempre tentava agradar seus clientes dando um quê a mais no atendimento, mesmo que fosse apenas uma saudação na língua natal de seu acompanhante.
Sua concentração foi interrompida por duas batidas discretas na porta. De pronto ela se levantou e correu para abri-la.
— Boa noite, cavaleiro! Entre. — disse a morena apoiada à porta com um sorriso tão convidativo que foi retribuído de imediato por Saga.
— Boa noite... — disse o geminiano enquanto adentrava o cômodo aguardando a porta ser fechada atrás de si para puxar a namorada para um abraço — Minha amazona! — a saudou com um beijo efusivo — Está deslumbrante hoje nesse vestido branco. Não vejo a hora de poder...
Gêmeos teve de súbito a fala interrompida quando Geisty lhe espalmou a mão no peito o empurrando de forma brusca, apartando o abraço. Em seguida, a moça levou a mão à boca contorcendo o lindo rosto numa careta.
— Geisty, o que houve? — perguntou em espanto o geminiano.
Porém, a resposta veio em forma de um repentino e irrefreável jato de vômito, o qual ela não conseguiu conter, e que lhe escapou pelos dedos e escorreu pelo queixo e roupa até atingir o chão.
Saga assistia a tudo perplexo, vendo a amazona sofrer com as contrações abdominais violentas que causavam o vômito. Mesmo com o corpo se curvando para frente de forma involuntária, a jovem tentava galgar a suíte do quarto, mas ao alcançar a porta perdeu o equilíbrio e se escorou na madeira até cair de joelhos no piso frio.
Saga deixou de lado a perplexidade que o atingira e correu para ajudar a namorada, mas qual não foi sua surpresa ao tocar os ombros dela e ganhar um belo tapa nas mãos!
— Não! Não Saga. Sai! Não chega perto de mim! — Geisty grunhiu, assustada e enjoada.
— Mas... o que deu em você? — perguntou o geminiano, tão assustado quanto ela — Achei que já tivesse melhorado! Estava tão bem hoje após o almoço... Geisty!
— Pela deusa, homem, sai de perto com esse... esse seu cheiro!
Saga arqueou as sobrancelhas.
— O... que? O que tem o meu cheiro?
— Me embrulhou o estômago!
Confuso e até um tanto quanto ofendido com o que a amada dizia, o geminiano rebateu.
— Mas que cheiro, Geisty? Não há nada de diferente, estou usando o mesmo perfume que sempre usei. Por que merda agora você vai reclamar? Está pondo a culpa do seu mal estar no meu perfume?
— Não... Não é o perfume. — disse a amazona com a voz espremida enquanto tentava se levantar.
— É o que então? — inquiriu o grego se aproximando devagar para ampará-la pelo braço.
— É o whisky.
— O... whisky?
— Sim, sim, o maldito whisky! — ralhou ela chacoalhando a cabeça.
— Mas... eu só tomei uma dose antes de...
Gêmeos novamente não pode concluir o que dizia, pois ao que a jovem sentiu o odor alcoólico oriundo do hálito do cavaleiro uma nova ânsia de vômito a fez contrair o rosto e curvar o tronco para baixo, fazendo Saga agilizar o socorro.
— Calma! Levante a cabeça e respire fundo. — disse ele aguardando que a namorada executasse a ordem — Eu vou te levar para o chuveiro. Vamos os dois tomar um banho.
— Saga, eu preciso descer. Tenho um cliente importante agendado para hoje.
— Ora, o problema é dele. Você não está em condições de trabalhar essa noite. Vamos tomar um banho e em seguida você vai descansar no meu quarto. Depois mando um dos funcionários vir limpar o seu. Quando o miserável do diplomata chegar, mando Afrodite remanejar outra bacante para atendê-lo e convencê-lo a aceitar a troca.
Geisty ouvia a tudo sem se pronunciar, apenas colaborando com Saga que lhe tirava o vestido sujo para ajudá-la a entrar no box. Gêmeos se despiu em seguida e juntou-se a ela, evitando respirar ou falar próximo ao seu rosto.
— Você se esforçou hoje? Se alimentou agora a tarde? — o grego perguntou preocupado.
— Não, não me esforcei. Nem fui treinar... Senti um mal estar no estômago e tudo que consegui comer foi uma maçã e tomar um copo de suco. — Geisty disse ainda sentindo fortes náuseas — Atena! Será que ainda é efeito da ressaca?
— Quem sabe?... Mas, se não se alimentar direito fica difícil melhorar... Geisty, você precisa colaborar para se recuperar, ficar sem comer não ajuda.
— Mas eu não consegui comer...
— Sem arrumar justificativas, amore mio! Comesse uma salada ou qualquer outra coisa leve que fosse mais nutritiva que uma maçã. Você pegou uma ressaca das brabas!
Um silêncio se fez entre eles tendo apenas o som da água como música ambiente. Então, já limpos e refeitos, Saga desligou o chuveiro e puxou duas toalhas.
— Venha, vamos nos enxugar, e depois direto para meu quarto. E desfaça esse bico, sua má humorada. — disse o grego em uma tentativa de descontração, enquanto sacudia carinhosamente o queixo da namorada lhe arrancando um sorriso — Ah, assim é bem melhor!
Saíram os dois do quarto vestidos em roupões em direção aos aposentos de Saga.
Pouco tempo depois, já vestido em outro terno extremamente alinhado, Saga acionou Tito, um de seus servos mais fiéis, para que o acompanhasse até o quarto de Geisty, onde lhe passou instruções para que limpasse toda aquela bagunça sem fazer alardes.
Tito olhou para o vômito no chão e para as vestes sujas no banheiro da amazona num misto de repulsa e curiosidade, mais curiosidade que repulsa, e logo se prestou a cumprir a ordem como deveria, já que Saga não lhe dera brechas para questionamentos.
Após passar a árdua tarefa a Afrodite de convencer o diplomata dinamarquês que a sua tão esperada reserva com a joia ficaria para uma próxima vez, Saga regressou ao quarto para ficar com a amazona.
Também teria que manter a calma e a serenidade sem a colaboração do whisky, pelo menos até Geisty se recuperar do mal gástrico.
Só torcia para que este fosse breve, pois a vida já lhe era penosa demais para ter de suportá-la passando por uma dieta alimentar com restrição etílica!
Quarta-feira, Casa de Virgem.
Como de hábito Shaka acordava cinco minutos antes de o despertador tocar às seis e trinta.
Remexeu-se entre os lençóis corais como conseguiu, já que as pernas de Mu entrelaçadas as suas e o forte braço do lemuriano sobre seu peito lhe limitavam os movimentos.
Espreguiçou-se languidamente, e virando o rosto para o ariano encostou seu nariz ao dele e chamou baixinho, com voz sussurrada e serena.
— Mu... Mu...
Áries costumava se assustar com o som estridente do relógio, então Shaka adquiriu o hábito de acordar minutos antes para tornar o despertar do amado menos traumático.
Quando o tilintar do alarme soou invadindo o quarto, Mu já se espreguiçava sonolento entre os lençóis e as pernas de Shaka enlaçadas as suas, só quando se deu por falta do peso delas e do calor do corpo do indiano junto ao seu foi que abriu os olhos e despertou com o mesmo pesar de todos os dias.
— Hum... bom dia luz da minha vida. — resfolegou com voz rouca e manhosa.
— Bom dia! — Shaka respondeu inclinando-se sobre ele para lhe depositar um beijo suave sobre os lábios, depois sem demora arrastou-se para fora da cama e apanhou a calça de pijama e a cueca que estavam caídas no chão ao lado do leito, apressando-se a vesti-las.
Mu, ainda lutando contra o desejo de permanecer dormindo, observava curioso o virginiano se vestir, já que quando faziam sexo na madrugada costumavam tomar uma ducha juntos antes de iniciar o dia.
— Por que está se vestindo? — perguntou o ariano enquanto se sentava sobre o colchão — Não vai para a ducha comigo?
— Hoje não. Vá você primeiro, depois eu vou. — Shaka respondeu sem nenhum entusiasmo.
Mu inspirou profundamente enquanto observava o indiano prender os longos cabelos num coque alto. Estranhou deveras aquela atitude, especialmente porque, apesar da aparente tranquilidade de Virgem, podia sentir uma inquietação crescente em sua aura. No entanto, preferiu não contestá-lo, tampouco perguntar a Shaka o que lhe afligia, já que temia saber qual era a resposta.
Sendo assim, Áries levantou-se preguiçosamente e caminhou até o virginiano lhe dando um beijo carinhoso no rosto.
— Está bem, eu não demoro. — disse Mu já se afastando e indo para o banheiro.
Durante o banho o lemuriano só pensava que aquela inquietude na aura corporal do amado só podia ter uma fonte, o assunto que se tornara um tabu entre eles: Filhos!
Apesar de estar "tudo bem", a verdade era que aquele problema ainda incomodava a ambos.
Tentando mandar a frustração para longe, Mu respirou fundo e terminou o banho, depois se enrolou na toalha e foi se trocar.
Enquanto isso, na cozinha Shaka preparava o café da manhã, calado.
Não abriu a vidraça que dava para o jardim, nem saudou o dia inspirando o ar puro do alto do monte como sempre fazia. Em vez disso cortou as frutas, coou o café e preparou as torradas de forma mecânica.
Caminhou até a dispensa para apanhar um novo vidro de geleia de mirtilos que Mu tanto gostava, e quando entrou no espaço minuciosamente organizado viu o chinelinho de Hyoga que havia deixado sobre o balcão há dois dias.
Virgem não saberia dizer nem para si mesmo o que o impeliu a ir até lá e apanhar o pequeno par de sapatinhos nas mãos, tampouco saberia explicar por que ainda não os devolvera para o dono.
Nesse exato momento Mu entrou na cozinha, e vendo o marido na dispensa foi até ele.
O Santo de Áries novamente flagrou o virginiano naquele momento contemplativo, uma vez que Shaka olhava fixamente para os pequenos chinelinhos.
No interior do lemuriano a chama da esperança se acendeu de imediato. Aquilo podia ser um sinal.
Talvez ter passado um tempo com Hyoga tivesse causado alguma mudança em Shaka, e a prova estava ali, naqueles chinelinhos nas mãos do amado que ele não devolvera.
Com um sorriso esperançoso nos lábios, Mu surpreendeu o marido encostando-se no batente da porta da dispensa e chamando sua atenção.
— São os chinelinhos do filho do Camus, luz da minha vida? — disse com entusiasmo notável.
Ao ser surpreendido daquela forma, não apenas pela chegada repentina de Mu ali, mas também ao se perceber perdido em pensamentos dos quais não tinha o menor controle, Shaka rapidamente devolveu os sapatinhos ao balcão e foi apanhar a geleia na prateleira.
— Ah... sim. São sim... Eu os deixei aqui para devolvê-los e acabei me esquecendo. — disse o virginiano voltando-se para Mu já com a geleia em mãos.
— O menino é mesmo uma graça. — Mu disse feliz, enlaçando a cintura do virginiano com um dos braços enquanto apanhava a geleia de suas mãos — Até você ficou balançado por ele pelo jeito. Confessa! Está mudando de ideia quanto a termos um filhotinho também?
A esperança e a alegria eram visíveis nos olhos do ariano, que sorria descontraído para o marido, mas esta caiu por terra quando Shaka, de olhos bem abertos, o encarou vigorosamente e respondeu categórico.
— Não. Eu já disse que não quero ter filhos, Mu, e não vou mudar de ideia.
Desvencilhando-se do abraço delicadamente, Shaka retornou à cozinha, incomodado e aborrecido, pois aquele assunto, por mais que tentassem evitar, agora parecia surgir a todo momento entre eles.
Apanhou as torradas, colocou na mesa junto dos outros alimentos e voltou-se para Mu, que chegava ali agora com um semblante bem menos entusiasmado.
— Eu vou tomar uma ducha, talvez demore um pouco, por isso não precisa me esperar para tomar o seu café. Não quero que se atrase. — disse Virgem.
Com um selinho nos lábios do lemuriano, Shaka deixou a cozinha e voltou ao quarto.
Frustrado, Mu levou as mãos à cabeça passando os dedos entre os fios, arranhando levemente o couro cabeludo enquanto soltava uma bufada de ar.
— Pelos deuses, eu e minha boca grande! — murmurou para si mesmo, desanimado, enquanto olhava para as torradas sem nenhuma fome.
Áries se sentou à mesa chateado. Não queria ter pressionado o marido, mas a esperança de Shaka ter mudado de ideia fora tamanha que não conseguiu se controlar, porém agora se arrependia pelo desconforto que causara.
Beliscou um ou dois pedaços de fruta, comeu uma torrada e aborrecido decidiu ir logo para o trabalho no Templo de Baco. Sem Shaka à mesa para lhe fazer companhia o café da manhã não tinha o mesmo sabor.
Mu já deixava o Sexto Templo quando deu por falta do seu lenço vermelho. Esse por sinal lhe era muito estimado, pois fora presente de seu mestre, e em dias como aquele, que já haviam começado não muito bem, tê-lo junto de si lhe trazia aconchego.
Por isso, Áries voltou apressado para buscar a peça, a qual guardava no closet em seu quarto, mas quando entrou no aposento e caminhou até o local surpreendeu Shaka lá dentro que, ainda nu, pois havia acabado de sair do banho, escolhia uma roupa para vestir.
— Luz da minha vida, viu meu len...
O cavaleiro de Áries emudeceu no instante em que seus olhos flagraram uma grande marca muito vermelha e saliente na parte superior da coxa esquerda de Virgem.
Parecia uma queimadura recente, o que deixou o ariano além de surpreso, intrigado.
Ao ser surpreendido, visivelmente nervoso Shaka virou-se de costas para Mu e apressado puxou uma das túnicas de dentro de um dos armários para vesti-la tão rápido quanto um relâmpago que corta o céu em dia de tempestade, porém os olhos do Santo de Áries foram mais ligeiros, e além da cicatriz na coxa Mu também notou marcas de arranhões nos ombros do indiano.
— Shaka! O que é isso? — o lemuriano perguntou em tom sério e preocupado.
— Por Buda, Mu! Já falei para você parar de chegar assim de mansinho. Custa bater na porta? Quase me mata de susto! — Shaka evitava olhar para o rosto do lemuriano enquanto vestia a cueca — Outro dia te dei uma pancada no queixo porque chegou todo sorrateiro...
— Shaka, eu te perguntei que machucado é esse, não desconversa! — insistiu Mu.
— Que machucado? — murmurou o indiano enquanto abria a sapateira para apanhar um par de sandálias gregas.
— Esse na sua coxa. — disse Mu indo até ele — Me deixa ver. É uma queimadura? — segurou na barra da túnica de Virgem para levantar o tecido e examinar a ferida, mas na mesma hora Shaka agarrou em seu pulso e o fez largar.
— Não! — pediu o virginiano com as mãos trêmulas e um olhar dardejante para Mu — Não é nada.
— Mas Shaka...
— Já te disse que não é nada, Mu. — o loiro continuava segurando no punho do lemuriano com firmeza.
— Como não é nada? Os arranhões no seu ombro também não são nada? — Mu estreitou os olhos, desconfiado e preocupado — Eu não vou sair desse quarto sem antes saber o que houve com você. Ontem à noite isso não estava ai e agora...
— Me queimei na cozinha... — Shaka o interrompeu — Foi um... acidente. E... alguns tecidos estão me dando alergia, é só isso. Sabe bem que para mim isso não é nada.
— Se queimou na cozinha? Então me deixe ao menos passar uma pomada e...
— Eu já disse que não, Mu. Não insista, por favor. — Shaka soltou o punho do ariano e sem que Mu esperasse o puxou para um abraço tão aflito quanto urgente, apertando o corpo dele contra o seu com muita força — Não se preocupe, foi só um acidente. Você vai se atrasar.
Shaka então afastou-se minimamente apenas para segurar o rosto do ariano com ambas as mãos e lhe beijar suavemente os lábios. Não teve coragem de encarar os olhos verdes do amado, baixando o rosto e seguindo na frente para deixar o quarto.
— Vou meditar. Te espero no mesmo horário para almoçarmos juntos. Farei o risoto que você gosta. — disse antes de cruzar a porta.
Assim que Shaka saiu, Áries fechou os olhos praguejando contra si mesmo.
O lemuriano sabia exatamente o que estava acontecendo.
Quando eram crianças Mu havia notado que Shaka vez ou outra aparecia com ferimentos, como arranhões, hematomas e marcas inexplicáveis, sempre nas coxas e nos ombros, e com a convivência percebeu que eles apareciam sempre que o virginiano passava por momentos de muito estresse, dúvida, frustração ou nervosismo. Logicamente havia questionado, e como esperado Shaka sempre inventava uma desculpa... Como fizera esta manhã.
Completamente abatido e entristecido, Mu abriu os olhos, procurou o lenço vermelho e o encontrando o jogou sobre os ombros, deixando o quarto para finalmente seguir para o Templo de Baco.
Antes esgueirou-se pelo corredor e espiou dentro da sala de meditação, correndo os olhos verdes taciturnos pela figura imponente do marido sobre a lótus dourada.
Ver Shaka ali, em transe, porém ainda com um peso anormal em sua aura tinha acabado com o dia de Mu, que a passos lentos e desanimados seguiu para o trabalho cheio de culpa e remorso, prometendo a si mesmo que não cobraria mais o virginiano, já que não suportava saber que o seu desejo de ter filhos era o motivo do sofrimento de Shaka.
Mu estava decidido a enterrar de vez o sonho de ser pai no fundo de seu coração, mesmo que isso lhe custasse caro.
Não tocaria mais no assunto, nem teria mais esperanças, tudo para não ver a luz da sua vida angustiado daquela maneira.
Quinta-feira, Templo de Baco, 10:20pm
No Templo de Baco mais uma noite agitada corria em toda sua normalidade.
No salão, Saga já havia circulado por todo o ambiente e cumprimentado a maioria dos presentes, sempre com Geisty a seu lado.
Excepcionalmente naquela noite, a amazona não tinha nenhum programa agendado, pois mesmo já sentindo-se recuperada do mal estar que a abatera dois dias antes, Gêmeos quis poupá-la permitindo que voltasse a atender usando suas ilusões somente quando se sentisse plenamente bem.
A morena protestou de início, já que queria livrar-se da dívida com a máfia russa o quanto antes, mas por fim reconheceu que o Grande Mestre tinha razão. Depois, clientes ricos e influentes nunca faltavam para a joia do Templo das Bacantes.
Após algumas voltas no salão, pararam em uma mesa ocupada por um grupo de curdos. Saga se manteve entretido em uma conversa sobre rotas marítimas para o transporte de mercadorias pirateadas vindas da China com destino à Europa, enquanto Geisty, além de achar o assunto tedioso, começava a se irritar com o cheiro forte da fumaça dos charutos falsificados que os curdos fumavam, e o qual, misturado ao aroma etílico das diversas bebidas sobre a mesa começava a lhe causar náuseas.
Sentindo a cabeça um pouco zonza pediu licença discretamente, ao cavaleiro e aos clientes, e deixou o salão indo até a saída principal pensando em inalar um pouco de ar puro.
Ao se aproximar da porta já avistou Máscara da Morte e Shura, que como de praxe faziam a segurança.
Quando ficou a poucos passos deles percebeu que o canceriano protagonizava um monólogo bem à sua moda, pleno de gestos, caras, bocas e muita carga dramática!
Geisty decidiu engrossar a plateia de um homem só aproximando-se silenciosamente e tomando da boca de Máscara da Morte um cigarro apagado, amassado, babado que estava preso com saliva no lábio inferior do italiano.
— Ma che? Devolve mio cigarro! — o canceriano ralhou de imediato.
— Bonanotte! — disse a amazona, lívida e sorridente, enquanto se colocava ao lado de Shura se sentando no banquinho que antes era ocupado pelo canceriano — Ma não acendeu até agora, pode esperar mais um pouco. Já te devolvo... Não quero correr o risco de ficar sentindo cheiro de fumaça de cigarro hoje... Anda, continue. Você emboscou o miserável e ai?
— Ma você estava ouvindo? — Máscara da Morte perguntou surpreso.
— Milagre seria se alguém aqui não ouvisse, não é mesmo? Na altura que você fala até surdo escuta. — resmungou Shura sem muita paciência.
— Eu estava acompanhando lá da recepção. — disse Geisty — Ai resolvi ouvir o resto aqui e aproveitar para tomar um ar.
— Ma vá cagare os dois. — bronqueou o canceriano — Vão ficar falando de mim e me atrapalhando ou vão calar a boca e ouvir?
— Diós mio, Máscara, termina logo então essa história. — disse Shura — E deixa esse cigarro babado pra lá... Você já está com essa merda pendurada na boca faz quinze minutos e não acende de tanto que você gesticula essas mãos nervosas e habla, habla, habla!
— E não será agora que vai acender... — disse Geisty.
— Caspita, ma come che io vou a contar a história sem gesticular?
— Conta logo! — a ordem veio em coro.
— Va bene... — tomou fôlego e balançou as mãos no ar para retomar a narrativa teatral — Então io cheguei perto do carcamano e disse...
— Fala galera! Cheguei em hora boa, heim! — interrompeu um todo empolgado Milo, que já direcionava seus olhos felinos à amazona à sua frente — Geistynha! Mas que surpresa mais gostosa te ver aqui logo na entrada gatinha. Estava me esperando?
Geisty empalideceu na hora, sentindo todo seu corpo tremer.
— Ah... boa noite, Milo. — respondeu ela tímida.
— Ah, ma porco cane! — reclamou Máscara da Morte aos berros — Sempre tem um figlio dun cane para me interromper!
Shura suspirou desanimado.
— Puta mierda... Cállate Milo! Ou o século acaba antes da maldita história.
— Quer saber? Io non conto mais. — disse o Santo de Câncer franzindo a testa, depois foi até Geisty, a pegou delicadamente pelo braço e a fez se levantar do banco — E você me devolve mio banquinho e mio cigarro. — em um movimento rápido tomou o cigarro da mão da amazona.
— A lá... começou o drama! — Shura balançou a cabeça desanimado.
— Ma já até esqueci o que estava falando. Vão interromper na casa do cazzo.
— Eu heim! — disse Geisty, mas logo Milo lhe chamou a atenção novamente.
— Geistynha, vamos lá pra dentro, gatinha? — o escorpiano pegou na mão da morena para completo embaraço dela, que sem saber como agir deixou-se ser conduzida de volta para o salão.
Shura os acompanhou com os olhos, atento e curioso, e assim que os dois se afastaram o capricorniano cochichou com o canceriano.
— Fique atento, Máscara. Me parece que hoje a noite promete!
— O que é dessa vez, porca Madonna?
— Milo e Gesty... Ya sabes. Saga sempre perde a cabeça quando o Escorpião aparece por aqui e fica na cola dela.
— Ma io só queria uma noite de sossego nesta mia vita!
No salão, enquanto a música alta animava o ambiente, Milo muito sorridente desfilava de braços dados com uma Geisty praticamente catatônica.
Mais ao fundo, Afrodite negociava para Fúlvia um programa de última hora com um desembargador inglês que apareceu ali sem fazer reservas, quando teve sua atenção capturada pela cabeleira loira do escorpiano que se destacava no meio salão.
Por alguns segundos o senhor inglês de cabeça calva que conversava com o pisciano ficou falando sozinho, já que Afrodite acompanhava o trajeto do casal com o olhar atento e o espírito alarmado.
Como já tinha todos seus horários comprados por Camus, ou melhor, pelo Batman, Afrodite ansiava por resolver tudo o mais rápido possível para poder voltar a Aquário e ficar com Hyoga e Camus, mas parecia que ia se demorar mais do que gostaria ali.
— Minha nossa senhora da presença incômoda! — sussurrou para si mesmo — Não acredito que o Milo veio justo hoje que a Súcubo de franjinha não tem cliente marcado... Magia negra da forte*!
Peixes foi tirado de seus pensamentos quando a mão fria do senhor inglês apertou a sua.
— Ah, o que foi Irene*? — levantou a vista e olhou para o homem.
— No. Eu no me chamar Irene, eu me chamar John. — disse o desembargador — A moça, Afrodite. O valor? O tempo?
— Ah! Sim! Claro! — disse Peixes piscando os olhos algumas vezes para retomar o foco — O valor é o mesmo de um programa agendado. Se dobrar o tempo dobra o valor. O estacionamento não está incluso, e o pagamento é em acue* e adiantado.
— Credit Card? — perguntou o senhor, confuso.
— Acué, santa, dinheiro!
— Deal. Eu quero duas horas. — confirmou o senhor, depois tirou a carteira do bolso e entregou um maço de dólares na mão do pisciano.
— Foi um prazer negociar com o senhor. — Peixes disse dando uma risadinha e já se levantando para ir chamar Fúlvia, que aguardava ao lado — Sobe logo, gata. Vai lá jogar uma partida de sueca com o matusalém.
Fúlvia riu divertida e foi acompanhar o cliente até seu quarto, enquanto Afrodite guardou o dinheiro no bolso e voltou toda sua atenção para Milo que cruzava o salão com Geisty.
Quando viu Escorpião ali, Aldebaran lhe sorriu animado, mas ao ver que o amigo carregava consigo a amazona de Serpente o sorriso foi se tornando amarelo na face morena do brasileiro.
— Ê rapaz! Hoje o patrão vai tomar três garrafas de Absinto pelo gargalo! Já vou até me adiantar aqui porque não quero perder o barraco. — murmurou para si mesmo.
E Aldebaran estava certo!
Milo se aproximou da mesa onde estava Saga com os curdos, e o sorriso vitorioso do escorpiano atraiu imediatamente os olhos do geminiano.
— Mas que porra é essa? — disse Gêmeos mudando repentinamente o tom de sua voz e dando um tapa seco no tampo de madeira da mesa já se levantando — Eu já não expliquei os protocolos que devem ser seguidos na minha casa de tolerância quando o assunto se refere à joia, Milo de Escorpião? Tire suas mãos dela já!
— O protocolo é falar contigo e pagar o valor acordado, não é? — disse o escorpiano em tom de deboche — Ou para andar com ela no salão tem que pagar também?
— Escorpião, eu cobro pelo que eu quiser! Por abraçar, por tocar, por atenção, até para olhar para ela se eu quiser cobrar eu cobro, porque essa zona é minha!
— Tá certo, chefe! — Milo respondeu em tom jocoso para disfarçar a raiva que sentia lhe subir pela face — Eu vou subir então com a Geisty, e pago pelo programa e pela voltinha também.
— Não! — a resposta do cafetão veio seca, fazendo a amazona arregalar os olhos apreensiva.
— Não? E por que não? — inquiriu Milo irritado.
— Porque não, Escorpião! Porque, como já disse, o dono da zona sou eu! Eu tomo as decisões por aqui. E se eu disse não, é não. E se quer saber, ela não está muito bem. — rosnou o geminiano encarando Milo nos olhos, ao mesmo tempo em que puxava a amazona pelo braço afastando-a do escorpiano.
Geisty acompanhava a tudo aturdida e assustada, já sentindo os pés, as mãos e a ponta de seu nariz ficarem dormentes. Corria o olhar para os dois na tentativa de articular alguma palavra que acabasse com a discussão, mas sua cabeça era incapaz de raciocinar qualquer coisa que fosse útil para àquele momento.
Sem conseguir agir por conta própria a italiana correu os olhos pelo salão para buscar uma ajuda, mas a única coisa que pode notar era que tudo estava caminhando pior do que imaginava.
À sua frente os três clientes curdos assistiam ao embate entre os dois gregos sem entenderem patavina.
Por trás da mesa surgia Afrodite com seus enormes olhos aquamarines arregalados e atentos.
Pela visão periférica viu Aldebaran já se debruçando sobre o balcão, também em alerta.
A amazona sentia a cabeça latejar fortemente, enquanto sua visão começava a ficar turva.
— Agora vai ser assim, Saga? Ela estava bem até agora, foi eu chegar que ficou doente? Vai monopolizar a Geistynha usando do seu cargo de cafetão? — provocou Milo — Ah, também vai usar seu posto de Grande Mestre para me dizer que não posso subir com ela porque te devo obediência?
— Milo, o dia que eu precisar te lembrar que me deve obediência pode ter certeza que não vai ser aqui, dentro do meu bordel, mas será na puta que te pariu da outra dimensão!
— Aquenda o babado, Saga! Não vai charufar* justo hoje que a casa tá cheia de alibã* da Federal. — disse um apreensivo Afrodite, que em seguida encarou Milo nos olhos — E você, Miluxo, larga de ser desavisado* né colega. Avoa, vai!
Gêmeos e Escorpião encaram o rosto do pisciano por alguns segundos sem entenderem nada do que ele havia dito, e logo depois retomaram a discussão.
— Ah, vai me mandar pra outra dimensão? Por quê? Pro teu caminho ficar livre? Ah, vê se te enxerga, Saga, o teu repertório de desculpas pra me impedir de ficar com a Geistynha tá acabando! Assume logo então que tu tá afim dela.
— Dadá, atrofia essa língua! Milo, olha a bocuda*, seu charuf* do rabo torto! — novamente Afrodite interveio.
Aquela foi a gota d´água para Saga.
Gêmeos respirou fundo em busca de calma, mas já era tarde. O mundo estava ficando vermelho diante de si.
Foi quando sentiu as mãos geladas de Geisty segurarem as suas com as garras a lhe imprimir pressão sobre a pele.
Saga então desviou rapidamente a atenção do escorpiano para a face pálida da namorada, mas nem teve tempo de dizer ou fazer nada, visto que os olhos violetas da italiana se reviravam quando olhou para elas e seu corpo amoleceu perdendo as forças de uma só vez.
Tal como uma boneca de pano Geisty dobrou os joelhos e caiu macilenta, mas Saga conseguiu ampará-la antes de ela tocar o chão.
— Geisty! — disse o geminiano em assombro — Geisty! Fala comigo!
Ambos eram observados por vários pares de olhos surpresos. Entre eles os de Milo, que se calara no mesmo instante.
Afrodite estranhamente sorriu e estalou os dedos.
Máscara da Morte chegou ao local depois de observar a movimentação suspeita, dando um esbarrão em Saga.
— Ma ela bateu as bota?
— Claro que não, imbecil. — disse Saga irritado — Máscara da Morte, tire esse inseto impertinente do meu puteiro. Eu não quero mais olhar para cara cretina dele essa noite. — pegou a namorada desfalecida no colo e seguiu para as escadas que davam para os quartos.
Naquele momento, o que o geminiano mais precisava era se afastar daquele aglomerado de pessoas para ter o mínimo que fosse de paz para dar atenção a sua amazona.
Milo acompanhava Gêmeos se afastar levando a italiana consigo quando foi tirado de sua inércia pela mão de Máscara da Morte que o segurou firme pelo braço.
— Eu não acredito que você tá achando que vai me enxotar daqui. — disse Escorpião encarando os olhos carmins do canceriano.
— Você pode sair por tua própria conta. Ma tu ouviu o uomo. Por que sempre insiste em pegar a puta dele? Parece que faz de propósito! — disse Máscara da Morte.
— E quem disse que puta tem dono? Ou vocês estão sabendo de algo que eu não estou? — Milo estreitou os olhos desconfiado.
— Sabendo de quê, rapaz? — Aldebaran, esperto e precavido, surgia ali já enlaçando o escorpiano pelos ombros — Deixa ele comigo, Máscara. Vem, vou te servir uma boa cerveja e tu vai pra tua casa. Ninguém tá sabendo de nada que tu não saiba, mermão. Deixa de ser paranoico.
Enquanto o brasileiro conduzia Milo para o bar, Afrodite seguia até as escadas ainda sorridente e eufórico.
— Mosca varejeira franjuda safada! — disse baixinho para si mesmo, dando um risinho travesso — Fez uso da milenar técnica do desmaio! Gostei de ver! Até que esse exu de franja não é tão uzê* assim.
Afrodite bateu na porta do quarto de Geisty sabendo que Saga estava lá.
Ao sentir o perfume inconfundível de rosas, Gêmeos o autorizou a entrar.
— E ai? Ela acordou para o mundo ou ainda está na Terra do Nunca? — perguntou o sueco que havia aberto só uma fresta na porta por onde enfiou a cabeça para olhar — Precisa de alguma coisa?
Gêmeos havia coberto o corpo da namorada com o lençol e ajeitado sua cabeça sobre os travesseiros. Então levantou-se da cama e foi até a porta.
— Fiz compressas com água sobre a testa dela, molhei seu rosto e ela acordou, mas disse que estava com tonturas. — disse o geminiano com ar preocupado — Há dias ela não vem se sentido bem... Tomou um copo de suco e preferiu tentar dormir.
— Logo ela melhora, chefinho.
— Você viu o cinismo daquele amaldiçoado do Escorpião?
— Vi. Mas não deve perder a cabeça por causa dele... Logo também essa catação* entre você e a Sucub... a mosca varejeir... a Geisty, não vai mais ser segredo para ninguém, né Saga? Vamo combiná!
— Eu sei...
— Rachuda* esperta! A técnica do desmaio sempre dá certo.
— Técnica do desmaio? Afrodite, pelos deuses! Eu aqui preocupado com o estado de saúde da Geisty e você achando que ela simulou um desmaio? Por favor! — disse aborrecido o geminiano.
— Eu heim! Por favor você, né santa! Quer me enganar que essa rata desmaiou de verdade? Aloca!... Bem, se não precisa de nada eu vou dar linha que o Batman está me esperando na Batcaverna com vista para o mar.
— Vai... E trate muito bem o Batman, não dê uma de louco com ele. Seu namorado misterioso está pagando praticamente sozinho todo o soldo dos cavaleiros de Prata.
— De nada, meu bem. Fui. — Peixes acenou e fechou a porta.
Saga ficou ali, encostado à porta calado enquanto observava Geisty na cama a ressoar baixinho.
Perdido nas palavras de Afrodite Gêmeos agora se perguntava se realmente aquele desmaio tinha sido uma simulação da namorada.
Pensando ainda nos últimos dias, se questionou se todos aqueles episódios de mal estar seriam simulações da amazona. Mas com qual objetivo? Não, não era possível, sem contar que não tinha como simular as situações em que ela vomitara. Pelo menos não que ele imaginasse.
Desceu ao bar para falar com Aldebaran, e felizmente o brasileiro naquela altura já havia convencido Milo a ir embora.
— E ai patrão, vai uma? Tá mais calmo? — perguntou Touro quando o viu ali, já pousando a garrafa de Absinto no balcão com um copo ao lado — Hoje a noite tá pedindo uma né não?
— Não, obrigado Aldebaran, não quero beber. — Saga respondeu tão convicto que surpreendeu o taurino — Vim avisar que vou subir e não desço mais hoje. Afrodite também vai sair, então se precisar de algo me chame, mas só se for assunto de extrema urgência.
— Tá certo, chefe.
— Boa noite Touro.
Gêmeos deu as costas ao brasileiro sem aguardar a resposta e seguiu para o próprio quarto.
Precisava de paz para se manter são, já que a bebida já não cumpria mais esse papel.
Sábado, Casa de Virgem.
Já era quase dez da manhã quando Shaka enfim desistiu de tentar meditar e resolveu ir à feira.
Poderia ter chegado muito antes, como, aliás, sempre fazia, mas nos últimos dias suas emoções estavam tão à flor da pele que até a meditação lhe estava sendo tarefa árdua.
Somado à inquietude da alma, sua relação com Mu também não estava em sua melhor fase. Não que estivessem mal, mas era perceptível que algo mudara entre eles desde a festa de Halloween.
Áries estava cada dia mais calado, introspectivo, melancólico, longe de ser o alegre e falante companheiro que sempre fora, e Virgem parecia carregar o peso todo do mundo em seus ombros... Sim, pois Mu de Áries era o mundo de Shaka de Virgem, e o fardo das escolhas que tomaram agora estava pesado demais para Shaka suportar.
O assunto filhos definitivamente se tornara um tabu. Não falavam sobre ele, mas ao escolherem não falar passaram a vivê-lo, dia a dia, fosse no silêncio na hora das refeições, nos olhares que eram evitados ou no semblante triste de Mu a cada vez que via os arranhões e marcas inexplicáveis no corpo de Shaka...
A verdade era que Virgem sabia o que deveria fazer, mas sentia que jamais teria coragem de fazê-lo.
Na esperança de distrair a mente e agradar o lemuriano, Shaka foi até o centro de Rodório.
Era dia de feira, e queria fazer um jantar especial para Mu, depois quem sabe ver um filme e tentar retomar a leveza que sempre permeara o casamento, e a qual estava sendo perdida.
Assim, com a sacola a tiracolo, vestido em uma túnica budista simples, cabelos presos e o rosto sério e focado como de costume, Shaka correu as bancas escolhendo tudo do bom e o melhor.
Já com todos os ingredientes na sacola, e frutas e verduras suficientes para a semana toda, deixava o local animado, até ser surpreendido por uma voz feminina que chamava seu nome ao longe.
— Moço monge! Seu Shaka!
Virgem então se virou e viu Fúlvia correndo em sua direção, desviando esbaforida dos transeuntes que circulavam pelas bancas da feira.
— Buda, era só o que me faltava! — resmungou para si mesmo, depois inspirou o ar profundamente e o soltou na forma de um suspiro cansado.
— Nossa que surpresa ver o senhor por aqui! — disse a bacante que era toda sorrisos, e pegando o virginiano de surpresa ficou na ponta dos pés, apoiou ambas as mãos nos ombros dele e lhe cumprimentou como cumprimentava a todo mundo, com dois beijinhos no rosto.
Shaka quase abriu os olhos, tamanho o susto daquele gesto inesperado, mas se conteve.
Estava tão tenso e surpreso que mal respirava. O corpo rijo como se tivesse os ossos revestidos por uma grossa camada de cimento.
— Não sabia que também tinha o hábito de vir à feira. — disse a moça sem desmanchar o sorriso, recuando um passo.
— É eu tenho sim. — respondeu o virginiano meio sem jeito.
— Bom saber! Quando quiser podemos vir juntos! Eu venho sempre para comprar camomila e babosa. — abriu a sacola que trazia e mostrou o interior repleto das plantas que mencionara para o indiano — São ótimas para o cabelo. Deixa um brilho lindo e dá aquela hidratada! Já experimentou?
— Ah... não. — Virgem respondeu meio atordoado.
— Pois, experimente. Vocês tem tudo uns cabelão grandão, tem que tratar. Eu já indiquei para o Seu Mu também. Se bem que ele nem precisa, né! O safado tem um cabelo mais bem cuidado que o meu!
Shaka franziu a testa numa clara expressão de descontentamento.
— Não deveria se referir ao meu marido nesses termos. — ele a repreendeu, imprimindo vigor a voz.
— Que termos? Safado? — Fúlvia sorriu, depois tocou no braço do virginiano de modo descontraído — Ah, não, Seu Monge, não quis dizer que Seu Mu é safado nesse sentido, de putão, ou devasso. Quis dizer que ele é bonito sem fazer o menor esforço.
— Buda! — Shaka remexeu-se livrando-se do toque da moça e achou melhor dar aquele encontro por encerrado antes que tomasse uma atitude da qual se arrependeria depois — Sim, Mu é um homem muito bonito, e casado. E parece que você se esquece disso propositalmente, não é mesmo, moça? Eu já estava indo embora, então com licença...
— Espera! — novamente Fúlvia segurou no braço do virginiano.
— Mas, por todos os seis infernos de Samsara, você tem que falar tocando nas pessoas? — e novamente Shaka se remexeu para se livrar da mão da bacante.
— Ah, desculpe. Sério, Seu Monge, me desculpe. — fez uma carinha sentida — Eu fui meio destrambelhada, né?
— Foi.
— É que quando vi o senhor aqui achei que seria uma boa oportunidade de dizer que gostei muito de conhecê-lo melhor, e também dizer que eu admiro muito o Seu Mu. Confesso que no começo eu desejava mais do que admirava, mas é que tenho tara por homem gentil e bonzinho, mas agora que conheci o senhor pessoalmente acho que formam um casal tão lindo! — disse piscando os olhinhos.
— Hum...
— Bom, é que o seu Mu anda esquisito.
— O que quer dizer com esquisito?
— Ah, sei lá, ele sempre foi tão sorridente, animado, e nos últimos dias ele tem estado tão amuadinho. Não fala com ninguém, não diz o que tem... Ai eu pensei: Será que está acontecendo algo? Está todo mundo meio preocupado com ele lá no Templo.
Shaka engoliu em seco.
Ele mesmo percebia tudo isso em casa. Mu estava mais que esquisito ou amuado, o seu amado ariano estava deprimido. Pior, Shaka sabia a razão de toda aquela melancolia que abatia o Santo de Áries.
— Bem, se Mu não quer falar o que o incomoda, não serei eu que irei dizer, não acha, Fúlvia? — disse o loiro desanimado — Mas, não se preocupe. Todos nós temos fases ruins. Isso passa. Está tudo bem.
— Tem certeza? — a moça estreitou os olhos.
— Tenho. — Shaka respondeu com propriedade — Mu anda trabalhando demais. Ele só está cansado.
— Bom, menos mal. — Fúlvia deu de ombros — Mas, olha, fiquei feliz de encontrar o senhor aqui, viu Seu Monge. Nossa, dois anos para conhecer o senhor e foi preciso uma festa fora do bordel para gente ser apresentado. Aliás, a festa estava ótima. Eu adorei! E o menininho vestido de Batman? Que gracinha! É filho do Seu Camus... Eu nem sabia que cavaleiros podiam ter filhos, casar, ter família... até o Seu Mu casar com o senhor... Agora só falta vocês adotarem uma criancinha também, né? Tipo, para formar uma família de verdade. — Fúlvia correu os olhos pelo rosto de Shaka por alguns segundos — É uma injustiça da Natureza vocês dois não poderem ter bebês, porque se fosse possível, meu Deus, seria a criança mais linda desse mundo!
Shaka deixou cair a sacola com as frutas.
Jamais esperava bater de frente com o assunto proibido justamente ali na feira, justamente abordado pela bacante que dava em cima de seu amado lemuriano.
— Ah, cuidado! Vai amassar. Deixa eu te ajudar. — disse a moça toda prestativa, auxiliando o virginiano a apanhar as laranjas que haviam rolado pelo chão — Então, como eu ia dizendo, uma verdadeira injustiça da Natureza vocês não poderem ter filhos. O senhor ai, todo gato, todo bonito, e o Seu Mu aquele espetáculo de homem... Iam fazer um nenê tão lindo! Ia ser um príncipe! Ou uma princesa... Se fosse princesa podia ter o meu nome, né? Sabia que meu nome veio do Latim? É eu já estudei Latim! Fúlvia vem de Fulvius que significa...
— Louro, amarelo, dourado, eu sei disso. — extremamente incomodado, Shaka terminou de apanhar as frutas, colocou a sacola nos ombros e deu as costas à bacante, caminhando apressado pelas ruas de paralelepípedo da vila.
— I não é mesmo! Nossa, bem que falam que o senhor sabe de tudo! — a moça vinha logo atrás toda serelepe, sem se dar conta de que cutucava uma ferida do virginiano que ainda estava em carne viva — E se tivessem um filho ele seria clarinho assim como vocês. Meu nome seria perfeito!... Mas, vocês podem adotar. Ou contratar uma barriga de aluguel...
Súbito, Fúlvia se calou.
Shaka havia aberto os olhos e agora a encarava com austeridade.
A bacante olhou para aquelas íris azuis celestes tão intensas atônita, paralisada, com a mesma contemplação esplendorosa de quem olha para o Universo pela primeira vez.
— Tenha um bom dia, Fúlvia. — Shaka colocou fim ao assunto. Depois deu as costas à moça novamente, colocou as alças da sacola de compras no ombro e seguiu seu caminho.
Ainda vidrada e assombrada, a bacante deixou escapar um suspiro atarantado.
— Uau! Que olhos! — disse para si mesma, vendo o virginiano distanciar-se até desaparecer entre as ruinas — Deu até um comichão! — sorriu e tomou o rumo do Templo de Baco.
No Santuário, irritado, aborrecido e ainda mais perturbado, Shaka subiu as escadas sem ânimo algum de cozinhar o que quer que fosse.
O jantar especial tinha ido por água a baixo, e todo o dilema que tanto atormentava sua mente e espírito ganhara força e forma novamente.
Domingo, Santuário de Atena, 14:10pm
Após a discussão entre Milo e Saga no Templo das Bacantes, e do desmaio repentino de Geisty, o qual foi encarado pela amazona como um simples mal súbito causado por nervosismo e estresse, a italiana procurava retomar o ritmo de sua vida da melhor maneira possível.
O único inconveniente para ela era ter de cumprir o repouso forçado que Saga insistia em lhe impor.
Como era estressante para uma ariana agitada e cheia de energia se manter parada... Praticamente uma tarefa impossível!
Foi pensando nisso, e não vendo necessidade nos repousos, que Geisty desceu à Arena no intento de socializar com os amigos e retomar os treinamentos.
As tardes de Domingo na Arena do Santuário eram o melhor de toda a semana.
Aprendizes, mestres, cavaleiros, de todas as patentes e idades, costumavam se reunir ali em um clima mais descontraído, fosse para exibir suas técnicas ou realizar pequenos combates amistosos, os quais eram acompanhados por dúzias de pares de olhos admirados e curiosos nas arquibancadas.
E como Geisty sentiu falta desses encontros enquanto esteve exilada na Ilha Fantasma!
Talvez a interação com os moradores do Santuário de Atena tenha sido o que mais sentira falta no tempo em que esteve longe, e agora que estava de volta e bem com Saga de Gêmeos não queria perder nenhuma oportunidade de estar na companhia dos amigos.
Vestida em sua malha roxa revestida pela armadura de treino e de máscara, a amazona de Serpente deteve seus passos ao chegar à beira da pista de corrida que circundava o centro da Arena.
Respirou fundo aquele aroma quente de início de tarde misturado à areia que subia com a brisa e iniciou uma sessão de alongamentos, sem pressa alguma, para em seguida partir para o aquecimento, sem pegar muito pesado. Cinco voltas correndo no entorno da Arena já bastaria para deixar os músculos prontos para desafiar em um duelo um dos presentes ali.
Enquanto corria, acelerando gradualmente a velocidade, Geisty reparava nos cavaleiros e amazonas no centro do espaço e vez ou outra acenava para algum dos amigos.
Estavam quase todos ali. Seus companheiros do Templo das Bacantes e alguns cavaleiros de Ouro, com exceção de Camus, Afrodite, Shaka e do namorado, Saga, como ela já imaginava.
Estranhou ao ver Mu um pouco mais afastado dos outros, treinando duro enquanto esmagava rochas com potentes golpes das mãos nuas.
Geisty não tinha como saber, nem ninguém ali tinha, mas o Santo de Áries descontava nas pobres rochas milenares das ruínas toda a frustração dos problemas que enfrentava no casamento.
O clima entre o lemuriano e o indiano não tinha ar de melhoras, mesmo ambos evitando falar sobre o assunto "proibido".
Na manhã de Domingo Shaka parecia ter levantado da cama ainda mais tenso e introspectivo. Mu percebia que algo mais estava perturbando o marido, mas sempre que tentava uma aproximação para iniciar uma conversa, e quem sabe uma confissão, Shaka dava um jeito de esquivar.
Foi quando Virgem resolveu meditar após o almoço que Áries desceu para a Arena para espairecer. Costumavam passar o dia todo juntos, mas Shaka havia deixado claro que não queria sua companhia. Desde o encontro desastroso com Fúlvia em Rodório, o qual decidiu por não contar a Mu, a cabeça do virginiano estava fervendo ainda mais.
Frustrado por não saber mais o que fazer para acabar com aquele estado de nervos do indiano e lhe devolver a segurança do casamento, e deprimido com a situação num todo, Mu fazia movimentos ágeis e ferozes destruindo as rochas com chutes e socos vigorosos, nem se dando conta de Geisty, que passava por ele acenando, pois se a tivesse visto lhe daria uma bronca, afinal a Arena não era lugar para uma grávida.
Já para Geisty, toda a introspeção do ariano era puramente concentração. Deu de ombros e continuou a corrida.
Quando iniciava a última volta, porém, ao passar novamente por Mu foi notada.
Áries imediatamente parou o que fazia para olhar para a amazona incrédulo.
Não podia acreditar que aquela desmiolada estava ali, e quando pensou em ir até ela para adverti-la percebeu que a morena diminua os passos e cambaleava levemente.
Mu mal tivera tempo de preparar uma bronca, pois como em um piscar de olhos Geisty sentiu todo o ambiente mergulhar em trevas lhe causando um assombro iminente. Piscou os olhos algumas vezes, aturdida, e então sentiu o solo arenoso da Arena sumir sob seus pés.
Foi diante de todos que Geisty caiu inerte na lateral da pista.
Teria sido uma queda grave e violenta para seu estado atual, não fosse pela destreza e agilidade do lemuriano que usando a Velocidade da Luz a pegou nos braços a tempo de evitar uma tragédia!
Dicionário Afroditesco
Acue – dinheiro.
Alibã – policial.
Bocuda – pessoa que conta os segredos alheios, por maldade ou não; fofoqueira; língua solta.
Catação – paquera com intuito de sexo.
Charuf – pessoa burra.
Charufar – fazer alguma merda, arrumar briga por motivo bobo.
Desavisado – alguém que nunca sabe de nada ou que finge não saber.
Irene – homossexual idoso.
Magia negra – coisa ruim, pessoa ruim, de energia pesada.
Rachuda – mulher.
Uzê – algo muito pior que Uó - algo ou alguém muito ruim, muito feio, muito desagradável, muito desprezível, muito errado, muito equivocado.
